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O sonho americano

"O estado é a grande ficção por meio da qual todo mundo tenta viver à custa de todo mundo." (Bastiat)

 

Era uma vez um país, terra da liberdade, em que pessoas migravam em busca de oportunidade de trabalho ou para fugir da opressão de seus governos.  Foi-se o tempo em que a América representava este refúgio aos indivíduos de valor.  Onde foi parar o antigo sonho americano?  O "império" está em decadência, e a economia é apenas um reflexo do declínio cultural e moral.  Os Estados Unidos cada vez mais se parecem com os países decadentes europeus, onde o coletivismo sepultou o conceito de meritocracia.

O sonho americano não é uma utopia, ao contrário do igualitarismo que muitos buscam mundo afora.  Tampouco representa um simples materialismo mesquinho, como seus detratores tentam acusar.  A imagem de ganhos fáceis e rápidos, sem esforço, não é condizente com o sonho americano original.  Assim como o "socialismo dos ricos", ou o "capitalismo de compadres", em que "amigos do rei" se beneficiam à custa dos pagadores de impostos, não guarda similaridade alguma com este sonho.  Estes são sintomas justamente de sua morte lenta e gradual.

Quem capturou a essência do sonho americano, tendo inclusive cunhado o termo, foi o historiador James Truslow Adams, que escreveu em 1931 "The Epic of America".  No livro, ele descreve o que entendia por este sonho.  Numa tradução livre:

..... o Sonho Americano, aquele sonho de uma terra em que a vida deve ser melhor e mais rica e mais plena para todos os homens, com oportunidade para cada um segundo sua capacidade ou realização. É um sonho difícil para as classes superiores européias interpretarem adequadamente, e muitos de nós mesmos temos desconfiado dele. Não é um sonho de automóveis e altos salários apenas, mas um sonho de uma ordem social em que cada homem e cada mulher devem ser capazes de atingir a maior estatura da qual eles são naturalmente capazes, e serem reconhecidos pelos outros pelo que eles são, independentemente das circunstâncias fortuitas de nascimento ou posição.

Que belo sonho!  O sobrenome de família passa a ser insignificante para determinar o sucesso individual, frente ao mérito de cada um.  Os privilégios concedidos pelo governo desaparecem, e as conquistas dependem das trocas voluntárias no livre mercado.  Há ampla mobilidade social, e nada impede que uma pessoa humilde possa chegar ao topo. Os valores culturais mais respeitados são individualismo, meritocracia e tolerância.  O otimismo faz parte deste sonho, na convicção de que seus filhos viverão num país melhor que o seu, uma conseqüência do progresso constante, que por sua vez depende do esforço individual, da poupança, dos investimentos produtivos.  O trabalho não é exploração, e o lucro é o resultado justo do empreendimento bem-sucedido.

Quanta diferença para a realidade atual!  Os americanos dependem cada vez mais do governo. Em vez de lutar pelo direito de propriedade privada, querem mais e mais "direitos" estatais.  Em vez de defender o livre mercado, querem mais tutela estatal.  Trabalhar duro, poupar e aos poucos conquistar os objetos de desejo, como a casa própria, cedeu lugar aos "NINJA loans" (No Income, No Job, No Asset).  O sujeito não tem nada, nem emprego, nem poupança, mas pretende ter a casa própria por meio de crédito facilitado, com o aval e incentivo do próprio governo.  É a morte da formiga responsável, e o nascimento da cigarra frívola.  Vamos todos viver de forma "digna", e a conta se pendura na "viúva".  Nossos filhos não vão herdar um país melhor, resultado de nosso trabalho e poupança; eles vão herdar a fatura de nossa irresponsabilidade! Carpe diem!!!

O verdadeiro sonho americano é viver numa terra livre com oportunidades para quem deseja trabalhar duro ou para quem tem talentos diferenciados; não é o sonho de garantias governamentais para ter casa própria, emprego e uma "vida digna".  Pelo bem dos americanos e de todos aqueles que sonham este sonho, espero que certos valores ainda possam ser resgatados na terra do Tio Sam.  Antes que seja tarde demais.



autor

Rodrigo Constantino
é formado em Economia pela PUC-RJ e tem MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, primeiro como analista de empresas, depois como gestor de recursos. É autor de cinco livros: "Prisioneiros da Liberdade", "Estrela Cadente: As Contradições e Trapalhadas do PT", "Egoísmo Racional: O Individualismo de Ayn Rand", "Uma Luz na Escuridão" e "Economia do Indivíduo - o legado da Escola Austríaca".


  • Daniel Marchi  27/08/2010 11:37
    No Brasil o ar está cada vez mais rarefeito para aqueles que defendem o bem mais valioso do homem: a liberdade. Todos os aspectos da vida ou foram ou estão em vias de serem coletivizados. Nunca o estado arrecadou (roubou) tanto; nunca se gastou (privilegiou) tanto. Grandes empresas e governo se fundiram numa enorme corporação que usa da força para assegurar vantagens aos amigos do rei. O direito de propriedade depende da "função social" e do "interesse público". Direitos individuais fundamentais estão firmes como gelatina no asfalto quente. Um batalhão de "especilistas" está aí para justificar tudo.

    abç
  • Leandro Coelho  27/08/2010 13:15
    Alguém poderia me "quantificar" qual é a possibilidade dos EUA acabarem como potência economica, militar, cultural ..... ? Eu fico, além de preocupado, triste em saber que o país da Microsoft, do Walt Disney ... pode acabar!
  • Roberto Carlos Todorovski  27/08/2010 21:24
    Rodrigo,

    Nada mais digno do que conseguir o bem estar por meio do trabalho. No entanto, não posso acreditar que aqueles que conseguirem tal bem estar, aceitarão perdê-lo pacificamente para alguém que se mostre mais capaz e/ou mais inteligente. Ou será que conflitos dessa natureza não acontecerão? Se eles não acontecerem, ótimo, no entanto se eles acontecerem quem mediará a solução? De outra maneira: de onde surgiria a consciência da necessidade de se evoluir, quero dizer com isso, da necessidade de se abandonar meios primitivos de vida, dominados pela tradição familiar, nem sempre receptiva a mudanças, quando não se tem um estímulo social e/ou legal maior, imposto pelo Estado? Como um meio social, como aquele representado caricaturamente pelo nordeste brasileiro, mas que também se manifesta no sul e no sudeste, dominado pelo caudilhismo e pelo clientelismo, teria forças próprias para evoluir? É bem verdade que se for conveniente aos políticos de plantão, a situação social e econômica do lugar pode até piorar, mas também é verdade que se forem políticos onestos e capazes, por meio do Estado, eles terão forças para agir.
  • Tiago RC  28/08/2010 14:52
    políticos onestos e capazes, por meio do Estado, eles terão forças para agir.

    Pessoas honestas e capazes serem maioria justamente numa instituição que controla tudo e todos à força? Haja esperança.

    E mesmo que isso acontecesse, não muda as leis econômicas. Planejamento central não funciona nem que seja conduzido por "santos".
  • Cesar Ramos  28/08/2010 20:37
    Oportuno o significado do "Sonho Americano." Não conhecia. Deve ter sido a mais bela noite. Infelizmente logo ao amanhecer o New Deal acabou com tudo. E como obteve espetacular sucesso, ainda passa imitado, lá e alhures, em especial por nosotros, macaquitos brasileños.
  • Erik Frederico Alves Cenaqui  25/09/2010 20:34
    O Rodrigo Constatino é um grande escritor.\r
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    Li seu livro "Economia do indivíduo - O Legado da Escola Austríaca" e o considerei muito bom por dar um panorama geral dos principais pensadores e idéias da Escola Austríaca.\r
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    Os fundadores dos EUA eram pessoas realmente sábias e tentaram construir um pais sobre os princípios do livre mercado.\r
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    No livro já citado o Rodrigo Constatino cita o senador repúblicano Ron Paul como grande defensor das idéias que fundaram os EUA mas que este é uma voz solitária na política americana.\r
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    Tal situação é muito triste pois o estatismo está operando a todo vapor no coração do pais que se pretendia ter o menor governo do mundo.\r
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    O que nos resta é continuar estudando e cultivando as idéias de liberdade, para manter a sanidade mental.\r
    \r
    Abraços
  • Emerson Luis, um Psicologo  23/07/2014 21:46

    Lá eles estão perdendo esses valores; aqui nem começamos a tê-los.

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