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O que fazer em caso de quebras bancárias generalizadas?

Um leitor envia a seguinte pergunta a respeito do colapso bancário da Islândia:

Tenho uma dúvida que gostaria que dirimisse com um artigo no sítio. É sobre a falência da Islândia na crise de 2008. Li que os 3 bancos do país que operavam mui alavancados foram à falência. E como quase 100% da população tinha conta nos 3 bancos em simultâneo, o país quebrou. Quando os bancos se tornaram insolventes, o dinheiro de cada islandês derreteu. Então os bancos foram nacionalizados.

Eu gostaria de uma explicação acerca de como agir nesta situação sem apelar para intervenção. Sei que não permitir o ajuste consequente a um crack é apenas adiá-lo. Mas não consigo visualizar como proceder sem imprimir dinheiro e nacionalizar os bancos, pois de uma hora para outra o dinheiro islandês deixou de existir. Os bancos não podiam restituir os depósitos, e isto foi generalizado a todo um país. Já entendo que estas intervenções vão gerar mais do mesmo, mas não estou conseguindo aplicar o individualismo metodológico a esta questão em particular. Espero que isto renda um bom artigo para o sítio. Atenciosamente, Pedro Ivo.

O interessante do caso da Islândia é que se trata de um exemplo prático completo da teoria dos ciclos econômicos: um sistema bancário de reservas fracionárias, operando sob a proteção de um banco central, expande acentuadamente a oferta monetária; isso gera uma grande expansão da economia; vários investimentos errôneos são empreendidos (no caso da Islândia, nas indústrias de alumínio e construção, além do setor financeiro, que se expandiu alucinadamente); a inflação de preços começa a incomodar; os juros sobem; investidores começam a sacar dinheiro; há uma contração da oferta monetária; a contração da oferta monetária gera não apenas uma recessão como também faz com que todos os bancos do país vão à falência; consequentemente, grande parte do dinheiro literalmente some da economia (a temida deflação monetária); o país entra em uma severa depressão.

Na grande maioria dos exemplos práticos de ciclos econômicos, a oferta monetária apenas para de crescer, o que já causa uma recessão.  Em alguns exemplos mais extremos, há a quebra de alguns bancos, que imediatamente são incorporados por outros ou encampados pelo governo, como ocorreu em 2008-2009 nos EUA e no Reino Unido, o que faz com que a crise bancária seja momentaneamente contida.  No caso da Irlanda, os principais bancos — cujos ativos se depreciaram em decorrência do estouro da bolha imobiliária do país — foram completa ou parcialmente estatizados, mas não houve quebradeira.

No caso da Islândia, o contágio foi geral.  Os três principais bancos do país quebraram.  (É como se o Bradesco, o Itaú e o Banco do Brasil quebrassem).  Um ciclo econômico levado ao seu extremo, com todos os seus elementos característicos: um aparentemente forte crescimento econômico seguido de quebras bancárias pirotécnicas, deflação monetária e depressão severa.

O que fazer nesse caso extremo?

Consequência de um sistema bancário de reservas fracionárias

Em primeiro lugar, sempre é bom enfatizar que o dinheiro que sumiu da economia islandesa era um dinheiro que não existia fisicamente.  Era um dinheiro fictício (eletrônico) criado pelo processo de reservas fracionárias.  Quando operam com reservas fracionárias, os bancos criam dinheiro do nada, colocando em circulação mais dinheiro do que de fato existe em suas reservas — no caso, criam mais dinheiro do que a quantia originalmente depositada pelos correntistas.

Nesse cenário, quando ocorre uma corrida bancária — no caso da Islândia, a corrida foi originada pela crise econômica mundial —, os correntistas (nativos e estrangeiros) sacam todo o dinheiro que podem de suas contas.  Tal processo obriga os bancos a cancelarem as contas-correntes e a restituírem dinheiro em espécie para os correntistas.  Porém, como a quantidade de dinheiro (eletrônico) nas contas-correntes era maior do que a quantidade de dinheiro físico que os bancos possuíam em suas reservas, muitos correntistas ficam sem receber de volta o dinheiro que haviam depositado.  Logo, a quantidade total de dinheiro na economia é reduzida.  O dinheiro literalmente some.

Esse processo é chamado de deflação monetária — isto é, a quantidade total de dinheiro na economia reduz-se abruptamente.  Ato contínuo, os bancos ficam totalmente insolventes, pois agora têm mais passivos do que ativos.  Contabilmente, isso provoca uma redução no seu capital.

Essa deflação monetária faz com que os bancos, além de terem de restringir novos empréstimos, tenham de requisitar a quitação antecipada de empréstimos pendentes, pois seu capital sofreu uma brutal redução.  Isso intensifica ainda mais o processo deflacionário, pois se está requisitando a devolução de um dinheiro que foi criado do nada - um dinheiro cuja criação expandiu a oferta monetária e cuja extinção agora contrai a oferta monetária.  Tal processo gera uma espiral deflacionária na economia.  Os bancos quebram, pois parte de seus ativos (os empréstimos criados com moeda fictícia, os chamados meios fiduciários) literalmente evaporou-se.

No caso da Islândia, o processo de quebra bancária e consequente sumiço do dinheiro só não se consumou inteiramente — isto é, com os três bancos efetivamente sendo liquidados e a oferta monetária reduzindo-se ao valor da base monetária — porque o Banco Central interveio e injetou dinheiro no sistema bancário.  O governo completou o processo nacionalizando os bancos.  Os três principais bancos do país representavam mais de 80% de todo o sistema bancário.  Outros três novos bancos foram criados para assumir os ativos domésticos que estavam nas carteiras dos bancos que quebraram.  Em um desses bancos, o governo detém ações majoritárias

Este livro detalha absolutamente tudo sobre a economia islandesa, com fartos dados sobre o processo do colapso.

Vale notar, por exemplo, o ritmo de crescimento totalmente instável da oferta monetária.  Eis a taxa de crescimento anual do M1 e do M2, de 2000 a 2010:

Ano

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010

M1

4%

6%

12%

43%

24%

22%

17%

  100%

29%

-6%

-1%

M2

-3%

12%

9%

27%

23%

22%

20%

82%

59%

-3%

-4%

Tal expansão fez com que o setor bancário, já em 2007, fosse 8 vezes maior que o PIB da Islândia!

Eis o comportamento da inflação de preços:

inflation_march iceland.png

Após tamanha expansão da oferta monetária, a contração de M1 e M2 durante o colapso só não foi maior justamente por causa da intervenção do Banco Central e da nacionalização dos bancos — os quais começaram a ser reestruturados em 2009.

Como o leitor corretamente apontou, esse processo de salvamento bancário simplesmente irá aumentar o risco moral e estimular mais comportamentos imprudentes no futuro — afinal, os bancos sabem que, não importa o que façam, serão socorridos pelo governo.  Ademais, quando a economia voltar a crescer e os bancos voltarem a emprestar, há o risco de uma severa inflação de preços — caso as injeções monetárias do Banco Central no sistema bancário tenham sido vultosas; e tudo indica que foram.

Outro detalhe que foi pouco discutido: tal medida do governo islandês significou um amplo e explícito processo de transferência de renda da população para os bancos, os quais, no final das contas, se deram muito bem com todo esse processo: mantiveram pra si os lucros durante o crescimento econômico artificial da economia islandesa, e socializaram os prejuízos com a população quando a conta da farra chegou — os gastos do governo subiram para 57,8% do PIB (na Suécia, por exemplo, os gastos são de 52,5%) e a carga tributária total está em 40% do PIB.  Ou seja, o déficit orçamentário está em incríveis 18% do PIB.  Tudo isso para salvar os bancos e tentar keynesianamente reativar a economia.

Não vou aqui me alongar nas causas do colapso islandês, pois estas já foram detalhadamente expostas neste artigo (muito recomendado para quem se interessa por questões monetárias).  É válido apenas ressaltar que o Banco Central da Islândia, além de expandir a base monetária — e, com isso, comandar a expansão do crédito —, também sempre deixou explícita a sua função de emprestador de última instância, o que serviu para encorajar os bancos a praticarem destemidamente a expansão monetária via reservas fracionárias. 

Como Jésus Huerta de Soto sempre faz questão de enfatizar, mesmo após a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética, o setor financeiro e bancário de todos os países do mundo continua fazendo parte de um esquema que envolve planejamento central (feito pelos bancos centrais), intervencionismo extremo (via fixação de juros pelo banco central) e monopólio estatal (o papel-moeda de curso forçado emitido pelos governos).  A própria existência de um banco central manipulando o preço mais importante de uma economia — os juros — é o símbolo precípuo do planejamento central e da economia socialista.

O que poderia ter sido feito

O leitor então pergunta qual deveria ser a solução de livre mercado para o colapso bancário islandês.  A solução apresentada abaixo seria válida para qualquer sistema bancário falido, de qualquer país.  O objetivo é obter um sistema monetário e bancário sólidos, e as medidas implementadas devem seguir três critérios: elas devem ser éticas, ser baseadas em uma teoria econômica sólida e, obviamente, devem criar um arranjo econômico fundamentado em bases sólidas.

Antes de tudo, é essencial esclarecer um ponto que sempre confunde as pessoas, inclusive vários economistas: quando há uma deflação monetária, o que muda na economia é apenas a quantidade de dinheiro, e não a sua riqueza.  A riqueza real da economia não se altera quando a oferta monetária é reduzida, da mesma forma que ela não se altera quando a oferta monetária é elevada.  O que realmente ocorre é uma redistribuição de renda.

Como explicou Bastiat, a riqueza de uma economia é medida pela sua abundância de bens e serviços, e não pela sua quantidade de dinheiro.  Um automóvel, um trator, um computador, um imóvel, uma televisão, um martelo, um tomate são bens; logo, representam riqueza.  E isso independe da quantidade de dinheiro na economia.  O dinheiro nada mais é do que uma maneira de se mensurar essa riqueza, assim como uma régua mensura um comprimento.  A distância real entre São Paulo e Porto Alegre é a mesma não importa se você a mensura em quilômetros, milhas, léguas ou jardas.  O instrumento utilizado para a mensuração, bem como sua escala, não altera em nada a distância física real entre as duas cidades.

Porém, imagine que o Sistema Internacional de Unidades alterasse o sistema métrico, de modo que o comprimento de um quilômetro passasse a ser a metade do que é hoje.  Repentinamente, a distância mensurada entre São Paulo e Porto Alegre passaria a ter o dobro de quilômetros.  Porém, a distância real obviamente não seria alterada.  É exatamente isso que acontece quando o banco central e o sistema bancário de reservas fracionárias expandem a oferta monetária: o padrão de mensuração é alterado.  Se a oferta monetária dobra, o preço do automóvel, do tomate, do imóvel, da televisão, do computador etc. pode dobrar, mas todos continuam sendo exatamente o mesmo bem.  O valor deles para seus proprietários não foi alterado em absolutamente nada.  A única coisa que aconteceu foi que o aparelho de mensuração foi modificado.  Absolutamente o mesmo raciocínio é válido quando a oferta monetária é reduzida.  (Exatamente por isso o ouro é um mensurador de riqueza melhor do que o dinheiro de papel, pois sua oferta altera-se muito pouco). 

Tendo entendido esse detalhe essencial, fica mais fácil agora entender por que uma deflação na oferta monetária não deixa — ao contrário do que dizem outros economistas — as pessoas mais pobres.  No caso da Islândia, a redução da quantidade de dinheiro na economia não representaria, em si, um problema, desde que, é claro, os preços e salários também pudessem ser livremente reajustados para baixo, algo que o governo e os sindicatos não deixam.

Logo, a primeira medida a ser tomada quando há uma quebra bancária é permitir a total liberdade de preços e salários.  É reconhecer que, com a deflação monetária, a quantidade real de riqueza da economia permanece a mesma, apenas o seu mensurador foi alterado.  Logo, preços e salários têm necessariamente de ser reajustadas para baixo.  Se ambos não puderem cair, então a depressão econômica será dolorosamente prolongada, exatamente como aconteceu na Grande Depressão americana.

Entretanto, apenas tal medida evidentemente não seria suficiente, pois ainda temos um sistema financeiro e bancário completamente paralisados.  Sendo assim, é urgente restaurar a confiança nos mercados e nas instituições financeiras.  Isso pode ser feito em três etapas.

Em primeiro lugar, os bancos devem reconhecer oficialmente que estão falidos.  Ato contínuo, seus ativos devem se tornar propriedade de seus depositantes.  Em seguida, o sistema bancário deve ser dividido em duas modalidades independentes: um sistema bancário com 100% de reservas para todos os depósitos à vista (depósitos cujo dinheiro pode ser sacado a qualquer momento ou utilizado via cheques ou cartão de débito) e um sistema bancário voltado para poupança e investimentos (isto é, um sistema de fundos de investimento), sem necessidade de manter reservas bancárias — com o óbvio detalhe de que o dinheiro investido nesses fundos não pode ser utilizado pelo emprestador e pelo tomador de empréstimo ao mesmo tempo.  Ou seja, o emprestador abre mão desse dinheiro pelo período de tempo do empréstimo.

Detalhando os passos

Sendo mais específico, todos os depósitos à vista de cada banco devem ter seu valor nominal reduzido até o nível das reservas bancárias da cada banco (reservas tanto em seus cofres quanto na forma de depósitos compulsórios junto ao Banco Central).  Cada correntista teria o valor nominal de sua conta-corrente reduzido nessa mesma proporção.

Assim, cada depósito à vista estará 100% lastreado por papel-moeda.  Isso significa que todos os correntistas poderão simultaneamente demandar todo o seu dinheiro em espécie e os bancos serão plenamente capazes de restituí-los.  Qualquer pedido de restituição em espécie por parte dos depositantes, bem como todo e qualquer acesso aos depósitos via cheque ou cartão de débito, não criaria problema para os bancos, que estariam sempre aptos a restituir toda e qualquer quantia demandada.  Desta forma, o M1 estaria definitivamente estabilizado.  Não haveria mais riscos de deflação monetária e nem de expansão de crédito sem poupança.

Da mesma forma, a propriedade dos empréstimos e investimentos (ativos) nas carteiras dos bancos deve ser transferida para seus correntistas — se os bancos foram responsáveis pelo colapso, então eles devem restituir seus correntistas, assim como uma empresa que quebra deve ter seus ativos distribuídos entre seus credores.  A maneira mais correta de se fazer isso é distribuindo quotas de fundos de investimento para cada depositante, com a quantidade de quotas sendo igual à diferença entre o valor original de seus depósitos à vista (o valor de antes da quebra dos bancos) e o novo valor de sua conta-corrente.  O exemplo a seguir vai ajudar a esclarecer melhor essa proposta:

Suponha que o Banco A tivesse, antes da quebra, um total de $100 em seus depósitos à vista e $30 como reservas.  Como explicado dois parágrafos acima, o total de depósitos à vista nesse banco seria reduzido para $30 (o valor das reservas), de modo que seus depósitos à vista agora estarão 100% lastreados.  A diferença de 100 para 30 — isto é, 70 — seria transformada em quotas em fundos de investimento para os depositantes.  A quota de cada depositante nesses fundos poderia ser livremente comercializada no mercado, e tal processo determinaria o valor final de mercado dessas quotas, o qual dependeria da qualidade do portfólio de cada fundo.

Cada fundo de investimento poderá vender quotas para restituir em dinheiro seus investidores (poupadores) e, da mesma forma, poderá comprar e vender ativos financeiros — com cujo rendimento irá remunerar seus investidores —, bem como criar empréstimos.  Os custos da operação dos fundos de investimento poderão ser pagos tanto com o diferencial entre os juros recebidos nos investimentos e os juros pagos aos poupadores ou com a cobrança de taxas de administração.  A escolha, obviamente, é livre.

Desta forma, todos os bancos estariam separados em duas instituições independentes entre si: um sistema bancário apenas para depósitos à vista (contas-correntes) com 100% de reservas (cujo dinheiro pode ser sacado a qualquer momento ou utilizado via cheques ou cartão de débito) e um sistema bancário voltado para poupança e investimentos (um sistema de fundos de investimento), sem necessidade de manter reservas bancárias.  Os depositantes decidiriam livremente qual quantidade de seu dinheiro iriam manter em conta-corrente, para uso imediato, e qual quantidade iriam querer emprestar, depositando em fundos de investimento.  Nesse segundo caso, o depositante não poderia utilizar o dinheiro depositado até uma determinada data, definida em contrato.  Em caso de emergência, caso o depositante inesperadamente precise da quantia investida, o fundo de investimento venderá suas ações para outro investidor e restituirá o depositante, cobrando obviamente uma taxa (multa).

Assim, finalmente haveria um sistema bancário sólido, com os bancos desempenhando dois serviços bem definidos e totalmente distintos entre si: o serviço de mera armazenagem e de transferência de moeda de um titular a outro apenas quando ordenado, e o serviço de intermediação de crédito entre poupador e tomador de empréstimo.  Nesse segundo caso, o dinheiro emprestado não poderia ser utilizado pelo credor e pelo devedor ao mesmo tempo — que é o que ocorre no sistema bancário de reservas fracionárias e que gera os ciclos econômicos.

Consequências

A implementação desse programa, como dito, geraria uma acentuada deflação da oferta monetária, a qual seria reduzida ao nível da base monetária — isto é, à quantidade de dinheiro fisicamente existente tanto no bolso das pessoas quanto nas reservas bancárias.  Tal deflação, entretanto, ocorreria de uma só vez, sem gradualismos, e o sistema bancário daí resultante seria sólido e incompatível com a geração de ciclos econômicos.  Da mesma forma, tal arranjo bancário impossibilitaria a ocorrência de futuras deflações.

Para o êxito de tal programa, essa súbita contração monetária — todos os depósitos à vista seriam reduzidos da noite para o dia na mesma porcentagem — deve ser acompanhada por reajustes equivalentes nos preços e salários, os quais devem ser reajustados para um nível compatível com a nova oferta monetária.  É claro que tal processo seria doloroso.  Várias perturbações econômicas ocorreriam até que preços e salários chegassem ao nível ideal.  Várias dívidas teriam de ser renegociadas.  É bastante provável que empreendimentos sólidos e viáveis quebrassem nesse processo.  Porém, quem mais perderia seriam justamente aqueles que mais ganharam durante o período do crescimento insustentável que gerou a depressão.  E quanto maior fosse a liberdade de reajustes de preços e salários, mais rápida seria a correção econômica.

Após essa reforma, o Banco Central — que já teria devolvido todo o dinheiro do compulsório (que constituem parte das reservas bancárias) aos bancos — não mais poderia fazer compra de títulos públicos no mercado aberto.  A quantidade de dinheiro na economia ficaria constante.  Tudo que o BC se limitaria a fazer — por meio da Casa da Moeda — seria trocar cédulas antigas e gastas por cédulas novas, da mesma denominação.  O mesmo ocorrendo com as moedas metálicas.

No devido tempo, os bancos de depósito e os fundos de investimentos — agora em posse de seus depositantes — seriam vendidos a investidores privados domésticos ou estrangeiros.

Essa reforma bancária e monetária iria interromper a desvalorização da moeda do país, fenômeno típico para economias cujo sistema bancário foi à bancarrota — no caso da Islândia, a quebra dos bancos, a qual foi seguida de injeções monetárias e pacotes de socorro, causou uma desvalorização tão acentuada da coroa islandesa, que o país teve dificuldade até para importar comida. 

Essa reforma iria não apenas interromper a desvalorização, como também iria fortalecer a moeda, a qual iria se valorizar em decorrência dessa contração monetária, elevando seu poder de compra, algo fundamental em economias depressivas.

Esse ambiente de estabilidade bancária e monetária, com a taxa de câmbio em constante apreciação, atrairia fortes investimentos externos — uma moeda nacional em constante valorização permite grandes retornos em moeda estrangeira.  Da mesma forma, o setor exportador do país, ao contrário do que se pode pensar, seria também beneficiado, pois os baixíssimos preços dos produtos nacionais seriam agora extremamente atraentes para os consumidores estrangeiros. 

Com o tempo, à medida que a economia voltasse a crescer, esse processo seria intensificado: com a oferta monetária constante, a maior oferta de produtos geraria uma suave e contínua queda nos preços, incentivando exportações, não obstante a também contínua apreciação da moeda nacional nos mercados de câmbio.  Da mesma forma, as importações também seriam estimuladas.  Os investimentos estrangeiros, por causa da solidez da economia e da perspectiva de altos retornos por causa da contínua valorização da moeda nacional, seriam crescentes.

A economia agora estaria com fundamentos sólidos.

Conclusão

É claro que tal solução jamais seria aceita pelo setor bancário, obviamente.  Afinal, o sistema bancário é infinitamente mais lucrativo quando opera com reservas fracionárias — o que pode ser melhor do que poder criar moeda do nada, emprestar e ainda cobrar juros sobre essa criação fictícia?

Seria de se esperar que o setor bancário brigasse intensamente junto ao governo pela manutenção de seus privilégios.  Eles jamais abririam mão facilmente de uma atividade tão lucrativa.  Já o governo, por sua vez, também não teria o menor interesse nesse tipo de reforma do setor bancário — afinal, os governos dependem do sistema de reservas fracionárias para financiar seus déficits a juros baixos; os governos têm total interesse em ter sempre um acesso imediato a qualquer dinheiro adicional e barato, o qual o sistema de reservas fracionárias é ótimo para entregar.

Por fim, o fornecimento desse dinheiro adicional e barato para o governo é um serviço que bancos operando com 100% de reservas são incapazes de oferecer.

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Leia também:

A crise bancária da Islândia: o colapso de um sistema financeiro intervencionista

Deflação: os maiores mitos

Deflação, prosperidade e padrão-ouro


autor

Leandro Roque
é editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

  • Felix  01/04/2011 08:38
    O filme "Inside Job" fala um pouco sobre as crises recentes e o modus operandi de alguns destes sistemas, principalmente o subprime, e fala um pouco sobre este caso Islandês.
  • Guilherme Calspiatti  05/04/2011 14:11
    O filme "Inside Job" apresenta uma visão terrivelmente distorcida da crise de 2008, a posição do filme é a de que a responsabilidade pela crise é da desregulamentação do setor financeiro, durante o filme eles entrevistam a funcionários do FED, do FMI, também a George Soros, Paul Vocker, Nouriel Roubini e vários outros, então, como é possível imaginar pela qualidade do elenco, nada que esclareça a crise. \r
    \r
    Quando o diretor Charles Ferguson recebeu o Oscar por melhor documentário por esse filme - até aí, nenhuma novidade, Hollywood tem uma queda por filmes do nível de "Avatar" - ele afirmou que recebia o premio com tristeza, porque nenhum "financial executive" havia sido preso por responsabilidade na crise financeira.\r
    \r
    Então, minha questão sobre o filme não é econômica, a esse respeito, acredito que todos os freqüentadores do site já tenham conhecimento, meu ponto é outro, é ético. Tenho varias duvidas a esse respeito, poderia citar o caso do Angelo Mozilo da Countrywide como exemplo , ele recebeu $470 milhões em bônus, salário e participação em ações da empresa das quais ele se desfez antes da crise porque sabia o que se seguiria. Assim como ele, muitos executivos ganharam grandes somas em dinheiro vendendo hipotecas a pessoas que muitos sabiam que nunca seriam pagas. Poderia ir além da questão financeira nos US e dizer que a tomada de empréstimo no BNDES que é subsidiada, e assim, quem paga por estes empréstimos são aqueles vitimados pela violência do estado Brasileiro, então, aqueles que o tomam seriam de alguma forma responsáveis por esta violência? Seriam, essas atitudes que eu citei, antiéticas? A principio, diria que não, mas tenho duvidas, espero que possam me ajudar a saná-las. Gostaria muito de ver um artigo no site a esse respeito.\r
    \r
    Grande Abraço! \r
  • Guilherme Calspiatti  12/04/2011 16:07
    Ainda não obtive resposta, alguem poderia me ajudar com essa questão? Leandro?\r
    \r
    Grato pela atenção
  • Andre Poffo  05/04/2011 23:13
    De fato, o filme "Inside Job" coloca o motivo das crises da Islândia e dos EUA como falta de regulamentação do setor financeiro. Ou seja, o mainstream desconsidera a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos, portanto o motivo das crises é a especulação financeira, agravada pela alta alavancagem financeira. Na TACE o motivo da crise é essencialmente os maus investimentos causados pelo aumento artificial da oferta monetária, no momento em que o artificialismo desmorona, geralmente devido à inflação, os investimentos ruins se tornam prejuízos.


    O problema é que, a 'solução' mainstream é conter a especulação - seja lá como - porém se esquecem que a oferta monetária não cessará à aumentar artificialmente devido ao controle de juros e reservas fracionarias, portanto, formam-se continuamente novas bolhas. Quanto mais cedo estourarem(economia se auto-ajustar), menores serão os prejuízos.
  • Joao  06/04/2011 09:05
    Uma coisa que me tem chamado a atenção é o fato de que, para os "jênios" pró-regulação, o mercado é dominado por pessoas muito gananciosas, que sempre procuram o lucro. Portanto, o mercado deve estar subordinado a um grupo de pessoas que controlaria o mercado, impedindo a escravização da humanidade por esses malvadões desumanos.
    Por algum motivo obscuro, os seres humanos pertencentes a esse grupo controlador - o estado - não seriam gananciosos. Eles teriam um poder gigantesco - o monopólio da violência e do controle das relações entre as pessoas e o mercado - mas sempre fariam o bem, não agiriam em benefício próprio! Os governantes estariam a serviço do povo! O mercado engana o povo, mas o estado ama o povo!
    É uma situação curiosa. Se o governo inflar artificialmente a oferta monetária, fornecendo mais dinheiro a grupos de empresas que têm melhores ligações com o governo, financiando obras faraônicas, superfaturadas (e CARÍSSIMAS), fazendo, assim, com que todos pareçam felizes e saltitantes, empregados, em um processo maravilhoso de transformação do país em uma futura potência mundial, às custas dos impostos torrados para beneficiar principalmente os figurões da política, devemos aplaudir o governo. Quem criticar esse processo de lento e doloroso suicídio econômico é taxado de extrema-direita neoliberal, defensor dos barões do capitalismo (os mesmos que são beneficiados por esses maravilhosos governantes que estão a serviço do povo). Quando esse processo ilusório finalmente virar pó, o que é inevitável, aí a culpa, claro, será do mercado, que procurou o lucro incessantemente. A solução será uma intervenção do mesmo governo que criou o problema. Incrível!
    É por isso que, hoje em dia, sou defensor do livre mercado. Não é uma utopia. O livre mercado não implementa o paraíso na terra. Ele simplesmente leva em consideração as ações do ser humano em geral, ao invés de criar uma nova categoria de seres humanos, incapazes de agir em benefício próprio e, portanto, perfeitos para controlar a avidez do malvado mercado.

    (Dúvida: se um sujeito é empresário e ao mesmo tempo está no governo, ele é ao mesmo tempo o malvadão e o salvador da pátria? Ele explora o trabalhador e ao mesmo tempo salva o trabalhador da exploração?)
  • Pedro Ivo  01/04/2011 11:45
    Caro Leandro Roque.

    mui grato vos fico por uma resposta tão rápida, e tão bem executada. O artigo dirimiu todas as minhas dúvidas
  • anônimo  01/04/2011 14:54
    s"empre deixou explícita a sua função de emprestador de última instância, o que serviu para encorajar os bancos a praticarem destemidamente a expansão monetária via reservas fracionárias."

    Tenho uma duvida: Uma vez que o governo para emitir moeda paga SELIC, de quem os bancos tomam emprestado as reservas fracionárias e pagam juros de quanto?
  • anônimo  01/04/2011 17:36
    Capitalismo: o Estado paga 100% da riqueza aos bancos para igual dinheiro físico que ele criar eletronicamente, porque as reservas fracionárias, do nada produtivo, servem para a compra de títulos públicos da emissão de moeda verdadeira.

    O Estado estará sempre endividado por ser um intervencionista, já que quer pagar a riqueza sem ficar com ela; e desenvolvimento das reservas fracionárias representará o princípio científico de que as novas riquezas da propriedade privada já estarão reservadas para os banqueiros.
  • amauri  01/04/2011 16:07
    Boa tarde Leandro!
    Já que voce citou os maiores bancos brasileiros, que usam a reserva fracionária, vão bem. Os estatais idem. Li recentemente que no mercado de credito em 2010 havia R$1,6 trilhões com apenas 12% lastreados. Nossa política econômica é a melhor que nos outros países? A revista Forbes colocou entre os 10 mais ricos do Brasil 8 banqueiros, isto foi o único do mundo. abs
  • Leandro  01/04/2011 16:30
    Amauri, o nosso sistema bancário é bem mais concentrado que o sistema bancário de outros países. Quanto menor concorrência entre os bancos, mais lucrativo e seguro é o ambiente para eles.

    Quanto menor o número de bancos no mercado, mais tranquilamente um banco pode expandir a oferta monetária. Afinal, as chances de o dinheiro que ele criou acabar voltando para ele mesmo são muito maiores do que se ele estivesse operando com mais concorrentes. Quanto maior o número de bancos concorrentes, menos tranquilo é para um banco expandir livremente a oferta monetária, pois o dinheiro eletrônico que um banco cria irá parar nas mãos de vários outros bancos, os quais exigirão a transferência do dinheiro.

    Logo, quanto maior a concentração bancária, maior tendem a ser os lucros dos bancos, obviamente.

    Ademais, essa alta concentração bancária é um dos fatores que explicam o alto compulsório vigente no Brasil. Se o compulsório fosse baixo, os bancos poderiam expandir ainda mais a oferta monetária sem, no entanto, grandes riscos para a sua solvência.

    É por isso que na Suíça, onde há concorrência bancária, não há preocupação do seu Banco Central com o compulsório (que é de meros 2%), pois os próprios bancos sabem que não é seguro sair criando dinheiro.

    Já no Brasil, onde há pouca concorrência bancária, o compulsório tem de ser alto (é de 32%), pois o incentivo para os bancos saírem criando dinheiro é enorme, uma vez que as chances de punição são baixas.

    Tudo isso explica porque o nosso sistema bancário é tido como sólido e nossos banqueiros estão entre os mais ricos.
  • amauri  01/04/2011 17:05
    Obrigado pela resposta Leandro.
    Então é só o resto do mundo copiar o modus operandi brasileiro que fica tudo certo?
    Ou os efeitos colaterais desta expansão tarda mais não falha? abs
  • Leandro  01/04/2011 17:15
    Basta comparar a nossa inflação de preços, bem como os juros cobrados pelos bancos (consequência da inflação de preços; quanto mais alta a inflação de preços, maiores têm de ser os juros), para entender que o nosso modelo de concentração bancária não tem nada de atraente. A menos que você seja banqueiro, é claro.

    Grande abraço!
  • Eudes  01/04/2011 18:42
    Quem acompanhou a implantação do plano real com um pouco de atenção sabe perfeitamente bem que os banqueiros brasileiros foram agraciados com muitas benesses extras.\r
    O governo preconizou a concentração bancária no Brasil, as tarifas bancárias subiram assombrosamente e o próprio governo rasgou por completo o artigo 192 da Constituição. Esse artigo 192 da nossa Carta Magna dizia que os juros reais no Brasil não poderiam ser superiores a 12% ao ano. Porém, o governo, com ares de ortodoxia e de liberalismo, anunciava aos quatro ventos que uma economia livre não pode ter juros tabelados.\r
    Essa afirmação do governo está correta, mas o Brasil estava e está astronomicamente longe de ser uma economia livre. A citada lei foi sistematicamente pisada; os juros para cartão de crédito e para cheque especial subiram anos-luz acima de 12% ao ano. Algumas pessoas, achando que tinham sido roubadas, recorriam à justiça, e esta fazia com que a lei fosse cumprida.\r
    Havia também desculpas jurídicas para que a lei fosse tão descaradamente desrespeitada. Sendo assim, segundo João Paulo Cunha, deputado federal e um dos réus do mensalão, a regulamentação do artigo 192 seria uma das prioridades da Câmara dos Deputados. O que de fato aconteceu foi que o tabelamento dos juros foi totalmente abolido da Constituição, e assim, agora, os juros exorbitantes têm amparo legal, embora muitos questionem a validade moral de tal prática.\r
    Tem gente que diz, inclusive muitos economistas, que os juros cobrados (principalmente de pessoas físicas e jurídicas) no Brasil são um caso único. Uma jabuticaba amarga, como disse Bresser.\r
    Há também quem crê que o plano real foi um plano para beneficiar uma ínfima parcela dos ricaços brasileiros numa era de economia globalizada. O certo é que uma política econômica mascarada de ortodoxa pode ser muito pior que uma abertamente heterodoxa. Além do mais, o Brasil é um inferno para a maioria da população, mas, para os banqueiros é um paraíso, um lugar ímpar no globo.\r
  • Felix  04/04/2011 07:54
    Constituição falar qual deve ser a taxa de juros é uma aberração por si só
  • Eudes  04/04/2011 12:43
    Do ponto de vista econômico, pode ser uma aberração, mas certas leis são uma aberração.Se o Estado faz uma lei, boa ou ruim, esse mesmo Estado deve ser o principal cumpridor dessa lei, e não um transgressor. No entanto, para beneficiar os banqueiros, o Estado fez tudo, inclusive transgrediu a própria lei, lei essa que ele mesmo havia criado.\r
    Tudo, ou praticamente tudo, foi feito para que os banqueiros pudessem ter todo, ou praticamente todo, tipo de benesse.\r
    Quando se pensou fazer uma investigação parlamentar profunda para punir possíveis ações de banqueiros, o então presidente FHC foi contra. Isso, em época de PROER e de insolvência de bancos, foi para muitas pessoas um indício de que o governo tinha como um de seus principais objetivos proteger os banqueiros.\r
    Não é preciso ficar falando isso e mais aquilo, qualquer pessoa com são, honesto e bom juízo sabe que, no Brasil, os banqueiros são agraciados por muitas benesses extras. \r
  • Luiz Aranha  01/04/2011 18:58
    Leandro,
    Muito bom seu artigo, fiquei com uma dúvida e dado que não sou economista, me perdoe se estiver muito errado com esse conceito.
    A oferta monetária constante não implica sempre em deflação, dado que uma nação produza cada vez mais bens e serviços e a disponibilidade monetária seria constante? Não que isso seja certo ou errado, mas as pessoas, certas que seu dinheiro ao longo do tempo valeria mais que no presente, não se criaria um incentivo a não investir?
    Não seria melhor um estado que não tivesse o monópolio do controle da oferta monetária e qualquer um, banco ou empresa, poderia emitir ou adotar sua moeda?
  • Leandro  01/04/2011 19:55
    Prezado Luiz, você está correto em dizer que a oferta monetária constante implica deflação de preços. E isso é ótimo para a economia, principalmente no quesito investimentos.

    Uma das grandes vantagens da deflação de preços é justamente o estímulo à poupança. Hoje, para muitos bens, as pessoas tendem a consumir mais no presente, justamente por saberem que eles estarão mais caros no futuro. Esse estímulo ao consumo imediato é ruim justamente por desincentivar a poupança, que é o que possibilita os investimentos. A maior poupança hoje estimula o investimento futuro, pois o torna mais barato e mais lucrativo.

    Ademais, via de regra, as pessoas não deixam de consumir ou investir hoje por saberem que as coisas estarão mais baratas amanhã. Não há exemplos disso. Por exemplo, ninguém deixa de comprar laptops, celulares, iPads e iPods hoje, mesmo sabendo que estes estarão mais baratos amanhã. Da mesma forma, mesmo sabendo que seus produtos ficarão mais baratos, a indústria tecnológica não adia seus investimentos. Mais ainda: a indústria tecnológica é uma das mais lucrativas que existem, mesmo praticando deflação de preços em um ambiente de inflação monetária!

    Como explicar isso? Como imaginar que, em um ambiente de alta geral de preços, uma indústria vai investir hoje apostando justamente na queda dos preços amanhã, mesmo sabendo que seus custos continuarão crescendo justamente por causa da inflação monetária?

    Se isso acontece em um ambiente com inflação de preços, não há por que imaginar que não vá acontecer com ainda mais intensidade em um ambiente de deflação de preços.

    Caso esteja mais interessado nas vantagens da deflação, tenha a bondade de ler a parte final deste artigo, a seção "Vantagens":

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=314

    Quanto às moedas concorrenciais, existem argumentos convincentes contra esse sistema de várias moedas concorrendo entre si. Vários economistas consideram que esse sistema seria equivalente a um retorno a uma economia de quase-escambo. Afinal, a função da moeda é exatamente a de facilitar as trocas. A partir do momento em que há várias moedas concorrendo entre si, com várias taxas de câmbio vigentes no mercado, você volta a um estado de escambo parcial; você nunca saberá se a moeda que você está portando será aceita por um determinado estabelecimento, por exemplo.

    Ou seja, para um simples ato de compra, você passará a depender da existência de uma "dupla coincidência de desejos" entre você e o vendedor: você terá de torcer para que o vendedor aceite a moeda que você tem.

    E depois ainda tem o problema do troco: suponha que você pague em uma moeda, receba o troco em outra e imediatamente depois essa se desvalorize. E aí? É por isso que tais economistas dizem que esse arranjo não duraria muito tempo. O mercado sempre tende a harmonizar e facilitar as coisas. Com a moeda não seria diferente.

    Essa situação de moedas paralelas é a exata negação da mais precípua função do dinheiro, que é exatamente o de facilitar as trocas. A tendência é que tal sistema não dure muito. Inevitavelmente uma moeda universalmente aceita acabará surgindo e dominando o mercado (o que nos remete de volta à discussão sobre o ouro).

    Grande abraço!
  • Luiz Aranha  01/04/2011 22:15
    Muito bem,
    Excelente artigo sobre a inflação no brasil.
    Agora sobre as moedas ainda não me convenci. Concordo que o argumento da facilitação é forte. Mas quem teria o monopólio da emissão da moeda? O governo? este não seria confiável. Já um emissor privado teria o incentivo correto em manter a moeda o mais forte possível sob pena de um competidor criar uma moeda mais forte que a dele.
    O argumento do retorno ao quase escambo não suprime a premissa que o próprio mercado já é um facilitador per se, os agentes saberão escolher qual moeda mais eficiente para ambos. Não funciona assim com o Dolar hoje em dia?
    A maioria das transações entre paises acontece em Dolar mesmo quando as duas partes não tem o Dolar como sua moeda corrente. Isso não acontece pela confiança(ou ilusão) no dolar como uma moeda dominante e que facilita a troca?
    Penso na emissão da moeda como um monopólio natural como por exemplo as concessionárias de eletricidade, saneamento, as linhas ferroviárias. Teriam que ser elas também controladas? Será que fui longe demais e já estou misturando os conceitos?
    Grande abraço
  • Leandro  01/04/2011 22:41
    Opa, nada de monopólio da emissão.

    Eu obviamente não falo em nome de ninguém, mas apenas de mim mesmo: sempre defendi o uso de metais preciosos como meio de pagamento - no caso, o ouro.

    É claro que deveria haver a concorrência com várias outras moedas, seja de papel, virtual, algodão, que seja. Porém, em minha opinião, não consigo ver como moedas de papel ou meramente eletrônicas poderiam suplantar o ouro na preferência das pessoas -- de modo que, com o tempo, o ouro acabaria sobrepujando todas as outras moedas.

    Caso tenha paciência e seja fluente em inglês, recomendo esse artigo sobro assunto:

    mises.org/journals/qjae/pdf/qjae6_4_4.pdf
  • Daniel  02/04/2011 14:29
    Ouro como meio de pagamento ou outro como lastro?

    Na economia contemporânea não faz sentido trocar barras/moedas/plaquinhas. Seriam trocados majoritariamente certificados de depósito de ouro - eletrônicos ou títulos em papel. Leia-se moeda lastreada 1:1 em ouro, emitidas por uma miríade de empresas/depósitos.

    Creio que outras moedas além das lastreadas em ouro poderiam ser utilizadas, mas teriam uma função de nicho. Por exemplo, uma moeda lastreada na saca de soja certamente seria utilizada em certos contratos rurais, como já acontecia (não sei se ainda ocorre) informalmente no Centro-Oeste e partes do norte, onde o preço do hectare era definido diretamente em sacas de soja (e a conversão em R$ feita apenas na assinatura do contrato de compra e venda).
  • Tiago RC  02/04/2011 20:04
    e o serviço de intermediação de crédito entre poupador e tomador de empréstimo. Nesse segundo caso, o dinheiro emprestado não poderia ser utilizado pelo credor e pelo devedor ao mesmo tempo

    Desculpa, mas na prática, poderia sim.
    Quando você investe em algo, você compra títulos/quotas. Bastaria haver grande liquidez no mercado desses títulos (algo normal) para que eles possam ser usados praticamente como dinheiro. Com um pouco de automatização, bancos poderiam permitir que você mantivesse uma porcentagem alta (100%?) de sua conta corrente na forma de títulos. Sempre que você precisasse retirar dinheiro, uma soma equivalente em títulos seria automaticamente vendida. Essa conversão títulos -> dinheiro poderia ser tão rápida quanto a saldo bancário -> dinheiro, feita num sistema onde o saldo equivale a dinheiro guardado num cofre.
    Ou seja, o sistema de bancos de investimentos que você propõe funcionaria praticamente como reservas fracionárias. A maior diferença seria que, no caso de uma corrida bancária, o que provavelmente aconteceria é que, ao invés de ficar com seu saldo bloqueado, você acabaria vendendo seus títulos a um preço abaixo do preço teórico (não sei se esse é o termo correto, "preço teórico"... me refiro à curva que vai do preço inicial de venda até o preço de vencimento do título). Mas aí, basta o banco permitir que você adicione uma configuração ao sistema de automatização das vendas de títulos dizendo "nunca venda abaixo do valor teórico" para termos uma situação idêntica às reservas fracionárias para todos os efeitos.

    Resumindo, as reservas fracionárias são um fenômeno natural e espontâneo, que ocorreriam nessa sua proposta. Não há razão para condenar as reservas fracionárias por si só.
  • Leandro  02/04/2011 21:29
    Não, não, isso não configura reservas fracionárias.

    Nas reservas fracionárias, duas pessoas têm acesso imediato e irrestrito ao mesmo dinheiro. Em um sistema de fundos de investimento, isso não acontece. Para você usar antes do prazo de vencimento o dinheiro que você aplicou, o banco tem de vender suas quotas para transformá-las em dinheiro. Ou seja, o banco tem de achar um comprador. Após esse comprador comprar suas quotas, o dinheiro dele é transferido para você (normalmente o banco retém uma parte do dinheiro como multa).

    Ou seja, não há aí o fenômeno das reservas fracionárias. Não há duas pessoas utilizando exatamente o mesmo dinheiro ao mesmo tempo. Esse detalhe é extremamente importante.

    (Agora, você poderia argumentar -- e aí eu concordaria -- que tal sistema pode gerar o fenômeno da "maturação descompassada": isto é, você empresta seu dinheiro por 1 ano, por exemplo, mas o credor acaba precisando de 3 anos para completar o investimento. Se ele não conseguir rolar a dívida, terá problemas. Se isso ocorrer generalizadamente na economia, poderá haver um ciclo econômico.)

    Como fazer para proibir as reservas fracionárias e fiscalizar seu cumprimento? Bom, isso dá um amplo debate e passa majoritariamente pelo âmbito judiciário, no qual não quero me envolver.

    Mas quero apenas deixar claro que não procede a afirmativa de que "o sistema de bancos de investimentos que você propõe funcionaria praticamente como reservas fracionárias". Há uma grande e crucial diferença de operação entre ambos os sistemas.

    Grande abraço!
  • Tiago RC  03/04/2011 14:42
    Mas Leandro, dá na mesma...

    Nas reservas fracionárias, não é exatamente ao mesmo dinheiro(M0) que duas pessoas têm acesso simultâneo. Na verdade elas têm acesso a saldos bancários (M1). O saldo bancário pode ser usado como se fosse dinheiro, por exemplo, se nós dois temos conta num banco com 90% fracionário, e eu compro algo de ti transferindo da minha conta para tua, o que é transferido é apenas saldo bancário. Esse saldo sequer precisa ser convertido em "dinheiro cru" (M0). O banco só muda o valor de cada conta.

    Se no lugar de contas 90% fracionárias nós tivéssemos contas com 90% na forma de títulos de investimentos, a mesma coisa aconteceria. O banco transferia um saldo em títulos da minha conta para a tua, sem nem mesmo precisar vender esses títulos. Os títulos funcionariam como dinheiro.

    E no que diz respeito a transações entre bancos distintos, seria também similar a reservas fracionárias, pois enquanto o fluxo de entrada e saída se mantiver equilibrado, o banco não terá muitos problemas. Se mais dinheiro sair do que entrar por um longo período, isso poderia desvalorizar os títulos do banco em questão. Dependendo do caso isso poderia atrair investidores querendo comprar os títulos mais baratos, empurrando novamente para um equilíbrio.

    Não vejo a diferença entre esse sistema de títulos e um sistema de reservas fracionárias. Os títulos seriam equivalentes ao M1... não?

    Obrigado pela resposta!

    Abraço,
    Tiago.
  • Leandro  03/04/2011 16:26
    Não, não, Tiago, não é a mesma coisa.

    Nas reservas fracionárias, o dinheiro da minha conta-corrente é emprestado pra você. Ao mesmo tempo em que eu o utilizo para pagar meu almoço, você o utiliza para comprar bens de capital para seu investimento. Você e eu temos "títulos de propriedade" sobre exatamente o mesmo bem (o dinheiro); você e eu somos proprietários exclusivos da mesma coisa ao mesmo tempo (uma impossibilidade prática).

    É sobre esse argumento que os opositores das reservas fracionárias em termos morais se apóiam: duas pessoas não podem ser proprietárias exclusivas de um mesmo bem ao mesmo tempo (não existe nenhuma exceção a essa regra). Apenas a fraude pode possibilitar esse arranjo.

    No caso dos fundos de investimento isso não ocorre: para eu resgatar os fundos que eu apliquei, meu banco terá de vender minhas quotas para você. Ao comprar minhas cotas, o seu dinheiro é transferido a mim. Você abre mão do seu dinheiro em troca das minhas quotas. Eu abro mão das minhas quotas em troca do seu dinheiro. O dinheiro foi transferido de um para o outro. Ao contrário das reservas fracionárias, esse mesmo dinheiro não pode ser utilizado por duas pessoas ao mesmo tempo. Ou eu o utilizo; ou você o utiliza. Nós dois não podemos utilizá-lo. Só nas reservas fracionárias esse fenômeno esquisito pode ocorrer.

    Nas reservas fracionárias, você e eu temos acesso ao mesmo M1 -- mais especificamente, ao mesmo dinheiro eletrônico nas contas-correntes de um banco. O dinheiro que eu depositei no banco, o banco empresta para você. Eu tenho acesso a esse dinheiro; você tem acesso ao mesmo dinheiro. Nós dois somos proprietários do mesmo bem, e o utilizamos exclusivamente -- uma impossibilidade prática, como dito.

    Nos fundos de investimento, a coisa é mais separada, pois utiliza-se quotas que devem ser redimidas em dinheiro. Eu não posso entrar numa padaria e pagar meus pães com quotas; eu os pago com meu cartão de débito. Você também não pode entrar numa padaria e pagar com quotas; você também utilizará o seu cartão de débito, o qual tem acesso apenas à sua conta-corrente.

    Voltando ao exemplo em que o banco lhe emprestou o meu dinheiro, você, ao entrar numa padaria e utilizar seu cartão de débito, estará acessando uma conta-corrente formada com o meu dinheiro; o banco criou pra você essa conta-corrente ao lhe conceder um empréstimo com meu dinheiro. Ou seja, você estará utilizando o mesmo dinheiro que eu. Nós dois somos proprietários exclusivos de um mesmo bem (o mesmo dinheiro) -- uma impossibilidade prática tão grande quanto você e eu sermos donos exclusivos do mesmo carro.

    Você pode até argumentar que tal arranjo é ok e economicamente saudável, ou até mesmo que não tem nada de errado com ele. Mas não pode negar que é exatamente isso o que acontece.

    Grande abraço!
  • Tiago RC  04/04/2011 06:33
    "Eu não posso entrar numa padaria e pagar meus pães com quotas;"

    Pode sim. Basta que o padeiro também tenha a conta dele na forma de quotas/títulos. Aí, quando você passar seu cartão, parte de suas quotas/títulos vão para o padeiro.

    Entendeu aonde quero chegar?

    Da mesma forma que títulos/quotas não exatamente dinheiro (físico ou na conta do emissor, o BC, o que é equivalente), saldo num banco que não seja o BC também não é exatamente dinheiro (M0). É uma representação de dinheiro que pode ser facilmente convertida em dinheiro de fato, e que pode ser usada ela mesma como dinheiro em pagamentos, transferindo essa representação (saldo) a outras pessoas.

    Nada impede que os títulos/quotas sejam usados da mesma forma, concorda?

    Abração,
    Tiago.
  • Leandro  04/04/2011 10:24
    Tiago, transferir quotas de uma pessoa para outra não é a mesma coisa de duas pessoas terem acesso [i]irrestrito e exclusivo ao mesmo dinheiro ao mesmo tempo[/b].

    Tampouco o primeiro arranjo gera os mesmos efeitos do segundo. Parece que eu realmente não vou conseguir convencê-lo disso.

    Grande abraço!
  • Tiago RC  04/04/2011 14:01
    Mas nas reservas fracionárias você não tem acesso ao mesmo dinheiro, onde dinheiro = notas de reais ou gramas de ouro no padrão ouro. Você tem acesso a saldo bancário. Você trocou suas notas de reais/gramas de ouro (os componentes do M0) por saldo bancário (o M1).

    O que provoca a inflação é justamente o fato desse saldo bancário poder ser usado como se fosse dinheiro, já que é tão fácil converter saldo bancário em notas de reais ou gramas de ouro. A quantidade de dinheiro de fato (M0 - notas de reais ou gramas de ouro) não aumenta. O que aumenta é a quantidade de coisas que podem ser usadas como se fossem dinheiro.

    E o que eu estou argumentando é que as quotas também poderiam ser usadas como se fossem dinheiro, mesmo não sendo. E isso também provocaria inflação.

    Imagine o cenário hipotético de uma economia livre onde todos usam ouro físico mesmo como dinheiro. Existem mil toneladas de ouro.
    Aí, algumas pessoas começam a embarcar num sistema de contas de investimento. Vamos supor que dentro de algum tempo, todo mundo aceite, em média, que seu banco mantenha apenas 25% dos depósitos guardados num cofre, e emprestem 75% do resto, recebendo quotas de investimentos em troca.
    Quando Fulano empresta 75% de seu ouro que vai parar na conta de Ciclano, esse também empresta automaticamente 75% do ouro que acabou de receber e isso continua, como nas reservas fracionárias.
    No final, continuamos com mil toneladas de ouro físico, e uma soma de quotas de investimentos que valem 3 mil toneladas de ouro.
    Como, em geral, todo mundo aceita ter parte de sua conta bancária sob a forma de quotas, automaticamente as pessoas vão começar a fazer compras/vendas com essas quotas.
    Pronto: temos o equivalente a 4 mil toneladas de ouro circulando na economia ("M1"), mesmo só havendo mil toneladas de ouro físico (M0).

    Abraço, e desculpa se já estou irritando.
  • Leandro  04/04/2011 15:04
    Tiago, acho que agora entendi onde você está fazendo confusão. Esta sua frase é conceitualmente errada:

    "Mas nas reservas fracionárias você não tem acesso ao mesmo dinheiro..."

    Tem sim. A partir do momento em que meu dinheiro é emprestado para você -- isto é, o banco cria uma conta-corrente em seu nome com o meu dinheiro --, então nós dois temos acesso ao mesmo dinheiro. Não é questão de opinião, Tiago, é assim mesmo que funciona.

    "Você tem acesso a saldo bancário. Você trocou suas notas de reais/gramas de ouro (os componentes do M0) por saldo bancário (o M1).... A quantidade de dinheiro de fato (M0 - notas de reais ou gramas de ouro) não aumenta. O que aumenta é a quantidade de coisas que podem ser usadas como se fossem dinheiro"

    O dinheiro na conta-corrente é sim um dinheiro per se. Ele não precisa ser convertido em mais nada para ser aceito como dinheiro. As quotas precisam ser convertidas antes. O dinheiro na conta-corrente, não.

    Os depósitos em conta-corrente são substitutos monetários que, por meio de cheques ou cartão de débito, funcionam como equivalentes a dinheiro no mercado.

    Já as aplicações financeiras (sejam elas depósitos a prazo, renda fixa, curto prazo, multimercado, referenciado, ações etc.) são meros papeis que, para serem convertidos em dinheiro, precisam antes ser vendidos para algum agente obviamente disposto a comprá-los. E este só irá fazê-lo se tiver dinheiro disponível em sua conta-corrente.

    Eu realmente acho que não conseguirei ser mais claro do que isso.

    Portanto, permita-me apenas fazer uma correção no seu raciocínio:

    "Quando Fulano empresta 75% de seu ouro que vai parar na conta de Ciclano, esse também empresta automaticamente 75% do ouro que acabou de receber e isso continua, como nas reservas fracionárias."

    Errado. Isso não funciona como reservas fracionárias. Nas reservas fracionárias, Fulano e Cicrano têm acesso imediato e irrestrito às suas contas-correntes, as quais podem ser utilizadas como dinheiro a qualquer momento; elas não precisam antes ser convertidas dinheiro. Já nesse seu exemplo, tanto Fulano quanto Cicrano não podem utilizar a qualquer momento o dinheiro que aplicaram. Para fazer compras num supermercado, eles antes precisarão vender suas quotas para convertê-las em dinheiro. Ao fazer isso, pagarão uma multa. Ou seja: não apenas eles terão de encontrar alguém disposto a comprar suas quotas, como também o dinheiro que eles sacarão será menor do que o valor atual da aplicação (por causa da multa). Ou seja, quotas em fundos de investimento não podem ser classificadas como dinheiro per se.

    "No final, continuamos com mil toneladas de ouro físico, e uma soma de quotas de investimentos que valem 3 mil toneladas de ouro."

    Bom, em primeiro lugar, a quantidade de ouro em momento algum se alterou. O ouro aplicado nos fundos de investimento foi apenas "sendo passado pra frente".

    Se eu te empresto 10kg, eu fico com -10kg e você fica com +10kg. Se destes 10kg que agora estão em sua posse, você ficar com 5kg e emprestar os outros 5kg, você ficará com um total de +5kg e a outra pessoa também ficará com um total de +5kg.

    Faça as contas e você verá que em momento algum houve criação de dinheiro. Haveria criação de dinheiro apenas se esse ouro fosse parar na conta-corrente de um banco que praticasse reservas fracionárias. Aí sim o ouro se "multiplicaria".*

    Quanto ao fato de a soma das quotas de investimento ser maior do que a totalidade de ouro existente, isso é irrelevante, pois, ao serem reconvertidas em ouro, o valor dos investimentos será corrigido. O que importa é que não houve criação de dinheiro; e as quotas não podem ser utilizadas como dinheiro per se.

    Nas reservas fracionárias há criação de dinheiro; em fundos de investimento genuínos, não.

    Essa é a confusão que você está fazendo.

    Grande abraço!


    * Hoje em dia, o dinheiro se multiplica justamente porque o dinheiro aplicado em fundos de investimento acaba indo parar em contas-correntes, dali se multiplicando novamente, gerando toda essa confusão.
  • Tiago RC  04/04/2011 16:51
    O dinheiro na conta-corrente é sim um dinheiro per se. Ele não precisa ser convertido em mais nada para ser aceito como dinheiro. As quotas precisam ser convertidas antes.

    Não, não precisariam ser convertidas, elas poderiam ser usadas como dinheiro. Se, como no ex. que dei, praticamente todo mundo está mantendo cotas em suas contas, então as pessoas aceitarão cotas como pagamentos. O supermercado aceitará de bom grado as cotas de Fulano e Ciclano, ao mesmo tempo.

    E na real, mesmo que elas tenham que ser automaticamente vendidas e compradas, ainda daria praticamente na mesma, devido à altíssima liquidez... mas enfim, não vou continuar minhas maquinações nesse outro ponto, porque não quero te estorvar tanto. :)

    Muito obrigado pela atenção dispensada!
  • Leandro  04/04/2011 17:02
    Tiago, não é estorvo nenhum, oras. Isso é minha cachaça.

    Apenas permita-me mais uma correção no seu raciocínio. Você disse:

    "Não, não precisariam ser convertidas, elas poderiam ser usadas como dinheiro. Se, como no ex. que dei, praticamente todo mundo está mantendo cotas em suas contas, então as pessoas aceitarão cotas como pagamentos. O supermercado aceitará de bom grado as cotas de Fulano e Ciclano, ao mesmo tempo."

    O supermercado não aceitaria por um motivo muito simples: por que ele aceitaria como pagamento algo que, ao ser convertido em dinheiro antes da data de maturação (a qual pode ser bem longa), terá um valor menor do que tinha quando o supermercado o aceitou como pagamento?

    É exatamente por isso que, mesmo hoje, ninguém aceita quotas como meio de pagamento. Nem nos EUA, país onde elas são mais difundidas (lá se chama money market mutual funds).

    É como se eu te pagasse em notas promissórias que, ao serem descontadas mais cedo (uma inevitabilidade, pois as empresas precisam de liquidez), teriam um valor menor do que seu valor de face. Seria tolice fazer negócio assim.

    Grande abraço!
  • Tiago RC  05/04/2011 06:49
    Mas os títulos não precisam ser aceitos pelo valor de vencimento... se tudo for automatizado pelo banco, eles poderiam ser transferidos considerando o preço atual, ou o "preço teórico" no caso de títulos de renda fixa. (Como se chama aquela curva que vai do preço de venda inicial de um título até seu preço de vencimento? Por "preço teórico" me refiro ao preço dado por essa curva no instante T da transação)

    Ex: Você tem uma conta com metade no cofre, metade sob a forma de títulos. O supermercado também. Você compra o equivalente a $100 no supermercado, com o cartão (mesmo banco, pra simplificar). O banco marca que você tem $50 a menos no cofre e o supermercado $50 a mais, e também transfere o equivalente a $50 em títulos seus para o banco, usando ou o "preço teórico" ou o preço de mercado atual do título para saber quantos títulos/quotas transferir.

    Abraços,
    Tiago.
  • Rhyan Fortuna  04/04/2011 16:24
    Não entendi... por que as cotas não diluir-se-iam com essa aumento do M1? Por que não haveria inflação?
  • Rhyan Fortuna  04/04/2011 16:39
    Ah, 75% do ouro... desculpem a confusão que eu fiz.
  • Leandro  04/04/2011 16:54
    Mas não há aumento do M1 quando não há reservas fracionárias.

    M1 é papel-moeda em poder do público (PMPP) mais depósitos à vista. Com reservas de 100%, se uma variável aumenta, a outra irá diminuir. Você apenas opta entre ter dinheiro à mão ou dinheiro em conta-corrente. O dinheiro que está em uma não poderá também estar em outra ao mesmo tempo.

    A única maneira de o M1 aumentar é se, sob um padrão-ouro, novas jazidas forem descobertas. Porém, isso não ocorreria a uma taxa maior do que 2% ao ano -- taxa menor do que a média de crescimento econômico, o que significa que ainda assim haveria deflação de preços.

    Exatamente por não estar havendo criação de dinheiro -- isto é, aumento do M1 --, é que não haveria inflação de preços.

    A soma das quotas de fundos de investimento pode ter o valor nominal que quiser: no momento em que forem reconvertidas em dinheiro -- operação necessária para serem utilizadas para qualquer compra --, elas serão valoradas exatamente de acordo com a quantidade de dinheiro existente (quantidade essa que não se alterou).

    Logo, não há como haver inflação de preços nesse cenário.
  • Fernando Araujo  08/04/2011 20:58
    Excelente artigo.
    Meus parabens


  • Ana  24/04/2011 23:22
    Uma dúvida: no texto, afirma-se que uma deflação na oferta monetária não deixa as pessoas mais pobres, ao contrário do que dizem outros economistas, pois a riqueza de uma economia é medida pela abundância de bens e serviços, e não pela sua quantidade de dinheiro, assim, quem possui bens como um automóvel, um imóvel, uma televisão, um martelo, um tomate, continua com a sua riqueza pois esses bens continuam a existir; porém, pessoas que só tem dinheiro depositado em banco vão ficar pobres sim, já que os bancos não tem lastro para todos os depósitos, essas pessoas perderão grande parte de sua "riqueza" (seu dinheiro, seu poder de compra de bens). Não seria a isso que esses outros economistas se referem??? \r
    Nesse caso, o único jeito de uma pessoa não ficar pobre no caso de uma deflação monetária seria investir apenas em imóveis, fazendas, empresas, e só deixar no banco o necessário para pagamento de pequenas e corriqueiras despesas????
  • Leandro  25/04/2011 00:10
    Ana,

    Uma deflação monetária originada de quebras bancárias nunca será algo benéfico para uma economia. Como explicado pelo artigo, boa parte do dinheiro que você tem no banco sumirá.

    Entretanto, uma vez que tal tragédia já tenha ocorrido, a melhor maneira de resolver tal situação será permitindo uma completa deflação de preços e salários, de modo que, no final, o novo nível de preços e salários seja condizente com a nova (e reduzida) quantidade de moeda na economia. Essa é a única forma de fazer com que aquelas pessoas que não possuíam outros bens, mas apenas aplicações em dinheiro, sejam minimamente prejudicadas. Qualquer interferência nessa liberdade de reajuste de preços e salários irá prejudicar justamente essas pessoas que tinham apenas aplicações em dinheiro.

    Por fim, a sua conclusão é corretíssima: em um sistema monetário baseado em moeda de papel sem lastro algum, e cujos bancos praticam reservas fracionárias, a melhor maneira de você evitar perdas em caso de quebras bancárias generalizadas seria investindo em ativos tangíveis. É preferível investir em bens cujos valores monetários serão reduzidos após quebras bancárias a ficar apenas com dinheiro no banco -- dinheiro esse que sumirá imediatamente com a ocorrência dessas quebras bancárias.

    Entretanto, não se preocupe: no atual arranjo, o banco central jamais irá permitir quebras bancárias. Na pior das hipóteses, ele irá simplesmente sair imprimindo dinheiro de modo a salvar esses bancos. Ao invés da deflação, teremos inflação alta ou até mesmo hiperinflação. Na hipótese mais plausível, o governo simplesmente obrigará (ou incentivará) um banco sadio a comprar um banco insolvente, de modo a evitar o contágio -- como parece ter ocorrido no caso do Panamaricano.

    Abraços!
  • Giovani  12/07/2014 19:09
    Leandro,

    Minha formação é em Ed. Física, mas me interesso muito pela área econômica. Sou leitor assíduo do site do Instituto Mises, e de livros da Escola Austríaca. Gostaria de verificar se meu entendimento está correto, poderias me auxiliar?

    1) Inflação [monetária] = é o aumento de oferta monetária.
    2) Inflação [de preços] = ocorre como consequência do aumento da oferta monetária. Pode ser "mascarada" se houver aumento da produtividade.

    O aumento de oferta monetária pode ocorrer através de 2 agentes: Governo e Bancos.
    Da seguinte forma:
    1) Governo:
    1.1) Através da política monetária, ou seja, Banco Central emitindo mais dinheiro; ou
    1.2) Através da política fiscal, gastando mais do que arrecada em impostos; ou
    1.3) Através da política intervencionista (chamarei de forma indireta), criando barreiras que cartelizam o setor bancário, protegendo os bancos duplamente: da concorrência entre eles, e de possíveis má administrações.

    2) Bancos:
    2.1) Através das reservas fracionárias, criando dinheiro do nada, ou seja, criando "dígitos virtuais".

    Essa reserva fracionária é o próprio banco que define ou o governo?

    Pelo que entendi o Governo define o depósito compulsório, que é a parte obrigatória da reserva fracionária "estocada" no BC. Em países com menor liberdade econômica, como no Brasil, a concorrência bancária é baixa e o compulsório é alto, ao passo que em países com maior liberdade econômica, a concorrência bancária é alta e o compulsório é baixo.

    Num ambiente de maior liberdade econômica o banco define a reserva fracionária, porém sob uma criteriosa análise do risco, uma vez que o dinheiro circulante pode não retornar ao banco (uma vez que existem muitos bancos), tornando grande o risco de insolvência caso os correntistas decidam sacar seu dinheiro.

    Num ambiente de menor liberdade econômica o Governo assume o papel de "salvador" do próprio problema que criou, impondo um depósito compulsório alto na tentativa de "proteger o sistema financeiro".
  • Emerson Luis, um Psicologo  20/11/2014 18:00

    Os bancos só se tornam um cartel de supergigantes por causa do intervencionismo do governo. Então, quando vão quebrar, esse mesmo governo os salva com mais intervenções.

    * * *


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