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A origem dos preços
por Ludwig von Mises, domingo, 7 de setembro de 2008

Em última instância, os preços são determinados pelo julgamento de valores feitos pelos consumidores. Cada indivíduo, ao comprar ou ao não comprar e ao vender ou não vender, dá a sua contribuição à formação dos preços de mercado. Mas quanto maior for o mercado, menor será o peso da contribuição de cada indivíduo. Assim, a estrutura dos preços de mercado parece, a um indivíduo, um dado ao qual ele deve ajustar sua própria conduta. Aquilo a que se chama de preço é sempre uma relação que ocorre no interior de um sistema integrado, sistema esse que é o resultado das várias relações humanas.

Os preços refletem as relações de troca. A divisibilidade da moeda, ilimitada para todos os propósitos práticos, torna possível determinar com precisão as relações de troca que, via de regra, passam a ser conhecidas por preços expressos em moeda.

Os preços são determinados entre margens muito estreitas: de um lado, temos as valorações do comprador marginal e as do ofertante marginal, que se abstém de vender; do outro lado, temos as valorações do vendedor marginal e as do comprador potencial marginal, que se abstém de comprar.

As valorações que resultam na determinação dos preços definitivos são diferentes. Cada parte atribui um valor maior ao bem que recebe em relação àquele do qual abdica. A relação de troca - isto é, o preço - não é o produto de uma igualdade das valorações feitas pelos agentes, mas, ao contrário, é resultado de uma discrepância entre essas valorações.

O componente característico do preço de mercado é que ele tende a igualar a oferta à demanda. Quando um preço de mercado se afasta do nível em que oferta e demanda são iguais, a tendência é que - em um mercado desimpedido - o retorno ao equilíbrio se manifeste automaticamente.

Há épocas em que os governos determinam preços máximos e há épocas em que determinam preços mínimos para várias commodities. Há épocas em que eles decretam qual deve ser o salário máximo e há épocas em que determinam o salário mínimo. Somente em relação aos juros é que os governos nunca recorreram à fixação de taxas mínimas; sempre que eles interferiram, foi para estabelecer quais seriam as taxas máximas. Eles sempre encararam com desconfiança a poupança, o investimento e os empréstimos.

Mas, se o governo fixar os preços em um nível diferente daquele que seria estabelecido em um mercado desimpedido, o equilíbrio entre a oferta e a demanda será rompido. Dessa forma, no caso de preços máximos, compradores potenciais acabam não podendo comprar, mesmo estando dispostos a pagar o preço fixado pela autoridade, ou até mesmo um preço maior. Da mesma maneira, no caso de preços mínimos, vendedores potenciais acabam não podendo vender, mesmo estando dispostos a vender pelo preço fixado pela autoridade, ou até mesmo por um preço menor. O preço adotado já não consegue separar os potenciais compradores e vendedores - aqueles que de fato podem comprar e vender - daqueles que não podem fazê-lo. Se as autoridades não quiserem que a alocação dos recursos disponíveis seja determinada pela sorte ou pela violência, terá ela própria de regulamentar a quantidade que cada indivíduo pode comprar. Ou seja, ela terá de recorrer ao racionamento.

Antes dessa intervenção, o governo considerava que os preços de alguns bens estavam muito altos. Como resultado do tabelamento de preços, a oferta desses bens diminuiu ou desapareceu completamente. O governo interferiu porque considerou essas mercadorias como sendo de primeira necessidade, vitais e indispensáveis. Mas sua ação levou a uma redução da quantidade disponível. Foi, portanto, do próprio ponto de vista do governo, uma atitude absurda e contraditória. Um governo é tão eficaz na determinação de preços quanto uma gansa em botar ovos de galinha.

Se o governo não estiver disposto a aceitar tacitamente essas indesejadas e indesejáveis conseqüências, e continuar perseguindo cada vez mais obstinadamente o seu objetivo, fixando os preços de todos os bens e serviços e obrigando todas as pessoas a continuar produzindo e trabalhando por esses preços e salários, ele acabará por eliminar completamente o mercado. Assim, a economia de mercado será substituída pela economia de planejamento central, pelo modelo alemão de socialismo, a chamada Zwangswirtschaft (economia estatizada). Não será mais o consumidor quem dirigirá a produção, ao comprar ou abster-se de comprar; essa função passará a ser exclusivamente do governo.

Os preços são, por definição, determinados pelas pessoas comprando e vendendo ou por aquelas que se abstêm de comprar e de vender. Preços não podem ser confundidos com decretos emitidos por governos ou por outras agências detentoras de um aparato de coerção e compulsão para fazer cumprir suas determinações.

Preços são um fenômeno do mercado. Eles são gerados pelo processo de mercado e são o cerne da economia de mercado. Não há como existir preços fora da economia de mercado. Preços não podem ser criados como se fossem produtos sintéticos.

A própria idéia de preços de custo é algo inconcebível. A razão pela qual o preço do vinho da Borgonha é maior do que o preço do Chianti não é porque os vinhedos da Borgonha são mais caros do que os da Toscana. A causa vai no sentido contrário. É pelo fato de as pessoas estarem dispostas a pagar preços maiores pelo vinho Borgonha do que pelo Chianti é que os vinicultores estão dispostos a pagar mais caro pelos vinhedos da Borgonha do que pelos da Toscana.

Preços de mercado são o fato essencial para o cálculo econômico. Tentativas de eliminar os termos monetários do cálculo econômico são ilusórias. Nenhum método de cálculo econômico é possível além daquele que se baseia nos preços monetários determinados pelo mercado.

O processo de formação de preços é um processo social. Ele é consumado pela interação de todos os membros da sociedade. Todos colaboram e cooperam, cada um no papel específico escolhido para si próprio na estrutura da divisão do trabalho. Concorrendo na cooperação e cooperando na concorrência, todas as pessoas são importantes para que se atinja o resultado final, a saber: a estrutura de preços do mercado, a alocação dos fatores de produção de modo a satisfazer os variados tipos de necessidades e a determinação da porção que cabe a cada indivíduo.