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Fazenda ou Banco Central - quem é o responsável pela atual disparada de preços no Brasil?

Alexandre Tombini e Guido Mantega
Ao ler a seção de economia dos principais jornais e revistas do país, um ser minimamente dotado de algum conhecimento econômico inevitavelmente se sentirá jogado em um mundo que poderia ter sido criado por Franz Kafka, uma vez que ele, o leitor, irá se ver em uma situação na qual ele está confrontando uma besta que parece ser cega, surda e completamente impermeável a qualquer senso de razão e racionalidade econômica.

Comentando a atual disparada de preços no Brasil — em março, o IPCA acumulado em 12 meses chegou a 6,30% —, a imprensa optou por uma abordagem maniqueísta que não faz o menor sentido econômico: de um lado temos o Ministério da Fazenda e o sempre aparvalhado Guido Mantega, fazendo contínuas lambanças com o orçamento, gastando os tubos para manter a "demanda agregada" aquecida e concedendo fartos subsídios do BNDES às suas empresas favoritas.  Este seria o lado mau da batalha.  Do outro lado, representando o lado da dignidade e do bom senso, temos o Banco Central, sob a destemida liderança de um competente e racional Alexandre Tombini, o qual, sempre auxiliado pelos leais cavaleiros do COPOM, trava uma luta quixotesca contra o temível Mantega e seus moinhos de vento que espalham inflação pela economia brasileira.

Traduzindo: o culpado pela recente disparada de preços no Brasil, segundo a imprensa, seria a gastança descontrolada do Ministério da Fazenda.  Para tentar refrear esse ímpeto perdulário, o Banco Central, sempre ativo e vigilante, estaria imolando sua popularidade em uma luta inglória contra o intrépido Guido Mantega, elevando os juros para conter a subida de preços causada pelos gastos manteguistas, sacrificando assim a popularidade da instituição e do próprio governo — e tudo pelo bem do país.

Gastos do governo

À primeira vista, essa postura da imprensa parece fazer algum sentido.  Afinal, gastos do governo de fato provocam uma inflação de preços.  Quando o governo gasta, ele está consumindo bens que, de outra forma, seriam utilizados pela população ou mesmo por empreendedores para fins mais úteis e mais produtivos.  Bens que estariam disponíveis para a população acabam sendo consumidos pelo governo.  Consequentemente, os gastos do governo reduzem a oferta de bens para a população. 

Caso o governo apenas gastasse menos,

1) haveria mais bens disponíveis para os consumidores, que necessitam deles com mais urgência do que o governo;

2) As indústrias não precisariam empregar recursos apenas para suprir a escassez desses bens (escassez provocada pelo governo), o que as permitiria investir em novos processos de produção, que resultariam em maior abundância de bens;

Portanto, os gastos do governo fazem com que haja menos bens disponíveis para a população, aumentando os preços destes e, consequentemente, prejudicando os mais pobres.  Os gastos do governo também obrigam as indústrias a desviar seus recursos para o aumento da produção dos bens consumidos pelo governo, impedindo o investimento em, e a expansão de, outros processos de produção.  Por fim, os gastos do governo também impedem que esses bens consumidos sejam empregados em usos mais produtivos pela população, o que poderia inclusive gerar benefícios para terceiros.

Logo, sim, os gastos do governo inevitavelmente estimulam a inflação de preços e toda e qualquer condenação a eles é e sempre será bem vinda.

Porém, há um pequeno problema; e é aí que a imprensa se perde.  O crescimento dos gastos do governo só é possível quando há um banco central criando dinheiro.  Sem um banco central, seria impossível o governo aumentar seus gastos continuamente, como faz o governo brasileiro.  Logo, o Banco Central brasileiro, antes de ser um guerreiro contra a inflação de preços e contra a insensatez do Ministério da Fazenda, é acima de tudo seu fomentador e protetor.  O Ministério da Fazenda só consegue gastar desmesuradamente porque há um banco central possibilitando sua farra.  Logo, é o Banco Central, e não o Ministério da Fazenda, o real culpado pela disparada dos preços no Brasil.

Guido Mantega

Antes de explicar por que o real culpado é o Banco Central, um comentário sobre Guido Mantega. 

No início de dezembro do ano passado, escrevi uma pequena postagem no blog comentando o inexplicável respeito que Guido Mantega gozava junto à imprensa.  Não importavam as estultices que o cidadão dizia ("a inflação está sob controle e não vai escapar da meta"), a imprensa sempre estava lá para prestar-lhe uma sabuja subserviência, conferindo ares de grande sabedoria às parvoíces que ele proferia ("Podemos ficar tranquilos porque haverá redução dos preços dos alimentos a partir do início de 2011. Já vimos essa história antes"). 

Uma grande revista, tida como oposicionista, chegou a laureá-lo como uma espécie de 'grande timoneiro', o homem responsável pela nova era da economia "social-desenvolvimentista com responsabilidade" criada pelo governo Lula, uma saudável e necessária guinada em relação à "austeridade socialmente insensível" da era Palocci.  Não se viam críticas ao distinto cavalheiro.

Pelo visto, qualquer um consegue ser bajulado quando as coisas vão aparentemente bem.  Basta, porém, que a água comece a entrar no navio para que todo o séquito perca a reverência e comece a apontar os dedos para o comandante, acusando-o de estar durante toda a viagem conduzindo a embarcação de maneira imprudente — logo ele, que sempre era tido como o grande farol da temperança e da modernidade.

Essa mudança de postura, no entanto, é uma ótima notícia.  Um país só pode aspirar à seriedade quando seus homens públicos tornam-se seguidamente desacreditados pela imprensa.  Só que malhar Guido Mantega é fácil, pois, além de sua natural sonsice, o cavalheiro possui até o physique du rôle apropriado para o enxovalhamento.  Exatamente por não entender o que se passa na economia, sua impotência, ignorância e cara de perdido já são, por si só, um espetáculo grotesco.  Ele pode ser um inepto, mas não é culpado senão disso.  A verdadeira revolução ocorrerá no dia em que os verdadeiros culpados de tudo — os burocratas que comandam o Banco Central — receberem esse mesmo tratamento insolente.

Por que o Banco Central é pernicioso

Se você abrir qualquer livro-texto de macroeconomia, irá ler que a função de um banco central é fornecer ao país um sistema financeiro e monetário seguro, flexível e estável — ou qualquer variação desta ideia.

Entretanto, tal afirmação não é apenas falsa; ela é exatamente o oposto da realidade.  Em outros artigos deste site já foi discutido o fato de que a oferta monetária de uma economia não precisa ser manipulada, tampouco ser alterada.  O dinheiro é apenas um meio de troca que facilita as transações indiretas.  Uma maior quantidade vai apenas diluir os preços e redistribuir a renda em prol daquelas pessoas e empresas que obtiveram essa nova quantidade de dinheiro antes dos outros.  Não existe uma quantidade ótima a ser perseguida; qualquer quantidade servirá, no longo prazo.

Entendido esse detalhe, vamos então esclarecer qual a real função do Banco Central, aquela que você não encontra nos livros-textos aprovados pelo meio universitário.

O banco central — seja no Brasil, nos EUA, na União Europeia, no Chile ou na Austrália — possui duas funções:

1) proteger os bancos — formando um cartel bancário que impede que estes concorram entre si — e socorrê-los em épocas de insolvência; e

2) financiar os déficits do governo.

O item 1 é mais claro e fácil de entender.  Os bancos operam com reservas fracionárias, o que significa que eles emprestam mais dinheiro do que o total que foi depositado neles.  Falando mais popularmente, os bancos têm o poder de criar dinheiro.  Esse dinheiro que os bancos criam do nada — um dinheiro meramente eletrônico, para o qual não há correspondente em papel-moeda físico — é chamado de meios fiduciários.  Trata-se do dinheiro que você utiliza como pagamento através de cheques ou cartão de débito, mas que não possui um correspondente valor em dinheiro físico dentro dos cofres dos bancos.

Nesse cenário de reservas fracionárias, na ausência de um banco central, haveria o risco de ocorrer uma expansão descoordenada do crédito.  Os bancos mais expansionistas — aqueles que criam mais dinheiro — correriam o risco de perder reservas para os bancos menos expansionistas.  Se o Itaú criar mais dinheiro fictício (meios fiduciários) que o Bradesco, os meios fiduciários do Itaú inevitavelmente cairão na conta de um correntista do Bradesco.  Ato contínuo, o Bradesco exigirá, no fim do dia, que o Itaú faça a compensação desse crédito, enviando-lhe a correspondente quantia em dinheiro (nesse caso, cédulas e moedas metálicas), fazendo com que o Itaú perca reservas.  No extremo, caso o Itaú tivesse expandido enormemente o crédito e o Bradesco tivesse adotado uma postura conservadora, o Itaú poderia ficar completamente sem reservas, indo à falência.

É nesse ponto que entra o Banco Central.  Ele pode "supervisionar e controlar" a expansão do crédito — ou, falando mais diretamente, ele irá harmonizar essa expansão, fazendo com que todos os bancos criem dinheiro no mesmo ritmo.  Se todos os bancos expandirem o crédito na mesma velocidade, então não haverá o risco de um banco ir à falência porque criou mais dinheiro que outro banco.  Quando todos os bancos expandem o crédito simultaneamente, a quantidade de meios fiduciários do banco A que vai parar na conta do banco B é praticamente a mesma que vai de B para A, de modo que, no momento da compensação, eles se cancelam.  Tal arranjo permite que os bancos mantenham em suas reservas menos dinheiro do que manteriam caso não houvesse um banco central.  Em outras palavras, tal arranjo aumenta a capacidade dos bancos de criar dinheiro do nada, aumentando consequentemente seus lucros.  E o melhor de tudo: lucros altos e sem risco de insolvência.

É por isso que os bancos defendem ferrenhamente a existência do Banco Central.  É o Banco Central quem forma e coordena esse cartel, impedindo que surjam bancos concorrentes que possam afetar esse delicado equilíbrio.  Sem um banco central, não haveria essa expansão coordenada do crédito, pois sempre haveria o risco de um banco furar o acordo, sair do cartel, exigir a compensação dos meios fiduciários e, com isso, levar os concorrentes à falência.  Para que haja coordenação, os bancos precisam formar um cartel.  E para coordenar esse cartel, para disciplinar os bancos "rebeldes", é preciso um banco central. 

Um banco central, portanto, permite que os bancos expandam o crédito sem o risco de se tornarem insolventes, aumentando sobremaneira os lucros deste setor.  E com um benefício adicional: caso haja alguma corrida bancária, ou caso algum banco se torne insolvente porque fez maus empréstimos, o banco central sempre poderá criar dinheiro para socorrer este banco.  Essa garantia de proteção estimula os bancos a expandirem ainda mais o crédito, medida essa que gera os ciclos econômicos.

Entretanto, essa ainda não é a principal função de um banco central.  Até aqui estamos falando apenas da relação do Banco Central com os bancos.  Porém, o Banco Central é uma entidade do governo.  Logo, é de se esperar que sua função primordial seja atender aos interesses do governo.  E é exatamente isso o que ocorre.

Você dificilmente ouvirá isso da boca de economistas acadêmicos, porém essa é a realidade: o Banco Central existe primordialmente para financiar os déficits do governo.

Entretanto, o esquema não se dá diretamente.  O Banco Central não simplesmente cria dinheiro e dá diretamente para o governo.  Na verdade, isso ocorria até meados da década de 1990.  Naquela época, o governo mandava para o Congresso uma proposta pedindo autorização para que o BC imprimisse uma determinada quantia de dinheiro para cobrir o déficit orçamentário do governo.  E o Congresso sempre aprovava.  Era simples assim mesmo: o governo coletava $1.000 em impostos, mas queria gastar $2.000.  Solução?  Imprima os $1.000 restantes.  Depois que a inflação de preços atingiu alguns bilhões por cento, finalmente os gênios resolveram acordar pra realidade.  Em 2000, com a Lei de Responsabilidade Fiscal, esse tipo de financiamento direto foi proibido. 

Hoje, o BC não pode imprimir dinheiro e entregá-lo diretamente para o Tesouro.  Porém, na prática, ele continua fazendo isso, só que agora de maneira indireta.  E é esse o truque genial do qual quase ninguém se dá conta.

Funciona assim: quando o Banco Central quer expandir a base monetária, ele precisa realizar aquilo que chamam de operações de mercado aberto (open market) — isto é, o Banco Central compra títulos públicos que estão em posse dos bancos.  Falando mais explicitamente, o Banco Central cria dinheiro para comprar títulos que estão em posse do sistema bancário.  Atualmente, essa é a única maneira legal de o Banco Central criar dinheiro.

Como o Banco Central faz isso?  Grosso modo, ele aperta um botão no computador e acrescenta alguns dígitos na conta (as reservas compulsórias) que o banco que está vendendo os títulos possui junto ao Banco Central.  De onde veio esse dinheiro?  De lugar nenhum.  O Banco Central o criou do nada.  Nenhuma outra conta foi debitada.  A base monetária expandiu magicamente; as reservas desse banco aumentaram.

Agora, imagine que você é um banqueiro.  Você, por causa das reservas fracionárias, pode criar dinheiro do nada e utilizar esse dinheiro em algum investimento.  Você também sabe que a maneira como o Banco Central cria dinheiro é comprando títulos públicos que estão em sua posse.  Logo, não é preciso ser nenhum gênio das finanças para entender que o investimento mais óbvio e seguro que você pode fazer é justamente comprar os títulos públicos que o Tesouro põe à venda.  Em outras palavras, você alegremente vai financiar o déficit do governo, pois sabe que esses títulos que você vai comprar do Tesouro serão mais tarde comprados pelo Banco Central, pois é assim que ele faz política monetária.

É justamente por saberem que os títulos do Tesouro serão comprados pelo Banco Central — o que significa que eles possuem um mercado de revenda garantido e de alta liquidez—, que os bancos animadamente financiam o déficit do governo.  Ou seja, aquilo que antes era feito diretamente — com o BC dando dinheiro diretamente para o Tesouro —, agora passou a ser feito indiretamente, só que um adicional: agora os bancos entraram nesse arranjo e lucram enormemente com isso.

O arranjo parece escandaloso e é mesmo.  Porém, como pouca gente o entende, ninguém se inquieta com nada.  Nos EUA, entretanto, a coisa está ficando diferente.  Com a crise financeira de 2008, os escandalosos pacotes de socorro dado aos bancos, e a consequente divulgação maciça das ideias da Escola Austríaca de economia, que condena tudo isso, o pessoal lá finalmente começou a entender esse arranjo, e o Federal Reserve está nesse momento sob intenso bombardeio.  Nunca um presidente do Fed foi alvo de tantas chacotas e insultos quanto Ben Bernanke está sendo, e já há um movimento civil pedindo a total abolição do Fed.  Um dia chegaremos a esse ponto aqui.

Assim, vale a pena repetir as conclusões desta seção: o Banco Central possui duas funções: cartelizar o sistema bancário, blindando-o da concorrência e garantindo-lhe altos lucros, e financiar os déficits do governo — sendo essa a sua principal função.  O BC não dá dinheiro diretamente para o Tesouro, mas garante que irá comprar os títulos deste que estiverem em posse dos bancos.  Logo, o BC, além de estimular o financiamento dos déficits do governo, estimula também que este incorra despreocupadamente em déficits.

O que nos leva à seção final.

Por que o Banco Central é mais pernicioso que o Ministério da Fazenda

Não é a intenção deste artigo, como dito no início, inocentar Guido Mantega de nada.  Os gastos do governo devem ser condenados sempre e em qualquer ocasião, pois destroem recursos da economia e de fato geram inflação de preços.  Porém, na ausência de um banco central para financiar esses gastos, seria impossível haver uma alta contínua nos preços, como está havendo.  Por isso, os genuínos culpados devem ser expostos.

A atual inflação de preços da economia brasileira decorre principalmente da expansão da oferta monetária, feita pelo Banco Central.  Um dos causadores dessa expansão da oferta monetária é o Ministério da Fazenda, como será mostrado abaixo.  Todos os detalhes pertinentes a como a expansão da oferta monetária gera inflação já foram expostos neste artigo, de modo que não há necessidade de repeti-los.  O intuito aqui é mostrar por que, sem o Banco Central, Guido Mantega seria incapaz de manter sua esbórnia perdulária.

Quando Guido Mantega resolve gastar mais do que o governo arrecada em impostos — que é exatamente o que ele vem fazendo, dado que o governo está incorrendo em déficits nominais seguidos —, o Tesouro vende títulos para arrecadar dinheiro para cobrir esse déficit.  Da mesma forma, quando Mantega resolve que o BNDES deve dar subsídios às empresas favoritas do governo, o Tesouro vende títulos para arrecadar dinheiro e repassá-lo ao BNDES, que então irá repassar às empresas bem relacionadas.

Veja no gráfico abaixo o salto que a dívida pública mobiliária — total de títulos emitidos pelo Tesouro para financiar os gastos do governo — dá a partir de 2009, aumentando nada menos que R$ 600 bilhões em apenas 2 anos.

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E qual a consequência disso tudo?  Esse aumento na venda de títulos significa um aumento da demanda do governo por mais dinheiro do setor bancário — o qual, como dito, financia alegremente essa farra.  Com mais dinheiro indo para o governo, o setor bancário fica com menos dinheiro disponível para empréstimos para o setor privado.  Adicionalmente, isso também faz com que a quantidade de dinheiro disponível para o mercado interbancário (aquele em que os bancos emprestam uns para os outros com o intuito de manter suas reservas em níveis estipulados pelo BACEN) fique reduzida, pois agora há dinheiro sendo demandado de todos os lados (governo e setor privado).

Nesse cenário, caso o Banco Central nada fizesse, a tendência seria que a taxa de juros desse mercado interbancário subisse muito.  E a taxa de juros do mercado interbancário, como se sabe, nada mais é do que a SELIC.  Mas como o BACEN trabalha com uma meta para a SELIC, ele não pode deixar que ela suba.  Consequentemente, ele tem de injetar dinheiro no mercado interbancário justamente para evitar que ela aumente muito.

Ou seja: de um lado, o governo pega dinheiro emprestado dos bancos, o que tende a elevar a SELIC; de outro, o Banco Central injeta dinheiro nos bancos, justamente para evitar que a SELIC suba.  E tudo fica por isso mesmo.

Há alguns meses, o Banco Central injetava uma quantia suficiente para evitar que ela subisse muito.  Hoje ele tem de injetar mais ainda, apenas para mantê-la dentro da meta estipulada (atualmente em 12%).

E assim chegamos a esse fenômeno atual: o governo, incorrendo em grandes gastos, está sugando cada vez mais dinheiro do setor bancário, o que pressiona a SELIC.  Consequentemente, o Banco Central tem de injetar dinheiro continuamente no sistema bancário apenas para impedir que a SELIC suba.  Se ele não fizesse nada, a SELIC já teria subido há muito tempo. 

Logo, Guido Mantega, ao aumentar a quantidade de dinheiro que o Tesouro pega emprestado junto aos bancos para financiar seus gastos, está provocando uma expansão da oferta monetária.  Porém, quem está, em última instância, permitindo essa expansão é justamente o Banco Central.  Caso o Banco Central parasse de imprimir dinheiro e deixasse a SELIC flutuar aos sabores da oferta e demanda de dinheiro no setor bancário, assim que o Tesouro vendesse títulos para o sistema bancário a quantidade de dinheiro disponível no mercado interbancário ficaria reduzida — e a SELIC imediatamente subiria.  Ato contínuo, os juros sobre a dívida ficariam astronômicos e o Tesouro simplesmente não poderia continuar se financiando desta maneira.  Simplesmente não haveria dinheiro para satisfazer os desejos do Ministério da Fazenda (a quem o Tesouro é subordinado).

Ou seja, tudo que o Banco Central precisa fazer é parar de imprimir dinheiro e, consequentemente, parar de estabelecer uma meta para a SELIC.  Ao fazer isso, Guido Mantega ficará imediatamente sem ter como manter sua farra.  Tudo o que o senhor Alexandre Tombini deve fazer é vir a público e denunciar essas atitudes do Ministério da Fazenda.  O fato de ele não fazer isso mostra que ele não apenas está se evadindo de suas responsabilidades como "guardião da moeda" (com grandes doses de ironia), como também está fomentando a destruição da própria.

Conclusão

Portanto, para concluir: o comportamento do Ministério da Fazenda (por meio do Tesouro) é sim causador de inflação monetária — e, consequentemente, de inflação de preços.  Porém, tal comportamento só ocorre com a total aquiescência do Banco Central — esta sim, a entidade que possibilita toda a bagunça.  Curiosamente, a imprensa não aborda o assunto desta maneira.  Ela faz parecer que há um vilão e um mocinho valente, quando na verdade temos apenas dois bandidos trabalhando alegremente em conluio.

Em tese, basta o Banco Central desligar suas impressoras e Mantega tornar-se-á impotente.  Mas isso não é do interesse nem do governo e nem dos bancos.  E não há nada que possamos fazer quanto a isso. 

Apenas proteja a sua poupança.  O poder de compra do seu dinheiro está sendo transferido para o governo, para os bancos e para as empresas protegidas do governo.


autor

Leandro Roque
é editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

  • Angelo Noel  26/04/2011 08:56
    Parabéns, Leandro!
    Artigo bastante didático.

    Vc disse no fim do artigo q não há nada q possamos fazer a respeito, mas citou anteriormente q após a crise de 2008, seguido dos pacotes de resgates astronômicos do FED, os cidadãos norte-americanos estão se conscientizando da perversidade desse esquema inflacionário.
    Será q vamos ter de esperar essa tsunami monetária nos atingir p/ tomarmos alguma atitude?


    Grande abraço.
  • Marcos  27/04/2011 08:21
    A crise pode ser a única coisa capaz de nos ajudar, mas temos que nos preparar para ela.

    Um colega mais pessimista diz que as alas mais comunistas do PT estão desejosas de uma crise para finalmente implementar as regras de exceção no Brasil (assim como feito na Venezuela, Cuba, ...)
  • Rodrigo  26/04/2011 10:38
    Artigo brilhante, Leandro. Nos EUA Ron Paul, até então considerado um político obscuro e distante da cena política, é cada vez mais ouvido. Mas é certo que ele não será indicado pelo Partido Republicano como candidato à Presidência. Mesmo com os 14 trilhões de dólares de dívida.
  • Luciano  26/04/2011 11:49
    Caro Leandro\r
    \r
    Este é meu primeiro comentário neste site e, primeiramente, gostaria de parabenizá-los pelo excelente conteúdo divulgado. No último parágrafo do texto você diz: "Apenas proteja a sua poupança". As primeiras coisas em que pensei foi em meu fundo de aposentadoria e na compra de ativos que protegessem o valor do meu dinheiro.\r
    No fundo de pensão do qual faço parte a estratégia adotada, acredito que isto seja o pensamento comum dos gestores de fundos, é a compra de títulos públicos de longo prazo. Tendo como base o seu texto dá para se pensar em uma insustentabilidade desta estratégia no longo prazo, está certo? Que os fundos de pensão também estão ajudando no financiamento do déficit do governo e no longo prazo isto poderia ser arriscado, qual seu pensamento sobre isto?\r
    Em segundo lugar pensei na compra de ativos e a primeira opção que me veio à cabeça foi a compra de ações de boas empresas. Observando o Ibovespa nos últimos meses, nota-se que apesar da entrada de capital estrangeiro no Brasil e da quantidade de dinheiro sendo criado pelo Banco Central, o Ibovespa continua "de lado". Ou seja, o dinheiro não está indo para lá. Isto me deixa com um pé atrás quando penso no investimento em ações e, além disto, não tenho nem conhecimento e nem estômago para especulação.\r
    A outra opção seria a compra de um imóvel, que sempre foi sinônimo de segurança e valorização. Conforme já exposto em outros texots neste site me parece que podemos estar em uma bolha imobiliária e tomar este caminho hoje talvez fosse um pouco imprudente.\r
    A compra de ouro, prata e outros metais pode parecer interessante mas o acesso é difícil, eu teria que guardá-los em casa e, para leigos como eu, fica o risco de comprar gato por lebre. \r
    Concluindo, proteger minha poupança não parece uma tarefa muito fácil. Gostaria de saber sua opinião sobre isto e, se algúem puder me dar um conselho neste assunto, eu ficaria muito grato.\r
    \r
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  • Felix  26/04/2011 17:25
    Amigo, penso igual a vc,
    não temos muito para onde correr.
    Todavia, investir na bolsa em empresas com boas ligações com o governo e um mercado protegido pelo mesmo pode ser interessante, como a Petrobrás e o Banco do Brasil, além do que, estas empresas não estão sujeitas a falência como outras, ou seja, isso é uma oportunidade única!
    Apostar contra o dólar creio que vai ser muito interessante, tou pensando até em fazer uma operação de SWAP Ouro ou Iene contra o dólar, o duro é achar o timing.
    Comprar imóveis creio ser bom também, só que no Brasil, tudo tem quer ter a função social, não duvido nada eles quererem prejudicar essa classe dominante possuidora de vários imóveis. Talvez imóveis comerciais
  • Marcílio Nascimento  26/04/2011 12:09
    Excelente artigo Leandro. É um aprendizado enorme ler diariamente os textos do Mises Brasil.

    Com relação a última frase do texto: "Apenas proteja a sua poupança. O poder de compra do seu dinheiro está sendo transferido para o governo, para os bancos e para as empresas protegidas do governo."

    Penso que umas das melhores formas de proteção é fazer o dinheiro girar, investindo em novas oportunidades, como empreendedor, e não deixando o dinheiro parado na conta bancária.

    Está correto o meu raciocínio? Se sim, poderia compartilhar outras formas de proteger a poupança, as vezes, de uma vida de trabalho duro para algumas pessoas?

    Grande abraço.
  • Leandro  26/04/2011 14:54
    Prezados Marcílio e Luciano, obrigo.

    Luciano, existe de fato um risco em comprar títulos do governo: em caso de dificuldade de rolagem, o governo simplesmente imprimiria dinheiro para quitá-los. Mas isso seria um evento extremo, e ainda não há sinais disso no horizonte brasileiro (embora já haja no americano e alguns países da Europa). Esse artigo explica melhor isso.
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=634

    Comprar ações é arriscado, pois você fica ao sabor de humores do mercado financeiro. Ademais, como você bem disse, a valorização de ações é extremamente dependente da expansão monetária do governo. Ações podem subir em conjunto apenas se houver expansão monetária contínua -- e, principalmente, se o dinheiro chegar primeiro no mercado de ações. O que é pior, no entanto, é o que pode acontecer com elas em períodos de recessão, como ocorreu no final de 2008/início de 2009, quando o Ibovespa caiu de 73 para 29 mil pontos.

    Um bom artigo sobre bolsas:
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=778

    Comprar imóveis sempre foi uma das medidas preferíveis do brasileiro para se proteger contra a inflação. Via de regra, continua sendo. O grande problema é saber em que estágio se encontra a atual bolha e, quando ela estourar, o quão forte será o estouro. Caso você tenha um bom timing, irá se dar muito bem.

    Por fim, ouro. Este é imbatível na preferência dos economistas seguidores da Escola Austríaca. Entretanto, vale relembrar que o objetivo principal de um investimento em ouro é apenas se proteger contra a perda do poder de compra da moeda. Não se investe em ouro em busca de lucro, mas apenas de proteção.

    Marcílio, acho que o que foi dito acima também responde à sua pergunta. Abraços!
  • Montezano  26/04/2011 12:43
    Parabéns. Ótimo texto !\r
    \r
    Vejo que vc está falando oq o comentárista de economida do Jornal da Globo, Sardenberg, sempre faz questão de ressaltar: "O governo precisa conter gastos". Mas somente dizer isso é muito fácil pois é muito genérico. Então ao dizer que o governo precisa cortar gastos vc e ele como mestres em economia, precisam dizer AONDE !!!. Assim, vamos evidenciar a problemática na prática. Seria uma grande ignorancia dizer que o governo do PT vai cortar no bolsa família, isso é impensável, se é isso que vcs querem dizer. Dizer isto é o mesmo que dizer que o PSDB não venderia a Petrobras. Portanto, ao ler esse ótimo texto e dar uma visão muito previlegiada doque realmente ocorre na economia brasileira o senhor comete um erro ao ser simplista na parte de evidenciar os gastos do governo do PT, repetindo, e seria idiotice sugerir que o governo cortasse em gasto sociais. Então fica aí minha dúvida, o que de fato são os gastos do governo.\r
    \r
    Abraços \r
  • Leandro  26/04/2011 13:27
    Montezano, primeiro começa abolindo os Ministérios. Aqui já se vão mais de R$ 150 bilhões.
    www.tesouro.fazenda.gov.br/siafi/execucao.asp

    Depois as agências reguladoras. Depois, escolha várias dentre essas bobagens aqui. Chega fácil aos R$ 500 bilhões.
    www.stn.fazenda.gov.br/contabilidade_governamental/execucao_orcamentaria_do_GF/Despesa_Funcao.xls

    Aí depois, só depois, a gente começa realmente a cortar os gastos.


    P.S.: Caso queira um plano mais detalhado, pode ler aqui:
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=285
  • Montezano  26/04/2011 14:08
    Obrigado Leandro,\r
    \r
    Vou analisar muito bem esses números. \r
    \r
    De cara já adianto, gosto muito de política, e já faço uma constatação:\r
    \r
    FHC do PSDB - Não aquela Social democrata e sim da SOCIALITE DEMOCRACIA BRASILEIRA. Em 2000 gastaram em Assistencia Social: R$ 10.615.666.317,02 \r
    \r
    FHC disse recentemente: "Vamos esquecer o povão" esses números revelam que nunca ele lembrou !!!!! Não é a toa que dizem que o Brasil é o país da piada pronta, pois não podemos esquecer que FHC é SOCIÓLOGO, ahahaha. \r
    \r
    Agora vejam a evolução dos gastos sociais no governo LULA, como ele mesmo disse: " A reencarnação do povo"\r
    \r
    Assistência Social (R$)\r
    \r
    2003 - 13.077.355.802,26 \r
    \r
    2006 - 28.394.616.531,67 \r
    \r
    2009 - 36.659.855.882,59 \r
    \r
    2011 - 29.355.508.676,22 \r
    \r
    É muito claro dizer que os gastos sociais estão altos, ao passo que é uma imbecilidade tremenda dizer que o governo do PT irá cortalos. \r
  • Tulio  26/04/2011 15:27
    Sem querer entrar em discussão política, até porque já rasguei meu título há muito temp:O SEU PT ESTÁ ACABANDO COM O PAÍS.\r
  • Alexandre M. R. Filho  26/04/2011 13:45
    Leandro, por isso então que é tão caro pegar $$ emprestado nos bancos?\r
    \r
    Quer dizer, se é tão fácil emprestar pro governo com lucro, pq um banco emprestaria pra mim a juros menores do que o faz para o governo?\r
    \r
    Assim, quando o governo recrimina o agiota - que muitas vezes cobra menos que os bancos - está atrapalhando e muito a vida do cidadão de bem...
  • Rodrigo  26/04/2011 14:01
    Prezado Leandro Roque,

    Onde vai parar a dívida americana? Há quem fale em 18 trilhões em 2015, há quem fale em...22 trilhões. E Gerald Celente fala em colapso nos próximos anos.
  • André Ramos  26/04/2011 14:43
    Excelente texto.
    Somando-se aos outros, é uma verdadeira aula.
    Parabéns, Leandro!
  • Leandro  26/04/2011 15:00
    É exatamente isso, Alexandre. Perfeito. Sem mais.

    Rodrigo, ambas as cifras são plausíveis. O atual ritmo de expansão da dívida americana é pornográfico. Quando China e Japão pararem de comprar os títulos americanos, o Fed (que hoje já detém 70% dos títulos recém-emitidos) terá de monetizar ainda mais. O Celente, embora pareça exagerado, tem um impecável histórico de acertos. Consta que até hoje não errou uma. O cenário, de fato, não é nada alvissareiro.

    Prezado André Ramos, muito obrigado!

    Grande abraço!
  • David  26/04/2011 15:09
    Leandro, infelizmente a simples abolição do Banco central não resolve o problema. Enquanto o estado usufruir do monopólio da moeda só mudaremos o problema de lugar, o governo criará moeda de alguma forma.
    Temos de lutar contra todo tipo de monopólio, este, me parece, o único meio de reduzir intervenções no mercado.
  • Túlio  26/04/2011 15:24
    Parabéns.\r
    Ótimo e assustador.\r
  • Tulio  26/04/2011 15:31
    Lenadro, diante do quadro atual, podemos concluir que as irresponsabilidades governamentais continuarão, correto?\r
    Logo, é bastante provável, quase certo, que terei o desprazer de conhecer a temida inflação galopante, nos moldes dos anos 80 / 90?\r
  • Leandro  26/04/2011 15:44
    Eu não acredito em inflação galopante, Tulio. Não é do interesse de ninguém, nem mesmo da classe política e nem dos bancos, que ela volte.

    Uma hora o BC terá de reverter essa postura e deixar a SELIC subir. Ou o governo simplesmente terá de começar a gastar menos, algo que sem dúvida irá provocar choro e ranger de dentes entre aqueles que são beneficiados com o dinheiro do governo (servidores públicos e grandes empresários, principalmente).

    Portanto, inflação galopante, não. Porém, essa inflação mediana de 5-7% poderá ser bem duradoura. Vale lembrar que uma inflação média de 6% (sabemos na prática que o número verdadeiro é bem maior) faz com que, em apenas 5 anos, seu poder de compra caia 33%. Não é pouca coisa.

    Outro adendo: esse atual sistema monetário em que vivemos no Brasil (papel-moeda sem lastro, câmbio flutuante e metas de inflação) existe apenas desde 1999. Tem apenas doze anos. Nos EUA e em todo o mundo, ele existe apenas desde 1973. Ou seja, tem menos de 40 anos. É tudo muito recente e imprevisível. A única certeza é que ele é altamente instável.

    Grande abraço!
  • mcmoraes  26/04/2011 16:01
    Leandro disse: Outro adendo: esse atual sistema monetário em que vivemos no Brasil (papel-moeda sem lastro, câmbio flutuante e metas de inflação) existe apenas desde 1999. Tem apenas doze anos. Nos EUA e em todo o mundo, ele existe apenas desde 1973. Ou seja, tem menos de 40 anos. É tudo muito recente e imprevisível. A única certeza é que ele é altamente instável.

    Essa me fez lembrar de uma música profética :)
  • Leandro  26/04/2011 16:03
    Essa música é sensacional, mcmoraes. Dá pra utilizá-la ao final de cada notícia sobre questões financeiras da atualidade.

    Grande abraço!
  • Rodrigo  26/04/2011 16:13
    Mas eu também acho que se Ron Paul chegasse à presidência dos EUA, o atual sistema não o deixaria governar. Já imaginou, Leandro, um decreto que põe fim ao Banco Central?
  • Rhyan Fortuna  26/04/2011 16:44
    Esse sistema tesouro-bancos-BC é idêntico nos EUA? Quais as diferenças?

    "Consta que até hoje não errou uma."

    Por um momento essa frase me assustou... heheehehe...
  • mcmoraes  26/04/2011 17:03
    Pegando carona na conversa de vocês: alguém ae já viu o Celente mais sinistro do que nesse vídeo?
  • Leandro  26/04/2011 20:01
    Rhyan, o sistema é o mesmo. O BACEN se inspirou no Fed. O COPOM foi criado em 1996 e as metas de inflação, em 1999. Eles se inspiraram naquilo que eles achavam que funcionava bem à época.

    Abraços!
  • Joao  27/04/2011 08:20
    Poxa, como é bom saber que o Brasil copiou o FED! Isso significa que o futuro do Brasil será, provavelmente, o futuro dos EUA.
  • Rodrigo  26/04/2011 17:40
    Mcmoraes, o mais sinistro do Celente é dizer que o Federal Reserve apenas está postergando o colapso das finanças.
  • Lucas  26/04/2011 17:47
    Leandro,

    Como sempre, excepcional artigo!
    Uma dúvida: Sabendo que os títulos do Tesouro têm data de vencimento, uma responsabilidade de gastos da União (gastos menores que arrecadação via impostos, tornando desnecessário a contínua emissão do novos títulos) e a liquidação dos títulos já existentes não limitaria a atuação do Banco Central a longo prazo e exigiria maior responsabilidade dos bancos?

    Abraço,
  • Leandro  26/04/2011 20:02
    Obrigado, Lucas.

    Bom, na eventual -- entretanto extremamente improvável -- hipótese de o governo liquidar toda a sua dívida e não mais incorrer em déficits, o Banco Central perderia totalmente sua capacidade de fazer política monetária (afinal, não haveria mais títulos públicos em posse dos bancos para ele comprar).

    Apenas isso já explica por que não há interesse algum da parte de ninguém a dívida. E é exatamente assim que o Tesouro age: quando chegar o momento de quitar uma dívida, ele simplesmente emite outra para pagar esta (o que se chama de rolar a dívida).

    Isso nunca vai acabar.

    Grande abraço!
  • Paludo  27/04/2011 01:20
    Excelente artigo!
    Mas não seja tão pessimista assim, Leandro.
    Ainda venceremos essa luta. Continuemos disseminando nossas ideias e combatendo o obscurantismo por todos os cantos pois sinto que a nossa hora ainda vai chegar.
    Abraço
  • Vítor Jó  27/04/2011 01:48
    Excelente, excelente! Meus parabéns!
    Admiro essa gama de conhecimento, essa análise fantástica do universo econômico. Um dia chegarei lá!
  • Bruno  27/04/2011 10:22
    Obrigado Leandro.
    Assustador e elucidativo.
    E ae quando dizem "a culpa é do mercado" você não fica furioso?
  • Joao  27/04/2011 12:28
    Eu fico furioso, mas ao mesmo tempo tenho me divertido com os Keynesianos batendo o pé e fazendo birrinha com os economistas austríacos. Sempre fazem ataques partindo de generalizações grosseiras que me fazem pensar o que diabos o sujeito tem estudado na vida. Por exemplo, eu já li coisas como:
    - "Esse axioma da ação humana é ridículo, como é que se pode deduzir o que as pessoas vão fazer a partir de um axioma?" (Ora, quem quer deduzir o que as pessoas precisam fazer e consumir são os estatistas)
    - "Essa teoria é ridícula porque ela praticamente nega as ciências sociais. Não há como alcançar a perfeição e satisfação de todos os indivíduos. É preciso um estado para gerir as regras de convivência". (Esse estado, é claro, é composto por duendes mágicos que só pensam de forma coletiva)


    Nos EUA, a situação é trágica, mas os keynesianos são hilários.
    O Keynesiano em 2002:
    "A economia vai melhorar muito!. O governo está empenhado em fazer a roda da economia girar."
    O Keynesiano em 2006:
    "O pacote de ajuda vai acabar com a recessão! Como sabemos, a curva IS/LM, DFC/SSIW e IUWW/FFFHHN-OIQUWE prova que os gastos do governo é que geram o paraíso na terra. Estamos todos vendo que a economia melhorou muito. Esses economistas austríacos são uns idiotas, não entendem as maravilhas dos cálculos econômicos complicadíssimos que eu estou fazendo, que tratam o consumidor como um idiota que só quer saber de consumir aquilo que o governo acha que ele deve consumir."
    O Keynesiano em 2009:
    "Tivemos uma crise, mas os pacotes de ajuda do governo vão reativar a economia, e a situação vai melhorar!"
    O Keynesiano em 2010:
    "Parem de dizer que os gastos públicos estão desenfreados! O problema é o contrário: os gastos são insuficientes. O governo Obama não está gastando o suficiente, ele precisa garantir que o cidadão não perca sua casa, precisa bancar os investimentos para que o consumo não pare! O problema está na ganância do mercado, no espírito animal do mercado! O governo precisa controlar mais a economia, por isso, tem que criar mais algumas centenas de milhares de páginas de leis e regulações! Quando tivermos um conjunto de regulações que, se impresso em folhas A4 e empilhado, alcance o espaço sideral, aí sim a economia terá melhorado! Aqui estão mais alguns trilhões de dólares. Não funcionou da última vez, a economia está ainda pior, mas eu tenho certeza de que o problema foi a falta de gastos!"
    O Keynesiano em 2011:
    "Vamos lá, Obama, você precisa gastar mais dinheiro e regular mais a economia! Eu tenho certeza de que isso vai funcionar! Não me decepcione!"

    É por essas e outras que eu não tenho nenhuma vontade de estudar economia. Simplesmente não consigo entender como uma fraude como o Keynesianismo pôde ser elevada à categoria de teoria econômica genial.
  • void  27/04/2011 12:47
    Adorei esse comentário do João. hahaha
  • Miguel A. E. Corgosinho  27/04/2011 13:04
    Apoio as criticas contra os órgãos do governo, levando por diante a visão do IMB acerca das reservas fracionárias que são oferecidas a custa de nada pelo banco central, em relação aos grupos econômicos que as vendem ao Estado - fazendo-o emitir cada vez mais títulos públicos do "valor" de derrube do Estado para os controladores do capitalismo.

    Isso mostra que a objetivação do Estado não é a guardiã da ação recíproca do individuo, com o sinônimo originário do poder mútuo da confiança de transformação da sociedade; tendo que endividar-se com altos déficit's, ao serviço de estratificação dos números da produção, para que sua mera importância negativa possa representar o "valor" de uma moeda formadora da soma de igualdade, mas, ao mesmo tempo, teremos outra moeda de face bancária para reproduzir o preço do projeto monetário e sua alienação.

    A doutrina do capitalismo vende a alienação da exterioridade sem dizer o lugar onde a encontramos, enquanto aprisiona a essência da ação humana (valor) à idéia de banco central

    Mas quem é a fonte (essência) da exterioridade da sociedade?

    - Os valores da ciência econômica
    - O dinheiro virtual dos bancos
    - O financiamento dos EUA e seus agentes .

    O Estado se transforma num mero meio de sustentar a sociedade capitalista.

    Ao meu ver, a dissolução do ambiente da sociedade se deve, no momento, ao comércio com os que ostentam os títulos públicos e convencionam os três aspectos acima com os costumes meramente dos mercados dispersos, alterando a constituição social e a liberdade. Enfim, são membros da sociedade que pensam fazer algo extraordinário, mas nunca defendem a projeção da economia do lado de fora dos interesses da suprema propriedade privada (o mercado financeiro), porque ela lhes empresta uma área de relacionamento com uma entidade alheia - o dinheiro.

    O capitalismo e o Estado dividem o conceito de dinheiro em duas partes, uma das quais é superior externamente a sociedade.

    É evidente, porém, que o "valor" da produção é algo que deve estar apropriadamente além do alcance humano, com a forma da sociedade; e os termos que venham corresponder a criação da moeda não serão entregues ao Estado para ele dirigir as mudanças do mundo; quando a melhor escolha é encarar a esfera descritiva do livre curso de um Todo harmônico, que absorva a exterioridade do valor do modo de produção no poder universal.

    O crescimento do valor da produção surgirá, então, como potência da sociedade, a fim de que as atividades produtivas estejam na mesma situação de períodos científicos que possuem a evolução reveladora da moeda espacial, como meio de interiorizar o plano da própria natureza externa da economia.

    Talvez, o IMB aceite promover um seminário voltado a reestruturação da unidade cambial, pois carecemos do novo meio fundamental para o advento do "Valor" prevalecente da medida monetária, tornando a produção uma extensão econômica da ordem Mundial, existente na tarefa do "padrão de valor" - que afere toda centralidade dos números continuamente crescentes da potencialização do PIB - e assuma se declarar no domínio de todas limitações de tempo - na marcha dos pressupostos dos dias opostos a relação social.
  • Leandro Rousselet  27/04/2011 19:36
    Vou repetir todo mundo e parabenizá-lo pelo excelente artigo..
    Bom, graças a didática e sensibilidade do autor em explicar em detalhes os mecanismos bancários mais cabeludos, foi possível entender o artigo. No entanto, geralmente me bato um pouco para entender os artigos sobre sistema bancário e gostaria de saber se o autor do texto teria algum livro para indicar que explique bem essas nuances bancárias.
    Desde já obrigado.
  • Leandro  27/04/2011 20:37
    Prezado Leandro, obrigado.

    Bom, não sei há quanto tempo você conhece nosso site, mas para qualquer iniciante que queira saber sobre sistema bancários, eu recomendaria a leitura dos seguintes artigos, nessa ordem:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=311
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=344
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=705


    Caso seu inglês seja bom, e sua preferência por livros seja definitiva, o mais completo livro sobre sistema bancário ainda é o de Murray Rothbard, inteiramente disponível em .pdf:

    mises.org/mysteryofbanking/mysteryofbanking.pdf

    Grande abraço!
  • Mauro Mendes  27/04/2011 23:28
    Leandro,

    Parábens pela explanação!

    Meu primeiro contato com a EAE se deu em setembro de 2010, lí o livro Seis Lições de Mises, desde então sou um assíduo leitor do site que contêm textos brilhantes e de fácil entendimento, tanto é que tenho pensado em cursar econômia, porém temo encontrar um ambiente recheado de Keynesianos me falando e ensinando bobagens que não vou poder aturar.

    Abraços.
  • Joao  28/04/2011 07:12
    Estou passando pelo mesmo dilema que o seu. Já pensei em cursar economia, mas, sinceramente, se for para estudar Keynesianismo e econometria monetarista por anos a fio, prefiro estudar sozinho.
  • Leandro  28/04/2011 08:36
    Prezados Mauro e João, é exatamente isso que vocês encontrarão no ambiente universitário: um ambiente moralmente decrépito, alienador e estupidificante, comandado por pessoas que se acham a reencarnação de Aristóteles na terra, mas que são na verdade a encarnação do garoto-propaganda da Bala Chita
  • Vinicius Aguilar  28/04/2011 09:38
    Exatamente, estou no terceiro ano de economia e não aguento mais ouvir falar de keynes, o pior ainda é ver a fascinação com que os alunos ficam ao ver o professor explicando, as aulas são sempre parciais e tendenciosas, como exemplo, estou tendo macroeconomia moderna, o conteúdo consiste em uma analise sobre a escola neoclássica e o keynesianismo, a posição do professor em relação aos princípios neoclássicos eram claros, ele se utilizava de explicações de cunho desonestos e incompletos, por exemplo "para vocês verem eles não aceitam o salário mínimo" não explicava o motivo, as causas e as consequencias e deixava um ar de perversidade que só seria resolvido com a futura explicação keynesiana, sou rotineiramente taxado de "do contra", "revoltado" por debater com o professor em sala de aula, não existe hoje a possibilidade de um debate saudável e construtivo nas faculdades brasileiras.

    Quanto a cursar ou não economia, o principal problema no Brasil hoje, é a necessidade de diploma, independente de se ensinar keynes ou hayek, sem diploma o marcado de trabalho fica restrito, logo ainda é necessária uma faculdade, faça sua parte e não se torne um keynesiano.
  • Zecass  28/04/2011 19:00
    \r
    Prezado Dr. Leandro,\r
    \r
    Brilhantíssimo artigo. Porém é de sugerir algumas observações que complementam seu artigo:\r
    - Parte de nossa inflação decorre de postura questionável do Banco Central/Governo de importar um pouco da inflação monetária que o perdulário governo americano e seu banco central decidiram fabricar desde a eclosão da crise de final de 2008 (que está apenas em seu começo);\r
    \r
    - O Governo realmente incorre em deficits há décadas, mas parte desse deficit atual em seu orçamento também se origina de sua irresponsável política de acumular reservas em dólares, cujo custo fiscal é elevadíssimo, apenas para agradar aos amigos do rei (exportadores cartelizados e a indústria nacional viciada);\r
    \r
    Qual a sua opinião acerca dessas duas observações? O Brasil deve continuar acumulando reservas e tentando segurar o câmbio?\r
    \r
    Abraços,\r
    \r
    Zecass\r
    \r
  • Leandro  28/04/2011 19:34
    Prezado Zecass, muito obrigado.

    Sim, suas duas observações estão corretíssimas, e eu mesmo já abordei detalhadamente esse assunto neste artigo escrito ainda em outubro de 2009 (nada mudou de lá pra cá).

    Vale lembrar que, mesmo que nossa inflação monetária adviesse unicamente da compra de dólares feita pelo Banco Central (o que não é verdade), ainda assim estaríamos diante de uma política cuja decisão cabe inteiramente ao BC. Logo, a responsabilidade continuaria sendo dele.

    Por fim, é óbvio que não há motivo algum para defender essa política de compra de dólares para beneficiar empresas. Abordei isso também no final do artigo que linkei acima. Não faz sentido econômico algum o governo controlar preços (câmbio é um preço) para beneficiar empresas. O governo deve apenas não atrapalhar empresas, desburocratizando, destributando e desregulamentando. Mexer no câmbio é uma solução de curto prazo que só traz ineficiência e prejudica todo o restante da população (peço de novo que tenha a bondade de ler o final do artigo linkado).

    Grande abraço!

    P.S.: apenas uma observação: a política de compra de dólares pelo BC não gera déficits per se. O BC pode ou imprimir reais para comprar dólares ou vender títulos do Tesouro que estejam em sua posse para arrecadar reais e com eles comprar dólares (observe que essa última operação não altera a base monetária). Déficits envolvem gastos do Tesouro e a comprar de dólares é uma operação feita pelo Banco Central, algo fora do orçamento do governo.*

    * Sim, eu sei que, tecnicamente, o BC também faz parte do conceito de "Governo Central" e seu resultado operacional é incluído nas contas do superávit/déficit primário do governo. Porém, os valores são extremamente baixos quando comparados ao resultado operacional do Tesouro e da Previdência, de modo que os déficits vultosos que o governo apresenta em termos nominais não advêm diretamente das operações de compra de dólares feitas pelo Banco Central.
  • Zeca  29/04/2011 14:54
    \r
    Obrigado pelos esclarecimentos. É que eu havia lido na imprensa que o custo fiscal de carregamento dessas reservas, calculado pelo diferencial entre a taxa de juros interna (próximo à SELIC) e o rendimento das aplicações dessas divisas no exterior (em média 1% a.a.) já havia gerado um custo para os cofres públicos de uns R$ 80 bilhões. A mídia já andou informando que parece que manter anualmente US$ 330 bi já custa uns R$ 24 bi para a Viúva.\r
    Se bem que, se houver uma desvalorização galopante do Real, automaticamente esse custo transforma-se num resultado positivo do BC, que iria para o Tesouro abater parte de sua dívida mantido naquela autarquia (BC). Ou seja, tudo acaba virando um jogo contábil, que corrobora mais uma vez com a seu artigo, no sentido de que Tesouro e BC estão umbilicalmente unidos e são cúmplices no caso da inflação de preços. \r
    \r
    Grande abraço,\r
    \r
    Zecass
  • Leandro  29/04/2011 15:03
    Mas é isso mesmo, Zeca. Quando o BC compra quer segurar o câmbio, ele imprime reais e compra dólares. Após essa operação, ele vende títulos em sua posse justamente para "esterilizar" esses reais que ele jogou na economia.

    Nesse caso, observe que agora os títulos estão em posse dos bancos, e o governo paga juros SELIC sobre esses títulos.

    Então, o arranjo fica sendo o seguinte: o BC compra dólares para investir em títulos do Tesouro americano, os quais rendem 0,25% ao ano. Para isso, ele vende títulos do Tesouro brasileiro aos bancos, os quais custam ao Tesouro a SELIC (12% ao ano).

    Faça as contas (rendimento de 0,25% e custo de 12%) e veja o quão inteligente é essa política de contenção da queda do dólar.

    Abraços!
  • Pescador  30/04/2011 20:05
    Belíssimo artigo, bem simples de entender. São textos de qualidade como esse que me deixam cada vez mais "viciado" no IMB. Continuem assim, vocês fazem um trabalho primoroso!
  • Diogo Siqueira  05/05/2011 00:47
    Abaixo ao BC!
  • Hélio Souza  10/05/2011 11:16
    Prezado Leandro

    É a primeira vez que comento neste site e gostaria de parabenizar a toda a equipe do IMB por nos mostrar artigos tão esclarecedores sobre economia e que fogem ao senso comum de que o governo é o "promotor do crescimento". Sempre desconfiei de que o governo mais atrapalha do que ajuda quando resolve intervir no mercado e nas nossas vidas.

    Agora eu te peço uma ajudinha por favor:

    Estava esses dias comentando com a minha namorada sobre a deflação, que ela não é exatamente maléfica e tal. Ela, que cursou administração de empresas, argumentou que a deflação generalizada gera crises sim (malditos professores keynesianos!) e usou o argumento de que uma deflação levaria a uma restrição no consumo pelo fato das pessoas pouparem para ganhar poder de compra, que levaria as empresas a venderem mais barato, que levaria a mais deflação, a mais poupança, e assim, continuaria esse círculo vicioso até haver uma quebradeira generalizada por ninguém consumir e as empresas não teriam estímulo para investir.

    Ainda tentei usar o argumento da preferência temporal das pessoas, mas ela contrapôs meu argumento dizendo que numa deflação generalizada, as pessoas NUNCA iriam "consumir mais" no futuro porque sempre iriam poupar para continuar ganhando poder de compra sempre.

    Ela inclusive me mostrou alguns artigos na internet que corroboravam a sua idéia, como citando a crise de 1929, dizendo que foi causada pela deflação, entre outros artigos, como este por exemplo:

    super.abril.com.br/superarquivo/2003/conteudo_123842.shtml

    Minhas dúvidas são:

    1 - A deflação sempre é benéfica, ou em algum momento da economia ela pode ser maléfica?

    2 - Quais argumentos eu posso usar para rebater o tese de que a crise de 1929 foi causada pela deflação, e que as pessoas não irão guardar seu dinheiro ad eternum num cenário de deflação contínua e generalizada?

    Me desculpe pelo texto longo e pela pergunta meio fora de contexto, mas é que eu quero ter ainda mais argumentos para rebater essas falácias keynesianas.

    Grande abraço a todos e continuem com o excelente trabalho!
  • Joao  10/05/2011 11:34
    Hélio, vários artigos disponíveis neste site a respeito da Grande Depressão e como as políticas econômicas do governo dos EUA pioraram a crise, ao contrário do que se diz.
  • Leandro  10/05/2011 11:57
    Prezado Hélio, seja bem vindo e obrigado pelos elogios.

    Bom, em primeiro lugar, espero não causar entreveros, mas permita-me dizer que sua namorada está confundindo deflação de preços com deflação monetária.

    O que houve na Grande Depressão foi uma deflação monetária -- isto é, houve uma redução abrupta na quantidade de dinheiro na economia (redução essa que foi causada por várias quebras bancárias).

    Este cenário de deflação monetária gerou uma óbvia deflação de preços -- porém, vale enfatizar, todo o problema estava na deflação monetária.

    Entretanto, caso o problema tivesse sido apenas essa deflação monetária, a economia poderia ter se recuperado rapidamente caso o governo tivesse permitido que houvesse uma livre redução de preços e salários, de modo que ambas essas variáveis se ajustassem à nova realidade da economia (isto é, à menor quantidade de dinheiro).

    Porém, o governo não apenas impediu esse reajuste, como na verdade fez justamente o contrário, intervindo: o governo (tanto Hoover quanto Roosevelt) instituiu controle de preços e salários, tarifas de importação, aumento de gastos, aumento do déficit e políticas de cartelização para beneficiar produtores.
    Ou seja, o governo impediu que os preços (o principal mecanismo de coordenação do mercado) se reajustassem naturalmente -- tendo sido exatamente isso o que prolongou a depressão por 15 anos, até o final da Segunda Guerra.

    Entendido esse ponto importante, volto a ressaltar: a deflação de preços causada pelo crescimento econômico é totalmente benéfica. Pergunte à sua namorada se ela acha ruim ver os preços dos eletrônicos caindo anualmente; pergunta também por que tais empresas não apenas não quebraram, como na verdade apresentam grandes lucros. Isso vai de encontro à teoria dela.

    Ademais, diga a ela também que a deflação de preços foi a regra durante todo o século XIX nos EUA, sendo ainda mais intensa no período 1865-1913. E foi justamente durante esse período que o país apresentou os maiores níveis de crescimento anuais de sua história.

    Essa teoria de que "deflação levaria a uma restrição no consumo pelo fato das pessoas pouparem para ganhar poder de compra, que levaria as empresas a venderem mais barato, que levaria a mais deflação, a mais poupança etc." embute desconhecimento econômico e desconhecimento da realidade.

    Em primeiro lugar, aumentar a poupança nunca é ruim. Ao contrário, sempre é bom. É a poupança que permite investimentos e acumulação de capital. É a poupança que gera riqueza. Essa "aversão" à poupança é coisa tipicamente keynesiana, de quem vê a poupança como o grande mal do mundo (aversão à poupança é também algo tipicamente feminino, mas isso é algo que deve ser restrito às mesas de chope...)

    Ademais, esse próprio argumento traz consigo uma contradição: queda de preços gera aumentos reais nos salários. Veja: os custos de produção caem. Mas como a oferta de mão-de-obra tende a ser relativamente constante, os salários nominais se mantêm constante. Como os preços de tudo caíram, há então um aumento no salário real.

    Novamente, o que há de ruim nisso tudo? Não há um único argumento teórico, tampouco empírico, de que haverá uma redução do consumo a ponto de gerar "quebradeira generalizada por ninguém consumir e as empresas não teriam estímulo para investir". Por que haveria redução do consumo? As pessoas virariam monges em retiro eterno?

    Ademais, estímulo para investir é que não falta em um cenário de poupança alta (logo, crédito mais barato) e custos de produção decrescente. É realmente preciso ser muito keynesiano para não entender isso.

    Por fim, além dos artigos recomendados pelo João, recomendo esses sobre deflação e Grande Depressão:
    www.mises.org.br/Subject.aspx?id=40
    www.mises.org.br/Subject.aspx?id=37


    Grande abraço, Hélio, e boa sorte com a moça.
  • Helio Souza  10/05/2011 13:08
    Prezado Leandro

    Muito obrigado pela prontidão e clareza da resposta.

    Vou mostrar seus argumentos e artigos a ela, e tentar trazê-la cada vez mais para o lado "libertário" da força.

    Às vezes eu tento fazer isso com meus colegas também, mas são pouquíssimos que se interessam e entendem o mínimo de economia, a maioria só sabe reclamar que o preço do IPod é muito mais caro no Brasil, e apoiar protesto contra os donos de postos porque a gasolina está cara. Mas isso já é alguma coisa, e uso isso como brecha para explicar sobre a teoria austríaca e como é o governo o verdadeiro culpado por estarmos pagando tão caro por tudo, e não os empresários gananciosos que eles dizem (a não ser os beneficiados pelo governo, claro).

    E assim como o beija-flor que tenta apagar o incêndio da floresta, vou tentando conscientizar cada vez mais pessoas para a verdadeira ciência econômica, sendo que eu vejo que o primeiro passo é fazê-las se interessar por economia.

    Essa é uma luta demorada, para quem sabe meus filhos e netos possam desfrutar de um mundo mais livre e menos hipócrita. Acredito que o aumento da classe média e do acesso à internet possam acelerar um pouco esse processo, e um site como o IMB e vários outros sobre libertarianismo são de grande importância nessa luta.

    Espero sempre contar com o apoio de vocês quando me deparar com um argumento a favor da intervenção governamental e eu não souber a resposta.

    Abraços!
  • Filipe Giusti  09/10/2011 17:12
    Onde o BACEN divulga o quanto dos depósitos compulsórios foram aumentados (e dívida pública recomprada) dos bancos em cada mês?
  • josé carlos zanforlin  27/03/2012 09:19
    Prezado Leandro:\r
    \r
    Sua exposição sempre é clara, sucinta e convincente.\r
    Queria entender melhor a afirmativa de que se o governo menos consumir mais sobrará para empresários, empreendedores, população em geral: é que o governo não é uma entidade alenígena, de fora, ele se compõem também de parte da população. Assim, o que ele consome, por seus funcionários e agentes, pode dizer-se ser consumo da população. Ou não? \r
    Agradeço esclarecimento.
  • Leandro  27/03/2012 11:55
    Prezado Zanforlin, obrigado pelas palavras.

    A questão é mais complexa do que isso. Imagine, por exemplo, que o Congresso aprove um orçamento que envolva a compra de mil computadores, televisões LCDs e laptops, além de vários quilos de café, de inúmeras máquinas de fazer café, papel higiênico, sabonetes, gravatas, ternos e afins.

    Isso (1) faria com que houvesse menos desses itens disponíveis para a população, prejudicando os mais pobres; (2) obrigaria as indústrias a desviar seus recursos para o aumento da produção desses bens, impedindo o investimento em, e a expansão de, outros processos de produção; (3) impediria que esses itens consumidos pelo governo fossem empregados em usos mais produtivos pela população, o que poderia inclusive gerar benefícios para terceiros.

    Um exemplo mais claro ocorre quando o governo, por exemplo, decide fazer obras eleitoreiras, como construir um viaduto ou uma ponte majestosa. Para tais empreendimentos, recursos como tratores, aço, cimento, vergalhões, argamassa, tijolos etc., os quais poderiam estar sendo utilizados pela construção civil, serão desviados para as obras do governo, escasseando (e, logo, encarecendo) estes itens e prejudicando o setor privado, que agora terá de arcar com custos maiores.

    Mesmo que o governo gastasse exclusivamente com funcionários públicos, o efeito seria mesmo. É preciso sempre ter em mente que os fundos que possibilitam os gastos do governo vieram (1) dos impostos arrecadados (carga tributária), ou (2) do aumento da oferta monetária (inflação) ou (3) do endividamento do governo via emissão de títulos. Todas estas três medidas configuram absorção de poupança de toda a população, poupança essa que poderia ser utilizada para financiar projetos de expansão.

    Recomendo os seguintes artigos para melhor esclarecer estas noções:

    Trabalho, emprego, poupança e capital
    Gastos governamentais sempre são ruins para a economia
    O problema com os gastos do governo

    Grande abraço!
  • jose carlos zanforlin  28/03/2012 13:29
    Caro Leandro:\r
    \r
    Agradeço explicação e recomendação de leituras.
  • Leandro  09/08/2012 15:40
    Mais uma para o rol de notícias surreais do Brasil:

    Funcionários do Banco Central decidem hoje à tarde se entram em greve

    Os funcionários do Banco Central (BC) devem decidir nesta quinta-feira à tarde se entram em greve, por reajuste salarial de 23%.

    [...]

    Os 23% de reajuste na remuneração cobririam perdas com a inflação desde 2008, segundo dirigentes do Sinal.


    Próximas notícias:

    Promíscuos entram em greve em protesto contra a epidemia de DST

    Alcoólatras entram em greve em protesto contra a ressaca

    Drogados entram em greve em protesto contra a overdose
  • Jose Roberto Baschiera Junior  10/08/2012 04:32
    Eu não me surpreendo com isso.
  • Randalf  10/09/2012 16:06
    O que é a 'compensação dos meios fiduciários'? .. Não me poderiam explicar?
  • Leandro  10/09/2012 16:37
    Prezado Randalf, ambos os termos estão explicitados no artigo.

    Meios fiduciários são o dinheiro eletrônico que os bancos criam do nada, meros dígitos eletrônico para os quais não há correspondente em papel-moeda físico. Trata-se do dinheiro que você utiliza como pagamento através de cheques ou cartão de débito, mas que não possui um correspondente valor em dinheiro físico dentro dos cofres dos bancos.

    Já a compensação é a transação interbancária que ocorre ao final de cada dia, quando um banco exige que o outro lhe transfira dinheiro para cobrir os cheques e demais transações realizadas entre seus clientes.

    Isso tudo está no artigo. Basta você lê-lo com atenção.
  • Emerson Luis, um Psicologo  30/11/2014 22:49

    Os dois são culpados. E a governanta é a maior culpada.

    * * *


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