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Sobre o PIB brasileiro, o baixo desemprego e outras questões econômicas

Leitores que nos acompanham há mais tempo sabem que nunca levamos a sério o modo de se mensurar o PIB.  Se às vezes citamos essa variável em algum artigo, tal fato se deu por pura falta de outro mensurador padronizado que fosse igualmente difundido.

Com um certo atraso, vale a pena fazermos algumas considerações sobre o PIB brasileiro de 2010, o qual cresceu 7,5%.

A imprensa, como era de se esperar, noticiou que o PIB é o "total de riquezas produzidas pelo país" — ou alguma variância dessa frase.  Caso o PIB realmente mensurasse o total de riquezas produzidas no país, então qualquer aumento percentual deveria ser fortemente comemorado.

Mas o fato é que o PIB, ao menos da maneira como é calculado, não mensura o total de riquezas produzidas pelo país.  Logo, quando se diz que o PIB aumentou 7,5% de um ano para o outro, não se pode dizer que a riqueza do país aumentou 7,5% nesse período.

A equação do PIB, a qual já foi amplamente debatida neste artigo, mede apenas o valor monetário de todos os bens e serviços finais que foram comprados e vendidos dentro das fronteiras do Brasil em um dado ano.  Ou seja, o PIB é apenas um cálculo de todas as transações monetárias envolvendo bens e serviços finais.  Ele é utilizado para mensurar o gasto agregado da economia.

A importância de tal afirmação não pode ser ignorada, pois é ela quem nos permite uma compreensão bem mais acurada sobre o que realmente se mensura quando se fala de PIB.  O PIB não mensura um aumento na produção de bens e serviços, tampouco um aumento genuíno da riqueza, mas sim o valor monetário (ou seja, preços) de tais bens e serviços.  Quanto mais se gasta em bens e serviços — isto é, quanto maior o volume de gastos —, maior será o PIB.

E o que significa isso?  Significa que o PIB é uma equação que depende primordialmente da inflação monetária — isto é, do aumento da quantidade de dinheiro na economia.  O valor do PIB aumenta de acordo com essa inflação.  Se o Banco Central aumenta a quantidade de dinheiro na economia, isso elevará a quantidade de transações monetárias (volume de gastos) que ocorrem na economia.  Mais ainda: aumentará os preços.  Logo, o valor monetário dos bens e serviços será maior.  Por conseguinte, o PIB também será maior.

Quando se olha por esse ângulo, as coisas podem parecer nebulosas, mas isso ocorre justamente porque a equação não faz sentido do ponto de vista econômico.  O que os economistas chamam de "crescimento econômico" mensurado pelo PIB de um ano para o outro nada mais é do que aumento do valor final (preço) das transações monetárias de um ano para o outro.  Esse resultado nominal é dividido por um questionável deflator de preços, para se obter o PIB real.

Logo, quanto maior for a injeção de dinheiro na economia, maior será o volume de gastos — e consequentemente maior será o "crescimento econômico" mensurado pelo PIB.  Em suma, mais dinheiro gera mais gastos, o que gera maior "crescimento econômico".

O que nos leva a uma importante conclusão: se, de um ano para o outro, o volume de dinheiro na economia aumentar, e isso levar a um aumento no volume de gastos, mas, por algum motivo, os preços aumentarem pouco (o que significa que o deflator será baixo), então haverá um significativo aumento no PIB.  Ou seja, por algum tempo, é perfeitamente possível fazer a economia "crescer" utilizando simplesmente o artifício da injeção monetária.  Caso o aumento dos preços seja pequeno, o deflator será baixo, e consequentemente o crescimento será expressivo.  Tal artifício pode funcionar excelentemente em uma democracia, principalmente em ano de eleição.  O problema é que o aumento dos preços inevitavelmente chegará um dia — mas aí o político já estará reeleito.

Quando se entende essas artimanhas do PIB, fica mais fácil intuir por que é perfeitamente possível haver um enorme aumento no PIB sem que nada tenha sido produzido, isto é, sem que tenha havido aumento na riqueza.  De mesma forma, é perfeitamente possível o PIB ficar inalterado de um ano para o outro e, ainda assim, ter havido um enorme aumento na quantidade de bens e serviços produzidos.  Tudo vai depender do volume de gastos e do deflator.

O Brasil em 2010

Eis os principais pontos relatados pelo IBGE sobre a economia brasileira em 2010:

No acumulado no ano de 2010, em relação ao mesmo período de 2009, o PIB variou 7,5%, resultado do crescimento de 6,7% no valor adicionado e 12,5% nos impostos. Nessa comparação, a agropecuária (6,5%), a indústria (10,1%) e os serviços (5,4%) cresceram. Assim, segundo as informações das Contas Nacionais Trimestrais, em 2010, o PIB em valores correntes alcançou R$ 3,675 trilhões. O PIB per capita ficou em R$ 19.016, apresentando uma alta de 6,5%, em volume, em relação a 2009 (R$ 16.634).

Na análise da demanda, a despesa de consumo das famílias cresceu 7,0% em 2010, sétimo ano consecutivo de aumento. A formação bruta de capital fixo cresceu 21,8%, maior taxa acumulada em quatro trimestres da série iniciada em 1996. Já a despesa do consumo da administração pública também aumentou 3,3%.

No âmbito do setor externo, as exportações tiveram crescimento de 11,5%, e as importações se expandiram 36,2%. Contribui para este quadro a valorização cambial ocorrida entre 2009 e 2010. A taxa de câmbio (medida pela média anual das taxas de câmbio R$/US$ de compra e venda) variou de 2,00 para 1,76.

Ou seja: consumo, investimentos e gastos do governo aumentaram (exportações e importações não serão o enfoque desse artigo) em 2010 em relação a 2009.

O que provocou esse aumento generalizado nessas três variáveis?  Como demonstrado nesse artigo sobre as causas do atual surto inflacionário brasileiro, a expansão monetária ocorrida no período de setembro de 2009 a novembro de 2010 foi de 19,7% — para um período de 14 meses, algo substantivo.

Essa expansão monetária sem dúvidas aditivou o PIB de 2010. 

Para exemplificar o quão incoerente é esse sistema contábil, o IPC (Índice de Preços ao Consumidor) de 2008 foi 6,07%.  O de 2010 foi de 6,24%.  Ainda assim, o deflator utilizado para calcular o PIB de 2010 foi menor que o de 2008: 7,34 contra 8,33.

Ou seja, não obstante a inflação de preços em 2010 tenha sido maior que em 2008, o deflator utilizado para corrigir o PIB foi menor — algo que sem dúvidas teve grande efeito sobre o valor final do PIB de 2010. 

Ademais, como o IPCA e INPC (outros índices de preços ao consumidor) de ambos os anos foram idênticos, fica ainda mais esquisita essa opção por um deflator mais baixo.  Como os economistas seguidores da Escola Austríaca sempre enfatizaram, o deflator em todas as ocasiões é uma medida pra lá de dúbia.  Não é à toa que o próprio IBGE o chama de "deflator implícito", algo não muito científico — mas não espere ler sobre isso na mídia.

Entretanto, os mais céticos podem dizer: "Ora, o que interessa é a sensação do povo.  E, independentemente de cálculos do PIB, é indubitável que 2010 foi um ano de grande fartura para todos."

É verdade que 2010 foi um ano de baixo de desemprego.  Mas isso também é explicado pelo fenômeno da expansão da oferta monetária.  Um aumento da oferta monetária, em conjunto com a redução dos juros, de fato pode provocar uma redução na taxa de desemprego.  Mas temporária.

Como explica a teoria austríaca dos ciclos econômicos, uma redução na taxa de juros e um subsequente aumento na disponibilidade de crédito (ambos causados pela expansão monetária) estimulam mais investimentos em projetos de longo de prazo — o que explica, dentre outras coisas, o surto imobiliário que vem ocorrendo no Brasil.  Consequentemente, há um aumento do emprego nos setores que recebem esses investimentos adicionais.  Porém, como essa redução nos juros não foi causada por um aumento na poupança (isto é, pela abstenção do consumo), mas sim pela simples manipulação dos juros feita pelo Banco Central, não houve uma liberação de recursos de um setor para ser utilizado em outro setor.

Traduzindo: mais dinheiro na economia faz aumentar a demanda por mão-de-obra na indústria e na construção civil, mas ao mesmo tempo o setor de serviços e o de comércio continua precisando de mão-de-obra, pois não houve aumento na poupança (abstenção de consumo).  Assim, começa a haver uma batalha por mão-de-obra.  Houvesse poupança genuína, a mão-de-obra de um setor seria liberada para outro setor.  Como não há poupança, esses fatores de produção começam a ser disputados via aumentos salariais. 

Veja na tabela abaixo o aumento no emprego em todas as áreas da economia, tendo-se a base 100 para dezembro de 2009:

Período

Total

 

Indústria da

Comércio

Serviços

 

Construção civil

 

 

 

 

 

transformação

 

 

 

 

 

 

 

 

Observado

Dessaz.

Observado

Dessaz.

Observado

Dessaz.

Observado

Dessaz.

Observado

Dessaz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2009

Dez

100,00

100,00

100,00

100,00

100,00

100,00

100,00

100,00

100,00

100,00

2010

Jan

100,55

100,65

100,93

100,82

99,91

100,62

100,44

100,51

102,40

101,64

 

Fev

101,18

101,17

101,78

101,59

100,05

101,15

101,09

100,92

103,94

103,01

 

Mar

101,99

101,87

102,75

102,45

100,45

101,83

101,89

101,60

105,64

104,16

 

Abr

102,92

102,43

103,87

103,00

101,00

102,49

102,63

102,10

107,34

105,32

 

Mai

103,82

102,97

104,71

103,55

101,59

103,08

103,28

102,66

109,07

106,42

 

Jun

104,46

103,47

105,31

104,11

101,95

103,58

103,72

103,20

110,16

107,21

 

Jul

105,02

103,94

105,87

104,54

102,33

104,08

104,18

103,76

111,86

108,01

 

Ago

105,92

104,45

106,82

104,94

103,21

104,63

105,15

104,38

113,63

108,71

 

Set

106,67

104,87

108,09

105,10

103,95

105,13

105,87

104,94

114,59

109,24

 

Out

107,29

105,32

108,72

105,37

105,05

105,71

106,52

105,48

115,10

109,81

 

Nov

107,71

105,84

108,60

105,88

106,83

106,46

107,12

106,03

114,75

110,50

 

Dez

106,48

106,47

106,54

106,55

107,02

107,01

106,55

106,59

111,23

111,25

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2011

Jan

106,93

107,00

107,25

107,08

106,77

107,50

107,09

107,14

112,69

111,85

 

Fev

107,76

107,71

108,06

107,81

107,01

108,18

108,09

107,88

114,03

112,98

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego

Observe que o aumento no emprego na indústria, no comércio e nos serviços é bastante semelhante, ao passo que no setor da construção civil ele é bem mais vigoroso.  Tudo isso vem provocando uma elevação geral nos salários.

À primeira vista, isso parece bom.  Quem poderia ser contra aumentos salariais e queda no desemprego?  O problema é que tal arranjo é insustentável, simplesmente porque vivemos em um mundo de escassez.  Quando começa a haver escassezes — seja de mão-de-obra, seja de produtos — os preços inevitavelmente tendem a aumentar.  Se nada for feito, eles tendem a aumentar em ritmo cada vez mais acelerado, que é o que já está acontecendo no Brasil.

A expansão monetária, a redução nos juros e o aumento no crédito geram, como dito, investimentos adicionais em várias áreas até então pouco lucrativas.  Esses novos investimentos requerem mão-de-obra adicional, a qual passa a ser retirada de setores como comércio e serviços.  Assim, ao mesmo tempo em que uma construtora passa a demandar mais engenheiros, arquitetos, mestres-de-obras, corretores, vendedores, relações públicas etc., o setor de serviços e o comércio continuam demandando com a mesma intensidade esses profissionais, pois as pessoas não estão poupando, o que significa que o consumo segue aquecido em todos os setores — a redução dos juros, como dito, não veio da poupança, mas sim da criação de dinheiro pelo Banco Central.

Essa disputa por mão-de-obra provoca uma redução no desemprego e um aumento nos salários médios. 

Da mesma forma, toda essa expansão monetária inevitavelmente gerará, a partir de algum momento, um forte aumento de preços nos bens e serviços.

Enquanto estiver havendo essa expansão do dinheiro e do crédito, mas os preços continuarem contidos, os números positivos da economia irão durar.  A demanda por bens e serviços irá continuar em alta.  Os estoques das empresas serão prontamente vendidos.  Apartamentos continuarão sendo vendidos na planta.  Novos empreendimentos continuarão sendo iniciados.  Carros zero continuarão sendo vendidos aceleradamente.  Novos restaurantes e novas lojas continuarão sendo abertos.  Os preços e os lucros continuarão subindo.  Trabalhadores continuarão encontrando empregos a salários nominais cada vez maiores. 

O único detalhe chato de tudo isso é que tal expansão não pode durar.

Em algum momento, essa expansão monetária começará a provocar um aumento generalizado nos preços, como já vem acontecendo no Brasil.  Caso o Banco Central nada faça, os juros subirão naturalmente, pois os bancos terão de encarecer os seus empréstimos — caso contrário, eles simplesmente irão receber, no momento da quitação do empréstimo, um dinheiro com um poder de compra menor do que o que esperavam receber quando concederam o empréstimo. 

Esse aumento dos juros inviabilizará a conclusão de empreendimentos de longo prazo — sejam eles a construção de shoppings, a construção de prédios, a expansão de indústrias ou até mesmo a abertura de franquias de restaurantes.  Descobre-se, finalmente, que não havia poupança suficiente para sustentar a viabilidade de longo prazo desses investimentos.  (Na atual crise americana, mais de 600 franquias do Starbucks foram fechadas, simplesmente porque a empresa se expandiu excessivamente durante o período do crescimento econômico insustentável.  Veio a recessão e descobriu-se que não havia demanda — ao menos ao nível vigente de preços — para tamanho investimento).

Quando isso acontecer no Brasil, haverá um processo de correção na economia, também conhecido como recessão.  A mão-de-obra que foi desviada para setores que se expandiram apenas por causa dos juros artificialmente baixos — qualquer grande empreendimento de longo prazo — descobrirá que suas habilidades não mais estão sob demanda.  Elas perdem o emprego e passam a ter de se reeducar para adquirir novas habilidades para outros empregos, os quais provavelmente estarão agora no setor de serviços e comércio.

Portanto, uma política de expansão monetária e redução de juros — como a que ocorreu no Brasil desde meados de 2009 até o final de 2010 — de fato pode criar aumentos no emprego e nos salários.  Mas, por uma simples questão de escassez (não vivemos na abundância), esses aumentos serão temporários, pois o que motivou a redução nos juros não foi a poupança genuína (abstenção do consumo), mas sim a mera criação de dinheiro.  E, como se sabe, criar dinheiro não faz com que haja mais bens disponíveis na economia.  O que genuinamente provoca aumento da riqueza de uma economia é a poupança, a acumulação de capital e a divisão do trabalho.  E não manipulações monetárias.

Quando a política de expansão monetária for interrompida, todos os empregos que foram criados em decorrência dessa política serão destruídos.  É a própria expansão monetária que cria o terreno para uma futura recessão.

Conclusão

Um sinal de que podemos estar nesse fenômeno da expansão dos investimentos motivada pela expansão monetária pode ser vista no gráfico abaixo do IBGE.  A taxa de investimento, linha azul, tem se mantido acima da taxa de poupança, linha amarela, há 3 anos.

1830_2950_190358_479591.jpg 

É difícil saber separar investimento bom de investimento insustentável, seja ele investimento feito por agentes domésticos ou estrangeiros.  O que se sabe ao certo é que todos os investimentos insustentáveis representam uma destruição de capital.  Recursos que poderiam estar sendo utilizado proveitosamente em outras áreas estão sendo desperdiçados em investimentos que não serão viáveis a longo prazo.  E tudo isso, vale ressaltar, é contabilizado positivamente pelo PIB, como ocorreu em 2010.  Ou seja, mesmo que possa estar havendo destruição de riqueza, todos os investimentos são contabilizados positivamente.

Como brilhantemente resumiu o professor Antony Mueller:

[...]Investimentos que estão sendo feitos em produtos que ninguém quer, ou pelos quais ninguém está disposto a pagar, contam como produção. Imagine uma economia onde os investimentos ruins aumentam cada vez mais.  Todos esses maus investimentos contam como produção e contribuem para uma maior taxa de crescimento econômico.  Apesar de a economia estar caminhando para o desastre, os indicadores macroeconômicos mostram uma economia em expansão.

Estatisticamente, esses maus investimentos contribuem para mostrar o crescimento econômico, mas o que cresce, na verdade, é uma estrutura de capital cada vez pior. O que as estatísticas mostram é uma bolha de maus investimentos.  O crescimento mostrado pela contabilidade nacional é uma ilusão estatística.  A alta agregação das variáveis, como acontece nos números oficiais, esconde o quadro real.  Ao mesmo tempo em que a economia se torna mais pobre na realidade, as estatísticas macroeconômicas mostram que a receita nacional e o emprego aumentam.  Assim, é natural que para os observadores macroeconômicos que baseiam suas análises nessas estatísticas oficiais a recessão já prevista frequentemente chegue como uma surpresa. Somente quando a economia já estiver em recessão soará o alarme de um PIB em queda.

Finalmente, uma observação adicional: se houvesse um sistema bancário com 100% de reservas — isto é, caso não houvesse reservas fracionárias —, o crédito tenderia a ser maior e menos danoso.  Afinal, ninguém iria deixar todo o seu dinheiro na conta corrente, tendo de pagar uma taxa de serviços.  Grande parte seria destinada a investimentos, sendo que, durante o período de aplicação, tal dinheiro estaria indisponível para o poupador, obviamente. 

Isso significa que o dinheiro concedido como crédito estaria vindo da poupança genuína (abstenção do consumo).  Mais ainda: o dinheiro emprestado não poderia ser utilizado pelo credor e pelo devedor ao mesmo tempo — que é o que ocorre no sistema bancário de reservas fracionárias; que é o que causa os ciclos econômicos.

Ao contrário do que se imagina, tal sistema tenderia a elevar o volume de crédito.  Em busca de maiores rendimentos, todos iriam emprestar o máximo possível de dinheiro, mantendo em sua conta-corrente apenas a quantia que julgassem necessária para suas despesas correntes e para demais contingências.  Sem um banco central para fazer manipulações monetárias, os juros seriam determinados de acordo com a oferta e a demanda de crédito, exatamente como deve ser.

Isso forneceria crédito de maneira saudável, sem atritos, sem inflação de preços e sem ciclos econômicos violentos.  Principalmente: os investimentos dar-se-iam de acordo com a genuína preferência temporal dos poupadores, minimizando a destruição de capital e riqueza.


autor

Leandro Roque
é editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

  • Augusto  23/03/2011 10:40
    Leandro,\r
    \r
    Você diz que "O valor do PIB aumenta de acordo com essa inflação. Se o Banco Central aumenta a quantidade de dinheiro na economia, isso elevará a quantidade de transações monetárias (volume de gastos) que ocorrem na economia. Mais ainda: aumentará os preços. Logo, o valor monetário dos bens e serviços será maior."\r
    \r
    Mas o cálculo do PIB pode ser ajustado para levar em consideração a inflação, e que é esse ajuste que permite voce comparar o PIB ano a ano e dizer se a economia "cresceu" ou não.\r
    \r
    Você menciona esse ajuste quando diz, "Para exemplificar o quão incoerente é esse sistema contábil, o IPC (Índice de Preços ao Consumidor) de 2008 foi 6,07%. O de 2010 foi de 6,24%. Ainda assim, o deflator utilizado para calcular o PIB de 2010 foi menor que o de 2008: 7,34 contra 8,33. Ou seja, não obstante a inflação de preços em 2010 tenha sido maior que em 2008, o deflator utilizado para corrigir o PIB foi menor - algo que sem dúvidas teve grande efeito sobre o valor final do PIB de 2010."\r
    \r
    Mas eu não entendi você usar os dados de 2008 e 2010, em vez de 2009 e 2010. Poderia esclarecer esse ponto?
  • Leandro  23/03/2011 10:46
    Augusto, esse "ajuste" é exatamente o deflator. Divide-se o PIB nominal pelo deflator e obtém o PIB real. Quanto menor o deflator, maior o PIB real, obviamente.

    Eu peguei 2008 e 2010 porque foram dois anos de grande crescimento econômico (2009 foi recessivo) e com IPCA e INPC praticamente iguais, diferentemente de 2009. (Clique no link em azul onde está escrito "IPC" e confira).

    Mais ainda: o IPC de 2010 foi maior que o de 2008, porém o deflator implícito de 2010 foi menor.

    Esquisitices da matemática keynesiana...
  • Cristiano  23/03/2011 12:19
    3 noticias recentes podem ser sinais dessa escassez de mão de obra na construção civil:1-a Revolta dos operários da hidrelétrica de Jirau, 2- aparalização na obra vizinha de Santo Antonio 3- Paralização dos operários da Refinaria de Suape em PE.
  • Andre Luiz  23/03/2011 13:46
    Leandro,\r
    \r
    Em primeiro lugar, gostaria de parabenizar a todos do Instituto, pelo ótimo site. Tenho aprendido muito sobre economia aqui.\r
    \r
    De fato o Brasil tem crescido bastante. Porém, todo esse crescimento se sustenta no crédito e, consequentemente, no endividamento da população e do governo. Um dia essa fartura vai acabar.\r
    \r
    Aí é que entra a dúvida, pois vejo duas saídas:\r
    \r
    1 - O governo seguraria a inflação, aumentando os juros e os compulsórios, forçando uma poupança, mas também contraindo a economia.\r
    \r
    2 - O governo liberaria a inflação, a fim de que o alto endividamento se tornasse pagável, mais ou menos como os EUA vêm fazendo. Mas isso também contrairia a economia, pois as pessoas comprariam, praticamente, apenas comida.(Exagerei, confesso!)\r
    \r
    Pela sua experiência, dá para imaginar o que o governo brasileiro fará?\r
    \r
    Se puder responder, agradeço.
  • Leandro  23/03/2011 14:07
    Prezado André, agradecidos ficamos.

    Acho (na verdade, torço para) que a segunda opção está (esteja) fora de cogitação. A década de 1980 ainda está viva em nossa memória, e nenhum político vai querer repeti-la, nem mesmo o Banco Central. Liberar a inflação está fora de cogitação.

    A primeira opção é a mais provável -- justamente para evitar que tudo descambe na segunda --, ficando em suspense apenas a intensidade com que tudo será feito. Quanto mais se adiar essa correção, mais intensa ela será quando vier -- vide os EUA, que adiaram a recessão de 2001 por meio da expansão monetária e acabaram intensificando uma bolha imobiliária cujo estouro gerou essa recessão prolongada na qual o país se encontra até hoje.

    A diferença é que lá, durante todo esse período, a inflação de preços se manteve baixa (a economia deles é mais aberta e a produtividade, maior), o que permitiu o prolongamento da expansão monetária.

    Aqui, tudo indica que as expansões monetárias têm vida mais curta, justamente por causa da inflação de preços, que se manifesta mais rapidamente.

    Grande abraço!
  • Getulio Malveira  23/03/2011 14:48
    Leandro,

    Parabens pela nova análise da economia brasileira, muito clara e consistente como sempre. Porém me ficou apenas uma dúvida. Você afirma:

    "Isso significa que o dinheiro concedido como crédito estaria vindo da poupança genuína (abstenção do consumo). Mais ainda: o dinheiro emprestado não poderia ser utilizado pelo credor e pelo devedor ao mesmo tempo - que é o que ocorre no sistema bancário de reservas fracionárias; que é o que causa os ciclos econômicos."

    Ora, pensei que a causa direta dos ciclos econômicos fosse a expansão monetária efetuada pelo banco central e complementada pelo sistema de reservas fracionárias, mas aqui você afirma que é o próprio sistema de reservas fracionárias praticado pelos bancos privados sob a aquiescência do BC a causa direta do fenômeno dos ciclos. Poderia me explicar melhor sua posição?
  • Leandro  23/03/2011 15:15
    Prezado Getulio, agradeço muito os elogios.

    Veja bem, o que causa os ciclos econômicos é exatamente esse descompasso entre poupança genuína e crédito. Não interessa realmente se quem vai expandir a oferta monetária (logo, o crédito) é o banco central, ou o sistema bancário de reservas fracionárias, ou ambos.

    O que você disse ("que a causa direta dos ciclos econômicos fosse a expansão monetária efetuada pelo banco central e complementada pelo sistema de reservas fracionárias") está perfeitamente correto, mas esse não é necessariamente o único arranjo que provoca ciclos econômicos.

    Os ciclos econômicos ocorrem, via de regra, porque há uma expansão monetária que faz com que a taxa de juros fique abaixo da taxa que prevaleceria em um livre mercado, caso a apenas a poupança determinasse a oferta de crédito.

    Até aqui, tudo certo, né?

    Acontece que essa expansão monetária pode se dar de várias formas. No atual arranjo, temos um Banco Central injetando dinheiro no sistema bancário, e este se encarregando de multiplicar a moeda via sistemas fracionárias.

    Porém, é também possível haver ciclos econômicos sem um banco central, mas com o sistema bancário praticando reservas fracionários. O princípio é o mesmo. Os bancos emprestam dinheiro que não existe (criando os meios fiduciários), há a expansão dos investimentos, uma subida de preços, uma subsequente contração na concessão de empréstimos (contração dos meios fiduciários) e a recessão.

    Da mesma forma, é possível haver ciclos econômicos com um sistema bancário com 100% de reservas, mas com um banco central. Basta que este siga constantemente injetando dinheiro na economia, fazendo com que este apareça como uma "poupança" que nunca existiu.

    E, finalmente, é possível haver ciclos econômicos até mesmo em um sistema bancário com 100% de reservas e sem banco central. Nesse caso, seria necessário haver um "maturity mismatch", ou uma maturação descompassada: ou seja, você empresta seu dinheiro por 1 ano, por exemplo, mas o credor precisa de 3 anos para completar o investimento. Se ele não conseguir rolar a dívida, terá problemas. Se isso ocorrer generalizadamente na economia, poderá haver um ciclo econômico.

    Eis um excelente paper sobre esse assunto:

    libertarianpapers.org/articles/2010/lp-2-2.pdf

    Grande abraço!
  • Getulio Malveira  23/03/2011 16:38
    Muito agradeço a resposta, Leandro, você me ajudou muitíssimo. Forte abraço!
  • Democrito  23/03/2011 14:48
    Leandro,
    Complexa equação. Pensava que o PIB sustentasse a emissão, e não fosse reflexo. Pelo que entendi ele não pode ser diapasão monetarista. Mas cogito que o ouro também não, porque limitadíssimo, enquanto a riqueza é ilimitada. No tear o colapso é iminente, como foi o provocado de 29. Agora fiquei desprovido. O quê poderia regular a quantidade de papel-moeda, ou seu crédito, circulante no país? Alguma sugestão inovadora?
  • Leandro  23/03/2011 15:25
    Demócrito, mas o fato de o ouro ser limitado, ao passo que o potencial de criação de riqueza não é, em nada afeta a função do ouro como moeda de troca. A quantidade existente do meio de troca é indiferente para a economia. Qualquer quantidade exercerá perfeitamente a função de meio de troca. É preciso apenas que haja liberdade de preços.

    Dizer que a economia depende de uma determinada quantidade de dinheiro para crescer é o equivalente a dizer que um carro precisa de vento para se locomover. O que gera crescimento econômico é poupança, acumulação de capital e divisão do trabalho -- e não dinheiro. O que nos torna ricos é a abundância de bens, e o que limita essa abundância é a escassez de recursos -- a saber, terra, capital e trabalho.

    Simplesmente aumentar a quantidade de dinheiro não vai fazer com que esses bens surjam do nada; não vai fazer com que haja empregos para trabalhar recursos inexistentes. O dinheiro é apenas um meio de troca que facilita as transações indiretas. Uma maior quantidade vai apenas diluir os preços e redistribuir a renda em prol daqueles que obtiveram essa nova quantidade antes dos outros. Não existe uma quantidade ótima a ser perseguida; qualquer quantidade servirá, no longo prazo.

    Esse pequeno texto (em inglês) pode ajudar a esclarecer: mises.org/money/2s8.asp

    Abraços!
  • CR  23/03/2011 20:27
    Desculpe Leandro, insistir. A moeda REPRESENTA a riqueza. O dinheiro não faz a economia crescer, foi mal usado, concordo, mas ele tem que expressar o tamanho da produção, sim senhor. Vamos dizer assim: aqui está 1 kg de frango, d. Dilma. Ela vai lá, emite uma moeda de 1, que no cãmbio a galinha vale 1,1, por exemplo, e coloca a circular. Cada nota é, ou deveria ser, uma mínima fatia da riqueza que se tem em jogo. E se a riqueza aumenta apesar dos gastos, ou seja, sem nada poupar, e isso existe, como reequilibrar com o valor de face expresso pela mínima parcela, isso que digo. Se dinheiro não tivesse o valor fundamental nas transações ele nem existiria, podes crer.
  • Rhyan Fortuna  23/03/2011 14:52
    O discurso político atualmente no Brasil parece ser: "Precisamos enfriar a economia para conter a inflação."

    É possível ter depressão com hiperinflação? (No caso de optarem pela 2ª possibilidade.)
  • Leandro  23/03/2011 15:31
    Rhyan, possível é. Basta lembrar que, durante uma depressão, por definição, está havendo uma redução na produção de bens e serviços. Logo, uma menor oferta de bens e serviços tende a gerar maiores preços. Se, em conjunto a essa redução de bens, você elevar violentamente a quantidade de dinheiro, é sim possível haver hiperinflação com depressão.

    Porém, o volume de dinheiro teria de ser realmente muito grande, pois numa depressão as pessoas tendem a gastar menos e a poupar mais, por causa da maior incerteza da economia (fenômeno esse que explica por que há redução de preços em economias recessivas, não obstante a queda na oferta de bens e serviços).

    Portanto, é sim possível uma depressão hiperinflacionária, mas é realisticamente bastante improvável (em países sérios, é claro).
  • Caio Cesar  23/03/2011 16:59
    Eu só sei de uma coisa: o PIB cresceu mais de 7%, somos mais ricos que a Itália, somos a 7° potência econômica mundial, e eu não senti diferença alguma no meu bolso desde meu nascimento. hehehe
  • Adriano  08/03/2012 01:10
    Você está usando o índice que Reagan usava para medir o fracasso de Jimmy Carter. É tudo muito simples: "você está melhor agora do que estava há 4 anos atrás"? A resposta a essa pergunta diz tudo o que importa.
  • Angelo T.  23/03/2011 19:22
    Leandro, texto excelente! E não só o texto, mas também as respostas nos comentários. Como sempre, aliás.\r
    \r
  • Leandro  23/03/2011 19:25
    Muito obrigado, Angelo!
  • anônimo  23/03/2011 19:22
    "Ao mesmo tempo em que a economia se torna mais pobre na realidade, as estatísticas macroeconômicas mostram que a receita nacional e o emprego aumentam."

    Na verdade, não existe economia mais pobre; o dinheiro continua existindo no mercado.

    O autor não acredita nas estatísticas não é por causa de maus empresários (que não merecem a culpa dos especuladores acobertados como investidores, que quebram todo tipo de empresário, em meio ao fracasso anunciado do ciclo econômico). O que faz essa é o fato do sistema capitalista roubar o valor que as coisas possuem, por um pedaço de papel sem fundamento, que é injetado na economia pra captar da nossa improvidade o debito inscrito no investimento fictício.

    Esse ciclo econômico ai em cima se assemelha aos caixeiros do universo (que não precisam ter riqueza alguma pra investir) e se tornam donos de equivalentes propriedades privadas, antes delas nascerem.

    O que faz esse falso do sistema capitalista, na verdade, é roubar o valor que as coisas possuem, por um pedaço de papel sem fundamento, que é injetado na economia pra captar da realidade o debito inscrito no investimento fictício.

    Quando é então que pode haver um período de tempo com base no valor da propriedade privada? - já foi dito aqui que a poupança pode não se completar, e frustrar a tese da poupança. Foi dito ainda que a criação de dinheiro é inflação (poupança = reservas fracionárias)...

    Afinal, por onde começar o padrão de reserva de valor?
  • Joao  24/03/2011 07:59
    O sistema capitalista rouba o valor que as coisas possuem? Você anda cheirando cola de sapateiro estragada!
    Eu adoraria ouvir sua tese alternativa ao capitalismo. Se for o socialismo, bem, aí você se perdeu na fase pré-adolescente, e sua capacidade de raciocínio já foi para o beleléu há muito tempo.
  • Miguel A. E. Corgosinho  24/03/2011 12:59
    João bobo (?), a sua visão alucinada sobre o poderio social é a mesma que se apresenta a alienação da propriedade privada a uma potência estranha, como se tudo fosse o livre mercado, sem o Estado.

    Acontece, meu caro iludido com a propriedade privada e a concorrência entre mercados, que estes perderam o comando do padrão de valor, dos meios de produção para os fins da moeda conversível. Ora, a ideologia do preço do valor, pago por incompetência das inversões que crescem nas mãos do capitalista nunca esboça a sorte de explorar e dominar o Estado pelo lado do poderio social, via títulos públicos (a propriedade do mundo real).

    Se você ficar confundindo as duas relações, de livre mercado (preço) e poderio social (valor) como se fosse uma só coisa (o preço), o seu afrontamento vai ser gozado como a própria economia, quando se depara com um desenvolvimento objetivo que divide a sociedade e Estado.

    Alienação dos valores reais:

    A moldura da taxa de câmbio do mercado simula um ponto de encontro para o valor central das coisas reais entre dois ou mais países, os quais pagam para existir a fonte de valor fora dos seus limites em uma moeda. Esta moeda trará a origem do valor a um país para ele ser o tamanho de todos os abragentes. Exemplo, as trocas entre dois países: A + B por desenvolvimento de X, proprietário do câmbio.

    Consequentemente, os valores reais da propriedade privada na engrenagem do trabalho ou na produção serão gerados como custo, para o Estado representar a riqueza, com o preço dessa origem espúria no capitalismo.

    A intensão de usar um padrão de valor, ao meu modo de ver, é fazer com que nenhum país fique em desvantagem concreta (real) em relação a outro; em termos de manipular a simulação do dinheiro gerado por preço - sem subtrair o valor da produção para tabular a moeda - ou seja; me passe a sua produção (concreta) e tome o meu papel puro (abstrato do nada).

    O problema do padrão ouro era se privar da sabedoria de uma precisão monetária no sentido do segundo caso, a produção geral, na qual o valor é sempre o conjunto da "razão de referência" de mercado em unidade social(1=1) para todos os países.

    A função do dinheiro é representar a freqüência acumulada da propriedade privada sobre fatores de referência interna, de união de um pelo outro, como teste de crescimento simultâneo; em uma base (ponto exterior que representa a economia) para relação de valores da igualdade de um dia, até que exista a respectiva adição monetária (estado teórico) com o período superior, um mês da produção.

    Se a economia tem pai fundador do mercado, está faltando deus a sociedade.
  • Eduardo   23/03/2011 19:32
    Olá Leandro!

    Parabéns pelo excelente e nobre trabalho no IMB!

    Tenho uma questão: penso que não seria o sistema de reservas fracionadas o real problema da situação. Qualquer outra empresa capitalista acaba "criando" dinheiro através da receita > custo = Lucro. Penso que a reserva fracionada funciona da mesma forma como a alavancagem. Será que a quebra do monopólio das moedas correntes, cada moeda competindo livremente com outra, com taxas de alavancagens sincronizadas com o mercado, não seria mais eficiente do que uma reserva de 100%?
  • Leandro  23/03/2011 20:01
    Eduardo, obrigado!

    Bom, lamento a resposta evasiva, mas é realmente impossível saber de antemão. Existem argumentos convincentes contra esse sistema de várias moedas concorrendo entre si. Vários economistas austríacos consideram que esse sistema seria equivalente a um retorno a uma economia de quase-escambo. Afinal, a função da moeda é exatamente a de facilitar as trocas. A partir do momento em que há várias moedas concorrendo entre si, com várias taxas de câmbio vigentes no mercado, você volta a um estado de escambo parcial; você nunca saberá se a moeda que você está portando será aceita por um determinado estabelecimento, por exemplo.

    Ou seja, para um simples ato de compra, você passará a depender da existência de uma "dupla coincidência de desejos" entre você e o vendedor: você terá de torcer para que o vendedor aceite a moeda que você tem.

    E depois ainda tem o problema do troco: suponha que você pague em uma moeda, receba o troco em outra e imediatamente depois essa se desvalorize. E aí? É por isso que tais economistas dizem que esse arranjo não duraria muito tempo. O mercado sempre tende a harmonizar e facilitar as coisas. Com a moeda não seria diferente.

    Essa situação de moedas paralelas é a exata negação da mais precípua função do dinheiro, que é exatamente o de facilitar as trocas. A tendência é que tal sistema não dure muito. Inevitavelmente uma moeda universalmente aceita acabará surgindo e dominando o mercado (o que nos remete de volta à discussão sobre o ouro).

    Quanto aos bancos alavancarem com o dinheiro alheio, o problema é que ao fazer isso eles criam moeda, alteram os juros e enviam sinais distorcidos para o mercado, o que afeta toda a estrutura de produção da economia.

    Logo, o sistema bancário fazer essa alavancagem com o dinheiro alheio não pode ser considerado a mesma coisa que empresas alavancando -- mesmo porque empresas não criam moeda e, consequentemente, não têm o poder de alterar os juros de toda a economia.

    Grande abraço!
  • Eduardo  24/03/2011 21:44
    Olá! Muito obrigado pela resposta!

    De fato não tinha pensado nesse detalhe do problema de várias moedas concorrendo entre-si. Ficou muito mais claro para mim.


    De fato, a forma com que o sistema bancário se alavanca com dinheiro alheio acaba gerando distorções, a inflação.

    Mas quando disse que uma empresa comum pode criar dinheiro é através da deflação, e não com a inflação. Quando há um mercado competitivo, produtivo,inovador, acaba gerando pressão para baixar os preços. Logo a tendência seria a deflação. A cada dia o dinheiro valeria mais, compraria mais bens. É certo que uma empresa não cria moeda, mas tem o poder de fazer ela valer mais, esse é o raciocínio que quis passar.

    Será que há alguma falha no meu raciocínio?
  • Eudes  23/03/2011 22:09
    Hoje, o Brasil é o país da propaganda. Fala-se muito que : o país está no caminho certo, está crescendo, é uma potência emergente, etc. . Parecendo não ter noção acerca do que é uma coisa ridícula, o governo chega até mesmo a divulgar aos quatro ventos que o Brasil já é um país de classe média. Porém, a realidade é bem diferente. A nossa pátria, apesar de algumas melhoras, continua sendo o que sempre foi : um país sem presente e sem futuro. É ou não é assim ?
    Uma breve e superficial análise é capaz de mostrar um quadro pior que ruim. A carga tributária é terrivelmente pesada, existe uma selva de regulamentações para tudo que se quer fazer, falta de respeito para com a propriedade privada, repúdio ao capital estrangeiro, repúdio ao capital privado, irresponsabilidade fiscal, dívida pública gigantesca, corrupção, impunidade, etc. . Tudo isso é muito bom para destruir a formação de capital e desestimular investimentos.
    Talvez essas palavras de Roberto Campos se apliquem bem a qualquer aspecto da vida do brasileiro : "o brasileiro não pensa em termos de causa e efeito - tem tanta aversão a essa idéia que não sei como isso não está na Constituição ... ." (1) Como um país assim pode ter futuro ?




    REFERÊNCIA


    Roberto Campos em Deus, Fé e Política - Veja, 25 anos - Reflexões Para O Futuro p. 219, Editora Abril .
  • Luiz Otávio Fontana Baldin  24/03/2011 00:11
    Ótimo texto, como de costume.\r
  • andre  24/03/2011 13:11
    Leandro, a manipulação de índices é um fenomeno quase geral. Nos EUA, o cálculo do índice oficial de inflação e PIB é ridículo (hedoismo,subtituição e outras safadezas), mas lá existem sites de cidadãos americanos que pesquisam preços e mostram indices reais, bem mais altos do que o oficial...pfff\r
    Na Argentina foi pior: A presidente puniu um instituto por publicar indices maiores e "fora da realidade" em relação a inflação oficial.\r
    \r
    Você sabe de alguém ou alguma instituição brasileira que publique indices de inflação pararelos ao oficial que não tenha rabo preso (ou só um pouco) com o governo?
  • Augusto  24/03/2011 16:34
    Os únicos índices de inflação calculado pelo setor privado na lista abaixo são os da Fundação Getúlio Vargas, mas talvez não atenda o seu critério de independência.\r
    \r
    pt.wikipedia.org/wiki/%C3%8Dndices_de_infla%C3%A7%C3%A3o_do_Brasil\r
    \r
    O curioso é que com a internet e com os milhares de sites de venda online, seria relativamente simples calcular automaticamente um índice com base nos preços disponíveis... Ninguém ainda teve essa idéia?
  • Leandro  24/03/2011 16:56
    Na verdade o problema não está em haver índices de preços ou na maneira como eles são calculados.

    O problema está em o governo achar que existe algo como uma "estabilidade de preços" e querer formular sua política monetária de acordo com esta "estabilidade de preços".

    O problema de querer manter uma determinada inflação de preços é que o conceito de "estabilidade de preços" está longe de ser algo bem definido. Ele depende de um conjunto totalmente arbitrário (e em constante mudança) de vários bens e serviços, os quais o governo quer que fique estável em 4,5% de acordo com suas injeções monetárias.

    É claro que tal sistema é propício para gerar instabilidade econômica.
  • Leandro  24/03/2011 15:42
    André, infelizmente essas instituições ainda não aportaram por aqui. Pelo menos eu nunca ouvi falar de nenhuma.

    Creio que, no momento, os índices econômicos mais confiáveis são:

    IDC - Índice da Dona de Casa (o mais sensível à inflação de preços dos alimentos e dos produtos domésticos)

    IOP - Índice Opinião dos Pobres (o mais sensível à inflação de preços do bens essenciais à sobrevivência)

    IMT - Índice dos Motoristas de Táxi (o melhor termômetro para se mensurar o otimismo com a economia em geral)

    Abraços!
  • Gustavo  24/03/2011 17:31
    Parabéns Leandro! Muito didático.
  • Zeh  24/03/2011 18:06
    Leandro, algum chute para a minha velha pergunta que vale R$1 milhão(já vale mais, por cauda da inflação)? Quanto tempo isso dura?

    Opção 1: até o fim de 2011
    Opção 2: até o fim de 2012
    Opção 3: Até o fim de 2013
    Opção 4: Entre 2014 e 2016
    Opção 5: Após 2017.

    Tic, tac, tic, tac...
  • Leandro  24/03/2011 20:24
    Zeh, tentar adivinhar o que farão os planejadores centrais da economia brasileira é tarefa impossível. Mas eu particularmente gosto de acompanhar duas variáveis: os juros para pessoas físicas e jurídicas, e a evolução dos meios fiduciários. Creio que estas são as variáveis que melhor ajudam a dar pistas sobre o rumo da economia.

    No momento (até o dia 15 de março), a criação de meios fiduciários segue estável. Está praticamente no mesmo patamar em que estava em novembro. Já os dados dos juros estão defasados. O BC publicou só até janeiro.

    Ou seja: por enquanto, não dá pra prever nenhuma grande alteração para os meses vindouros.
  • Daniel  24/03/2011 18:56
    Na verdade, o indice do IPC-FIPE apresenta resultados bem verossimeis\r
    e Augusto, de fato tiveram esta idéia.\r
    bpp.mit.edu/\r
    Antes eles deixavam o CPI oficial do País no gráfico para comparar. Acredito que uma polemica no comeco do ano acusando uma subida brusca no CPI americano tenha causado essa omissão.\r
    Abrs\r
  • Augusto  24/03/2011 19:56
    Daniel, é a prova de que ser empreendedor não é fácil. A gente tem uma idéia, e rapidinho descobre que alguém já tinha pensado na mesma coisa! ;-)
  • Bruno Eduardo  25/03/2011 12:06
    Excelente texto Leandro!

    Além de ser plenamente didático, usa os dados do Governo ao pleno favor de suas ideias, sendo conciso, coerente e fazendo crítica com muita propriedade de todos os conceitos econômicos abordados.

    Adicionaria que o deflator implícito do PIB é um índice de "Paasche" em sua essência, tendo esse nome por colocar como base a época atual dos preços. Como todo índice de "Paasche", tal deflator apresenta problemas quando se vai calcular variação acumulada dos preços entre vários anos, sem falar na generalização de um único número a variação dos preços de todos os artigos que a economia produz, problema esse aliás, inerente a todos os índices de preço calculados.
    Os problemas se ampliam no termo "implícito", pois o cálculo não é direto na relação entre preço do bem entre duas épocas e quantidade.

    Continue com esses textos que só abre a mente de todos os leitores, inclusive de Economistas como eu. PARABÉNS!
  • Leandro  25/03/2011 21:52
    Excelente observação, Bruno. De fato, trata-se de um índice Paasche, pois faz-se uma média normalizada de preços para um dado intervalo de tempo.

    Obrigado também pelos elogios.

    Grande abraço!
  • Gustavo Sauer.  10/03/2012 11:25
    Vejam essa matéria da época, "explica" porque o brasil cresce pouco e ilustra um monte de baboseira keynesiana: revistaepoca.globo.com/tempo/noticia/2012/03/por-que-crescemos-tao-pouco-trecho.html

    Alguns trechos:

    O índice de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) não é apenas um número abstrato que os economistas calculam, os políticos divulgam e os analistas discutem. Dele depende, em última análise, nossa vida

    Nossa vida depende do PIB. É o que faço todo dia. Acompanho análises do PIB pra saber como vai minha vida. Se devo ficar feliz ou triste. Se devo procurar emprego ou ficar em casa.

    Para nós, seria bom que a economia avançasse entre dois limites de velocidade importantes. O limite mínimo é 3% ao ano [...] O limite máximo, conhecido entre os economistas como "PIB potencial", mostra o ritmo em que o país pode acelerar sem explodir o motor – sem que a inflação dispare.

    Há um circulo vicioso trágico aqui. Toda vez que crescermos pouco, a solução sempre será mais governo para essa gente. Mais "investimento", "educação", "fiscalização" etc... Ou seja, todo o mal que o governo faz a economia será respondido com mais intervenção governamental, piorando ainda mais o crescimento futuro. Se não bastasse isso, também precisamos ter cuidado, pois, se crescermos muito, então a inflação volta!
    E todos sabemos que a inflação é decorrente de um repetino aumento do "animal spirits" dos empresários. O governo precisa ficar de olho pra conter esse crescimento irresponsável.

    Socorro, Mises!
  • Emerson Luis, um Psicologo  20/11/2014 17:35

    "O único detalhe chato de tudo isso é que tal expansão não pode durar."

    Pois, é. E a conta da farra já está chegando!

    * * *


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