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A ideia de que os gastos dos consumidores geram empregos atenta contra a lógica
por Per Bylund, quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Comecemos pelo básico: dizer que a economia é conduzida pela demanda (gastos) dos consumidores é o equivalente a colocar a carroça na frente do boi.

O que conduz a economia é a produção. O consumo, por definição, só pode vir depois da produção. A produção deve necessariamente vir antes do consumo.

Para que eu possa demandar (consumir) algo, eu tenho antes de ter produzido algo. Se eu não produzo nada que tenha valor no mercado, não terei renda e consequentemente minha demanda será zero.

A produção, portanto, tem necessariamente de vir antes da demanda (consumo). A demanda é consequência da produção, e não a causa dela.

Os gastos gloriosos

No entanto, não apenas continua popular a tese de que a economia é conduzida pela demanda, como também é quase que universalmente aceita a tese de que são os gastos dos consumidores o que gera empregos. Quanto mais os consumidores gastam, mais empregos são gerados.

Esta tese é ainda mais popular nos meios acadêmicos porque ela dá suporte à ideia keynesiana de que o governo deve "estimular" a economia quando há uma recessão, seja por meio de políticas fiscais ou monetárias. Quanto mais o governo gastar ou quanto mais ele estimular o endividamento das pessoas (por meio de uma política monetária expansiva), mais empregos serão gerados.

Em seu cerne, a ideia é que se os gastos em bens e serviços aumentarem, então mais pessoas serão necessárias para produzir estes bens e serviços. Consequentemente, mais pessoas terão empregos e ganharão salários, podendo então comprar mais bens e serviços, criando assim um moto-perpétuo.

O problema é que, embora esta lógica seja atraente -- porque simplista e de fácil entendimento --, ela se baseia em uma pressuposição totalmente falsa. Não existe essa relação entre gastos do consumidor e emprego, a qual os keynesianos juram ser óbvia.

O primeiro erro

Como explicado acima, tratar a economia como se ela fosse conduzida pelos gastos é ver a realidade de maneira invertida.

E tal erro é normalmente cometido por quem não inclui o empreendedorismo em seus modelos econômicos e desconhece o papel dos empreendedores em uma economia. Isso é corriqueiro nas modelagens formais do atual ensino da ciência econômica.

Se pensarmos que a economia é algo mecânico, circular e em constante equilíbrio, então de fato não há motivos para se considerar a figura do empreendedor. Neste cenário, a economia passe a ser como Hamlet sem o príncipe dinamarquês: um sistema destituído de atores e de ação.

Sob este prisma, a economia é como uma máquina em moto-perpétuo, que funciona por meio de gastos que se movem em um fluxo circular, com recursos homogêneos.

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Ou seja, não há uma estrutura do capital complexa, não há varias etapas de produção, não há preferências temporais.  Há apenas gastos, os quais fazem automaticamente o serviço de "gerar emprego e crescimento".

Só que tal visão mecanicista da economia é totalmente irreal. O mercado é um processo dinâmico, e não apresenta "equilíbrio". E o empreendedorismo é a força-motriz deste dinamismo.

O mundo real é dinâmico e está em contínuas mudanças. E é daí que surgem os empregos.

O papel do empreendedorismo

Antes da avalanche keynesiana -- que se resume a abolir a visão dinâmica do mercado e a ver toda a economia como um fluxo circular homogêneo --, os economistas tinham a correta visão do funcionamento da economia: o que conduz toda a economia não é a demanda e o gasto, mas sim o empreendedorismo e a produção.

Com efeito, John Stuart Mill, em sua Quarta Proposição Fundamental sobre o capital, já dissera que "a demanda por mercadorias não é o mesmo que demanda por mão-de-obra". Tal constatação é clara quando se passa a levar em conta a função do empreendedor.

Empreendedorismo é perceber oportunidades que não estão especificadas nos dados conhecidos por todos. É o ato de ver uma nova maneira de alocar meios para alcançar um fim. Empreendedorismo não é apenas tentar melhorar algo que já existe; empreendedorismo é criação. Empreendedores criam riqueza ao alocar corretamente recursos escassos para usos mais produtivos. Empreendedorismo, em suma, é descobrir oportunidades ainda não percebidas de lucro, e agir em cima dessas oportunidades.

O que fazem os empreendedores? Eles tentam antecipar quais serão as demandas futuras dos consumidores, e então contratam mão-de-obra, compram maquinário e produzem bens e serviços de acordo com esta estimativa. Em outras palavras, eles contratam mão-de-obra e produzem antecipadamente na esperança de que conseguirão vender, no futuro, estes bens e serviços.

Se irá de fato haver ou não demanda para os bens e serviços produzidos por este empreendedor é algo que dependerá totalmente dos consumidores e da maneira como eles irão avaliar os bens e serviços oferecidos (o preço cobrado está de acordo?). Irá depender também de quais outros bens e serviços concorrentes os consumidores poderão comprar (e se os preços da concorrência forem menores e a qualidade maior?). Igualmente relevante é como será o comportamento futuro dos consumidores, pois em algumas situações eles preferirão poupar a consumir.

Portanto, eis o que ocorre: primeiro, o empreendedor tem de antecipar corretamente a demanda dos consumidores; depois, ele tem de antecipar corretamente qual preço poderá ser cobrado pelo produto final; finalmente, o empreendedor tem de ver se será capaz de produzir este bem a um custo suficientemente baixo, de modo a tornar todo o empreendimento viável.

Em outras palavras, os empreendedores arcam com todas as incertezas de seu empreendimento. Eles tentam antecipar como os consumidores irão valorar seus bens e serviços, e, baseando-se nesta estimativa, eles estimam os preços. Tais preços, por sua vez, irão determinar se todo o processo de produção será viável ou não. Se o custo operacional for maior que o preço final estimado, nada feito.

Empreendedores criam empregos, e o gasto dos consumidores é irrelevante neste processo

O que tudo isso significa é que os empreendedores especulam sobre o futuro, que é quando irão efetivamente colocar seus bens e serviços à venda. Consequentemente, todo o investimento para a produção e toda a contratação de mão-de-obra ocorrerá independentemente de haver gastos no mercado.

Empreendedores não tomam decisões de investimento e produção baseando-se nos gastos de hoje, mas sim baseando-se em como eles prevêem que será o futuro. A produção é algo que leva tempo, de modo que as condições vigentes de consumo (os gastos dos consumidores) quando uma decisão de investimento é tomada não são muito relevantes, pois elas podem mudar repentinamente. Assim, o que realmente importa é o futuro: como será o mercado quando o processo de produção estiver concluído.

Essa constatação solapa completamente as bases da visão keynesiana da economia, pois, no mundo real, o empreendedor irá empregar pessoas antes de a demanda ser conhecida -- com efeito, antes até mesmo de a demanda poder ser conhecida.

Isso vale para qualquer área.

Quando uma incorporadora contrata mão-de-obra e compra maquinários para fazer a terraplenagem de um local para ali construir um condomínio ou mesmo um shopping, não houve nenhum gasto do consumidor para gerar aqueles empregos. A incorporadora apenas estimou a demanda futura para seu produto final e, com base nessa estimativa, pediu empréstimos, contratou mão-de-obra, investiu e produziu. Nenhum fluxo de gastos do consumidor criou aqueles empregos.

Quando uma fabricante de automóveis constrói uma planta para fabricar carros, nenhum gasto do consumidor gerou aqueles empregos. Os empregos foram criados com base na estimativa dos empreendedores em relação à demanda futura.

Quando um comerciante abre uma loja de roupas, ele contrata vendedores com base na sua estimativa de como serão suas vendas. A contratação de vendedores ocorre sem que um único centavo dos consumidores tenha sido gasto. O mesmo raciocínio se aplica a um restaurante e toda a contração de cozinheiros e garçons.

Portanto, temos que, de início, empregos são criados sem que tenha havido nenhum gasto dos consumidores. Tudo se baseou na expectativa dos empreendedores quanto à demanda futura. Quando os consumidores finalmente começam a gastar comprando esses bens e serviços produzidos, os empregos já estavam criados.

Ok. Mas, e depois?

Bom, se o empreendedor fracassar -- o que significa que não houve demanda suficiente para gerar receitas para cobrir os custos --, o empreendimento ainda assim terá empregado trabalhadores.

É verdade é que se o empreendedor não acreditar que a situação ruim irá mudar, esses trabalhadores poderão perder seus empregos. Mas o ponto é que os empregos foram criados independentemente dos gastos do consumidor.

Por outro lado, se o empreendedor for bem-sucedido -- o que significa que os bens e serviços serão eventualmente vendidos a um preço que cubra os custos de produção -- haverá uma relação entre gastos dos consumidores (naqueles bens e serviços) e a lucratividade do empreendimento. E isso é tudo o que pode ser dito ao certo. Não há nenhuma teoria que diga que o empreendedor irá manter os empregos que ele criou. Ele pode perfeitamente demitir e automatizar, por exemplo. Ou pode ele próprio assumir as funções do empregado demitido. O fato é que nada garante que os empregos criados pelo empreendedor serão mantidos pelos gastos dos consumidores.

Mas, e se a demanda for muito maior que a esperada? O empreendedor não terá de contratar mais pessoas?

Não necessariamente. Com efeito, o exemplo do empreendedor bem-sucedido apenas fortalece ainda mais o argumento de que os gastos em consumo não conduzem o emprego. Se o empreendedor descobre que a demanda por seus bens e serviços era muito maior do que ele antecipara, isso não necessariamente irá gerar mais empregos. Não há nada que comprove que um aumento da demanda fará com que o empreendedor empregue mais trabalhadores.

Para começar, se o empreendedor acreditar que esta maior demanda irá durar para sempre (o que seria uma mera especulação), ele irá investir em aumentar sua produção. Ele de fato pode simplesmente redobrar a aposta no atual processo, contratando mais pessoas, mas o mais provável é que ele faça investimentos em automação. Volumes de produção maiores fazem com que seja mais fácil cobrir os custos fixos iniciais do maquinário. E os lucros são muito mais afetados por custos variáveis, como salários e encargos sociais e trabalhistas. Ademais, empregar mais pessoas requer mais gastos com o treinamento de trabalhadores.

Entretanto, mesmo se desconsiderarmos essa constatação de que máquinas podem substituir a mão-de-obra (pois torna o trabalho mais produtivo), e assumirmos que o empreendedor irá simplesmente dobrar a aposta no processo de produção inicial e contratar mais mão-de-obra, ainda assim a visão keynesiana de que a demanda gera empregos não se sustenta: afinal, a contratação de mais mão-de-obra e o investimento para aumentar a produção ainda continuam ocorrendo em antecipação à demanda futura -- e não em resposta à demanda atual.

Um eventual aumento na demanda hoje não necessariamente será duradouro. Pode acabar amanhã, pode acabar mês que vem, ou ano que vem. Impossível saber. Consequentemente, qualquer decisão de contratar mais mão-de-obra hoje será meramente uma especulação em relação à demanda futura.

Conclusão

Quem cria empregos são empreendedores e investidores, e eles fazem isso de acordo com suas expectativas quanto à demanda futura (o que depende das condições econômicas esperadas para o futuro).

Simplesmente não há como escapar do fato de que a produção precede o consumo. E isso é algo fundamental: o empreendedor incorre em sua produção e contrata mão-de-obra antes de saber se será capaz de vender os bens e serviços produzidos.

O eventual gasto dos consumidores naquele bem ou serviço produzido ocorrerá após a produção e a geração de empregos, e não o contrário. O gasto dos consumidores não cria empregos para as pessoas. O que cria empregos são o investimento e a produção feitos pelos empreendedores.

Não faz nenhum sentido pensar que gastos dos consumidores precedem a produção e o emprego. Reduza a economia a apenas duas pessoas e veja se seria possível o gasto de A causar a produção feita por B.

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