Mises Brasil Instituto Ludwig von Mises Brasil
http://www.mises.org.br


O que a Venezuela utilizava antes das velas?
por Daniel Bier, terça-feira, 5 de abril de 2016

Pergunta: Antes das velas, o que os socialistas utilizavam como iluminação?

Resposta: Eletricidade.

A piada é antiga, mas, infelizmente, o humor negro é a realidade na Venezuela.  O paraíso socialista criado por Hugo Chávez e aperfeiçoado por seu sucessor Nicolás Maduro vem quebrando paradigmas e alcançando façanhas: já conseguiu gerar escassez e racionamento de papel higiênico, comida, remédios, cerveja, eletricidade e, agora, água.

(Obviamente, não há absolutamente nenhuma escassez de seu cada vez mais inútil e rejeitado papel-moeda).

Racionamento de energia e apagões sempre foram uma ocorrência regular naquele país socialista.  Porém, nos últimos tempos, as coisas se tornaram tão escabrosas que, às vésperas da Páscoa, Maduro teve essencialmente de decretar que o país tivesse um feriado de uma semana para "poupar" energia e água.

Foi uma medida desesperada para lidar com uma série de apagões que, segundo o governo, foram causados pela seca.  Já segundo a oposição, as causas são a falta de manutenção e de investimentos das hidrelétricas estatais, bem como o controle de preços do governo, que gerou consumo de energia acima da oferta.  Segundo a Bloomberg:

A Venezuela viverá um feriadão de uma semana, enquanto o governo luta com uma crise energética cada vez mais profunda.

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, deu três dias a mais de folga na próxima semana, estendendo o feriado de dois dias da Páscoa, segundo um pronunciamento no Diário Oficial do país publicado na terça-feira. [...]

O governo tem racionado energia elétrica e suprimentos de água por todo o país há meses e pediu aos cidadãos que evitem desperdiçar, enquanto a Venezuela enfrenta uma seca prolongada que derrubou a produção das usinas hidrelétricas.

Os socialistas, que estão no poder, culpam o fenômeno meteorológico El Niño e uma "sabotagem" de inimigos políticos pela escassez. Já os críticos do governo apontam a falta de manutenção e pouco planejamento.

A Venezuela vem há muito sofrendo com constantes apagões que afetam os serviços públicos e que, em algumas ocasiões, deixam seus cidadãos no escuro por dias.  O feriado de uma semana tem o intuito de arrefecer a demanda sobre a já debilitada rede elétrica do país.  Medidas similares, como uma redução forçada no horário de funcionamento dos shopping centers e das repartições públicas, já estão em vigor.

Obviamente, tal paliativo de nada adiantou.  E a escassez de água piorou desde a Páscoa.  Segundo o The Wall Street Jorunal, saques a caminhões-pipas que vão abastecer hotéis se tornaram rotina.  Moradores relatam que, nas poucas horas em que sai água da torneira, ela vem repleta de lama e areia.  E especialistas dizem que o reservatório da maior hidrelétrica do país está tão baixo que é provável que, em poucos dias, a eletricidade tenha de ser cortada durante oito horas por dia.

Segundo o governo, a culpa é do El Niño.  Curiosamente, a vizinha Colômbia, igualmente exposta ao El Ninõ e igualmente dependente de hidrelétricas, não sofre problema nenhum.

O problema, obviamente, está no regime econômico.  A mistura de hiperinflação, controle de preços e gerenciamento estatal não tem como gerar oferta abundante de nenhum bem -- muito menos eletricidade.

Desnecessário dizer que, se houvesse alguma liberdade econômica no país, as empresas de eletricidade teriam todos os incentivos para fazer os planos necessários, as manutenções e se preparar para as contingências.  No extremo, os preços subiriam para garantir que a oferta acomodasse a demanda -- de modo que, se você realmente tivesse de apertar o interruptor ou abrir a torneira, você sempre teria eletricidade e água.

Empresas privadas querem lucro.  Se elas perceberem que não serão capazes de ofertar eletricidade ou água aos preços vigentes, elas terão de ou fazer novos investimentos e expandir a oferta ou, caso não haja concorrência, elevar seus preços -- caso contrário, elas simplesmente não terão nem água e nem eletricidade para fornecer e, consequentemente, não terão receitas e nem lucros. 

Porém, se o governo controla os preços, se ele destrói completamente a moeda ao ponto de inviabilizar qualquer investimento de longo prazo, e se ele é também o dono das empresas (como é o caso na Venezuela, onde as hidrelétricas e os serviços de saneamento são estatais), aí não sobra alternativa para o cidadão senão o racionamento e o blecaute.

Não é apenas de escassez de água e energia, e de excesso de inflação que sofre a Venezuela; acima de tudo, ela sofre de uma escassez de liberdade de empreendimento e de um excesso de reguladores, burocratas e planejadores centrais, cujos infindáveis decretos, controles de preços e estatizações devastaram a economia.

Continua a reportagem da Bloomberg:

"Estamos esperando, se Deus quiser, chuvas virão", disse o presidente em um pronunciamento nacional no sábado. "A economia será de mais de 40% quando essas medidas forem tomadas. Estamos chegando a um ponto difícil que estamos tentando administrar."

Na semana passada, o ministro da Energia venezuelano, Luis Motta Dominguez, alertou que os níveis de água na represa Guri, uma das principais fontes de energia no país, tinha chegado a níveis críticos. Na quarta-feira, contudo, ele insistiu que a rede elétrica na Venezuela não está à beira de um colapso, mas implorou ao setor privado que considerasse o pedido do presidente [de feriado de uma semana].

"Eles podem indiretamente obedecer ao decreto; isso é uma questão de cooperar", afirmou o ministro em uma entrevista veiculada na rede Venevision.

Se a história nos serve de guia, sempre que um burocrata socialista insistir que algo não está à beira do colapso, prepare-se para a pior catástrofe possível.