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Defender o protecionismo é defender a escassez - defender o livre comércio é defender a abundância
por Diversos Autores, quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Quanto mais barato e facilitado for o nosso acesso aos produtos que os estrangeiros gentilmente querem nos vender, maior será o nosso padrão de vida.

Quanto mais baratos forem os produtos estrangeiros importados, mais iremos ganhar com a abundância de bens e serviços acessíveis. 

E, ao contrário do que os protecionistas acreditam, maior será a criação de empregos com salários maiores.

Comecemos pelo básico

Todos nós trabalhamos porque queremos trocar os frutos do nosso trabalho (dinheiro) por aqueles bens e serviços que ainda não temos ou dos quais necessitamos continuamente.  Trabalhamos e produzimos para que então possamos demandar bens e serviços.  Por isso, nossa produção representa, tautologicamente, nossa demanda.

Se as fronteiras do território dentro do qual você vive estão completamente abertas para todos os bens e serviços produzidos mundialmente, então você é uma pessoa de sorte: você está na privilegiada situação de ter os indivíduos mais talentosos do mundo trabalhando e produzindo para atender às suas demandas. 

Mais ainda: esses indivíduos talentosos estão concorrendo acirradamente entre eles para fornecer a você as melhores ofertas. Sob este arranjo, por definição, o poder de compra do seu salário alcança sua máxima capacidade.

Todos aqueles que gostam de barganhas e de pechinchas adoram, intuitivamente, o livre comércio.

Por outro lado, se o governo fecha artificialmente as fronteiras do país para os produtos estrangeiros, então a população passa a viver sob um permanente estado de isolamento e autarquia.  Ao serem praticamente proibidas de utilizar os frutos do seu trabalho para adquirir aqueles bens e serviços que são produzidos com mais qualidade por estrangeiros, as pessoas acabam sendo obrigadas a desempenhar várias atividades nas quais não têm nenhuma habilidade. 

Uma pessoa boa em informática acaba tendo de trabalhar como operário em uma siderurgia, pois seu governo restringe a importação de aço, que poderia ser adquirido mais barato de estrangeiros.  Engenheiros acabam virando operários de fábricas.

Estando isoladas da divisão mundial do trabalho, tais pessoas trabalham apenas para sobreviver, e não para desenvolver seus talentos.  Elas não podem trabalhar naquilo em que realmente são boas, pois a restrição ao livre comércio obriga os cidadãos a fazerem de tudo, inclusive aquilo de que não entendem.

Em países de economia aberta, as pessoas, exatamente por poderem adquirir bens e serviços fornecidos por estrangeiros que são melhores no suprimento destes, podem se concentrar naquilo em que realmente são boas.  Em países de economia fechada, as pessoas não têm essa opção.

Queremos abundância e alta produtividade

Em uma economia baseada em transações comerciais, há um certo antagonismo natural entre produtores e consumidores: produtores se beneficiam quando há uma escassez (baixa concorrência) nos produtos que vendem; consumidores se beneficiam quando há uma abundância (alta concorrência) nos produtos que querem comprar.

(Produtores, obviamente, também se beneficiam de uma abundância em bens de capital utilizados para fabricar os produtos que eles compram para revender).

Um produtor sempre quer ser a única loja da cidade a vender um número limitado de produtos.  Consumidores, por outro lado, querem a máxima abundância, com o máximo possível de produtores concorrendo entre si e o maior número possível de produtos disponíveis, o que geraria preços menores.

Esse conflito de interesses surge naturalmente em uma economia de trocas.  Robinson Crusoé caçando para se alimentar obviamente preferirá abundância a escassez.

Em um ambiente não-concorrencial, no qual as indústrias nacionais não estão sujeitas à concorrência de produtos estrangeiros, empregos com altos salários podem surgir naquelas indústrias protegidas da concorrência externa.  Mas isso dependerá da capacidade dos sindicatos de controlar a oferta de mão-de-obra disponível.  A pressão oriunda da mão-de-obra não-sindicalizada será uma constante ameaça para esses empregos de altos salários, os quais só existem porque o governo criou uma escassez artificial por meio de barreiras protecionistas.

No entanto, ainda assim, não há nenhuma garantia de que isso irá gerar empregos de altos salários em vez de apenas altos lucros para essas indústrias protegidas.  Afinal, ao encarecer artificialmente os produtos que podem ser importados, o governo cria uma reserva de mercado para o poderoso empresariado local, o qual agora, sem a concorrência externa, se sente mais livre para cobrar preços altos e oferecer produtos de pior qualidade.  Não sobra alternativa para os consumidores senão consumir os produtos deste baronato nacional, a altos preços. 

A maior receita oriunda destes altos preços pode perfeitamente se converter em maiores lucros para os industriais, e não necessariamente em maiores salários.

Os mais prejudicados, é claro, serão exatamente os mais pobres, que terão sua renda consumida por produtos mais caros e de pior qualidade. 

Daí o grande contra-senso de ser a esquerda a maior entusiasta das políticas protecionistas.

Por outro lado, em um ambiente concorrencial, a abundância é a norma.  Consequentemente, altos salários só serão alcançados por meio de uma maior produtividade.  As pessoas só conseguirão salários maiores se forem capazes de produzir mais durante um mesmo período de tempo.  E, para conseguirem isso, elas terão de utilizar mais bens de capital -- ferramentas, maquinários, edificações e meios de transporte que tornam o trabalho mais produtivo.

O padrão de vida dos países ricos é maior que o dos países da África não porque as pessoas trabalham mais, mas sim porque a mão-de-obra dos países ricos utiliza uma maior quantidade de bens de capital para fazer seu trabalho.  Isso as torna muito mais produtivas.  Trabalhar menos e produzir mais é o resultado direto da acumulação de capital. Assim como um trator multiplica enormemente a produção agrícola em relação a uma enxada, o uso de máquinas e equipamentos modernos multiplica enormemente a produtividade dos trabalhadores -- e, consequentemente, seus salários e sua qualidade de vida.

Robinson Crusoé pegará mais peixes com uma rede do que com suas mãos.  E quanto mais redes ele tiver, mais peixes ele pegará.  Sua produtividade estará constantemente aumentando quanto mais recursos ele tiver à sua disposição.

Logo, para obter maiores salários, um trabalhador tem de produzir bens ou serviços que os consumidores queiram.  Ninguém irá pagar a um trabalhador mais do que o valor que ele produz (defensores do aumento contínuo do salário mínimo não entendem esse básico). 

Por exemplo, suponha que você consegue fabricar um aparelho eletrônico de cinco componentes que consegue ser vendido pelo subjetivamente alto preço de $ 100 por unidade, em um setor altamente concorrencial.  Para fabricar este produto, você contrata 100 trabalhadores que irão, de forma independente, construir um aparelho cada um.  Em 10 horas, cada um dos 100 trabalhadores terá construído um produto completo.

Ignorando os eventuais custos não-trabalhistas, quanto você poderia pagar a cada trabalhador?  $ 10 por hora.

Agora, suponha que a mão-de-obra se torne mais especializada, de modo que cada trabalhador se concentre em apenas um dos cinco componentes do aparelho.  Os ganhos dessa divisão do trabalho permitem que cada aparelho seja construído em metade do tempo, ou 5 horas.  Quanto você pode pagar agora para cada trabalhador?  Até $ 20 por hora.

Agora, suponha que você adquira uma máquina (bem de capital) que permite a cada trabalhador construir um aparelho em uma hora.  Quanto você pode pagar agora a cada trabalhador?  Até $ 100 por hora.

Não há segredo nem mágica: aumentos salariais só são possíveis se houver divisão do trabalho e abundância de capital.  Quanto maior a quantidade de capital disponível, maior a produtividade e maior o valor dessa produtividade.  E, em um ambiente concorrencial, maiores os salários.

Tarifas protecionistas afetam as empresas domésticas que querem importar bens de capital e maquinários modernos para incrementar a produtividade de seus trabalhadores e, com isso, fabricar produtos melhores e mais baratos.  Tarifas as obrigam a pagar mais caro por seus insumos ou então a comprar insumos nacionais mais caros e de pior qualidade. 

Isso reduz a produtividade e aumenta seus custos.  Sendo menos produtivas e operando com custos maiores, essas empresas se tornam menos competitivas internacionalmente. 

Consequentemente, as exportações também tendem a declinar.  E estimular exportações era exatamente uma das intenções do protecionismo.

Por fim, suponha que a China resolva subsidiar suas exportações ao ponto em que pudéssemos adquirir produtos chineses de graça.  O que isso significaria?  Significaria que não mais teríamos de utilizar recursos escassos para produzir esses mesmos produtos domesticamente, de modo que agora poderíamos redirecionar bens de capital (que são escassos) para outras indústrias, as quais produzirão os bens não fornecidos pelos chineses.  Com mais capital, essas outras indústrias, ceteris paribus, terão empregos com salários maiores do que eram antes do comércio com a China.

Por causa do aumento da renda disponível e do aumento da capacidade de consumo da população permitido pelas importações baratas, e também por causa dos empregos agora mais produtivos gerados em outros setores, até mesmo empregados demitidos por causa da concorrência estrangeira ficam em melhor situação.

Utilizando o governo para criar escassez artificial

O protecionismo é uma política voltada para criar escassez.  Restrições ao comércio não apenas não aumentam a quantidade de capital disponível, como ainda forçam um uso não-produtivo do capital.  Dado que o país protecionista, por definição, necessariamente terá uma mão-de-obra menos especializada, o capital ficará mais dispersado por toda a economia, o que fará com que os salários sejam menores do que poderiam ser.

Adicionalmente, tendo agora de pagar mais caro por produtos nacionais de qualidade mais baixa, os consumidores nacionais estarão incapacitados de consumir mais e de investir mais.  A restrição às importações e a reserva de mercado criada por ela faz com que a capacidade de consumo e de investimento da população seja artificialmente reduzida. 

E sempre que a capacidade de consumo e de investimento da população é artificialmente reduzida, lucros e empregos diminuem por toda a economia. 

Assim, empregos de baixa produtividade nas indústrias protegidas são mantidos à custa de empregos de alta produtividade em empresas que tiveram suas vendas reduzidas por causa da queda da capacidade de consumo e de investimento das pessoas. 

Toda a economia se torna mais ineficiente, a produção diminui, os preços médios aumentam, e os salários reais caem.

Protecionismo é uma política que atende apenas aos interesses dos empresários mais ineficientes, menos competitivos e mais avessos a atender aos desejos dos consumidores.  Empresários interessados em produzir produtos de qualidade, utilizando bens de capital importados, são prejudicados.  E toda a população é prejudicada ao ter de consumir apenas produtos nacionais ruins e artificialmente caros, prejudicando sua capacidade de poupar até mesmo para sua aposentadoria.

No que diz respeito ao comércio, a melhor política sempre será a eliminação de todas as barreiras à importação.  Mesmo que unilateralmente.  A abundância sempre deve ser preferida à escassez.

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Frank Hollenbeck é Ph.D. em economia e leciona na Universidade Internacional de Genebra.

Leandro Roque é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

John Tamny é o editor do site Real Clear Markets e contribui para a revista Forbes.