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Somos oprimidos pela tecnologia?
por Jeffrey Tucker, quarta-feira, 4 de abril de 2012

Será que realmente necessitamos de um iPad 3 quando a sensação é a de que o iPad 2 foi lançado há apenas alguns meses?  Era realmente necessário que o Google nos desse o Google+?  Os celulares realmente precisam ser "smart", dado que os convencionais funcionam perfeitamente?  Aproveitando o ensejo, é realmente necessário que qualquer pessoa no planeta seja instantaneamente alcançável por meio de um videofone que funciona com internet sem fio?

A resposta para cada um destas perguntas é não.  Nenhuma inovação é absolutamente necessária.  Com efeito, o telefone, o avião, o motor de combustão interna, a eletricidade, as ferrovias -- nada disso é absolutamente necessário.  Poderíamos livremente ter optado por viver em um estado natural no qual a maioria das crianças morre durante o parto -- aquelas que não morrem, vivem apenas poucas décadas -- e a "medicina" consiste apenas na amputação de membros.  E isto se você for sortudo o bastante para encontrar uma ferramenta capaz de efetuar a façanha.

É verdade que aquelas pessoas que deploram o ritmo da inovação tecnológica não estão realmente ávidas para voltar à idade da pedra.  Elas estão apenas cansadas de ser constantemente pressionadas, impelidas, intimidadas, atormentadas, atazanadas -- ao menos, é assim que elas se sentem -- a aprender coisas novas, a adquirir novas engenhocas, a se manter atualizadas sobre tudo e a estar sempre comprando os últimos lançamentos.

Ano passado, uma pesquisa da Underwriters Laboratories [organização privada americana que faz a certificação de produtos] revelou que a metade dos consumidores "sente que os fabricantes de alta tecnologia criam novos produtos mais rapidamente do que as pessoas precisam deles".  Há várias preocupações, como privacidade, segurança, finanças e afins, mas, acima de tudo, creio que o que está por trás de tal relato é um tipo mais rudimentar de desconforto.

Ter de aprender coisas novas pode ser um incômodo.  As pessoas têm a sensação de que estavam lidando muito bem com a tecnologia dos últimos, logo por que se dar ao trabalho de se atualizar e começar tudo de novo?  Elas imaginam que essa contínua busca pelo novo implicitamente significa estar atacando o estilo de vida atual ou o antigo.

Percebo isso sempre que converso com as pessoas sobre as mais recentes tecnologias.  A primeira reação delas é sempre a mesma: "Não, obrigado.  Já estou farto de todos estes modismos técnicos e de todo este fanatismo da era digital.  O que foi que aconteceu com aquele mundo em que as pessoas praticavam um autêntico contato humano, admiravam a beleza das criações de Deus e desenvolviam relações genuínas em vez de virtuais?"

Todos nós já ouvimos, de um jeito ou de outro, alguma versão desta mesma reclamação.  Portanto, sejamos claros aqui: não há nada de moralmente errado em não se adotar os últimos lançamentos tecnológicos.  Ninguém obriga ninguém a comprar um smartphone, um computador mais rápido, um leitor de livros digitais mais pomposo ou qualquer outra engenhoca.  Não há nenhuma arma apontada para a cabeça de ninguém.  Atualizações tecnológicas são uma extensão da escolha humana -- podemos abraçá-las ou rejeitá-las.

E cada indivíduo possui um temperamento específico.  Algumas pessoas adoram a última novidade ao passo que outras resistem ao máximo em sequer se inteirar a respeito.  Há os primeiros a adotar o último lançamento, há os adotantes tardios e há os dissidentes que resolutamente preferem se manter desatualizados.

Recentemente, conversei com uma pessoa cuja irmã já mais velha se recusa a ter um computador, um endereço de email e até mesmo um celular.  Sim, tais pessoas existem.  Quando as outras irmãs querem entrar em contato com ela, ou elas telefonam para uma linha fixa ou escrevem uma carta, colam um selo e enviam pelos correios.  Não há nenhum compartilhamento de fotos, nenhum vídeo pelo Skype e nenhuma atualização sobre eventos recentes.  Todas as outras pessoas da família são extremamente próximas umas das outras daquela maneira que apenas a tecnologia digital permite, mas esta pessoa específica é a forasteira, a discrepante, alheia a todas as experiências diárias de seus familiares.

Perguntei então se esta pessoa se sente isolada.  A resposta: sim, e ela se sente muito infeliz em relação a isso.  Ele reclama que as pessoas não viajam longas distâncias para ir visitá-la frequentemente.  Elas não telefonem rotineiramente.  E ela não está podendo acompanhar o crescimento dos netos.  Ela tem a constante sensação de que está por fora de tudo, e isso a deprime.

Exatamente.  Esta pessoa não está nada feliz com sua própria escolha.  A questão é que, para ela, fazer esta escolha parecia ser mais fácil do que ter de aprender coisas novas e comprar coisas novas.  Sendo assim, ela dá a desculpa de que sua decisão foi na verdade uma postura íntegra contra a digitalização do mundo.

Minha experiência me diz que estas pessoas não têm a mínima ideia do inconveniente que elas representam para os outros.  Com efeito, diria que elas estão próximas de serem rudes.  Não é nada imoral, enfatizo, mas certamente é algo irritante e importuno.  Em vez de enviarem um email, ou escreverem no Facebook ou clicarem em um botão do Skype, os membros da família têm de escrever por extenso em um papel, colocá-lo dentro de um envelope, ir até uma agência dos correios, comprar um selo e esperar uma semana, ou duas ou três até terem notícias de volta.

É uma enorme maluquice.  As pessoas se prestam a fazer isso durante algum tempo, mas inevitavelmente chega o momento em que elas se cansam dessa trabalheira toda e simplesmente desistem.  Ato contínuo, a pessoa do outro lado fica irritada, lamuriosa e começa a se queixar de que está sendo ignorada por todos.  Mas esta foi exatamente a escolha dela!  Trata-se de uma consequência direta de ter se recusado a aderir ao mundo moderno.

E há também aqueles adotantes tardios que se orgulham de não ter se entregado às mais recentes engenhocas.  Eles se imaginam acima de todos os modismos, totalmente imunes, mais espertos e mais prudentes que todo o resto.  Mas há um motivo de eles serem chamados de "tardios".  Com o tempo, eles finalmente se rendem.  Afinal, aqueles que resistem às novas tecnologias estão simplesmente se isolando do próprio curso da vida.

Uma confissão: eu também já estive entre os adotantes tardios.  Eu soberbamente desprezava os entusiastas da tecnologia.  Cheguei a escrever uma crítica altamente negativa ao provocante livro The Future and Its Enemies (1999), de Virginia Postrel, que, no final, mostrou que havia enxergado aquilo que eu não havia conseguido ver.  À medida que a revolução digital foi avançando cada vez mais, comecei a observar o óbvio: ser um adotante tardio não me trazia absolutamente nenhum benefício.  Ser um adotante tardio significava apenas pagar um preço mais alto na forma de oportunidades abdicadas.  Se algo será extremamente útil amanhã, são enormes as chances de ele ser altamente útil hoje, também.  Demorei bastante para aprender esta lição.

Mas quando finalmente aprendi, meus temores, minhas desculpas, minhas rasas argumentações e meu estranho esnobismo anti-tecnológico desapareceram por completo.

Para realmente se aproveitar a vida, para se retirar dela o máximo proveito, é necessário abraçar o novo sem nenhum medo.  Isso significa entender que temos mais recursos mentais e emocionais para aceitar novos desafios.  Sempre que conseguimos mobilizar estes recursos e encarar estes desafios com coragem e convicção, descobrimos que nossas vidas se tornam mais gratificantes e jubilosas.

O maior dentre todos os mitos que ainda perduram é este de que a era digital reduziu o contato humano.  Muito pelo contrário: ela o expandiu enormemente.  Hoje, podemos manter contato com qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo.  Fazemos novas amizades em uma fração do tempo.  Aquela sensação de isolamento que muitos sentiam está se evaporando diariamente.  Apenas pense: podemos nos mudar para uma nova região ou para um novo país e rapidamente nos descobrirmos cercados por pessoas que compartilham nossos mesmos interesses e gostos, e tudo em uma ínfima fração do tempo que levaríamos outrora.

Como resultado, as mídias digitais deixaram o mundo mais social, mais cativante e mais conectado com tudo e todos como jamais se viu na história da humanidade.  E não estamos falando de um mundo tenebroso típico daquelas histórias de ficção científica em que as máquinas nos controlam; em nossa realidade, são as máquinas que nos servem e são elas que nos permitem viver de maneira melhor e mais confortável do que jamais vivemos.  Por meio da tecnologia, bilhões foram libertados de um estado de existência estático e passaram a vislumbrar novas esperanças e possibilidades mais promissoras.

No século XIX, as pessoas adoravam a tecnologia.  A Feira Mundial era o mais reluzente e mais sensacional evento que ocorria ao longo das décadas.  Todos queriam celebrar os empreendedores responsáveis por tudo aquilo.  Todos entendiam que a tecnologia só é bem sucedida porque nós, como seres humanos, optamos que assim o fosse, e fizemos isso por um motivo: ela é o meio mais apropriado e mais conveniente para auxiliar nossa constante busca por uma vida melhor.

Talvez esta sensação de otimismo tenha sido ofuscada, e até mesmo alterada, em decorrência de os governos terem utilizado a tecnologia para confeccionar a bomba nuclear.  Na Segunda Guerra Mundial, vimos a tecnologia ser utilizada para homicídios em massa e para apavorantes consumações de maldade humana como nunca antes na história.  Logo em seguida, adentramos um período de quase 50 anos durante o qual o mundo ficou congelado de medo em relação aos possíveis novos usos da tecnologia.  Tal período não foi chamado de Guerra Fria à toa.  Quanto ele finalmente terminou, o mundo se abriu e assim pudemos voltar novamente nossas energias para a tecnologia que serve às pessoas, e não para a tecnologia que mata pessoas.

O genuíno "dividendo da paz" é este que você está segurando em suas mãos.  É o seu smartphone.  É o seu leitor de livros digitais.  São os filmes que você baixa, as músicas que você descobriu, os livros que você pode ler, as novas amizades que você fez, a incrível explosão de prosperidade global que nos contemplou durante estes últimos 10 anos.  Tudo isto é a tecnologia a serviço do bem-estar da humanidade.

Portanto, para concluir: não, nós não somos oprimidos pela tecnologia.  Podemos abraçá-la ou rejeitá-la.  Voluntariamente.  Quando optamos por abraçá-la, descobrimos que ela torna mais brilhante não apenas todo mundo ao nosso redor, mas também nossas vidas particulares.  A tecnologia não é algo a ser deplorado, jamais.  Somos incrivelmente afortunados por viver nesta nossa época.  Minha sugestão: experimente se tornar um adotante primário e veja como a sua vida irá melhorar.