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Atos imorais começam pela corrupção da linguagem
por Walter Williams, terça-feira, 17 de abril de 2018

Um dos mais ardilosos truques criados pelos defensores de políticas socialistas e intervencionistas foi o de recorrer a expressões aparentemente nobres utilizadas para conferir uma aura de legitimidade moral a atos essencialmente maléficos. 

Assim, confiscar a propriedade alheia e espoliar o dinheiro de terceiros passou a ser chamado de "espalhar a riqueza", "redistribuir a renda", "cuidar dos menos afortunados", e "atender aos desejos da maioria".

Façamos um experimento mental para ver se você aprova um ato essencialmente criminoso.

Imagine que haja várias viúvas já idosas em sua vizinhança. Elas não têm a aptidão física para fazer faxina em suas casas, limpar suas janelas, cozinhar e efetuar outras tarefas domésticas. Tampouco têm elas meios financeiros para contratar alguém para ajudá-las.  

Eis uma pergunta que tenho até receio de fazer: você defenderia um decreto governamental que obrigasse algum dos seus vizinhos a efetuar essas tarefas para as viúvas?

Vou ainda mais adiante: se a pessoa escolhida para obedecer a esse decreto governamental se recusasse a fazê-lo, você apoiaria algum tipo de sanção a ela, como multa, confisco de propriedade ou até mesmo encarceramento?

Tenho a esperança de que a maioria das pessoas iria condenar este decreto estatal. Elas concordariam que se trata de uma espécie de escravidão -- mais especificamente, do uso forçoso de uma pessoa para servir aos propósitos de outra.

Agora, será que haveria essa mesma condenação se, em vez de forçar seu vizinho a realmente efetuar as tarefas domésticas para as viúvas, o governo apenas o obrigasse a dar a elas uma determinada quantia monetária mensal? Desta maneira, as viúvas poderiam utilizar esse dinheiro para contratar alguém para efetuar as tarefas domésticas. Por acaso este decreto governamental se difere daquele que obriga alguém a realmente efetuar as tarefas domésticas?

Eu diria que há muito pouca diferença entre os dois decretos. Mudou apenas o mecanismo da servidão. Em ambos os casos, uma pessoa está sendo coercivamente usada para servir aos propósitos de outra pessoa.

Tenho quase certeza de que a maioria dos vizinhos iria querer voluntariamente ajudar essas necessitadas viúvas. Mas também desconfio fortemente de que eles considerariam qualquer arranjo que colocasse uma pessoa em uma posição semelhante à servidão algo profundamente ofensivo. 

Por outro lado, caso todos os moradores dessa vizinhança fossem igualmente obrigados a dar esse dinheiro para o governo, que então o repassaria às viúvas, a consciência deles poderia ficar mais amenizada. Este arranjo coletivo faz com que aquela vítima de escravidão se torne agora invisível, mas não altera o fato de que há uma pessoa sendo forçosamente usada para servir aos propósitos de outra. 

Ser obrigado a dar dinheiro para o governo simplesmente oculta um ato que, caso fosse praticado de maneira mais explícita, seria considerado profundamente imoral e depravado.

É por isso que o estado é, por definição, um arranjo maléfico. Ele recorre a meios perversos -- confisco e intimidação -- para alcançar objetivos que frequentemente são vistos como nobres. Você ajudar uma pessoa necessitada utilizando o seu próprio dinheiro e os seus próprios bens é uma atitude extremamente admirável e digna de louvor. Por outro lado, ajudar uma pessoa necessitada utilizando coerção e espoliando a propriedade alheia é algo perverso, imoral e digno de condenação. 

Sejamos claros: tanto você quanto eu temos a responsabilidade pessoal de ajudar um destituído. Mas eu não tenho o direito de roubar de você só porque há pessoas precisando da sua ajuda. Você tem a obrigação moral de ajudá-las com seus próprios meios; mas eu não tenho o direito de interferir nos seus direitos, confiscar sua propriedade e entregar o esbulho para alguém, mesmo que esse alguém esteja em sérias privações.

A "obrigação" de garantir o mínimo para a existência digna de quem quer que seja é algo que tem de partir do indivíduo, e não de um aparato institucionalizado de coerção.

Maioria não cria moralidade - em nenhuma área

Tragicamente, grande parte dos ensinamentos em voga, propugnados desde as igrejas até as salas de aula, defendem que o governo use uma pessoa para servir aos propósitos de outra. E isso não se limita apenas a políticas assistencialistas, não. Com efeito, vale para tudo: grandes empresas, sindicatos, artistas, funcionários públicos -- todos defendem receberem seu quinhão esbulhado da população.

Os defensores deste arranjo não têm a honra e a coragem de chamá-lo pelo nome correto, e preferem apenas dizer que ser trata de: 'caridade', 'função social', 'política industrial', 'estímulo à cultura', 'valorização do servidor' etc.

Alguns argumentam que vivemos em uma democracia, e que, na democracia, a maioria decide. Mas será que o mero consenso da maioria faz com que atos que em outras circunstâncias seriam considerados imorais passem a ser morais e perfeitamente aceitáveis? 

Conclusão

O governo confiscar dinheiro de uns para entregar para outros -- independentemente de quem sejam estes "outros" -- é um ato que produz o mesmo resultado de um roubo. Com efeito, é exatamente isso que um ladrão faz: redistribuir renda. A diferença entre governo e ladroagem é apenas uma questão de legalidade.

Se o confisco da renda para "fins sociais" pode ser demonstrado como imoral, o mesmo confisco voltado para quaisquer outros fins é ainda mais abjeto.

Por isso, voltemos ao ponto central: se os membros de uma vizinhança fizessem uma votação e a maioria decidisse que um determinado membro desta vizinhança -- sob ameaça de punição -- deveria efetuar as tarefas domésticas das viúvas, tal votação tornaria todo este arranjo moral?

Chega a ser inacreditável a quantidade de pessoas que ainda aceita o argumento de que, se a vida é injusta ou se a economia está ruim, a solução é confiscar a propriedade das pessoas e dar mais dinheiro e mais poder a políticos. É muita sensatez!