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A atual campanha do Banco Central mostra que a instituição desconhece princípios monetários básicos
por Fernando Ulrich, terça-feira, 19 de setembro de 2017

O Banco Central do Brasil iniciou uma campanha para encorajar as pessoas a circularem as moedas metálicas, as quais estão "sumidas" do mercado. Em seu Twitter, a instituição está recorrendo à hashtag #MoedaTemQueCircular.

Para aumentar o apelo, a instituição está recorrendo a vídeos engraçados estrelados pelo comediante Wellington Muniz, popularmente conhecido como 'Ceará'. Sem ironias, vale a pena conferir:

Aos economistas e estudiosos de teoria monetária, esse episódio é deveras ilustrativo.

Segundo a ótica do Banco, as moedinhas metálicas, em especial a de um real, não circularem é um problema. Ok, vamos partir do princípio de que tal constatação seja correta. Isso nos leva, então, ao próximo passo.

Por que elas pararam de circular, ou, mais corretamente, por que circulam menos? Sem um diagnóstico correto, nenhuma campanha será eficaz.

E a resposta é simples: porque a contínua perda do poder de compra da moeda fez os preços dispararem. O que R$ 1,00 compra hoje em dia? E 10 centavos então? Usar centavos no comércio já não faz o menor sentido.

De julho de 1994 a agosto de 2017, o IPCA acumulado foi de 466%. Isso significa que os preços dos bens e serviços mais do que quintuplicaram na média. Aquilo que custava um real em 1994 custa hoje R$ 5,66.

Há realmente algum motivo para o espanto com o sumiço da moeda de um real?

E agora vem o principal: quem é o responsável pela corrosão do poder aquisitivo da moeda? Não, não é o empresário. Só quem tem o poder monopolista de emiti-la é capaz de desvalorizá-la. Uma auto-análise faria bem ao Banco Central.

Entretanto, nem tudo está perdido. Se a instituição realmente deseja aumentar a circulação de moedas, então a solução também é simples: basta buscar uma política monetária forte.

Façam o CMN (Conselho Monetário Nacional) reduzir a meta de inflação para 0%. A meta deve ser a estabilidade de preços e não um contínuo aumento de preços de 4,25% ao ano.

(Vale lembrar que 4,25% ao ano são nada menos que 50% em 10 anos. E isso, é claro, se esta meta de 4,25% for realmente cumprida. Desde que foi criada, em 1999, apenas em três anos -- 2006, 2007 e 2009 -- ela foi obedecida.)

Como é que as pobres moedinhas sobrevivem a tamanha desvalorização?

E, caso não queiram inflação zero, ao menos então, quem sabe, que abram mão da manipulação de juros e ancorem o real ao dólar. Ou, ainda, façam do real uma moeda plenamente conversível. Revoguem a proibição de pactuar contratos em moeda estrangeira. Liberem a circulação de qualquer moeda em território nacional.

Em suma, façam do real uma moeda forte, uma moeda a ser desejada. E aí, e só assim, as suas moedinhas metálicas voltarão a circular com vigor. Quase como um passe de mágica.

Quero usar moedas, claro, mas #MoedaTemQueSerForte, caro Banco Central do Brasil.

Essa campanha eu aprovo.