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A análise de classe marxista vs. a análise de classe austríaca

No seguinte artigo, tenho três propostas.  Primeiro, irei apresentar algumas teses que constituem o núcleo básico da teoria marxista da história.  Afirmo que todas elas, em sua essência, estão inteiramente corretas.  Em seguida, irei demonstrar como essas corretas teses marxistas foram derivadas de uma base completamente errônea.  Por fim, quero demonstrar como a teoria austríaca, na tradição de Mises e Rothbard, pode fornecer uma explicação correta, embora categoricamente diferente, da validade destas teses marxistas.

Deixe-me começar com o núcleo básico do sistema de crenças marxista:[1]

(1) "A história da humanidade é a história da lutas de classe."[2]  É a história das lutas entre uma classe dominante relativamente pequena e uma classe de explorados bastante numerosa.  A principal forma de exploração é econômica: a classe dominante expropria parte da produção gerada pelos explorados — ou, como dizem os marxistas, a classe dominante "se apropria da mais-valia social e a utiliza para seus próprios propósitos de consumo."

(2) A classe dominante é unida pelo seu interesse comum de manter sua posição exploratória e maximizar sua mais-valia apropriada espoliativamente.  Ela nunca deliberadamente abre mão do poder ou da renda advinda da exploração.  Logo, qualquer perda de poder ou de renda da classe exploradora só será alcançada por meio de conflitos, cujos resultados efetivos vão depender, em última instância, da consciência de classe dos explorados — isto é, se os explorados estão cientes das suas próprias condições, o quão cientes estão disso e, principalmente, se estão conscientemente unidos aos outros membros da sua classe em oposição conjunta à exploração.

(3) O domínio de classe se manifesta essencialmente através de arranjos específicos que estão relacionados à forma como os direitos de propriedade são estipulados — ou, na terminologia marxista, na forma de "relações de produção" específicas.  Para proteger esse arranjo ou essa relação de produção, a classe dominante forma o estado e assume seu comando, transformando-o em um aparato de compulsão e coerção.  O estado impõe uma determinada estrutura de classes e estimula a sua reprodução através da administração de um sistema de "justiça de classe", e ajuda na criação e no sustento de uma superestrutura ideológica voltada para dar legitimidade à existência do domínio de classe.

(4) Internamente, o processo de competição dentro da classe dominante gera uma tendência de crescente concentração e centralização.  Um sistema multipolar de exploração vai sendo gradualmente substituído por um sistema oligárquico ou monopolista.  Um número cada vez menor de centros de exploração continua em operação — e aqueles que continuam estão cada vez mais integrados a uma ordem hierárquica.  Externamente (isto é, no que diz respeito ao sistema internacional), esse processo de centralização levará a guerras imperialistas entre estados e à expansão territorial do domínio explorador.  Quanto mais avançado estiver o processo de centralização, mais intensas serão as guerras.

(5) Finalmente, com a centralização e a expansão do domínio explorador gradualmente se aproximando do seu limite supremo de dominação global, o domínio de classe irá se tornar crescentemente incompatível com uma maior evolução e melhoria das "forças produtivas".  Estagnações econômicas e crises se tornam cada vez mais rotineiras, criando assim as "condições objetivas" para o surgimento de uma revolucionária consciência de classe dos explorados.  A situação se torna propícia para a criação de uma sociedade sem classes, para o "desaparecimento do estado", com o governo do homem sobre o homem sendo substituído pela simples administração das coisas[3].  Como resultado, haverá uma prosperidade econômica sem precedentes.

Todas essas teses podem ser perfeitamente justificáveis, como eu demonstrarei.  Infelizmente, no entanto, o marxismo — que apóia a todas elas — foi a ideologia que fez mais do que qualquer outra para desacreditar as validades dessas teses, justamente por tê-las derivado de uma teoria de exploração evidentemente absurda.

Qual é essa teoria marxista da exploração?  De acordo com Marx, os sistemas sociais pré-capitalistas, como a escravidão e o feudalismo, são caracterizados pela exploração. Não há nenhuma controvérsia quanto a isso. Afinal, o escravo não é um trabalhador livre e não se pode dizer que ele ganha por estar escravizado.  Ao contrário, ao ser escravizado, sua utilidade é reduzida em prol de um aumento na riqueza apropriada pelo escravizador.  O interesse do escravo e o interesse do dono do escravo são de fato antagônicos.  O mesmo é válido quanto aos interesses do senhor feudal que extrai impostos sobre a terra de um agricultor que se apropriou originalmente dela.  Os ganhos do senhor são as perdas do agricultor.  E também não há controvérsia quanto ao fato de que tanto a escravidão quanto o feudalismo de fato obstruem o desenvolvimento das forças produtivas.  Nem o escravo nem o servo serão tão produtivos quanto seriam sem a escravidão ou a servidão.

A idéia genuinamente nova do marxismo foi afirmar que, essencialmente, nada muda quando se sai do sistema escravagista para o sistema capitalista; nada muda se o escravo se torna um trabalhador livre, ou se o agricultor decide cultivar uma terra originalmente apropriada por outra pessoa e paga um aluguel para fazer isso.  Para não haver dúvida, Marx, no famoso capítulo XXIV do primeiro volume de seu O Capital, intitulado "A Chamada Acumulação Original", fornece uma descrição histórica do surgimento do capitalismo, em que chama a atenção para o fato de que grande parte ou até mesmo a maioria da propriedade inicial capitalista é o resultado de pilhagens, anexações e conquistas.

Similarmente, no capítulo XXV, sobre a "Moderna Teoria do Colonialismo", o papel da força e da violência na exportação do capitalismo para o — como diríamos hoje em dia — Terceiro Mundo é fortemente enfatizado. Reconhecidamente, tudo isso está correto em termos gerais — e, na medida em que isso está correto, não pode haver contendas quanto à rotulação desse tipo de capitalismo como explorador.  

Porém, é preciso estar atento para o fato de que, nesse ponto, Marx está incorrendo em uma trapaça.  Ao fazer investigações históricas e incitar a indignação do leitor quanto às brutalidades que ocorreram durante a formação de muitas fortunas capitalistas, ele na verdade está evadindo o assunto em questão.  Ele muda o enfoque e se distrai para o fato de que sua tese é na verdade inteiramente diferente, a saber: que mesmo sob um capitalismo "limpo", por assim dizer (ou seja, sob um sistema no qual a apropriação original do capital foi inteiramente honesta, sem qualquer tipo de pilhagem), com trabalho e poupança, o capitalista que contratou mão-de-obra para ser empregada com seu capital estaria ainda assim praticando exploração.  Com efeito, Marx considerava a comprovação desta tese como a sua mais importante contribuição à análise econômica.

Qual seria, então, sua prova do caráter explorador de um capitalismo limpo?

Sua prova consiste na observação de que os preços dos fatores de produção, em particular os salários pagos aos trabalhadores pelos capitalistas, são menores do que os preços dos bens produzidos.  O trabalhador, por exemplo, recebe um salário que representa os bens de consumo produzidos em três dias, sendo que ele, na verdade, trabalhou cinco dias por seu salário e produziu um total de bens de consumo que excede em valor o que ele recebe como remuneração.  Os bens produzidos durante esses dois dias extras — a mais-valia, na terminologia marxista — são apropriados pelo capitalista.  Portanto, de acordo com Marx, existe exploração.[4]

O que há de errado com essa análise?[5] A resposta se torna óbvia tão logo se pergunta por que seria possível o trabalhador concordar com esse arranjo.  Ele concorda porque seu pagamento salarial representa bens presentes — ao passo que os serviços de sua mão-de-obra representam apenas bens futuros —, e ele, como qualquer ser humano, atribui um valor muito maior aos bens presentes do que aos bens futuros.  Afinal, ele também poderia optar por não vender seus serviços ao capitalista e, com isso, se apossar ele próprio do "valor total" de sua produção.

Mas isso, é claro, significa que ele teria de esperar muito mais tempo até que quaisquer bens de consumo se tornassem disponíveis para ele.  Ao vender sua mão-de-obra, ele demonstra preferir uma menor quantidade de bens de consumo agora a uma quantidade possivelmente maior em algum momento futuro.

Por outro lado, por que o capitalista iria querer fazer um acordo com o trabalhador?  Por que ele iria querer adiantar bens presentes (dinheiro) para o trabalhador em troca de serviços que trarão frutos somente mais tarde? Obviamente, ele não iria querer pagar, por exemplo, $100 agora se ele fosse receber a mesma quantia daqui a um ano.  Neste caso, por que não simplesmente ficar com o dinheiro por um ano e, com isso, receber o benefício extra de tê-lo sob seu total controle durante todo esse tempo?  Ao invés disso, é natural que ele espere receber uma soma maior que $100 no futuro a fim de poder abrir mão dos $100 agora na forma de salário pago para o trabalhador.  Ele espera ser capaz de auferir um lucro — ou, mais corretamente, um retorno de juros.

Ele também é restringido pela preferência temporal, isto é, pelo fato de que um indivíduo invariavelmente prefere possuir um bem no presente a ter esse mesmo bem apenas no futuro.  Se um indivíduo pode obter uma maior soma no futuro sacrificando uma soma menor no presente, por que então o capitalista não poupa mais do que está poupando?  Por que ele não contrata mais trabalhadores do que contrata atualmente, dado que cada um deles promete um retorno de juros a mais? A resposta novamente deveria ser óbvia: porque o capitalista é também um consumidor como qualquer outro indivíduo, e como todo ser humano simplesmente não pode deixar de ser um.  A quantidade que ele pode poupar e investir é restringida pela necessidade de ele, assim como o trabalhador, também requerer uma oferta de bens presentes "suficientemente grande para garantir a satisfação de todas as necessidades cuja satisfação durante o período de espera é considerada mais urgente do que as vantagens que um período ainda maior de produção poderia proporcionar".[6]

O que há de errado, portanto, com a teoria da exploração de Marx é que ele não compreende o fenômeno da preferência temporal como uma categoria universal da ação humana.[7]  O fato de o trabalhador não receber seu "valor total" não tem nada a ver com exploração; simplesmente reflete o fato de que é impossível o homem trocar bens futuros por bens presentes sem que haja um desconto.  Contrariamente ao caso do escravo e do dono de escravos, em que o último se beneficia à custa do primeiro, o relacionamento entre o trabalhador livre e o capitalista é mutuamente benéfico.  O trabalhador entra no acordo porque, dada a sua preferência temporal, ele prefere uma menor quantidade de bens presentes a uma quantidade maior no futuro; e o capitalista entra no acordo porque, dada sua preferência temporal, ele possui uma preferência de ordem inversa, dando mais valor a uma quantidade maior de bens futuros a uma quantidade menor de bens presentes.  Seus interesses não são antagônicos, mas sim harmoniosos.  Caso o capitalista não tivesse a expectativa de receber um retorno de juro, o trabalhador estaria numa situação pior, pois teria que esperar mais tempo do que deseja; e sem a preferência do trabalhador por bens presentes, o capitalista estaria numa situação pior, pois teria que recorrer a métodos de produção mais curtos e com menos estágios — logo, menos eficientes — do que aqueles que deseja adotar.

Tampouco o sistema salarial capitalista pode ser considerado um obstáculo à evolução das forças de produção, como afirma Marx.  Se o trabalhador não pudesse vender seus serviços de mão-de-obra e se o capitalista não os pudesse comprar, a produção não seria maior, mas sim menor, pois a produção teria de ser feita com níveis relativamente reduzidos de acumulação de capital.

Sob um sistema de produção socializado, a evolução das forças produtivas — ao contrário do que afirmava Marx — não alcançaria novos ápices, mas, sim, afundaria dramaticamente.[8]  Afinal, é algo óbvio que a acumulação de capital deve ser feita por indivíduos específicos em pontos específicos do tempo e do espaço por meio da apropriação original, da produção e da poupança.  Em cada caso, a acumulação de capital é realizada na expectativa de que ela levará a um aumento da produção de bens futuros.  O valor que um indivíduo atribui ao seu capital reflete o valor que ele atribui a todas as rendas futuras possibilitadas por esse capital, renda essa descontada por sua preferência temporal.

Se, como no caso de fatores de produção sob propriedade coletiva, um indivíduo não mais possui controle exclusivo do seu capital acumulado — e, portanto, sobre a renda futura a ser derivada do emprego deste capital —, sendo que o controle parcial deste capital foi dado a outros indivíduos que não são produtores e nem poupadores, o valor para esse indivíduo da renda esperada e, consequentemente, o valor dos bens de capital será reduzido.  Sua preferência temporal efetiva subirá; ele passará a ser mais imediatista, mais voltado para o presente.  Haverá menos apropriação original de recursos escassos e menos poupança para a manutenção dos recursos existentes e para a produção de novos bens de capital.  O período de produção, o número de estágios da estrutura de produção, será reduzido e o resultado será um relativo empobrecimento.

Se a teoria marxista da exploração capitalista e suas idéias sobre como acabar com a exploração e estabelecer a prosperidade universal são falsas a ponto de serem ridículas, resta claro que qualquer teoria de história que seja derivada dela também deve ser falsa.  Ou, caso ela esteja correta, sua derivação se deu de modo totalmente incorreto. 

Ao invés de incorrer na prolixa e enfadonha tarefa de explicar todas as falhas presentes no argumento marxista, que começa com sua teoria de exploração capitalista e termina na sua teoria de história como acabei de descrever, tomarei um atalho. A seguir, delinearei, da forma mais breve e correta possível, a teoria austríaca-misesiana-rothbardiana da exploração; farei um esboço explanatório de como essa teoria faz sentido partindo da teoria de classes da história; e ressaltarei, ao longo do percurso, algumas diferenças essenciais entre esta teoria de classes e a teoria marxista, apontando também algumas afinidades intelectuais entre o austrianismo e o marxismo, afinidades essas que advêm de suas convicções comuns de que realmente existe uma exploração e uma classe dominante.[9]

O ponto de partida para a teoria austríaca da exploração é claro e simples, como deve ser.  Na realidade, ele já foi estabelecido por meio da análise da teoria marxista: a exploração caracterizava a relação entre escravo e mestre e entre servo e senhor feudal.  Porém, não foi possível encontrar nenhuma exploração sob um sistema de capitalismo limpo.  Qual a diferença principal entre esses dois casos?  A resposta é: o reconhecimento ou não do princípio da apropriação original (o princípio que diz que os recursos naturais previamente sem dono podem ser apropriados originalmente quando um indivíduo coloca-os em uso ou, segundo as palavras de John Locke, "mistura seu trabalho a eles").

O camponês sob o feudalismo é explorado porque ele não possui controle exclusivo sobre a terra da qual ele se apropriou originalmente, e o escravo porque ele não possui controle exclusivo sobre seu corpo, do qual, obviamente, ele deve ser o proprietário original.  Se, ao contrário, todos possuírem controle exclusivo sobre seus próprios corpos (ou seja, se todos forem trabalhadores livres) e agirem de acordo com o princípio da apropriação original, não há como haver exploração.  É logicamente absurdo afirmar que uma pessoa que se apropria de bens previamente não apropriados por ninguém, ou que emprega esses bens na produção de bens futuros, ou que poupa os bens presentemente apropriados ou produzidos com o intuito de aumentar a oferta futura de bens, estaria explorando alguém ao agir assim.  Nada foi tirado de ninguém nesse processo, e bens adicionais foram realmente criados.

E seria igualmente absurdo afirmar que um acordo voluntariamente feito entre diferentes apropriadores originais, poupadores e produtores envolvendo seus bens e serviços (que foram apropriados de maneira não exploratória) pode possivelmente conter alguma injustiça ou exploração.  Ao contrário, a exploração ocorre justamente quando há algum desvio do princípio da apropriação original.  Ocorre uma exploração sempre que um indivíduo exitosamente adquire o controle parcial ou total de recursos dos quais ele não se apropriou originalmente, não poupou ou não produziu, e os quais ele não adquiriu contratualmente de outro indivíduo que havia sido o genuíno proprietário-produtor desses recursos.  Exploração ocorre quando apropriadores originais, produtores e poupadores são expropriados por não-produtores, não-poupadores e não-contratantes que só chegaram mais tarde.  Exploração é quando pessoas cujas propriedades foram adquiridas por meio do trabalho e do contrato são expropriadas por pessoas que simplesmente alegam ter direitos a essas propriedades; direitos esses derivados do nada, e que desprezam todo o trabalho e todos os contratos feitos por terceiros.[10]

Desnecessário dizer que a exploração assim definida é, com efeito, parte integral da história humana.  Um indivíduo pode adquirir riqueza e aumentá-la tanto por meio da apropriação original, da produção, da poupança ou de contratos, quanto por meio da expropriação pura e simples de outros apropriadores originais, produtores, poupadores ou contratantes.  Não há outras maneiras.  Ambos os métodos são naturais à humanidade.  Junto com a apropriação original, a produção e a contratação, sempre houve no mundo propriedades que foram adquiridas por meio de métodos não-produtivos e não-contratuais.  Na história do desenvolvimento econômico, assim como os produtores e contratantes podem formar empresas, empreendimentos e corporações, também os exploradores podem fazer conluio para criar empreendimentos, governos e estados exploradores em larga escala. 

A classe dominante (a qual, novamente, pode ser internamente estratificada) inicialmente é formada por membros dessa empresa exploradora.  E com uma classe dominante estabelecida sobre um dado território e ocupando-se de expropriar os recursos econômicos de uma classe de produtores explorados, o centro de toda a história de fato passa a ser a luta entre exploradores e os explorados.  A história, portanto, se corretamente contada, é essencialmente a história das vitórias e derrotas dos dominadores em suas tentativas de maximizar suas rendas adquiridas exploratoriamente, e dos dominados em suas tentativas de resistir a essa tendência e de tentar revertê-la.

É quanto a essa abordagem da história que os austríacos e os marxistas concordam, e é por isso que existe uma notável afinidade intelectual entre as investigações históricas austríacas e marxistas.  Ambas as escolas se opõem a uma historiografia que reconhece apenas ação ou interação, tudo econômica e moralmente no mesmo nível; e ambas se opõem a uma historiografia que, ao invés de adotar uma posição com juízo de valor neutro, julga-se no dever de inserir arbitrariamente julgamentos de valor subjetivo com o intuito de realçar suas narrativas históricas.  Em vez disso, a história precisa ser contada em termos de liberdade e exploração, parasitismo e empobrecimento econômico, propriedade privada e sua destruição — caso contrário, ela estará sendo contada falsamente.[11]

Ao passo que empresas produtivas surgem e desaparecem em decorrência do apoio voluntário (ou de sua ausência) dos consumidores, uma classe dominante nunca chega ao poder porque houve uma demanda por ela; tampouco ela abdica do poder quando sua abdicação é explicitamente demandada.  Não se pode dizer, nem com muita imaginação, que apropriadores originais, produtores, poupadores e contratantes demandaram suas próprias expropriações.  Eles devem ser coagidos a aceitá-la, e isso prova de maneira conclusiva que a existência dessa empresa exploradora não é demandada de forma alguma.  Tampouco se pode dizer que uma classe dominante pode ser derrubada por meio da abstenção de transações com ela, assim como tal medida pode pôr abaixo um empreendimento produtivo.  Afinal, a classe dominante adquire sua renda por meio de transações não-produtivas e não-contratuais, sendo assim jamais afetada por boicotes.  O que torna possível o surgimento de uma empresa exploratória, e a única medida que pode extingui-la, é um estado específico da opinião pública — ou, na terminologia marxista, um estado específico de consciência de classe.

Um explorador cria vítimas, e vítimas sempre serão inimigos em potencial.  É possível que essa resistência seja duradouramente suprimida pela força — como, por exemplo, no caso de um grupo de homens que explora outro grupo aproximadamente do mesmo tamanho.  Entretanto, é necessário muito mais do que força para conseguir ampliar a exploração sobre uma população cujo tamanho é várias vezes maior do que o seu.  Para que isso aconteça, uma empresa precisa também ter o apoio do público.  A maioria da população deve aceitar as ações exploradoras como legítimas.  Essa aceitação pode variar do entusiasmo vigoroso à resignação passiva.  Mas é necessário haver uma aceitação no sentido de que uma maioria já deve ter abdicado da ideia de oferecer alguma resistência ativa ou passiva a qualquer tentativa de aquisição de propriedades por meio de métodos não-produtivos e não-contratuais.  A consciência de classe deve estar baixa, rudimentar e confusa. Somente enquanto esse estado de coisas persistir haverá espaço para uma empresa exploradora prosperar, mesmo que realmente não haja nenhuma demanda por ela.

Somente se os explorados e expropriados desenvolverem uma clara idéia de sua real situação e se unirem a outros membros da própria classe por meio de um movimento ideológico que dê expressão à idéia de uma sociedade sem classes, na qual toda forma de exploração é abolida, poderá a força e o poder da classe dominante serem debilitados.  Somente se a maioria do público explorado se tornar conscientemente integrado a esse movimento e se mostrar correspondentemente indignado com todas as aquisições de propriedade que ocorrem por meio de métodos não-produtivos e não-contratuais, e demonstrar desprezo por todos que praticam esses atos, pode aquele poder se desmoronar.

A gradual abolição do domínio feudal e absolutista e o surgimento de sociedades crescentemente capitalistas na Europa Ocidental e nos EUA — junto com um crescimento econômico e populacional sem precedentes — foi resultado de uma crescente consciência de classe entre os explorados, os quais foram ideologicamente moldados pelas doutrinas do direito natural e do liberalismo.  Quanto a isso, os austríacos e os marxistas concordam.[12] Eles discordam, contudo, quanto à próxima afirmação: a reversão desse processo de liberalização e os níveis gradualmente crescentes de exploração nessas sociedades desde o último terço do século XIX, e particularmente consideráveis desde a Primeira Guerra Mundial, são o resultado de uma perda da consciência de classe.  Com efeito, na visão austríaca, o marxismo possui enorme parcela de culpa por essa situação: ele desviou a atenção do correto modelo de exploração (a luta entre o apropriador original/produtor/poupador/contratante e o não-apropriador original/não-produtor/não-poupador/não-contratante) para o falacioso modelo do trabalhador assalariado versus o capitalista, assim bagunçando as coisas.[13]

O estabelecimento de uma classe dominante sobre uma classe explorada — cujo tamanho é várias vezes maior que o seu — por meio da coerção e da manipulação da opinião pública (isto é, por um baixo grau de consciência de classe entre os explorados) possui sua expressão institucional mais básica na criação de um sistema de direito público sobreposto ao direito privado.  A classe dominante se dissocia das outras classes e protege sua posição como classe dominante adotando uma constituição que defende todo o funcionamento de sua própria empresa. Por um lado, ao formalizar as operações internas dentro do aparato do estado, bem como suas relações com a população explorada, uma constituição cria algum grau de estabilidade jurídica.  Quanto mais as noções familiares e populares de direito privado estiverem incorporadas na constituição e no direito público, mais propício isso será para a criação de uma opinião pública favorável.  Por outro lado, qualquer constituição e qualquer lei pública também formalizam o status de imunidade da classe dominante em relação ao princípio da apropriação original.  Uma constituição formaliza o direito dos representantes do estado de incorrerem em aquisições de propriedade por meio de métodos não-produtivos e não-contratuais, e a subordinação suprema do direito privado ao direito público.

A justiça de classe — isto é, a dualidade entre um conjunto de leis para os governantes e outro conjunto para os governados — vem para sustentar esse dualismo do direito público e privado e para sustentar a dominação do direito público sobre o direito privado e infiltrar este por aquele.  Ao contrário do que os marxistas pensam, não é porque os direitos de propriedade privada são reconhecidos pela lei, que a justiça de classe é estabelecida.  Na verdade, a justiça de classe surge precisamente quando uma distinção legal existe entre uma classe de pessoas agindo sob e sendo protegida pelo direito público e outra classe agindo sob e sendo protegida por um direito privado subordinado.  Mais especificamente, portanto, a proposição básica da teoria marxista do estado é particularmente falsa.  O estado não é explorador porque protege os direitos de propriedade dos capitalistas, mas sim porque ele próprio está isento da restrição de ter que adquirir propriedade por meios produtivos ou contratuais.[14]

Entretanto, apesar deste erro fundamental, o marxismo, porque interpreta corretamente o estado como explorador (ao contrário, por exemplo, da Escola da Escolha Pública [Public Choice School], que o vê como uma empresa normal entre outras[15]), nos fornece alguns vislumbres importantes com relação à lógica das operações do estado.  Por exemplo, ele reconhece a estratégica função das políticas estatais de redistribuição de renda. Como uma empresa exploradora, o estado tem de estar, a todos os momentos, interessado em um baixo grau de consciência de classe entre os dominados.  A redistribuição de propriedade e de renda — uma política de divide et impera — é a forma pela qual o estado pode criar uma divisão entre o público e destruir a formação de uma consciência de classe unificadora entre os explorados.

Além disso, a redistribuição do próprio poder estatal por meio da democratização do processo de entrada no aparato estatal — em que as principais posições do governo estão abertas para todos, e em que se concede a todos o direito de participar na determinação dos eleitos e das políticas do estado — é um meio de reduzir a resistência dos explorados à exploração que sofrem.  Ademais, o estado de fato é, como os marxistas o vêem, o grande centro de propaganda ideológica e mistificação: exploração na verdade significa liberdade; impostos na verdade são contribuições voluntárias; relações não-contratuais são na verdade "conceitualmente" contratuais; ninguém é governado por ninguém, mas nós todos nos governamos a nós mesmos; sem o estado não haveria lei nem segurança; e os pobres morreriam, etc.  Tudo isso é parte da superestrutura ideológica concebida para legitimar uma base essencial, porém dissimulada, de exploração econômica.[16] 

E, finalmente, os marxistas também estão corretos ao perceberem a estreita associação entre o estado e as grandes empresas, especialmente a elite bancária — embora a explicação deles para isso seja incorreta.  A razão desse conluio não é que o establishment burguês veja o estado — e por isso o defenda — como o protetor dos direitos de propriedade privada e da santidade dos contratos.  Muito pelo contrário, o establishment corretamente vê o estado como a antítese da propriedade privada, e tem interesse nele justamente por essa razão.  Quanto mais bem sucedida for uma empresa, maior o perigo potencial de ela sofrer uma exploração governamental, mas também maiores serão os ganhos potenciais que poderão ser auferidos caso ela possa conseguir a proteção especial do governo e ficar isenta do peso total da concorrência capitalista.

É por isso que a elite empresarial tem interesse no estado e em tentar infiltrá-lo.  A elite dominante, por sua vez, tem interesse em cooperar com a elite empresarial por causa do poder financeiro desta.  Mais especificamente, a elite bancária é de interesse especial do estado porque, sendo uma empresa exploradora, o estado naturalmente deseja possuir completa autonomia para 'falsificar' dinheiro — isto é, para criar moeda sem restrições.  

Ao se oferecer para incluir a elite bancária em suas próprias maquinações contraventoras, dando aos bancos o privilégio de poderem criar dinheiro adicional sobre todo o dinheiro já criado pelo estado — arranjo esse que ocorre sob um regime bancário de reservas fracionárias —, o estado pode facilmente alcançar seu objetivo: estabelecer um sistema monetário monopolizado pelo estado e um sistema bancário cartelizado e controlado por um banco central.  E por meio dessa direta conexão com o sistema bancário e, por extensão, com os maiores clientes dos bancos, a classe dominante efetivamente se expande para muito além do próprio aparato do estado, chegando até os nervos centrais da sociedade civil — um arranjo não muito diferente, pelo menos em aparência, da imagem que os marxistas tanto gostam de pintar sobre a cooperação entre o sistema bancário, as elites empresariais e o estado.[17]

A competição que ocorre dentro da classe dominante e entre as diferentes classes dominantes gera uma tendência de crescente concentração.  O marxismo está certo quanto a isto.  Entretanto, sua incorreta teoria da exploração novamente faz com que os marxistas situem a causa dessa tendência no local errado.  O marxismo vê essa tendência como sendo inerente à competição capitalista.  Contudo, a realidade é exatamente inversa: é precisamente enquanto as pessoas estiverem envolvidas em um capitalismo limpo, que a competição não será uma forma de interação de soma-zero.  O apropriador original, o produtor, o poupador e o contratante não ganham à custa de terceiros.  Seus ganhos deixam as propriedades físicas de terceiros completamente inalteradas; ou então geram ganhos mútuos (como no caso de todas as trocas firmadas por meio de contratos).

O capitalismo, portanto, aumenta a riqueza absoluta.  Porém, sob esse regime, não se pode dizer que exista qualquer tendência sistemática rumo a uma concentração relativa.[18]  Ao contrário, interações que resultam em uma soma-zero de ganhos caracterizam não apenas o relacionamento entre o governante e o governado, mas também entre governantes que concorrem entre si.  A exploração, definida como aquisições de propriedade por meios não-produtivos e não-contratuais, só é possível quando há algo a ser apropriado coercivamente. Entretanto, se houvesse livre concorrência no ramo da exploração, não restaria mais nada para ser expropriado.  Logo, a exploração requer um monopólio sobre um dado território e sua população; e a concorrência entre os exploradores é, por sua própria natureza, eliminatória e precisa desencadear uma tendência à relativa concentração de empresas exploradoras assim como uma tendência à centralização dentro de cada uma dessas empresas.  O desenvolvimento de estados, e não de empresas capitalistas, fornece a melhor ilustração dessa tendência: há hoje um número significativamente menor de estados controlando exploratoriamente territórios que são muito maiores do que nos séculos anteriores.  E dentro do aparato de cada estado houve de fato uma constante tendência de aumento dos poderes do governo central em detrimento de suas subdivisões regionais e locais.

No entanto, fora do aparato estatal, uma tendência de relativa concentração também se tornou aparente pela mesma razão — não, como já deve estar claro agora, por causa de qualquer característica inerente ao capitalismo, mas sim porque a classe dominante expandiu seu domínio para o seio da sociedade civil por meio da criação de uma aliança entre estados, sistema bancário e grandes empresas, e, em particular, por meio do estabelecimento de um sistema de bancos centrais.  Então, se ocorre uma concentração e uma centralização do poder estatal, é natural que esse processo seja acompanhado paralelamente de um outro processo de relativa concentração e cartelização do sistema bancário e do setor industrial.  Em conjunto com esses maiores poderes estatais, aumentam também os poderes do sistema bancário e das empresas ligadas ao establishment de eliminar seus concorrentes ou de colocá-los em desvantagem econômica por meio de expropriações realizadas por meios não-produtivos e não-contratuais.  A concentração de empresas é simplesmente o reflexo de uma estatização da vida econômica.[19]

Os principais meios utilizados para a expansão dos poderes do estado e para a eliminação dos centros rivais de exploração é a guerra e a dominação militar.  A concorrência interestados implica uma tendência à guerra e ao imperialismo.  Na condição de centros de exploração, seus interesses são antagônicos por natureza.  Ademais, possuindo cada um deles — internamente — o poder de aplicar tributação e o poder absoluto sobre a criação de dinheiro, torna-se possível para as classes dominantes obrigarem terceiros a pagar por suas guerras. Naturalmente, se alguém não tem de pagar ele próprio por seus próprios empreendimentos arriscados, mas pode obrigar terceiros a fazê-lo, então é certo que ele tenderá a assumir mais riscos e a ser mais beligerante do que seria de outra forma.[20] 

O marxismo, ao contrário de muitas das chamadas ciências sociais burguesas, compreende corretamente os fatos: há realmente na história uma tendência ao imperialismo; e os maiores poderes imperialistas são de fato as nações capitalistas mais avançadas.  Entretanto, a explicação novamente é errônea.  É o estado, como uma instituição isenta das regras capitalistas de aquisições de propriedade, que é agressivo por sua própria natureza.  E a evidência histórica de uma correlação próxima entre o capitalismo e o imperialismo contradiz isso apenas aparentemente.

A explicação surge facilmente no fato de que, para ter êxito nas guerras interestados, um estado precisa ter à sua disposição recursos econômicos suficientes (em termos relativos).  Tudo o mais constante, o estado com mais amplos recursos à sua disposição será o vencedor.  Sendo uma empresa exploradora, o estado é por natureza destruidor de riqueza e um obstáculo à acumulação de capital.  A riqueza é produzida exclusivamente pela sociedade civil; e quanto mais fracos os poderes exploradores do estado, mais riqueza e capital a sociedade consegue acumular.  Assim, por mais paradoxal que possa parecer, quanto mais fraco ou mais liberal for um estado internamente, mais o capitalismo irá se desenvolver; poder extrair recursos de uma economia capitalista já desenvolvida torna o estado mais rico; e um estado mais rico é capaz de empreender guerras expansionistas em maior escala e com maior êxito.  É esse relacionamento que explica por que inicialmente foram os estados da Europa Ocidental, e em particular a Grã-Bretanha, as maiores potências imperialistas, e por que no século XX esse papel foi assumido pelos EUA.

E uma explicação similarmente direta, embora novamente totalmente não-marxista, existe para a observação frequentemente feita pelos marxistas de que o sistema bancário e a elite empresarial normalmente estão entre os mais ardorosos apoiadores do poderio militar e do expansionismo imperialista.  Esse apoio não ocorre porque a expansão dos mercados capitalistas necessita que haja exploração, mas sim porque a expansão desses empreendimentos que são protegidos e privilegiados pelo estado requer que essa proteção e privilégio lhes seja estendida também dentro desses países estrangeiros, fazendo com que seus novos concorrentes estrangeiros sejam tolhidos através de aquisições de propriedade feitas por meios não-contratuais e não-produtivos, da mesma forma ou até mais pronunciadamente do que ocorre na concorrência dentro do país de origem.

Especificamente, o establishment bancário e empresarial irá apoiar o imperialismo sempre que esse apoio prometer levar a uma posição de domínio militar do estado aliado sobre outro estado.  Porque assim, a partir de uma posição de força militar, torna-se possível estabelecer um sistema que pode ser chamado de imperialismo monetário.  O estado dominante irá utilizar seu poder superior para impor uma política de inflação coordenada internacionalmente.  Seu próprio banco central irá estabelecer o ritmo do processo de criação de dinheiro, e os bancos centrais dos estados dominados serão obrigados a utilizar essa moeda dominante como suas próprias reservas e, a partir daí, inflacionar sua base monetária de acordo com a inflação que ocorre no estado dominante.  

Assim, junto com o estado dominante e sendo os primeiros recebedores dessa moeda de reserva internacional, o establishment bancário e empresarial pode expropriar propriedades estrangeiras e produtores de riqueza a um custo praticamente zero.  Surge assim uma dupla camada de exploração: um estado estrangeiro e uma elite estrangeira, agindo em conjunto com o estado e a elite nacionais, expropriam silenciosamente a classe explorada dos territórios dominados, causando prolongada dependência econômica e relativa estagnação econômica em relação à nação dominadora.  É essa situação — totalmente não-capitalista — que caracteriza o atual status dos Estados Unidos e do dólar americano, e que gera as (corretas) acusações sobre a exploração econômica feita pelos EUA e sobre o imperialismo do dólar.[21]

Finalmente, a crescente concentração e centralização de poderes exploratórios leva à total estagnação econômica, criando assim as condições objetivas para a destruição final desses poderes e o consequente surgimento de uma sociedade sem classes capaz de produzir uma prosperidade econômica jamais vista.

Ao contrário do que dizem os marxistas, essa sociedade não será o resultado de nenhuma lei histórica.  Com efeito, não existem leis históricas inexoráveis, como os marxistas imaginam.[22] Tampouco será isso o resultado de uma tendência contínua de queda da taxa de lucros, oriunda de um aumento da composição orgânica do capital (isto é, de um aumento na proporção do capital constante em relação ao capital variável), como Marx pensava.  Assim como a teoria do valor-trabalho é irreparavelmente falsa, também o é a lei da tendência de queda da taxa de lucros, a qual se baseia na lei do valor-trabalho.  A fonte do valor, dos juros e do lucro não está exclusivamente no trabalho, mas sim na ação — isto é, no emprego de meios escassos para se atingir determinados fins; ação essa empreendida por agentes econômicos que são limitados pela preferência temporal e pela incerteza (conhecimento imperfeito).  Não há razão para supor, portanto, que mudanças na composição orgânica do capital devam ter qualquer relação sistemática com as mudanças nos juros e no lucro.

Em vez disso, a probabilidade de crises que estimulam o desenvolvimento de um maior grau de consciência de classe (isto é, que estimulam as condições subjetivas para a derrubada da classe dominante) aumenta por causa da — para usar um dos termos favoritos de Marx — "dialética" da exploração da qual falei anteriormente: a exploração é destruidora da formação de riqueza.

Portanto, na concorrência entre empresas exploradoras (estados), aqueles estados que são internamente menos exploradores ou mais liberais tendem a sobrepujar os estados que são internamente mais exploradores e menos liberais, pois aqueles terão mais recursos econômicos (mais riqueza) à sua disposição.  O processo de imperialismo tem inicialmente um efeito relativamente libertador sobre as sociedades que passam a ficar sob seu controle.  Um modelo social relativamente mais capitalista é exportado para sociedades relativamente menos capitalistas (mais exploradoras).  O desenvolvimento das forças produtivas é estimulado: a integração econômica é promovida, a divisão do trabalho é ampliada e um genuíno mercado mundial é estabelecido.  A população aumenta como consequência disso tudo, e as expectativas quanto ao futuro econômico sobem para níveis sem precedentes.[23]

Entretanto, com o domínio explorador se consolidando e a concorrência interestados sendo reduzida ou mesmo eliminada nesse processo de expansionismo imperialista, as limitações externas sobre o poder do estado dominante de explorar sua própria população, bem como seu poder de expropriação, começam a desaparecer gradualmente.  A exploração interna, a tributação e as regulamentações começam a aumentar na medida em que a classe dominante vai chegando mais perto do seu objetivo supremo de dominação global.  A estagnação econômica inevitavelmente se instala e as grandes expectativas — mundiais — são frustradas.  E esse cenário — as grandes expectativas sendo crescentemente frustradas por um realidade econômica depressiva — propicia a clássica situação para o surgimento de um potencial revolucionário.[24] 

Surge uma desesperadora necessidade de apresentar soluções ideológicas para essa crise emergente.  Paralelamente, há também a disseminação da percepção de que o domínio estatal, a tributação e a regulamentação, longe de oferecerem uma solução, na verdade constituem o real problema que precisa ser superado.  

Se nessa situação de estagnação econômica, de crise e de desilusão ideológica[25] uma solução positiva for oferecida na forma de uma sistemática e abrangente filosofia libertária em conjunto com sua contrapartida econômica — a Escola Austríaca de economia —, e se essa ideologia for propagada por um movimento ativista, então as chances de se inflamar o potencial revolucionário para o ativismo se tornam altamente positivas e promissoras.  Pressões antiestatistas irão aumentar e gerarão uma esmagadora tendência ao desmanche do poder da classe dominante e, por conseguinte, do estado como seu instrumento de exploração.[26]

Contudo, caso isso venha a acontecer — e dependendo da intensidade com que venha a acontecer —, isso não resultará na propriedade coletiva dos meios de produção, contrariamente ao modelo marxista.  Com efeito, a propriedade coletiva não é somente economicamente ineficiente, como já foi explicado, mas é também incompatível com a idéia de que o estado vai "desaparecer".[27] Pois se os meios de produção são de propriedade coletiva, e se for realisticamente pressuposto que todas as idéias sobre como empregar esses meios não irão coincidir (apenas por milagre isso ocorreria), então são precisamente os meios de produção sob propriedade coletiva que necessitam de ações estatais contínuas — isto é, de uma instituição coercivamente impondo a vontade de uma pessoa sobre uma outra que discorde.

Ao invés disso, o desaparecimento do estado — e por conseguinte o fim da exploração e o início da liberdade e de uma prosperidade econômica jamais vista — significa o estabelecimento de uma sociedade puramente privada, regulada apenas e somente pelo direito privado.
________________________________________________

Notas

[1] Sobre isso, ver K. Marx e F. Engels, Manifesto Comunista (1848); K. Marx, Das Kapital, 3 vols. (1867; 1885; 1894); dos marxistas contemporâneos, E. Mandel, Marxist Economic Theory (Londres: Merlin, 1962); idem, Late Capitalism (londres: New Left Books, 1975); P. Baran e P. Sweezy, Monopoly Capital (Nova York: Monthly Review Press, 1966); para uma perspectiva não-marxista, L. Kolakowski, Main Currents of Marxism, G. Wetter, Sovietideologie heute (Frankfurt/M.: Fischer, 1962), vol. 1; W. Leonhard, Sovietideologie heute(Frankfurt/M.: Fischer, 1962), vol. 2.

[2] Manifesto Comunista, seção 1.

[3] Manifesto Comunista, seção 2, últimos dois parágrafos; F. Engels, Von der Autoritaet in: Marx e Engels, Ausgewaehlte Schriften, 2 vols. (Berlim Ocidental: Dietz, 1953), vol. 1, p. 606; idem, Die Entwicklung des Sozialismus von der Utopie zur Wissenschaft, idem, vol. 2, p. 139.

[4] Ver K. Marx, Das Kapital, vol. 1; a apresentação mais curta é seu Lohn, Preis, Profit (1865).

[5] Sobre isso, ver Eugen von Böhm-Bawerk, A Teoria da Exploração do Socialismo-Comunismo (disponível gratuitamente em português no site do IMB).

[6] L. v. Mises, Ação Humana, p. 564; ver também Murray N. Rothbard, Man, Economy, and State (Los Angeles: Nash, 1970), pp. 300-01.

[7] Sobre a teoria da preferência temporal dos juros, em adição aos trabalhos citados nas notas 5 e 6, ver também Frank Fetter, Capital, Interest, and Rent (Kansas City: Sheed Andrews and Mcmeel, 1977).

[8] Sobre isso, veja Hans-Hermann Hoppe, A Theory of Socialism and Capitalism (Boston: Kluwer, 1988); idem, "Por que o socialismo sempre irá fracassar"; idem, "The Economics and Sociology of Taxation", in: Taxation: An Austrian View, editado por Lew Rockwell (Auburn: Mises Institute, 1990).

[9] As contribuições de Mises à teoria da exploração e de classe não são sistemáticas. No entanto, através de seus escritos, ele apresenta interpretações históricas e sociológicas que são análises de classe, mesmo que implicitamente. Digna de nota aqui é a sua aguda análise da colaboração entre o governo e a elite bancária em destruir o padrão-ouro para aumentar seus poderes inflacionários como meio de redistribuição de renda e riqueza fraudulentamente e exploratoriamente em favor deles próprios. Veja, por exemplo, seu Monetary Stabilization e Cyclical Policy (1928) in: idem, On the Manipulation of Money and Credit, editado por B. Greaves (Dobbs Ferry: Free Market Books, 1978); veja também seu Socialism (Indianapolis: Liberty Fund, 1981), capítulo 20; The Clash of Group Interests and Other Essays, Occasional Paper no. 7 (Nova York: Center for Libertarian Studies, 1978). Contudo, Mises não fornece um status sistemático à análise de classe e à teoria da exploração porque ele, em última análise, incorretamente concebe exploração como um mero erro intelectual, que a análise econômica correta pode dissipar. Ele não reconhece completamente que a exploração é também, e provavelmente bem mais, um problema de motivação moral que existe a despeito de toda análise econômica. Rothbard adiciona esta percepção à estrutura misesiana da economia austríaca e torna a análise do poder e das elites do poder uma parte integral da teoria econômica e das explicações histórico-sociológicas; e ele sistematicamente expande o argumento austríaco contra a exploração para incluir a ética na teoria econômica, isto é, uma teoria de justiça lado a lado a uma teoria de eficiência, pois assim a classe dominante pode também ser atacada como imoral.  Para a teoria do poder, classe e exploração de Rothbard, veja em particular seu Power and Market (Kansas City: Sheed Andrews and McMeel, 1977); For a New Liberty (New York: McMillan, 1978); The Mystery of Banking (Nova York: Richardson and Snyder, 1983); America's Great Depression (Kansas City: Shjeed and Ward, 1975). Sobre os importantes precursores da análise de classe austríaca, veja L. Liggio, "Charles Dunoyer e o Liberalismo Clássico Francês", Journal of Libertarian Studies 1, no. 3, 1977; R. Raico, "Classical Liberal Exploitation Theory", idem; M. Weinburg, "The Social Analysis of Three Early 19th Century French Liberals: Say, Comte, and Dunoyer", Journal of Libertarian Studies 2, no.1, 1978; J. T. Salerno, "Comment on the French Liberal School", Idem; D. M. Hart, "Gustave de MOlinari and the Anti-Statist Liberal Tradition", 3 partes, Journal of Libertarian Studies 5, nos. 3 e 4, 1981.

[10] Sobre isso, ver também H. H. Hoppe, A Theory of Socialism and Capitalism; idem "The Justice of Economic Efficiency", Austrian Economics Newsletter, 1, 1988; idem, "The Ultimate Justification of the Private Property Ethics", Liberty, Setembro 1988.

[11] Veja também sobre esse tema Lord (John) Action, Essays in the History of Liberty (Indianapolis: Liberty Fund, 1985), F. Oppenheimer, System der Soziologie, Vol. II: Der Staat (Stuttgart: G. Fischer, 1964); A. Ruestow, Freedom and Domination (Princeton: Princeton University Press, 1986).

[12] Sobre isso, veja M. N. Rothbard, "Left and Right: The Prospects for Liberty" in: idem, Egalitarianism as a Revolt Against Nature and Other Essays (Washington, D. C.: Libertarian Review Press, 1974).

[13] Apesar de toda a propaganda socialista em contrário, a falsidade da descrição marxista dos capitalistas e trabalhadores como classes antagônicas também vem a carregar certas observações empíricas: logicamente falando, as pessoas podem ser divididas em classes de maneiras infinitamente diferentes. De acordo com a metodologia ortodoxa positivista (a qual eu considero falsa, mas que pretendo aceitar aqui para o bem da argumentação), o melhor sistema de classificação é aquele que nos ajuda a prever melhor.  Contudo, a classificação de pessoas como capitalistas ou trabalhadoras (ou como representantes de variados graus dentro da condição de capitalista ou de trabalhador) é praticamente inútil para prever qual posição uma pessoa vai tomar sobre as questões políticas, sociais ou econômicas fundamentais. Ao contrário disso, a correta classificação de pessoas como pagadoras de impostos e reguladas vs. consumidoras de impostos e reguladoras (ou como representativas de variados graus da condição de pagadoras ou consumidores de impostos) é também de fato um poderoso previsor. Sociólogos têm quase sempre desconsiderado isso por causa dos preconceitos marxistas que são quase que universalmente compartilhados entre eles. Mas a experiência cotidiana corrobora esmagadoramente minha tese: descubra se alguém é um funcionário público ou não (e seu cargo e salário), e se a renda e a riqueza de uma pessoa fora do setor público é determinada, e em qual medida, pelas compras do setor público e/ou pelas ações regulatórias — as pessoas irão sistematicamente diferir em sua resposta às questões políticas fundamentais dependendo de suas classificações como consumidoras diretas ou indiretas de impostos ou como pagadoras de impostos.

[14] F. Oppenheimer, System der Soziologie, vol. 2, pp. 322-23, apresenta a questão dessa forma:

A norma básica do estado é poder. Isto é, visto pelo lado de sua origem: violência transformada em poder. Violência é uma das forças mais poderosas para moldar a sociedade, mas não é em si uma forma de interação social. Ela precisa se tornar lei no sentido positivo deste termo, isto é, sociologicamente falando, ela precisa permitir o desenvolvimento de um sistema de 'reciprocidade subjetiva'; e isso só é possível através de um sistema de restrições auto-impostas quanto ao uso de violência e com a presunção de certas obrigações por seus arrogados direitos. Neste sentido, a violência é transformada em poder e surge um relacionamento de dominação que é aceito não somente pelos governantes, mas, sob circunstâncias não tão severamente opressivas, também pelos súditos, como expressando uma 'justa reciprocidade'. A partir dessa norma básica, surgem normas secundárias e terciárias implícitas: normas de direito privado, de herança, de direito criminal, obrigacional e constitucional, todas as quais carregam a marca da norma básica de poder e dominação, sendo todas concebidas para influenciar a estrutura do estado de tal forma que aumente a exploração econômica ao seu nível máximo, o qual deve ser compatível com a continuidade da dominação legalmente regulada.

O insight fundamental é o de que "a lei nasce de duas raízes essencialmente diferentes." Por um lado, a partir da lei da associação dos iguais, que pode ser chamada de direito 'natural', mesmo que não seja um 'direito natural'; e, por outro lado, a partir da lei da violência transformada em poder regulado, a lei dos desiguais".

Sobre a relação entre o direito privado e público, veja também F. A. Hayek, Law, Legislation, and Liberty, 3 vols. (Chicago: University of Chicago Press, 1973-79), esp. vol. 1, cap. 6 e vol. 2, pp. 85-88.

[15] Veja J. Buchanan e G. Tullock, The Calculus of Consent (Ann Arbor: University of Michigan Press, 1965), p. 19.

[16] Veja H. H. Hoppe, Eigentum, Anarchie und Staat (Opladen: Westdeutscher Verlag, 1987); idem, A Theory of Socialism and Capitalism.

[17]Veja H. H. Hoppe, "Banking, Nation States and International Politics", Review of Austrian Economics vol. 4, 1989; M. N. Rothbard, The Mystery of Banking, caps. 15-16.

[18] Sobre isso em particular, M. N. Rothbard, Man, Economy, and State, cap. 10, esp. a seção "The Problem of One Big Cartel"; também L. v. Mises, Socialism, caps. 22-26.

[19] Sobre isso, veja, G. Kolko, The Triumph of Conservatism (Chicago: Free Press, 1967); J. Winstein, The Corporate Ideal in the Liberal State (Boston: Beacon Press, 1968); R. Radosh e M. N. Rothbard, eds. A New History of Leviathan (Nova York: Dutton, 1972); L. Liggio e J. J. Martin, eds., Watershed of Empire (Colorado Springs: Ralph Myles, 1976).

[20] Sobre o relacionamento entre o estado e a guerra, veja E. Krippendorff, Staat un Krieg (Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1985); C. Tilly, "War Making and State Making as Organized Crime", in P. Evans et al., eds. Bringing the State Back In (Cambridge: Cambridge University Press, 1985); também R. Higgs, Crisis and Leviathan (Nova York: Oxford University Press, 1987).

[21] Para uma versão mais elaborada desta teoria de imperialismo militar e monetário, veja H. H. Hoppe, "Banking, Nation States and International Politics", Review of Austrian Economics, vol. 4, 1990.

[22] Sobre isso, veja principalmente L. v. Mises, Theory and History (Auburn: Mises Institute, 1985), esp. parte 2.

[23] Pode-se notar aqui que Marx e Engels, mais pronunciadamente no Manifesto Comunista, defenderam o caráter historicamente progressista do capitalismo e elogiaram abertamente suas conquistas sem precedentes.  Com efeito, revisando as passagens relevantes do Manifesto, J. A. Schumpeter conclui:

Nunca, e particularmente por nenhum moderno defensor da civilização burguesa, nada como isso foi escrito, nada foi composto dessa forma em favor da classe empresarial com uma tão profunda e extensa compreensão de quais foram suas conquistas e o que elas significaram para a humanidade. ("The Communist Manifesto in Sociology and Economics", em Essays of J. A. Schumpeter, editado por R. V. Clemence [Port Washington, N. Y.: Kennikat Press, 1951], p. 293)

Dada essa visão do capitalismo, Marx foi ainda mais longe a ponto de defender a conquista britânica da Índia, por exemplo, como um desenvolvimento historicamente progressista. Veja as contribuições de Marx ao New York Daily Tribune de 25 de junho de 1853, 11 de julho de 1853, 8 de agosto de 1853 (Marx e Engels, Werke, vol. 9 [Berlim Ocidental: Dietz, 1960]). Para um marxista contemporâneo tomando uma posição similar quanto ao imperialismo, veja B. Warren, Imperialism: Pioneer of Capitalism (Londres: New Left Books, 1981).

[24] Particularmente sobre a teoria da revolução, veja Charles Tilly, From Mobilization to Revolution (Reading, Mass.: Addison-Wesley, 1978); idem, As Sociology Meets History (New York: Academic Press, 1981).

[25] Para uma abordagem neomarxista sobre a atual era do "capitalismo tardio", caracterizado por uma "nova desorientação ideológica" nascida da permanente estagnação econômica e do esgotamento dos poderes legitimadores do conservadorismo e da social-democracia, veja J. Habermas, Die Neue Unvebersichtlichkeit (Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1985); também idem, Legitimation Crisis (Boston: Beacon Press, 1975); C. Offe, Strukturprobleme des kapitalistischen Staates (Frankfurt/M.: Suhrkamp, 1972).

[26] Para uma abordagem austríaca-libertária do caráter de crise do capitalismo tardio e sobre os prospectos para o nascimento de uma consciência de classe libertária revolucionária, veja M. N. Rothbard, "Left and Right", idem, For a New Liberty, cap. 15; idem, Ethics of Liberty (Atlantic Highlands: Humanities Press, 1982), parte 5.

[27] Sobre as inconsistências internas da teoria marxista do estado, veja também H. Kelsen, Sozialismus und Staat (Wien, 1965).


autor

Hans-Hermann Hoppe
é um membro sênior do Ludwig von Mises Institute, fundador e presidente da Property and Freedom Society e co-editor do periódico Review of Austrian Economics. Ele recebeu seu Ph.D e fez seu pós-doutorado na Goethe University em Frankfurt, Alemanha. Ele é o autor, entre outros trabalhos, de Uma Teoria sobre Socialismo e Capitalismo e The Economics and Ethics of Private Property.



  • Getulio Malveira  13/05/2011 18:13
    Sinceramente não sei ainda o que pensar desse texto. No mínimo perturbador. Mas vou aguardar a segunda parte.
  • Miguel A. E. Corgosinho  13/05/2011 23:55
    "Haverá menos apropriação original de recursos escassos e menos poupança para a manutenção dos recursos existentes e para a produção de novos bens de capital. O período de produção, o número de estágios da estrutura de produção, será reduzido e o resultado será um relativo empobrecimento."

    Se o pessoal não tiver lido outros textos do IMB podem não conseguir o suporte lógico para a interpretação acima.

    Acho que é isso: A síntese para apropriação original de recursos escassos (riquezas) é feita pelas reservas fracionárias combinadas com a compra de títulos públicos. Mas o país tem que transformar a pilhagem das riquezas em dinheiro físico e oferecer pelos estágios da estrutura de produção de novos bens; caso contrário, os bens existentes terão que ser reduzidos para exportações ou "o resultado será um relativo empobrecimento" devido a manutenção dos juros da divida interna feita no período da produção anterior.

    A diferença era que o Marxismo suprimiu a propriedade privada e o capitalismo é um pilhagem dos banqueiros do imperialismo, isto é: eles são os proprietários da propriedade privada dos meios de criação da produção.

    Os investimentos externos levam as riquezas apenas quando elas já existem - no longo prazo.
  • Anon  14/05/2011 02:35
    Apesar de nenhum marxista admitir, a teoria da exploração de Marx dependia da teoria da lei de ferro dos salários.

    Uma verdadeira relação de exploração, a de senhor e escravo, é perfeitamente compatível com a lei de ferro - o senhor só vai conceder ao escravo o mínimo pra que ele se mantenha e se reproduza.

    Se a relação entre capital e trabalho é uma relação de exploração, o que explica o aumento do salário (real e nominal) de trabalhadores?

    O marxista provavelmente vai argumentar que isso é uma conquista adquirida por meio de conflitos, mas isso é uma hipótese insustentável quando você coloca o desenvolvimento de países diferentes em perspectiva. Ele vai acabar tendo que admitir que o capital compete por mão de obra, e portanto o salário é determinado pela produtividade marginal do trabalhador (com o desconto dos juros).
  • augusto  14/05/2011 09:39
    Ha pelo menos um ponto de convergencia entre Marx e Mises: a tomada do Estado por interesses privados e o uso da forca do Estado para disseminacao do que Marx chamou de "superestrutura": o sistema de educacao publica.
  • Róbson da Silveira Kunrath  15/05/2011 19:45
    Gostei muito do artigo. Essa abordagem da preferência temporal da EA sempre me trouxe várias dúvidas. Essa aula do Hoppe com certeza elucidou grande parte delas.

    Aguardando a segunda parte!

    Obrigado IMB!
  • mcmoraes  16/05/2011 10:21
    Este artigo devia ser linkado na seção "Sobre Nós".
  • Getulio Malveira  16/05/2011 12:42
    Sinceramente ainda não acredito no que acabei de ler. Hoppe bem podia ter denominado seu texto de "Manifesto Privatista" e gritado mais umas duas ou três palavras de ordem em prol do despertar da "consciência de classe" dos "explorados" ou sugerido a criação de uma "Internacional Privatista" e coisas do gênero. Por que não?

    O que mais me incomoda não é a apologia absurda à falsa teoria da história de Marx (que não resiste a uma análise semântica minimamente rigorosa), nem a adaptação, por mera analogia, dessa teoria aos princípios do liberalismo (o que pode ser bem plausível na versão de Rothbard). Afinal, se o libertarianismo quer se rebaixar ao mesmo nível do comunismo, socialismo, feminismo ou qualquer outra ideologia de iluminados que querem determinar como a sociedade deve ser, isso é um problema dos que defendem tal ideologia.

    O que me incomoda mesmo é a atribuição dessa falsa teoria à Mises e a alegação de que "[todos] os austríacos" a defedem. Quanto a Mises tenho certeza de que isso é incorreto, basta para isso ler "A Ação Humana". Quanto à totalidade dos austríacos atuais, espero também que o seja. Suponho haver ao menos alguns austríacos que ainda sejam liberais no sentido clássico.
  • Marcos  16/05/2011 13:05
    Também fiquei surpreso com o texto. Percebe-se claramente uma mentalidade revolucionária similar ao do comunismo. O texto chega até mesmo a justificar parte do comunismo, parte essa que é exatamente o erro fundamental daquela ideologia.

    No fundo é tudo a mesma coisa, os inimigos escolhidos é que são outros...
  • mcmoraes  16/05/2011 14:24
    Getúlio e Marcos, por favor, colocando de lado a comparação com Marx, quais são os argumentos falhos do artigo? Da forma como vocês comentaram, parece que o impressionante artigo peca porque fez uma comparação muito próxima entre duas análises que não podem ser comparadas de jeito nenhum, devido a algum motivo misterioso.
  • Leandro  16/05/2011 14:47
    Reforço as perguntas feitas pelo mcmoraes.

    Ademais, um detalhe extremamente importante é que esse texto foi escrito em 1990 -- o que torna a "premonição" apresentada nos dez últimos parágrafos do artigo ainda mais assombrosa em sua acurácia.
  • Miguel A.E. Corgosinho  16/05/2011 14:54
    Permita-me analisar os dois parágrafos abaixo:

    Hoppe disse:

    "Para proteger esse arranjo ou essa relação de produção, a classe dominante forma o estado e assume seu comando, transformando-o em um aparato de compulsão e coerção."

    Puxa esse aparato do sistema bancário (empreendimento da exploração) abaixo é um fundamento protegido e privilegiado do estado contra a ideologia de compulsão e coersão da classe dominante ou não?

    "...o sistema bancário e a elite empresarial normalmente estão entre os mais ardorosos apoiadores do poderio militar e do expansionismo imperialista. Esse apoio não ocorre porque a expansão dos mercados capitalistas necessita que haja exploração, mas sim porque a expansão desses empreendimentos que são protegidos e privilegiados pelo estado requer que essa proteção e privilégio lhes seja estendida também dentro desses países estrangeiros, fazendo com que seus novos concorrentes estrangeiros sejam tolhidos através de aquisições de propriedade feitas por meios não-contratuais e não-produtivos, da mesma forma ou até mais pronunciadamente do que ocorre na concorrência dentro do país de origem.

    Quer dizer que formaram um circulo para infiltração do imperialismo através do apoio dos bancos: "... o apoio não ocorre porque a expansão dos mercados capitalistas NECESSITA que haja exploração" - monetária - sim porque a expansão desses empreendimentos que são protegidos e privilegiados pelo estado requer que essa proteção e privilégio lhes seja estendida também dentro desses países estrangeiros." - estrangeiros aos EUA.

    Qual a finalidade de tolher o crescimento dos países estrangeiros? "...porque a expansão desses empreendimentos que são protegidos e privilegiados pelo estado requer que essa proteção e privilégio lhes seja estendida também dentro desses países estrangeiros, fazendo com que seus novos concorrentes estrangeiros sejam tolhidos..."

    Claro que a maneira que os países estrangeiros são tolhidos ideologicamente é algo que só mestres como Hoppe descreve numa simples expressão, "através de aquisições de propriedade feitas por meios não-contratuais e não-produtivos..." - reservas internacionais (investimentos externos não necessárias) e multiplicados por reservas fracionárias

    Quais seriam os meios não contratuais e não produtivos? - títulos públicos. - fazendo aquisições de títulos públicos com dinheiro criado do nada (multiplicação da poupança) e, porém, - "...da mesma forma ou até mais pronunciadamente do que ocorre na concorrência dentro do país de origem."

    Enfim, Hoppe não é conivente com o Estado e nem com as classes dominantes do momento.
  • Getulio Malveira  16/05/2011 15:57
    Moraes e Leandro. No meu caso, minha oposição à abordagem do Hoppe é meramente lógica. O motivo não é misterioso, mas muito simples: a teoria da história de Marx que Hoppe defende é falsa, ou melhor, inconistente. Sua inconsistência deriva do uso inapropriado do conceito de "classe" que torna o referente do conceito derivado de "classe social" uma entidade autônoma capaz de ação. Tal uso inapropriado é gerado por se atribuir à classe (numérica) a propriedade que a define: "ser explorador", "ser explorado", etc. Uma coisa é dizer que existe uma classe de explorados, outra coisa muito diferente é dizer que existe uma classe exploradora. Seria preciso desdobrar uma análise semântica exaustiva para mostrar com toda a evidência que classes não agem, mas talvez possamos nos contentar com a posição de Mises a esse respeito:\r
    \r
    "A sociedade em si não existe, a não ser através das ações dos indivíduos. É uma ilusão imaginá-la fora do âmbito das ações individuais. Falar de uma existência autônoma e independente da sociedade, de sua vida, sua alma e suas ações, é uma metáfora que pode facilmente conduzir a erros grosseiros." (p. 201)\r
    \r
    "Ação é sempre ação de indivíduos." (p. 201)\r
    \r
    "Se a sociedade, ou o Estado, é uma entidade dotada de vontade e intenção e de\r
    todas as outras qualidades que lhe são atribuídas pela doutrina coletivista, então é\r
    simplesmente absurdo confrontar as aspirações triviais do pobre indivíduo com seus\r
    majestosos desígnios." (p.211. Edição digitalizada pela Ordem Livre)\r
    \r
    Assim, ainda que não fosse possível demonstrar que a teoria é em si mesma falsa ou inconsistente, Hoppe pecaria do mesmo modo ao atribuir à Mises posições que contrariam inteiramente os princípios da praxeologia.\r
    \r
    \r
  • mcmoraes  16/05/2011 17:33
    Getúlio,

    Muito obrigado pela explicação mais detalhada. Entendi seu ponto e confesso que não posso refutá-lo, porém ainda não estou completamente convencido de que você esteja correto. Vejamos o porquê. Você afirma que não é consistente usar o conceito de 'classe social' como entidade autônoma capaz de ação e, para justificar tal afirmação, você cita Mises:

    "A sociedade em si não existe, a não ser através das ações dos indivíduos. É uma ilusão imaginá-la fora do âmbito das ações individuais. Falar de uma existência autônoma e independente da sociedade, de sua vida, sua alma e suas ações, é uma metáfora que pode facilmente conduzir a erros grosseiros." (p. 201)

    Sobre isso penso que o objetivo do HHH no artigo não foi mostrar que a sociedade existe através da ação das famigeradas classes. Além disso, o Mises afirmou que "...falar de uma existência autônoma e independente da sociedade, de sua vida, sua alma e suas ações, é uma metáfora que pode facilmente conduzir a erros grosseiros". No livro Marxism Unmasked, a principal crítica de Mises a Marx em relação às classes não foi em função de que elas não existem, mas que o Marx nunca definiu com clareza o que são as classes: "...But what are these material productive forces? Just as Marx never said what a "class" was, so he never said exactly what the 'material productive forces' are...". No caso do artigo acima, o HHH definiu claramente as classes.

    "Ação é sempre ação de indivíduos." (p. 201)

    Ok, aqui não há o que falar, se considerarmos literalmente o que está no artigo. Porém, eu tendo a pensar que o HHH está se referindo a um tipo de ação claramente definido e representativo de um conjunto violento de indivíduos: o uso da força.

    "Se a sociedade, ou o Estado, é uma entidade dotada de vontade e intenção e de todas as outras qualidades que lhe são atribuídas pela doutrina coletivista, então é simplesmente absurdo confrontar as aspirações triviais do pobre indivíduo com seus majestosos desígnios." (p.211. Edição digitalizada pela Ordem Livre)

    Não estou bem certo do propósito deste parágrafo. Em outras palavras, não sei se entendi bem o parágrafo, mas acho que não é simplesmente absurdo confrontar as aspirações triviais do pobre indivíduo que não deseja ser violentado com seus majestosos desígnios dos seus violentadores.

    Assim, você pode tentar demonstrar que a teoria é em si mesma falsa ou inconsistente, porém não está claramente definido de que forma o Hoppe peca por atribuir a Mises posições que contrariam inteiramente os princípios da praxeologia.
  • Marcos  16/05/2011 17:47
    O Getulio já abordou o ponto que me causou preocupação. Para não ser repetitivo deixo apenas uma reflexão: será que daqui há algumas décadas não vamos fazer uma revolução privatista e colocar no paredão funcionários públicos e donos de bancos pelo simples fato de terem essas profissões?

    Isso é o que me angustia. Os erros do marxismo não são simples erros. São erros que levam ao genocídio. O fato dele ter soltado algumas palavras de ordem ao estilo revolucionário torna o quadro ainda mais sombrio. Sou absolutamente contrário a revoluções políticas que rompam completamente com o paradigma anterior.
  • Getulio Malveira  16/05/2011 18:38
    Muito bem, Moraes. Fico feliz que você não tenha se deixado convencer por minha alegação de que o conceito é inconsistente. Afinal, como eu mesmo disse, a demonstração de sua inconsistência exige um trabalho de análise semântica. Desde que li a primeira parte do artigo tento elabora tal análise, mas como os resultados não são suficientemente claros seria inútil desdobrar aqui a questão, ao menos por enquanto. Caso eu consiga elabora-lo de modo tão claro que não reste dúvida da inconsistência do conceito de "classe social" tal como é usado tanto por Marx quanto por Hoppe, postarei aqui ou deixarei um link para o mesmo. Até lá, vamos esquecer a refutação da teoria das classes é ficar apenas sobre a questão da compatibilidade ou não da teoria da história dela resultante com os princípios da praxeologia, como você mesmo sugere. \r
    \r
    Permita-me tomar algumas de suas afirmações:\r
    \r
    "Sobre isso penso que o objetivo do HHH no artigo não foi mostrar que a sociedade existe através da ação das famigeradas classes".\r
    \r
    Sem dúvida alguma, nem é minha intenção afirmar que Hoppe disse tal coisa. Contudo, veja que a primeira proposição do credo marxista que Hoppe considera correta diz que a história humana é a história da luta de classes, o que torna as classe sociais agentes históricos universais: a história não é feita pela ação de indivíduos humanos, mas de classes, o que convenhamos é um tanto quanto esquisito, principalmente se confrontado com o que Mises afirma sobre a ciência histórica (capítulo II, seção 1 de A Ação Humana).\r
    \r
    "No livro Marxism Unmasked, a principal crítica de Mises a Marx em relação às classes não foi em função de que elas não existem, mas que o Marx nunca definiu com clareza o que são as classes"\r
    \r
    Mas é exatamente isso que move minha objeção. Não afirmo que classes não existam, afirmo que as entidades chamadas de "classes sociais" no interior da teoria marxista não existem. É por isso que se faz necessário esclarecer o que se entende por classe, o que significa "ser classe" e como "ser classe" é diferente de "ser indivíduo". Nem Marx, nem Hoppe o fizeram. O que Hoppe faz é dizer que Marx se equivocou ao delimitar quais as classes sociais relevantes. Em um caso ou em outro as classes permanecem sendo agregados de seres humanos dotados de propriedades autônomas (lutar, explorar, ser explorado, etc). Se você atentar verá que Hoppe utiliza o mesmo conceito também obscuro de "forças produtivas" de Marx, que Mises critica no argumento que você cita. \r
    \r
    "No caso do artigo acima, o HHH definiu claramente as classes"\r
    \r
    Mais uma vez: o que Hoppe faz é definir intensionalmente as classes, ou seja, enunciar o atributo mediante o qual poderiamos reconhecer um indivíduo como pertencente a uma classe particular, ele não define o que seja uma "classe social", que é justamente o que Mises exige. A pergunta: "o que é uma classe?" ou "o que são forças produtivas?" não é respondida nem por Marx, nem por Hoppe. No máximo o que fazerm é enumerar quais são as classes existentes, quais as propriedades e relações entre elas ou quais são as forças produtivas. O que é bastante diferente. Se eu te perguntasse o que é um conjunto numério e você me respondensse com a enumeração dos conjuntos numéricos hoje aceitos (N, Z, R, etc) e a definição de cada um deles você não teria respondido minha pergunta. O caso é o mesmo. \r
    \r
    "Não estou bem certo do propósito deste parágrafo"\r
    \r
    Desculpe por essa citação, seu sentido é bem claro no contexto do capítulo VIII d'A Ação Humana, mas aqui ficou meio deslocada. \r
    \r
    O ponto fundamental é que a praxeologia trata da ação humana. Atribuir categorias da ação a qualquer outra entidade seja a "sociedade" ou "classes sociais" nos leva a cometer erros grosseiros, como o próprio Mises afirma. Gostaria de desenvolver mais esse ponto, mas a resposta já está muito extensa. Vou aguardar sua resposta para que talvez possamos continuar o debate. abraço\r
    \r
    \r
  • mcmoraes  16/05/2011 20:44
    Seu desafio é justo, Getúlio. Dada a sua resposta, creio que meu ponto prioritário agora é entender porque você diz que o HHH não define claramente as classes. Se você conseguir me mostrar que estou enganado quanto a isso, me retirarei da discussão sem sentir necessidade de continuar nos outros pontos; afinal, isso é ponto fundamental do meu contra-argumento.

    Você diz: ...Não afirmo que classes não existam, afirmo que as entidades chamadas de "classes sociais" no interior da teoria marxista não existem. É por isso que se faz necessário esclarecer o que se entende por classe, o que significa "ser classe" e como "ser classe" é diferente de "ser indivíduo" Nem Marx, nem Hoppe o fizeram... No máximo o que fazerm é enumerar quais são as classes existentes, quais as propriedades e relações entre elas ou quais são as forças produtivas. O que é bastante diferente. Se eu te perguntasse o que é um conjunto numério e você me respondensse com a enumeração dos conjuntos numéricos hoje aceitos (N, Z, R, etc) e a definição de cada um deles você não teria respondido minha pergunta. O caso é o mesmo...

    Mas Hoppe fala em seu artigo:

    "...Na história do desenvolvimento econômico, assim como os produtores e contratantes podem formar empresas, empreendimentos e corporações, também os exploradores podem fazer conluio para criar empreendimentos, governos e estados exploradores em larga escala ... A classe dominante [...] inicialmente é formada por membros dessa empresa exploradora..."

    "...O estabelecimento de uma classe dominante sobre uma classe explorada - cujo tamanho é várias vezes maior que o seu - por meio da coerção e da manipulação da opinião pública..."

    "...Por outro lado, qualquer constituição e qualquer lei pública também formalizam o status de imunidade da classe dominante em relação ao princípio da apropriação original..."

    "...E por meio dessa direta conexão com o sistema bancário e, por extensão, com os maiores clientes dos bancos, a classe dominante efetivamente se expande para muito além do próprio aparato do estado, chegando até os nervos centrais da sociedade civil..."

    "...A competição que ocorre dentro da classe dominante e entre as diferentes classes dominantes gera uma tendência de crescente concentração.
    ..."


    "...a classe dominante expandiu seu domínio para o seio da sociedade civil por meio da criação de uma aliança entre estados, sistema bancário e grandes empresas, e, em particular, por meio do estabelecimento de um sistema de bancos centrais..."

    "...o poder de aplicar tributação e o poder absoluto sobre a criação de dinheiro, torna-se possível para as classes dominantes obrigarem terceiros a pagar por suas guerras..."

    "...expropriam silenciosamente a classe explorada dos territórios dominados, causando prolongada dependência econômica e relativa estagnação econômica em relação à nação dominadora..."

    "...A exploração interna, a tributação e as regulamentações começam a aumentar na medida em que a classe dominante vai chegando mais perto do seu objetivo supremo de dominação global..."

    "...Pressões antiestatistas irão aumentar e gerarão uma esmagadora tendência ao desmanche do poder da classe dominante e, por conseguinte, do estado como seu instrumento de exploração..."

    Esses trechos mostram que HHH define as classes (i.e. grupos de indivíduos) da seguinte forma:

    - a classe dos dominantes é formada por todas as pessoas que fazem uso da força, de forma legal ou não; embora o texto deixe claro que só conseguem expandir seus domínios as que estão ligadas a um estado, de forma que podem perpetrar crimes sob o manto da legalidade;

    - a classe dos dominados é formada por todas as pessoas que não fazem uso da força.

    Você não aceita essa definição?

    Como você disse, "no caso de Marx, as classes permanecem sendo agregados de seres humanos dotados de propriedades autônomas (lutar, explorar, ser explorado, etc)". Sim, Marx se perdeu na definição porque as definições de "lutar", "explorar", "ser explorado", etc. são tão ambíguas que não dá para definir nada com elas. No caso do HHH, ao contrário, a definição de "uso da força" não tem ambiguidade: ou você faz o que você deseja ou você faz o que outro agente força você a fazer.


    ps.: aproveitando o gancho, somente agora a notei a nota de rodapé [9], que tece alguns comentários sobre Mises e as classes sociais.
  • Miguel A. E. Corgosinho  17/05/2011 11:18
    "Você não aceita essa definição?

    "no caso de Marx, as classes permanecem sendo agregados de seres humanos dotados de propriedades autônomas (lutar, explorar, ser explorado, etc)". Sim, Marx se perdeu na definição porque as definições de "lutar", "explorar", "ser explorado", etc. são tão ambíguas que não dá para definir nada com elas. No caso do HHH, ao contrário, a definição de "uso da força" não tem ambiguidade: ou você faz o que você deseja ou você faz o que outro agente força você a fazer."

    Os professores que vcs tiveram só ensinaram o ponto de partida dos seus heróis, a classe dominante (sobre o imperialismo e bancos)? Marx verificou na prática o principal defeito da mais valia (a exploração), mas nunca disse que ela se compara aos sentidos de sua atividade humana concreta.

    Pelos comentários, parece que as faculdades de economia não destacam o esquema intelectual de Marx, ou não entenderam que os valores que interpretam que a natureza, tomada abstratamente, isolada, fixada na separação do homem, nada é para ele - é o resultado real da ideologia; e segundo a pesquisa a seguir: a indústria da indústria.

    A visão de Marx:

    Marx pág. 91 - "Os projetos e as intenções das gerações humanas durante milênios cristalizam-se nas coisas. "A famosa unidade do homem tem existido na indústria. A indústria da indústria e a existência objetiva constituída da indústria são o livro aberto das fôrças humanas essenciais, a psicologia do homem concretamente presente...

    A indústria é a relação histórica real da natureza e, por conseguinte, das ciências da natureza, com o homem...

    A natureza em devir na história humana - ato de nascimento da sociedade humana - é a natureza real do homem...

    A própria história da natureza é uma parte real da história da natureza, da transformação da natureza em homem.

    Marx demonstra seu mecanicismo: O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações, portanto, unidade da diversidade. É por isso que ele aparece no pensamento como processo de síntese, como resultado, não como ponto de partida, ainda que seja o verdadeiro ponto de partida. O primeiro procedimento REDUZIU A PLENITUDE DA REPRESENTAÇÃO A UMA DETERMINAÇÃO ABSTRATA; com o segundo, as determinações abstratas conduzem à reprodução concreta por via do pensamento."

    Um parêntese, Marx cometeu um deslize quanto ao ponto de partida da gênese de apropriar-se do concreto, e termina por confundir a verdadeira indústria da indústria - o valor das classes da natureza real a qual criei, abstratamente, para reprodução científica - com a obra do sujeito desconhecido: o capital.

    "Marx Pág. 92: Marx não dá o "salto mortal" do idealista que sempre crê poder passar por cima de sua sombra: reconhecer que só conhecemos a natureza pela ação que exerce sobre nós e pela ação que exerceremos sobre ela não é absolutamente negar que ela exista sem nós, independente de nós, antes e após nós.

    As propriedades materiais de uma coisa, escreve Marx, só fazem confirmar em suas relações exteriores com outras coisas, mas não decorrem delas."
  • Getulio Malveira  17/05/2011 13:51
    Fiquemos só com a questão da definição. Você afirma que Hoppe define claramente as classes sociais. Não discordo de você: todas as suas sitações do Hoppe mostram claramente definições de classes e não é difícil compreender o que Hoppe entende por dominadores e dominados.

    Mas não é essa a questão que eu estou levantando. O que Mises diz sobre Marx é que ele não diz o que é, o que significa uma classe social em geral, qualquer que ela seja. E como ninguém sabe o que seja uma classe social, posso as vezes usar o conceito em sentido puramente numérico, como o Fernando Chiocca usa logo abaixo, quanto postular que classes tem a capacidade de agir, o que envolve um conceito que não é numérico. Hoppe não precisaria dizer o que entende por classe. Se ele utilizasse o conceito de classe sempre com o mesmo sentido, então seria possível dar uma definição a partir desse uso. Mas isso não acontece. Na primeira citação que você faz, ele se refere à "empresa" que obviamente são grupos humanos cooperando para determinado propósito. No caso de empresas ou organizações é perfeitamente legítimo falar, metaforicamente, que um grupo humano está agindo, quando quem agem são seus membros. Mas não é esse o significado que ele está usando nas outras citações. Mais ainda: esse significado que envolve um acordo deliberado é incondizente com a teoria histórica que ele está defendendo (a não ser que recaiamos na mais tola teoria de conspiração). É contra esse tipo de equívoco que Mises ao definir que só indivíduos agem.

    Portanto, não se trata de eu aceitar ou não aceitar as definições de Hoppe das classes dominantes e dominadas. Posso perfeitamente aceitá-las, posso perfeitamente concordar com todas as suas conclusões. O que não posso dizer é que essas conclusões derivem da "Teoria da luta de classes". O que eu, e Mises, queremos saber é o que significa uma classe social.

    PS: Espero que não abandone o debate. Para mim está a ficar muito interessante.
  • mcmoraes  17/05/2011 17:42
    Não se preocupe, Getúlio. Não vou abandonar o debate, pois penso que posso aprender com você.

    Você aceita que o HHH define as classes, mas afirma que ele não define o que é uma classe. Ora, da definição do HHH pode-se inferir que:

    * Uma classe é um grupo de indivíduos que apresenta um comportamento semelhante em relação à sua coercividade. Como não existe coerção parcial, conclui-se que existem apenas duas classes ou grupos de pessoas: os coerçores e os coagidos. *

    Porém, desconfio que você não vai aceitar que essa é a definição do HHH, pois você disse que há disparidade entre a primeira citação que eu fiz e as outras, pois a primeira fala em uma empresa de indivíduos e as outras não. Confesso que não vejo disparidade entre as citações. Por concisão, vou reformular apenas a segunda da seguinte forma, assumindo que o mesmo raciocínio se aplica às outras:

    Original: "...O estabelecimento de uma classe dominante sobre uma classe explorada - cujo tamanho é várias vezes maior que o seu - por meio da coerção e da manipulação da opinião pública..."

    Modificado: "...O estabelecimento de uma classe dominante, formada por membros dessa empresa exploradora, sobre uma classe explorada - cujo tamanho é várias vezes maior que o seu - por meio da coerção e da manipulação da opinião pública..."

    O significado das frases continua o mesmo após a modificação, portanto não há disparidade entre a primeira e as outras citações.

    Além disso, você disse:
    "Mais ainda: esse significado que envolve um acordo deliberado é incondizente com a teoria histórica que ele está defendendo."

    Acredito que formação de qualquer estado (ou empresa exploradora, ou classe dominante) precisa necessariamente envolver um acordo deliberado. Você conseguiria imaginar um estado em que os integrantes da máquina estatal não participam de acordo deliberado? Portanto, o significado que HHH está utilizando não é incondizente com a teoria histórica que ele está defendendo.
  • Getulio Malveira  18/05/2011 17:13
    Muito bem, Moraes. Vou aceitar completamente a definição que você infere do texto de Hoppe. Chamo a atenção para a nota 13, no qual ele reconhece que logicamente podemos dividir os seres humanos em tantas classes quanto queiramos, mas que somente uma, ou algumas, dessas divisões são úteis. \r
    \r
    Da definição que você infere decorre que: todo aquele que executa ou sofre a ação específica que define a classe será membro dessa classe. Assim, explorador é o que executa o ato de explorar e explorado é o que sofre o ato de ser explorado (o que seja "explorar" e "ser explorado" é bastante claro no texto). Adicionalmente, você aplica o princípio do terceiro excluído de modo que todo ser humano ou será explorador ou será explorado, não havendo terceira opção. \r
    \r
    A pergunta agora é se Hoppe usa efetivamente esse conceito bastante válido de "classe social" ou se introduz implicitamente outro conceito. Se ele o faz, sua teoria da história, independentemente ser verdadeira ou falsa, é consistente. Do contrário, ele recai no "sofisma da figura distinta", usando o mesmo conceito em sentidos diferentes. Com saber se Hoppe está usando sempre o mesmo conceito? É bastante simples: se atribuo uma propriedade à classe, isso só pode significar que a atribuo a todos os seus membros, do contrário não estarei mais falando de classes de indivíduos ou de indivíduos, mas de outra coisa. Sigamos sua argumentação:\r
    \r
    "Na história do desenvolvimento econômico, assim como os produtores e contratantes podem formar empresas, empreendimentos e corporações, também os exploradores podem fazer conluio para criar empreendimentos, governos e estados exploradores em larga escala."\r
    \r
    Nada a objetar nesse ponto: Hoppe usa o conceito de classe (ao falar de produtores, contratantes e exploradores) no sentido perfeitamente congruente. Sua tese é bastante simples: assim como produtores formam empresas produtivas, exploradores formam empresas exploradoras. Hoppe introduz uma terceira entidade, mas de modo perfeitamente válido, porque uma empresa é formada pelos indivíduos, cooperando, para determinado fim: produzir, contratar ou explorar. Agora temos três entidades perfeitamente distintas em nosso universo: indivíduos, classes e empresas. \r
    \r
    "A classe dominante (a qual, novamente, pode ser internamente estratificada) inicialmente é formada por membros dessa empresa exploradora."\r
    \r
    Resumindo a argumentação até aqui:\r
    \r
    1. A classe exploradora é obviamente constituída pelos indivíduos que exploram;\r
    2. Os indivíduos que exploram podem agir cooperativamente para formar empresas exploradoras;\r
    3. A classe dominante é (inicialmente) formada por membros [todos ou alguns?] dessas empresas exploradoras;\r
    \r
    De todo modo a derivação é a seguinte: Classe exploradora ? Empresa exploradora ? Classe dominante\r
    \r
    Veja que o conceito de "classe dominante" é diferente do conceito de "classe exploradora", embora decorra dele. Pois para ser membro da classe dominante é preciso antes ser membro de uma empresa exploradora e para ser membro de uma empresa exploradora não basta ser explorador, mas é preciso ser um explorador agindo em conluio com outros. Ademais, o que caracteriza a classe dominante não é a exploração econômica, mas o exercício de um poder que garante a exploração para as empresas exploradoras (isso decorre de todas as afirmações de Hoppe sobre o direito público, a beligerância, o imperialismo, etc). Nada tenho a objetar contra nada disso, porque as derivações que Hoppe faz aqui não são históricas, mas lógicas e fazem parte de uma descrição do funcionamento do Estado com a qual concordo inteiramente. \r
    \r
    O problema aparece, justamente, quando Hoppe permuta os dois conceitos para construir sua teoria da história:\r
    \r
    "E com uma classe dominante estabelecida sobre um dado território e ocupando-se de expropriar os recursos econômicos de uma classe de produtores explorados, o centro de toda a história de fato passa a ser a luta entre exploradores e os explorados."\r
    \r
    Ora, aqui Hoppe faz um percurso inverso: da classe dominante à classe exploradora, sem passar pelas empresas exploradoras, que funcionavam como termo médio. O resultado é atribuir a ação específica dos membros da classe exploradora à classe dominante. A entidade "classe dominante" passa a contar tanto com o atributo próprio de ser uma classe quanto com o atributo de ação e será ao logo do texto tomada ora em um sentido ora em outro. Se o termo "classe dominante" tem algum sentido, então seu significado deve ser o atributo ou a ação comum de seus membros. \r
    \r
    O argumento específico dessa citação, que supostamente deveria mostrar a validade da proposição basilar da teoria da história só é verdadeira se for trivial e, se for trivial, não pode ser a base de nenhuma teoria significativa. Deixe-me ser mais claro: se "classe dominante" significa o mesmo que "classe exploradora", ou um subgrupo dessa (o que parece ter-se que deduzir do fato de que ela se estabeleça para explorar, como diz Hoppe), então o argumento é trivial e afirma somente que classes exploradoras se estabelecem num território para explorar. Como só posso definir a classe pelo atributo dos seus membros, a conclusão é: quem explora, explora em algum lugar - que embora seja verdadeiro é absolutamente trivial (tautológico). Se essa conclusão é trivial, como é que dela Hoppe deduz dela que a história é história de luta de classes? De onde apareceu essa luta? Do fato de que quando usa o conceito de "classe dominante", Hoppe não está se referindo aos exploradores, mas a outra coisa que é meio-classe e meio-empresa. Quando afirma que a "classe dominante se estabelece sobre um território", Hoppe de repente para de falar da classe que anteriormente ele havia delimitado a partir das empresas exploradoras, para falar de outra coisa que tem ao mesmo tempo os atributos da classe exploradora e da empresa exploradora. No restante do texto, a partir do ponto que citei, Hoppe praticamente abandona o conceito de classe exploradora, passando a usar "classe dominante" e "elite" (incluindo a citação que você reformula).\r
    \r
    Sei que a teoria política que Hoppe defende é consistente (não seria um libertário se não admitisse isso), mas afirmo igualmente que não há nenhuma "teoria da história" que decorra logicamente dela. Em nenhum momento do texto Hoppe consegue demonstrar que a proposição "A história é luta de classes" é verdadeira e significativa. Que uma teoria política possa ser usada para explicar um evento histórico (por exemplo: o feudalismo sob a perspectiva libertária) não implica que devamos formular uma teoria histórica libertária que vê em todo evento histórico a manifestação de uma lei regular ao mesmo tempo universal (porque se aplica a qualquer fenômeno passado) e contingente (porque esperamos que deixe de manifestar-se no futuro). \r
    \r
  • anônimo  18/05/2011 18:48

    "mas afirmo igualmente que não há nenhuma "teoria da história" que decorra logicamente dela."

    Crie o mundo real, como forma das classes da natureza real deste mundo, afim de representar a teoria das ações dos homens, nas quais a história dele terás domínio sobre as coisas.

    O mundo real pertencerá, logicamente, ao sistema de procedimentos das classes reais com o movimento da hipóteses da realidade (tempo espaço); o dia que começar a projetar o nosso mundo nas classes a serem distinguidas para a reflexão de valor das coisas, é o decorrer da historia dessa referência fixada para sua igualdade.
  • mcmoraes  19/05/2011 03:02
    Getúlio, mais uma vez, obrigado pelo detalhamento. Aprecio sua didática.

    Quanto ao seu comentário:

    "...Adicionalmente, você aplica o princípio do terceiro excluído de modo que todo ser humano ou será explorador ou será explorado, não havendo terceira opção..."

    Realmente, acho que me passei aqui, porém, acredito, sem prejudicar o argumento. Sim, pode haver pessoas que não se enquadrem em nenhuma das duas classes (i.e. que não sejam nem coerçores nem coagidos), mas assumo aceitável dizer que a existência dessas pessoas é estatisticamente desprezível/irrelevante em relação ao que se considera normal chamar de História da Humanidade. Também é possível dizer que alguns indivíduos são tanto coerçores quanto coagidos, mas isso não impacta em momento algum a discussão.

    Quanto ao restante:

    "...Ora, aqui Hoppe faz um percurso inverso: da classe dominante à classe exploradora, sem passar pelas empresas exploradoras, que funcionavam como termo médio...."

    Do texto entendi que as empresas exploradoras funcionaram como termo médio para a formação dos estados. Com os estados formados, o monopólio da coerção em um determinado território T passou a ser reconhecido e respeitado por todo mundo, habitante ou não de T. Desse momento em diante a bagunça tá feita! Quando o estado é criado, não há mais distinção entre Classe exploradora VS. Empresa exploradora VS. Classe dominante, pois o estado assume todos esses papéis. Portanto, entendo que a sua identificação das etapas evolutivas ("Classe exploradora -> Empresa exploradora -> Classe dominante") reflete a explicação que HHH deu para o que aconteceu até a criação dos estados e perde a finalidade após o surgimento destes.

    "...O resultado é atribuir a ação específica dos membros da classe exploradora à classe dominante. A entidade "classe dominante" passa a contar tanto com o atributo próprio de ser uma classe quanto com o atributo de ação e será ao logo do texto tomada ora em um sentido ora em outro. Se o termo "classe dominante" tem algum sentido, então seu significado deve ser o atributo ou a ação comum de seus membros..."

    Eu não vejo problema nisso. Veja bem, eu sei que uma classe não pode agir, e que quem age são seus integrantes. Porém, o único atributo definidor da classe é relativo a uma ação. Ou os indivíduos são sujeitos da ação ou são os objetos da ação. E, sendo possível identificar claramente os sujeitos e os objetos da ação, não há realmente problema em se tomar ao longo do texto ora um sentido ora outro, pois eles representam de fato a mesma coisa. Por exemplo, quando o HHH fala "a classe dominante expandiu seu domínio para o seio da sociedade civil...", ele está dizendo que um ou mais integrantes da classe dominante (não necessariamente todos) agiram de forma coordenada para aumentar seu domínio. Vamos ilustrar com um exemplo corriqueiro. Suponha uma situação em que a folha de pagamento de alguns, e somente alguns, dos elementos da classe dominadora torna-se impagável com o que se tem de dinheiro de impostos e que tais elementos demandam seus pagamentos. Os integrantes da classe dominadora que são responsáveis pelas cobranças não querem aumentar os impostos, mas os integrantes "mais-alto-nível" da classe dominadora não podem deixar por isso mesmo, pois não querem perder o controle da situação, então ordenam que os integrantes da classe dominadora que são responsáveis pela impressão do dinheiro entre em ação. Pronto! Pode-se dizer a classe dominante agiu.

    "...Hoppe de repente para de falar da classe que anteriormente ele havia delimitado a partir das empresas exploradoras, para falar de outra coisa que tem ao mesmo tempo os atributos da classe exploradora e da empresa exploradora. No restante do texto, a partir do ponto que citei, Hoppe praticamente abandona o conceito de classe exploradora, passando a usar "classe dominante" e "elite" (incluindo a citação que você reformula)..."

    Aqui fica claro que você não aceita de jeito nenhum que os termos diferentes que o HHH utilizou possam significar a mesma coisa. Mas eu acho que a diferença entre os termos é meramente sintática e, como disse antes, se de fato apresentam alguma distinção, ela só existe no tempo anterior à criação do estado. Obviamente, a prova de que estou errado pode ser feita simplesmente a partir da identificação de um único exemplo em que se mostre claramente que os diferentes termos não possam ser considerados sinônimos.
  • Getulio Malveira  19/05/2011 18:02
    Moraes. Parece que se não estamos nos aproximando de um consenso ao menos estamos esclarecendo o ponto no qual discordamos. Se realmente compreendi sua resposta, o que você afirma é que "classe exploradora" e "classe dominante" são sinônimos. Eu por outro lado, não só afirmo que não são sinônimos como que Hoppe não usa o termo "classe dominante" no sentido lógico-matemático referido na nota 13. Peço que me confirme se é exatamente essa nossa discordância e que reveja a seguinte citação:\r
    \r
    "E com uma classe dominante estabelecida sobre um dado território e ocupando-se de expropriar os recursos econômicos de uma classe de produtores explorados, o centro de toda a história de fato passa a ser a luta entre exploradores e os explorados." \r
    \r
  • mcmoraes  19/05/2011 18:43
    Sim, Getúlio, eu confirmo. Porém, conto com você para me esclarecer.

    "...E com uma classe dominante estabelecida sobre um dado território e ocupando-se de expropriar os recursos econômicos de uma classe de produtores explorados, o centro de toda a história de fato passa a ser a luta entre exploradores e os explorados..."

    De acordo com o meu entendimento a citação pode ser re-escrita da seguinte forma, sem perda da significado:

    "...E com [o Estado criado], o centro de toda a história de fato passa a ser a luta entre [os Estados e seus súditos, e entre Estados entre si]..."

    Visto que os fatos históricos considerados mais relevantes são, em grande parte, descrições de interações e ou de consequências de interações baseadas na coerção entre Estados com súditos e entre Estados entre si, não vejo problema algum com a citação.
  • Getulio Malveira  19/05/2011 19:27
    "...E com uma classe dominante estabelecida sobre um dado território e ocupando-se de expropriar os recursos econômicos de uma classe de produtores explorados, o centro de toda a história de fato passa a ser a luta entre exploradores e os explorados..."\r
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    \r
    "...E com [o Estado criado], o centro de toda a história de fato passa a ser a luta entre [os Estados e seus súditos, e entre Estados entre si]..."\r
    \r
    \r
    Admitindo que você esteja certo e que classe exploradora = Estado (empresa exploradora) = classe dominante, então é certo que Hoppe não usa a palavra classe no sentido numérico porque obviamente o Estado não é uma classe, mas uma organização. Parece-me muito evidente aqui que Hoppe muda o sentido da palavra classe, ao falar de classe dominante, para que se assemelhe ao que conhecemos como Estado, mas que não usa a palavra Estado porque deseja a todo custo provar que Marx estava certo quando disse que "a história é luta de classes". Hoppe poderia muito bem ter afirmado que a história se desdobra como uma luta entre indivíduos, ou entre empresas e indivíduos, ou entre empresas e empresas, mas dizer que é luta entre classes não faz o menor sentido já que classes só existem em nossas mente quando imaginamos uma característica qualquer e dividimos os indivíduos de acordo com essa característica. No mínimo você há de admitir que Hoppe cria uma confusão desnecessária, quando poderia ter sido muito mais claro. \r
    \r
    Se você prestar atenção a algumas outras discussões aqui no site, verá quanta confusão se cria quando deixamos de falar de entidades determinadas como indivíduos, empresas e organizações para falar de classes e coletividades abstratas.
  • mcmoraes  19/05/2011 20:08
    "Parece-me muito evidente aqui que Hoppe muda o sentido da palavra classe, ao falar de classe dominante, para que se assemelhe ao que conhecemos como Estado, mas que não usa a palavra Estado porque deseja a todo custo provar que Marx estava certo quando disse que "a história é luta de classes"... No mínimo você há de admitir que Hoppe cria uma confusão desnecessária, quando poderia ter sido muito mais claro..."

    Nas palavras do HHH, foi o próprio Marx quem bagunçou o conceito da história da luta de classes:

    ...Com efeito, na visão austríaca, o marxismo possui enorme parcela de culpa por essa situação: ele desviou a atenção do correto modelo de exploração (a luta entre o apropriador original/produtor/poupador/contratante e o não-apropriador original/não-produtor/não-poupador/não-contratante) para o falacioso modelo do trabalhador assalariado versus o capitalista, assim bagunçando as coisas...

    Donde concluo que o HHH está tentando atribuir um significado correto ao referido conceito, e não, como você disse "deseja[ndo] a todo custo provar que Marx estava certo".



    ...Hoppe poderia muito bem ter afirmado que a história se desdobra como uma luta entre indivíduos, ou entre empresas e indivíduos, ou entre empresas e empresas, mas dizer que é luta entre classes não faz o menor sentido já que classes só existem em nossas mente quando imaginamos uma característica qualquer e dividimos os indivíduos de acordo com essa característica...

    Minha opinião é que não há necessidade de detalhamento nesse nível. Por exemplo, se leio que em uma partida de futebol o time X fez 1 gol, não sinto necessidade de esclarecimento a respeito do fato não foi a abstração/classe time que fez o gol, mas sim um dos jogadores da instância X da abstração time (supondo que o gol não foi contra :)

    Considero nossa frutífera e prazerosa conversa encerrada. Foi um prazer, Getúlio.
  • Getulio Malveira  19/05/2011 20:43
    Bem, foi um grande prazer para mim também, não faz mal se não conseguimos chegar a um consenso. Abraço!
  • Deilton  23/11/2011 18:06
    "Ele concorda porque seu pagamento salarial representa bens presentes - ao passo que os serviços de sua mão-de-obra representam apenas bens futuros -, e ele, como qualquer ser humano, atribui um valor muito maior aos bens presentes do que aos bens futuros. Afinal, ele também poderia optar por não vender seus serviços ao capitalista e, com isso, se apossar ele próprio do "valor total" de sua produção. "

    Não entendi essa parte final: como um trabalhador pode abrir mão de vender seus serviços ao capitalista? O trabalhador é livre para aceitar o trabalho? Ele pode escolher entre trabalhar ou não? Ele concorda em trabalhar pq seus rendimentos representam bens presentes e todo ser humano atribui maior valor a bens presentes OU ele concorda pq precisa da renda obtida para sobreviver?
    A revolução industrial na Inglaterra só foi possível por causa dos cercamentos de terras, que liberou mão de obra barata para as fábricas. Os antigos camponeses, expulsos das terras, foram trabalhar nas fábricas para sobreviver. Os trabalhadores tinham escolhas? Quais? Escolha se tem quando há alternativas. Se eu tiver errado me diga.
    Sempre acreditei que o estado mínimo seria a melhor de estado. Um estado que não interfferisse em nada na economia, cobrasse imposto somente sobre as altas rendas. Imposto que seria usado para garantir o mínimo de bem estar a população (Leia-se educação e saúde).
    Hoje reconheço que estava errado, ainda tenho dificuldade em entender como funcionaria algumas coisas sem estado, como por exemplo, estradas privadas. Em lugares em que só passa uma estrada, não haveria concorrência, sem controle de preços o dono da estrada poderia abusar disso. Acho a prefeitura ineficiente, mas não sei como funcionaria a cidade sem ela.
  • Leandro  23/11/2011 18:22
    Como um trabalhador pode abrir mão de vender seus serviços ao capitalista?

    Tornando-se ele próprio um empreendedor -- por exemplo, um trabalhador autônomo.

    O trabalhador é livre para aceitar o trabalho?

    Perfeitamente. Ninguém o obriga.

    Ele pode escolher entre trabalhar ou não?

    Claro que sim. Aliás, ele tem 3 opções: trabalhar para alguém, trabalhar por conta própria, não trabalhar -- nesse último caso, ele teria de pedir para alguém sustentá-lo.

    Ele concorda em trabalhar pq seus rendimentos representam bens presentes e todo ser humano atribui maior valor a bens presentes OU ele concorda pq precisa da renda obtida para sobreviver?

    As duas coisas. E elas não são mutuamente excludentes.

    A revolução industrial na Inglaterra só foi possível por causa dos cercamentos de terras, que liberou mão de obra barata para as fábricas. Os antigos camponeses, expulsos das terras, foram trabalhar nas fábricas para sobreviver. Os trabalhadores tinham escolhas? Quais? Escolha se tem quando há alternativas. Se eu tiver errado me diga.

    Esse artigo fala exatamente sobre isso.

    Fatos e mitos sobre a "Revolução Industrial"


    Grande abraço!
  • Erick Skrabe  19/05/2012 18:28
    Gostaria de citar uma frase do bom velhinho sobre "classes":


    Durante um de seus seminários, um estudante perguntou ao Professor Mises, "Por que não são todos os empresários que são a favor do capitalismo?". "Essa pergunta", Mises respondeu, "é inerentemente marxista."
    (www.mises.org.br/ArticlePrint.aspx?id=187)


    Apesar desse ponto a meu ver discordante eu gostei do texto. O sr. Hoppe sabe ser provocativo e nos obrigar a pensar por outros pontos de vista.


  • Erik Frederico Alves Cenaqui  16/05/2011 13:43
    Lendo o texto do HHH percebe-se que muitas teses marxistas são semelhantes as teses da Escola Austríaca.\r
    \r
    Confesso que não eu tinha noção desta semelhança.\r
    \r
    Ocorre que, o marxismo erra, de forma grosseira, ao equiparar os trabalhadadores a sócios de uma empresa e dizer que salário é igual a lucro.\r
    \r
    A principal falha do marxismo é defender a IGUALDADE ABSOLUTA entre as pessoas.\r
    \r
    Nem todo mundo consegue ser um Bill Gates da vida e não é necessário que todos sejam iguais ao Bill Gates para que a sociedade prospere.\r
    \r
    Algumas pessoas empreendedoras são capazes de melhorar a vida de TODAS as pessoas que não conseguem ser empreendedoras.\r
    \r
    A idéia de que o trabalhador troca bens futuros por bens presentes com desconto é perfeita vez que o trabalhador não ASSUME O RISCO DO EMPREENDIMENTO, como faz o capitalista.\r
    \r
    O sistema capitalista é baseado em RISCO E INCERTEZA para os proprietários das empresas.\r
    \r
    Se uma empresa não esta assumindo riscos no exercício de sua atividade empresarial é porque o estado se tornou garantidor desta empresa. Nesta caso estamos diantes de uma prática socialista.\r
    \r
    NÃO EXISTE CAPITALISMO DE ESTADO vez que o sistema capitalista se baseia em trocas voluntárias e propriedade privada dos meios de produção.\r
    \r
    O IMB continua me surpreendendo com seus textos impressionantes.\r
    \r
    Abraços\r
    \r
    \r
    \r
    \r
    \r
  • Erick Skrabe  19/05/2012 18:22
    Por incrível que pareça eu concordo com vc qto aos Marxistas.

    Os Marxistas tem vários defeitos, mas eu gosto desse lado "inquieto" deles. Eles podem decorar um monte de porcarias, mas pelo menos estudam. Os "Neocom" criticam o planejamento central de Marx mas... adoram um Banco Central. Criticam a interferencia do estado mas adoram as demonstrações de como a Nasa ajudou o desenvolvimento tecnológico (como por exemplo... bem, por exemplo... o velcro) e as guerras foram "úteis". Ou seja: é mais do mesmo.

    "NÃO EXISTE CAPITALISMO DE ESTADO vez que o sistema capitalista se baseia em trocas voluntárias e propriedade privada dos meios de produção.". O Termo capitalismo de estado se refere ao fascismo, ou qdo o estado é quem vai definir como as trocas vão ser feitas... ou seja, ñ são tão voluntárias....

    A propósito, o termo capitalismo foi criado por Marx.... já de forma a denegri-lo. A origem do termo indicaria um sistema economico onde apenas o Capital fosse importante e não existisse mobilidade. Sem dúvida o Capitalismo tem problemas, mas muito menos do que o Marxismo.
  • Johnny Jonathan  26/06/2012 00:19
    Também faço coro... essa mania de ver o estado como o salvador de tudo estar presa até em libertários. É tipo o livro Senhor dos Anéis, todo mundo fica arranjando desculpas pra possuir o "precioso", e prometendo que na posse dele, as coisas vão ser diferentes, e poderá se domar as pessoas pra que não usem o Anel, ou "usem minimamente" ele.
    Não acho nem um pouco válido tentar adestrar o estado, prender ele numa cadeia é um grande risco, prefiro sempre um pena de morte pra matar o mal pela raiz.
    Vamos destruir esse Anel!
  • Edik  16/05/2011 21:55
    O Hoppe usou nesse artigos os princípios que ele costuma reforçar na maioria dos seus artigos, como a importância da preferência temporal e da apropriação original. Quanto a isso dificilmente alguém que acredita na escola austríaca refutaria. O problema principal é a utilização do conceito de classes sociais, algo completamente inaceitável para quem pretende seguir o individualismo metodológico, por mais que o desenvolvimento da argumentação esteja correta.

    O uso desse conceito nesse artigo traz problemas similares ao seu uso tradicional no marxismo: O autor acaba demonstrando que existe uma verdade escondida sob forma de uma reveladora conspiração que atua no sentido de fazer com que os explorados muitas vezes não possuem consciência da sua situação. No marxismo isso gera explicações esdrúxulas pois ou a pessoa (proletário) luta contra a exploração ou ele aceita o capitalismo não porque é melhor para ele, mas porque lhe falta "consciência de classe". No liberalismo ocorre a mesma coisa, pois como definir que é da classe exploradora ou explorada? Os professores de universidades estatais que proferem palestra para o IMB pertenceriam a qual classe, já que eles possuem opinião bem diferente dos defensores do estatismo? Ora, a simples resposta a essa pergunta mostra o ridículo do conceito de classes como Hoppe coloca. Para finalizar concluo com mais uma citação de Mises:

    "A questão não é se as classes sociais existem no sentido de Karl Marx; a questão é se nós podemos utilizar o conceito de classes sociais na forma como Karl Marx o entendia. Nós não podemos."

  • Edik  16/05/2011 22:03
    Mais uma coisa: Se eu seguir a teoria de classes do Hoppe, o atendente do Poupatempo que recebe um pequeno salário faz parte da classe exploradora; e o Abilio Diniz da classe explorada. Nada a ver!
  • Fernando Chiocca  16/05/2011 23:01
    Como nada a ver!? Defina "exploração" e diga o que tem de errado com a teoria de Hoppe.
    E daí que um rico é explorado por um pobre?
    Onde está o erro em dizer que um trombadinha é um ladrão que explora um milhonário do qual roubou 1 real?
    A atitude exploratória ocorre quando um lado ganha as expensas do outro, de forma ilícita. Então, o Abílio Diniz (vamos assumir aqui que ele seja tão somente um empresário do ramo do varejo e que não faça conlúio com políticos) obtem sua fortuna no mercado, de forma voluntária, em relações benéficas a todos (caso conrário não iriam ocorrer). Já o funcionário do poupa-tempo tem seus recursos oriundos de uma atividade exploratória, onde os explorados são obrigados através da força a entregar seu dinheiro. Não resta d[uvidas que a única coisa que não tem nada a ver é o seu "nada a ver".

    Sobre os professores de universidades estatais, este artigo do Block, que é um professor de uma universidade estatal, pode esclarecer muito: May a Libertarian Take Money From the Government?

    Mas resumindo. Se você paga menos impostos do que recebe em benefícios, você faz parte da classe exploradora, independente da ideologia que você defenda. Se paga mais impostos do que recebe, é explorado.
  • FMS  17/05/2011 14:41
    Será que o pessoal do Mises poderia fazer a tradução do artigo "May a Libertarian Take Money From the Government", mencionado pelo Fernando?
  • Marco Aurelio  17/05/2011 01:03
    Edik, duas observações:

    O que interessa é se o sujeito é pagador ou recebedor líquido de impostos, e em qual medida. O funcionário do Poupatempo, embora certamente seja um recebedor líquido de impostos, pode muito bem receber menos benefícios do que grandes empresários que trabalham em conluio com o governo.

    Falando nisso, o senhor Abílio Diniz é um exemplo interessante. Acho que essa notícia explica bem o recente entusiasmo demonstrado por ele pela candidata do PT:

    www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u115360.shtml

  • Edik  17/05/2011 13:15
    Fernando e Marco Aurélio,
    Concordo plenamente com vocês. Eu não quis dizer que o Abilio Diniz, por ser mais rico, seria o explorador, enquanto o atendente do Poupatempo seria o explorado. O problema que ressaltei foi no uso do conceito de classe. Por isso nem um nem outro, e nem mesmo o Walter Block, como aparece no tópico 5 do artigo mencionado podem ser considerados da classe exploradora ou explorada porque não existe uma distinção clara, não há um grupo de pessoas que agem de forma comum por pertencer a uma classe específica. Eu posso em um momento ser favorecido por uma regulação e no mês seguinte ser prejudicado. Inclusive são tantas as tributações e regulações que é muito difícil saber de que lado a gente está em cada momento. Por isso eu me pergunto: Para que usar um conceito sociológico já tão ultrapassado,e que causa tanta distorção na compreensão nos fenomenos sociais?
  • Fernando Chiocca  17/05/2011 13:24
    Resposta: para despertar a conscientização e incitar a luta de classes.

    Concordo que para aqueles que estão no limiar da classificação, é bem dificil dizer que lado eles estão, e que eles podem estar a cada ano ou m~es de um lado ou de outro. Mas para a maioria a distinção é muito clara. E é muito importante.

    E a maioria está do lado dos explorados e deve se conscientizar disso e se recusar a continuar sendo explorada.
  • Mujo  18/05/2011 06:44
    eu defino a classe exploradora através de 2 critérios, que descaracterizam a maioria dos funcionários públicos neste critério:

    1) ter conhecimento de que seu sustento se dá através do roubo;

    e principalmente:

    2) ter usado, através de suas ações, a força do estado para criar o roubo ou impedir que este seja eliminado.

    o explorador é quem cria a vaga, ou a impede de ser extinta, e não quem a assume, agindo para ter uma vida melhor.

    []'s
  • Renegado  10/10/2017 16:51
    Todo funcionário público é receptor de dinheiro roubado e portanto, esta do lado da classe exploradora . Não importa o quanto tentemos desvirtuar essa questão, se ele criou a vaga ou apenas usufrui dela, não importa, os proventos advém do roubo. Uma analogia similar é eu comprar mercadoria roubada, não importa que não fui eu quem roubou eu sou cúmplice de um crime. Se vc é um aspone, vai ter que dormir sabendo que alguém foi roubado para o seu sustento.
  • Ricardo Frota  19/05/2011 13:29
    Eu só n entendi muito esta parte, do 16º parágrafo:
    "Mas isso, é claro, significa que ele teria de esperar muito mais tempo até que quaisquer bens de consumo se tornassem disponíveis para ele. Ao vender sua mão-de-obra, ele demonstra preferir uma menor quantidade de bens de consumo agora a uma quantidade possivelmente maior em algum momento futuro."
    Na verdade, entendi, porém acredito que se o trabalhador não vendesse sua mão-de-obra, ele não teria quantidade alguma de bens de consumo agora e não "uma menor quantidade de bens de consumo agora". Só se ele houver outra forma de renda que não o trabalho, o que de certa forma seria também um capitalista em menor proporção!
    Abraços... Sou super fã do site, do instituto... aprendo bastante...
    Gostaria de ter indicação de um bom livro, para eu poder me introduzir na Escola Austríaca!?
    Continuem assim, parabéns!
  • Leandro  19/05/2011 13:41
    Prezado Ricardo, para entender melhor essa parte, remeto-lhe ao texto sobre o qual o Jeffrey Tucker comenta, principalmente a este parágrafo:

    "[O trabalhador] é restringido pela preferência temporal, isto é, pelo fato de que um indivíduo invariavelmente prefere possuir um bem no presente a ter esse mesmo bem apenas no futuro.

    O que há de errado, portanto, com a teoria da exploração de Marx é que ele não compreende o fenômeno da preferência temporal como uma categoria universal da ação humana. O fato de o trabalhador não receber seu "valor total" não tem nada a ver com exploração; simplesmente reflete o fato de que é impossível o homem trocar bens futuros por bens presentes sem que haja um desconto.

    Contrariamente ao caso do escravo e do dono de escravos, em que o último se beneficia à custa do primeiro, o relacionamento entre o trabalhador livre e o capitalista é mutuamente benéfico. O trabalhador entra no acordo porque, dada a sua preferência temporal, ele prefere uma menor quantidade de bens presentes a uma quantidade maior no futuro; e o capitalista entra no acordo porque, dada sua preferência temporal, ele possui uma preferência de ordem inversa, dando mais valor a uma quantidade maior de bens futuros a uma quantidade menor de bens presentes. Seus interesses não são antagônicos, mas sim harmoniosos.

    Caso o capitalista não tivesse a expectativa de receber um retorno de juro, o trabalhador estaria numa situação pior, pois teria que esperar mais tempo do que deseja; e sem a preferência do trabalhador por bens presentes, o capitalista estaria numa situação pior, pois teria que recorrer a métodos de produção mais curtos e com menos estágios - logo, menos eficientes - do que aqueles que deseja adotar."


    No mais, a sua conclusão final está correta -- apenas não conte aos marxistas, senão o sentido da vida deles ficará irremediavelmente abalado.

    Quanto à indicação de livros, sugiro olhar a biblioteca do nosso site. Quase todos os livros podem ser gratuitamente baixados em .pdf.

    Grande abraço!
  • Henrique  11/10/2012 13:42
    Olá, conheci o site recentemente e me interessei em conhecer melhor a teoria austríaca. Achei muito interessante esse texto mas fiquei com algumas dúvidas. Agradeço a quem puder esclarecer:\r
    \r
    1. Preferência Temporal\r
    \r
    "O que há de errado, portanto, com a teoria da exploração de Marx é que ele não compreende o fenômeno da preferência temporal como uma categoria universal da ação humana. O fato de o trabalhador não receber seu "valor total" não tem nada a ver com exploração; simplesmente reflete o fato de que é impossível o homem trocar bens futuros por bens presentes sem que haja um desconto."\r
    \r
    Entendi o conceito da "preferência temporal", mas na teoria austríaca não haveria também uma "necessidade temporal"? Afinal é certo que o trabalhador prefere receber bens presentes com desconto ao invés de bens futuros, mas na medida que essa preferência decorre de uma necessidade premente ele se vê em desvantagem negocial frente a quem tem reservas (os detentores dos meios de produção) e pode esperar para satisfazer suas necessidades. Neste caso ele estaria propenso a sobrevalorizar o bem presente e aceitar um desconto maior que o devido, propiciando ao capitalista se beneficiar de um desvio da "apropriação original" (por isso o capitalista teria também interesse em manter a precariedade do modo de vida do trabalhador).\r
    \r
    \r
    2. Classes\r
    \r
    Se não existem classes, ou pelo menos uma definição de classes, então não seria possível haver uma "consciência de classe". Sem essa "consciência de classe", o que poderia provocar a união das pessoas em um movimento coordenado contrário ao modelo de exploração vigente? Ou o modelo de exploração vigente poderia (como?) ser superado por um modelo de capitalismo-puro sem esse movimento de oposição? Enfim, haveria então alguma forma de superar o modelo de exploração vigente ou a humanidade está condenada a se canibalizar eternamente?
  • Nogueira  05/06/2011 19:25
    \r
    "Todas essas teses podem ser perfeitamente justificáveis, como eu demonstrarei."
    \r
    \r
    Evidentemente todas as 5 teses apresentadas são equiviocadas diante dos fatos históricos.\r
    Por exemplo na tese (1);\r
    - As Guerras Púnicas (Cartago x Roma) foram decisivas para a história humana, e evidentemente foram uma luta entre impérios e não entre classes.\r
    - A guerra entre Inglaterra e a França de Napoleão, e seu episódio final, Waterloo, não tem nada a ver com classes.\r
    - A segunda Guerra Mundial não tem nada a ver com classes.\r
    Portanto a citação marxista nada tem a ver com a verdade.\r
    \r
    Por exemplo na tese (2) já foi mais que provado que não existe união entre os membros de uma suposta classe, tanto os trabalhadores competem entre si por um bom emprego como empresários competem entre si para dominar o mercado.\r
    Continuamente trabalhadores se tornam empresários e empresários, devido a falência, se tornam simples trabalhadores.\r
    A falência de empresas em virtude de competição entre elas e a passagem para a pobreza dos donos, reduz a simples pregação ideológica a alegação de união entre a suposta "classe dominante".\r
    \r
    A quarta tese é inexistente, não existe monopólio em uma democracia liberal, a Lei Anti-Truste ecita qualquer tipo de monopólio.\r
    Nas nações desenvolvidas em todas as áreas da economia existem diversas empresas competindo, não existe monopólio.\r
    \r
    As teses (3) e (5) inexistem em função da não existência das anteriores.\r
  • Marcos Campos  02/09/2012 22:05
    Excelente artigo, estou até admirado por eu ter entendido todos os parágrafos.
    Estava receoso por não estar habituado com didática tão complexa, mas foi graças as leituras anteriores aqui mesmo no IM, que pude me sair bem ao final.

    Em breve poderei participar dos debates marxistas aqui da minha cidade e refuta-los com destreza argumentativa.

    Obrigado.
  • anônimo  18/11/2012 19:44
    Esse sr. Hoppe é claramente um revolucionário disfarçado de "austríaco", com objetivos e ideias próprias e deve ser denunciado como tal.

    Ele trata o marxismo como um sistema concorrente, e não antagônico.

    Como plataforma revolucionária alternativa ele apresenta uma "Escola Austríaca" totalmente estereotipada, propagandística e ativista.

    "Se nessa situação de estagnação econômica, de crise e de desilusão ideológica[25] uma solução positiva for oferecida na forma de uma sistemática e abrangente filosofia libertária em conjunto com sua contrapartida econômica — a Escola Austríaca de economia —, e se essa ideologia for propagada por um movimento ativista, então as chances de se inflamar o potencial revolucionário para o ativismo se tornam altamente positivas e promissoras."

    Essa passagem perturbadora poderia facilmente ter sido escrita por Lênin.

    Ele querer concorrer ideologicamente com o marxismo prova que está atrás do mesmo público-alvo: pessoas angustiadas e suscetíveis, i. e. revolucionários. Para o que, eu ignoro.
  • Fernando Chiocca  20/11/2012 09:27
    É claro que Hoppe é um pensador com ideias consideradas revolucionárias, pois defende a liberdade e a propriedade num mundo estatista.

    Sim, ele tem ideias próprias, mas não tem nada de "disfarçado de austríaco". Ele é o maior metodologista e economista austríaco no mundo hoje.

    E Lênin e outros revolucionários marxistas ao redor do mundo tiveram sucesso em suas revoluções, que foram para o mal, mas que podemos e devemos seguir alguns passos deles se quisermos ter sucesso em nossa revolução, que é para o bem.

  • marxista  17/01/2014 04:31
    "A idéia genuinamente nova do marxismo foi afirmar que, essencialmente, nada muda quando se sai do sistema escravagista para o sistema capitalista; nada muda se o escravo se torna um trabalhador livre, ou se o agricultor decide cultivar uma terra originalmente apropriada por outra pessoa e paga um aluguel para fazer isso."

    - A relação de trabalho muda. O Marx não nega isso. Mas a propriedade dos meios de produção não muda. Observe que tanto o senhor de engenho do Brasil Colônia como o usineiro capitalista detém o meio de produção. E esse é o X da questão. Ambos são os proprietários do meio de produção. O fazendeiro capitalista é detentor de sua fazenda é tão proprietário de sua propriedade como o senhor de engenho era proprietário do engenho. O senhor de engenho não investia no engenho de cana-de-açúcar? O engenho não era dele? A mesma coisa ocorre nas atuais Usinas de cana-de-açúcar. O usineiro não é o detentor da fazenda de cana-de-açúcar?

    A relação de trabalho pode até ser diferente, mas a propriedade do meio de produção continua da mesma forma.
  • Doutrinador  17/01/2014 11:20
    Óbvio que a propriedade dos meios de produção também muda. Escravo não podia deter meios de produção. Trabalhadores podem perfeitamente.

    Trabalhadores que não querem ser "explorados" por patrões e que querem assumir o controle dos meios de produção podem perfeitamente criar cooperativas. Absolutamente nada os impede de fazer isso.

    Aliás, se uma enorme quantidade de trabalhadores se juntasse, eles sequer precisariam de financiamento. Poderiam utilizar a própria poupança. O que houve com o "trabalhadores do mundo, uni-vos!"? Qualquer grupo de 100 operários do ABC poderia se juntar e criar suas próprias cooperativas. Eles não são pobres. Nada os impede.
  • marxista  17/01/2014 22:24
    Na escravidão, havia casos de escravos que depois de obter a alforria, também se tornavam senhores de escravos. Leandro Narloch, no seu livro Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil cita um escravo que depois de receber de alforriado, se tornou um mega-traficante de escravos.

    Mas seguindo a discussão. Eu disse que a relação de trabalho muda, mas a propriedade privada dos meios de produção não muda. Quem era o proprietário do meio de produção na relação senhor-escravo? Quem é que detinha o Engenho? E na relação empregador-empregado? Quem é o proprietário do meio de produção?

    Observe uma fazenda ou uma usina de cana-de-açúcar que você nota que as semelhanças entre o empresário moderno e o antigo senhor de escravo. Observe que não há muita diferença entre os usineiros modernos e os antigos senhores de engenho. A única diferença é que, o usineiro moderno é um senhor de engenho sem escravos. Tanto o senhor de engenho, como o usineiro detém o meio de produção. Observe que a única diferença entre o senhor de engenho e um usineiro moderno é que o senhor de engenho era um usineiro com escravos. Perceba que a relação de trabalho muda, mas a propriedade dos meios de produção não muda.

    E já que estamos falando em usinas de cana-de-açucar, pode me explicar como o cortador de cana que recebe menos de um salário mínimo pode deter meio de produção? Como os cortadores de cana vão se associar para montar uma cooperativa de cana-de-açúcar?
  • Lucas Favaro  07/10/2015 15:05
    Quando Hoppe diz que, para Marx, essencialmente nada muda de uma sociedade escravista para uma capitalista, ele quer dizer que, para os marxistas, a exploração por parte dos detentores dos meios de produção continua. Então, essencialmente nada muda. Difícil entender?

    Mas Hoppe demonstra que muda sim, pois a relação entre patrão e empregado não é uma relação exploratória, mas harmônica. Aqui:

    O que há de errado, portanto, com a teoria da exploração de Marx é que ele não compreende o fenômeno da preferência temporal como uma categoria universal da ação humana. O fato de o trabalhador não receber seu "valor total" não tem nada a ver com exploração; simplesmente reflete o fato de que é impossível o homem trocar bens futuros por bens presentes sem que haja um desconto. Contrariamente ao caso do escravo e do dono de escravos, em que o último se beneficia à custa do primeiro, o relacionamento entre o trabalhador livre e o capitalista é mutuamente benéfico. O trabalhador entra no acordo porque, dada a sua preferência temporal, ele prefere uma menor quantidade de bens presentes a uma quantidade maior no futuro; e o capitalista entra no acordo porque, dada sua preferência temporal, ele possui uma preferência de ordem inversa, dando mais valor a uma quantidade maior de bens futuros a uma quantidade menor de bens presentes. Seus interesses não são antagônicos, mas sim harmoniosos.

    .

    Você disse que:

    Tanto o senhor de engenho, como o usineiro detém o meio de produção. Observe que a única diferença entre o senhor de engenho e um usineiro moderno é que o senhor de engenho era um usineiro com escravos. Perceba que a relação de trabalho muda, mas a propriedade dos meios de produção não muda.

    Claro que muda, ora. Antes era um senhor de engenho, agora é um usineiro. Deixa eu te ajudar: O que você quer dizer, mas não consegue, é que a forma como os títulos de propriedade são distribuídos não muda: ambos são de pessoas específicas - ou seja, a propriedade dos meios de produção são privados. Mas acontece que no comunismo também os meios de produção serão privados, mas nesse caso eles pertencerão a uma elite que decidirá os ditames econômicos. E isso sempre será assim, pois a propriedade socializada dos meios de produção é impossível. O próprio Hoppe nesse artigo mostra isso:

    Com efeito, a propriedade coletiva não é somente economicamente ineficiente, como já foi explicado, mas é também incompatível com a idéia de que o estado vai "desaparecer". Pois se os meios de produção são de propriedade coletiva, e se for realisticamente pressuposto que todas as idéias sobre como empregar esses meios não irão coincidir (apenas por milagre isso ocorreria), então são precisamente os meios de produção sob propriedade coletiva que necessitam de ações estatais contínuas — isto é, de uma instituição coercivamente impondo a vontade de uma pessoa sobre uma outra que discorde.

    Ou seja, mesmo que nominalmente os meios sejam públicos, na prática serão privados (pertencerão aos governantes).
  • Lucas Favaro  07/10/2015 15:08
    Essa é a segunda vez que leio esse texto mas só agora consegui captar a profundidade das ideias que aqui estão. Um dos melhores artigos que já no site, talvez o melhor. Hoppe é um gênio.
  • Emerson Luís, um Psicólogo  28/06/2014 19:04

    A preferência temporal é muito importante para a compreensão econômica da relação empregador & empregado, mas mais importante ainda é que o salário é debitado do lucro e não o contrário. O salário é apenas um dos diversos custos de produção. Esse simples fato refuta a teoria do mais-valia e da exploração. Além disso, a relação é voluntária. Empregados concorrem por empregos e empregadores concorrem por empregados.

    Dizer que a relação empregador & empregado é análoga à relação dono x escravo é um absurdo total. Enquanto na segunda há um explorador e um explorado, na primeira existe um livre acordo de benefício mútuo.

    Nos tempos antigos havia classes sociais/castas: senhores e escravos, servos e servidos. O sujeito nascia em uma categoria e permanecia nela toda a vida por causa do seu nascimento, com baixas possibilidades de mudar de situação.

    No capitalismo, as condições de nascimento contingenciam as perspectivas da pessoa, mas não as determinam. A situação do indivíduo depende do que ele faz, não do seu nascimento. Assim, no capitalismo não existem classes/castas sociais, mas níveis econômicos. Em vez de servos e servidores, TODOS servem e são servidos.

    * * *
  • Emerson Luis, um Psicologo  07/12/2014 11:50

    Por outro lado, pode-se dizer que em sentido amplo existe na sociedade estatista:

    uma classe explorada (os produtores de riqueza/pagadores de impostos)

    e uma classe exploradora (os sugadores de riquezas/recebedores de verbas).

    * * *
  • Felipe R  22/04/2015 02:06
    Senhores,

    O sistema feudal, na verdade, foi corrompido para o formato apontado pelo Hans (culminando, inclusive, no absolutismo). Mas saibam que o feudalismo, em primeiro lugar, surgiu por causa do excesso estatista do império romano. As pessoas abandonaram as cidades e foram para os campos subsistir. Obviamente as terras já tinham dono, e, portanto, os que viriam a ser os camponeses toparam pagar pelo uso da terra, e pela segurança, pois as invasões ditas "bárbaras" eram um perigo real. Aliás, segurança e exércitos, naquela época, eram serviços privados, oferecidos por mercenários.

    Estava tudo indo "tranquilo" até que algumas cidades-estado, já na segunda metade da Idade Média, resolveram começar a expansão. Pra isso, começaram a cobrar cada vez mais taxas do povo, e quando não era mais possível aumentar, forçavam a compra, pela população, de títulos públicos (sim, existiam nessa época). Assim, conseguiam contratar os exércitos e praticar, de fato, o expansionismo. Neste momento, já não pode-se dizer que há sistema feudal, mas sim, esse sistema corrompido apontado pelo articulista. É, na verdade, um retorno ao estatismo.

    Falei tudo isso apenas para deixar claro que feudalismo jamais pode ser reduzido à ideia de exploração; ele foi, na verdade, uma válvula de escape pro fracasso estatal do Império Romano, este sim, explorador..

    Abraço.
  • Anônimo  09/04/2016 16:27
    Seria mais honesto se Hoppe dissesse "Análise de classe marxista vs análise de classe rothbardiana [ou anarquista]"; porque nenhum autor da EA austríaco, a não ser os seguidores de alguns desses que surgiram nos EUA,compartilhava com essa tese de Hoppe (muito menos deixaram-na implícita em seus trabalhos).
  • Thiago Machado  26/03/2017 17:21
    Olá, poderia me informar quem traduziu este artigo (e outros que não tem tal informação disponível)? Ando gerando PDF's de alguns artigos e busco dar créditos ao tradutor. Obrigado!

    https://br.ancap.ch/c/artigos


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