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Eis a grande ameaça econômica que nos aguarda: a mudança demográfica
por Daniel Mitchell, terça-feira, 22 de maio de 2018

Neste exato momento, a maior ameaça ao Ocidente não é o terrorismo. E nem as "mudanças climáticas". Nem mesmo o Zika vírus. Ou o Ebola. E muito menos Donald Trump.

A real ameaça é a mudança demográfica.

Eis alguns detalhes preocupantes relatados em uma matéria do Business Insider.

O mundo está prestes a vivenciar uma apavorante situação demográfica, a qual será a primeira na história humana: haverá mais idosos do que crianças. [...]

E estes dois grupos etários continuarão se movendo em direções opostas: a fatia da população com idade acima de 65 anos continuará aumentando, ao passo que a fatia da população com menos de 5 anos de idade continuará caindo.

Com efeito, de acordo com o Census Bureau, já em 2050, pessoas com 65 anos ou mais serão 15,6% da população global -- mais do que o dobro de crianças com 5 ou menos anos de idade, as quais serão estimadas em 7,2%.

"Esse fenômeno demográfico do 'cruzamento' é inédito na história humana", disseram os autores do estudo.

Eis o gráfico que ilustra a matéria. A linha vermelha mostra a evolução do percentual de crianças (com menos de 5 anos de idade) em relação à população global. A linha azul mostra a evolução do percentual de pessoas com 65 anos ou mais em relação à população global.

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Gráfico 1: A linha vermelha mostra a evolução do percentual de crianças (com menos de 5 anos de idade) em relação à população global. A linha azul mostra a evolução do percentual de pessoas com 65 anos ou mais em relação à população global.

E daí?

E daí que uma fatia crescente de idosos significa mais gastos governamentais com previdência, saúde e vários outros subsídios (como remédios), ao passo que uma fatia decrescente de crianças significa menos futuros pagadores de impostos para bancar todo esse gasto com a seguridade social.

Vejamos agora esta coluna de Robert Samuelson no The Washington Post:

Ninguém pode dizer que não fomos alertados. Durante anos, estudiosos de todas as áreas -- demógrafos, economistas, cientistas políticos -- vêm avisando que as populações dos países mais avançados estão gradualmente envelhecendo, com dramáticas consequências para a economia e a política. Mas ainda não estamos dando a devida importância para esse futuro inevitável. [...]

O problema é simples. Baixas taxas de fecundidade e crescente expectativa de vida resultam em populações predominantemente mais idosas. Desde 1970, a expectativa média de vida para uma pessoa com 60 anos de idade nos países da OCDE aumentou de 18 para 23,4 anos. Em 2050, aumentará para 27,9 anos -- ou seja, será de quase 90 anos de idade.

Os gastos com a Previdência e com toda a Seguridade Social irão explodir.

E qual a implicação? A menos que as idades de aposentadoria sejam acentuadamente elevadas ou os benefícios e pensões sejam profundamente cortados, uma fatia cada vez maior da renda das pessoas em idade de trabalho terá de ser confiscada via impostos para bancar as aposentadorias de idosos vivendo cada vez mais. Ou então o governo terá de efetivamente cortar gastos -- algo que nenhum nunca fez até hoje.

Eis uma tabela deste artigo, a qual mostra a erosão radical da taxa de "dependência etária" para alguns países. O número indica quantas pessoas com idade de 65 anos ou mais haverá para cada 100 pessoas com idade entre 20 e 64 anos.

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Tabela 1: evolução da taxa de "dependência etária" para alguns países. O número indica quantas pessoas com idade de 65 anos ou mais haverá para cada 100 pessoas com idade entre 20 e 64 anos

Para contextualizar, uma taxa de 13% (o Brasil atual) significa que, para cada 13 pessoas com mais de 65 anos de idade, há 100 pessoas com idade entre 20 e 64 anos para bancá-la. Em 2050, serão 40 para cada 100.

Em outras palavras, há hoje no Brasil 7,69 pessoas com idade entre 20 e 64 anos para bancar uma pessoa com 65 anos ou mais de idade. Em 2050, haverá apenas 2,5 pessoas com idade entre 20 e 64 anos para bancar uma pessoa com 65 anos ou mais de idade. (E olhe que o Brasil é hoje o país na melhor situação demográfica.)

Os números gregos e italianos são desalentadores, mas os do Japão são apavorantes. Também vale notar como a taxa chinesa irá se deteriorar rapidamente.

Um artigo na revista New Scientist fez a seguinte observação sobre essa dramática mudança demográfica:

Será que a bomba populacional vai explodir da maneira mais inesperada possível? Em vez de vivenciarmos uma explosão malthusiana, tudo indica que estamos a caminho de uma implosão demográfica.

Para descobrir como será esse futuro, vá até o Japão, onde uma recente pesquisa descobriu que as pessoas estão desistindo do sexo. Apesar de terem uma expectativa de vida de 85 anos (e crescendo), o número de japoneses está caindo graças a uma taxa de fecundidade de apenas 1,4 filho por mulher. [...]

Metade dos países do mundo apresenta uma taxa de fecundidade abaixo da taxa de reposição populacional, que é de 2,1 filhos por mulher. Países da Europa e do Extremo Oriente estão balançando à beira do penhasco, com taxas de fecundidade abaixo de 1,5.

Já Alemanha e Itália, a julgar pela tendência atual, podem ter sua população reduzida à metade dentro dos próximos 60 anos.

Especificamente sobre o Japão, uma reportagem da The Week ressaltou a assombrosa perspectiva demográfica do país.

O Japão tem um problema sério em mãos: o país está literalmente morrendo. De acordo com as projeções atuais, em 2060, a população do país já terá encolhido 35%, e as pessoas com mais de 65 anos de idade serão 40% da população total. Atualmente, o país já está vendendo mais fraldas geriátricas do que fraldas infantis. Dizer que isso é insustentável seria um eufemismo. O país está simplesmente morrendo. [...]

A demografia não é um fenômeno irreversível, é claro, mas não há nenhuma indicação de uma reversão na tendência. [...] O iminente colapso não mais pode ser negado. E não só no Japão, mas na Alemanha também.

A extinção de um povo e sua cultura sempre será uma tragédia global. É hora de o Japão -- e o Ocidente -- acordarem.

essa reportagem do site Japan Times é ainda mais reveladora:

Uma pesquisa feita com japoneses entre 18 e 34 anos de idade revelou que aproximadamente 70% dos homens solteiros e 60% das mulheres solteiras não estão em um relacionamento. Mais ainda: a maioria deles nunca teve relações íntimas e nem mesmo vivenciou demonstrações de carinho.

Aproximadamente 42% dos homens e 44% das mulheres admitiram ser virgens. O governo não ficará satisfeito em saber que a castidade está se tornando um fenômeno tão japonês quanto o sumô e o saquê.

A administração do primeiro-ministro Shinzo Abe já falou em estimular as taxas de fecundidade por meio de subsídios para famílias que tiverem filhos. Mas enquanto os japoneses não começarem a fazer mais ginástica na cama, não haverá consequência prática para esses prometidos subsídios. [...]

Um recente relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) calculou como a taxa de dependência etária irá mudar em vários países membros da Organização. Em termos diretos, não é bom ter uma linha preta muito alta, pois ele indica uma alta taxa de dependência etária. As notícias ruins sobre Itália, Grécia e Japão são confirmadas, mas vale observar que Espanha, Portugal e Coréia do Sul também estão a caminho de um futuro desalentador. Em termos simples, os trabalhadores de amanhã terão de lidar com um enorme fardo tributário.

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Figura 2: evolução da taxa de dependência etária para países da OCDE. O losango branco indica como era em 1975. A barra azul indica como foi em 2015. E a linha preta com o losango preto indica como será em 2050

Com efeitos, os dados da Coréia do Sul são ainda mais estupefaciente que os do Japão. A taxa de fecundidade no Japão já era baixa em 1960, sendo ainda mais baixa hoje. Mas os números para a Coréia do Sul são abismais.

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Tabela 2: evolução das taxas de fecundidade de Japão e Coréia do Sul, de 1960 a 2015

Permitam-me essa exclamação: Uau!

Perante esses números, fica mais fácil entender essa bizarra história recém-noticiada sobre a Coréia do Sul:

Estudantes de duas universidades sul-coreanas estão cursando matérias em que é obrigatório namorar seus colegas. Trata-se de uma medida adotada por um país que luta para reverter uma das menores taxas de fecundidade do mundo.

As universidades Dongguk e Kyung Hee, em Seoul, afirmam que os cursos sobre namoro, sexo, amor e relacionamento têm como alvo uma geração que está evitando a vida familiar tradicional. [...] Disse ela: "A redução populacional da Coréia do Sul fez com que namoro e casamento se tornassem atos essenciais para a nossa sobrevivência futura, mas os jovens coreanos estão muito ocupados hoje em dia e são desajeitados demais para fazer novas amizades".

Como parte do curso, os estudantes têm de namorar três colegas durante um mês. [...] Seoul já gastou aproximadamente £50 bilhões tentando impulsionar as taxas de fecundidade.

Não sei exatamente qual é a parte mais bizarra do artigo: a parte sobre você ser obrigado a namorar suas colegas como parte do dever de casa (você ganha pontos extras se a garota engravidar?) ou a parte sobre o governo já ter gasto 50 bilhões de libras (aproximadamente 70 bilhões de dólares) para tentar estimular a gravidez.

Impossível tudo se manter

Eis o resumo: em todo o mundo, as pessoas viverão cada vez mais (o que é uma boa notícia), mas terão cada vez menos filhos. Como os bebês de hoje são os pagadores de impostos de amanhã, a base tributária necessária para bancar pensões e seguridade social dos idosos do futuro (o que inclui você) simplesmente está encolhendo.

Os modelos de estado de bem-estar foram criados majoritariamente na década de 1960, uma época em que se imaginava que a pirâmide etária sempre seria gorda na base (muitas crianças e jovens) e fina no topo (poucos idosos).

Sob esse arranjo, imaginou-se que sempre haveria relativamente poucos idosos (que recebem dinheiro da Previdência e da Seguridade Social), muitos trabalhadores (também conhecidos como "pagadores de impostos") e várias crianças (futuros pagadores de impostos).

Naquele mundo, um estado de bem-estar, embora não fosse uma boa ideia economicamente, ao menos era matematicamente sustentável.

Hoje, em contraste, esse mesmo arranjo já se tornou problemático, pois estamos vivendo mais e tendo menos filhos.

E, no futuro, se tudo continuar como está, a tendência é vivenciarmos uma crise fiscal de estilo grego, pois a demografia será ainda menos favorável. Para ser bem direto: não haverá pessoas o bastante para empurrar o vagão em relação à massa de pessoas dentro do vagão.

Conclusão

No final, isso não é nem uma questão ideológica ou econômica, mas sim puramente matemática: uma população crescente tem um número suficiente de pessoas trabalhando para sustentar os idosos. Já uma população declinante simplesmente não terá mão-de-obra jovem para pagar a aposentadoria desses idosos. 

Uma coisa é você ter 10 pessoas trabalhando para pagar a Previdência de um aposentado; outra coisa é você ter apenas duas pessoas (ou uma) trabalhando para pagar a Previdência desse mesmo aposentado. Ou esses dois trabalhadores terão de ser tributados ainda mais pesadamente para sustentar o aposentado, ou o aposentado simplesmente receberá menos (bem menos) do que lhe foi prometido.

Alguém terá de ceder.

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