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Algumas observações fundamentais sobre a natureza benevolente do capitalismo

Palestra proferida no Ludwig von Mises Institute em 19 de outubro de 2002.


Por "natureza benevolente do capitalismo" refiro-me ao fato de que ele promove a vida humana e o bem-estar, e o faz para todos.  Inúmeras observações desse tipo — as quais foram desenvolvidas ao longo de mais de três séculos — foram feitas por uma série de grandes pensadores, indo desde John Locke até Ludwig von Mises e Ayn Rand.  Eu apresento o máximo possível delas no meu livro Capitalism.

Irei aqui discutir brevemente apenas treze dessas observações que considero serem as mais importantes, e as quais acredito — quando tomadas juntas — serem capazes de tornar a argumentação em favor do capitalismo irresistível.  Irei discuti-las aproximadamente na mesma sequência em que aparecem no meu livro.  Apenas peço desculpas pela brevidade e concisão.  Cada uma dessas observações por si sós requereriam uma discussão muito maior do que todo o tempo que me foi alocado para palestrar hoje.  Felizmente posso valer-me do fato de que, ao menos em meu livro, creio tê-las apresentado nos detalhes que merecem.

E agora, permitam-me começar.

1) A liberdade individual — uma característica essencial do capitalismo — é a base da segurança, no sentido tanto da segurança pessoal quanto da segurança econômica.  Liberdade significa a ausência de iniciação de força física.  Quando um indivíduo é livre, ele está seguro — protegido — dos crimes comuns, pois ele está livre exatamente de atos como assalto e agressão, roubo, estupro e assassinato, todos os quais representam iniciação de força física.  Ainda mais importante, obviamente, é o fato de que, quando um indivíduo é livre, ele está livre da iniciação de força física oriunda do governo, a qual é potencialmente muito mais mortífera que qualquer força oriunda de uma gangue privada qualquer.  (A Gestapo e o KGB, por exemplo, com seus métodos de escravização e o assassinato de milhões de cidadãos, fazem com que criminosos comuns pareçam indivíduos quase que afáveis em comparação.)

O fato de a liberdade ser sinônimo de ausência de iniciação de força física também significa que a paz é um corolário da liberdade.  Onde há liberdade, há paz, pois não há nenhum uso da força: na medida em que a força não é iniciada por ninguém, o uso da força como meio de defesa ou de retaliação não é requerido.

A segurança econômica fornecida pela liberdade deriva-se do fato de que, sob a liberdade, qualquer um pode escolher fazer aquilo que julga ser o melhor para seu próprio interesse, sem medo de ser impedido pela força física de qualquer outro, desde que ele próprio não inicie o uso da força física.  Isso significa, por exemplo, que ele pode escolher o mais bem remunerado trabalho que encontrar e comprar produtos dos ofertantes mais competitivos que houver; ao mesmo tempo, ele pode manter toda a renda que auferir e poupar o tanto que quiser, investindo sua poupança da maneira mais lucrativa que conseguir.  A única coisa que ele não pode fazer é iniciar força contra terceiros.  Com o uso da força proibido, a única maneira de um indivíduo aumentar a quantidade de dinheiro que ganha é utilizando seu raciocínio para descobrir como oferecer às outras pessoas mais ou melhores bens e serviços pelo mesmo valor monetário vigente, uma vez que essa é a maneira de induzi-las a voluntariamente gastar mais de seus fundos para comprar dele os mesmos bens e serviços que poderiam adquirir de seus concorrentes.  Assim, a liberdade é a base para que todos sejam tão economicamente seguros quanto o exercício de seu raciocínio e o raciocínio de seus fornecedores possam permitir.

2) Um aumento contínuo na oferta de recursos naturais acessíveis e economicamente utilizáveis torna-se possível na medida em que o homem torna-se capaz de converter uma maior parcela dessa virtual infinitude que é a natureza em bens e riqueza econômica.  Para tal ele se baseia tanto no crescente conhecimento que adquire sobre a natureza quanto no crescente poder físico capaz de exercer sobre ela.  (Para uma elaboração desse ponto importante, por favor vejam o capítulo 3 do meu livro, ou o meu ensaio  "O ambientalismo à luz de Menger e Mises").

3) A produção e a atividade econômica, por sua própria natureza, servem para melhorar o ambiente do homem.  Isso porque, do ponto de vista da física e da química, toda a produção e toda a atividade econômica consistem em rearranjar, em combinações distintas, os elementos químicos fornecidos pela natureza, e transportá-los para diferentes localidades geográficas.  O propósito que norteia esse rearranjo e transportação é essencialmente fazer com que os elementos químicos possibilitem um aprimoramento da relação entre a vida humana e o bem-estar.  Tal procedimento coloca os elementos químicos em combinações e localidades nas quais eles podem fornecer uma maior utilidade e um maior benefício aos seres humanos.

Por exemplo, a relação dos elementos químicos ferro e cobre com a vida e o bem-estar do homem é enormemente melhorada quando ambos são extraídos de debaixo da terra e utilizados para fabricar produtos como automóveis, geladeiras e cabos elétricos.  Da mesma forma, a relação de elementos químicos como carbono, hidrogênio, oxigênio e nitrogênio com a vida e o bem-estar do homem é aperfeiçoada quando eles podem ser combinados para produzir energia e luz elétrica.  A relação de um pedaço de terra com a vida e o bem-estar do homem é aprimorada quando, ao invés de ter dormir sobre ela dentro de um saco de dormir e ter de tomar precauções contra cobras, escorpiões e animais selvagens, ele pode dormir dentro de uma moderna e bem construída casa erigida sobre esse pedaço de terra, com todos os utensílios e confortos que já consideramos rotineiros.

A totalidade dos elementos químicos constitui o ambiente externo material do homem, e é precisamente para aprimorar essa relação que servem a produção e a atividade econômica.

4) A divisão do trabalho — uma característica dominante do capitalismo e cujo desenvolvimento pleno pode existir apenas sob o sistema capitalista — proporciona, entre outros benefícios, enormes ganhos para todos.  Isso ocorre por meio da multiplicação da quantidade de conhecimento que entra no processo produtivo, fenômeno esse que gera, como consequência, um aumento contínuo e progressivo da própria quantidade de conhecimento. 

Apenas considere isso: cada ocupação distinta, cada sub-ocupação, possui seu próprio e único corpo de conhecimento (a soma de todo o conhecimento em uma dada especialidade).  Em uma sociedade capitalista, baseada na divisão do trabalho, a quantidade de corpos de conhecimento distintos entrando no processo de produção é proporcional à quantidade de empregos existentes.  A totalidade desse conhecimento opera em benefício de cada indivíduo consumidor, quando este compra os produtos produzidos por outros — sendo que o mesmo é válido para o indivíduo produtor, na medida em que sua produção é auxiliada pelo uso de bens de capital previamente produzido por outros.

Assim, imagine um determinado indivíduo que trabalha como carpinteiro.  Seu corpo de conhecimento é a carpintaria.  Porém, enquanto consumidor, ele se beneficia de todas as outras ocupações distintas que existem no sistema econômico.  A existência de um corpo de conhecimento tão extenso e disperso é essencial para a existência de uma infinidade de produtos — sendo que cada produto requer em seu processo de produção mais conhecimento do que qualquer indivíduo — ou um pequeno número de indivíduos — pode ter.  Dentre tais produtos, é claro, temos o maquinário, algo que não poderia ser produzido na ausência de uma divisão do trabalho extremamente ampla e do vasto corpo de conhecimento que isso gera.

Ademais, em uma sociedade capitalista, baseada na divisão do trabalho, uma grande proporção dos membros mais inteligentes e ambiciosos da sociedade — tais como os gênios e outros indivíduos de grande talento — escolhem sua especialização exatamente nas áreas que têm o efeito de melhorar e aumentar progressivamente o volume de conhecimento que é aplicado na produção.  Este é o efeito gerado quando tais indivíduos se especializam em áreas como ciência, invenção e negócios.

5) Pelo menos desde a época de Adam Smith e David Ricardo já se sabe que a economia capitalista gera uma tendência à equalização da taxa de retorno do capital (taxa de lucro) em todos os ramos do sistema econômico.  Por exemplo, se em uma determinada área as taxas de retorno estão acima da média, isso fornecerá um incentivo — bem como os meios — para se aumentar o investimento naquela área, o que gerará mais produção e oferta, o que consequentemente provocará uma redução nos preços e na taxa de retorno.  Inversamente, se as taxas de retorno estão abaixo da média, o resultado será uma redução no investimento e uma redução na produção e na oferta, seguidas de um aumento nos lucros e na taxa de retorno.  Dessa forma, taxas de lucro altas caem e taxas baixas sobem.

O funcionamento desse princípio serve não apenas para manter as diferentes áreas de uma economia capitalista em equilíbrio adequado entre si, mas também para dar aos consumidores o poder de determinar o tamanho relativo das várias indústrias, algo que pode ser feito por meio de seus hábitos de compra ou de abstinência de compra, para usar as palavras de von Mises.  Onde os consumidores gastam mais, os lucros sobem, e onde os consumidores gastam menos, os lucros caem.  Em resposta aos lucros maiores, o investimento e a produção aumentam; e em resposta aos lucros menores ou aos prejuízos, o investimento e a produção diminuem.  Assim, o padrão de investimento e produção é forçado a seguir o padrão de gastos do consumidor.

Talvez ainda mais importante, essa tendência à uniformização da taxa de retorno sobre o capital investido serve para criar um padrão de progressivo aperfeiçoamento nos produtos e métodos de produção.  Qualquer empreendimento poderá auferir uma taxa de retorno acima da média caso introduza um produto novo ou aprimorado que os consumidores queiram comprar, ou um método mais eficiente e de mais baixo custo de se produzir um produto já existente.  Porém, o alto lucro que esse empreendimento desfrutar irá atrair novos concorrentes, fazendo com que essa inovação seja amplamente adotada.  E assim que isso ocorrer — isto é, a concorrência do setor aumentar e a inovação for amplamente adotada —, os altos lucros desaparecerão, sendo que o resultado final é que foram os consumidores que ganharam todo o benefício da inovação.  Eles acabaram ganhando melhores produtos e pagando preços mais baixos.

Se a empresa que fez a inovação quiser continuar obtendo uma taxa de lucro excepcional, ela terá de introduzir outras inovações, as quais acabarão gerando os mesmos resultados.  Obter uma alta taxa de lucro por um longo período de tempo requer a introdução de uma série contínua de inovações, com os consumidores obtendo o total benefício de todas elas, desde a primeira até as mais recentes.

6) Como von Mises demonstrou, em uma economia de mercado — que é o que o capitalismo é —, a propriedade privada dos meios de produção traz benefícios para todos, tanto para seus proprietários quanto para os não-proprietários.  Os não-proprietários se beneficiam dos meios de produção pertencentes a outras pessoas.  Eles obtêm esse benefício ao comprarem os produtos fabricados por aqueles meios de produção.  Para que eu possa me beneficiar com as fábricas e equipamentos de uma montadora de automóveis, ou com os campos petrolíferos, oleodutos e refinarias de uma empresa de petróleo, eu não preciso ser acionista dessas empresas.  Tudo o que eu tenho de fazer é ter a capacidade de comprar o automóvel ou a gasolina ou qualquer coisa que elas produzam.

Ademais, graças ao aspecto dinâmico e progressivo do princípio da uniformidade-da-taxa-de-lucro ou taxa-de-retorno que expliquei acima, o benefício geral trazido pelos meios de produção privados aos não-proprietários aumenta continuamente, uma vez que eles podem comprar cada vez mais e melhores produtos a preços reais progressivamente decrescentes.  Não se pode deixar de enfatizar que esses ganhos progressivos, e o padrão de vida crescente que proporcionam, dependem primordialmente das instituições capitalistas da propriedade privada dos meios de produção, da busca pelo lucro, e da concorrência econômica — sem as quais não seriam possíveis.  São essas instituições que fundamentam uma motivada e efetiva iniciativa individual, que consequentemente faz aumentar o padrão de vida.

7) Um corolário do benefício geral criado pela propriedade privada dos meios de produção é o benefício para a sociedade gerado pela instituição da herança.  Não apenas os herdeiros mas também os não-herdeiros se beneficiam de sua existência.  Os não herdeiros se beneficiam porque a instituição da herança estimula a poupança e a acumulação de capital, no sentido de que leva as pessoas a acumular e manter capital para ser transmitido a seus herdeiros.  O resultado da existência desse capital adicional acumulado é a existência de mais meios de produção produzindo para o mercado, gerando mais e melhores produtos para que todos possam comprar.

O efeito desse capital adicional, obviamente, é a criação de uma demanda adicional por mão-de-obra e, consequentemente, por maiores salários.  A demanda por mão-de-obra — já deveria estar claro — é uma forma fundamental por meio da qual todos os meios de produção em mãos privadas operam para o benefício dos não-proprietários.  O capital é a base tanto da demanda por mão-de-obra quanto da oferta de produtos.

8) No capitalismo, não apenas o ganho de um indivíduo não significa uma perda para outro — desde que esse ganho advenha de um aumento na produção total —, como também — nos casos mais importantes como, por exemplo, naqueles em que grandes fortunas industriais são construídas — o ganho de um homem gera positivamente ganhos para outros homens.  Isso advém do fato de que os simples requisitos aritméticos para se construir uma grande fortuna são: obter uma alta taxa de lucro sobre o capital por um prolongado período de tempo, e poupar e reinvestir a grande parte desses lucros obtidos, ano após ano.

Como já vimos, a obtenção de uma alta taxa de lucro durante um prolongado período de tempo, frente à concorrência, requer a introdução de uma série de inovações significativas.  Essas inovações representam produtos melhores e mais baratos para os consumidores.  A poupança e o reinvestimento dos lucros obtidos nas inovações constituem a acumulação dos meios de produção, o que também é benéfico para os consumidores.  Assim, tanto em sua origem — nos altos lucros — como em seu destino — a acumulação de capital —, as grandes fortunas industriais representam benefícios correspondentes para o público consumidor em geral.  Por exemplo, o velho Henry Ford iniciando seu empreendimento com um capital de US$25.000 em 1903 e terminando com um capital de US$1 bilhão em 1946 foi apenas um lado de uma moeda em cujo outro lado estava o cidadão comum, que passou a poder comprar um automóvel muito melhor e mais eficientemente produzido — produzido em larga escala nas fábricas que representavam o bilhão de Ford.

9) Como von Mises demonstrou, a competição econômica que ocorre sob o capitalismo é radicalmente diferente da competição biológica que prevalece no reino animal.  Com efeito, seu caráter é diametralmente oposto.  As espécies animais têm de lidar com meios de subsistência escassos e naturais, cuja quantidade eles não podem aumentar.  Já o homem, em virtude de possuir a razão e a inteligência, pode aumentar a oferta de todas as coisas das quais dependem sua sobrevivência e bem-estar.  Assim, ao invés da competição biológica de animais brigando entre si para arrebatar uma fatia de quantidades limitadas de recursos naturais, com os fortes triunfando e os fracos perecendo, a competição econômica sob o capitalismo é uma disputa para ver quem mais consegue aumentar a quantidade de bens existentes, sendo que o resultado prático de tal competição é fazer com que todos vivam melhor e mais longevamente.

De maneira completamente distinta aos leões numa selva, que precisam competir por uma oferta limitada de animais como zebras e gazelas, por meio do poder de seus sentidos e membros, os produtores no capitalismo competem por uma quantidade limitada de dinheiro que está nas mãos dos consumidores, pelo qual competem oferecendo os melhores e mais econômicos produtos que suas mentes são capazes de conceber.  Dado que tal competição é do tipo que visa à criação positiva de riqueza nova e adicional, não há perdedores reais no longo prazo.  Há apenas ganhadores.

A competição dos agricultores e dos fabricantes de equipamentos agrícolas permite que os famintos e os fracos possam se alimentar e crescer saudáveis; a competição dos fabricantes de produtos farmacêuticos permite que os doentes possam recuperar sua saúde; a competição dos fabricantes de óculos, lentes de contato e aparelhos auditivos permite que muitas pessoas que de outra forma não poderiam ver ou ouvir, agora o possam.  Longe de ser uma competição cujo resultado é "a sobrevivência do mais forte", a competição no capitalismo é mais acuradamente descrita como uma competição cujo resultado é a sobrevivência de todos, ou pelo menos de um número cada vez maior de pessoas, proporcionando maior longevidade e melhores condições de vida.  O único sentido no qual é correto dizer que no capitalismo somente o mais "forte" ou mais "apto" sobrevive é quando se pensa nos produtos criados: apenas os produtos mais aptos e os mais sólidos métodos de produção sobrevivem, até que sejam substituídos por produtos e métodos de produção ainda mais aptos, gerando os efeitos sobre a sobrevivência humana acima descritos.

Como von Mises também já demonstrou, ao desenvolver a lei das vantagens comparativas de David Ricardo e extrapolá-las até a lei da associação, existe espaço para todos na competição do capitalismo.  Mesmo aqueles que são menos capazes que os outros, em todos os sentidos, ainda têm seu lugar.  Com efeito, em grande medida, a competição sob o capitalismo, longe de ser uma questão de conflito entre seres humanos, é um processo que organiza harmoniosamente aquele grande sistema de cooperação social conhecido como divisão do trabalho.  Ela decide até que ponto cada indivíduo, dentro desse abrangente sistema de cooperação social, irá dar sua contribuição específica — quem, por exemplo, e por quanto tempo, será o presidente de uma indústria, quem será o zelador e quem irá preencher todas as posições intermediárias.

Nessa competição, cada indivíduo, por mais limitadas que sejam suas habilidades, pode superar todos os demais — sem se importar com o quão mais talentosos estes são — na busca de seu nicho produtivo.  Literalmente, e sendo este um acontecimento diário e banal, aqueles cujas habilidades não são maiores do que as necessárias para ser um zelador são capazes de superar, sem qualquer dificuldade, os maiores gênios produtivos do mundo — para obter um emprego de zelador.  Por exemplo, Bill Gates pode ser um indivíduo tão superior que, além de ser capaz de revolucionar a indústria de software, ele também é capaz de limpar cinco vezes tantos metros quadrados de um escritório na mesma duração de tempo que qualquer zelador do planeta, e ainda fazer um serviço melhor.  Mas Gates pode ganhar um milhão de dólares por hora administrando a Microsoft, e os zeladores podem estar dispostos a trabalhar por, digamos, $10 a hora, sendo que essa propensão deles para executar o mesmo serviço a um centésimo de milésimo do salário que Gates cobraria supera enormemente a menor habilidade que possuem, de modo que são eles agora que estão em clara preferência e vantagem na situação.

Ao mesmo tempo, pelo fato de os gênios produtivos serem livres para revolucionar com sucesso produtos e métodos de produção, aqueles indivíduos cujas habilidades não são maiores do que as requeridas para serem zeladores poderão, como consequência do trabalho dos gênios, usufruir não apenas alimentos, roupas e abrigo, mas também produtos como automóveis, televisões e computadores, produtos cuja própria existência eles provavelmente jamais poderiam conceber por conta própria.

Os prejuízos associados à competição são, em sua maioria, apenas perdas de curto prazo.  Por exemplo, assim que os ferreiros e criadores de cavalo que perderam seus negócios por causa da invenção do automóvel encontraram outras linhas de trabalho de mesmo nível, o único efeito duradouro do automóvel sobre eles é que, como consumidores, eles passaram a poder desfrutar as vantagens do automóvel em relação ao cavalo.  Similarmente, os fazendeiros que utilizavam mulas, e que foram desalojados do mercado pela concorrência dos fazendeiros que utilizavam tratores, não morreram de inanição — eles simplesmente tiveram de mudar sua linha de trabalho; e quando o fizeram, passaram a usufruir, junto com todo o resto, uma oferta muito mais abundante de comida e de outros produtos, os quais puderam ser produzidos precisamente porque utilizaram a mão-de-obra liberada pela agricultura.

Mesmo naqueles casos em que uma concorrência isolada resulta em um indivíduo tendo de passar o resto de sua vida em uma situação econômica inferior àquela que desfrutava antes, como por exemplo o dono de uma fábrica de chicotes de cavalo tendo de viver o resto de sua vida como um assalariado comum após ter ido à falência por causa da invenção do automóvel — mesmo ele não pode alegar sensatamente que a competição o prejudicou.  O máximo que ele pode razoavelmente alegar é que, de agora em diante, os formidáveis benefícios que a concorrência lhe traz são menores do que os ganhos ainda mais formidáveis que ele dela obtinha anteriormente.  Pois é a concorrência que sustenta a produção e a oferta de tudo que ele continua apto a comprar e é ela a responsável pelo poder de compra de cada unidade monetária de sua renda e da renda de todos.  E, é claro, é a concorrência também que faz aumentar sua renda real, retirando-a do nível para o qual havia caído.  

Pra dizer a verdade, sob o capitalismo a concorrência eleva o padrão de vida do assalariado médio para níveis maiores até mesmo do que aqueles desfrutados pelas pessoas mais ricas do mundo, que viveram algumas gerações atrás.  (Hoje, por exemplo, um assalariado médio em um país capitalista possui um padrão de vida maior até mesmo que o da Rainha Vitória em provavelmente todos os aspectos, exceto na capacidade de contratar servos).

10) E agora — mais uma vez créditos para Mises —, longe de representar o caos sem planejamento e a "anarquia da produção" alegada pelos marxistas, o capitalismo é na realidade um sistema econômico tão inteiramente e racionalmente planejado quanto é humanamente possível.  O planejamento que ocorre no capitalismo, sem ser reconhecido como tal, é o planejamento feito por cada participante individual do sistema econômico.  Qualquer indivíduo que pense em praticar uma atividade econômica que irá lhe beneficiar, e em como desenvolvê-la, está incorrendo em um planejamento econômico.  Indivíduos planejam comprar casas, automóveis, eletrodomésticos e principalmente alimentos.  Planejam para quais trabalhos treinar e onde oferecer e aplicar as habilidades que possuem.  As empresas planejam a introdução de novos produtos ou a interrupção da produção de alguns já existentes; elas planejam mudar seus métodos de produção ou continuar aplicando os métodos que utilizam presentemente; planejam abrir filiais ou fechar filiais; planejam contratar novos empregados ou demitir os que atualmente empregam; planejam incrementar seus estoques ou reduzi-los.

Vários outros exemplos de planejamento econômico diário e rotineiro incorrido por indivíduos e empresas podem ser encontrados.  O planejamento econômico privado está em todo lugar à nossa volta e todas as pessoas o praticam.  Porém, para todos, exceto os estudiosos de Mises, ele é invisível.  Para aqueles que ignoram os ensinamentos de Mises, planejamento econômico é jurisdição exclusiva do governo.

Um imenso e difuso planejamento econômico não apenas existe no âmbito privado como também é totalmente coordenado, integrado e harmonizado de modo a produzir um sistema econômico coesivamente planejado.  O meio que possibilita essa ocorrência é o sistema de preços.  Todo o planejamento econômico dos indivíduos e das empresas privadas ocorre tendo por base uma consideração sobre os preços — preços que constituem custos e também receita ou renda.  Indivíduos que planejam comprar bens ou serviços de qualquer tipo estão sempre considerando os preços desses bens ou serviços e estão preparados para alterar seus planos em decorrência de uma mudança nos preços.

Os indivíduos que planejam vender bens ou serviços sempre levam em consideração os preços que podem esperar por eles, e estão também preparados para mudar seus planos caso haja uma mudança nos preços.  As empresas, obviamente, baseiam seus planos em uma consideração tanto das receitas de venda quanto dos custos — portanto, dos respectivos preços que constituem ambos — e estão preparadas para alterar seus planos em resposta a mudanças na lucratividade.

Desta forma, quando minha esposa e eu nos mudamos para a Califórnia, por exemplo, nosso plano de vida era comprar uma casa em uma montanha com vista para o Oceano Pacífico.  Porém, após vermos os preços de tais casas, rapidamente decidimos que era necessário rever nosso plano e procurar uma casa vários quilômetros no interior.  Desta forma, fomos levados a alterar nosso plano de moradia de uma forma que harmonizava com os planos das outras pessoas, as quais também haviam planejado comprar o mesmo tipo de casa que minha esposa e eu queríamos comprar, mas que estavam mais dispostas e podiam destinar mais dinheiro aos seus planos do que nós podíamos.  As ofertas mais altas das outras pessoas e a nossa consideração dessas ofertas geraram uma harmonização do nosso plano de moradia com o delas.

Similarmente, um ingênuo aspirante a universitário pode ter um plano de carreira que o levaria a se especializar em literatura francesa medieval ou em poesia da Renascença.  Mas em algum momento antes do final de seu ensino médio, ele chega à conclusão que, caso persista nesse plano de carreira, a probabilidade de passar o resta da vida esfomeado em um sótão é muito alta.  Por outro lado, se ele mudar seu plano de carreira e se especializar em uma área como contabilidade ou engenharia, ele pode esperar um padrão de vida muito confortável.  E, ato contínuo, ele muda seu plano de carreira e sua especialização.  Ao mudar seu plano de carreira baseando-se em uma consideração sobre sua renda futura esperada, o estudante está fazendo uma mudança que gera maior harmonia com os planos das outras pessoas no sistema econômico — pois a execução dos planos dessas outras pessoas irá requerer muito mais os serviços de contadores e engenheiros do que de especialistas em literatura.

Um último exemplo: quando os consumidores mudam seus planos de dieta — e passam a comer, digamos, mais peixe e frango e menos carne vermelha —, isso resulta em uma correspondente mudança nos seus padrões de compra e abstenção de compra.  Assim, a fim de manter sua lucratividade, os supermercados e restaurantes precisam planejar mudanças em suas ofertas, isto é, aumentar as quantidades de peixe e frango, bem como as de refeições baseadas em peixe e frango, e diminuir as quantidades de carne vermelha nas prateleiras e nas refeições.  Essas alterações de planos, e a correspondente alteração de compras, que elas induzem nos supermercados e restaurantes resultam em subsequentes alterações nos planos e nas compras dos fornecedores dos supermercados e restaurantes, bem como nos planos e nas compras dos fornecedores desses fornecedores, e assim sucessivamente até que todo o sistema econômico tenha sido suficientemente replanejado de acordo com as mudanças ocorridas inicialmente nos planos e nas compras dos consumidores.

O sistema de preços, e as considerações de custos e receitas que ele permite aos indivíduos, faz com que o sistema econômico esteja sendo continuamente replanejado em resposta às mudanças na demanda e na oferta, de modo a maximizar os ganhos e a minimizar as perdas e a garantir que cada processo individual de produção seja feito de modo a colaborar ao máximo com a produção de todo o resto do sistema econômico.

Por exemplo, como resultado de um decréscimo na oferta de petróleo, haverá um aumento em seus preços e nos preços dos produtos derivados do petróleo.  Todos os compradores individuais levarão em consideração esses preços mais altos em relação às suas próprias circunstâncias específicas — no caso dos consumidores, suas próprias necessidades e desejos; no caso das empresas, sua capacidade de transmitir o aumento de preços para os consumidores.  E todos eles irão considerar as alternativas existentes ao petróleo e aos produtos derivados do petróleo em cada caso particular. 

Desta forma, com base em seu pensamento individual e em seu planejamento, cada um dos participantes irá reduzir sua demanda por esses itens da maneira que menos venha a prejudicar seu bem-estar.  E assim, o pensamento e o planejamento de todos os participantes do sistema econômico que utilizam petróleo ou produtos derivados do petróleo irão determinar — como resposta ao aumento de preços — onde e em que quantidade o montante demandado desses produtos irá diminuir. 

Esse é claramente um exemplo de resposta que tenta minimizar os efeitos de uma queda na oferta.  A redução na oferta será seguida de uma equivalente redução de seu emprego naquelas atividades menos importantes para as quais a oferta anterior era suficiente.

Similarmente, o sistema de preços e o pensamento e planejamento individual de todos os participantes levam a uma maximização dos ganhos quando ocorre um aumento na oferta de qualquer fator de produção escasso.  A quantidade adicional é absorvida naquelas aplicações em que ela é mais altamente valorizada, isto é, naqueles em que a oferta adicional pode ser absorvida sem que isso provoque grandes reduções nos preços.

Ironicamente, ao passo que o capitalismo é um sistema econômico extensa e racionalmente planejado e continuamente replanejado em resposta às mudanças nas condições econômicas, o socialismo, como Mises já demonstrou, é incapaz de fazer um planejamento econômico racional.  Ao destruir o sistema de preços e suas fundações — a saber, a propriedade privada dos meios de produção, a busca pelo lucro e a concorrência —, o socialismo destroi a divisão intelectual do trabalho que é essencial para o planejamento econômico racional.  Ele exige a tarefa impossível de fazer com que o planejamento de todo o sistema econômico seja executado por uma única mente, como se fosse um todo indivisível, algo que apenas uma divindade onisciente poderia fazer.

O que o socialismo representa é algo tão distante de um planejamento econômico racional que na verdade ele constitui o exato oposto: a proibição do planejamento econômico racional.  Em primeira instância, por sua própria natureza, o socialismo consiste na proibição do planejamento econômico feito por todas as pessoas da sociedade, excetuando-se o ditador e os outros membros do comitê de planejamento central.  Eles desfrutam o privilégio monopolístico do planejamento pois seguem a crença absurda e virtualmente insana de que seus cérebros podem alcançar as mesmas capacidades totalmente perceptivas e conhecedoras das divindades oniscientes.  Mas não podem.  Consequentemente, o socialismo na realidade representa uma tentativa de substituir o pensamento e o planejamento de dezenas e centenas de milhões, ou mesmo bilhões, de pessoas pelo pensamento e planejamento de apenas um homem, ou no máximo de um punhado deles.  Por sua própria natureza, essa tentativa de fazer com que os cérebros de alguns poucos supram as necessidades e desejos de muitos tem tão pouca possibilidade de êxito quanto teria uma tentativa de fazer com que as pernas de poucos fossem um veículo para transportar o peso de muitos.

Para que haja um planejamento econômico racional, é necessário que o planejamento e o pensamento de todos os indivíduos sejam independentes, operando em um ambiente em que haja propriedade privada dos meios de produção e um livre sistema de preços — ou seja, no capitalismo.

11) Volto-me agora para a questão do monopólio.  O socialismo é o sistema do monopólio.  O capitalismo é o sistema da liberdade e da livre concorrência.

Como Mises demonstrou, os requerimentos essenciais dados pela natureza para a vida humana, como água potável, terra arável e os suprimentos acessíveis de praticamente todos os minerais, existem em quantidades tão grandes que nem todas as fontes disponíveis podem ser exploradas.  A mão-de-obra que seria necessária para tal empreendimento não está disponível.  Ela está empregada em pedaços de terra e em depósitos minerais que são mais produtivos ou nas numerosas operações de manufatura e comércio, onde, por meio dos preços de mercado, seu emprego demonstra ser mais importante do que na produção de quantias adicionais de minerais ou de commodities agrícolas.

Nessas condições, e na ausência de interferência governamental, o fator necessário para permitir que qualquer produtor (ou combinação de produtores) se torne o único ofertante de qualquer bem é que o preço que ele venha a cobrar seja tão baixo que faça não valer a pena para outros ofertantes em potencial entrarem nessa atividade.  A posição de ofertante único é assegurada pelo baixo preço praticado, sendo que tal prática não provê uma base para se impor futuramente um preço elevado.

O mesmo ponto essencial se aplica aos casos em que a necessidade de se investir grandes somas de capital limita severamente o número de ofertantes.  Aqui, um grande capital é necessário para que seja possível obter baixos custos de produção, que são necessários para que seja lucrativo vender a preços baixos.

Monopólio é na prática o resultado da intervenção do governo.  Especificamente, trata-se da limitação de um mercado ou de parte de um mercado para um ou mais ofertantes por meio da iniciação de força física.  Concessões exclusivas dadas pelo governo, tarifas protecionistas e leis de licenciamento para diversas atividades são alguns exemplos.

12) O capitalismo é um sistema que permite que os salários reais cresçam progressivamente, que as horas de trabalho sejam encurtadas e que as condições de trabalho melhorem constantemente.  Ao contrário do que ensinaram Karl Marx e Adam Smith, empresários e capitalistas (os detentores do capital) não deduzem seus lucros daquele montante que supostamente era, em sua origem, salários completos para os trabalhadores — ou o que naturalmente ou por justiça deveriam ser salários completos dos trabalhadores.  A forma original e primária de renda é o lucro, e não os salários.

Os trabalhadores manuais que produziam e vendiam produtos, seja no "estado original e rude da sociedade" de Adam Smith ou na "circulação simples" de Karl Marx, não ganhavam salários, mas sim receitas de vendas.  Quando um indivíduo vende um pão ou um par de sapatos ou qualquer outro produto, esse indivíduo não recebe como pagamento um salário, mas sim uma receita de venda.  E exatamente porque aqueles trabalhadores manuais não se comportavam como capitalistas — isto é, não compravam com o intuito de vender posteriormente, mas sim apenas na qualidade de meros consumidores —, eles não faziam gastos a fim de produzir quaisquer bens que poderiam ser vendidos.  Portanto, eles não incorriam em nenhum custo monetário que deveria ser deduzido de suas receitas de venda; ou seja, o valor total de suas receitas de venda era lucro, e não salários.  O lucro, portanto, é a forma original e primária de renda do trabalho.

Contradizendo Adam Smith e Karl Marx, é somente com a chegada dos capitalistas e com a acumulação de capital que o fenômeno dos salários tem seu surgimento, junto com a demanda por bens de capital.  Tanto os salários quanto os gastos com bens de capital aparecem como custos monetários de produção que precisam ser deduzidos das receitas de venda.  Quanto mais capitalista é o sistema econômico — no sentido de que há um maior volume de compras de capital com o propósito de obter maiores receitas de venda —, maiores são os salários e outros custos relativos às receitas de venda; e, portanto, menores são os lucros em relação tanto às receitas de venda quanto aos salários. 

Em outras palavras, os capitalistas são responsáveis não pela criação do fenômeno do lucro e sua obtenção da dedução dos salários, mas sim pela criação dos fenômenos dos salários e dos custos monetários, e a dedução destes das receitas de vendas, as quais originalmente eram lucro em sua totalidade.  Os capitalistas são responsáveis pela criação dos salários, que são retirados das receitas de vendas.  Se dessas receitas não fossem subtraídas uma fatia para o pagamento de salários, elas representariam o lucro total.  Quanto mais numerosos e ricos são os capitalistas, maiores são os salários em relação aos lucros.

O fato de que assalariados podem estar dispostos a trabalhar em troca de um mínimo para a subsistência, na ausência de qualquer alternativa melhor, e que os empresários e capitalistas, como quaisquer outros compradores, preferem pagar menos e não mais, são proposições corretas em si, porém completamente irrelevantes para a determinação dos salários que os assalariados devem de fato aceitar.  Esses salários são determinados pela concorrência entre os empregadores pela aquisição de mão-de-obra — a qual, além de ser fundamentalmente o elemento mais útil no sistema econômico, é intrinsecamente escassa.

Nessa concorrência, vai contra o próprio interesse de qualquer empregador permitir que os salários caiam abaixo do ponto que corresponde ao pleno emprego do tipo de trabalho em questão, na localidade geográfica em questão.  Tais baixos salários significam que a quantidade de mão-de-obra demandada excede a oferta disponível, isto é, existe uma escassez da mão-de-obra em questão.  Uma escassez de mão-de-obra é comparável a um leilão no qual ainda há dois ou mais licitantes que competem pelo mesmo bem.  A única maneira de o licitante que mais quer o bem — no caso, a mão-de-obra de alguém — poder obtê-lo, é superando as propostas feitas por seus competidores e, dessa forma, tornando o bem tão caro para eles que não lhes restará outra alternativa que não sair de cena e permitir que o licitante mais empenhado garanta para si o bem em questão.

No mercado de trabalho pode haver dezenas ou mesmo centenas de milhões de trabalhadores.  Mas a escassez de mão-de-obra significa que há empregos em potencial para um número muito maior que esse.  O fato de que cada um de nós gostaria de se beneficiar da mão-de-obra de pelo menos dez outras pessoas pode ser visto como um indicador da magnitude da escassez de mão-de-obra.

Quando o salário de um determinado tipo de trabalho cai para um nível menor do que aquele que corresponde ao pleno emprego, os empregadores que não podiam ou não estavam dispostos a pagar aquele nível mais alto agora poderão contratar mão-de-obra; e tudo em detrimento daqueles outros empregadores que podiam e estavam dispostos a pagar o nível de salário mais alto.  A situação é exatamente a mesma que ocorreria em um leilão caso o licitante mais poderoso perdesse o item que ele quer para um outro licitante menos poderoso.  A maneira do licitante mais poderoso assegurar a mão-de-obra de que precisa é elevando seu preço de oferta e, com isso, derrotando a concorrência dos empregadores menos poderosos.

Agora, dado o nível monetário dos salários — o qual, como vimos, é determinado pela concorrência entre empregadores por mão-de-obra escassa —, o que determina os salários reais, isto é, os bens e serviços que os assalariados podem comprar com o dinheiro que ganham, são os preços.  Os salários reais sobem apenas quando os preços caem em relação aos salários.  

O que faz os preços caírem em relação aos salários é um aumento na produtividade da mão-de-obra, isto é, do produto por unidade de trabalho.  Um aumento na produtividade da mão-de-obra significa uma maior oferta de bens de consumo em relação à oferta de mão-de-obra, e, consequentemente, preços menores dos bens de consumo em relação aos salários.  Se pudéssemos de alguma maneira mensurar a oferta de bens de consumo, uma duplicação da produtividade da mão-de-obra iria gerar uma duplicação da oferta de bens de consumo em relação à oferta de mão-de-obra e, dado o mesmo gasto global com bens de consumo e mão-de-obra, o resultado seria uma queda dos preços dos bens de consumo pela metade, sendo que os salários globais continuariam no mesmo nível.  Em outras palavras, isso iria dobrar os salários reais.

O aumento na produtividade da mão-de-obra é sempre o elemento essencial na elevação dos salários reais.  É o que possibilita que aumentos na quantidade de dinheiro e no volume de gastos, que são responsáveis por níveis médios maiores nos salários monetários (nominais), sejam acompanhados por preços que não aumentam ou que pelo menos não aumentam na mesma medida que os salários.

E o que é responsável pelo aumento na produtividade da mão-de-obra são as atividades dos empresários e capitalistas.  Suas inovações progressivas e a acumulação de capital que praticam permitem o aumento da produtividade da mão-de-obra; e, consequentemente, dos salários reais.

13) Finalmente, meu último ponto: um sistema monetário com reservas de 100% (para depósitos em conta-corrente) e tendo por lastro algum metal precioso tornaria uma sociedade capitalista à prova de inflação e de deflação/depressão.  O aumento modesto na oferta de metais preciosos, e consequentemente o modesto incremento no volume de gastos que isso ocasiona, não seria capaz de elevar os preços por causa da vigorosa taxa a que a produção e a oferta de praticamente todos os bens que não sejam metais preciosos aumentam no capitalismo.  Os preços muito provavelmente tenderiam a cair, como ocorreu nos EUA durante o século XIX.

Já preços em queda devido a um aumento na produção, por sua vez, não constituem deflação.  Eles não implicam qualquer redução na taxa média de lucro, isto é, da taxa média de retorno sobre o capital investido.  Tampouco implicam maiores dificuldades na quitação de dívidas.  Entretanto, uma queda nos lucros e um súbito aumento na dificuldade de se pagar as dívidas são sintomas essenciais de deflação/depressão.

Com efeito, como mostro em meu livro, o modesto aumento na quantidade de dinheiro e no consequente volume de gastos que ocorre sob um sistema monetário com 100% de reservas e baseado em metais preciosos serve para acrescentar um componente positivo para a taxa de retorno e fazer com que o pagamento de dívidas ligeiramente mais fácil, não mais difícil.  A queda de preços causada por um aumento na produção não interfere nisso.  Quando os preços caem devido ao fato de o aumento da produção ser maior que o aumento na quantidade de dinheiro e no volume de gastos, o vendedor comum passa a ter uma quantidade de bens para vender que é proporcionalmente maior do que a queda nos preços, o que o permite ganhar mais dinheiro, e não menos.

A genuína deflação, aquela que acompanha uma depressão, é a contração financeira — isto é, uma diminuição na quantidade de dinheiro e no volume de gastos.  É isso que aniquila a lucratividade e faz com que a quitação de dívidas seja mais difícil.  Mas tal contração é exatamente o que um sistema monetário com 100% de reservas e baseado em metais preciosos impede.  Ele a impede porque, assim que o dinheiro baseado em metais preciosos surge, ele não pode desaparecer subitamente, como ocorre com a atual moeda escritural criada do nada pelos bancos: quando os bancos quebram, o dinheiro some e há uma contração da oferta monetária.  E como a taxa de aumento dos metais preciosos é modesta, ela não gera uma redução substancial e artificial na demanda por dinheiro (para fins pessoais ou empresariais), redução essa que rapidamente se reverteria quando o aumento na quantidade de moeda fosse interrompido ou se desacelerasse.

Tampouco o contínuo aumento da poupança e da acumulação de capital que ocorre sob o capitalismo faz reduzir a taxa de retorno sobre o capital.  A poupança nominal que advém da renda monetária do indivíduo, advém em grande parte de uma taxa de retorno que é elevada pelo aumento na quantidade de dinheiro e no volume dos gastos; e desde que a quantidade de dinheiro e o volume de gastos continuem aumentando modestamente, essa poupança não reduz a taxa de retorno.

Se não houvesse nenhum aumento na quantidade de dinheiro e no volume de gastos, a taxa de retorno seria menor, porém estável nesse nível mais baixo.  A acumulação de capital ocorreria simplesmente em decorrência dessa queda nos preços, o que significa que um nível constante de gastos poderia comprar quantidades cada vez maiores de bens de capital.

Como mostro em meu livro, em tal contexto a função da poupança ocorre inteiramente em nível global, no qual determina questões tão vitais quanto o grau em que o sistema econômico se concentra na produção de bens de capital em relação aos bens de consumo e a duração do período de produção.  Os elementos essenciais para a acumulação de capital, portanto, são uma produção suficientemente alta de bens de capital e um período suficientemente longo de produção, tudo isso em conjunto com progresso tecnológico e tudo o mais que sirva para aumentar a produção — acima de tudo, liberdade econômica.



autor

George Reisman
é Ph.D e autor de Capitalism: A Treatise on Economics. (Uma réplica em PDF do livro completo pode ser baixada para o disco rígido do leitor se ele simplesmente clicar no título do livro e salvar o arquivo). Ele é professor emérito da economia da Pepperdine University. Seu website: www.capitalism.net. Seu blog georgereismansblog.blogspot.com.

  • Pedro Mundim  24/07/2010 01:17
    A propriedade privada e o mercado são a chave do progresso e da geração de riquezas. Riqueza só existe se é criada. Riqueza é criada por homens. E só há incentivos para o homem gerar riquezas quando ele tem a certeza de que o patrimônio adquirido não será tomado. Do contrário ninguém faz nada, não há novas idéias nem novos empreendimentos, e os trabalhadores apenas trabalham como escravos para o Estado, o único proprietário, e o fazem com a motivação e a boa vontade típica de todos os escravos.
  • Carlos Santos  25/07/2010 00:07
    Esse Reisman tem uma visão tão cor-de-rosa do capitalismo quanto Nozick.\r
    \r
    No item 1: A conclusão que o autor chega de que basta que os homens sejam livres para que vivam em paz é excessivamente otimista. Estudos sobre a causas da violência existem aos montes e nenhum deles chega a uma conclusão do tipo: acabem com as regulamentações e diminuam ou se possível eliminem os impostos e o mundo finalmente conhecerá a paz. Enquanto houver desigualdade social haverá violência, não digo isso por ser marxista (o que não sou), digo simplesmente por ser a verdade e a verdade nem sempre espelha a inclinação ideológica de um individuo.\r
    \r
    No item 2: "Um aumento contínuo na oferta de recursos naturais acessíveis e economicamente utilizáveis torna-se possível na medida em que o homem torna-se capaz de converter uma maior parcela dessa virtual infinitude que é a natureza em bens e riqueza econômica". Como assim? Quanto mais o homem agredir a natureza mais recursos poderá tirar dela? Isso me lembra a concepção das pessoas simples, crédulas e ignorantes que acreditam que os bens da natureza foram deixados por Deus e nunca acabam. Quanto mais se consome, mais se tem. Menos é mais. É dando que se recebe. 2 + 2 = 5.\r
    \r
    No item 3: Produção e atividade econômica também exitem no Socialismo, embora sejam muito superioress no Capitalismo. Não são intrísecos aos Capitalismo.\r
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    No item 9: " Como von Mises demonstrou, a competição econômica que ocorre sob o capitalismo é radicalmente diferente da competição biológica que prevalece no reino animal." Faltou uma nota/citação apontando em qual obra e em qual página Mises demonstra isso. Mas acho que se pode fazer uma comparação do Capitalismo com o ambiente selvagem. Em ambos reina a competição (mas não do mesmo nível, claro, pois nós humanos somos civilizados) e somente os mais fortes sobrevivem (quem não consegue competir é obrigado a sair do jogo). Então, não se pode dizer que é "radicalmente diferente"!\r
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    Leandro,\r
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    no segundo paragrafo: " Apenas peço desculpas pela brevidade e concisão". A tradução é essa mesmo? Estranho o autor pedir desculpa pela concisão...\r
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  • Leandro  25/07/2010 15:28
    Prezado Carlos,

    Agradecemos seus comentários. Porém, permita-nos dizer que eles não fecham. Vamos por partes.

    Item 1: Tanto a teoria quanto a empiria demonstram que sua crítica não procede. Exatamente onde houve liberdade e segurança é que houve progresso. E exatamente onde não houve liberdade e segurança é que não houve progresso.

    O autor deixa claro sua posição: um indivíduo é livre quando ele está protegido dos crimes comuns; quando ele está livre exatamente de atos como assalto e agressão, roubo, estupro e assassinato, todos os quais representam iniciação de força física.
    Não dá pra ser mais claro do que isso. Tampouco dá pra inferir mais do que isso.

    Ademais, se você acha defende uma agência de coerção voltada justamente para essa proteção do indivíduo, então você é um liberal clássico. Não há contradição alguma entre ter essa postura e reconhecer a eficiência superior do capitalismo.

    Por fim, você fala sobre a desigualdade ser geradora da violência. Ora, os regimes mais brutais e violentos, os que mais atentaram contra a segurança e a liberdade dos homens, foram exatamente aqueles que de fato acabaram com a desigualdade entre os homens.
    Portanto, dizer que enquanto houver desigualdade haverá violência (uma conclusão um tanto estranha e convoluta), não lhe autoriza a dizer que se não houver mais desigualdade não mais haverá violência. O que apenas significa que seu raciocínio está girando em círculos.

    Item 2: Não. Quanto mais o homem obtiver conhecimento sobre a natureza, melhor saberá explorá-la contínua e crescentemente, para benefício próprio. Essa é, afinal, a função da natureza: fornecer recursos naturais para o homem, o qual deve ter o conhecimento para explorá-los de maneira cada vez mais duradoura, algo que só é possível com os incentivos econômicos adequados. O autor foi claro quanto a isso.

    A menos que você seja um daqueles ambientalistas radicais que valorizam mais mato do que gente, certamente não terá dificuldades para entender esse raciocínio. Caso contrário, já deve estar estrebuchado no chão, perplexo.

    Item 3: Simplesmente não é verdade. É impossível haver produção econômica sob o socialismo, pois sua estrutura não permite o cálculo racional de preços, o que gera enorme desperdício de recursos.

    Ainda em 1920, Mises escreveu um artigo alertando para os problemas inerentes ao socialismo, predizendo que ele não poderia funcionar. Todos os economistas da época ignoraram seus argumentos. Porém, como a história mostra, esses argumentos se comprovaram corretos. Todos os regimes socialistas só sobreviveram (e alguns sobrevivem) porque 1) receberam vultosos recursos externos e 2) não conseguiram abolir o mercado negro, exatamente o mercado que abastecia a economia de recursos.

    Item 9: a sua afirmação é contra-atacada por esse mesmo item do texto. Ao passo que o autor se aprofundou para justificar a sua posição, você apenas ficou nas frases de efeito, sem apresentar nada substancial.

    Quem não consegue competir não é obrigado a sair do jogo. Muito pelo contrário: não só é autorizado, como também é incentivado a participar. Apenas terá de se contentar em receber menos que os melhores e mais esforçados. Isso, entretanto, de maneira alguma caracteriza exclusão, mesmo porque seu padrão de vida estará subindo constantemente -- algo que não ocorre no reino animal (por isso é "radicalmente diferente"). Negar isso é negar a história do mundo.

    Abraços e escreva sempre!
  • Marcelo Werlang de Assis  12/06/2013 22:52
    Reproduzo aqui cinco brilhantes parágrafos de MURRAY ROTHBARD:

    Muitos críticos reclamam que o livre-mercado, ao colocar de lado os empreendedores ineficientes ou em outras decisões, prova ser um "monstro impessoal". A economia de mercado, acusam, é a "lei da selva", onde "a sobrevivência do mais apto" é a lei. Libertários que defendem o livre mercado são, por conseguinte, chamados de "darwinistas sociais" que desejam exterminar o fraco para o benefício do forte.

    Inicialmente, tais críticos omitem o fato de que o funcionamento do livre-mercado é incomensuravelmente diferente da ação governamental. Quando um governo age, as críticas individuais não têm força para mudar o resultado. Podem mudar somente se, por fim, conseguirem convencer os governantes de que a decisão deles deve ser modificada; isso pode levar muito tempo ou ser totalmente impossível. No livre-mercado, no entanto, não há decisão final imposta pela força; todos são livres para tomar as próprias decisões e, por meio delas, mudar de modo significativo os resultados do "mercado". Em suma, quem quer que sinta que o mercado está sendo muito cruel para com determinados empreendedores ou para com qualquer outro recebedor de rendas é perfeitamente livre para instituir um fundo de auxílio de doações e prêmios. Aqueles que criticam a existência da caridade privada como "insuficiente" estão perfeitamente livres para preencher tal lacuna. Devemos nos guardar de hipostasiar o mercado como uma entidade real, o gerador de decisões inexoráveis. O mercado é a resultante das decisões de todos os indivíduos da sociedade; as pessoas podem gastar o dinheiro da maneira que lhes agradar e podem tomar quaisquer decisões a respeito de si mesmas e das suas propriedades. Eles não têm de lutar ou convencer alguma entidade conhecida como o "mercado" antes de pôr em prática as próprias decisões.

    O livre-mercado, de fato, é o extremo oposto da sociedade "selvagem". A selva é caracterizada pela guerra de todos contra todos. Um homem só ganha às expensas do outro, pela tomada da propriedade deste. Como tudo está no nível da subsistência, há uma verdadeira luta pela sobrevivência, em que a maior força esmaga a mais fraca. No livre-mercado, por outro lado, o homem só ganha ao servir o outro, embora também possa isolar-se numa produção autossuficiente num grau primitivo, caso deseje. É precisamente pela cooperação pacífica do mercado que todos os homens saem ganhando pela divisão do trabalho e pelo investimento do capital. Aplicar o princípio da "sobrevivência do mais apto" à selva e ao mercado é ignorar a questão básica: Apto para quê? O "apto" na selva é aquele que mais adere à utilização da força bruta. O "apto" no mercado é aquele que mais serve à sociedade. A selva é um lugar brutal onde uns se aproveitam dos outros, onde todos vivem num estado de inanição; o mercado é um lugar produtivo e pacífico no qual todos servem a si mesmos e aos demais ao mesmo tempo, vivendo com níveis muito mais altos de consumo. No mercado, o caridoso pode oferecer auxílio, um luxo que não pode existir na selva.

    O livre-mercado, portanto, transmuta a competição destrutiva da selva pela parca subsistência numa competição cooperativa pacífica no serviço a si mesmo e aos outros. Na selva, uns ganham somente graças aos outros. No mercado, todos ganham. É o mercado – a sociedade contratual – que faz emergir a ordem a partir do caos; que domina a natureza e erradica a selva; que permite ao "fraco" viver de forma produtiva (ou dos dons da produção), de maneira régia, comparada à vida dos "fortes" na selva. Além disso, o mercado, ao elevar os padrões de vida, permite ao homem ter horas livres para cultivar as simples qualidades da civilização que o distinguem dos brutos.

    É exatamente o estatismo que traz de volta a lei da selva – ao fazer retornar o conflito, a falta de harmonia, a luta de classes, a subjugação, a guerra de todos contra todos e a pobreza geral. Em vez da "luta" pacífica da competição no serviço mútuo, o estatismo institui o caos calculacional e a luta mortal da competição do darwinismo social por privilégio político e subsistência limitada. (ROTHBARD, "Governo e Mercado")

    Abraços!!!
  • Diogo Siqueira  25/07/2010 15:37
    Caro Carlos,

    Concordo que não basta apenas que os homens sejam livres para que vivam em paz. Entretanto, não existe nenhum outro sistema em que a paz seja considerada um ideal máximo a ser alcançado quanto no capitalismo. É imperativo para a existência do livre-mercado, que indivíduos não se sintam ameaçados, ou seja, que a paz seja estabelecida e mantida. E é justamente neste sentido que o autor do texto associa a consagração da liberdade individual à paz.

    A pobreza, que o senhor julga ser fruto da desigualdade social e o fermento da criminalidade, não pode ser remediada pelo intervencionismo estatal (social-liberalismo, social-democracia) ou pelo socialismo (estatização dos meios de produção), como dá a entender no seu comentário. Estes modelos de planejamento central tem por consequência a diminuição do padrão de vida dos indivíduos, em especial dos mais pobres. Sob estes sistemas, produtos e serviços são mais caros, postos de trabalhos são fechados, o empreendedorismo é desestimulado, a burocracia e a máquina pública incham, a moeda perde poder aquisitivo, recursos escassos são desperdiçados e a corrupção graça. Assim, não há nada que o estado ou você (ou um "salvador" ou um grupo de "esclarecidos") possa fazer para melhorar a vida dos mais pobres a não ser sair do caminho deles, para que possam desfrutar de melhores remunerações, produtos e serviços. Penso que estes esclarecimentos refutam o seu primeiro tópico.

    Já quanto ao segundo tópico, inicialmente um esclarecimento: o meio-ambiente de que o autor faz menção é o meio-ambiente em que os indivíduos estão inseridos, e não o das "plantinhas e insetos". Explico: existem duas acepções do termo segundo o autor: uma se refere ao meio-ambiente que atende as necessidades humanas (e.g. a sua casa, cidade, etc), o outro ao espaço natural sem qualquer intervenção humana (e.g. o interior da floresta amazônica). Viver sob este último seria insuportável, efêmera. Por isso a importância da razão humana na transformação dos recursos naturais; dando-os a destinação de que hoje nos beneficiamos. Neste sentido, não há motivo em dizer que os recursos naturais sejam escassos, que estes estão se esgotando; pois um elemento da natureza para ser considerado um recurso natural necessita primeiro da intervenção humana. E como a intervenção humana é fruto da razão, e sendo esta ilimitada, o seu exercício nos proporciona a expectativa de uso e extração de novos recursos, em um ciclo infinito de possibilidades, sempre atendendo às necessidades humanas mais urgentes. E isto só ocorre sob o capitalismo, onde é possível realizar a conta 2+2=4, embora com uma certa margem de incerteza. (Fonte)

    No terceiro tópico parece haver um equívoco. O autor não disse que sob o Socialismo não há produção: disse apenas que esta inevitavelmente entraria em colapso. O autor deixou claro que a estatização dos meios de produção - por conseguinte, o fim do sistema de preços e a divisão do trabalho - não tem como atender às necessidades mais urgentes dos indivíduos, ou seja; de adequar, ordenar e reordenar os fatores e bens de produção. É inegável que sob o socialismo viveríamos em um constante estado de escassez, de pobreza, fome em massa, etc.

    Por fim, a passagem a que o senhor faz referência no quarto tópico está inserida no Capítulo XV da Quarta Parte, 5º tópico, do livro Ação Humana:

    "A competição cataláctica é uma emulação entre pessoas que querem superar umas às
    outras. Não é uma luta, embora seja comum o emprego, num sentido metafórico, de termos
    como ataque e defesa, estratégia e tática, extraídos da terminologia da guerra e dos conflitos
    violentos. Na competição cataláctica, aqueles que perdem não são aniquilados; são deslocados
    para um lugar mais modesto no sistema social, um lugar mais compatível com as suas
    realizações do que aquele que pretendiam alcançar."
  • Renê Marcel Oechsler  25/07/2010 18:25
    Carlos Santos

    Se desigualdade social fosse causa de violência, nas favelas só haveriam bandidos e nas Mansões jamais um crime teria sido cometido.
    Você diz não ser Marxista, mas a idéia de que desigualdade social gera violência é um mantra marxista.
  • mcmoraes  25/07/2010 18:26
    Carlos Santos disse: "no segundo paragrafo: " Apenas peço desculpas pela brevidade e concisão". A tradução é essa mesmo? Estranho o autor pedir desculpa pela concisão... "

    Carlos Santos, vc poderia seguir o exemplo do autor, porém acrescentando um pedido de desculpas pela superficialidade do seu comentário.
  • Carlos Santos  26/07/2010 10:06
    Meus amigos, eu não sou marxista, juro! Nem liberal clássico. Eu também odeio o Estado ( meu autor preferido é Henry David Thoreau). Mas o Dr. Reisman, com todo o respeito, está pedindo demais querendo nos convencer de que o Capitalismo de livre-mercado é o Shangri-la!\r
    \r
    Vou deixar os outros comentários de lado e me concetrar no item 1:\r
    \r
    Se eu sou livre, não significa necessariamente que estou seguro, tanto pessoal como economicamente, como diz o autor.\r
    \r
    A liberdade é uma faca de dois gumes...\r
    \r
    O estado de necessidade que eu me encontro me impede de ter a liberdade de viver no ócio criativo (já leram Domenico de Masi?), como eu gostaria. Eu preciso trabalhar pra poder viver :(, a minha liberdade econômica fica assim muito restringida, dependendo das oportunidades que o mercado me oferece, da minha capacidade, da minha saúde e de tantos outros fatores que não estão totalmente sob meu controle.\r
    \r
    A minha segurança pessoal tampouco esta garantida só pelo fato de haver liberdade. Quem é livre para agir pode escolher agir contra os outros, e dessa forma conseguir sair do seu próprio estado de necessidade. Obviamente esse que assim fizer tem de ser excluído ou punido, ou pelo menos obrigado de alguma forma a modificar sua conduta. Ou seja: o poder de ação precisa necessariamente ser limitado e a coação será sempre necessária.\r
    \r
    \r
    @Renê Marcel Oechsler \r
    Desigualdade de renda é uma causa de violência! Negar isso é ir contra a ciência.\r
    Veja esse Estudo de 2001 sobre homicídios e desigualdade de renda (medida com o indice de Gini).\r
    psych.mcmaster.ca/dalywilson/iiahr2001.pdf\r
    \r
    Olhem lá na página 5, veja os dois gráficos e sobreponha-os um ao outro em sua mente, você verá um 'X'. Mais desigualdade = mais homicídios. 2 + 2 = 4 .\r
    Como esse existem muitos outros sobre o mesmo assunto e com conclusões semelhantes.\r
    \r
    \r
    Muito obrigado por terem tomando seu tempo em responder meus comentários. Pensei que nem seriam publicados, hehehe...
  • Pedro Mundim  26/07/2010 15:59
    Caro Carlos...afirmar que "Enquanto houver desigualdade social haverá violência" é um sofisma marxista. A Índia é uma sociedade de castas, o que acirra o conflito entre as classes, mas apresenta indicadores de violência inferior ao Brasil, Estados Unidos.

    Além disso, a violência ocorre desde a pré-história, quando não havia desigualdade. As tribos nômades passavam algum tempo em uma região até esgotar seus recursos, e depois migravam para outra região. Se esta outra região estivesse habitada, desalojavam seus habitantes pelo uso da força.

    Portanto, a violência ocorre a pré-história.
  • Luís Dietz  26/07/2010 16:52
    Renê, você esta usando a indução para chegar a sua conclusão de que desigualdade gera violência. Tudo que a escola austríaca sempre foi contra foi a esse tipo de abordagem. Isso ja foi muito discutido nesse site e qualquer um minimamente familiarizado com os fundamentos dos austríacos sabe disso. Seguindo essa mesma forma de raciocionio pode-se encontrar algumas verdades mas se encontrará muitos erros pelo caminho. Hitler usou esse tipo de abordagem (indutiva) para vender suas idéias. Com alguns dados corretos posso usar esse mesmo racíocinio para lhe convencer de qualquer coisa. Logo não há o que se discutir. Venha provar sua tese num raciocinio lógico, A + B e conversamos.\r
    \r
    Carlos, ninguém nem nada lhe impede de viver o seu ócio criativo numa sociedade libertária, só assuma as consequências disso. Nunca foi dito que por você ter liberdade não teria que arcar com as consequências de seus atos. É o fim da picada esse seu raciocinio, você inverteu tudo. Só porque eu morrerei se pular do 20° andar isso não significa que a morte esta me coagindo de pular de la. A morte é a consequencia do meu ato, e se eu estiver disposto a aceitá-la posso pular. A minha liberdade não é suprimida porque a consequencia dela é ruim a mim.
  • Zen  26/07/2010 16:57
    Há alguns dias li um artigo onde se mostrava a correlação entre pobreza e desigualdade de renda com os índices de violência em cada estado do país. Uma pena que não esteja mais achando ele, acho que viria a calhar agora.
  • Fernando Chiocca  26/07/2010 17:28
    Para quem diz que desigualdade gera violência, responda: O que você está fazendo aqui na internet que não está agora mesmo tentando assaltar os Safras ou sequestrar o filho do Eike Batista? Pq a diferença entre vc e os mais ricos do Brasil é muito maior do que a diferença entre vc e os mais pobres...
  • mcmoraes  26/07/2010 20:32
    Na minha humilde opinião, a principal causa da violência é o desrespeito, a inveja, a cara-de-pau e o "umbigocentrismo". A falta de dinheiro é, na grande maioria das vezes, apenas uma "boa" desculpa para justificar a invasão da propriedade privada alheia.
  • 999.9 Kapitalist  26/07/2010 22:10
    Gráficos interessantes.

    www.ocapitalista.com/2010/05/crime-e-pobreza.html
  • anônimo  26/07/2010 22:44
    Luís Dietz

    Amigo, você deve ter se equivocado, leia de novo minha mensagem.
  • CR  26/07/2010 23:30
    Da doutrina, nada a reparar. Contudo, desde Bismarck e dos Roosevelt, o capitalismo é preservado, ou melhor, reservado à concorrência não pelo mercado, mas à quase-licitação.
    O mercantilismo era essencialmente capitalista. Bem o sabemos, contudo - não havia concorrência. O nobre e perspicaz articulador cita Ford. Contraponho Carlitos. O anti-semita gerou até o taylorismo. Ele só existiu porque o governo participou diretamente. Célebre sua iniciativa de 1914 na concesão de aumento de salários - quando o mundo em polvorosa pela I Guerra - e o próprio EUA lhe requisitaria em seguida, à produção em larga escala, rumo ao além. Cá entre nós seria preferível nem conhecê-lo. Temos a maior extensão de costa marítima, conjugada com terrirório continental, muito mais apropriado a trens. Tem gente que nunca viu um, por aqui. Navios? De vez em quando aparece algum.Resultado: o transporte interno, agravado, de novo, por arrecadações nas próprias estradas, custa o dobro do que gastam nações desenvolvidas. Não quero falar das milhões de vítimas em acidentes, por apenas uma lembrança.Por causa de Ford, e do governo sempre associado, o mundo enfrenta tres célebres dilemas de nosso tempo: a mais estúpida guerra por subsolos estrangeiros; a poluição da terra, mar e ar que o petróleo causa; e a falta de espaço no mundo para tanta armação.
    Em muitos países, naturalmente, as montadoras atuam na corrupção governamental, declarada em participações em campanhas políticas. É de se recordar que no EUA, ah, ingênuo EUA, o lobby é até legítimo. Pobre de quem não tem.
    O capitalismo construído sob a égide de qualquer governo remete o povo a fatal impasse. Assim foi na escravatura, também capitalista.
    Tenho a impressão que o capitalismo somente se reabilita por livre-iniciativa privada. Ao governo, que nada produz, cabe apenas guardá-la, e sem mácula.
    Infelizmente, nenhum titular comigo concorda - desde Obama, passando pelo francês ou pela alemã, o Euro inteiro, para não falar de nosotros.
    O capitalismo, desafio, jamais existiu. Houve apenas um ensaio, forte para ruir o muro, porém fraco para da poeira sobreviver. O que há é um meio pelo qual o governante, a plêiade e seus amigos desfrutam da riqueza do country, sem precisar trabalhar.
  • anônimo  27/07/2010 00:08
    Carlos Santos

    O estudo do comportamento humano é uma ciência respeitável, mas jamais terá a confiabilidade e precisão de ciências como a física e a química, estas, conseguem o mesmo resultado com qualquer amostra, enquanto aquela, porque baseada em seres humanos com vontade própria, sempre trará resultados diferentes.
    Digo isso para demonstrar a fragilidade do teu argumento. Comparar uma ciência comportamental com matemática, é um erro.
  • mcmoraes  27/07/2010 09:15
    O comentário do anônimo logo acima me fez lembrar de uma frase de Mark Twain:

    "There are three kinds of lies: lies, damned lies and statistics."
  • Renê Marcel Oechsler  27/07/2010 10:02
    Os dois últimos comentários anônimos são meus, esqueci de colocar o nome.\r
    \r
    Já é a segunda vez que o mcmoraes lembra de alguma coisa com um comentário, hehehe. Como sou novato aqui, suponho que seja um hábito dele.
  • mcmoraes  27/07/2010 12:37
    Renê,

    Ambos somos novatos por aqui. Você está certo: realmente tenho esse hábito de fazer associações entre idéias.
  • Emerson Luis, um Psicologo  26/06/2014 17:49

    Ótimo texto, complementa-se com este:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1578

    Quanto mais forte o comércio entre dois países, menor a probabilidade de entrarem em guerra um dia. O mesmo efeito pacificador ocorre até o nível interpessoal. Indivíduos com vida produtiva em geral são pacíficos e honestos.

    Falácia do Nirvana: comparar uma realidade imperfeita que é o melhor que podemos gerar (o livre mercado) com uma realidade perfeita impossível (o socialismo futuro).


    * * *


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