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Bresser-Pereira nunca decepciona
por Leandro Roque, quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Luiz Carlos Bresser-Pereira, cuja mente assombra o mundo com ideias originalíssimas -- como aquela que substituiu um plano (Plano Cruzado) que se baseava no congelamento de preços, aluguéis e salários por outro plano (Plano Bresser) que se baseava no congelamento de preços, aluguéis e salários --, nunca decepciona.

Sempre que ele faz um comentário sobre economia, a diversão é maior que aquela propiciada por uma esquete de Ricky Gervais.

A mais recente contribuição da invejável mente de Bresser-Pereira para os anais da teoria econômica foi a sua recente postagem em seu perfil no Facebook.  Disse ele:

Confirma-se que o Brasil está saindo da crise

Enquanto os economistas ortodoxos ficam tolamente indignados porque o ajuste fiscal "não é suficiente para tirar o país da crise" e os economistas da esquerda igualmente ficam também tolamente indignados porque "o ajuste fiscal está aprofundando a crise", eu tenho insistido que o ajuste principal o mercado (a lei da oferta e da procura) já fez -- o da taxa de câmbio -- e tenho previsto que logo a economia brasileira estará saindo da recessão. O pessimismo de um lado e de outro é mera incompetência.

Pois bem, afinal as notícias começam a confirmar minha previsão. O superávit comercial de 2015 foi "supreendentemente" maior do que se esperava. E hoje o Valor informa que os bens industrializados voltaram a liderar as exportações depois de um longo inverno de liderança das commodities. Um dia ortodoxos e a esquerda conseguirão revogar a lei da oferta e da procura, mas enquanto isto não acontecer vamos tratar de ver o que acontece com os preços macroeconômicos, principalmente com o mais estratégico (e mais esquecido porque mais temido) de todos: a taxa de câmbio. Ela já está além do equilíbrio competitivo, que estimo ser hoje de cerca de R$ 3,80 por dólar, as as boas empresas brasileiras voltaram a ser competitivas.

Comecemos pelo básico: Bresser-Pereira recorre ao truque de deixar subentendido que as exportações estão se recuperando e que isso decorre da desvalorização do câmbio.  Ambas estão erradas.

Não houve absolutamente nenhuma recuperação das exportações.  Ao contrário: as exportações seguem caindo, não obstante toda a desvalorização cambial (que Bresser-Pereira diz ser o elixir para o crescimento).  O que ocorre é que as importações caíram ainda mais que as exportações, daí o "surpreendente superávit comercial de 2015".

Ou seja, a recessão no Brasil está tão forte, e a queda no poder de compra da população está sendo tão intensa, que o povo simplesmente não está conseguindo importar como vinha fazendo antes.  Ao mesmo tempo, a economia está tão desarrumada e a incerteza está tão grande, que não está havendo investimentos capazes de aumentar a produção e impulsionar as exportações. 

Apresento a Bresser-Pereira este gráfico do Banco Central:

expimp.png

Como é possível ver, tanto as exportações quanto as importações desabaram ao mesmo nível de 2007. Regredimos de 9 anos na economia. 

Em números mais claros, as exportações em 2015 tiveram uma queda de 14,1% em relação a 2014, sendo que o câmbio em 2015 foi consistentemente mais desvalorizado que em 2014.  

Já as importações tiveram uma queda de impressionantes 24,3% em relação a 2014, dando a dimensão de como o poder de compra da população se esfacelou.

No entanto, segundo Bresser, "o Brasil está saindo da crise" e "as boas empresas brasileiras voltaram a ser competitivas".

Resta saber em qual dimensão o economista habita.

Como disse o presidente do IMB, Helio Beltrão:

Bresser Pereira parece residir em um mundo da fantasia. Enquanto os brasileiros perdem poder aquisitivo, perdem emprego e perdem seu presente e futuro, Bresser está feliz pois o dólar subiu.

As 'boas empresas brasileiras' que Bresser diz que se beneficiam estão valendo em média 25% menos em reais, e menos da metade em moeda forte do que valiam há pouco mais de um ano. Keynesianos e neodesenvolvimentistas como Bresser destroem os país com suas ideologias destrutivas, e mesmo em face de todas as evidências em contrário, seguem em sua defesa.

Na realidade, Bresser-Pereira faz parte daquela escola desenvolvimentista que nós, do IMB, nunca nos cansamos de denunciar: pessoas para quem uma taxa de câmbio desvalorizada é o elixir do progresso. 

Para essa turma -- que tem uma estranha e insaciável tara com a destruição do poder de compra da moeda --, dizimar o poder de compra da população é algo bom para a economia.

Segundo tais pessoas, a desvalorização do câmbio -- ou seja, a destruição do poder de compra da moeda -- é o segredo para impulsionar a indústria e o setor exportador brasileiro.  Ao se desvalorizar o câmbio, dizem os gênios, as exportações são estimuladas e, liderada por um aumento nas exportações, a indústria volta a produzir e, por conseguinte, toda a economia volta a crescer.

O primeiro grande problema é que, no mundo globalizado em que vivemos, vários exportadores são também grandes importadores.  Para fabricar, com qualidade, seus bens exportáveis, eles têm de importar máquinas e matérias-primas de várias partes do mundo.  E elas também têm de comprar, continuamente, peças de reposição. 

Se a desvalorização da moeda fizer com que os custos de produção aumentem -- e irão aumentar --, então o exportador não mais terá nenhuma vantagem competitiva no mercado internacional.

Aliás, não deveria causar nenhuma surpresa o fato de a própria indústria automobilística ter vindo a público admitir que a desvalorização cambial -- ao contrário do que pregam os economistas desenvolvimentistas -- não apenas está encarecendo a produção, como também está gerando incertezas para o setor.

Vale lembrar, adicionalmente, que a desindustrialização no Brasil chegou ao auge justamente no período em que a moeda mais se desvalorizou.  A desindustrialização está ocorrendo é justamente agora, quando temos uma moeda fraca, inflação alta, e as maiores tarifas protecionistas da história do real

Exatamente ao contrário do que defendem os economistas desenvolvimentistas, é justamente quando o câmbio está se apreciando (como ocorreu de 2005 a 2008, e de 2010 a 2011 no Brasil), que a indústria fica mais forte.  E é justamente quando o câmbio se desvaloriza (2009, e 2012 em diante), que a indústria encolhe. (Veja todos os gráficos aqui).

E o motivo é óbvio, o que nos leva ao segundo ponto: câmbio desvalorizado significa moeda com menos poder de compra.  Moeda com menos poder de compra significa renda menor para a população e preços em contínua ascensão (o IPCA de 2015 fechou em 10,67% majoritariamente por causa da desvalorização cambial defendida por Bresser). 

E renda menor em conjunto com preços em contínua ascensão significa que a demanda por bens de consumo diminui. 

E isso afeta todo o setor industrial e atacadista.  Afeta toda a cadeia produtiva, que entra em contração e gera o efeito contrário ao imaginado pelos desenvolvimentistas.

No entanto, para essa turma da qual Bresser faz parte, uma desvalorização cambial é algo perfeitamente possível de ser isolado do resto da economia.  Não há efeito colateral nenhum.  A desvalorização irá ajudar a indústria e não prejudicará mais ninguém.  Todos ganham.  Quanto mais desvalorizado for o câmbio -- ou seja, quanto menor for o poder de compra da população --, mais rica será a economia.  Faz sentido, não?  Quanto mais pobre você está, quanto menos você consegue comprar, mais rico você é.

"Destrua o poder de compra da moeda, e surgirão uma Apple, uma Microsoft e uma Google", parece ser o lema deles. Desvalorize o câmbio, e o país vira uma potência industrial. 

Enquanto o ideário econômico estiver sendo ditado por essas pessoas, nossa aspiração será a Venezuela.

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Artigos que aprofundam as visões aqui expostas:

Uma radiografia da destruição do real - ou: não há economia forte com uma moeda doente 

A nossa "depreflação" e o ajuste fiscal que não virá: a necessidade de um novo Plano Real

Três consequências da desvalorização da moeda - que muitos economistas se recusam a aceitar 

Para impedir a destruição do real e do setor industrial, o Banco Central tem de ter concorrência 

A impiedosa destruição do real (números atualizados para agosto)