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Uma defesa do racionalismo - mais razão e menos emoção
por Ludwig von Mises, quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Um racionalista sensato jamais teria a pretensão de afirmar que a razão humana pode chegar a fazer com que o homem se torne onisciente. Ele teria consciência do fato de que, por mais que aumente o conhecimento, sempre haverá dados irredutíveis que não são passíveis de elucidação ou compreensão.

Não obstante -- acrescentaria o nosso racionalista --, para que um homem seja capaz de adquirir conhecimento, ele necessariamente tem de contar com a razão.  O irracional seria aquele dado irredutível, aquele fenômeno mais primário que não pode ser explicado pela lógica.  Já tudo o que é conhecível, na medida em que já seja conhecido, é necessariamente racional.  Não existe uma forma irracional de cognição nem tampouco uma ciência da irracionalidade.

Com relação a problemas ainda não resolvidos, podemos formular diversas hipóteses, desde que elas não contradigam a lógica ou conhecimentos incontestáveis.  Mas, ainda assim, continuarão sendo apenas hipóteses.

Ignoramos, por exemplo, quais são as causas das diferenças inatas da capacidade ou do talento humano.  A ciência não é capaz de explicar por que Newton e Mozart foram geniais ao passo que a maioria dos outros homens não o foram.  

Mas o que não é aceitável é atribuir a genialidade à raça ou à ancestralidade.  A questão a ser respondida é por que uma pessoa difere de seus irmãos de sangue e dos outros membros de sua raça.

Supor que as grandes realizações da raça branca se devem a alguma superioridade racial constitui um erro um pouco mais compreensível.  De qualquer forma, não é nada mais do que uma hipótese vaga e em flagrante contradição com o fato de que devemos a outras raças a própria origem da civilização. Tampouco podemos saber se, no futuro, outras raças suplantarão a civilização ocidental.

Entretanto, esta hipótese racial deve ser avaliada pelos seus próprios méritos.  Não deve ser condenada de antemão só porque os racistas nela se baseiam para postular que existe um conflito irreconciliável entre os vários grupos raciais e que as raças superiores devem escravizar as inferiores.  A lei de associação formulada por Ricardo -- que demonstra quais são as consequências da divisão do trabalho quando um indivíduo ou um grupo coopera com outro indivíduo ou grupo menos eficiente sob todos os aspectos -- há muito tempo já mostrou o equívoco representado por esta maneira de interpretar a desigualdade dos homens.  Não faz sentido combater o racismo negando fatos óbvios. É inútil negar que, até o momento, algumas raças muito pouco ou mesmo nada contribuíram para o progresso da civilização, podendo, neste sentido, ser chamadas de inferiores.

Se quisermos extrair, a qualquer preço, alguma verdade dos ensinamentos marxistas podemos dizer que as emoções influenciam muito o raciocínio humano.  Ninguém pode negar este fato óbvio; tampouco devemos creditar ao marxismo esta descoberta.  E nada disso tem qualquer importância para a epistemologia.  São inúmeros os fatores, tanto de sucesso, como de erro.  É tarefa de a psicologia enumerá-los e classificá-los.

A inveja é uma fraqueza muito comum.  Muitos intelectuais invejam a renda elevada de alguns empreendedores e este ressentimento os conduz à defesa do socialismo. Acreditam que as autoridades de um regime socialista lhes pagariam salários maiores do que aqueles que poderiam ganhar no regime capitalista.  Mas o fato de essa inveja existir não desvia a ciência do dever de examinar cuidadosamente as doutrinas socialistas.  

Os cientistas devem analisar qualquer doutrina como se os seus defensores não tivessem outro propósito a não ser a busca do conhecimento.  Já os ideólogos, em vez de analisar teoricamente doutrinas contrárias às suas, preferem revelar os antecedentes e os motivos de seus autores.  Tal procedimento é incompatível com os mais elementares princípios do raciocínio.

É um artifício medíocre julgar uma teoria por seus antecedentes históricos, pelo "espírito" de seu tempo, pelas condições materiais de seu país de origem ou por alguma qualidade pessoal de seu autor.  Uma teoria só pode ser julgada pelo tribunal da razão. O único critério a ser aplicado é o critério da razão.  

Uma teoria pode estar certa ou errada.  Ocorre que, dado o nosso estágio de conhecimento, talvez não seja possível determinar seu acerto ou erro.  Mas uma teoria jamais poderá ser válida para um burguês ou um americano se não for igualmente válida para um proletário ou um chinês.

Se as doutrinas marxistas ou racistas fossem corretas, seria impossível explicar por que seus seguidores, quando estão no poder, procuram logo silenciar teorias que lhes sejam dissidentes e perseguir quem as defende.  O próprio fato de que existem governos intolerantes e partidos políticos que procuram cassar os direitos de seus opositores, ou mesmo exterminá-los, é uma prova manifesta do poder da razão.  Uma doutrina não pode estar correta quando seus proponentes recorrem à violência para combater seus opositores.  Aqueles que recorrem à violência estão, no seu subconsciente, convencidos da improcedência de suas próprias doutrinas.

É impossível demonstrar a validade dos fundamentos apriorísticos da lógica sem recorrer a estes mesmos fundamentos.  A razão é um dado irredutível e não pode ser analisada ou questionada por si mesma.  A própria existência da razão humana é um fato não-racional.  A única afirmação que pode ser feita sobre a razão é que ela é o marco que separa os homens dos animais e a ela devemos todas as realizações que consideramos especificamente humanas.

Para aqueles que pensam que o homem seria mais feliz se renunciasse ao uso da razão e tentasse deixar-se conduzir somente pela intuição, pelos instintos e pela emoção, não há melhor resposta do que recordar as conquistas da sociedade humana.

A ciência econômica, ao descrever a origem e o funcionamento da cooperação social, fornece todas as informações necessárias a uma escolha entre a racionalidade e a irracionalidade.  Se o homem cogitasse se libertar da supremacia da razão, deveria procurar ao menos saber ao que realmente estaria renunciando.