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Deflação, prosperidade e padrão-ouro

Chamar de "deflação" o fenômeno da redução de preços é um dos erros mais sérios que uma pessoa pode cometer na ciência econômica.  É o equivalente a confundir enriquecer com empobrecer.  Tal erro leva as pessoas a acreditarem que um aumento na produção de bens e serviços — algo que, em si, é a base do enriquecimento, mas que também faz com que haja queda nos preços — é ao mesmo tempo a causa de uma contração econômica e do empobrecimento que ela gera.

Para entender corretamente o ponto, é preciso esclarecer algumas coisas.

Os preços podem cair tanto em decorrência de uma maior oferta (isto é, mais bens e serviços sendo produzidos e vendidos) quanto em decorrência de uma menor demanda (isto é, menos dinheiro em existência e/ou um menor volume de gastos com a compra de bens e serviços).

Ou seja, há duas causas distintas para uma queda generalizada nos preços.  Uma é o aumento na produção e na oferta, algo que nunca, de modo algum, deve ser confundido com deflação, depressão ou empobrecimento.  A outra é uma diminuição na quantidade de dinheiro e/ou no volume de gastos no sistema econômico.  Uma diminuição nos preços é o único efeito que elas têm em comum.  Elas diferem profundamente em relação aos seus outros efeitos.

O termo deflação está intimamente associado ao fenômeno da queda nos lucros empresariais e da repentina e substancialmente maior dificuldade em se quitar dívidas, cuja consequência direta é a propagação das insolvências e das falências.  A queda dos lucros e o agudo e repentino aumento no fardo das dívidas são, obviamente, os principais sintomas de uma depressão.

Uma depressão, vale a pena enfatizar, é caracterizada não apenas por uma queda nos preços, mas também por uma forte redução nos lucros (os quais podem até se tornar negativos no agregado) e por um aumento acentuado nas dificuldades em se quitar as dívidas.  Um desemprego em massa também é característica inequívoca de uma depressão. 

Por causa de um grande desconhecimento econômico, as causas imediatas da prosperidade — a saber, aumentos na produção e na oferta — passam a ser vistas como geradoras de depressões e do amplo empobrecimento que acompanha as depressões. 

Logo de início, o essencial a ser entendido é que uma queda nos preços decorrente de um aumento na produção não gera reduções na taxa média geral de lucros no sistema econômico, e não faz com que a quitação das dívidas fique mais difícil.  Mais ainda: se a redução de preços ocorrer em um ambiente em que esteja havendo um aumento da quantidade de dinheiro e um aumento do volume de gastos — de modo que tal redução de preços seja meramente resultado do fato de que o aumento da produção e da oferta foi maior do que o aumento da quantidade de dinheiro e dos gastos —, então essa redução de preços será acompanhada de uma elevação da taxa de lucros e de uma maior facilidade na quitação de dívidas.

Esse seria exatamente o cenário em um padrão-ouro, na medida em que a oferta de ouro cresce modestamente de um ano para o outro em decorrência de minerações contínuas e expandidas, e o volume de gastos em termos de ouro cresce proporcionalmente.  Nessas circunstâncias, um vendedor comum estaria em condições de vender seus bens a preços menores e, ao mesmo tempo, a um volume maior.

Por exemplo, se a redução de preços decorre do fato de que a quantidade de dinheiro e de volume de gastos está aumentando a uma taxa anual de 2% enquanto que a produção e a oferta de bens estão aumentando a uma taxa anual de 3%, então um vendedor nesse sistema econômico poderá vender 3% mais bens a preços apenas 1% menores.  Assim, suas receitas de venda serão 2% maiores, e é isso o que importa para seus lucros nominais e para sua capacidade de quitar dívidas.  Seus lucros serão maiores e sua capacidade de quitar dívidas, também.  Houve queda de preços, mas de modo algum houve deflação.

O que de fato destrói os lucros e dificulta a quitação de dívidas não é uma queda nos preços, mas uma contração monetária — isto é, uma redução na quantidade de dinheiro e/ou no volume de gastos no sistema econômico.  É isso o que provoca redução nas receitas de venda.  Mais ainda: como os custos são determinados tendo por base as despesas ocorridas em um período de tempo anterior, a contração monetária provoca uma correspondente redução nos lucros.  É essa contração também que torna o pagamento das dívidas mais difícil: como agora há menos dinheiro disponível na economia, torna-se mais difícil obter a mesma quantia nominal necessária para ser usada na quitação das dívidas.  É a contração monetária, e a contração monetária apenas, que deveria ser chamada de deflação. 

Padrão-ouro e a deflação

Ao passo que um padrão-ouro definitivamente pode e provavelmente irá gerar uma queda nos preços, ele não gera uma queda nos lucros, tampouco uma maior dificuldade para a quitação das dívidas ou um desemprego em massa.  A conjunção dessas três últimas situações com o fenômeno da queda dos preços é resultado de uma diminuição na quantidade de dinheiro e no volume dos gastos.  Uma redução na quantidade de dinheiro e no volume de gastos é resultado não de um padrão-ouro, mas da adoção incompleta de um padrão-ouro.  É resultado de um padrão-ouro operando sob um sistema bancário de reservas fracionárias, no qual o ouro representa apenas uma fração da oferta monetária, sendo que o resto é composto por meios fiduciários (dinheiro eletrônico ou certificados monetários para os quais não há o correspondente lastro em ouro).  Nessas circunstâncias, se os agentes econômicos derem um calote em suas dívidas, isso poderá causar uma sucessão de quebras bancárias, as quais farão reduzir a quantidade de dinheiro e o volume de gastos na economia.

Sob um padrão-ouro operando com reservas de 100% — isto é, sem reservas fracionárias —, o ouro continuará sendo escavado a uma taxa maior do que aquela em que ele é fisicamente perdido — por exemplo, quando um navio naufraga ou quando defuntos são enterrados com próteses dentárias de ouro.  Consequentemente, a quantidade de dinheiro e o volume de gastos sob um padrão-ouro 100% estarão sempre aumentando.  Entretanto, isso ocorrerá a uma taxa modesta.  Os preços caem na medida em que o aumento na produção e na oferta de bens e serviços é maior do que o aumento na quantidade de ouro e nos gastos.    

Como explicado no início, não obstante essa queda nos preços, o aumento na quantidade de ouro monetário e nos gastos faz com que, sob um padrão-ouro 100%, a taxa média de lucros de todo o sistema econômico aumente.  Isso vai ocorrer pelo simples motivo de que, nesse cenário, a tendência é que haja mais dinheiro e mais gastos na economia no momento em que os bens são vendidos do que havia no período de tempo anterior, quando o dinheiro foi gasto nos fatores de produção desses bens.  Ou seja: no período de tempo t2 (quando os bens são vendidos) haverá mais dinheiro na economia do que no período de tempo t1 (quando os bens foram produzidos).  Consequentemente, a margem em que as receitas de venda superam os custos de produção é correspondentemente aumentada.

Ademais, não obstante a correspondente queda nos preços causada pelo aumento mais rápido na produção e na oferta de bens e serviços, o aumento na quantidade de ouro e no volume de gastos em termos de ouro faz com que o pagamento das dívidas seja um tanto mais fácil.  Por exemplo, suponha que as receitas de vendas no sistema econômico estejam aumentando a uma taxa de 2% — por causa de aumentos na oferta de ouro e no volume de gastos —, mas que os preços estejam caindo a uma taxa de 3%, porque a oferta de bens e serviços aumentou 5% no ano.

Nesse caso, um vendedor comum terá 5% mais bens para vender a preços apenas 3% menores.  Suas receitas de venda aumentarão 2%.  Ele poderá auferir receitas progressivamente crescentes, não obstante a queda nos preços, pois o aumento na oferta de bens e serviços que ele pode vender é maior do que a queda em seus preços de venda.  Isso ocorreu porque a produção da economia foi maior do que o aumento da oferta monetária (ouro) e dos gastos.

A modesta elevação da taxa de lucro decorrente do aumento na quantidade de ouro é o oposto do que ocorre em uma depressão.  O mesmo é válido para a maior facilidade (e não maior dificuldade) em se quitar dívidas.

Assim, a verdade é que um padrão-ouro 100%, com seus preços em queda, é um inimigo tão grande da deflação quanto da inflação.

Por fim, em relação ao desemprego em massa: se houver uma deflação — no sentido correto do termo, ou seja, uma redução na quantidade de dinheiro e no volume de gastos —, então uma queda nos preços, longe de ser a causa da deflação/depressão, será a solução.  Em tais circunstâncias, uma redução nos salários e nos preços é exatamente aquilo de que se precisa para permitir que uma reduzida quantidade de dinheiro e de volume de gastos possa comprar tudo o que uma quantidade anteriormente maior de dinheiro e de volume de gastos podia comprar.  Se, por exemplo, como ocorreu nos EUA em 1929, houvesse originalmente $50 bilhões em gastos salariais empregando 50 milhões de trabalhadores a um salário médio anual de $1.000, e agora, por causa da deflação, há apenas $40 bilhões em gastos com 40 milhões de trabalhadores, o pleno emprego poderia ser restaurado se o salário médio caísse de $1.000 para $800 por ano.  Nesse caso, $40 bilhões poderiam empregar o mesmo tanto de trabalhadores que $50 bilhões empregavam.

Crer que uma queda nos salários e nos preços — algo necessário para se recuperar de uma deflação como — é em si uma deflação e, com isso, querer impedir essa queda, como ocorreu durante o governo Hoover e todo o New Deal nos EUA, é uma atitude que irá apenas perpetuar o desemprego e a depressão.

Conceitos confusos resultam em consequências catastróficas.

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Leia também:

Deflação: os maiores mitos

Deflação, livre ou compulsória

Confisco deflacionário: o caso da Argentina


autor

George Reisman
é Ph.D e autor de Capitalism: A Treatise on Economics. (Uma réplica em PDF do livro completo pode ser baixada para o disco rígido do leitor se ele simplesmente clicar no título do livro e salvar o arquivo). Ele é professor emérito da economia da Pepperdine University. Seu website: www.capitalism.net. Seu blog georgereismansblog.blogspot.com.

  • ciclos econômicos  16/08/2010 09:05
    É possível ocorrer ciclos econômicos no padrão-ouro? Murphy diz que a descoberta de uma mina, pode causar ciclos econômicos via reservas fracionárias, já que o novo ouro descoberto é poupado e vai para o mercado de créditos. Mises já acreditava que o mercado pode se reajustar e se adaptar à suave pressão sobre a taxa bruta de juro do mercado provocada pelo aumento da quantidade de ouro no mercado. Eu não sei. Isso aqui é Mises Institute, e não "Murphy Institute"...alguém poderia responder. O Leandro (ou qualquer outro que escreve neste site) não poderia escrever um artigo a respeito?
  • Djan Krystlonc  16/08/2010 09:27
    E como ficam os financiamentos de longo prazo? Obviamente se cria um problema insolúvel uma vez que em valores nominais ficará muito mais difícil para o devedor quitar suas obrigações.
  • Leandro  16/08/2010 09:50
    Anônimo, em um sistema de reservas fracionárias, é muito provável que haja investimentos errôneos, mesmo sob um padrão-ouro. Tudo dependeria de quanto seriam os compulsórios.

    Djan, os financiamentos de longo prazo obviamente se dariam a uma taxa nominal de juros menor. Caso contrário, realmente seria impossível quitar os empréstimos.

    É exatamente por isso que, ao contrário do que muita gente pensa, quanto menor for a expansão monetária, menor tende a ser a taxa nominal de juros -- o que significa que, por exemplo, se o Banco Central reduzisse a expansão da base monetária, a SELIC iria cair, e não subir, como pensam os keynesianos.

    Comentei, inclusive, esse fenômeno nesse texto (leia, por gentileza, a seção "Juros altos x expansão monetária".):

    mises.org.br/Article.aspx?id=735


  • não poderia escrever um artigo?  16/08/2010 10:06
    Leandro, você não poderia escrever um artigo sobre o padrão-ouro e os ciclos econômicos para explicar melhor? Este poderia ser o tema de um próximo artigo. É uma questão muito polêmica. Muitos seguidores austríacos da Escola Austríaca estão em dúvida, pois o Mises diz uma coisa, depois o Murphy diz outra, um pouco diferente.
  • ataques especulativos  16/08/2010 10:26
    E quando uma moeda X se desvaloriza, em decorrência de um ataque especulativo, também ocorre inflação monetária?
  • joao  21/02/2013 18:15
    Olá!

    Eu não consegui compreender uma coisa: " Por exemplo, suponha que as receitas de vendas no sistema econômico estejam aumentando a uma taxa de 2% — por causa de aumentos na oferta de ouro e no volume de gastos —, mas que os preços estejam caindo a uma taxa de 3%, porque a oferta de bens e serviços aumentou 5% no ano.

    Nesse caso, um vendedor comum terá 5% mais bens para vender a preços apenas 3% menores. Suas receitas de venda aumentarão 2%. Ele poderá auferir receitas progressivamente crescentes, não obstante a queda nos preços, pois o aumento na oferta de bens e serviços que ele pode vender é maior do que a queda em seus preços de venda. "

    Assim, o máximo aumento de receitas do vendedor seria de 5% (igual ao aumento de produção), mas ele acabou ganhando 2%, por causa da oferta monetária, que também aumentou 2%, certo?

    Se isso é verdade, então porquê não aumentar a oferta monetária na mesma taxa da produção (neste caso, a 5%)? Assim não haveria queda nos preços, mas o vendedor veria sua receita aumentar na mesma medida do aumento de produtividade (5%).
  • Leandro  21/02/2013 18:54
    "Assim, o máximo aumento de receitas do vendedor seria de 5% (igual ao aumento de produção), mas ele acabou ganhando 2%, por causa da oferta monetária, que também aumentou 2%, certo?"

    Não, você se confundiu. O aumento máximo de receitas não teria como ser 5%. O aumento das receitas foi de 2%, e não de 5%. O comerciante vendeu uma quantidade de produtos 5% maior, mas como seus preços caíram 3%, sua receita aumentou 2%.

    Imagine que uma economia em que haja 100 bananas e a quantidade total de dinheiro seja $100. Nesse caso, uma banana custa $1. Se o cara vende 100 bananas, ele ganha $100.

    Se a oferta monetária aumentasse 2%, haveria 100 bananas para $102. Cada banana passaria a custar $1,02 e ele venderia as 100 bananas por $102. Porém, como a produção de bananas aumentou 5%, agora há 105 bananas para $102. Se ele não reduzir o preço da banana, ele não venderá tudo. Cada banana teria de custar $0,9714 para ele receber os $102 (aumento de 2% na receita).

    Ou seja, no seu raciocínio, se não houvesse redução de preços, o comerciante não venderia as 5 bananas. Ele venderia menos.


    "Se isso é verdade, então porquê não aumentar a oferta monetária na mesma taxa da produção (neste caso, a 5%)? Assim não haveria queda nos preços, mas o vendedor veria sua receita aumentar na mesma medida do aumento de produtividade (5%)."

    Porque, ao se fazer isso, perde-se o benefício do aumento do padrão de vida. A renda real das pessoas não aumentou. No exemplo anterior, o comerciante conseguiu vender mais bananas por causa de uma dupla combinação: a oferta monetária aumentou (o que significa que a renda nominal das pessoas aumentou) e o preço da banana caiu (por causa da maior oferta). Logo, houve um aumento da renda real das pessoas. Já neste seu segundo exemplo não há o efeito benéfico da queda no preço da banana. Não houve aumento real da renda das pessoas.

    Em um cenário com crescimento econômico de 5%, e aumento da oferta monetária de 2%, haveria uma tendência de queda de preços de 3% ao ano. Porém, e é aqui que vem a melhor parte: um aumento da quantidade de dinheiro de 2% gera um aumento de 2% na renda nominal das pessoas. Esse aumento de 2% na renda em conjunto com uma queda de preços de 3% teria o efeito de fazer não apenas com que o padrão de vida das pessoas aumentasse continuamente, como também, e principalmente, faria com que as receitas e os lucros das empresas aumentassem -- e iriam aumentar tanto pela maior demanda (preços em queda e renda em alta) quanto pelo maior volume de vendas.


    No seu exemplo, não há nenhuma melhora no padrão de vida das pessoas.
  • joao  21/02/2013 19:47
    Oi leandro. Estou me confundindo na questão da oferta monetária mesmo.

    "Porém, e é aqui que vem a melhor parte: um aumento da quantidade de dinheiro de 2% gera um aumento de 2% na renda nominal das pessoas." = se a oferta monetária aumentar 100%, a renda nominal dobra?


    "Se a oferta monetária aumentasse 2%, haveria 100 bananas para $102. Cada banana passaria a custar $1,02 e ele venderia as 100 bananas por $102. Porém, como a produção de bananas aumentou 5%, agora há 105 bananas para $102. Se ele não reduzir o preço da banana, ele não venderá tudo. Cada banana teria de custar $0,9714 para ele receber os $102 (aumento de 2% na receita)."

    Pelo que entendi, as pessoas estão dispostas a pagar $102 com bananas. Dessa forma, o máximo que ele pode vender sem reduzir os preços são as 100 bananas originais, mas isso deixaria ele com 5 bananas encalhadas. Ele teria prejuízo. Pra lucrar, ele precisa vender as 105. E pra MAXIMIZAR o lucro, ele deve vender TODO o estoque pelo PREÇO MÁXIMO que o consumidor está disposto a pagar ($102). Isso dá 0.97 por banana.

    Ok. Mas e se a "diferença" entre o aumento de produção e o aumento de oferta monetária for MUITO grande, a ponto de que, para vender todo seu estoque, o produtor precise baixar a um preço que não cobre seu investimento na produção?

    Mas de modo geral, entendi como é importante manter um ritmo de aumento MODERADO e CONSTANTE da oferta monetária (friedman????).

    Agora outro caso: aumento da quantidade de dinheiro maior que aumento de produção.
    dinheiro = 5% (impresso pelo governo)
    produção = 1%

    Haverá $105 e 101 bananas. O preço SOBE para 1.03/unid. Mas o produtor venderá todas as bananas, pois as pessoas têm mais dinheiro pra comprar. Se essa condição continuar, os preços subirão indefinidamente? Produtor e consumidor ganharão (em termos nominais)? Mas quando ocorrerá a perda nominal, em caso de aumento de oferta monetária ("inflação")? Então é importante a oferta monetária se atrelar ao máximo ao ritmo de produtividade, para haver crescimento econômico (em termos de renda nominal) estável?


    Estou muito confuso...o preço aumentou, mas as pessoas também têm mais dinheiro pra gastar. Não estou conseguindo encontrar o efeito maléfico da expansão monetária excessiva.

  • Leandro  21/02/2013 20:31
    "Agora outro caso: aumento da quantidade de dinheiro maior que aumento de produção.
    dinheiro = 5% (impresso pelo governo)
    produção = 1%"


    Aí haverá $105 e 101 bananas. O preço subirá para $1,04/unid. O produtor venderá todas as bananas, mas tudo estará mais caro. Houve perda na renda real da população. Antes, com $1 ela comprava 1 banana. Agora, para comprar a mesma banana ela precisa de $1,04.

    E há o detalhe adicional de que, dado que a inflação monetária foi maior que o aumento da produtividade, o custo de produção de novas bananas também ficará mais caro. Consequentemente, a margem de lucro desse produtor estará mais apertada. Logo, com lucros menores, seus investimentos futuros serão afetados. No extremo, caso este ciclo se perpetue, com a oferta monetária aumentando mais do que a produtividade, a qualidade de vida da população ficará aquém do seu potencial porque a inflação distorceu a estrutura de produção da economia.

    Isso é um assunto que exige uma abordagem muito mais profunda, e que não cabe em uma simples seção de comentários, mas vou tentar resumir:

    Um dos principais efeitos da inflação (tanto a monetária quanto a de preços) é solapar a formação de capital das empresas. A inflação faz com que a carga tributária efetiva de uma empresa seja muito maior.

    Por exemplo, imagine que uma empresa apresente uma taxa de lucro de 10%. Imagine também que os preços de todos os seus ativos que ela precisa constantemente repor subam 8%. Nesse cenário, a empresa ainda conseguiria pagar por todos os seus ativos de reposição e ficar com uma taxa de lucro de 2%. Entretanto, no Brasil, o imposto de renda de pessoa jurídica incide justamente sobre o lucro, a uma taxa que pode chegar a 34%. Caso seja esta a alíquota, em vez de um lucro de 10%, a empresa ficará com um lucro líquido de apenas 6,6%, ao passo que ela precisa de 8% para pagar seus ativos de reposição. Logo, a empresa não conseguirá nem manter seu estoque de capital, muito menos acumular capital.

    E mesmo se não houvesse carga tributária, a inflação gera uma falsificação contábil que faz com que as empresas sobrestimem seus lucros e, consequentemente, incorram em um involuntário consumo do capital próprio. Isto ocorre porque, durante a inflação, a depreciação dos bens de capital continua sendo computada em termos de seus custos históricos e não em termos de seus reais custos de reposição (o que estão subindo). Esta subestimação da depreciação gera uma superestimação dos lucros, o que consequentemente fará com que a empresa consuma um capital que não possui.


    "Estou muito confuso...o preço aumentou, mas as pessoas também têm mais dinheiro pra gastar. Não estou conseguindo encontrar o efeito maléfico da expansão monetária excessiva."

    É porque os principais problemas da inflação não foram abordados neste artigo, que se concentrou exclusivamente na redução da inflação. Toda e qualquer inflação monetária, não importa se 0,5% ou de 1.000%, gera uma redistribuição de renda às avessas (do pobre para o rico). Quanto maior a inflação, maior essa redistribuição. Adicionalmente, a inflação afeta o cálculo econômico e a racionalidade da economia, falsificando os lucros e estimulando investimentos errôneos e insolventes, o que representa destruição de capital.

    Sugiro os seguintes artigos que especificam cada um destes conceitos:

    Sobre a não neutralidade da moeda

    O legado cultural e espiritual da inflação monetária

    Uma breve história do Plano Real, aos seus 18 anos

    A tragédia da inflação brasileira - e se tivéssemos ouvido Mises? (Parte 1)

    Explicando a recessão europeia

    A relação entre expansão artificial do crédito e degradação ambiental
  • joao  21/02/2013 20:50
    "Houve perda na renda real da população. Antes, com $1 ela comprava 1 banana. Agora, para comprar a mesma banana ela precisa de $1,04. "

    Entendi! Na nossa economia-exemplo, temos 2 agentes: o produtor de bananas e o consumidor. O consumidor troca dinheiro por bananas, e vice-versa. Apesar de ter mais dinheiro, o VALOR dele diminuiu.

    Pode desconsiderar os outros comentários que enviei. Muito obrigado mesmo pela explicação. Vou ler os artigos indicados, tenho uns 20 aqui, na lista rsrsrs!

    Mas então expansão monetária moderada <= a taxa de aumento de produção, é benéfica por aumentar o poder de compra do consumidor e ainda dar um certo lucro ao produtor?
  • Leandro  21/02/2013 21:04
    Correto, mas é preciso ter cuidado com a maneira como essa expansão ocorre. No atual sistema monetário, o dinheiro é injetado na economia pelo sistema bancário, privilegiando aqueles que recebem esse dinheiro antes do restante da população. Neste ponto já ocorreu a redistribuição de renda (leia o artigo "Sobre a não neutralidade da moeda" indicado acima para entender melhor esse ponto).

    Caso seja do interesse, comentei sobre essa questão da taxa de crescimento da oferta monetária neste podcast:

    www.mises.org.br/FileUp.aspx?id=168

    Abraço!
  • Emerson Luis, um Psicologo  17/07/2014 14:02

    A expansão monetária reduz a produtividade e os seus benefícios para todos.

    * * *
  • Neto  21/11/2015 23:05
    Sobre o desemprego em massa, no penúltimo paragrafo, eu não consigo uma solução, como você pôs(Conceitos confusos resultam em consequências catastróficas.),pois em um mundo globalizado (dependendo como exemplo: alimentos, indústria pesada, entre outros, principalmente se tratando do cambio, infelizmente o pessoal vai ter problemas.)
  • Murdoch  16/02/2017 17:24
    Leandro, primeiramente obrigado pela resposta do meu comentário anterior.
    Tenho uma dúvida um pouco indiferente.

    Por que usamos o ouro e não usamos outros metais para a conversão?

    Eu me lembro que Éneas defendia um padrão-nióbio, esse sistema monetário poderia funcionar caso seja aplicado? E não apenas com nióbio, mas com outros metais que poderiam ser usados para a conversão.
  • Leandro  16/02/2017 17:56
    Porque o ouro e a prata têm histórico de moeda. Todas as principais moedas atuais foram derivadas do ouro e da prata. Elas surgiram sendo meramente definições de ouro e de prata.

    A "libra esterlina" inglesa era a denominação originalmente dada a uma libra de prata. O dólar surgiu como sendo o nome dado a uma onça de prata cunhada por um conde da Boêmia chamado Schlick, no século XVI. O conde Schlick vivia no Vale do Joachim, ou Joachimsthal em alemão. As moedas do conde ganharam grande reputação por sua uniformidade e pureza, e passaram a ser chamadas por todos de Joachimsthalers. Com o tempo, elas passaram a ser chamadas simplesmente de "thalers" [que significa proveniente "do vale"]. O nome "dólar" surgiu de "thaler".

    Os vários nomes que as unidades monetárias tinham erma simplesmente definições de unidades de massa. O "dólar" havia sido definido como sendo o nome dado a 1/20 (aproximadamente) de uma onça de ouro. A "libra esterlina" era simplesmente o nome dado a 1/4 de uma onça de ouro (o que significa que uma libra esterlina valia 5 dólares).

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1505
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2055

    Isso não ocorreu com os outros metais.

    De resto, nunca vi um gráfico que mostrasse o histórico da evolução do preço do nióbio. Não sei qual é a real demanda e liquidez dele no mercado global. Sendo assim, não estou capacitado para dizer se o nióbio seria uma boa âncora.
  • PauloHMB  07/10/2019 02:21
    Perdão desenterar o artigo meramente para uma questão. Mas agradeço quem se dispor;
    Sobre um padrão ouro classico, mesmo no caso americano, ainda era presenciado quebras bancárias; dito isso, essas quebras não provocam uma retração da base monetária?
    Outra questão, ainda nesse cenário de quebra bancária e crise, não poderia ocorrer uma fuga de ouro do país, para outro mais seguro por exemplo, e isso provocar uma contração da base monetária?
    Essa pergunta vem porque eu li um livro do Friedman onde ele cita as flutuações do padrão ouro como um problema; Sei que esse ainda não é um sistema de padrão ouro sem reservas fracionárias; só estou buscando precisão histórica


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