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É possível encolher o estado brasileiro – e as condições nunca estiveram tão propícias quanto hoje
por Helio Beltrão, sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Nota do editor:

Nesta abrangente e detalhada entrevista, o jornalista e documentarista Adalberto Piotto entrevistou o presidente do IMB, Helio Beltrão, sobre as questões mais prementes hoje na economia e na cultura brasileira.

Segundo Helio, boa parte da população ainda tem a mentalidade de que precisamos de burocratas gerenciando nossas vidas por meio de um estado-babá muito presente na economia.  Ainda predomina a mentalidade de que um burocrata sentado em Brasília, munido de uma caneta, é capaz de saber melhor o que pode funcionar para todos os indivíduos de todos os cantos do país do que todo o conhecimento que está disperso pela sociedade dentro da mente da cada indivíduo.

E a consequência dessa tutela é a perda da autonomia, da liberdade, do dinamismo e da capacidade empreendedorial.

Além disso, e para piorar, há os grupos empresariais e sindicais de sempre, que estão em um confortável conluio com o poder, e que têm todo o interesse de manter a atual máquina de Brasília operando intocada.

Helio também fala sobre a indústria do carimbo, que ainda é muito resiliente.  E isso decorre dos grandes grupos de interesse já encastelados no poder, que ganham com o atual arranjo de criar dificuldades para vender facilidades.  A própria existência de cartórios é boa para empresas já estabelecidas, pois dificulta o surgimento de novos concorrentes. Será muito difícil mudar isso se ainda tivermos a mentalidade de que precisamos desse tipo de controle.

Ao passo que na Suécia e nos EUA qualquer um pode autorizar e registrar uma cópia -- nos EUA, o notário público normalmente é um farmacêutico --, aqui no Brasil a mentalidade cartorial segue firma a despeito de todo o avanço tecnológico já vivenciado pelo mundo.

Para resolver o atual descalabro, não basta apenas "colocarmos um dos nossos em Brasília".  Mesmo que um genuíno libertário assuma a presidência, se a mentalidade da população ainda for estatista, nenhuma reforma poderá ser feita.  Não haverá clamor popular por tais reformas.

Uma analogia que, segundo Helio, retrata bem esse problema, seria a de tentar infiltrar uma pessoa boa e honrada no PCC (Primeiro Comando da Capital) com o intuito de tornar aquela quadrilha uma organização de pessoas boas e decentes.

O que irá acontecer, nesse caso, é que, ou essa pessoa boa irá se corromper e irá se tornar mais um membro da quadrilha, ou ela simplesmente pedirá para sair.

Com o estado, o raciocínio é o mesmo.  O estado tem a sua própria lógica -- a lógica de manter o poder, de usar verbas para proveito da máquina, de fazer acordos de favorecimento a grupos de interesse -- e essa lógica só poderá ser mudada de fora para dentro, por meio de mudanças na mentalidade da população.

Sobre a questão dos programas sociais, Helio afirma que há alternativas não-estatais que funcionariam de maneira muito mais eficaz.  Se, em vez de ter seu dinheiro confiscado por impostos, você tivesse a opção de doar seu dinheiro para ONGs auditadas pelo mercado, você muito provavelmente escolheria uma ONG cuja auditoria independente revelasse que 95% do dinheiro doado realmente chega a quem precisa (ao contrário do modelo estatal, em que 95% é desviado e vai parar nos bolsos de que não precisa), e provavelmente você escolheria uma ONG que trabalha na sua comunidade, de modo que você passaria a ter mais responsabilidade e mais poder de fiscalização e cobrança.

Portanto, mesmo na questão da rede social, há alternativas não-estatais que trazem de volta a questão de responsabilidade individual.  É muito mais importante devolver ao cidadão a responsabilidade por resolver os problemas sociais do que deixar tudo nas mãos de Brasília.

Embora a entrevista seja relativamente longa (29 minutos), esta é sem dúvida uma das melhores e mais completas exposições dos ideais do livre mercado, do voluntarismo e de livre cooperação entre os indivíduos.  E o entrevistador é extremamente competente.  Vale muito a pena.

Feito em 2015, o vídeo foi produzido pela Fecomércio-SP como parte do projeto Um Brasil.