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Países não comercializam com outros países; apenas indivíduos o fazem
por Donald Boudreaux, segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Cheguei à conclusão de que o mundo estaria em melhor situação caso jamais tivesse sido inventada uma sub-disciplina, dentro da economia, chamada de "economia internacional" (ou, alternativamente, "comércio exterior" ou "finanças internacionais").

A profissão de economista provavelmente também estaria em melhor situação sem tal sub-disciplina.

Países não comercializam

Somente indivíduos -- separadamente ou em grupos voluntariamente formados, como empresas -- comercializam. Países não comercializam.

Somente indivíduos -- separadamente ou em grupos voluntariamente formados, como empresas -- possuem vantagens comparativas e desvantagens comparativas[1]. Países não possuem vantagens ou desvantagens.

Somente indivíduos -- separadamente ou em grupos voluntariamente formados, como empresas -- se especializam em determinadas formas de produção. Países não o fazem.

Somente indivíduos -- separadamente ou em grupos voluntariamente formados, como empresas -- criam ou se aproveitam de economias de escala em seus processos produtivos. Países não o fazem.

Somente indivíduos -- separadamente ou em grupos voluntariamente formados, como empresas -- gastam, poupam e investem. Países não fazem isso.

Somente indivíduos -- separadamente ou em grupos voluntariamente formados, como empresas -- vivenciam ganhos ou perdas de renda, riqueza e bem-estar. Países não vivenciam nada.

Obviamente, podemos tomar a liberdade semântica de, em nome da simplicidade, falar coisas como "Os EUA comercializam com a China", "A Alemanha possui uma vantagem comparativa no ramo das cervejas", "A renda nacional da Índia está aumentando", e "O déficit comercial do Peru está diminuindo". Mas todas essas expressões apenas descrevem os resultados agregados e não-premeditados de inúmeras ações e escolhas voluntariamente feitas por cada indivíduo específico, um ser humano de carne e osso.

Adicionalmente, é claro que os governos também efetuam várias dessas atividades -- por exemplo, gastar. Mas nenhum governo é um país. Cada governo é simplesmente uma organização formada por indivíduos de carne e osso e gerida por esses indivíduos específicos, que agem de acordo com determinadas regras formais e informais.

O motivo desta minha constatação -- de que é lastimável que exista uma sub-disciplina chamada "economia internacional" -- é que discutir "comércio exterior" e "finanças internacionais" em separado dá a impressão de que haveria algo de exclusivo e singular nas transações internacionais de bens e serviços, e nos investimentos estrangeiros e em instrumentos financeiros, que exigiriam que tais transações sejam estudadas separadamente das transações não-internacionais.

Mas o fato é que não há nada de essencialmente singular e exclusivo nas transações internacionais. Absolutamente nada.

Discutindo minúcias

Existem, obviamente, diferenças não-essenciais que separam as transações domésticas das transações internacionais.

Exemplos dessas diferenças não-essenciais incluem a necessidade de se fazer conversões de moedas; o fato de que jurisdições diferentes adotam políticas monetárias distintas; o fato de que as pessoas de uma determinada jurisdição política atuam sob diferentes leis e legislações -- inclusive políticas tributárias -- em relação às pessoas de outras jurisdições políticas; a realidade de que o salário médio e a riqueza em algumas jurisdições políticas frequentemente diferem daqueles em outras jurisdições políticas; e o fato de que as transações internacionais geralmente (embora nem sempre) percorrerem distâncias geográficas maiores do que as distâncias percorridas por transações domésticas.

No entanto, quaisquer eventuais ganhos analíticos que possam existir em decorrência de se tratar, de um lado, transações que são separadas por essas diferenças não-essenciais e, de outro, transações que não são separadas por essas diferenças, tais ganhos são ínfimos.

A própria noção de "comércio internacional" nos faz perder a realidade essencial do comércio, a saber: o comércio, de qualquer natureza, sempre e em todo lugar, envolve indivíduos de carne e osso negociando e transacionando entre si, de uma forma que cada um dos indivíduos envolvidos julga ser de seu melhor interesse.

Não ver as coisas dessa maneira é o resultado trágico de querer enxergar o comércio como algo feito entre países, e não entre indivíduos. Essa perspectiva coletivista -- e não individualista -- nos leva a querer julgar os méritos do comércio de acordo com como ele irá ou não irá aumentar o bem-estar líquido agregado (seja lá como tal coisa seja mensurada ou concebida) do conjunto de seres humanos que formam a população de cada país específico.

Porém, essa avaliação coletiva e agregada do comércio, feita "em nível nacional", é ilegítima. Ou, no mínimo, tal avaliação seria tão legítima quanto uma avaliação que levasse em conta o comércio entre estados de um país, entre cidades, e até mesmo entre bairros.

As pessoas da minha vizinhança comercializam livremente com as pessoas de fora da minha vizinhança. Em algumas ocasiões, essa liberdade de comércio traz desvantagens para meus vizinhos imediatos: por exemplo, para trocar o óleo do meu carro, eu não vou ao posto mais próximo, que está na minha vizinhança; eu vou à concessionária onde comprei meu carro, que está a vários quilômetros de distância da minha casa.

Caso existisse uma sub-disciplina econômica dedicada ao estudo do "comércio interbairros", haveria todos os tipos de nefastos estudos teóricos e empíricos sobre os malefícios desse comércio, mostrando como ele está diminuindo o bem-estar do bairro A em prol do bairro B. Tais estudos e análises, consequentemente, levariam a intervenções governamentais visando a reequilibrar a balança comercial entre os bairros, com o governo concedendo subsídios ao bairro A e impondo tarifas de importação aos habitantes do bairro B.

Felizmente, tal sub-disciplina (ainda) não existe. Consequentemente, nosso bem-estar é maior do que se ela existisse, pois não há restrições governamentais ao comércio entre bairros.

Mas e se houvesse? Primeiramente, as restrições seriam motivadas por ignorância econômica: algum gaiato diria que meus vizinhos e eu não podemos comercializar livremente com pessoas de outros bairros caso o resultado fossem um déficit comercial para o nosso bairro. Segundo, e ainda mais importante: as restrições seriam defendidas por bairros politicamente influentes, que lucrariam com a "proteção" que receberiam na forma de restrições governamentais ao comércio entre bairros.

Agora pense: não há restrições ao comércio entre bairros, entre cidades e entre estados. Não há nenhuma preocupação com balança comercial entre o seu estado e o estado vizinho. Aliás, você, alguma vez na vida, já leu alguma estatística sobre isso? Felizmente não.

Qual então é o sentido econômico de haver restrições comerciais entre países? Qual exatamente é a diferença econômica entre você comprar algo de uma pessoa que está do outro lado da rua ou do outro lado do planeta?

Comércio é comércio. Não interessam as fronteiras geográficas e políticas envolvidas. Economistas sérios deveriam estudar os efeitos do comércio em si. Ponto. Dar atenção ao comércio internacional ao mesmo tempo em que se ignora o comércio interestadual, o intermunicipal, o interbairros, o interfamílias e, acima de tudo, o interindividual é total incoerência.

O fato é que o comércio interbairros é tão importante quanto o comércio internacional. Se um não é estudado e não é manipulado, não faz sentido que o outro seja.

Conclusão

Não existisse uma disciplina separada chamada "comércio internacional", a população seria poupada de todas as miragens enganosas que são criadas quando o comércio é discutido como se seus conteúdos e características fossem fundamentalmente diferentes de acordo com as fronteiras políticas envolvidas.

Mais ainda: os poderosos grupos de interesse que auferem grandes lucros com o protecionismo teriam de realmente produzir bens e serviços de qualidade para agradar a população, em vez de apenas se esbaldarem confortavelmente em suas reservas de mercado garantidas pelo governo -- e fundamentadas nas estatísticas da "economia internacional".

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[1] Segundo a lei das vantagens comparativas de David Ricardo, se cada um se concentrar em produzir aquilo que realmente faz bem, e comercializar livremente esses produtos, a riqueza real de todos será maior.