clube   |   doar   |   idiomas
A falácia do "sem uso de trabalho infantil"

Para aqueles que têm sensibilidade artística, a visão e a sensação propiciadas por um tapete oriental original e tecido à mão é uma experiência única.  Esses artefatos são eternos em seu desenho e na sua qualidade, e seu aspecto melhora com a idade e com o uso.  Minha esposa e eu temos uma predileção especial por tapetes do norte do Marrocos, chamados de "kilims", cujos atributos são seus desenhos geométricos elegantes e discretos, ao contrário de seus equivalentes persas, mais extravagantes.

Em uma recente aventura de compras, quando saímos à procura de um acréscimo à nossa coleção de kilims, vi um daqueles selos de controle de qualidade, um certificado de "sem uso de trabalho infantil".  Devo confessar que fui acometido do mesmo tipo de sentimento que me ocorre quando um garçom assegura a meus amigos que o prato pedido não contém glutamato monossódico (usado na indústria alimentícia como intensificador de sabor).  Mas deixando de lado tais detalhes, minha intenção aqui é abordar a bem intencionada porém errônea tendência de boicotar ou banir os produtos feitos com trabalho infantil.

Um dos primeiros obstáculos é definir o que realmente constitui trabalho infantil.  Qual deve ser a idade de corte em sociedades nas quais a vida produtiva e reprodutiva começa muito cedo?  Nas pequenas cidades onde esses tapetes são produzidos, o casamento adolescente é comum até mesmo para os meninos.  E assim como ocorre nas comunidades rurais em vários países do mundo, ajudar nos negócios da família é algo que se aprende desde muito cedo.  Entretanto, isso são tecnicalidades de importância secundária em relação ao principal argumento, a saber: a única razão por que as crianças dos países avançados não precisam fazer esse tipo de trabalho é porque elas são mais ricas, e não por causa de leis contra o trabalho infantil ou porque tais países são de alguma forma cultural ou racialmente superiores.

Alguns anos atrás, quando vivíamos em Winnipeg, Canadá, nossa família teve a honra de fazer amizade com um grupo de ucranianos de ascendência alemã.  Sem dúvida, umas das pessoas mais gentis e adoráveis que você pode imaginar.  A maioria deles, hoje em seus anos dourados, teve de trabalhar muito duramente durante toda sua infância.  E estou me referindo a longas horas de jornada em fazendas ou em fábricas, com os pés descalços e de estômago vazio até o jantar, que era a única refeição do dia.  A Europa havia sido devastada pela guerra; não havia outra opção.

Hoje, se você olhar para seus filhos e netos que cresceram em Winnipeg, que cresceram dentro desse mesmo grupo étnico e com os mesmos valores e crenças, verá um história muito diferente.  O sucesso econômico canadense está refletido na luxuosa infância deles.

Com efeito, o desenvolvimento econômico é o precursor de todas as coisas boas e humanas.  Isso, algumas vezes, inclui até mesmo manifestações tangíveis de amor paternal — um pai que coloca um filho para operar uma máquina de tear durante dez horas por dia o faz não por uma ganância insensível, mas porque é exatamente isso que trará comida à mesa.

Qualquer proibição ou boicote aos tapetes orientais, ou a qualquer outro produto que utilize trabalho infantil, é algo não apenas totalmente contraproducente, como também potencialmente ameaçador para a vida dessas mesmas pessoas que se está tentando proteger.  Somente o desenvolvimento econômico pode melhorar as vidas dessas crianças, e apenas o livre comércio irrestrito tem esse potencial.



autor

Rod Rojas
é corretor de seguros e atua como conselheiro financeiro para assuntos pessoais, corporativos e de políticas públicas.  É membro do Partido Libertário de Ontário.

Tradução de Leandro Roque

  • Zéh  25/10/2010 11:28
    Eu hoje vivo uma vida relativamente confortavel de classe média.\r
    Porém meus pais trabalham desde os 13 anos.\r
    Eu e meus irmãos tivemos o luxo de só sermos incentivados a trabalhar após os 18 anos, e isso se não optassemos por estudar mais. Eu trabalho desde os 18, minha irmã faz faculdade então só faz alguns estágios pra complementar os gastos, ter mais lazer.\r
    As pessoas já são proibidas de trabalhar por causa da CLT... Quanto menos trabalho, menos produção, consequentemente menos riqueza.
  • Leonardo Rocha  25/10/2010 13:40
    Houve um tempo no qual trabalhar era considerado uma virtude. Em uma sociedade cada vez mais acostumada a definir liberdade por "fazer o que quiser desde que seja com os frutos do labor dos outros", o trabalho cada vez mais é visto como um mal necessário, um vício, uma escravidão, algo que deve ser evitado a todo custo. Políticas no sentindo de eliminar o trabalho infantil só servem para impedir mais ainda o desenvolvimento, não só econômico mas também pessoal, já que cria barreiras para aqueles que querem crescer.

    Anos atrás, conheci uma família que, como muitos dos empreendedores do Brasil, sucumbiu ao apetite insaciável do nosso Estado. Um dos membros dessa família, um rapaz de 15 anos, queria trabalhar para ajudar mas, devido a políticas de "amparo ao menor incapaz", não conseguia encontrar uma vaga, pois nenhum empregador queria quebrar a lei. Resultado: mais fome e miséria para uma família brasileira.

    Considero que o trabalho ajuda a moldar bons cidadãos. Como colocou o religioso e colonizador do Oeste americano, Brigham Young, em 1853: "Dinheiro não é o verdadeiro capital, apenas carrega o título. O verdadeiro capital é o trabalho e está confinado às classes trabalhadoras. Só elas o possuem. São os ossos, os nervos e os músculos do homem que subjugam a terra, fazem que ela ceda à sua força, administrando-a conforme seus variados desejos. Esse poder derruba montanhas e enche os vales, constrói cidades e templos e pavimenta as ruas. Em suma, o que mais há que traga abrigo e conforto ao homem civilizado, que não seja produzido pela força de seu braço fazendo com que os elementos se dobrem à sua vontade?"

    Impedir o trabalho é tirar mais um pedaço da liberdade.
  • Gabriel Oliva  25/10/2010 19:52
    Esse texto faz-me lembrar de uma história que li sobre o trabalho infantil em Bangladesh. Em 1992, cerca de 50 mil crianças trabalhavam para a indústria têxtil em Bangladesh. "Sensibilizado" com situações como essa, o Congresso dos Estados Unidos aprovou uma lei que proibiu a importação de bens fabricados com o uso de trabalho infantil.

    Qual foi o resultado prático dessa lei? As crianças deixaram de trabalhar e passaram a estudar ou brincar durante tempo que anteriormente passavam trabalhando? Não. A realidade mostrou-se muito menos bela do que as "nobres" intenções dos políticos americanos: muitas das crianças tornaram-se prostitutas, ladras, ou procuraram emprego em outras atividades de remuneração menor e/ou mais pesadas (como a quebra de pedras em pedreiras).

    As consequências da aprovação dessa lei podem ter sido surpreendentes para muitos, mas não para aqueles que compreendem a lógica da ação humana. Como escreveu Ludwig von Mises em sua obra-prima, A Ação Humana, "O agente homem está ansioso para substituir uma situação menos satisfatória por uma mais satisfatória". Se as crianças de Bangladesh (ou seus pais) avaliassem que sua situação é pouco satisfatória, visualizassem situações que lhes são mais propícias e tivessem a expectativa de que um comportamento propositado poderia levá-los para um estado de maior satisfação, elas poderiam agir de forma a melhorar a própria situação. Em outras palavras, crianças como essas optam por trabalhar pois elas subjetivamente avaliam que essa é a melhor entre as alternativas que conhecem e consideram factíveis.

    Observadas tais considerações sobre a lógica da ação humana, é fácil perceber que medidas que visam restringir o trabalho infantil não podem melhorar a vida das crianças e de suas famílias. Muito pelo contrário: o máximo que tais restrições às escolhas individuais podem fazer é privar as pessoas da possibilidade de optar por aquilo que elas consideram melhor para si mesmas. Tentativas de coibir o trabalho infantil, sejam através de leis ou de certificados de "sem uso de trabalho infantil", só são, portanto, capazes de prejudicar aqueles que se pretende ajudar.
  • andré  25/10/2010 21:52
    É, também me fez lembrar da história da minha família. Meus tios trabalharam quando criança, para que seus filhos não precisassem fazer o mesmo. E, hoje, todos eles, como eu, podem se dar ao "luxo" de estudar por um tempo maior.

    O Gabriel resumiu bem o efeito nefasto das restrições "iluminadas", como Mises já tinha notado: "o máximo que tais restrições às escolhas individuais podem fazer é privar as pessoas da possibilidade de optar por aquilo que elas consideram melhor para si mesmas".

    O caso do intervencionismo brasileiro, aliás, é ilustrativo. Ora, em vários momentos já vi "beneficiados" do INSS sentados nos semáforos, enquanto seus filhos iam lá pedir esmolas. É o Estado brasileiro na raiz do problema, incentivando a desgraça do parasitismo de pai para com filho - repetindo em escala menor o que é a lógica mesma de sua ação em larga escala.

    P.S.: Meus parabéns pelo site, pelos eventos, pelos textos, por todo o trabalho! Já há anos leio com um prazer imenso os artigos - recentemente passei a frequentar também os blogs do Lew Rockwell e o do Thomas Woods -, que servem de consolo pra mim, que ouço diariamente as baboseiras coletivistas na universidade (como se não bastasse as de fora dela) - digamos, "faço" sociologia na UnB, porque estudar mesmo, só em casa.
  • Edmilson Castro  29/01/2011 23:25
    Hipocrisita do Estado, ONG´s e de qualquer entidades quando regem neste assundo de suprimir o trabalho infantil e de menores, mas não dão condições para que possam readequar o seu ganho com outras atividades, desde melhores condições para os que estarão trabalhando para poderem sustentar, quanto para os que estarão de fora de sua atividade laboral, sem alternativas para estudos, higiene, moradias e assim conseguirem estar aptos ao trabalho com dignidade. A questão é que o Estado cobra os impostos com as falácias de que irão utilizar para a melhoria do povo, e ONG´s mentirosas, inoperantes só recebendo dinheiro do Estado e da iniciativa privada, sem fazerem nada.
  • André  11/12/2012 10:43
    Caríssimos,

    Concordo com o argumento principal do artigo, que diz que o trabalho costuma ser a melhor opção que as crianças destes países pobres encontram. Também concordo com o que disse os nobres confrades que me antecederam nos comentários, lembrando a história de nossos país, em cuja época se permitia o trabalho infantil.

    Sim, o trabalho costuma ser bom para as crianças. No Brasil de hoje em dia, elas aprenderiam muito mais trabalhando que frequentando as nossas escolas públicas, onde só se aprende a virar bandido e prostituta.

    Entretanto, o artigo defende duas imbecilidades liberais típicas.

    A primeira é ade que "desenvolvimento econômico é o precursor de todas as coisas boas e humanas". Em suma, alega que uma pessoa ou uma nação precisa ficar rica antes de ser boa e humana. Este também é um tipo de alegação muito comum entre os esquerdistas que dizem, por exemplo, que a criminalidade tem causa econômica.

    Ora.. O Brasil está cada dia mais rico e, no entanto, o índice de homicídios não pára de aumentar. Cinco décadas atrás, quando éramos um povo muito mais pobre, podíamos viver tranquilamente em casas sem muros, sem temer os nossos vizinhos. O desenvolvimento econômico não nos trouxe mais humanidade nem bondade...

    Outra imbecilidade é a defesa do livre comércio irrestrito. Sim, o livre comércio é bom para todas as partes, sempre. Só que o problema está em quem é a outra parte. A China, por exemplo, estado comunista totalitário, explora o seu povo em benefício do Estado. É assim que eles conseguem ser competitivos. É claro que cortar o livre comércio com a China só traria mais prejuízos ainda para seu povo. Mas temos de ter em mente que não apenas estamos ajudando o povo chinês com o livre comércio, mas acima de tudo o Estado chinês, o Estado totalitário comunista que, com o dinheiro que ganha comerciando com agente, anda estocando armas nanotecnológicas para um dia jogar em nossa cabeça.


  • Gustavo BNG  11/12/2012 11:43
    A China, por exemplo, estado comunista totalitário, explora o seu povo em benefício do Estado

    Valor é subjetivo. "Exploração" só é uma verdade absoluta quando há escravidão. Salários chineses podem ser baixos pra você, mas não pra um chinês.
  • Leandro  11/12/2012 12:07
    "A primeira é a de que "desenvolvimento econômico é o precursor de todas as coisas boas e humanas". Em suma, alega que uma pessoa ou uma nação precisa ficar rica antes de ser boa e humana. Este também é um tipo de alegação muito comum entre os esquerdistas que dizem, por exemplo, que a criminalidade tem causa econômica."

    Nada a ver a sua interpretação. O que está sendo dito é que desenvolvimento econômico é o que permite a criação das coisas. Atraso econômico não fomenta nada. Pessoas porventura bondosas e caridosas que existam em ambientes atrasados não são produtos do ambiente, mas sim de si próprias. Você quis criticar o relativismo dos esquerdistas mas acabou incorrendo em um próprio.

    "O desenvolvimento econômico não nos trouxe mais humanidade nem bondade..."

    Em momento algum o artigo fala isso. Desenvolvimento econômico está ligado a questões materiais. Humanidade é questão individual, espiritual.

    "A China, por exemplo, estado comunista totalitário, explora o seu povo em benefício do Estado"

    A China é o único país que faz isso? Onde você mora? Aliás, se você comparar a carga tributária do Brasil com a China, vai ser meio difícil distinguir qual estado explora mais o seu povo.

    "É assim que eles conseguem ser competitivos."

    Um estado explorar o seu povo gera competitividade?! Como funcionaria isso? Então os norte-coreanos devem ter a economia mais competitiva do planeta.

    Antes de chamar os outros de imbecis, certifique-se de que seu próprio raciocínio está longe deste epíteto.
  • jean  03/03/2013 01:57
    Olá! Mas sera tao inefetivo comprar artigos com este selo ? Digo, provavelmente estes artigos são mais caros, pois a logica dele é pagar um salário maior ao adulto que produz, para que, assim, seus filhos não precisem trabalhar. O que acham? Abraço!
  • pensador barato  03/03/2013 04:56
    Jean de onde virá a renda para pagar esse aumento salarial ora bolas,se decreto aumentasse poder de compra salarial tudo bem,mas a realidade econômica não é assim...pelo contrário ela é dura e cruel com todos nós.Não há como aumentar os salários dos pais só por conta da aplicação do selo,desista desta fantasia e falácia, ela só irá beneficiar os concorrentes lobistas esses falsos moralistas que se escondem atrás de leis tendenciosas para eliminar concorrentes mais eficientes(Mão de obra infantil gera preços mais baixos,enquanto Mão de obra adulta gera custos mais elevados,com isso esses lobistas conseguem eliminar esses concorrentes que utilizam mão de obra infantil)o que se vê e o que não se vê em economia parafraseando bastiat.
  • Emerson Luis, um Psicologo  01/08/2014 21:37

    Ninguém defende o trabalho infantil (ou adulto) em condições precárias e abusivas. O ponto é que o livre mercado é o solucionador e não o causador desse problema.

    * * *
  • Eduardo R., Rio  15/03/2015 03:31
    "Como atacar o problema do Trabalho Infantil?", por Ricardo Campelo de Magalhães.
  • Eduardo R., Rio  05/11/2016 04:32
  • Ricardo  05/11/2016 12:40


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.