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Como o Efeito Ricardo explica o fracasso das medidas de estímulo keynesianas

Na esfera econômica, um ato, um hábito, uma instituição, uma lei não geram somente um efeito, mas uma série de efeitos. Dentre esses, só o primeiro é imediato. Manifesta-se simultaneamente com a sua causa. É visível. Os outros só aparecem depois e não são visíveis. Podemo-nos dar por felizes se conseguirmos prevê-los.

Entre um bom e um mau economista existe uma diferença: um se detém no efeito que se vê; o outro leva em conta tanto o efeito que se vê quanto aqueles que se devem prever.

Frédéric Bastiat

 

Obs 1: Para um melhor entendimento do artigo, sugiro ver antes a majestosa apresentação elaborada pelo IMB sobre a macroeconomia baseada na estrutura de capital, bem como meu artigo sobre a falácia do PIB.

 

Introdução

O Efeito Ricardo é um efeito sobre a estrutura de produção da economia em decorrência de uma maior poupança por parte do consumidor — ou seja, é um dos efeitos causados por um comportamento mais voltado para o consumo futuro em detrimento do consumo presente.

Tem esse nome devido, justamente, a David Ricardo, que mencionou tal efeito em seu livro "Princípios de economia política e tributação".  Esta idéia, posteriormente, foi resgatada por Friedrich A. von Hayek quando concebeu a sua teoria sobre o capital.

O Efeito Ricardo é um dos três efeitos gerados em decorrência desse comportamento poupador.  Os outros dois são: disparidade de lucros entre as diferentes etapas da cadeia produtiva e a diminuição das taxas de juros sobre o preço de mercado dos bens de capital.

O Efeito Ricardo

Para a compreensão do Efeito Ricardo, é necessário compreender a teoria austríaca do capital e da estrutura produtiva.  Como sua principal característica é trabalhar com a desagregação do capital (pois pressupõe que o capital é heterogêneo) e saber que há uma alocação intertemporal dos recursos, Hayek mostrou que uma taxa de juros gerida puramente pelo mercado é o melhor instrumento para coordenar as decisões entre poupança e investimento.  A representação da estrutura produtiva da economia ficou conhecida como triângulo de Hayek.

Em uma economia em crescimento, o tamanho do triangulo aumenta junto com a fronteira de possibilidades de produção (FPP). Portanto, as decisões de consumo, poupança e investimento (e também a expansão artificial do crédito) têm efeitos diretos no crescimento da economia e nas etapas intermediárias de produção. E um desses efeitos é o Efeito Ricardo.

O comportamento poupador causa uma queda na demanda por bens de ordem inferior (bens produzidos nas etapas de produção mais próximas do consumo).  Contrariamente, os bens de ordem superior (produzidos nas etapas de produção mais longe do consumo) sofrem um aumento de sua demanda.  A estrutura produtiva passa a se caracterizar como estando mais orientada para o futuro e com mais estágios de produção.  De forma sustentável, a economia passa a crescer mais rapidamente do que cresceria caso continuasse com seu antigo comportamento, mais consumista.

No mercado de trabalho, os trabalhadores dispensados da produção de bens de ordem inferior são realocados para as etapas de ordem superior, onde há um aumento de demanda por trabalhadores, justamente em virtude da criação de novas etapas de produção. A estrutura produtiva torna-se mais intensiva em capital, gerando maior produtividade.  Obstruções nessa livre mobilidade de trabalho, consequentemente, são uma fonte geradora de desemprego institucional.

2.1 Existe o Efeito Ricardo na nossa atual economia keynesiana?

O Efeito Ricardo desmistifica o paradoxo da poupança defendido por Keynes.  No entanto, medidas keynesianas são adotadas simplesmente porque são extremamente palatáveis aos governos.  Assim, na nossa atual economia keynesiana, não há o Efeito Ricardo, pois não há estímulo para a poupança; adicionalmente, há a total ignorância acerca do funcionamento da estrutura produtiva, dado que economistas keynesianos e de Chicago enxergam o capital como sendo algo homogêneo, e não uma estrutura complexa.

Assim, quando a recessão se instala em uma economia, os economistas convencionais recorrem a medidas tradicionais que visam a estimular o PIB, mas que são insuficientes para diagnosticar a realidade.  Seria necessário, portanto, considerar esses aspectos intermediários da estrutura produtiva da economia, e apenas a teoria austríaca considera essa realidade.

3. A análise das etapas intermediárias de produção

A macroeconomia baseada na estrutura de capital evidencia erros graves da macroeconomia keynesiana.  Consequentemente, ao analisarmos a metodologia do cálculo do PIB sob luz da teoria de Hayek, descobrimos seu principal problema: o PIB não leva em conta as etapas intermediárias da produção e, tampouco, o fator tempo.  Em resumo, o PIB é uma medida do produto final da economia e não uma medida total.

Devido a isso, HUERTA DE SOTO (2009) afirma que a interpretação e a mensuração do PIB levam a conclusões extremamente errôneas, uma vez que a renda movimentada nas etapas intermediárias da estrutura de capital da economia supera em muito a etapa final de produção.  Com isso, as poupanças e os investimentos brutos que ocorrem nas etapas intermediárias não são levados em conta no cálculo do PIB, deixando de fora o principal aspecto da composição do produto da economia, o que leva a erros graves na mensuração do PIB.

Esses erros graves levam, consequentemente, a avaliações, diagnósticos e soluções erradas pra crises econômicas.  O atual exemplo europeu e americano é emblemático: medidas intervencionistas keynesianas são adotadas como solução para a crise, mas não surtem efeito real, algo manifestado nos índices de desemprego.  As medidas se baseiam no grave erro teórico keynesiano (e neoclássico) de não levar em conta o aspecto temporal, chegando à conclusão errônea de que o consumo estimula o emprego.  Na realidade, o emprego ocorre em função da produção, e a produção se dá em função do consumo futuro.

Essa miopia temporal leva a políticas de inflação monetária e endividamento, pois têm como objetivo único aumentar o PIB e o consumo, desestimulando os agentes a poupar — sendo que é a poupança quem sustenta as etapas de produção intermediária — e estimulando-os a gastar.  Como os keynesianos do governo se preocupam apenas com o produto final, não percebem o que ocorre nas etapas intermediárias — e, consequentemente, não entendem por que suas medidas não surtem efeito.

A análise mais acurada do produto e a proposição de soluções plausíveis para a economia só são possíveis se o produto for medido totalmente, ou seja, se o cálculo do PIB for acrescido da medição das etapas intermediárias. SKOUSEN (1990) propõe uma metodologia que leva essas etapas em consideração, em seu livro "The Structure of Producion".

Ao recalcular o produto dos EUA para o ano de 1982, por exemplo, ele encontrou como resultado da nova mensuração quase o dobro do Produto Interno Bruto (PIB), indicando o grau em que o PIB subestima o produto total.  A volatilidade da nova medida é mais de três vezes a volatilidade do PIB, indicando uma intensidade de efeitos na economia maiores do que aqueles que até então eram medidos pelo PIB.  A essa nova mensuração de produto Skousen chamou de "Gross National Expenditures" (GDE).

O GDE é uma estatística adicional que pode ser facilmente integrada na análise macroeconômica padrão.  É definido como o valor de todas as transações na produção de novos bens e serviços, tanto acabados quanto inacabados, em todos as fases de produção dentro de um país durante um ano. Sua composição é a seguinte:

GDE = PIB + IE, onde:

GDE - Gross Domestic Expenditure

PIB - Produto Interno Bruto

IE - valor de todas as transações na produção de novos bens e serviços, tanto acabados quanto inacabados, em todas as fases de produção.

Portanto, se a estrutura produtiva é diferente e mais volátil da que se tem conhecimento, e a mensuração do produto não evidencia o produto total da economia (o que se vê e o que não se vê, resgatando a citação inicial de Bastiat), as distorções no triângulo Hayekiano são mais intensas.  Grande parte da economia "que não se vê" fica gravemente afetada e, por esse motivo, as medidas keynesianas intensificam o problema, acelerando o conflito entre as etapas da estrutura produtiva e transformando uma expansão econômica artificial em recessão.

Conclusões

O Efeito Ricardo é não é muito conhecido na teoria econômica, mas é um dos pilares do crescimento econômico sustentável. È efeito de poupança genuína e somente ela pode proporcionar este tipo de crescimento.

Porém, a miopia keynesiana — que leva a políticas de inflação monetária e endividamento — faz com que esse efeito seja suprimido.  Mais ainda: proporciona o efeito contrário, já que a expansão do crédito — fruto da inflação e do endividamento — dilapida capital em virtude dos investimentos errôneos e insustentáveis, e não proporciona o mesmo crescimento econômico (se é que consegue proporcionar) que a poupança genuína.  E só é possível compreender os males keynesianos quando se compreende a estrutura produtiva de uma economia, a qual é explicada apenas pela teoria austríaca do capital.

Portanto, a metodologia de cálculo do produto deve levar em consideração as etapas intermediárias da estrutura produtiva, justamente para se ver o que não se vê.  Somente assim as medidas keynesianas, que hoje sustentam políticas intervencionistas, serão desmistificadas em plenitude.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BASTIAT, F. Ensaios. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1989.

GARRISON, R. Os triângulos hayekianos e a estrutura do capital

____________. Tiempo y dinero. 2.ed Madrid. Unión Editorial, 2005.

HAYEK, F. Contra Keynes y Cambridge. Madrid. Unión Editorial. 1996.

HUERTA DE SOTO, J. Dinero, crédito bancário y ciclos económicos. 4.ed. Madrid: Unión Editorial, 2009.

PAUL, R. Por que o PIB é uma ficção.

RICARDO, D. Principios de economía política y tributación. Madrid : Pirámide, 2003.

ROQUE, L. As falácias sobre o PIB brasileiro (revisado e atualizado)

SKOUSEN, M. The Structure of Production. New York University Press, New York, 1990.

___________. Gross Domestic Expenditures (GDE): the Need for a New National Aggregate Statistic.



autor

Domingos Crosseti Branda
é mestre em Economia da Escola Austríaca pela Universidade Rey Juan Carlos, Madri.

  • Ubiratan Iorio  26/05/2011 11:18
    Excelente artigo! Parabéns!
  • Rafael Hotz  26/05/2011 12:15
    Eu tentei calcular recentemente o GDE para a economia brasileira num artigo que fiz para o Clube de Vienna... Esbarrei na falta de dados, uma vez que após 2008 o IBGE não divulga mais o valor bruto da produção e o consumo intermediário... Mas consegui estimar para 2003-2008 com alguma eficácia... O investimento total brasileiro é mais de 50% do GDE, comparado aos menos de 20% de FBKF/PIB
  • Getulio Malveira  26/05/2011 16:58
    A clareza na argumentação não é das menores virtudes "austríacas". Muito bom este texto!
  • Miguel A.E. Corgosinho  27/05/2011 10:52
    Ora que bela matéria.

    "GDE - Gross Domestic Expenditure

    PIB - Produto Interno Bruto

    IE - valor de todas as transações na produção de novos bens e serviços, tanto acabados quanto inacabados, em todas as fases de produção.

    Portanto, se a estrutura produtiva é diferente e mais volátil da que se tem conhecimento, e a mensuração do produto não evidencia o produto total da economia (o que se vê e o que não se vê, resgatando a citação inicial de Bastiat), as distorções no triângulo Hayekiano são mais intensas. Grande parte da economia "que não se vê" fica gravemente afetada e, por esse motivo, as medidas keynesianas intensificam o problema, acelerando o conflito entre as etapas da estrutura produtiva e transformando uma expansão econômica artificial em recessão."

    Enfim, o texto acima faz um raciocínio necessário á ANÁLISE SISTEMÁTICA, como disposição natural da ciência econômica; tendo ela, em si mesma, uma abstração da lógica: A=A - sendo o montante monetário das partes intermediárias do primeiro A, o mercado, inversamente, por um observador do segundo A, no PIB; que é igual as inferências feitas no seu interior, em dado período X = valor.

    A lógica da inferência do valor (as partes intermediárias da estrutura produtiva) é a primeira condição de toda medida central, para conexão monetária da economia: porque as partes do primeiro "A", postas como fundamento, significam o que a produção é, e assim será o valor um conteúdo determinado para o equilíbrio seguinte da representação; o mesmo que fala o triângulo intermediário Hayekiano, da moeda - através de poupança e não se vê, com as reservas fracionárias - " acelerando o conflito entre as etapas da estrutura produtiva e transformando uma expansão econômica artificial em recessão".

    Basta que o segundo "A" valha originariamente apenas o valor de que se sabe isso (a moeda como prestação de serviço publico do modo de ação externa, e não o custo da moeda externa ou fracionária), e a questão da medida total da econômica está respondida.

    Portanto, GDE (PIB em inglês) = IE - VALOR do PIB que não está posto, repetitivamente instituído na moeda - pura e simplesmente de estar contido sob. Ou seja o VALOR é um tesouro científico perdido no ar.





  • André Ramos  15/06/2011 11:54
    Miguel, na boa, eu não consigo entender as coisas que vc escreve... Nunca!
    E olhe que já tentei bastante.
  • Tiago Moraes  28/05/2011 13:46
    Vocês do IMB deveriam nos explicar, de forma mais metódica, como o método Skousen não nos levaria a um erro de dupla contagem, visto que a justificativa do método tradicional, para não se mensurar as transações intermediárias, leva em conta que o valor da produção final já computa os valores adicionados da produção intermediária.

    Quanto a questão do erro metodológico keynesiano e dos novo clássicos em desconsiderar o fluxo intertemporal da produção, eu que trabalho com Logística sei perfeitamente o que é isso (just in time, lead time...). O grande erro deles é não considerar que o conceito de "consumo" não pode ser avaliado pelo ponto de vista agregado, mas ao invés disso ele deve ser decomposto em "consumo futuro" e "consumo imediato", ambos concorrentes por sinal. Se fizessem isso, eles compreenderiam que a poupança só é concorrente do consumo imediato, mas é um complemento adicional do consumo futuro e da disponibilidade de recursos para investimentos na produção de bens de capital. Assim, ao injetar discriminadamente dinheiro na economia, os keynesianos dos BC's estariam apenas estimulando o consumo imediato e o investimento nos setores varejistas, escasseando recursos para o setor intermediário, encarecendo assim toda a estrutura destinada a ampliar a produção, levando a economia a uma situação que o s keynesianos achavam impossível, a estagflação.
  • Domingos  30/05/2011 10:10
    Prezado Tiago,\r
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    O cômputo das etapas intermediárias não propicia dupla contagem devido ao princípio de que a produção ocorre no tempo (ver os triângulos hayekianos).\r
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    Em outras palavras, o produto final que é hoje computado no PIB tem componentes que foram produzidos em períodos anteriores e os bens intermediários que estão sendo produzidos hoje farão parte de um produto final futuro.\r
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    A dupla contagem ainda existe no médoto de Skousen, mas não pelo cômputo das etapas intermediárias, mas pelo componente do gasto governamental do PIB.\r
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    Embora muito superior, o método de Skousen ainda apresenta esse erro, o qual pode facilmente ser corrigido pelas premissas de Rothbard sobre Produto Privado Bruto (PPB) e Produto Privado Remanescente (PPR), muito bem explicado pelo artigo de Leandro Roque www.mises.org.br/Article.aspx?id=297\r
    \r
    Um abraço\r
    \r
  • Emerson Luis, um Psicologo  12/12/2014 00:21

    Dívida gera mais dívida, saldo positivo gera mais saldo positivo.

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