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Começou como dono de livraria e já é o homem mais rico do mundo - por decisão dos consumidores
por Chris Calton, terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Nota do editor

O artigo abaixo foi originalmente publicado em abril de 2017, quando Jeff Bezos, fundador da Amazon, havia acabado de se tornar o segundo homem mais rico do mundo. O artigo previu que ele rapidamente alcançaria o topo, que foi o que de fato acabou ocorrendo.

Com o recente anúncio de que a Amazon finalmente começará a "operar para valer", no Brasil, fazendo vendas diretas de produtos próprios e a criando de um centro de distribuição em Cajamar, SP, o tema se torna ainda mais premente.

Segue abaixo o artigo na íntegra, sem alterações, o que dá uma boa perspectiva de como as coisas evoluíram nesses quase dois anos.

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No início, as debulhadoras aumentaram a produtividade no campo e levaram a uma redução na mão-de-obra empregada na agricultura. Posteriormente, tratores e colheitadeiras acabaram com as debulhadoras e reduziram ainda mais a demanda por mão-de-obra humana no campo.

O telégrafo e as ferrovias acabaram com a demanda por sistemas de comunicação que dependiam de cavalos, aumentando a rapidez e reduzindo os custos unitários.

Já os automóveis acabaram com a demanda pela indústria de charretes.

A produção em massa de produtos têxteis acabou com a demanda por itens artesanais.

As grandes lojas varejistas, com seus preços menores, reduziram substantivamente a demanda pelas pequenas lojas de bairro. Agora, as lojas especializadas em vender a desconto (surgindo em várias partes da Europa) estão acabando com a demanda pelas grandes redes varejistas.

Locadoras de vídeo reduziram a demanda por idas ao cinema. Hoje, a Netflix, a TV a cabo e vários outros serviços de streaming aniquilaram a demanda por locadoras de vídeo.

O sucesso do Napster (apesar de sua ilegalidade) foi o precursor da acentuada redução da demanda por produtos típicos da velha indústria fonográfica.

O modelo industrial da China, baseado em baixos custos de produção, remodelou todas as tradicionais indústrias dos países desenvolvidos. De uma perspectiva puramente econômica, não faz diferença entre contratar mão-de-obra barata ou instalar uma máquina mais eficiente, aumentando a automação. Os consumidores aprovaram.

A Dell, ao fabricar e vender laptops a preços baixos, reduziu a demanda dos consumidores por computadores tradicionais, além de ter eliminado vários intermediadores no processo de aquisição de um computador.

A Ikea fez algo similar com toda a indústria de mobiliário.

A internet reduziu a demanda dos consumidores por jornais tradicionais. Já a Google alterou completamente a indústria de marketing.

A Amazon reduziu substantivamente a demanda por livrarias físicas ao redor do mundo.

Uber, Lyft e Cabify afetaram severamente a demanda pela indústria de táxis.

Para onde quer que você olhe, não importa qual seja o setor da economia (excetuando-se aqueles que são monopólios estatais), você sempre notará os mesmos padrões:

1) Quem, em última instância, determina se uma indústria específica se tornou obsoleta são os consumidores;

2) São os consumidores que, ao mudarem suas preferências de consumo e suas exigências de qualidade, determinam que uma indústria específica que não mais os satisfaz tem de ser ou fechada ou inteiramente remodelada e reestruturada.

3) O progresso econômico, chancelado pela preferência de consumo do público consumidor, reduz o emprego em determinados setores, mas leva à criação de novos empregos em outros setores.

4) Durante o processo de liquidação de determinados empregos, o grande desenvolvimento econômico trazido pelas inovações é capaz de multiplicar a produção per capita, afetando positivamente todas as classes sociais.

Isso sempre ocorreu ao longo da história, e não há nenhuma indicação de que tal processo será desacelerado. As empresas que hoje são vistas como inovadoras passarão a ser vistas como obsoletas no futuro, com sua existência entrando em risco. O próprio Jeff Bezos, criador da Amazon.com, admitiu que a Amazon não durará para sempre:

Empresas têm expectativas de vida muito baixas. E a Amazon será desbancada em algum momento. [...] Eu não me preocupo com isso porque sei que é inevitável. Empresas vêm e vão. E aquelas empresas que são as mais brilhantes, mais inovadoras e mais importantes de uma determinada era terão desaparecido algumas décadas mais tarde.

Por falar em Jeff Bezos e Amazon...

Na semana passada, o fundador e CEO da Amazon ultrapassou Warren Buffet e se tornou o segundo homem mais rico do mundo [N. do E.: e, ao final de 2018, ele se tornou o mais rico do mundo]. 

Seu patrimônio líquido é hoje estimado em US$ 75,6 bilhões de dólares [N. do E.: já ao final de 2018, o valor era de US$ 156 bilhões]. Se a Amazon mantiver sua atual tendência de crescimento, não demorará muito para que Bezos supere Bill Gates e se torne o homem mais rico do mundo. [N. do E.: como de fato ocorreu].

Sempre que uma pessoa ganha destaque na mídia por sua riqueza, a reação é imediata. E totalmente previsível. "O rico ficou mais rico e o pobre ficou mais pobre" é a inalterável máxima da esquerda.

Só que, não bastasse o fato de que essa frase é completamente mentirosa e refutada pelas evidências empíricas, o próprio Jeff Bezos é a comprovação de que, quando o empreendedor rico fica mais rico (no livre mercado, isto é, sem participar de esquemas de proteção e subsídios estatais), ele o faz porque deixou todas as outras pessoas mais ricas também.

E foi exatamente isso o que fez a Amazon.

A Amazon.com surgiu em 1995. Começou como uma livraria online, sinalizando o inevitável declínio das livrarias físicas muito antes da invenção de dispositivos que permitem a leitura digital, como Kindle, tablets e smartphones. Com o tempo, a Amazon se transformou em uma empresa especializada em vender e enviar todo e qualquer tipo de mercadoria comercializável.

Mas o sucesso da empresa não foi instantâneo. Muito pelo contrário: demorou muito para que a preferência dos consumidores se direcionasse para a empresa. Embora hoje seja difícil de acreditar, o fato é que a gigante não teve nenhum lucro em seus primeiros seis anos. Isso significa que foram seis anos operando no vermelho, ao mesmo tempo em que tinha de regularmente pagar salários aos seus empregados a cada duas semanas apenas para continuar operando.

Após esse período, a Amazon decolou. Desde 2001 -- o primeiro ano que a empresa operou no azul --, a Amazon se tornou uma das maiores empresas do planeta. Hoje, ela é, de longe, o maior shopping center online do mundo. E como ela alcançou essa posição? Satisfazendo os consumidores, oferecendo cada vez mais produtos a pessoas de todos os continentes do mundo a preços menores do que elas encontram nas lojas.

Sim, quem definiu o sucesso da Amazon foram os consumidores. O valor da Amazon é uma função de Bezos ser capaz de servir, de forma barata, aos desejos de todos os consumidores do planeta desde sua base em Seattle, sem que a Amazon tenha uma presença física na maior parte do globo. Por isso, a importância da história da Amazon não pode ser minimizada.

Obviamente, os concorrentes diretos da Amazon não são fãs do website. Nos EUA, em especial, a concorrência é feroz. Quando a principal loja de eletrônicos do país -- a Circuit City -- foi à falência em 2008, tudo indicava que sua concorrente direta -- a Best Buy -- dominaria o mercado e teria um futuro róseo pela frente. Ela seria a única grande rede varejista especializada em eletrônicos a sobreviver à recessão.

Mas foi a Amazon quem preencheu o espaço deixado pela Circuit City. E ela o fez tão bem, que a Best Buy, após sofrer consecutivas quedas nas vendas e ter até de trocar de CEO, simplesmente começou a copiar os preços praticados pela Amazon. Após isso, a grande maioria das varejistas adotou a mesma postura. Atualmente, Amazon e WalMart estão em uma briga feroz pela liderança do mercado varejista, o que está gerando uma feroz concorrência de preços, beneficiando exclusivamente o consumidor (leia artigo sobre isso aqui).

Esta é a grande beleza das varejistas online. Lojas que operam pela internet, como a Amazon, oferecem aos consumidores uma arbitragem instantânea. Utilizando apenas meu smartphone, posso conferir o preço de qualquer produto que estou pensando em comprar sem sair de casa. Isso "empoderou" -- para utilizar o jargão da moda -- o consumidor de uma maneira até então inédita. 

Na era das compras pré-internet, se um produto era mais barato nas lojas de um estado distante do seu, você simplesmente nada poderia fazer. Sua única opção era se resignar e comprar mais caro no seu estado. Hoje, com a internet e as lojas online, os menores preços do país estão a um simples clique de distância. E quem começou toda essa tendência foi a Amazon.

Estas inovações, obviamente, foram dolorosas para alguns varejistas. Mas foram ótimas para o resto da população. E essa concorrência mostrou que qualquer varejista que não quiser ir à bancarrota terá de ser agressivo para continuar operando no mercado. E como fazer isso? Reduzindo preços e agradando aos consumidores. As consequências não apenas são preços menores, mas tambem maior variedade de bens e melhores serviços.

A Amazon nos oferece também outra lição de economia. Nenhuma outra empresa no mundo demonstrou de maneira mais prática o brilhantismo da expansão do comércio. Antes desta revolução, mesmo com produtos sendo importados de outros estados ou de outros países, os consumidores locais ainda ficavam à mercê de quem quer que fosse a rede varejista local. A Amazon alterou completamente essa dinâmica. Em conjunto com as milhares de outras lojas online que a seguiram, a Amazon efetivamente ampliou o poder dos consumidores: ao praticamente abolir o fator 'distância' entre consumidor e vendedor, a empresa possibilitou ao consumidor ter acesso direto a mais produtos a preços melhores, fazendo da distância -- outrora uma barreira intransponível -- algo secundário.

Esta lição é particularmente relevante à luz do atual e infindável debate sobre livre comércio. O exemplo da Amazon deixa explícito que toda e qualquer política de restrição de importação -- como tarifas protecionistas e barreiras alfandegárias -- nada mais é do que uma estratégia para reverter o tipo de benefício que empresas como a Amazon geram para os consumidores. Ao ampliar o acesso a bens melhores e mais baratos, a Amazon fez com que várias redes varejistas tradicionais sofressem uma queda na demanda por parte dos consumidores. Quem se beneficiou? Os próprios consumidores, majoritariamente os mais pobres e a classe média.

Por isso, restrições governamentais ao comércio internacional com a justificativa de "proteger a indústria nacional" em nada diferem de eventuais medidas governamentais contra a Amazon para proteger as outras redes varejistas. Em última instância, tal medida não apenas pune os empreendedores mais eficazes e premia os mais ineficientes, como ainda prejudica aquele que realmente é quem deve decidir como tudo deve ser: o consumidor.

Conclusão

A Amazon e sua política de vender produtos bons a preços baixos para qualquer habitante do planeta (se o produto não chega barato até você, a culpa é das tarifas de importação, dos correios estatais e da desvalorização do câmbio) gerou um efetivo aumento no padrão de vida das pessoas. E mesmo as pessoas que não compram na Amazon foram beneficiadas por ela: foi ela, por meio de sua concorrência, quem impulsionou as outras empresas a reduzir seus preços (ou a não aumentá-los).

Jeff Bezos hoje já rivaliza com Bill Gates pelo título de homem mais rico do mundo [N. do E.: em 2018, Bezos superou Gates]. Como ele chegou lá? Agradando aos consumidores e aumentando o padrão de vida deles. Bezos enriqueceu, mas deixou todos nós um pouco mais ricos também.