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Trump vs. Hillary - qual o seu planejador central favorito?
por Jeffrey Tucker, segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Ela foi de branco.  Ele foi de azul.  Ela fala sobre comunidade.  Ele fala sobre si próprio.  Ela é fria e, em alguns momentos, aprazível.  Ele é malvadão e, algumas vezes, muito engraçado.  Ele diz coisas "másculas".  Ela fala sobre direitos das mulheres.

E raras vezes na política americana dois candidatos se odiaram com tanta intensidade.  Ele diz que ela é uma criminosa.  Ela diz que ele é um psicopata.  Com isso, os vindouros debates entre os dois serão uma mina de ouro global para as transmissoras, podendo se igualar às Olimpíadas.

Sem dúvidas, haverá grandes doses de entretenimento.  Mas dificilmente haverá algum esclarecimento.  No final, já sabemos a conclusão.  A maior virtude dela é que ela não é ele.  E a melhor qualidade dele é que ele não é ela.

Fora isso, no que diz respeito às políticas de ambos, ou mesmo ao que ambos defendem, a diferença entre os dois é quase imperceptível.  Ambos vêem o estado como a solução para todos os problemas da terra e ambos vêem a presidência como a chave para conceder ainda mais poderes ao estado.  O fabianismo é apenas um gradiente das cores do fascismo.  E o oposto também é verdade.

Nem mesmo em assuntos específicos eles discordam entre si.  Ambos juraram preservar e fortalecer o estado doméstico.  Quanto à política externa, ambos juraram fazer com que os EUA voltem a dominar o mundo: ele, por meio do nacionalismo; ela, trabalhando em conjunto com aliados europeus.

Houve uma época em que os Republicanos ao menos fingiam defender alguma forma de liberalismo de mercado, por mais fraca que fosse essa defesa.  Eles ao menos celebravam a livre iniciativa, falavam de liberdade e defendiam o livre comércio em geral.

Hoje, no entanto, o novo líder do Partido Republicano mudou isso.  Tão logo assegurou sua nomeação, Trump já concedeu várias entrevistas dizendo que pode aumentar impostos, aumentar o salário mínimo e imprimir dinheiro o suficiente para pagar os encargos da dívida pública em dólares baratos.

"Sob meu plano, os impostos irão diminuir.  Porém, antes de isso ser negociado, eles irão subir", disse Trump.  "Em minha opinião, os impostos para os ricos subirão um pouco".  (Após uma enxurrada de protestos, ele alegou que estava dizendo que os impostos subiriam após os cortes que ele faria).

Quanto ao salário mínimo, ele age exatamente como Obama, totalmente desinteressado nas forças de mercado, como se os salários que as pessoas ganham pudessem ser determinados de maneira puramente arbitrária por políticos.  Disse ele: "Eu acho que as pessoas devem ganhar mais... Não sei como você consegue viver com US$ 7,25 a hora". 

Agindo assim, Trump se mostra totalmente ignorante em relação a como um valor mínimo estipulado pelo governo afeta exatamente os trabalhadores menos qualificados e menos produtivos, mantendo-os fora do mercado de trabalho.

Quanto à dívida nacional, ele diz que ela não pode ser paga e não pode ser caloteada.  Logo, só há uma solução: "imprimir dinheiro".

E o que dizer quanto ao protecionismo?  Trump prometeu uma tarifa de importação de 45% sobre todos os produtos chineses, e ameaçou retaliar economicamente a Ford caso esta abra mais fábricas no México.

Quanta mudança.  Essa torrente de idéias políticas impressionou até mesmo o site esquerdista Vox, que publicou um artigo sobre "as ideias econômicas de esquerda que Trump está adotando".

Sim, já ouvimos isso antes

Enquanto isso, Hillary empurrou o Partido Democrata para a mesma plataforma dos Republicanos sob George W. Bush.  Os Democratas nem mais sequer fingem ser contra guerras, contra um estado intrusivo na vida privada dos indivíduos, e contra desperdícios.  

Houve vários momentos estranhos na convenção Democrata que indicou Hillary Clinton para concorrer à presidência pelo Partido, mas houve um que se destacou.  Ela disse: "Se você acha que deveríamos dizer 'não' para acordos comerciais injustos... que deveríamos confrontar a China... que deveríamos proteger nossos trabalhadores das montadoras, das siderúrgicas e das demais empresas americanas... junte-se a nós."

E ela prosseguiu dizendo: "E vocês não ouviram nada disso na convenção de Donald Trump."

Só que, na verdade, ouvimos exatamente os mesmos pontos de Trump, que disse na convenção Republicana: "Nossos horríveis acordos comerciais com a China e com vários outros países serão totalmente renegociados.  Isso inclui renegociar o NAFTA e conseguir um acordo muito melhor para a América -- e simplesmente sairemos da reunião se não conseguirmos o acordo que queremos."

Mas há mais.

Ela disse: "Se investirmos em infraestrutura agora, não apenas iremos criar empregos hoje, como tambem estabeleceremos os fundamentos para os empregos do futuro".

Ele disse: "Vamos construir as ruas, as autoestradas, as pontes, os túneis, os aeroportos, e as ferrovias do amanhã.  Isso, por sua vez, irá criar milhões de empregos".

Ela disse: "Se você acredita que o salário mínimo deve ser o suficiente para sustentar uma família e que ninguém trabalhando em horário integral deve criar seus filhos na pobreza -- junte-se a nós".

Exatamente no mesmo dia, Trump concedeu uma entrevista à Fox News na qual reagiu energicamente à sugestão de que não aumentaria o salário mínimo.  "Você tem de ajudar as pessoas, e eu sei que não é muito republicano dizer isso, mas você tem de ajudar as pessoas.... Eu diria que [um salário mínimo de] US$ 10 a hora é um salário ideal; mas sabendo que alguém como eu trará de volta aos EUA vários empregos, as pessoas não permanecerão nessa categoria de US$ 10 a hora por muito tempo".

Quanto à licença maternidade paga, Hillary sempre defendeu a medida, gostosamente alheia ao fato de que tal política foi originalmente criada como uma medida eugênica para diminuir -- e, por fim, eliminar -- a participação das mulheres na força de trabalho, o que seria um choque para as feministas. 

Mas será que Trump também é a favor?  De acordo com sua filha Ivanka, a resposta é sim: "Sendo eu mãe de três crianças pequenas, sei bem como é difícil trabalhar e ao mesmo tempo criar uma família, e também sei que sou mais afortunada que a maioria das pessoas.  As famílias americanas precisam de um alívio.  Políticas que permitam que mulheres com crianças prosperem não deveriam ser novidades.  Elas deveriam ser a norma".

Indiferentes

Tentar separar minuciosamente as diferenças políticas de ambos é uma completa perda de tempo, pois nenhum deles mantém alguma posição baseada em princípio.  Ambos adotam um decrépito pragmatismo estatizante com a presunção de que, se há algo de errado com o mundo, o governo pode consertar.  O nome de quem comandará o conserto pode variar, mas a fonte do conserto sempre será a mesma.

Ao menos já está ficando aparente, e com cada vez mais intensidade, que a diferença entre ela e ele se resume a apenas uma briga entre duas facções dentro de um mesmo e único partido.  Antigamente, já era comum -- especialmente entre os libertários -- dizer que não havia diferença nenhuma entre republicanos e democratas.  No entanto, ainda assim sabíamos que havia uma hipérbole nessa afirmação.  Ao menos retoricamente, um dos lados fazia gestos de boa vontade em prol do liberalismo clássico.

Agora, isso se evaporou completamente.  E a mudança não foi só do lado dos Republicanos.  Hillary não disse uma única palavra em prol das liberdades civis.  Trump também não.

Trump faz sucesso entre seus entusiastas porque se promove como alguém contrário ao establishment.  Mas se você acredita que ser anti-establishment é o mesmo que ser anti-governo, você está terrivelmente enganado.  Para Trump, anti-establishment significa -- e sempre significou -- apenas que as pessoas erradas estão no comando do governo.  Portanto, Trump é apenas um populista no sentido clássico termo.

Ele desdenha o politicamente correto (esta, sim, uma novidade muito bem-vinda na política), posicionou-se corretamente contra o desarmamento e diz coisas sensatas contra a ideia de aquecimento global causado pelo homem.  Ele também diz se opor à esquerda, algo que faz com que um observador ingênuo possa interpretar como sendo uma oposição aos poderes do governo -- o que, como demonstrado acima, não é o caso de Trump. 

O despotismo pode vir em vários sabores e embalagens.  Pode vir da direita e pode vir da esquerda.  Opor-se a um e defender o outro não é o mesmo que defender a liberdade.

O fato é que a perna direita e a perna esquerda do estatismo dançam em um balé demoníaco.  Um lado ganha o controle e estimula o ressentimento do outro lado.  Este outro lado reage, reassume o controle após algum tempo e incita uma guerra contra seus inimigos políticos.  A população fica dividida.  Tudo se torna uma briga por poder, mas cada lado tem interesse em adquirir cada vez mais poderes. 

Por isso, as coisas tornam-se mais claras quando você começa a pensar em esquerda e direita como facções dentro de um mesmo partido único.  Ambos podem dizer coisas sensatas a respeito de algumas coisas, mas nenhum defende a liberdade como solução para os problemas econômicos e sociais.

Com esse cenário, é fácil perder as esperanças.  Mas, não obstante tudo o que Trump ou Hillary dizem, os libertários jamais podem esmorecer em sua batalha, pois sabemos que a liberdade continua sendo a única esperança e a única solução para o mundo.   A liberdade não é de direita ou de esquerda, não é vermelha, azul, marrom ou verde.  Ela tem luz própria, uma luz brilhante que permanece acesa não importa quão espessa seja a névoa criada pela política. 

E isso nunca foi tão evidente quanto nos dias atuais.