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Empreendedorismo: nem espiritual, nem carnal
por Helio Beltrão, terça-feira, 1 de novembro de 2016

Gosto de muito do que o Leandro Karnal fala, mas nesta ácida crítica ao empreendedorismo ele errou feio.

Ele critica o empreendedorismo por ser uma 'religião'; diz que a busca pelo êxito junto ao mercado (isto é, o êxito em bem servir, atender e saciar as necessidades e desejos de terceiros, de modo a assim também alcançarmos nossos objetivos pessoais) é uma frustrante busca de felicidade.

Karnal critica metas, critica a livre associação de pessoas em torno de um objetivo comum, e critica a busca por resultados.

Voltando um pouco aos fundamentos: empresa e empreender vêm do latim impresa e imprendere, que significam 'ver', 'perceber', 'descobrir'. O empreendedor empreende para alcançar objetivos. Na vida, temos de agregar valor a outras pessoas de tal forma que consigamos, por meio de trocas voluntárias com essas pessoas, obter bens essenciais para nossa sobrevivência e prosperidade.

Um empreendedor percebe algo e utiliza seus talentos, trabalho e recursos -- em condições de risco e incerteza -- para oferecer um bem ou serviço e, em contrapartida, obter dinheiro. Esse dinheiro será então convertido nos bens importantes que deseja obter para si.

Sem empreendedor não há economia de mercado, não há empresas, não há empregos, não há renda; o empreendedor é a força vital do mercado.

Cada troca efetuada entre o empreendedor e seu cliente melhora a situação de ambos. Ambos estarão em melhor situação após a troca -- caso contrário, não a fariam. Quanto mais trocas, quanto mais empreendedorismo, maior a felicidade. Ao contrário do que Karnal defende.

Não resta dúvida que nem todos têm vocação e propensão a serem bons empreendedores. Para tal, é preciso uma certa personalidade; é preciso vigilância e estado de alerta ao que se passa ao redor, aos desejos dos demais. Adicionalmente, é preciso ter propensão ao risco, e também haver nutrido, provavelmente desde a infância, hábitos que auxiliem a tornar-se um empreendedor.

O curioso é que Karnal contradiz em seus atos aquilo que ele próprio defende. Em sua carreira, e notadamente neste vídeo, Karnal é um empreendedor, ainda que de uma pessoa só. Por definição, ao se preparar, Karnal observou o prazo final (data) para a palestra (uma meta), e se preparou para falar por determinado tempo a pedido dos seus clientes (outra meta); adicionalmente, ganhou bastante dinheiro ao oferecer ao público presente algo que eles gostariam de ouvir, ou seja, sua palestra (o serviço prestado).

Karnal é um exímio empreendedor. Rivaliza no competitivo mercado de palestras com vários outros palestrantes, e tem êxito em seu empreendimento, exatamente o que ele critica.

Será que Karnal não está feliz em realizar seu potencial ao empreender e obter dinheiro? Será que ele não se regozija ao perceber oportunidades, e entregar de forma exemplar resultados que a maioria dos demais não consegue? Duvido.

O fato é que aparentemente Karnal não percebeu que ele próprio é um grande empreendedor (seu sucesso confirma isso). Talvez ele prefira se considerar apenas um "intelectual iluminado".