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O governo cubano e as regras do “Mais Médicos” explicitam a natureza exploradora do socialismo
por Thiago Fonseca, quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Sejamos diretos: o programa "Mais Médicos", lançado em 2013 por Dilma Rousseff, foi, na realidade, uma genial criação da ditadura cubana.

Visto por todos como 'humanitário', o programa nada mais era do que uma fachada utilizada pelo regime socialista para aumentar suas receitas e, consequentemente, solidificar ainda mais seu poder. Em outras palavras, uma ditadura criou um esquema por meio do qual aumentava seu poder e sua riqueza ao mesmo tempo em que recebia aplausos mundiais.

Rotulada de "diplomacia dos doutores", eis como o esquema realmente funcionava:

1) O governo cubano enviava, temporariamente, profissionais médicos para o Brasil com o declarado objetivo de atender os mais pobres das áreas afastadas do país.

2) Em troca, o governo brasileiro pagava os salários destes médicos enviando o dinheiro para a Organização Pan-Americana de Saúde - OPAS (um braço da Organização Mundial da Saúde).

3) Ato contínuo, a OPAS depositava o dinheiro diretamente na conta-bancária do governo cubano.

4) O governo cubano então retinha até 75% deste valor e, só então, repassava os 25% restantes aos médicos cubanos.

5) Mas a coisa pode ser ainda pior: destes 25%, o governo cubano retém mais 60%, o que deixa o médico cubano com apenas 10% do valor originalmente depositado nas contas do governo cubano. Cuba alega que este valor adicional confiscado (60% de 25%) está guardado em uma conta bancária em Cuba. Só que, como não há qualquer controle sobre isso, é bem provável que o regime embolse também esta fatia.

6) Em números atualizados, sabe-se que, por meio deste arranjo, o governo brasileiro já repassou nada menos do que R$ 3,2 bilhões de reais diretamente à ditadura cubana.

7) A cifra é superior aos R$ 2,5 bilhões que o BNDES emprestou para obras do Porto de Mariel (R$ 2,4 bilhões), aeroporto de Havana (R$ 525 milhões) e para construção de fábricas locais (56 milhões).

8) O valor total desembolsado pelo governo brasileiro foi de R$ 6 bilhões. Segundo relatório do TCU, tal valor dava para formar 52.413 novos médicos brasileiros para serviço permanente (quase cinco vezes o número de profissionais importados de Cuba para atuação temporária). Ou então construir 14.068 Unidades Básicas de Saúde em municípios menores (quase 3 UBS para cada cidade). Ou construir 1 UBS para cada município e ainda usar o restante do dinheiro para formar cinco novos médicos para cada uma dessas unidades.

9) Ou seja, se a intenção do governo brasileiro fosse realmente melhorar a saúde, o dispêndio total direcionado ao programa Mais Médicos traria muito mais retorno (melhorias permanentes em vez de meramente paliativas) caso fosse investido aqui mesmo.

Reféns e escravos

Mão-de-obra estrangeira, que vem para trabalhar livremente, é sempre bem-vinda, independentemente de sua nacionalidade. Por outro lado, mão-de-obra estrangeira que é utilizada como fachada para sustentar regimes ditatoriais e homicidas é algo ética e moralmente intolerável. Se 75% do dinheiro utilizado para financiar essa mão-de-obra é desviado para sustentar uma ditadura homicida, então o programa nada mais é do que uma fachada para bancar a boa vida de tiranos.

Mas tudo piora.

Se essa mão-de-obra não tem nem sequer o direito de escolher como quer trabalhar, e se sua família é mantida como refém no país de origem, então o programa é escravagista e chantagista. 

"Você é treinado em Cuba e nossa educação é gratuita. A saúde é gratuita, mas a que preço? Você acaba pagando por ela pelo restante de sua vida". Essas foram as palavras da doutora Yaili Jiménez Gutierrez, uma das médicas enviadas por Cuba, um uma reportagem do jornal The New York Times (que não pode nem remotamente ser acusado de direitista ou reacionário).

Prossegue a doutora:

É quando você sai de Cuba pela primeira vez que você então descobre várias coisas que sempre foi proibido de ver. E aí chega um ponto em que você se cansa de ser um escravo.

Segundo a reportagem, os médicos cubanos, tão logo chegaram ao Brasil, começaram a notar a disparidade salarial e de tratamento não apenas em relação aos médicos brasileiros, mas também em relação aos outros médicos estrangeiros que participavam do programa. Além de os salários dos médicos brasileiros e estrangeiros no Brasil serem quatro vezes maiores que os seus, as liberdades civis e econômicas deles eram inacreditáveis para os padrões cubanos.

"Começamos a ver como as condições dos outros médicos eram totalmente diferentes", explicou a doutora Jiménez. "Eles podiam ficar com suas famílias, trazer seus filhos, morar com eles. E os salários eram muito maiores".

Não demorou muito, e vários cubanos começaram a se rebelar. Até 2017, mais de 150 médicos cubanos já haviam entrado com processos nos tribunais brasileiros exigindo igualdade de proteção e pedindo que possam permanecer no Brasil como terceirizados independentes, podendo assim manter todo o seu salário.

O The New York Times resumiu assim a situação:

As sementes da rebelião foram plantadas um ano atrás em uma conversa entre um médico cubano e um sacerdote em um remoto vilarejo no nordeste brasileiro.

Anis Deli Grana de Carvalho, uma médica de Cuba, estava terminando seu período de três anos no Brasil. Porém, tendo se casado com um brasileiro, ele queria permanecer no país e continuar trabalhando. O pastor ficou revoltado ao descobrir que, sob os termos do seu contrato, os médicos cubanos podiam ficar com apenas 25% do valor que o governo brasileiro paga ao governo cubano pelos serviços destes médicos. [...]

Ao final de setembro de 2016, ela entrou com um processo em um tribunal federal para trabalhar como autônoma independente. Algumas semanas depois, vários outros médicos cubanos fizeram o mesmo e moveram ações nos tribunais brasileiros.

No fim do ano passado, juízes expediram liminares para alguns casos, concedendo aos médicos cubanos o direito de permanecer no país como prestadores autônomos de serviços, ganhando salário integral. Um juiz federal da capital denunciou o programa como uma "forma de trabalho escravo" que não pode ser tolerada.

Pouco depois de as primeiras liminares serem concedidas, supervisores cubanos no Brasil convocaram os médicos que haviam aberto processos e os demitiram na hora, de acordo com diversos médicos. Foi-lhes oferecida a escolha de tomar um avião de volta a Cuba em 24 horas -- ou enfrentar oito anos de exílio.

Além de terem mais de três quartos do seu salário confiscados, os médicos cubanos não tinham a permissão de trazer seus familiares para o Brasil. Estes eram estrategicamente mantidos reféns em Cuba para garantir que os médicos enviados ao Brasil não iriam desertar e fugir do paraíso socialista.

Para aqueles cubanos que deixaram a família para trás a fim de buscar melhores condições de vida, os custos foram altos; no entanto, segundo eles próprios, tudo valeu a pena.

Conclui a reportagem:

"É triste deixar a família e os amigos em nosso país natal", disse Maireilys Álvarez Rodríguez, médica cubana que processou o governo e conseguiu trazer a família para o Brasil. "Mas aqui estamos em um país onde você é livre, onde ninguém pergunta aonde você está indo ou lhe diz o que fazer. Em Cuba, sua vida é ditada pelo governo".

Não deixa de ser uma curiosa contradição: exatamente aquele regime que se jacta de priorizar a "igualdade" fez com que seus médicos fugissem do país por causa de uma arbitrária desigualdade de tratamento, chegando ao ponto de abandonarem suas famílias e terem de pedir ao governo brasileiro para que, finalmente, alguma igualdade de tratamento lhes fosse concedida.  

A ganância socialista

Após ser eleito, Jair Bolsonaro anunciou novas condições para a manutenção do programa Mais Médicos. De um lado, os médicos cubanos teriam de fazer o Revalida; de outro, eles agora teriam de receber o pagamento integral por seus serviços (nada mais de a ditadura cubana confiscar 75% dos proventos) e seus familiares seriam livres para vir ao Brasil caso os médicos assim quisessem. Mais: também foi oferecido asilo àqueles que quisessem permanecer no Brasil.

O governo cubano, como imaginado, prontamente rejeitou os novos termos, alegando que a "dignidade" e o "altruísmo" dos cubanos não podem ser questionados. E imediatamente mandou os médicos voltarem para Cuba.

Como disse Rafael Ribeiro, o regime socialista gosta de parolar conceitos como "mais-valia" e "exploração", mas é ele próprio quem esbulha seus trabalhadores, explora sua mão-de-obra e aprisiona seus familiares. E quando seus programas "humanitários" não mais trazem retorno financeiro para o regime, eles imediatamente cancelam tudo e punem os "rebeldes".

No final, socialistas sempre se mostram mais gananciosos, mais ávidos e mais exploradores do trabalho humano do que até mesmo o mais inescrupuloso capitalista.