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Vamos erradicar a pobreza, e não destruir a riqueza
por Daniel Lacalle, quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Quando você terminar de ler este artigo, aproximadamente 600 pessoas ao redor do mundo terão saído da pobreza.

Em 1990, 35% da população mundial viviam na pobreza extrema. Hoje, essa cifra caiu para 10,7%, segundo o Banco Mundial.

Em 1987, havia 660 milhões de pobres na China. Após o país abrir sua economia, essa cifra caiu para apenas 25 milhões. No mesmo período, na Índia, o número de cidadãos pobres foi reduzido em mais de 100 milhões de pessoas.

Adicionalmente, 140 milhões de pessoas se juntam à classe média a cada ano.

Apesar destas conquistas, estamos vivendo em uma época em que estas excelentes notícias são ignoradas em prol de discursos raivosos e intervencionistas sobre a riqueza. Diariamente, você lê nos jornais coisas como "1% do mundo controla 87% da riqueza", e se depara com afirmações incrivelmente asininas do tipo "se os 10% mais ricos do mundo abrissem mão de toda a sua riqueza, não haveria mais pobreza". (Uma falácia econômica tão auto-evidente, que é incrível que ela ainda seja vocalizada por um indivíduo dotado da razão.)

Os 635 milhões de chineses que saíram da pobreza nos últimos 30 anos discordam. Eles certamente se alegram com o fato de a China ser o país onde surge o maior número de milionários por ano, e onde a classe média mais cresce. E, graças à prosperidade, há uma "crescente desigualdade" que nada tem de negativo, mas sim de positivo. (Afinal, como mostra a história, é a desigualdade de riqueza o que acaba reduzindo a pobreza).

A desigualdade na China era de 0,30 quando o país estava passando fome. Hoje, ela é de 0,50, e a vasta maioria dos cidadãos chineses está mais rica e com um padrão de vida muito maior. Ao longo dos últimos 30 anos, a renda per capita urbana disponível cresceu a uma impressionante taxa de 13,2% ao ano, ao passo que a fatia da população que vive em áreas urbanas aumentou de 22 para 53%.

Graças a uma maior liberalização econômica, à abertura da economia, e a um maior grau de capitalismo, milhões de pessoas pobres saíram da pobreza, outros milhões se juntaram à classe média, e alguns poucos, graças ao progresso, se tornaram milionários. O que exatamente há de ruim nisso?

No entanto, os intervencionistas não se concentram nos modelos bem-sucedidos que geraram essa queda sem precedentes na pobreza. Não, eles se concentram apenas na "desigualdade" (a qual, de novo, é tanto a causa quanto a consequência do progresso). Mas é até compreensível essa mudança de foco: afinal, se o mundo erradicar a pobreza, acabou o trabalho do burocrata.

Capitalismo e mercados mais livres não apenas são o melhor e mais eficaz arranjo para reduzir a pobreza, como também as sociedades capitalistas prosperam exatamente ao reduzir a pobreza e aumentar a classe média. Menos pobreza e mais classe média significam mais e melhores consumidores, mais e melhores produtos ofertados, e mais desenvolvimento. E, com tudo isso, mais lucros e melhores serviços públicos.

Os únicos prejudicados por essa efetiva redução da pobreza que vem ocorrendo ao redor do mundo são os burocratas cujas carreiras dependem exatamente da existência de pobres, pois só assim eles podem defender suas políticas intervencionistas (quase sempre em benefício próprio). Esses são os "pobristas", os reais defensores da pobreza, os "redistributivistas do nada".

Ao contrário do que os defensores da repressão fiscal dizem, o capitalismo não se beneficia da pobreza. São a burocracia e o intervencionismo que se "beneficiam" da existência de pobres, os quais se tornam reféns de uma involuntária relação em que os burocratas controlam a faca que irá "repartir o bolo" ao mesmo tempo em que enriquecem e se regozijam desta "solidariedade" com o dinheiro alheio. (Para se ter uma ideia, os burocratas da Oxfam são mais ricos que 99,7% da população mundial).

Problema de lógica básica

Acreditar que confiscar a riqueza dos ricos irá acabar com a pobreza é um pensamento ignaro. Parece incrível que, em pleno 2018, seja necessário relembrar as pessoas de todos os desastres e do exponencial aumento da pobreza que se seguiram a todos os episódios de expropriação dos ricos, desde os assignats após a Revolução Francesa, passando por todas as experiências socialistas da China, da URSS, de Cuba e da Coreia do Norte, até os recentes exemplos da Grécia, da Argentina, do Zimbábue, da Venezuela etc. A lista não acaba.

A expropriação de riqueza consegue apenas gerar pobres e piores condições para todos. Ademais, trata-se de uma grande mentira. Tão logo você expropria a riqueza dos cidadãos mais ricos de uma economia, além de destruir o emprego de milhares de pessoas, você não irá retirar os pobres da pobreza. Afinal, o que irá acontecer já no ano seguinte? Não haverá mais ricos a serem espoliados.

Assim, após esta renda espoliada ter sido distribuída e consumida, não haverá como ocorrer novas redistribuições. Afinal, de onde viria a nova renda a ser redistribuída? Vale lembrar que não há mais ricos e pobres. Todos estão em igual situação. Consequentemente, não haverá mais de quem tirar.

Logo, e por definição, uma redistribuição de renda é algo que só pode ser feito uma única vez. E, após a redistribuição, os contemplados estarão em melhor situação apenas enquanto estiverem gastando o dinheiro recebido. Tão logo tudo seja consumido, tais pessoas voltarão ao estado de pobreza anterior. E pior: com os empreendedores mais pobres, será muito mais difícil para tais pessoas melhorarem de vida.

O número de pobres irá aumentar e a miséria irá se multiplicar, evidenciando que, se você penalizar o sucesso, você redistribuirá o fracasso.

E as consequências de uma política redistributivista, mesmo que em menor escala, podem ser surpreendentes. Recentemente, foi divulgado que as políticas redistributivas da Califórnia resultaram em uma desigualdade de renda pior que a do México, e a maior taxa de pobreza dos EUA. No final, exatamente por não haver como espoliar os ricos continuamente, foi a classe média quem acabou bancando o assistencialismo estatal por meio de maiores impostos.

Conclusão

Desigualdade não é o mesmo que injustiça, como salientou o Prêmio Nobel Angus Deaton, e não é nada surpreendente que os intervencionistas insistam em ressaltar a desigualdade como o maior problema de todos, em vez de abordarem a pobreza absoluta e maneiras de permitir um maior crescimento de classe média.

O debate sobre pobreza e desigualdade se tornou uma desculpa para novas intervenções, e não um meio para debater como continuar o processo de enriquecimento das pessoas. Intervencionistas não querem que os pobres sejam menos pobres; querem apenas que os ricos sejam menos ricos. Para o burocrata, o objetivo é manter o aparato estatal plenamente operante, e não torná-lo desnecessário.

O intervencionismo assume que a desigualdade é um efeito negativo, e não uma consequência natural da prosperidade. E, com efeito, alguma desigualdade sempre será positiva. Se meus colegas de trabalho são mais bem-sucedidos do que eu, isso será um incentivo para eu me aprimorar. Somente quando há uma desigualdade gerada pelo sucesso é que as sociedades progridem, e o bem-estar de todos aumenta.

Não há maior desigualdade e injustiça do que o igualitarismo, o qual elimina os incentivos para o aprimoramento próprio. O igualitarismo, longe de reduzir a pobreza, acaba por intensificá-la.

Há nove anos, a Oxfam elogiou a Venezuela, dizendo que a "desigualdade foi reduzida". E realmente foi. Só que a redução se deu tornando todos os venezuelanos mais pobres, exceto os redistribuidores. Esses ficaram milionários.

No final, a redução da pobreza é uma consequência da prosperidade, do crescimento e do emprego, e não de políticas. O capitalismo e o livre comércio fizeram muito mais para reduzir a pobreza do que todos os comitês governamentais combinados.