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A “economia comportamental” fez contribuições interessantes, mas é contraditória
por Diversos Autores, terça-feira, 10 de outubro de 2017

Richard Thaler, da Universidade de Chicago, ganhou o prêmio Nobel de economia[1] deste ano.

Thaler é o grande expoente da chamada "economia comportamental", que nada mais é do que a aplicação da psicologia a problemas que envolvem escolhas, transações, valorações e precificação.

A maioria dos economistas adeptos da Escola Austríaca de Pensamento Econômico, seguindo os princípios de Ludwig von Mises, faz uma profunda distinção entre a praxeologia -- que é a análise lógica da ação humana -- e a psicologia, que analisa as motivações comportamentais que precedem e sucedem a ação (veja a distinção aqui). Por exemplo, os austríacos dizem que a ação humana é proposital, o que significa que ela visa a um objetivo, mas não afirmam que ela sempre será racional, pois nem sempre será bem-sucedida em alcançar o objetivo pré-determinado.

Já a economia neoclássica optou pelo caminho inverso, com uma tendência cada vez maior de mesclar psicologia e praxeologia, na esperança de assim criar uma explicação mais rica e mais robusta para o comportamento humano. Afinal, se as pessoas ("agentes econômicos") são modeladas como "maximizadoras de utilidade", e se a utilidade é entendida como um estado psicológico de bem-estar, então por que não introduzir a psicologia na análise econômica?

Thaler, ao vencer o prêmio, observou: "Para ser um bom economista, você tem de ter em mente que as pessoas são humanas" -- isto é, os seres humanos reais não são aquelas máquinas super-calculadoras que aparecem nos modelos econômicos neoclássicos. Isso é uma verdade indiscutível. Porém, inserir a psicologia no arcabouço da teoria neoclássica para tentar a aprimorá-la não necessariamente é um aperfeiçoamento.

Sim, entender psicologia é importante para empreendedores e historiadores. Mas a teoria econômica, como entendida por Mises, é um exercício puramente lógico, independente das motivações psicológicas específicas dos indivíduos. Por exemplo, a teoria de Carl Menger sobre valoração e escolha, subsequentemente desenvolvida nos trabalhos de Böhm-Bawerk, Fetter, Wicksteed, Mises e Rothbard, bem como de outros economistas austríacos, é um conceito lógico, e não comportamental. (Veja aqui outros exemplos).

Mas tudo piora.

Revigorando a disciplina, mas de maneira incoerente

A economia neoclássica sempre fez pressuposições estritas e estreitas sobre o que significa ser "racional". Em particular, o agente neoclássico sempre é consistente; ele possui uma ordem de preferência clara em relação a todas as coisas possíveis de serem feitas; ele sempre maximiza seu bem-estar; ele jamais exibe um viés para o consumo presente. E por aí vai.

Mas, em sua defesa, ele não é (como alguns críticos afirmam) um mero egoísta maximizador do lucro. Ele é tão egoísta ou altruísta quanto o resto de nós. Por mais estreita que seja a definição, "racionalidade" não significa egoísmo. Significa, isso sim, que ele é totalmente diferente de qualquer pessoa real que conhecemos. A piada é que ele jamais se preocupa com a desutilidade marginal de se preocupar com a utilidade marginal.

No entanto, o real problema com a economia neoclássica não é aquele que Thaler e os economistas comportamentais pensam ser. O indivíduo neoclássico nunca foi pensado para ser uma imagem de uma pessoa real. Ele é apenas uma marionete -- uma construção teórica criada para gerar previsões sobre o mercado ou sobre o comportamento agregado das pessoas. Assim como as pressuposições irrealistas das ciências naturais ("imagine que o carro é uma esfera", "suponha que não haja atrito"), o indivíduo neoclássico funciona como um artifício analítico.

Já o mercado não é uma mera reflexão das capacidades decisórias do indivíduo; ele é um filtro no qual a concorrência e outras restrições institucionais alteram os resultados. Frequentemente o mercado produz resultados que são diferentes das intenções e capacidades dos agentes individuais. Eu diria que, na maioria das vezes, para melhor. Mas sempre diferente.

Sendo assim, a crítica às limitações teóricas do paradigma racional neoclássico, capitaneada por Thaler, foi algo bastante refrescante e útil. No entanto, e este é o paradoxo, a economia comportamental permanece apegada a este conceito estreito de racionalidade, a qual é vista como um padrão normativo e prescritivo de avaliação.

Na economia comportamental, os resultados de mercado são criticados tendo por base este conceito estreito de racionalidade. E é com base neste conceito estreito de racionalidade que os economistas comportamentais recomendam políticas públicas para "corrigir" distorções de mercado.

Exatamente pelo fato de a economia comportamental ver as pessoas como não sendo estreitamente racionais, o comportamento delas deve ser corrigido via políticas públicas. Richard Thaler, por exemplo, argumenta que, dado que as pessoas se comportam "irracionalmente" (isto é, de maneiras que não maximizam sua utilidade, como entendido pela teoria neoclássica), os governos devem intervir -- não por meio de proibições ou de imposições de determinados comportamentos, mas sim "cutucando" gentilmente as pessoas, empurrando-as delicadamente para o rumo certo.

Por exemplo, afirma-se que as pessoas são obesas porque elas não levam em "total consideração" os efeitos negativos de seus hábitos alimentares não-saudáveis. E o que seria "total consideração"? Elas deveriam saber todas as futuras consequência nefastas de seus hábitos alimentares e trazer estas consequências futuras para o momento presente. Em termos técnicos, elas deveriam descontar esses efeitos negativos à taxa racional de desconto -- a taxa de longo prazo, a taxa que uma pessoa usaria caso fosse super-racional e prudente. No entanto, a maioria das pessoas não é capaz de fazer isso. Segundo a economia comportamental, a maneira como o agente olha para as coisas hoje, no momento de decidir o que comer, é errada. É impetuosa. É "voltada para o presente". Desconsidera "as consequências negativas futuras". Logo, o indivíduo precisa de ajuda. E, na prática, é o governo quem deve intervir para ajudar.

Outros exemplos de intervenções defendidas pelos economistas comportamentais são leis determinando que os supermercados coloquem os alimentos mais saudáveis imediatamente na entrada do recinto, ou ainda que os patrões automaticamente inscrevessem seus empregados em planos previdenciários ou contas-poupança, a menos que eles especificamente optem por sair, e por aí vai.

Thaler chega até mesmo a rotular isso de "paternalismo libertário", fazendo uma distinção em relação às variedades mais pesadas de intervenção estatal.

Com efeito, há uma infinidade de comportamentos "irracionais" que podem exigir correção via intervenção estatal. As pessoas poupam pouco; comem muito; se endividam em excesso; usam o cartão de crédito sem saber; não fazem planos previdenciários; são muito otimistas quanto à própria capacidade de superar imprevisibilidades (e são muito pessimistas quanto à probabilidade delas ocorrerem); fumam muito; não usam energia sustentável; desconhecem os juros embutidos nos financiamentos etc.  

Alguns economistas comportamentais defendem abertamente que o comportamento "irracional" dos indivíduos deve ser não apenas "gentilmente direcionado" (foi Thaler quem criou o termo "cutucada"), mas também tributado e regulado na direção daquele que seria o comportamento do indivíduo neoclássico perfeitamente racional.

Fora as implicações políticas deste raciocínio, há uma inacreditável ironia: a economia comportamental faz troça da economia neoclássica -- porque os neoclássicos pressupõem indivíduos sempre racionais --, mas, no final, segue estas mesmas pressuposições como sendo o ideal a ser perseguido pelos seres humanos.

Dado que o indivíduo não se comporta racionalmente -- como sugere os modelos neoclássicos --, então a solução da economia comportamental é adotar políticas públicas que façam o indivíduo se comportar de maneira um pouco mais semelhante ao indivíduo racional da economia neoclássica -- a mesma economia escarnecida pelos economistas comportamentais.

No final, é como se houvesse um indivíduo neoclássico no fundo de todos nós, lutando para se libertar, mas sendo continuamente bombardeado por choques comportamentais. A economia comportamental seria nada menos que fazer com que você se torne o verdadeiro você. E tudo isso apesar de sua resistência.

Outro paradoxo

Um óbvio problema com todo este raciocínio é que os agentes que irão criar e implantar os "cutucões" comportamentais são também eles próprios "irracionais" -- afinal, eles são seres humanos como todos os demais agentes humanos. Sendo assim, por que deveríamos esperar que os cutucões melhorassem os resultados sociais?

Outros economistas comportamentais, como Vernon Smith, são abertamente céticos quanto à ideia de que a razão seja a principal faculdade a guiar as ações humanas. Para ele, a principal força-motriz são as emoções. Consequentemente, ao colocar em dúvida a capacidade das pessoas de usar seus cérebros, os economistas comportamentais acabaram criando os fundamentos e justificativas para a introdução de controles governamentais para "proteger os indivíduos de seu comportamento irracional".

E, de novo, o paradoxo se mantém: afinal, se os seres humanos possuem um comportamento irracional e devem ser guiados para se tornarem mais racionais, então quem serão os ultra-racionais agentes incumbidos de guiar racionalmente todos os outros?

Conclusão

No final, a economia comportamental, embora tenha trazido contribuições interessantes, frequentemente empacota idéias simples e já bem conhecidas por economistas práticos, empreendedores e historiadores, e as trata como sendo descobertas novas e excitantes. Um fascinante ensaio do economista Steven Poole, de 2014, mostra que a maioria das descobertas dos economistas comportamentais não se aplica ao mundo real porque, dentre outras coisas, as pessoas se comportam de maneiras específicas dentro de um laboratório, maneira estas que são bem "racionais".

Os economistas seguidores da Escola Austríaca deveriam ficar felizes com o fato de que o prêmio Nobel de Thaler abra as portas para debates sobre idéias básicas, como valoração, escolhas, transações e como nós deveríamos tentar entender o comportamento humano. Isso faz com que seja ainda mais importante relembrar as pessoas de que a praxeologia oferece uma crítica paralela, porém distinta, à microeconomia neoclássica.

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[1] O grande empreendedor sueco Alfred Nobel nunca patrocinou nenhum prêmio para a ciência econômica, e o comitê criado em sua homenagem (com o patrimônio que ele deixou) nunca concedeu nenhum prêmio desse tipo até hoje.  No entanto, existe um "Prêmio para as Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel". Mas ele é patrocinado pelo Banco Central da Suécia.  Desde 1969, este prêmio também vem sendo concedido anualmente no início de outubro.