clube   |   doar   |   idiomas
Rio de Janeiro, royalties do petróleo e ciclos econômicos

Um leitor atento me manda por e-mail uma pergunta muito interessante, e percebi que respondê-la detalhada e publicamente seria de muito mais valia (sem referências ao alemão).

Referindo-se à minha postagem no blog em que eu disse que seria bom para a economia fluminense caso o estado do Rio de Janeiro perdesse o dinheiro oriundo dos royalties do pré-sal (numa coincidência mórbida, as recentes tragédias causada pelas chuvas comprovam o ponto: o que interessa é capital e infraestrutura, e não papel-pintado), ele faz a seguinte pergunta, a qual tomei a liberdade de reformular:

"Considerando-se que esse dinheiro dos royalties vem "de fora" - isto é, a Petrobras extrai os barris em alto-mar, vende-os para todo o país e, do valor total dessa receita, entrega 10% para o governo do Rio, totalizando R$ 7,5 bilhões -, não teria esse dinheiro o mesmo efeito, sobre a economia fluminense, de uma injeção monetária feita pelo Banco Central?  Ou seja, não seria como se houvesse um banco central imprimindo dinheiro e jogando-o na economia fluminense?  Sendo assim, a economia fluminense não deveria estar sujeita à formação de bolhas e a constantes ciclos econômicos?"

É de fato uma pergunta bastante interessante e, principalmente, extremamente importante, pois sempre é fonte de muita confusão.

A resposta direta é: embora tal "injeção" possa levar à formação de bolhas, ela não irá provocar os ciclos econômicos.

A explicação está no fato de que esse fenômeno - grosso modo, equivalente a um helicóptero sair jogando dinheiro sobre uma dada localidade - possui um mecanismo de expansão diferente do de uma expansão monetária feita pelo Banco Central.

Os ciclos econômicos ocorrem porque o dinheiro recém-criado entra direto no mercado de crédito - isto é, o banco central o injeta diretamente no sistema bancário, aumentando as reservas dos bancos e, consequentemente, diminuindo os juros no mercado interbancário.  Assim, esse dinheiro novo, ao entrar primeiro no mercado de crédito, faz com que os juros caiam, o que consequentemente provoca uma expansão na estrutura de produção. 

Essa expansão é justamente a fase do boom econômico.  A injeção de dinheiro faz com que haja uma distorção na estrutura de preços relativos da economia: o mercado de bens de capital, por causa dos juros mais baixos, torna-se mais atraente do que o mercado de bens de consumo.  Logo, todo o investimento será direcionado para aquele setor.

Essa alteração na estrutura econômica durará até o momento em que os juros começarem a subir novamente.  Nesse momento, essa estrutura de produção expandida será obrigada a se contrair, que é quando começa a recessão.

Ou seja: se o dinheiro novo entra na economia por meio do mercado de crédito, haverá uma distorção na taxa de juros, o que gerará os ciclos econômicos.

Porém, o que ocorre no Rio de Janeiro com os royalties do petróleo é diferente.  O dinheiro despejado na economia do estado não chega primeiro no mercado de crédito: ele vai direto para o governo do estado, que então passa a gastá-lo de acordo com sua conveniência. 

Ludwig von Mises chamou esse fenômeno de "inflação simples".  Se o dinheiro novo entra na economia por meio de gastos estatais, o efeito será o da inflação de preços apenas.  Ele não vai gerar novos investimentos, como ocorre no exemplo da inflação via mercado de crédito.

Este é um fenômeno ao qual se dá pouca atenção, e apenas a Escola Austríaca o aborda.  O efeito de um aumento na oferta monetária vai depender de onde o dinheiro recém-criado entrará na economia: se entrar por meio do mercado de crédito (banco central comprando títulos diretamente dos bancos), haverá uma distorção nos juros e uma consequente expansão nos investimentos - algo que, no final, inevitavelmente levará a uma alta de preços e a uma consequente contração econômica.  Porém, se o dinheiro entrar na economia via gastos estatais, haverá apenas inflação de preços, sem novos investimentos.

Um exemplo histórico ocorreu na Espanha, quando o ouro pilhado das Américas foi todo descarregado no país.  Esse ouro caiu direto nos cofres do governo, que o utilizou para financiar um aumento nos gastos do estado.  Tudo o que houve na Espanha foi inflação de preços (enorme).  Outro exemplo foi o da mania das tulipas, na Holanda do século XVII.  Houve um enorme influxo de metais para aquele país, provocando um aumento na demanda por ativos, como as tulipas da época. 

Outro economista que explicou bem o mecanismo desse fenômeno, só que com mais detalhes, foi Friedrich Hayek, em seu livro Prices and Production.  Quando o dinheiro recém-criado entra direto na economia por meio de gastos estatais, há um aumento na demanda por bens de consumo.  Esse aumento repentino da demanda fez com os lucros no setor de bens de consumo aumentem em relação aos lucros do setor de bens de capital, fazendo com que o investimento seja direcionado para aquele setor (bens de consumo).  Consequentemente, a produção e o investimento no setor de bens de capital declinam, junto com o emprego - entretanto, sem que, diferentemente da inflação via mercado de crédito, tenha havido uma expansão anterior deste setor.

Repetindo: se o dinheiro recém-criado cai na economia e vai direto para o setor de bens de consumo, a estrutura de produção se contrai, mas sem que tenha havido uma expansão anterior.  (O que explica também por que todas as políticas de estímulo à demanda provocam o efeito oposto do esperado).

No Rio

Embora os royalties do petróleo definitivamente se enquadrem na classificação de "inflação simples", não é necessariamente verdade que a economia fluminense irá sofrer uma inflação de preços maior que a do resto do Brasil, nem mesmo que sua indústria de bens de capital irá contrair em relação ao setor de bens de consumo.

Afinal, esse dinheiro despejado na economia fluminense pode ser perfeitamente "exportado" para outros estados, em troca de produtos produzidos por esses outros estados.  Esse cenário, aliás, é o mais provável.

É exatamente por isso que os primeiros a receber esse dinheiro indubitavelmente ganham: seu poder de compra aumenta e eles passam a poder adquirir bens antes dos outros consumidores (de todos os outros brasileiros, no caso).  Isso faz com que haja menos bens no mercado, cuja consequência mais óbvia é o aumento de preços e uma consequente queda no padrão de vida.

Portanto, caso o estado do Rio perca os royalties (algo que eu duvido muito que vá acontecer), os grandes perdedores seriam aqueles que recebem esse dinheiro em primeira mão e que ficam mais ricos em detrimento do resto da população - relegada a uma "concorrência desleal" com os recebedores privilegiados desse dinheiro.

O Brasil é ainda um melhor exemplo

Entretanto, o melhor exemplo do fenômeno da "inflação simples" é mesmo o Brasil, principalmente o da década de 1980 e 90.

Poucos sabem, mas foi apenas em 2000, com a Lei de Responsabilidade Fiscal, que o Banco Central ficou proibido de comprar diretamente do Tesouro os títulos da dívida do governo.  Está escrito lá, nos artigos 35 e 39:

Art. 35. É vedada a realização de operação de crédito entre um ente da Federação, diretamente ou por intermédio de fundo, autarquia, fundação ou empresa estatal dependente, e outro, inclusive suas entidades da administração indireta, ainda que sob a forma de novação, refinanciamento ou postergação de dívida contraída anteriormente.

[...]

Art. 39. Nas suas relações com ente da Federação, o Banco Central do Brasil está sujeito às vedações constantes do art. 35 e mais às seguintes:

I - compra de título da dívida, na data de sua colocação no mercado, ressalvado o disposto no § 2o deste artigo;

§ 2o O Banco Central do Brasil só poderá comprar diretamente títulos emitidos pela União para refinanciar a dívida mobiliária federal que estiver vencendo na sua carteira.

O que isso quer dizer?

Até o ano 2000, o Tesouro emitia um título da dívida que podia ser comprado diretamente pelo BACEN.  Tal medida fazia com que o dinheiro criado pelo BACEN fosse diretamente para o Tesouro, e dali para toda a economia, sem passar pelo mercado de crédito.  Inflação simples.

É por isso que os mais iniciados na Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos têm uma certa dificuldade em estudar os ciclos econômicos no Brasil: aqui predominou o fenômeno da inflação simples, e não o da inflação via mercado de crédito.  É por isso que na década de 1980 e 90 houve hiperinflação, mas não houve ciclos econômicos, com expansão industrial seguida de contração.  A depressão era constante.

Mesmo de 1995 a 2000, após a criação do Real, não se observou um ciclo de forte expansão industrial seguida de uma contração.  Com efeito, o primeiro ciclo econômico genuinamente austríaco no Brasil só aconteceu agora, como detalhado aqui.

Conclusão

Os royalties fluminenses não provocam ciclos econômicos na economia local, tendo apenas o potencial de causar inflação no setor de bens de consumo, muito embora tal fenômeno não se distinga do que ocorre no resto do Brasil devido ao fato de o estado poder exportar para outros estados essa inflação.

Já no Brasil, até o ano 2000, foi exatamente esse fenômeno da inflação simples que predominou na economia - o que explica a relativa escassez de ciclos econômicos austríacos.


autor

Leandro Roque
é editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.

  • Zéh  07/04/2010 10:05
    Então se não gera ciclos economicos, apenas uma inflação de preços exportavel, tanto faz para o estado ficar ou não com os royalties, visto que se não fosse o Rio, outros estados receberiam esses royalties.
  • Pedro Ivo  17/09/2012 15:19
    "Então se não gera ciclos economicos, apenas uma inflação de preços exportavel, tanto faz para o estado ficar ou não com os royalties..." - faz diferença sim.

    Não houvesse os royalties, transformar-se-iriam em remuneração do capital, aumentando a capacidade de investimento das empresas, ampliando a complexidade da estrutura de capital. Tudo que impede o ganho de complexidade da estrutura de capital é ruim; ou, pelo menos, tudo que o impede e venha do estado.

    Um ex.: o estado de MG quer ampliação dos royalties sobre os minérios no Brasil, pois, conforme eles, isto é distribuir a riqueza com + justiça. Mas isto nada + é que aumento da tributação, o que levará a menor capacidade de investimento, e menor estrutura de capital num país que reconhecidamente está se desindustrializando.
  • Leandro  07/04/2010 10:10
    Porém, os "habitantes" da máquina pública carioca perderiam a capacidade de adquirir bens antes de todo o resto. Eles seriam os grandes prejudicados.

    Já quando esses royalties são diluídos para todo o país, o efeito é nulo, pois não está havendo criação de dinheiro - apenas redistribuição de renda.
  • Rafael Hotz  07/04/2010 10:27
    Leandro, você não acha que se a petrobrás vender parte do petróleo pro governo (com seus mega programas brontossáuricos de investimento) e este pagar "no cartão" (emitindo dívida), há duas tendências contrárias, assim como na TACE tradicional?

    O preço dos títulos cai e tende a aumentar a taxa de empréstimos (tendendo a encurtar a estrutura produtiva), e por outro lado o governo tenta expandir a mesma via seus PACS? Assim chegaríamos na crise da TACE convencional...
  • Leandro  07/04/2010 10:48
    Rafael, deixe-me raciocinar por partes:

    Se o governo emite títulos para comprar petróleo, os juros aumentam (os preços dos títulos caem) e não há criação de dinheiro. As pessoas passam a emprestar mais pro governo. Até aí, em tese, temos um efeito contracionista na estrutura de produção.

    Com o PAC, o governo amplia gastos, mas aí é preciso ver como se dá esse aumento. Inflação? Endividamento? Tributação?

    Confesso que não consigo enxergar o pulo do gato, e ver como isso poderia ativar uma TACE.
  • Tiago RC  07/04/2010 11:01
    Olá!

    Por que os royalties são inflação simples? Eles são uma parte da produção vinda da extração do petróleo... essa produção é real, não é mera impressão de moeda de curso forçado. Não seria apenas uma transferência forçada de renda, como todos os impostos? (ok, a inflação também é uma transferência de renda, mas é como um "caso particular", no qual eu não colocaria esse caso dos royalties...)

    E a hiperinflação da década de 80 não foi conseqüência do "milagre econômico" das décadas anteriores? Sempre achei que fosse, o que faria dela uma instância da TACE na qual os juros nunca subiram...

    Abraços
  • Leandro  07/04/2010 11:16
    Tiago, a produção é real e com recursos de todo o país, mas o dinheiro é despejado em uma localidade definida. Sim, é uma transferência de renda. Porém, é fácil ver que, se toda a renda for transferida para uma determinada cidade, por exemplo, haverá o fenômeno da inflação simples nessa cidade (ao passo que poderá haver deflação de preços no resto do país, caso a oferta monetária seja fixa).

    Mesmo que o país estivesse sob um padrão-ouro rígido, haveria um influxo de ouro para o Rio, o que obviamente provocaria deflação de preços nos outros estados.

    Sobre a inflação da década 1980, seus detalhes foram explicitados neste artigo:
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=313
  • Rafael Hotz  07/04/2010 12:26
    A tendência contrária é o governo tentando expandir na marra a estrutura produtiva, construindo mega pólos de inovação, petroquímicas e pontes, sem que o público tenha uma queda na preferência temporal... O petróleo até caiu de paraquedas... Mas os recursos complementares serão obtidos via poupança forçada...
  • Carlos alexandre  07/04/2010 18:42
    Pessoal:\r
    \r
    o que é TACE?!?!?
  • Filipe Rangel Celeti  07/04/2010 19:15
    Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos (TACE)
  • Hermes  11/04/2010 18:36
    Parabéns Leandro,\r
    \r
    O Estado não merece absolutamente no royalties do petróleo brasileiro. Deixe que o mercado livre se apodere de tudo pois quem merece os benefícios é a própria wall street. O brasileiro que se dane.\r
    \r
    Hermes
  • Leandro  13/04/2010 02:17
    Hermes, até onde se sabe, riqueza é algo diferente de dinheiro confiscado. Dinheiro confiscado não gera riqueza, exceto para quem recebe o esbulho.

    No caso, você quer dar o dinheiro para a ALERJ, e acha que isso será ótimo. Direito seu.

    Quanto a Wall Street, realmente não entendi como você fez a ligação entre ela e a Petrobras. Talvez você saiba de mais detalhes escusos e queira nos informar.

    Por fim, se você realmente acha que Wall Street - uma entidade totalmente ligada ao governo - é representante de livre mercado, então eu sugiro mais estudos e menos afetação de superioridade.

    Abraços
  • Carlos Alexandre  14/04/2010 16:39
    Prezado Leandro:\r
    \r
    Se o nosso Bacen pratica a mais alta taxa de juros no mundo, porque ainda temos inflação? Por acaso, apesar deste fato, ainda se pratica expansão monetária? e como seria possível inflação monetária coexistir com juros elevadíssimos?\r
    \r
    Um abraço.
  • Leandro  15/04/2010 11:49
    Carlos,

    Eis aí um fato que poucos compreendem. É perfeitamente possível haver grande expansão monetária em um ambiente de juros altos, bem como haver desprezível (ou até mesmo nula) expansão monetária com juros baixos.

    Um exemplo de cada caso é justamente o Brasil, para o primeiro caso, e a Suíça, para o segundo.

    Embora soe estranho a princípio, o problema fica mais fácil quando se analisa os fundamentos da política monetária.

    Por exemplo, pela teoria, se a oferta monetária fosse congelada, essa repentina "escassez" de moeda geraria um aumento de juros muito alto no mercado interbancário. Isso de fato é verdade no curto prazo - afinal, se a impressão de dinheiro cessou, a quantidade a ser emprestada entre os bancos parou de aumentar, e essa súbita paralisia pode gerar um aumento temporário de juros.

    Entretanto, uma vez entendida que a quantidade de dinheiro não vai mais aumentar, os agentes econômicos (desculpe o jargão economicista) perceberão que de nada adiantará cobrar juros nominais altos: afinal, como eles seriam pagos? Em um cenário de quantidade de moeda fixa, se você emprestar 100 reais e cobrar 10% de juros, não haverá como receber 110 reais, pois não está havendo aumento na oferta monetária. Assim, se você não cobrar juros (muito) menores, simplesmente não fará empréstimo algum. Esse raciocínio, aliás, não é exclusividade austríaca. Milton Friedman - monetarista convicto que no final da vida passou a defender a extinção do banco central - também concluiu que era isso que ocorreria.

    Esse cenário descrito acima ocorre, por exemplo, na Suíça, país de banco central tradicionalmente conservador (no sentido de incorrer em baixíssimas expansões monetárias) e de juros (no caso, refiro-me à Selic deles) também baixos.

    Já o cenário inverso ocorre no Brasil. Se o BC pratica expansões monetárias mais vultosas e a economia é fechada (o que significa que as pressões inflacionárias não podem ser abrandadas pelas importações), então grande parte dessa expansão irá se traduzir em grande aumento de preços. Sendo assim, os bancos embutem essas expectativas inflacionárias no valor dos juros que eles cobram. Ou seja: a maior expansão monetária gerou, ao contrário do imaginado, um aumento nos juros.

    Logo, é perfeitamente possível haver juros altos concomitantes a grandes expansões monetárias, e juros baixos concomitante a pequenas (e até mesmo nulas) expansões monetárias.

    Caso algo não tenha ficado claro, por favor não hesite em perguntar.

    Abraços!
  • Carlos Alexandre  15/04/2010 14:06
    Ok, Leandro, deu prá entender. muito obrigado pelo esclarecimento!
  • Carlos Alexandre  15/04/2010 14:20
    Leandro:\r
    \r
    Achei que tinha entendido tudo, mas aí fiquei reflatindo, refletindo...e me deparei com uma outra dúvida; estaria certo se extraísse da sua resposta a conclusão de que, no Brasil, existem duas causas para a constante elevação dos preços: os elevados níveis de injeção monetária e o caráter fechado da economia ?
  • Leandro  15/04/2010 15:21
    Carlos, seu raciocínio está correto, mas, como tudo em economia, cabem outras observações.

    Por exemplo, se a economia fosse bem mais aberta, e fosse mantido o mesmo nível de injeções monetárias, os preços dos bens tradables de fato não subiriam tanto.

    Porém, veja só o que aconteceria: como a oferta monetária está aumentando, e o influxo de produtos externos faz com que os preços não possam subir no mesmo ritmo, então os ganhos reais (quando se desconta a inflação) deste setor estão sendo prejudicados. Há mais dinheiro na economia, mas as receitas estão constantes. Logo, está havendo uma redução do poder de compra de todas as pessoas envolvidas nesse setor. Os ganhos tornam-se deprimidos.

    Ao passo que em outros setores (mais protegidos), os preços sobem de maneira a manter o poder de compra dos que lá estão. E essa subida de preços vai prejudicar exatamente as pessoas daquele setor que está reprimido, pois estes são consumidores daqueles.

    Ou seja: enquanto um setor tem de se conter, o outro pode se expandir. No setor contido, haverá menos investimentos e menores salários. No setor que pode se expandir, as coisas continuam boas (donde se entende por que todo mundo quer protecionismo).

    Apenas mais um exemplo de como a inflação distorce as coisas, produzindo vencedores (aqueles que têm boas conexões políticas) e perdedores (aqueles que estão sob forte concorrência).
  • alan  17/04/2010 22:48
    Me parece haver uma falha no raciocínio deste artigo... Se a Petrobrás vender todo o petróleo no exterior e "trazer" 10% para o governo do Rio, isso não é uma injeção monetária de forma alguma!

    Obviamente não se usa dólares americanos no Brasil, então para "trazer" dinheiro para o país, é necessário passar pelo câmbio; então o efeito deste dinheiro extra sendo negociado por reais será meramente um aumento da taxa de câmbio entre Reais x Dólar.

    Não haverá aumento algum na quantidade de dinheiro em circulação, a meu ver.
  • Leandro  18/04/2010 03:46
    Alan,

    Não há falha alguma. Para esse cenário por você descrito, as coisas funcionariam exatamente da mesma maneira. Observe, inclusive, que a teoria é válida mesmo para o caso de o Brasil estar sob uma oferta monetária fixa - a quantidade de dinheiro aumentaria no estado do Rio e diminuiria no resto do país.

    Assim, mesmo na hipótese (irreal) de a Petrobras exportar 100% da sua produção e mesmo na hipótese (irreal) de o Banco Central não intervir de modo algum no câmbio - o que significa que a oferta monetária não se alteraria -, ainda assim os 10% das receitas da Petrobras seriam entregues para o governo do Rio, que as gastaria da maneira que mais lhe aprouvesse. Consequentemente, haveria uma diminuição da quantidade de dinheiro no resto do país e um aumento da quantidade de dinheiro no estado do Rio.

    Repito: Você está certo ao dizer que não haveria nenhum aumento da quantidade de dinheiro em circulação. Porém haveria um aumento da quantidade de dinheiro no estado do Rio. E é disso que a teoria fala.
  • Mariana Negri  06/06/2010 20:16
    Leandro,deixando a polítcia monetária teórica um ouco de lado e falando nos royalties como um efeito social para o país, pelo que entendo no seu artigo, a injeção dessa quantia de dinheiro provinda dos recursos do petróleo é em certo ponto maléfica ao estado do Rio, pois gera um certo poder de comprar deste em relação ao país.Isso também, dado que o dinheiro vai diretamente para o governo do estado, e segundo alguns dados do Ipea não tem sido convertido em desenvolvimento social paa a região.Ou seja, eles sofre (a população) um duplo efeito negativo.
    Porém,redistribuir os royalties por todo país, como você mesmo disse,seria apenas reditribuir a renda.Mas não seria essa uma política inócua?? Pois (deixando de lado se é justo ou não, e debates fervorosos sobre "o petróleo é nosso"), é uma política que fere o pacto federativo e também inconstitucional.Sendo que a fatia de royaties para cada municipiou e estado seria mto pouca, oque ou iria "acabar indo pro ralo",ão resolvendo nenhuma problema social.
    Ao meu ver, enviar todo esse dinheiro(e não so parte dele) a uma Fundo Social (como um fundo soberano de estabilização), seria o mai correto a se fazer. Pois, o dinheiro não causaria os impactos negativos no Rio, e tbm não se perderia na redistribuição do mesmo pelo país.Assim, o dinheiro não causaria a inflação simples, pois geraria desenvolvimento industrial,mitigando o efeito cambial de se exportar mtos recusros (doença holandesa), e também desenvolvimento social, atráves de programas e projetos de saúde, cutltura e tecnologia.
    Gostaria de saber sua opnião sobre isso
    grata!!!
  • Leandro  07/06/2010 09:51
    Olá, Mariana, muito obrigado pelo comentário de alto nível, coisa rara quando se trata de assunto tão polêmico. Permita-me ir por partes.

    (...)falando nos royalties como um efeito social para o país, pelo que entendo no seu artigo, a injeção dessa quantia de dinheiro provinda dos recursos do petróleo é em certo ponto maléfica ao estado do Rio, pois gera um certo poder de comprar deste em relação ao país.

    Só pra deixar claro e não dar margem a dúvidas: esse dinheiro vai aumentar o poder de compra daqueles que o receberem primeiro - governo e seus funcionários -, em detrimento daqueles que o recebem por último. Os primeiros a receberem esse dinheiro sem dúvida vão se beneficiar; já os últimos serão os prejudicados. Portanto, o mais correto seria dizer que ele é ruim para as classes menos favorecidas do estado do Rio, mas ótimo para aqueles com conexões diretas com o governo do estado.

    Isso também, dado que o dinheiro vai diretamente para o governo do estado, e segundo alguns dados do Ipea não tem sido convertido em desenvolvimento social paa a região. Ou seja, eles sofre (a população) um duplo efeito negativo.

    Correto.

    Porém, redistribuir os royalties por todo país, como você mesmo disse, seria apenas reditribuir a renda. Mas não seria essa uma política inócua??

    Penso que sim.

    Pois (deixando de lado se é justo ou não, e debates fervorosos sobre "o petróleo é nosso"), é uma política que fere o pacto federativo e também inconstitucional.

    Aí é mais nebuloso. Alguns grupos dizem que, como o petróleo é extraído no mar, e o mar é propriedade da união (pare de rir!), isso significa que nenhum estado em específico pode pleitear o monopólio desses recursos.

    Já outros grupos dizem que o estado do Rio já se beneficia tremendamente com essa atividade da Petrobras - a qual gera investimentos e empregos --, e, sendo assim, não teria o "direito" de pleitear ainda mais do que isso, sendo "justo" que redistribuísse para o resto do Brasil todos esses royalties.

    Pra mim, o problema principal continua sendo ausência de propriedade privada.

    Sendo que a fatia de royaties para cada município ou e estado seria mto pouca, o que ou iria "acabar indo pro ralo", não resolvendo nenhuma problema social.

    Concordo.

    Ao meu ver, enviar todo esse dinheiro(e não so parte dele) a uma Fundo Social (como um fundo soberano de estabilização), seria o mai correto a se fazer.

    O problema é que isso seria concentrar ainda mais dinheiro nas mãos do estado. E não há e nem nunca houve nenhuma evidência de que ele seja um bom gestor. Ademais, por melhor que seja a intenção, ficar criando fundo social serve apenas para fomentar mais desvios, corrupção e clientelismo.

    Pois, o dinheiro não causaria os impactos negativos no Rio, e tbm não se perderia na redistribuição do mesmo pelo país.

    Quanto a isso eu concordo.

    [ b] Assim, o dinheiro não causaria a inflação simples, [/b]

    Só pra enfatizar, apenas o Rio teria esse problema.

    pois geraria desenvolvimento industrial,

    Apenas direcionar dinheiro não gera desenvolvimento industrial. Para tal é necessário haver acumulação de bens de capital e mão-de-obra capacitada. Oferta de dinheiro pode atrair a segunda, mas não necessariamente gera a primeira.

    É verdade que uma área qualquer que passe a receber dinheiro poderá comprar bens de capital de outros estados e, assim, iniciar um processo de industrialização. Mas essa disputa por bens de capital (que foi gerada artificialmente, apenas por desvio de dinheiro) geraria um aumento dos preços destes bens para o resto do país. E esse encarecimento de insumos dificultaria ainda mais a expansão industrial de todo o país.

    Ademais, tal processo de redistribuição iria fazer com que estes bens de capital fossem direcionados para os locais onde há mais dinheiro, mas não necessariamente mais poupança.

    Ou seja, é complexo. Qualquer intervenção gera consequências não intencionadas. Não é questão de ideologia; é ciência econômica pura.

    mitigando o efeito cambial de se exportar mtos recusros (doença holandesa),

    Isso vale apenas para os países que exportam maciçamente seus recursos e, como consequência, sofrem forte apreciação cambial. Não é necessariamente o caso dos royalties do petróleo.

    e também desenvolvimento social, atráves de programas e projetos de saúde, cutltura e tecnologia.

    Aí eu repito o que eu disse: ficar delegando ao estado essas funções e, principalmente, ficar enchendo-o de dinheiro para tal, é o caminho mais curto para a corrupção, o clientelismo e a perpetuação de escroques no poder.

    Minha opinião? Deixem esses recursos para a Petrobras. Dos males, o menor.
  • Emerson Luis, um Psicologo  20/05/2014 13:28

    Felizmente esse pré-sal não deu certo, por enquanto o Brasil escapou da maldição do petróleo.

    * * *
  • Smith  09/04/2018 10:58
    Entrei no artigo, pois deparei com a Lei da Responsabilidade Fiscal de 2000. Eu estava acompanhando os presidenciáveis e acabei me deparando com esse trecho a respeito de José Luis Fevereiro (possível ministro da fazenda do PSOL):

    Na contramão do pensamento de Lisboa está José Luis Fevereiro, economista do PSOL, que deve ter como candidato o líder do movimento dos sem-teto, Guilherme Boulos. "Não há nenhuma emergência fiscal, ao contrário do que diz o governo", afirmou Fevereiro, a sério. "Nós emitimos nossa própria moeda, portanto, não há risco de insolvência."

    epoca.globo.com/economia/noticia/2018/02/quem-sao-os-conselheiros-economicos-dos-pre-candidatos-presidencia.html

    O que o tal economista está defendendo então é a mesma coisa do que foi feito na década de 80/90? Eu não quis questionar isso em um debate para não ser um "espantalho", pois acho inacreditável que isso seja defendido ainda hoje, até porque é proibido (como mostra o artigo). Mas é isso o que ele defende então?

    Outro ilustríssimo economista do PSOL defendeu quase a mesmo coisa, dizendo que não tem sentido termos uma dívida com nossa própria moeda, sendo nós produzimos a tal moeda. Ao ser ridicularizado ou rebatido, ele cita uma tal teoria que eu até então desconhecia, que é a MMT. Poderiam explicar o motivo dessa teoria ser uma "furada", e como ele se encaixa com o que o cara defende?

    Abraço.
  • Davi  06/09/2018 18:16
    Leandro, você sabe dizer qual o motivo do RJ estar quebrado? Sempre dizem que a queda dos preços dos barris de petróleo é o principal motivo.
  • Auxiliar  06/09/2018 18:21
    Explicado em detalhes aqui:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2466


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.