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As previsões de Jim Rogers para 2010

De acordo com Jim Rogers, presidente da Rogers Holdings, a teoria econômica do gastar-dinheiro-para-restaurar-a-economia implementada pelos EUA fracassou.  Nessa entrevista exclusiva dada à rede americana CNBC, Rogers repreendeu severamente o Fed, o banco central americano, por estar imprimindo gigantescas quantias de dinheiro, algo que só fez aumentar o endividamento.

Em relação às várias classes de ativos, ele acredita na subida dos preços das commodities e dos ativos reais.  De acordo com ele, o ouro certamente irá para dois mil dólares a onça na próxima década, talvez até 2019.  "Tenho certeza de que o ouro será um grande investimento ao longo da próxima década", diz ele, acrescentando que "eu certamente comprarei o metal quando os preços caírem para US$1.000 a libra."  Entretanto, ele crê que outras commodities, como a prata, são melhores.

Petróleo bruto, em seus níveis atuais, é uma compra estritamente inaceitável na lista do guru, embora ele esteja confiante que os preços atingirão os três dígitos em breve.

Quanto às bolsas, Rogers diz que a bolsa indiana subiu muito.  "Não vou comprar ações nesses preços".  Ele tem visões similares para mercados emergentes como o Brasil, mas não para a China.

Embora atualmente possua ações chinesas em sua carteira, ele está ligeiramente receoso quanto à economia da China.  "A economia chinesa precisa esfriar um pouco".  Ele sente que o setor imobiliário da China pode estar entrando em uma bolha.

Normalmente os especialistas dizem que a demanda chinesa e os preços das commodities possuem uma correlação direta.  E eles baseiam seus investimentos nessa teoria.  Entretanto, Rogers afirma que a China não controla o mercado de commodities.

Portanto, onde colocar seu dinheiro?  As commodities e o mercado imobiliário, diz ele, são os melhores lugares para se estar agora.

A seguir, uma transcrição da entrevista.

Por que o senhor acha que haverá uma corrida de curto prazo para o dólar, elevando sua cotação?  O que sustenta essa ideia?

Todo mundo está pessimista, eu estou pessimista também e é por isso que pode haver essa corrida.

O senhor tem se mostrado preocupado com os efeitos de longo prazo do déficit americano e com toda a dívida do país.  O que o senhor gostaria de ver sendo feito de maneira diferente?

A gastança gigantesca que Washington está fazendo, a incompetência de Washington, que não tem a mínima ideia do que está acontecendo, eles estão piorando tudo nos EUA.  Não vejo nada que possa mudar o destino fatal do dólar no longo prazo.

O Federal Reserve triplicou a base monetária comprando lixo que estava em posse dos bancos, algo que os americanos terão de cobrir no futuro.  Quantias gigantescas de dinheiro foram criadas.  Por que não acabar com o Fed?  Ele está tornando a situação desastrosa para todos nós.

Apesar da maneira como os EUA entraram nessa confusão - todo esse endividamento e alavancagem -, o presidente Obama insiste em dizer, como disse recentemente, que os americanos precisam consumir para tirar o país da recessão.  É assim?

Tudo isso está piorando a situação do país.  Todos nós vamos pagar o preço dessa lambança daqui a um, dois ou três anos.  E da próxima vez que houver problemas na economia americana, algo que não demorará muito para ocorrer, não teremos nenhuma bala na agulha, já atiramos toda a munição que tínhamos.  O que o governo vai fazer?  Quadruplicar a dívida, imprimir mais dinheiro.  Não haverá tantas árvores para isso.

Quais as grandes implicações?  Quero lhe perguntar sobre Dubai, sobre a Grécia e a Espanha.  O senhor está preocupado?  Como o senhor acha que isso se manifestará?

Teremos mais turbulências e crises monetárias.  Em dezembro passado o Vietnã desvalorizou sua moeda; o Brasil já adotou uma taxa especial sobre a entrada de divisas externas; estamos vendo o que está acontecendo em Dubai (clique aqui, aqui e aqui); a Grécia está em apuros, assim como a Ucrânia, a Argentina e a Espanha.  Há muitos que podemos por na lista.  Vamos ter turbulência monetária, vamos ter mais problemas relacionados a dívidas.  Enquanto isso, todos os países seguem imprimindo dinheiro.  E o que eles farão quando isso começar a provocar ainda mais distúrbios?

Os temores quanto às dívidas soberanas estão aumentando; a Standard and Poor's (S&P) já rebaixou a Espanha para a lista negativa por causa de sua dívida (a dívida da Espanha pulou de 36% para 66% do PIB nos últimos dois anos.  Em 2009 o déficit orçamentário foi de 11,2%, e projeta-se que o déficit desse ano ficará em 10,2%.  As finanças do país estão um pandemônio), a Fitch parou de transacionar a dívida soberana da Grécia, e o governador do estado de Nova York, David Paterson, declarou que o estado está insolvente.

Eles colocaram os EUA e o Reino Unido na lista de observação da dívida; todos nós estamos em sérios problemas.  Os países da Ásia ainda são credores; mas os do Ocidente infelizmente são devedores.

E então, como o senhor investe em um ambiente no qual as desgraças estão profetizadas e todas essas notícias ruins continuam surgindo?

Como você sabe, eu possuo ouro.  Mas no momento não estou comprando mais ouro.  O ouro disparou e, sempre que algo dispara, é comum que volte a baixar depois de algum tempo.  Portanto, se o ouro baixar, espero ser esperto o suficiente para comprar um pouco mais - embora outras commodities sejam provavelmente melhores, como prata e agricultura.  Assim, exorto todos a estudarem e aprenderem mais sobre moedas estrangeiras, pois haverá grandes oportunidades nessa área.

Quero discutir cada uma dessas ideias de investimento com o senhor, uma por uma.  Deixe-me começar com o ouro.  O senhor está dizendo que possui ouro, que não vai comprar mais por ora porque o preço está alto, mas também não vai vender.  É esse basicamente o ponto?

Se o ouro cair para US$1.000 a onça, serei esperto o suficiente para comprar mais.

Os bancos centrais da Índia, Ilhas Maurício e outros passaram a comprar ouro recentemente.  Isso altera o futuro do ouro?  Há algo está por detrás dessas medidas ou são apenas para se proteger contra a desvalorização do dólar?

Até 2008, os bancos centrais de todo o mundo estavam vendendo ouro.  Agora está acontecendo o oposto: eles não apenas pararam de vender como começaram a comprar.  Isso representou uma enorme mudança no mercado do ouro.  Há também o fato de que muitas outras pessoas estão preocupadas com o futuro do dinheiro de papel.  Portanto creio que o ouro certamente irá para mais de 2.000 dólares a onça durante a próxima década.  Não se trata de uma suposição muito radical; é o equivalente a uma valorização de apenas 4, 5, 6% ao ano.  Portanto, estou certo de que o ouro será um grande investimento ao longo da próxima década.

O senhor possui alguma ação?  E petróleo bruto?  Dizem que 2010 será um ano bom para essa commodity.

Os mercados dos EUA subiram 70% nos últimos 8-10 meses e eu não gosto de comprar nada que se comporte assim.  Estou cético quanto à possibilidade de a economia americana ir pra frente.  Se a economia mundial melhorar, as commodities serão uma grande aposta, pois já há algumas escassezes localizadas ocorrendo.  E se a economia mundial não melhorar, os governos irão imprimir ainda mais dinheiro, o que significa que os preços das commodities e dos ativos reais irão subir.  Em ambos os casos, as commodities proporcionam ganhos.

Eu tenho petróleo, mas não acho que compraria mais agora.  Ele subiu muito nos últimos 12 meses.  Eu tenho todas as commodities, pelos motivos que acabei de falar.  Fala-se por aí em bolhas nas commodities.  Mas aí eu pergunto: em quais?  O preço do algodão está 60% abaixo de sua alta histórica e a prata, 70%.

Mas o senhor vê a formação de bolhas em alguns mercados emergentes?  O senhor está morando em Cingapura, viaja por todo o mundo, tem acompanhado in loco todo o crescimento da Ásia e de fato parece ser genuíno.  Mas as pessoas estão dizendo que tem muito dinheiro fluindo para esses mercados emergentes e isso está formando uma bolha.  O que o senhor acha?

Há dois anos vendi todas as ações que tinha em mercados emergentes, exceto as da China.  Elas caíram, voltaram a subir, mas não há uma bolha ainda.  A economia chinesa é um décimo da economia da Europa e da Ásia, ainda pode crescer muito.  Em termos de commodities, a China de modo algum controla o mercado de commodities, como se imagina.  Ela é importante, sem dúvida, mas ela não determina o ritmo.

Em termos gerais, haverá bolhas na China e no Brasil, mas não no momento.

E quanto ao universo dos metais comuns?  O senhor acha que eles continuarão subindo muito ou o senhor diria que eles provavelmente continuarão defasados em relação a metais preciosos como o ouro?

Os metais de base tiveram uma alta muito forte.  O preço do cobre duplicou nos últimos meses.  A maioria dos metais de base subiu.  Talvez eles não tenham subido tanto quanto o ouro ano passado.  Entretanto, muitos deles tiveram um desempenho melhor que o ouro na década passada.  Não estou comprando nenhum deles no momento, pois subiram muito.

Se eu fosse comprar commodities agora, compraria aquelas que ainda estão deprimidas, principalmente agricultura, prata e coisas do tipo.  Eu certamente não venderia metais de base, pois atualmente ninguém consegue financiamento para abrir uma mina.  E mesmo quem consegue, o fato é que leva-se 10 anos para colocar uma mina em produção.  Portanto a oferta de metais de base irá continuar sob pressão.

Em sua opinião, qual o lugar mais importante a ser evitado atualmente?  As bolsas?

Eu diria que o mercado de títulos do governo americano, principalmente o mercado de títulos de longo prazo.  Você teria coragem de emprestar dinheiro para o governo americano por 30 anos a juros de 4-5% em dólares americanos?  Alguém teria?

Então o senhor acha que há uma bolha no mercado de títulos americanos?

Ainda não.  Mas haverá e essa é a próxima bolha que vejo em formação no mundo, pois os investidores estão indo com tudo atrás desses títulos, comprando o máximo que podem e isso não será bom pra ninguém.

O senhor está mais preocupado com inflação ou deflação?

Inflação.  Por toda a história, sempre que os governos imprimiram enormes quantias de dinheiro, isso levou a um aumento dos preços.  Ademais, no mercado de commodities já é possível ver escassezes se avolumando.  Os estoques de comida estão nos níveis mais baixos já registrados nas últimas décadas.  Como já disse, não se consegue empréstimos para abrir minas e está em formação uma grande escassez de commodities.  Escassez combinada com impressão de dinheiro irá gerar mais inflação.

Muitas pessoas sentem que o maior risco para o mercado de ações nos EUA é o Fed intervir.  Quando o senhor imagina que Bernanke e Cia. aumentarão os juros?

Os mercados irão aumentar os juros antes do senhor Bernanke, ele não é tão esperto assim, ele apenas irá seguir o mercado.  Fique de olho nos mercados monetários e você verá os juros começando a subir.  Primeiro haverá um princípio de turbulência nos mercados monetários, e então os juros subirão por conta própria.

O que o senhor prevê para 2010?

Sei que teremos problemas monetários em 2010, certamente teremos pelo menos uma semi-crise.  Mas o processo já começou, como dissemos agora há pouco, no Vietnã e em outros países.  Vamos ter sérios problemas em muitos países e em várias moedas.

Quais serão as consequências caso isso ocorra?

Se eu estiver certo, haverá uma corrida ao dólar e sua consequente valorização, o que será uma boa chance para alguns comprarem alguma ETF em dólar ou algumas commodities - essas podem ser as melhores oportunidades.  Se começar a haver turbulência, algo que prevejo, o dólar vai subir por algum tempo, pois todos os agentes terão de cobrir suas posições vendidas.  Com isso, o dólar irá subir e você poderá investir em outras moedas estrangeiras.

Uma coisa que não mencionamos foi a Europa.  A Grã-Bretanha está tentando manter sua classificação de crédito como AAA.  O que o senhor acha?

O Reino Unido não vai conseguir manter sua classificação AAA.  O mundo está preocupado com os EUA, mas certamente deveríamos nos preocupar também com o Reino Unido.  O primeiro-ministro de lá tem se limitado a ficar rolando as coisas.  A situação só tende a piorar.  Durante 30-40 anos mantive libras esterlinas em minhas carteiras, mas hoje não tenho mais nada.  Fico angustiado ao ver o que está acontecendo com o Reino Unido.

 


autor

Jim Rogers
lecionou finanças na faculdade de negócios da Columbia University e é hoje um comentarista financeiro na mídia mundial.  Ele é o autor dos livros Adventure Capitalist, Investment Biker, A Bull in China: Investing Profitably in the World's Greatest Market e A Gift to My Children: A Father's Lessons for Life and Investing. Veja seu website.

Tradução de Leandro Augusto Gomes Roque

  • Tiago RC  02/02/2010 20:47
    Já que esse artigo comenta a valorização do ouro, gostaria de aproveitar do amplo conhecimento sobre economia austríaca da galera desse site para perguntar: há algo que impeça que a bolha estimulada por juros artificialmente baixos se forme justamente nos metais preciosos? Poderia toda essa subida do ouro ser a "bolha da vez"?
  • Leandro  02/02/2010 21:04
    Tiago,

    Peter Schiff, Jim Rogers e Marc Faber garentem que não. O argumento principal é que o ouro ainda está em níveis baixos, quando corrigidos pela inflação.

    Portanto, o ouro ainda teria muito espaço para subir sem que isso configure bolha.

    Contra esses três eu não me atrevo sequer a titubear, quanto mais discordar por completo.
  • Tiago RC  03/02/2010 06:58
    Certo. De fato são opiniões "fortes". :)

    \nMas de qualquer forma, não há nenhum fundamento teórico que diga que isso seja impossível, correto?
    \nÉ sempre bom ficar com uma pulga atrás da orelha, até mesmo para commodities tão "estáveis" como metais preciosos... o nível de estímulos monetários atuais é algo inédito...

    \nObrigado!
  • Pedro Ivo  12/11/2013 15:54
    Tiago, não há qualquer impossibilidade teórica de uma bolha 'nos' preços dos metais preciosos. Basta uma corrida aos metais preciosos, com investidores usando a expansão monetária dos + recentes 15 anos, ou dito + precisamente, com os bancos iniciando uma expansão creditícia que afete o preço destas commodities.

    (Existe uma impossibilidade teórica de uma bolha 'dos' preços dos metais preciosos. A quantidade de metais preciosos disponíveis em curto e médio prazo para extração é sempre finita e pequena. Logo, metais preciosos não podem ser inflacionados pela casa da moeda via impressão. Daí, nunca pode haver uma inflação global por conta de moeda sonante; no máximo uma inflação local, que é quando a moeda sonante migra para um único destino – caso da Suécia na 1ª Gran Guerra – ou da Holanda no sec. XVII ])

    Aliás, tenho um palpite: tive uma conversa com o Leandro Roque sobre os ativos que o Fed. tem comprando dos bancos. Parte desses ativos se baseia em imóveis que pessoas compraram, não pagaram e abandonaram. Parte destes imóveis já foi a leilão. O Fed. está comprando derivativos baseados em títulos de propriedades de imóveis que ele não pode reaver! (Salvo talvez por ações judiciais, caso a caso) Noutros casos, os derivativos estão baseados nos títulos de propriedade de imóveis que ainda seriam construídos (conjuntos residenciais inteiros, por ex.). Estas construções nunca foram iniciadas. O Fed. está comprando derivativos baseados em títulos de propriedades de imóveis inexistentes! Coloquei estas exclamações em forma de pergunta ao Leandro, ao que ele me respondeu: "Está fazendo isso desde outubro de 2008, e sempre com a promessa de que, 'no momento certo', iria revender esses títulos no mercado, 'ao seu preço correto'". Ou seja, nem bancos nem o Fed. estão abrindo a caixa-preta que são estes ativos e derivativos. Os bancos querem revendê-los todos e passar o abacaxi para o Fed. descascar.

    Ora, vai chegar o momento em que aquela montanha de expansão monetária em posse dos bancos (mas que está depositada no Fed. como "reservas em excesso", por absoluta insegurança no futuro – como não sabem o tamanho do rombo em seu patrimônio, não estão expandindo crédito), caso o Fed. compre todos ativos podres, vai ser colocada para girar. E daí gertar-se-irá outra bolha, e creio que será uma bolha na mineração ou em empreendimentos agrícolas, pois como já alertam à tempos Peter Schiff e Jim Rogers [(Jim Rogers sobre o ouro e a agricultura mundial - Jim Rogers: ouro, commodities, África, investimentos e a possibilidade de uma corrida ao dólar - As previsões de Jim Rogers para 2010 - Dicas de investimento e análise da economia mundial - com Peter Schiff - Como a inflação cria miniciclos para as commodities
    ] há uma carência de investimentos nestas áreas, e claros gargalos de produção já em algumas delas.

    Daí, relendo os artigos supracitados, e mais alguns que o Leandro me recomendou (Can a Central Bank Go Broke? e The Insolvency of the Fed) cheguei a este palpite. Quando acontecer [1] finjam surpresa e [2] desmascarem os falsos profetas como Nouriel Roubini e Robert Shiller, dizendo que eles roubaram a idéia que em primeiríssima mão vocês leram aqui, e que foi o tio Pedro Ivo quem cantou 1º essa caçapa. Hehehe!
  • Emerson Luis, um Psicologo  23/04/2014 18:24

    Entrevista interessante. Alguém poderia comentar o que se cumpriu dessas previsões.

    * * *


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