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Sobre a impossibilidade do estado mínimo - uma abordagem sem juízo de valor

No campo liberal é possível identificar quatro correntes distintas: os liberais tradicionais, os libertários, os liberais clássicos e os anarcocapitalistas.

Os liberais tradicionais ainda são a maioria.  Trata-se daqueles que querem o estado cuidando de educação, saúde, segurança, justiça, forças armadas e alguma infraestrutura.  Defendem também o monopólio da moeda pelo banco central.  A discussão dentro desse grupo se limita a qual educação o estado deve bancar: se apenas o ensino fundamental, se o ensino fundamental e médio, se apenas o ensino superior, ou se todos estes.  Saúde, segurança e infraestrutura são pontos pacíficos.  Consideram a democracia o melhor sistema de governo que existe.  Roberto Campos foi seu maior expoente aqui no Brasil.

Os libertários admitem o monopólio do estado na segurança, nas forças armadas e na justiça.  Na saúde, costumam defender o sistema de vouchers, o que significa que o estado apenas dá o dinheiro, mas não gerencia os hospitais e postos de saúde.  Não são contra um livre mercado de moedas, mas também não defendem com vigor essa ideia.  Na segurança e na justiça, defendem o monopólio absoluto do estado.  Embora sejam a favor da democracia, defendem um amplo federalismo.

Os liberais clássicos (liberal clássico é sinônimo de laissez-faire) admitem o monopólio do estado apenas na segurança, na justiça e nas forças armadas.  Saúde é um serviço como qualquer outro, e é mais bem provido por um livre mercado.  São contra o banco central e seu monopólio sobre a moeda.  O melhor argumento que eu já vi a favor do monopólio da provisão de segurança, justiça e forças armadas pelo governo é o seguinte:

Como esses serviços são, segundo eles, "inerentemente governamentais", a compra e venda de tais serviços no livre mercado acaba na verdade gerando algo que realmente deve ser combatido: uma livre concorrência entre governos.  Segundo eles, quando se advoga que tais serviços sejam ofertados pelo livre mercado, está-se na verdade fazendo uma defesa (implícita) de uma ação desregulamentada e descontrolada da força física.  Ou seja, está-se dando a agentes privados a licença de agir como se fossem governos, só que com um agravante: agir desta forma de maneira desregulamentada e descontrolada — ou seja, fazendo uso livre da força física.  Segundo eles, essa é a consequência lógica de se tratar atividades inerentemente governamentais como se fossem atividades de livre mercado. 

Consequentemente, concluem eles, um monopólio legal do uso da força — desde que fortemente regulado e estritamente controlado — é necessário para permitir que os mercados privados de todos os bens e serviços (inclusive saúde, educação e infraestrutura) funcionem totalmente livres de qualquer ameaça de força física.  Ou seja: um monopólio fortemente regulado da força é necessário para gerar as fundações básicas que irão permitir o funcionamento desregulamentado e desimpedido dos mercados privados.

Não defendem a democracia como conhecemos hoje.  Defendem uma república constitucionalista — um federalismo pleno, no qual o governo federal é reduzido apenas a funções decorativas —, exatamente nos moldes daquela criada pelos pais fundadores dos EUA (George Washington, John Adams, Thomas Jefferson, James Madison, Alexander Hamilton, Benjamin Franklin e John Jay) e que hoje encontra-se totalmente deturpada.

Já os anarcocapitalistas (ou "livre-mercadistas puros", para aqueles que não gostam desse epíteto) defendem a completa ausência do estado de tudo.  Os mais moderados dizem apenas não querer que o estado tenha monopólios, principalmente da segurança e da justiça, o que exige por conseguinte a tributação de pessoas que não querem usar tais serviços — algo não só imoral, como também escravagista.  Já os mais diretos dizem que o estado é um mal a ser extirpado de qualquer maneira, pois só assim haverá liberdade e moralidade plenas; só assim haverá de fato o "ganharás o pão com o suor do teu rosto".

Para um livre-mercadista, o estado nada mais do que um ente parasitário, cujos membros vivem à custa daqueles que trabalham.  Em suma, o estado é o assaltante que toma de quem produz para dar àqueles que parasitam.  A verdadeira luta de classes se dá entre aqueles que estão fora do estado — logo, que o sustentam — e aqueles que ou estão dentro do estado ou possuem fortes conexões com este (pense naquelas grandes empresas que ganham rios de dinheiro em decorrência de contratos e ligações com o governo. Empreiteiras e bancos são os principais exemplos). 

Deixando os detalhes de lado, é inegável que essa definição seja, per se, indiscutivelmente correta.  Agora, se ela é boa ou não, se é justa ou não, se é moralmente aceitável ou não, aí já é outra discussão. 

Os anarcocapitalistas desprezam a democracia, a qual consideram ser um exemplo irrefutável de tirania da maioria.  Caso tivessem obrigatoriamente de escolher uma forma de governo, muitos prefeririam uma monarquia, na qual o rei teria todos os incentivos para tratar seu território como uma propriedade privada a ser repassada a seus herdeiros, o que faria com que ele tivesse uma visão voltada para o longo prazo, tendo todo o interesse em manter o valor capital de sua propriedade — o contrário do que ocorre numa democracia, em que os políticos, por estarem preocupados com o curto prazo, possuem todo o incentivo para dilapidar ao máximo as riquezas concentradas em suas mãos.

Desses quatro, os mais próximos entre si são os libertários e os liberais clássicos.  Os liberais tradicionais são apenas aliados pontuais — como, por exemplo, para combater social-democratas —, mas não são frequentemente chamados para um cafezinho.  Já os anarcocapitalistas costumam se dar bem com os liberais clássicos, relativamente bem com os libertários e absolutamente nada bem com os liberais tradicionais.  Estes, por sua vez, desprezam os anarcocapitalistas.

Libertários em sua maioria e liberais clássicos em sua totalidade são defensores do estado mínimo, ao passo que os anarcocapitalistas defendem o estado nulo.  É óbvio que cada um deles possui a melhor das intenções naquilo que defendem, e não serei eu quem irá fazer qualquer juízo de valor nesse artigo. 

Gostaria, isso sim, de abordar um detalhe já amplamente discutido nesse site: a impossibilidade de um estado mínimo — argumento esse utilizado amplamente pelos anarcocapitalistas.

O argumento principal já foi exposto e debatido nesse artigo:

Quanto menor é o estado, quanto mais você o restringe, mais produtivo torna-se o mercado.  Quanto mais produtivo é o mercado, mais rápido a economia cresce e mais riqueza ela gera.  E o livre mercado é tão produtivo que ele é capaz de aguentar por muito tempo um enorme crescimento da tributação e um grande agigantamento do poder estatal — até chegar a um ponto em que ele inevitavelmente irá ceder.

Portanto, o que acontece é que, quando você minimiza o governo, paradoxalmente você faz com que a lucratividade de se aumentar posteriormente o tamanho do governo seja muito maior, pois haverá muito mais riqueza para tributar e mais recursos para se controlar — ambas as coisas que mais seduzem qualquer governo.

E como o governo adquire muito mais dinheiro e poder quando ele tributa uma economia que se desenvolveu e enriqueceu com um livre mercado, ele ganha a capacidade de fazer coisas terríveis, como desenvolver armas de destruição em massa, manter um incomparável estado belicista e assistencialista e comprar grandes seções da população, tornando-as permanentemente dependentes do estado.

O exemplo americano dessa impossibilidade é o mais flagrante.

Entretanto, para o bem da contra-argumentação, gostaria de dar três exemplos de governos que vêm se mantendo relativamente enxutos ao longo do tempo, e em seguida ver se eles refutam a tese acima: Hong Kong, Liechtenstein e Suíça.

Hong Kong é uma cidade-estado que não possui eleições para o executivo.  O chefe do executivo é eleito por um comitê de apenas 800 pessoas.  Isso já torna o modelo impensável para os liberais tradicionais e para os libertários.  Os liberais clássicos e os anarcocapitalistas não são afetados.

Liechtenstein é uma democracia parlamentarista que funciona sob uma monarquia constitucional.  Embora haja um parlamento eleito pelo povo, os principais poderes ainda são exercidos diretamente pelo príncipe.  Isso também torna o modelo impensável para os liberais tradicionais e para os libertários.  Os liberais clássicos são favorecidos e os anarcocapitalistas pró-monarquia também.

Entretanto, ambos esses "países" são localidades minúsculas em relação aos outros países do mundo, o que torna qualquer comparação um tanto quanto infrutífera.  Passemos então à Suíça, um país "genuíno".

Responda sem recorrer ao Google: qual o sistema de governo da Suíça? O país tem presidente ou primeiro-ministro? Qual o seu chefe de estado?  Qual o seu chefe de governo?  Fale o nome de pelo menos um político suíço?

Curiosamente você sabe o nome do presidente da França, da chanceler da Alemanha, do primeiro-ministro e do rei da Espanha, do primeiro-ministro e da rainha do Reino Unido e do primeiro-ministro da Itália.  Se for bem informado saberá o nome do presidente e do primeiro-ministro de Portugal, e dos presidentes da Itália e da Alemanha.  Mas, surpreendentemente, não saberá nada sobre a política da Suíça, um dos mais importantes e mais ricos países da Europa.  Por quê?

Porque se trata de um sistema altamente descentralizado.  Não existe um presidente e nem um primeiro-ministro.  O poder é exercido por um comitê formado por sete políticos de partidos distintos.  O poder não está concentrado em uma só pessoa.  Ademais, há um federalismo quase pleno — só não é pleno porque ainda existe um governo federal.

Isso torna o modelo impensável para os liberais tradicionais.  Os libertários saem-se bem, assim como os liberais clássicos.  Já os anarcocapitalistas ficam em situação mais difícil.

Entretanto vale lembrar que, embora ainda enxuto quando comparado aos seus vizinhos europeus, o governo suíço é o mais inchado desses três exemplos citados quando analisado em termos fiscais: gastos do governo e carga tributária em porcentagem do PIB. 

Mais ainda: quando nos concentramos nessas duas variáveis, percebemos que todos os países do mundo apresentaram aumentos ao longo dos últimos anos, o que de certa forma dá respaldo ao argumento anarcocapitalista sobre a impossibilidade do estado mínimo.  (Se há algum país que vem reduzindo ano após ano seus gastos e tributos em porcentagem do PIB eu realmente desconheço).

E é exatamente nesse ponto que os libertários e os liberais clássicos ainda ficam a dever uma teoria ou mesmo um exemplo prático que demonstre que aquilo que defendem é exequível.  Sem qualquer juízo de valor, não é nada desarrazoado dizer que suas teorias na prática revelaram-se insustentáveis. 

Isso deixa o caminho livre para os anarcocapitalistas?  De modo algum.  Entretanto, estes ainda possuem a teoria ao seu lado — embora ainda careçam de uma chance para colocá-la em prática.  Já os libertários e os liberais clássicos possuem tanto a teoria quanto a prática contra eles.

Como bem resumiu Hans-Hermann Hoppe:

O objetivo de se ter um governo "limitado" ou "constitucional" é um objetivo impossível, tanto quanto é impossível tentar fazer um círculo quadrado.  Você não pode estabelecer um monopólio territorial da lei e da ordem e, em seguida, achar que esse monopolista não fará uso desse fabuloso privilégio de legislar em causa própria.  Da mesma forma, você não pode estabelecer um monopólio territorial da produção de dinheiro e achar que o monopolista não irá utilizar seu poder de imprimir cada vez mais dinheiro.

Limitar o poder do estado — uma vez que já lhe foi dado o monopólio territorial da legislação — é impossível; é um objetivo intrinsecamente contraditório.  Acreditar que é possível limitar o poder do governo — a não ser submetendo-o à concorrência, isto é, não permitindo que privilégios monopolísticos sejam estabelecidos em primeiro lugar — é supor que a natureza humana se altera em decorrência da criação de um governo (algo bastante parecido com a miraculosa transformação do homem que os socialistas acreditam que irá acontecer tão logo o socialismo pleno seja implementado).

Um governo limitado é um objetivo ilusório.  Acreditar que isso é possível é o mesmo que acreditar em milagres.

Agora compare essa argumentação à argumentação dada pelos liberais clássicos em prol de um monopólio governamental nas áreas de segurança, justiça e forças armadas (a desestatização da moeda é, felizmente, um ponto pacífico que a atual crise econômica vem ilustrando perfeitamente), e procure definir qual das duas faz mais sentido. 

Em minha opinião, esse é o real debate pendente.



autor

Leandro Roque
é editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

  • Marcelo Werlang de Assis  13/06/2010 10:02
    Bá, Leandro, adorei esse teu artigo!\r
    \r
    Eu pensava que eu era libertário, mas pelas definições que expuseste percebo então que sou anarco-capitalista... :) Odeio o Estado. Ele deve ser extirpado completamente. Só desse modo poderemos ter prosperidade e paz perpétuas!\r
    \r
    Eu achava que libertário e anarco-capitalista eram sinônimos. Eu só supunha dois tipos de entes defensores de idéias liberais: os liberais (que defendem o Estado Mínimo) e os libertários (que defendem a total ausência do aparato de coerção).\r
    \r
    Eu li o teu artigo sobre o padrão-ouro, porém fiquei aguardando pela segunda parte do mesmo. Quando é que ela virá, meu caro?\r
    \r
    As minhas aparições por aqui escassearam porque iniciei um estágio, no qual estou aprendendo bastante.\r
    \r
    Um grande abraço!!!\r
    \r
    Au revoir!
  • Luis Pedro Schmitt  23/03/2019 02:31
    Eu pensei que era libertário, mas acho que sou anarcocapitalista. Não concordo que o Estado deva gerir forças armadas. Acho que elas devem ser privadas. Entretanto, não tenho ideias de como as forças armadas poderiam "fazer caixa". Talvez produzindo e vendendo armamentos para outras forças armadas menores, visto que ao não haver monopólio da violência, existiriam várias forças armadas ao longo do país. Inclusive, isso de produzir armamentos pelas forças armadas já existe, por exemplo, em Israel.
  • Marcelo Werlang de Assis  13/06/2010 10:08
    Só tenho uma dúvida... Uma monarquia não poderia se transformar naquilo que hoje é Cuba, um mero feudo dos Castro, contumazes psicopatas?
  • Erik Frederico Alves Cenaqui  13/06/2010 10:48
    Mais um artigo do IMB que demonstra de forma inequivoca a natureza do Estado e como é o seu real funcionamento.\r
    Quando começei a ler os artigos do IMB tinha dificuldade em entender a própria natureza do estado e do Mercado e quais eram as idéias defendidas.\r
    Sucede, porém, que com a leitura diária dos textos pude entender o que é um sistema estatista e um livre-mercadista.\r
    Realmente é impossivel controlar o estado porque sua existência e funcionamento pressupoe um caldo de cultura que leva ao autoritarismo, violência, ineficiência e preguiça.\r
    Os estatistas não tem motivos para tratar a população que os sustenta com qualidade, basta acompanham a imprensa em qualquer lugar do mundo.\r
    Poucos entende que a principiologia defendida pelo IMB faz uma critica de índole moral ao estado e uma defesa moral do mercado.\r
    Alias, entendo que a expressão livre mercado é redundante vez que só existe mercado se for efetivamente livre.\r
    Abraços
  • Zéh  13/06/2010 13:23
    Anarcocapitalista com muito orgulho!
  • Wellington da Silva Moraes  13/06/2010 14:53
    Quando Israel pediu uma monarquia, um rei, um estado (1Sm. 8), "como as outras nações", Deus deixou bem claro qual era a natureza do estado (com "e" minúsculo mesmo). Em resumo, uma desgraça: "vós lhe servireis de escravos". Acho muito estranho que um anarcocapitalista preferira uma monarquia.
  • Ricardo Tasca  13/06/2010 15:19
    Anarcocapitalista com muito orgulho! [2]
    .
    Leandro, existe algum artigo ou livro que mostra como seria a tributação no mundo dos Liberais Clássicos. Mas que explique detalhademente tudo. Pois eu li o artido Anarcocapitalismo x Liberalismo Clássico (acho que é isso), esse artigo fala que pode ser um "imposto" voluntário. Mas queria algo que aprofundasse um pouco mais sobre o assunto.
    .
    E você poderia me aconselhar um livro ou artigo que explique detalhadamente como funcionaria o sistma de vouchers. E me responda uma coisa, esse sistema de vouchers é um sistema que serve de transição para extinguir a educação estatal? Acho que li o Fernando Chiocca dizendo isso.
    .
    Obrigado



  • Leandro Coelho  13/06/2010 15:41
    Depois de anos aprendendo a ser algo similar ao Liberal Clássico (disse similar porque ainda não conheço o assunto com a profundidade necessária para definir a mim mesmo) me deparo com este artigo que praticamente diz que somos "utópicos".
  • JZ  13/06/2010 17:52
    Wellington, não sei se já viu este artigo, mas se ainda não viu, veja, pois vale a pena: www.mises.org.br/Article.aspx?id=373
  • CR  13/06/2010 18:54
    O positivista lógico Ernst Mach garantia não haver significado na suposta teoria atômica, uma vez que não tinha meios de verificar diretamente a existência de átomos e moléculas. Ainda bem.
    Cada ser humano ocupa um universo que lhe é próprio. Todos possuímos lá nossas fortes convicções. Por certo,temos razões. Merecemos respeito. Como distinguir o que deva em conjunto se fazer?
    A ciência pode decidir. De nada vale o melhor intencionado do mundo, dono de saúde perfeita, vontade de vencer, e vida ilibada supor-se modelo a ser copiado, porque o modelito remonta há mais de dois milênios atrás. Faz-se mister refazer o traje. Vivemos em salões. E refazer é contingência natural, embora utopia também quase seja, porque ela remete a sonho, à espírito, à alma. Foi atrás dessa que Sócrates abreviou sua viagem. A resposta não está em si mesmo. Não nascemos com os olhos voltados ao umbigo, de maneira que é olhando ao celeste pela Acrópole, e não ao subsolo ágora, que estaremos mais próximo da certeza. Utopia é querer ficar na mesma. Embora algumas mentes assim logrem, o tempo não para.
    Se olharmos ao nosso redor atentamente, vemos respeitáveis países atolados em enormes problemas gerenciais. Isso é fruto do descompromisso com a ciência.Aos poucos se dão conta. O Euro foi uma utopia forçada, mas ele expõe as pernas dos travestidos. A Yuguslávia se antecipou, e agora é a Bélgica que parte para a mais radical federalização, praticamente separando os redutos flamengos dos mais afrancesados.
    Se para gerenciarmos nossaa vidas requeremos celulares e computadores; farmácias, farmacêuticos responsáveis; empresas, profissionais de Harvard e Chicago, de que modo conduzir uma Nação, agravada globalizada, uma arena cuja platéia é o mundo inteiro, apenas por abalizados pareceres, com orquestras tocando por música, sem o gajo saber o ao menos o que é gravidade?
    É possível levar a algum porto um transatlántico apenas dando ouvidos à sensatas opinões?
  • Francisco A. Lobo  13/06/2010 22:00
    Acho que um grande ideal de governo está num regime liberal clássico rigorosamente controlado e com o nóbre e primordial compromisso de se chegar a extinção total do Estado. Este teria a obrigação de apresentar anualmente relatórios comprovados de diminuição dos impostos e encolhimento em todos os outros setores até o afastamento total do estado da sociedade. Não vejo outra saída melhor..
  • Leandro  14/06/2010 07:43
    Ricardo Tasca, há um texto - de autoria deste humilde que vos fala - sobre como deveria ser um sistema tributário em uma economia laissez-faire. Eis o artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=667

    Sobre os vouchers, seu funcionamento não tem muito segredo. Escolas e hospitais passam para administrações privadas, e o governo banca a mensalidade ou o tratamento daqueles que não podem pagar. A ideia é que esse arranjo traria concorrência e provocaria uma melhora nos serviços.

    A ideia é boa. O problema é como garantir que, no caso da educação, por exemplo, o estado não irá assumir o controle total do ensino -- afinal, se é ele quem está dando o dinheiro, não é desarrazoado imaginar que as escolas irão se submeter aos seus caprichos a fim de garantir parte do butim.

    No caso dos hospitais, nada impede desvios e favorecimentos para hospitais mais poderosos.

    Enfim, a ideia é sem dúvida bem intencionada. Os meios utilizados é que são problemáticos.


    Marcelo Werlang, muito obrigado pelo elogio. Você de fato está sumido!

    Sobre a continuação do artigo do padrão-ouro, se tudo der certo e eu continuar vivo, sai amanhã.

    Boa sorte e firmeza do estágio!
  • Rodrigo Constantino  14/06/2010 10:08
    "Se há algum país que vem reduzindo ano após ano seus gastos e tributos em porcentagem do PIB eu realmente desconheço"\r
    \r
    Já aconteceu no passado, várias vezes. O tamanho do governo não sobe inexoravelmente, ele oscila, feito um pêndulo. Durante o New Deal, por exemplo, havia MAIS intervenção estatal que atualmente! \r
    \r
    Se os modelos americano e suíço falharam, o que os ancap têm para oferecer em troca é uma utopia. Comparar realidades imperfeitas com modelos teóricos é fácil. Mas é justo? Não obstante os inúmeros problemas, acho que EUA e Suíça são países ricos e livres, dentro dos limites aceitáveis. Qual a alternativa concreta? \r
    \r
    Os comunistas também alegam que o que falhou foi o "socialismo real". O comunismo nunca existiu, não foi testado! Então eles também continuam criticando todos os modelos existentes, e oferecendo em troca sua utopia. Soa familiar...
  • oneide345  14/06/2010 11:27
    So pra provocar
    Somalia seria exemplo de pais anarquista?
    "Com o país sofrendo pelos conflitos internos, o governo central desapareceu após a queda da ditadura pró-soviética de Siad Barre, em 1991. Os "senhores da guerra" tomaram conta do país esfacelado. Desde então, a Somália vive em guerra civil intermitente, a qual matou dezenas de milhares de somalis.Não existe mais unidade nacional, e o país fragmentou-se em regiões."
  • Fernando Chiocca  14/06/2010 11:28
    O artigo contêm erros que ofendem os libertários.
    Nenhum libertário defende que o estado deva prover saúde. Não há nem discussão sobre isso. A proposta dos vouchers é defendida por alguns apenas como medida transitória do estágio atual para a total separção entre estado e saúde.
    O resto da caracterização dos libertários seria no máximo uma descrição dos minarquistas, mas os anarcocapitalistas são também considerados libertários.
    Eu, que sou um libertário anarcocapitalista não gostei de ver essa descrição equivocada sobre mim aqui no IMB.
  • Fernando Ulrich  14/06/2010 12:27
    Leandro,
    Confesso que logo que comecei a ter contato com a Escola Austríaca o anarco-capitalismo me parecia um tanto radical. Hoje, após alguns meses de leitura, vejo que teoricamente é a única forma viável.

    Agora te pergunto, como anarco-capitalistas, o que fazer com esse conhecimento? Apenas disseminá-lo? Entrar na política e tentar reduzir o Estado? Criticar de fora e deixar que o Estado se desmorone por si só?
  • Ulrich Zwingli  02/12/2014 04:51
    Passados aí quase 4 anos e meio, seria realmente interessante ver a resposta de seu eu presente às indagações de seu eu de outrora. Ou, dito de outra forma, 0,01 bitcoin for your thoughts.
  • Lucas Mendes  14/06/2010 12:59
    Interessante, Leandro.\r
    Mas as definições dos conceitos são complicadas. Se Adam Smith é um liberal clássico (quem diria que não é?) como que o liberalismo clássico pode ser contra a oferta estatal de vários serviços como saúde, estradas, educação, etc. O ultimo livro da "Riqueza das Nações" Smith praticamente esboça a doutrina da social democracia, de tantos serviços públicos que atribui o dever do Estado fornecer. Mas tudo bem, reduzir as coisas nos conceitos é algo complexo por natureza, que geralmente resulta em injustiças, como o caso que expus.\r
    \r
    Quanto ao frase do Hoppe "Um governo limitado é um objetivo ilusório. Acreditar que isso é possível é o mesmo que acreditar em milagres", confesso que quase caí da cadeira.\r
    \r
    Não sabia que o Hoppe ingnorava o fenômeno ds milagres. Até pensava que ele fosse um tanto que religioso, pelo que li no Democracy: the God That Failed. Se for assim, contudo, Hoppe caiu fatalmente no meu conceito. Considerar o fenômeno dos milagres como algo ilusório é uma atidade tão pueril que eu não espera do Hoppe.\r
    \r
    \r
  • Rhyan Fortuna  14/06/2010 14:43
    Pelo que imaginava, existem os liberais-clássicos como Roberto Campos, libertários minarquistas como Mises, e libertários ancaps como Rothbard.\r
    \r
  • Leandro  14/06/2010 15:02
    Sobre a questão dos rótulos, que está gerando controvérsias, permitam-me alguns esclarecimentos.

    Da mesma forma que há várias graduações no pensamento conservador, há também graduações no pensamento libertário. Antes de tudo, vale lembrar que o termo 'libertário' não está restrito apenas a questões econômicas, mas também, e principalmente, a questões comportamentais (ou, como dizem, questões sociais). É possível um sujeito ser socialmente conservador e economicamente libertário, e vice-versa. Até aqui tudo certo?

    Adiante.

    No pensamento conservador -- e aqui temos de nos basear no conceito americano --, há muita convergência no que tange às questões morais, mas há enormes divergências nos quesitos econômicos. Embora sejam tidos como economicamente liberais, existem genuínos conservadores americanos que, quando falam de livre comércio, por exemplo, mais parecem um colunista do A Hora do Povo. Vide Pat Buchanan, por exemplo, um homem de impecáveis credenciais conservadores (e amigo de Murray Rothbard), mas que nunca deblaterou contra o livre comércio (sempre recorrendo a argumentos mercantilistas).

    O Constitution Party (Partido da Constituição), por exemplo, que se diz fiel à Constituição americana, e que é tido como um dos mais economicamente liberais dos EUA, defende várias tarifas de importação, simplesmente porque há uma brecha na Constituição que permite a imposição dessas tarifas (originalmente, a Constituição diz que uma das maneiras de o governo se financiar é por meio de tarifas de importação).

    Dito isso, passemos aos libertários. É preciso aqui fazer uma distinção entre os libertarians e os very libertarians (isso não é conceito apenas de Orkut, não). Os libertarians originais, aqueles que fundaram o Partido Libertário americano, sempre defenderam os vouchers. Ok, muitos falam que seriam apenas uma medida transitória, e eu não duvido da intenção deles. Mas defendem vouchers. Querem prova maior? Vejam essa entrevista dada por Ron Paul quando ele concorreu à presidência em 1988 pelo Partido Libertário. Ele fala abertamente em adotar vouchers para a educação pública americana (educação, hein?! Não é nem saúde), e não fala que isso seria uma medida transitória.

    www.youtube.com/watch?v=anmlPvmd1Ew

    Já os very libertarians (anarcocapitalistas) não querem nem ouvir falar de vouchers.

    Ademais, peguem a plataforma dos vários partidos libertários que existem mundo afora. Naqueles países onde a saúde tem grande envolvimento estatal, eles também defendem o uso de vouchers, e nunca a privatização completa e imediata da saúde. Isso não é opinião minha, meus caros, estou simplesmente reportando como as coisas são.

    É compreensível que pessoas que se digam libertárias fiquem um tanto surpresas ou até mesmo ofendidas com essa descrição. Mas os libertários tradicionais defendem vouchers (o que não significa que eles defendam saúde gerenciada pelo estado, coisa muito diferente). Dizer que seria apenas uma medida provisória não alivia as coisas.

    Sobre o liberal clássico (laissez-faire), a melhor definição foi dada pelo George Reisman na introdução do seu livro Capitalism. Um liberal clássico é, em sua essência, mais economicamente liberal que um libertário (embora possa ser socialmente muito conservador). De novo, isso nem é opinião minha. Discutam com o Reisman, que é um profundo estudioso dos liberais clássicos do século XVIII e XIX. Posso dizer apenas que, como naquela época não havia saúde, educação e nem estradas estatais, eles simplesmente não viam por que o estado deveria cuidar dessas coisas. Logo, não é de se estranhar que um liberal clássico seja mais infenso a saúde e educação públicas (o que inclui o uso de vouchers) do que um libertário. Quando se colocam as coisas sob essa perspectiva, fica mais fácil de entender a postura deles.

    (O Reisman, por exemplo, que é um liberal clássico, propôs um plano de reforma completa do sistema de saúde americano. Em momento algum ele cita vouchers ou coisa parecida. Vários libertários titubeiam nesse quesito. mises.org/daily/3613). Ele também possui em seu site pessoal vários artigos sobre educação. Em nenhum ele sequer cogita a ideia de vouchers.

    Por fim, nunca é demais lembrar que o termo libertário tem mais conotações morais do que econômicas. Historicamente, o termo libertário sempre esteve mais ligado às liberdades civis do que econômicas (o Partido Libertário americano está cheio de estatistas. O melhor exemplo é Mike Gravel, ex-democrata supremo defensor do aborto, do welfare state e da saúde pública universal).


    Lucas Mendes, sobre o Hoppe, é possível fazer algumas ilações. Jesus, no Novo Testamento, disse que os milagres são realizados por meio da fé em Deus. Logo, o estado fazer milagres seria algo religiosamente impossível e espiritualmente incoerente. Só Deus faz milagres, não o estado. Vai ver que foi isso que o Hoppe quis dizer...

    Fernando, você é um anarcocapitalista (ou livre-mercadista puro) e não um libertário. Você é um very libertarian.
  • Leandro  14/06/2010 15:17
    Um adendo: o artigo em momento algum fala que os libertários defendem "que o estado deva prover saúde", como estou sendo acusado.

    Entretanto, dizer que "a proposta dos vouchers é defendida por alguns apenas como medida transitória do estágio atual para a total separção entre estado e saúde" é o típico caso de emenda pior que o soneto.

    Dizer que vouchers são uma medida transitória entre o estágio atual e a total separação entre estado e saúde ou educação é o mesmo que dizer que doses menores de cocaína são uma medida transitória entre o vício completo e a total reabilitação do drogado. Faz tanto sentido quanto. Qualquer pessoa com bons conhecimentos econômicos está bem ciente de que vouchers serviriam apenas para ampliar o controle do estado sobre essas áreas, e que ele nunca se retiraria delas.

    É igual bolsa-família e Prouni. Começaram como medidas emergenciais. Hoje, só fazem crescer. E o pessoal ainda insiste no conto de fadas de que vouchers seriam temporários.

    Liberais clássicos e livre-mercadistas não defendem isso. Libertários, sim.
  • José Henrique  14/06/2010 15:23
    Leandro, não entendi bem essa distinção feita no artigo.\r
    \r
    Pensava que os libertários se dividiam em libertários minarquistas e libertários anarco-capitalistas.\r
    \r
    Sou anarco-capitalista e tal como o Fernando Ulrich, gostaria de saber o que fazer com esse conhecimento.\r
    \r
    Como sugestão de leitura, existe um livro chamado Market for Liberty. Foi através dele que me tornei um defensor do anarco-capitalismo, pois ele explica com detalhes como funcionaria uma sociedade operando sem um governo. Ele pode ser baixado nesse link: freekeene.com/files/marketforliberty.pdf\r
    \r
  • Leandro  14/06/2010 16:26
    José Henrique, sua primeira pergunta está respondida logo acima. Existem os libertarians e os very libertarians. Impossível agrupar todas as nuanças sob o mesmo guarda-chuva.

    Quanto à difusão do conhecimento, em minha humilde opinião deveríamos ser mais preocupados em espalhar ideias do que em se preocupar com rótulos. O presidente do IMB detesta o termo 'anarcocapitalismo', pois ele acha que serve apenas para distorcer boas ideias (ele prefere o termo 'livre-mercadista'). Por outro lado, o termo 'libertário' também possui conotações esquisitas, pois foi muito utilizado por anarcocomunistas do início do século XX. Para muita gente, o termo libertário está associado a baderna e anarquismo no sentido pejorativo do termo.

    Eu pessoalmente também gosto do termo 'livre-mercadista', mas acho perda de tempo ficar se preocupando com rótulos. Usei rótulos nesse artigo apenas para delinear melhor as diferenças de pensamente entre as principais correntes liberais existentes.

    De novo, preocupe-se apenas com a difusão de ideias e argumentos.
  • Indivíduo  14/06/2010 16:36
    @Leandro "...preocupe-se apenas com a difusão de ideias e argumentos."

    Sábio conselho!
  • Fernando Chiocca  14/06/2010 16:58
    Leandro, um very libertarian é, como o proprio nome diz, um libertarian.

    Rothbard foi um dos libertarians que fundou o Libertarian Party e nele sempre esteve explícito que os vouchers eram apenas uma medida transitória e que eles queriam a total separação entre saúde e estado e educação e estado.

    Ron Paul dizer que é a favor dos vouchers não quer dizer que ele seja a favor do estado prover educação e saude. Ele estava falando da situação atual e de uma proposta de mudança.

    Eu acho que defender os vouchers como medida transitória é um grande erro e pode levar a mais, e não menos intervenção estatal, mas isso não quer dizer que os libertários que defendem os vouchers, defendem mais ou sequer alguma intervenção estatal na educação ou na saúde. Eles defendem zero intervenção netste pontos, apenas propõe uma medida para se chagar onde eles querem. Se é uma medida errada ou não, isto é outra discussão. Libertários defendendo que o estado forneça saúde através de vouchers, como um fim, não é uma discusão.
  • anônimo  14/06/2010 17:11
    Um adendo: o artigo em momento algum fala que os libertários defendem "que o estado deva prover saúde", como estou sendo acusado.

    Os libertários admitem o monopólio do estado na segurança, nas forças armadas e na justiça. Na saúde, costumam defender o sistema de vouchers, o que significa que o estado apenas dá o dinheiro, mas não gerencia os hospitais e postos de saúde.

    Disse sim.
    E está errado.
    Eles não defendem o sistema de vouchers, apenas o propõe como medida transitória entre o estágio atual e o estágio que eles REALMENTE defendem, que é o de zero interveção estatal.

    Se é um emenda pior que o soneto, é outra história. E doses menores de cocaína podem sim reabilitar um "viciado".

    Os vouchers também podem, teoricamente, levar a menso e não mais estado na educação e saúde.

    E anarcocapitalistas são libertários também. Anarcocapitalistas e minarquistas. Você não conhece o LIBER, o partido libertário em formação no Brasil? Ele é formado por libertários que defendem o fim do estado e outros sua redução as funções de provedor de segurança e justiça, mas nenhum defende coisas como saúde, previdencia ou entrega de cartas.
  • LIVIO LUIZ SOARES DE OLIVEIRA  14/06/2010 17:11
    Leandro, muito interessante seu artigo. Mas creio que, ao dizer sobre Pat Buchanan "mas que NUNCA deblaterou contra o livre comércio" você quis dizer SEMPRE. Isto é , Buchanan sempre vociferou contra o livre comércio e não o contrário.
  • Leandro  14/06/2010 17:47
    Livio Luiz, exato! Desconsidere aquele "nunca". Nem sei como ele entrou ali.

    Fernando e Anônimo, entendo a posição de vocês e respeito. Mas mantenho tudo o que disse.

    E enfatizo: menos rótulos, mais ideias.

    Até hoje, por exemplo, ninguém sabe definir precisamente o que é ser de "direita". Aí ficam inventando rótulos como "Nova Direita", "Outra Direita", "Direita Liberal", "Direita Conservadora", "liberal-conservador"... e isso só afasta e confunde.

    Os únicos termos que não permitem enganos são "anarcocapitalismo" e "liberal clássico". O resto é pura névoa.

    O LIBER, por exemplo, se chama libertários e possui alguns integrantes que defendem os vouchers. Um dos seus fundadores -- o membro do Rio Grande do Sul -- já aventou a hipótese de o partido defender saúde e educação estatais. Segundo ele, se o estado se preocupasse apenas com isso, já seria o estado mais liberal do mundo.

    A lógica dele é correta e não sou eu quem irá criticá-lo. Estou citando isso apenas para mostrar que há sim libertários que toleram perfeitamente esse tipo de coisa.

    Ah, sim, o Rothbard pulou fora do Partido Libertário tão logo percebeu que seus membros eram, supresa!, libertários e não ultralibertários.

    Prezados, menos rótulos e mais ideias. Rótulo não conquista ninguém.
  • Fernando Chiocca  14/06/2010 19:20
    Primeiro vc rotula todo mundo com uma precisão cirúrgica e depois não admite nenhuma correção nas suas definições e ainda pede para não ligarmos para rótulos?

    Libertários é um rótulo que eu ligo sim, já virou até uma marca. Se você não liga, pode parar então de dizer que libertários defendem que o estado forneça saude através de vouchers.
  • Leandro  14/06/2010 19:30
    Agradeço o "precisão cirúrgica", mas essa não foi a intenção do artigo. Utilizei esses "rótulos" para separar as diferentes correntes liberais. Troque esses rótulos e coloque em seus respectivos lugares os termos banana, melancia, pêra e uva e coisa fica da mesma forma.

    Aliás, a intenção do artigo foi explicitada logo no seu título. Mas como o pessoal ficou preso nos rótulos -- talvez por se sentirem ofendidos, o que só posso lamentar -- o debate de ideias ficou pra próxima. Infelizmente.

    E mantenho minha opinião.
  • Para não omitir a fonte  14/06/2010 19:57
    enxurrada.blogspot.com/2009/10/90-karl-hess-anarquismo-sem-hifens.html
  • Marcelo Werlang de Assis  14/06/2010 20:31
    Valeu pelo "Boa sorte e firmeza no estágio", Leandro!\r
    \r
    Sempre que possível, procurarei aparecer por aqui.\r
    \r
    A propósito, eu gostaria que a inquirição que fiz anteriormente fosse respondida.\r
    \r
    ("Só tenho uma dúvida... Uma monarquia não poderia se transformar naquilo que hoje é Cuba, um mero feudo dos Castro, contumazes psicopatas?")\r
    \r
    Aguardo, então, o teu artigo!\r
    \r
    À bientôt! \r
  • Leandro  14/06/2010 22:25
    Prezado Marcelo, teoricamente, nada impede que uma monarquia se transforme naquilo que hoje é Cuba. Porém, também em teoria, o discernimento e a ambição de um aristocrata (provável linhagem de um monarca) costumam ser diferentes daqueles ostentados por aventureiros, como são os casos de Fidel e Kim Jong-Ill, por exemplo.

    Por exemplo, estes últimos assumiram o poder já eivados de marxismo, e ansiosos para colocar aquilo em prática. Queriam apenas o poder; não estavam preocupados com herdeiros e linhagens. Ademais, por mais seguros que se mostrassem, eles simplesmente não tinham a certeza de que ficariam no poder por muito, o que inevitavelmente estimulou comportamentos mais impulsivos.

    Já o monarca, também em teoria, tem todo o interesse de permitir políticas que enriqueçam seu reino. Reino rico, população feliz, perpetuação de sua linhagem no trono. Um monarca, ao contrário de um ditador, não costuma ter tentações autoritárias. Ele quer apenas desfrutar suas mordomias, as quais sabe asseguradas, e tentar garantir que elas continuem para seus descendentes, o que exige a adoção de políticas econômicas sensatas. Já em países de tradição democrática, golpistas sabem que suas aventuras podem ser curtas, o que os estimula a dilapidar rapidamente seus feudos, a fim de garantir mais riquezas para si próprios em menos tempo.

    Isso, obviamente, é opinião minha, e ninguém precisa concordar com ela. Entretanto, o que foi explicitado no texto, que é a teoria do Hoppe, pra mim também faz muito sentido. Estou apenas fornecendo um adendo pessoal.

    Uma curiosidade: o príncipe regente de Liechtenstein, Alois, em uma entrevista ao NY Times há alguns anos, disse ter chegado à conclusão de que uma carga tributária de 6% era mais do que suficiente para os "serviços públicos" e que qualquer coisa acima disso era tirania.

    O príncipe é fã declarado de Hans-Hermann Hoppe, já leu seu livro Democracy, the God That Failed e o convidou pessoalmente a visitar seu palácio (que é fechado para visitas).

    Sobre o artigo do padrão-ouro, na verdade ele será publicado na quarta-feira, para não haver dois artigos meus em seguida, o que poderia assustar os leitores.

    Abraços!
  • Helio  15/06/2010 13:30
    Era de se esperar que uma "classificação" gerasse polêmicas relevantes. Por essa e outras não gosto de rótulos, especialmente os que dão margem a interpretações diversas.\r
    \r
    Outro problema foi a possível interpretação de que livremercadistas "gostam" ou "aceitam" a monarquia e libertários defendem vouchers, que está muito longe de ser verdade.\r
    \r
    Sobre a questão em discussão no artigo, eu acho bem interessante a análise do Professor Jorg Guido Hulsmann em Mises - The Last Knight of Liberalism. Ele classifica, por exemplo, Hayek como neoliberal nos anos 50 e 60, discorre sobre os liberais clássicas e a "Manchester" school, e a meu ver, coloca os devidos pingos nos "i"s.
  • Marcelo Werlang de Assis  15/06/2010 20:38
    Leandro,\r
    \r
    Muito te agradeço pela tua bem articulada resposta. Concordo bastante contigo, principalmente no tocante ao fato de os monarcas terem um pensamento voltado para o longo prazo, ao contrário dos 'aventureiros' (o termo que usaste), que por isso mesmo abusam do autoritarismo e aumentam grandemente os vilipêndios e os crimes causados aos povos sob seu poder.\r
    \r
    Duas frases do Mises: \r
    \r
    "He who is unfit to serve his fellow citizens wants to rule them."\r
    \r
    "Power is evil in itself, regardless of who exercises it."\r
    \r
    A verdade é que o antônimo de trabalhar é escravizar, é usar da violência para subtrair a produção alheia. Essa é a faceta do poder que realmente o faz acarretar tantos danos às pessoas normais, como eu e tu. Por isso a minha inquirição: quanto mais se escraviza o povo, mais regalias se adquirem; e o socialismo/nazismo é a mais perfeita fórmula para tanto.\r
    \r
    O que concebo com dificuldade é um monarca deixar de querer transformar a sua nação num antro socialista. Afinal, a (quase) totalidade dos detentores do poder são exímios criminosos, são humanóides imbuídos da mais perversa maldade.\r
    \r
    Compreendo a questão do longo prazo: se o povo estiver feliz e rico, ele não se importará de manter a família real, a qual se beneficiaria muito da elevação gradual do padrão de vida da nação. O príncipe Alois é mesmo uma raridade. Ele, porém, cai em contradição: apesar de ser de 6% o confisco, isso não modifica a sua natureza, pô! Roubo é roubo, seja de um pila, seja de um bilhão!\r
    \r
    É isso. Lerei amanhã, portanto, o teu artigo sobre o padrão-ouro.\r
    \r
    Forte abraço, Leandro!\r
    \r
    \r
  • Johnny Jonathan  07/06/2012 15:55
    Os comentários são de 2010, mas irei comentar. lol

    Fico pensando aqui comigo se cidades-estados seria o único modelo pelo qual o estado-minimo é tolerado. Seja por democracia, ou monarquia representativa, ou whatever, ao meu ver cidades-estados fornecem, mesmo que tenha um teor de roubo, uma boa possibilidade que esse roubo gere algum fruto, ruim, mas gerá.

    Não seria, para os liberais clássicos, o melhor caminho a seguir?

    Digo, não só diminuir o tamanho do estado pelas suas funções, mas também pelo seu território ao ponto de temos um "Brasil" só como região cultural, mas cada cidade-estado (ou pequenos conjuntos de cidade estado) tem a sua autonomia. Tipo, a extinção dos governos federais e estaduais, mas mantendo as relações entre ele assim como a UE mantém.

    Eu sei que isso no fim das contas poderia levar e ter um estado máximo novamente, mas não quer dizer que TODO o Brasil irei querer. Entende? Tipo, se um estado quiser ser maior do que deve, autoritário ou muito assistencialista, as pessoas seriam livres para irem pra outra cidade-estado (levando o seu lindo dinheiro e impostos) que seja menor, sem haver um grande choque cultural. Haveria um concorrência de cidades-estados (algumas até anarquistas capitalistas, outras welfare state)

    E nem é utópico, hoje isso já é possível, todos libertários poderiam ir pra uma Hong Kong da vida, e viverem parte de seu ideal lá.

    Só que, como já li muito nesses site, o valor que cada pessoa dar a algo é subjetivo. Logo, essa mudança pra lá significa perder muitas outras coisas de valor cá. Sem contar que politicamente o maior valor pra um libertário é a liberdade, mas não é o único valor na sua vida. Ou seja, ao meu ver, não precisamos de um estado pra uma nação, a nação existe e seu território seria delimitado, mantendo a sua cultura, mas tolerando o surgimento de novas, a partir da concorrência entre cidades-estados. Pra mim seria o melhor modelo pra uma nação como a nossa. E a melhor forma de tentar segurar um avanço do estado além do que a sociedade quer.

    Eu divaguei demais, mas penso que um modelo parecido com esse meu que teorizei é o mais possível pra estadistas-mínimos.

    Só que, volta a dizer, o melhor e ideal seria o anarco-capitalismo. Só não sei quantas pessoas estariam dispostas a viver nesse mundo.
  • Tiago RC  08/06/2012 00:46
    Frequentemente falo em cidades-estados quando estou argumentando com pessoas que nunca foram suficientemente expostas a libertarianismo. É mais fácil explicar por que um mundo de cidades-estados seria muito melhor do que o que temos hoje, do que tentar explicar lei privada.

    O contra-argumento clássico é que cidades-estados só estão bem hoje porque são paraísos fiscais. Mas oras, se ser um paraíso fiscal é bom, porque então você quer viver num inferno fiscal?

    Eu gostaria de saber se algum libertário já fez algum estudo empírico abrangente nessa área. Eu chuto que a maioria dos micro-países do mundo devem estar melhor economicamente e socialmente do que seus "vizinhos grandes". Mas nunca vi um estudo comprovando essa minha impressão.
    Aqui na Europa é visível. Mônaco, Liechtenstein, Andorra e mesmo Luxemburgo estão em geral melhores que França, Itália, Espanha, Alemanha, Bélgica e mesmo Suíça.
    Hong-Kong, Singapura e Macau fazem seus "vizinhos grandes" comerem poeira.

    Enfim, alguém já viu algum estudo a respeito?
  • José Ricardo das Chagas Monteiro  08/06/2012 07:45
    Saudações, respeitável colega virtual Tiago, você é uma pessoa que está vivendo o empirismo, embora que subjetivas, suas experiências são por si sós basilares para qualquer livro,quiçá um livro-didático ,pois vive na Europa.A título de orientação,defina,primeiramente,aquilo que seja melhor economicamente e socialmente para uma nação. Caso tenha tempo perceba a formação histórica da região.
    Como está seu apetite para um estudo?
    Abraços e sorte.
  • Vitor  06/07/2013 15:41
    Leandro,

    Teoricamente a única falha que cometes é separar Estado de Livre-Mercado. Na prática essa divisão existe (em decorrência do modelo de democracia por representatividade), e aí sua explanação me parece correta. Porém, existe uma possibilidade prática que acaba com a divisão prática entre Estado e Livre-Mercado: a democracia direta.

    Procure saber mais sobre o tema democracia direta, existem diversas boas explanações, principalmente por Gene Sharp (da ditadura a democracia).
    Recomendo esse site que te trará 2 bons livros sobre: arenato.com

    Teoricamente, em uma democracia direta a população TODA discute sobre temas como tributação, estatização de bens e serviços, monopólio da força pelo estado.

    E a famosa ditadura da maioria é extinta pelo fortalecimento dos pilares constitucionais. A discussão sobre esse tema cai mais sobre o modus operandi, e que atualmente existem diversos modelos que suprem essa questão. Não vou explanar aqui, vou deixar que procures sobre o que estou falando.

    Enfim, nesse caso, quem tributa é quem paga e decide a forma como irá tributar (ou seja, o preço do serviço público será discutido por quem presta e por quem usa: como um mercado dos serviços públicos "monopolizados"), logo não há a impossibilidade de se colocar o tamanho do Estado que bem se entender e o mercado continuar operando sem ficar oprimido.

    Exemplo: você não quer usar serviços de segurança e justiça públicos pois acha que não precisa, já que tens uma arma e pode se defender. Se você não pagou pelo serviço não poderá usá-lo, mas qual a segurança jurídica você terá se for encarado como uma ameaça ao resto da população? R: nenhuma. Sendo assim, você até poderia ter sua forma de defesa e justiça pelas próprias mãos, mas não estaria livre de uma ameaça constante de execução injusta.

    Então é sempre melhor ao indivíduo, a participação nas discussões da sociedade (mesmo que tenha que abrir mão em alguns pontos que não concorde), pois o livre-mercado é a própria sociedade e suas escolhas.

    A democracia direta é baseada no conceito de que quando se derrubam as barreiras psicológicas do debate dos problemas sociais, o consenso (não total, mas uma maioria muito ampla) é consequência. Sendo assim, creio eu, em uma sociedade que se discute e se debate, o livre-mercado "corre mais solto" sem tantas oscilações e crises desnecessárias.

    Mas claro, isso é uma teoria.
  • Leandro  06/07/2013 18:52
    No fundo, o que você está defendendo é o princípio da subsidiariedade. Nada contra, também defendo. O problema é explicar como manter o estado confinado rigidamente dentro deste sistema. Até hoje, isso não ocorreu. Mesmo na Suíça, que é o país mais próximo deste sistema, o estado vem crescendo, sendo hoje maior do que era há uma década.

    Outra opção viável seria substituir a democracia atual por um republicanismo ou por uma monarquia. Ou adotar o sistema de Hong Kong.

    Mas sem chance.
  • Alvaro  21/08/2018 18:49
    Caros,

    Entro nessa discussão deixando bem claro que, em termos de economia, sou um aprendiz. Mas, trazendo uma outra bagagem, acredito poder contribuir um pouco com essa importante discussão.

    Se formos abordar a questão unicamente do ponto de vista econômico talvez optássemos pelo anarcocaptalismo. Mas uma sociedade humana é regida apenas por seus aspectos econômicos?

    Não deveríamos colocar nessa intrincada equação os aspectos mais elevados e nobres, esses sim os verdadeiros regentes nossos? Alexis de Tocqueville, num livrinho chamado "Da Democracia na América", diz que "a liberdade não pode ser estabelecida sem a moralidade, nem a moralidade sem a fé".

    E de onde esses aspectos provêm, senão do próprio Criador. Mas, Criador, fé, religião? Isso não são temas lá muito econômicos, não? Ou deveríamos ser ateus? Existe uma fé melhor do que outra? Ou todas são corretas? Se há uma só correta, qual é essa?

    Talvez - para melhor nos ajudar e, ao mesmo tempo, não sair do campo econômico - pudéssemos começar essa complexa indagação assim: - Qual seria, para nós seres humanos, de todos os bens econômicos, materiais ou não, o mais valioso de todos? O mais apetecível? O mais desejável? Aquele, pelo qual, valeria aplicar toda nossa vida, todo nosso empenho e esforço?

    Um ateu diria que seria a felicidade, e essa estaria ligada à saúde, fartura, comodidades, liberdade. Outros poderiam dizer que são os amigos, satisfação intelectual, riqueza material. Mas seria mesmo só isso? Pessoas de fé defendem veementemente que existe uma alma dentro de cada um de nós. E que ela seria eterna, seja no Paraíso, seja no Inferno.

    Seria então a questão da Salvação um delírio a que deveríamos evitar considerar? Eu, pessoalmente, não arriscaria. Vejamos friamente. Se for verdade, tanto mais devo então me aplicar nisso. E, se for falso, que mal há em considerar como verdadeiros, ou legítimos, os princípios de salvação que devem existir na sociedade e que acabam por influenciar na sua organização.

    Não sei se fui claro... Pedirei então ajuda a Santo Agostinho, que diz que há duas Cidades no mundo: a Cidade de Deus e a Cidade dos homens. A primeira tem como premissa "o amor de Deus levado ao desprezo de si próprio", e a segunda "o amor próprio levado ao desprezo de Deus", onde o homem "voltado para si e para as coisas do mundo" cumpre sua essência, na cupiditas, ou seja, na cobiça. Já na Cidade de Deus, os bens finitos hão de ser usados como meios e não devem ser desfrutados ou cobiçados como se fossem fins. Nossa essência aqui seria viver a cháritas (a caridade), voltados para Deus e amando as criaturas em função de Deus. No fundo, voltados mais para a Vida Eterna do que para uma suposta felicidade plena aqui nesse mundo.

    Qual das duas Cidades queremos para nós e nossos filhos? Percebem que é absolutamente impossível alcançarmos as respostas adequadas sobre quais os melhores sistemas políticos ou econômicos para uma uma sociedade, olhando a questão meramente do ponto de vista econômico. Mas que, para aqueles que têm fé e acreditam na salvação, devemos adicionar a essa complexa equação econômica, além dos bens finitos, os infinitos!

    Aqui, vendo que esse comentário já se estendeu muito além do que eu imaginava, fico na dúvida sobre se deveria continuar ou não...

    Se houver interesse continuo. Me desculpem por introduzir elementos diversos à questão.
  • Emerson Luis, um Psicologo  10/06/2014 16:39

    Artigo muito interessante, merece ser republicado!

    Também pensava que a única divergência entre os liberais fosse na questão minarquismo x anarquismo e que "libertário" fosse sinônimo de "anarcocapitalista" - muitos usam essas palavras como sinônimos.

    Concordo que rótulos são úteis, mas devem ser utilizados com cuidado.

    * * *
  • Thiago Cardoso  03/06/2015 19:38
    A definição de libertário é realmente essa? Os libertário se baseiam no Princípio da Não-Agressão, e é claro que o governo é a maior agressor da sociedade. Acho que não faz muito sentido essa definição do artigo.
  • João  20/02/2016 21:16
    Liberalismo clássico não é sinônimo de laissez-faire.
  • André  28/11/2018 20:18
    Há alguma fonte sobre esses 4 tipos de liberais? Achei bem interessante, porém não encontro nada ligado a isso!
  • Edvan  08/06/2019 15:10
    pergunta aos operadores do setor privado (grandes empresários, banqueiros, latifundiários do agronegócio, empreiteiros) se eles querem liberalismo. eles, lógico, vão dizer que querem. mas, vão trabalhar que isso jamais seja implantado.

    pq? pq o mercado não vive sem o estado. não fossem os governos esses liberais de meia tigela quebrariam todos.

    quem socorre os bancos? o estado. quem socorre o agronegócio? o estado. quem enriquece os empreiteiros? o estado.

    fiquem aí perdendo o tempo de vcs, defendendo algo que o mercado de fato rejeita.


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