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Se você defende os trabalhadores, então você tem de defender os ricos
por John Tamny, quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Se você é um trabalhador, você é um importador. Nada pode ser mais básico e direto do que isso. Suas "importações" podem vir do outro lado da rua ou do outro lado do planeta. O fato é que o seu trabalho é uma expressão do seu desejo de obter bens e serviços -- ou seja, de importar.

Você trabalha em troca de dinheiro para poder consumir.

Igualmente, se você é um consumidor, você tem necessariamente de ser um trabalhador. Ou isso, ou você é um privilegiado que foi presenteado com os frutos de outro trabalhador.

O trabalho é o que possibilita nossa demanda por bens e serviços. Sem antes ofertarmos um bem ou serviço, não temos como comprar coisas. Produzimos para demandar. O trabalho é apenas uma demanda disfarçada.

Logo, a única maneira de entendermos "demanda" no mercado é entendendo a oferta que precede essa demanda. A oferta é a expressão da demanda e sem ela não há meios de se comprar nada. Nas regiões mais pobres [pense no interior do Maranhão], os trabalhadores não estão ofertando muito (ao menos, não para consumidores interessados) e, como consequência, poucos estão ofertando para eles. Nas regiões mais ricas (pense em Nova York), seus trabalhadores estão ofertando em grande abundância, e isso explica por que eles são inundados com todas as farturas produzidas ao redor do mundo.

Onde há muita produção há muita "importação" para atender as demandas dos produtivos. Sim, a Lei de Say é bem básica.

Nós ofertamos com o intuito de conseguir bens e serviços. E as pessoas nos ofertam porque ofertamos para elas.

Tudo isso nos leva à pergunta: já que precisamos ofertar antes para consumir depois, e considerando que nem todo indivíduo é um empreendedor, o que permitirá às pessoas não-empreendedoras produzir?

Empregos e salários

Em outras palavras, o que gera os empregos e os salários das pessoas não-empreendedoras?

A resposta é simples e direta, embora o fenômeno seja complexo: investimentos.

Todos os empregos são consequência de investimentos. Não há empregos sem investimentos.

Para que vagas de trabalho sejam criadas, é necessário que um indivíduo empreendedor -- munido de capital próprio ou de capital emprestado por um capitalista -- vislumbre uma oportunidade de lucro em uma determinada área (uma demanda ainda não atendida) e então direcione capital e recursos para começar a produzir naquela área.

Investimentos, portanto, são, acima de tudo, atraídos pela perspectiva de lucros.

Empresas e empreendimentos, obviamente, não existem para criar empregos. Empregos são apenas a consequência de empreendimentos. O desejo por retornos da parte do investidor e do empreendedor é o que irá indiretamente levar à contratação de mão-de-obra. É exatamente essa possibilidade de retorno (lucro) o que irá estimular aqueles que possuem meios para postergar seu consumo (capitalistas) a investir esses meios em atividades produtivas. A mão-de-obra de trabalhadores é contratada para ajudar neste retorno.

Não haveria tal contratação se não houvesse investimentos e se não houvesse perspectiva de retornos (lucros). Acima de tudo, não haveria nada disso sem o capital disponibilizado para esses investimentos.

Consequentemente, não haveria empresas, empregos, salários e progresso. Por definição.

O que nos leva aos ricos.

O papel dos ricos

Se você defende os trabalhadores, então você tem de defender ainda mais os investidores que tornam possíveis a criação de empregos e salários. E estes investidores, por definição, são aqueles que têm capital (dinheiro) poupado e disponível para ser investido.

Tais investidores, quase sempre, são aquelas pessoas rotuladas de "ricos".

Sim, os ricos são essenciais para os salários dos trabalhadores.

Em termos bem diretos e coloquiais, investimento é aquilo que é feito com o dinheiro que sobrou após as necessidades básicas da vida já terem sido compradas. Por isso, os ricos são particularmente cruciais no que diz respeitos a salários mais altos.

Os ricos, precisamente por serem ricos, são aqueles que possuem a maior reserva de capital disponível após já terem saciado seus desejos e necessidades. A menos que enfiem todo o seu dinheiro físico debaixo do colchão -- algo que ninguém mais faz no atual sistema financeiro e monetário --, os ricos irão necessariamente investi-lo: ou eles irão empreender diretamente ou irão financiar empreendimentos.

Em ambos os casos, os efeitos são os mesmos em termos de empregos e salários.

Ao investirem, os ricos possibilitam maior capacidade produtiva. Com seu capital, eles adquirem (ou permitem que o empreendedor financie) máquinas, ferramentas, edificações e meios de transporte (tudo isso bens de capital) que irão tornar o trabalho dos empregados mais eficiente e produtivo.

Há uma regra econômica é básica e direta: quanto maior a quantidade de bens de capital utilizados por um trabalhador, maior será sua produtividade.

Um operário americano chega a ganhar até cem vezes mais que um indiano não porque ele é mais trabalhador ou mesmo mais capacitado, mas sim porque o americano utiliza cem vezes mais capital físico (máquinas, ferramentas, instalações industriais, meios de transporte etc.) que seu colega indiano.

Esse capital físico é o que aumenta a produtividade, os salários e, consequentemente, o padrão de vida de uma sociedade. Isso merece ser enfatizado: a acumulação de capital, ao tornar o trabalho humano mais eficiente e produtivo, é o que permite aumentos salariais para todos.

E o que possibilita esse investimento em capital físico é o capital financeiro que foi poupado e acumulado. E nisso os mais ricos têm maior vantagem comparativa que os mais pobres. Por definição.

Eis um exemplo prático: fábricas que produzem chips de computador em volume suficiente para fazer seus preços caírem para centavos por gigabyte requerem um custo bilionário. Eu não teria como construí-las. E eu valho muito menos sem um computador, o qual tornou as coisas incomensuravelmente mais eficientes. Por isso, minha eterna gratidão àqueles que utilizaram sua poupança para financiar e construir as fábricas e fabricar os chips e os computadores que tornam meu trabalho muito mais eficiente e produtivo do que seria sem estes chips e monitores.

E os exemplos são infinitos, e valem para todas as classes sociais. Por exemplo, quanto vale um garçom sem um restaurante? Quanto vale um operário sem as instalações e as máquinas da fábrica em que trabalha? O que seria do funcionário de uma loja sem a loja, sem um computador, e sem um scanner de preços? Quanto vale um caminhoneiro sem um caminhão ou um tratorista sem um trator? Quanto vale um jogador de futebol, âncoras de jornal e artistas sem a TV?

A loja em que o vendedor trabalha, bem como o caixa e os scanners que ele usa; os escritórios e os estúdios de televisão onde o eletricista, os atores e os jornalistas trabalham; os restaurantes e as indústrias de caminhão e tratores que criam os bens que cada trabalhador usa diariamente em seu trabalho; as fábricas de televisores e de cabos que colocam jogadores, atores e âncoras de notícias na televisão -- tudo só existe em decorrência do investimento de pessoas ricas. Ou, no mínimo, certamente mais ricas do que você.

De minha parte, eu gostaria de facilitar as coisas para os ricos -- pois isso me tornaria ainda mais valioso para os consumidores dos meus serviços, aumentando meus rendimentos.

O que nos leva a outro ponto crucial: os ricos deveriam poder ficar com uma fatia muito maior de seus ganhos. Com efeito, eles deveriam ficar com 100% dos seus ganhos.

O problema em tributar os ricos

Para ser bem direto, não é possível ter salários altos e crescentes sem antes reduzir o fardo imposto sobre aqueles que são mais capazes de poupar e investir: os ricos.

Os efeitos da tributação sobre um rico empreendedor são diretos. Com uma fatia maior de seus ganhos confiscada pelo governo, ele terá menos capacidade para investir e ampliar sua capacidade produtiva. O processo de formação de capital será diretamente afetado.

Menos capacidade de investimento significa menor produção, menos contratação de mão-de-obra e, consequentemente, menor oferta de bens e serviços no futuro. Significa também menos compras de ferramentas, equipamentos e, principalmente, do treinamento contínuo necessário para aumentar a produtividade -- diminuindo assim a oferta de bens e serviços que de outra forma seriam disponibilizados a terceiros.

Quando o governo tributa a renda e os lucros, ele apenas faz com que o dinheiro que seria utilizado para ampliar e aprimorar os processos produtivos seja agora direcionado para o mero consumismo do governo, ficando sob os caprichos de seus burocratas, obstruindo a formação de capital.  

Ao contrário do que muitos imaginam, o dinheiro dos ricos não fica parado dentro de uma gaveta. Em nosso atual sistema monetário e financeiro, todo o dinheiro está inevitavelmente ou em algum depósito bancário (de onde será emprestado) ou em algum fundo de investimento (de onde será investido). Se o governo tributar esse dinheiro, fará apenas que o dinheiro que antes era direcionado para determinados setores (garantindo emprego e renda) ou investido diretamente em coisas produtivas seja direcionado para burocratas e para toda a máquina estatal. Isso é uma simples e direta destruição de capital.  

Por tudo isso, impostos sobre os mais ricos são um grande obstáculo aos investimentos produtivos, à formação de capital e ao simples bem-estar de terceiros. É deste dinheiro que vem a poupança necessária para os investimentos produtivos.

A caça aos ricos é uma caça ao seu padrão de vida

Vale ressaltar algo óbvio: toda e qualquer pessoa em posse de muito dinheiro investe. Tais pessoas, por definição, vivem muito abaixo das suas condições (afinal, elas não gastaram todo o seu dinheiro), o que significa que elas investem "as sobras".

Sendo assim, será que são realmente apenas elas que se beneficiam de seu capital? É claro que não. São as pessoas comuns que se beneficiam com os bilhões que acabam sendo investidos em fábricas de microchip, em fábricas que produzem carros, em meios de transporte, em instalações hoteleiras, em parques temáticos, em hospitais, em siderúrgicas, em companhias aéreas, em pecuaristas e no agronegócio, em fabricantes de alimentos, em empacotadoras de alimentos, em cervejarias, em todas as fábricas e indústrias, em todo o setor atacadista, varejista e provedor de serviços.

Quando empreendedores e investidores podem manter seus ganhos e reinvesti-los, todos nós ficamos mais ricos -- incluindo aqueles de nós que ganhamos a vida usando caminhões e computadores.

Por isso, qualquer redução de impostos que de fato diminua a quantidade de dinheiro que os ricos devem entregar a políticos tem de ser defendida. O fato de que os ricos não têm como gastar todo o dinheiro que ficar com eles é o que irá estimular o progresso. Os ricos são os que mais possuem a capacidade de investir vultosamente, e os trabalhadores irão se beneficiar disso.

No final, empregos, salários e bem-estar estão relacionados a um aumento da produtividade. Mas não há aumento da produtividade sem investimentos. E os ricos são aqueles que mais possuem meios para investir.

Conclusão

Baixas alíquotas de impostos sobre aqueles de rendimento elevado são desejáveis não porque eles precisam do dinheiro, mas sim porque nós precisamos -- sob a forma de capital.

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