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O Enem e a liberdade individual

O vazamento das questões da prova do Enem foi uma maravilha. Chamou nossa atenção para o perigo que ele representa. Agora sabemos como o governo tenta engessar o conhecimento, a diversidade e a criatividade humanas. Com o Enem nenhuma escola pode ser inovadora.

Até 1850 não havia sapatos diferentes para os pés esquerdo e direito. Ajustar os sapatos ao formato dos pés era tarefa destes. Por isso as pessoas tinham tantos calos e deformações. O Enem quer que todos os pés calcem sapatos iguais.

O Ministério da Educação (MEC) regulamenta tudo o que pode. Instituiu inspeções para os ensinos médio, superior e de pós-graduação. Delega a grupos de professores a tarefa de dizer se os brasileiros estão aptos para a vida ou não. Ignoram peculiaridades. Por exemplo, nem todos querem ou precisam saber Matemática, Geografia ou História em proporções iguais.

O exame ignora que os professores vivem com os olhos no retrovisor. Ensinam o que aprenderam e, com grande frequência, o que eles sabem deixou de ser verdade porque a ciência anda muito mais rápido do que eles atualizam seus conhecimentos.

O  Enem cria injustiças sociais quando determina que toda a educação será igual, independentemente dos gostos e preferências das pessoas; condena um número enorme de alunos que têm gostos, competências, desejos e ambições diferentes à morte intelectual, porque eles são incapazes de passar num exame estandardizado que mede a mesmice.

Há alguns anos o manual dos avaliadores de faculdades era fino. Hoje é três vezes mais grosso: exigências cada vez maiores e mais detalhadas, na tentativa de tornar todos iguais. A retórica de que temos de ter uma educação excelentemente igual em todo o País é falsa.

Primeiro: viola um princípio básico de economia. Ainda que desejos sejam ilimitados, sua satisfação é limitada, porque não há recursos para tudo. Segundo: nem todas as pessoas querem ou precisam das mesmas coisas. Uns vestem preto e outros, azul-piscina. Pela mesma razão, a sociedade não é composta de farmacêuticos, barbeiros, adestradores de rãs, jogadores de futebol, profissionais de paintball ou cantores líricos.

O MEC ainda não conseguiu tornar o Enem universal e obrigatório para todos os estudantes e necessário para a entrada em todas as faculdade e universidades do País. Felizmente!

O objetivo é torná-lo obrigatório para todos. Como ambicionam todas as burocracias, sobretudo as que têm poder de estabelecer monopólios. O objetivo é fazer todos ficarem iguais, como Brasília ou Tashkent, capital do Usbequistão. Nada a estranhar. A segunda coisa pela qual Oscar Niemeyer é mais famoso é por ser comunista. Seu objetivo principal era a igualdade por meio dos tijolos, a qualquer custo.

Em seu livro O Sagrado Moderno, Avatar Moraes mostra que a arte só veio a existir com o capitalismo. Antes, o que existia era artesanato. Só virou arte depois que o capitalismo criou a possibilidade de aqueles objetos de artesanato (quadros, esculturas, tapetes) serem comprados ou vendidos. Atribuiu-lhes um valor monetário e as pessoas passaram a poder preferir um Picasso a um Modigliani ou um Rafael a um Ticiano. Sem a diversidade de gostos que o capitalismo propicia não existiria a arte como a entendemos hoje.

Tentando tornar o Enem e o Enade obrigatórios para todos, o Ministério não melhora o nível da educação. Está no encalço de uma meta inatingível e viola a liberdade de escolha. Todos hierarquizamos. Achamos umas pessoas mais simpáticas do que outras e uma marca de TV preferível a outra. Tudo bem se estamos num sistema de livre escolha.

Quando o MEC pretende tornar o Enem obrigatório, dizendo quem serve e quem não serve, está perigosamente atentando contra a liberdade. Que seria de Pelé se não tivesse passado no Enem? Ou de Luciano Pavarotti se não conseguisse aprovação em Matemática?

John Stuart Mill defende a importância da excentricidade porque ela é a fonte de toda inovação. O que seria do progresso da humanidade se algum órgão governamental proibisse a eletricidade de corrente alternada e o mundo inteiro tivesse de usar eletricidade de corrente contínua, como queria Thomas Edison? Um excêntrico e desconhecido búlgaro chamado Nikola Tesla inventou a corrente que sai da tomada de eletricidade: a alternada. Tornou nossa vida muito melhor com sua excentricidade.

Enquanto temos liberdade de escolha, tudo bem, quando falamos de monopólios as coisas se complicam. Dizem que Cuba tem um dos melhores níveis de educação do mundo. A pergunta que fica é: para quê? Para universitários trabalharem em fábricas de queijo ou enrolando charutos?

O milionário Bill Gates foi à Universidade de Harvard receber um diploma merecido por ter inventado o DOS e o Windows, que tocam seus computadores. Cumpriu a promessa que o jovem William Gales III fez ao pai, profundamente aborrecido porque seu excêntrico filho abandonara Harvard para criar uma empresinha chamada Microsoft.

Não importa se você gosta dele ou o detesta, mas o que teria sido de Luiz Inácio Lula da Silva se ele não tivesse sido aprovado no Enem? Ainda bem que não havia Enem e ele pôde entrar para a Escola do Senai, virar torneiro mecânico e depois presidente.

Durante o regime militar muitas sandices foram feitas por presidentes-generais, todos sabendo melhor as mesmas coisas, já que todos estavam entre os primeiros alunos das turmas das mesmas escolas militares em que estudaram exatamente as mesmas coisas.

Morro de medo de pessoas bem-intencionadas, sobretudo quando em grandes grupos e, pior ainda, quando são governo e têm o poder legal de impor seus desejos autoritários a todos nós.

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# Nota do IMB:

Como diz Nara Leão, em sua música Little Boxes,

As pessoas nessas casas
Vão todas pra universidade
Onde entram em caixinhas
Quadradinhas
iguaizinhas

Saem doutores, advogados
Banqueiros de bons negócios
Todos eles feitos de tic tac
Todos, todos iguaizinhos

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Leia também: A obrigatoriedade do diploma - ou, por que a liberdade assusta tanto?

 


autor

Alexandre Barros
cientista político (Ph.D. pela University of Chicago), é diretor-gerente da Early Warning: Análise de Oportunidade e Risco Político

  • Inácio Neto  18/10/2009 13:07
    Simplesmente excelente!

  • J, Veríssimo  18/10/2009 15:35
    Excelente texto!\nO Enem obriga ao estudante pensar da forma como o MEC quer, basta analisar as questões.
  • Jose Galdino Neto  18/10/2009 19:23
    O que o ENEM faz é semelhante ao que o vestibular faz. A diferença talvez seja o fato de que o ENEM é democrático por permitir que o resultado possa ser usado em várias universidades federais, antes só acessível a poucos privilegiados que podem pagar os bons cursinhos ou colegios particulares.
  • Cesar Ramos  19/10/2009 08:45
    Competente e oportuna abordagem.\nSobre o tema:\nhttp://allmirante.blogspot.com/2009/09/impropriedade-do-estado-regular.html
  • Bruno  19/10/2009 12:46
    Uma coisa é certa mesmo. O ENEM obriga o aluno a testar a capacidade de associar o conhecimento que aprende na escola (se a escola consegue passar esse conhecimento) a problemas práticos da vida dele.
  • Núbia  21/10/2009 16:25
    O Enem não é igual ao vestibular. No Enem, eu fiz uma pontuação 53,5. No vestibular, 97.3. Sabe a diferença? No vestibular, eu não tinha que concluir que o culpado pelas mazelas do universo era o capitalismo (e olha que foi numa universidade pública que fiz).

    Outra diferença do Enem para o vestibular: NO Enem, eu tinha sei lá quantas matérias que tinham o mesmo peso. No vestibular da UEL, as matérias que mais pesavam eram história e português (o que eu acho bem lógico, principalmente levando-se em conta que eu estava prestando vestibular para jornalismo).

    Obviamente, há universidade que adotam esse conceito burro de universalismo do conhecimento. Mas a diferença é que não são todas assim e você pode escolher por qual método prefere ser avaliado, coisa que não ocorre com o Enem.

    ps. Nunca estudei em colégio particular e passei no segundo curso mais concorrido da UEL na época que prestei. E em outros dois vetibulares de jornalismo e direito de universidade pública. LOGO, esse papo de "minoria" é sim uma balela e eu sou a prova disso.
  • André  21/10/2009 20:45
    Núbia, de acordo com você. Por exemplo, se eu for prestar Ciências Políticas, imagino que as matérias que mais devem pesar deveriam ser: português e história, não todas as matérias devem ter o mesmo peso como o Enem.
  • Rafael  02/11/2009 17:54
    O que aconeteceu com o ENEM foi uma pena. A prova sempre foi boa, exigindo mais raciocínio lógico e associativo do que conhecimentos específicos.

    Concordo que as faculdades devem ser livres para adotarem ou não o ENEM.

    Acredito que o ENEM seria um avanço na seleção do vestibular, principalmente em lugares fora dos grandes centros, substituindo a primeira prova de conhecimentos gerais.

    Caberia a universidade a prova de conhecimentos específicos e os pesos de cada matéria.

    Muito bom o texto e a discussão. :)
  • anônimo  09/11/2009 02:26
    Como ainda bem q Lula virou presidente? Ainda bem nada. Precisa ser corrigido esse trecho.\n\n"Não importa se você gosta dele ou o detesta, mas o que teria sido de Luiz Inácio Lula da Silva se ele não tivesse sido aprovado no Enem? Ainda bem que não havia Enem e ele pôde entrar para a Escola do Senai, virar torneiro mecânico e depois presidente."
  • Capitale  26/10/2010 07:42
    Informação errada, Nikola Tesla não era búlgaro, era o que hoje é considerado sérvio, embora tenha nascido na atual Croácia.
  • Zerfas  23/11/2010 01:44
    Quem disse que o MEC não regula tudo que vc estuda ou não na escola?\r
    Quem foi que disse que o vestibular não regula o vc estuda na escola?\r
    O conceito é liberal - todos tem que ter acesso a escola - e que para todos falem a mesma cartilha em 1920 surgia uma ideia que o ensino fosse laico, igual para homens e mulheres e que fosse a mesma cartilha no Brasil inteiro.\r
    Bem essa ideia não pegou em 1920, nem 1940, enm 1945 , nem 1968 e nem 2003 quando foi proposta o CURRICULO Nacional MINIMO. \r
    Se vc não o conhece \r
    pode pesquisar.\r
    Se vc não sabe o ensino no Brasil só vale se for do Santo Inacio, São Jose, as casas religiosas. E os outros q se virem. Vestibular e ENEM não são diferentes, o que muda é a forma de preparar as provas, que um o ensino é de GAVETA e outro busca uma INTERDISCIPLINARIDADE. \r
    INTERDISCIPLINARIDADE.......\r
    isso é dificil de fazer em sala de aulas diversas no Brasil a fora. Pouco são as instituições de ensnino que prezam isso ao pé da letra . caso do colegio Pedro II.\r
    O governo quer instituir mais disciplinas porem não instrumentaliza as que tem.\r
    O professor , nem sempre só se formou em licenciatura , ele é bacharel na mesma disciplina - cientista - ver a profissão do professor correr esgoto a baixo por colocar na costa das escolas e das provas dos enems e dos enades, e tantas outras - é só promover números e não EDUCAÇÂO E CONHECIMENTO!\r
    \r
    Não culpe o governo sozinho - EStado NAÇÂO só se faz com pESSOAS e cidadãos!!!!!!!!!! \r
    Formamos 5 mil cientistas todo ano- que só serão reconheciods se publicarem 5 artigos por ano ..... ciencia não se faz com números se faz com IDEIAS.
  • Victor Cezar  31/12/2012 23:47
    Estudei no Colégio Pedro II. Por favor, explique-me como o colégio preza pela interdisciplinaridade? Que mentira. O ensino do Pedro II é exatamente igual ao de qualquer escola brasileira (por motivos óbvios, como a existência do MEC), com o diferencial de que consegue ser ainda mais falho em vários pontos que as outras não são (por motivos também óbvios, já que é uma instituição federal).
  • Norbs  18/05/2011 17:20
    O que é que você vê de excêntricidade na corrente alternada?
    Nikola Tesla é um dos maiores e menos lembrados gênios da humanidadae, tinha uma cabeça séculos a frente do próprio tempo, e na auto biografia ele defende o a competição e o livre mercado
  • Emerson Luis, um Psicologo  27/03/2014 19:53

    Nos países socialistas também não existe arte, apenas propaganda estatal.

    * * *
  • Felipe Lange S. B. S.  13/05/2017 23:00
    Prontos esse ano para a muleta estatal, após terem quebrado suas pernas? Eu infelizmente vou ter que fazer esse lixo. Esperem questões e temas que tenham de receber conteúdo estatista ("o governo tem que fazer, o estado deve fazer isso e fazer aquilo...").
  • Felipe Lange S. B. S.  05/11/2017 11:57
    Interessante que os burocratas do ENEM exigem pontualidade extrema para chegar nos horários dos exames. Agora você, em alguma repartição estatal ou mesmo numa consulta com algum médico estatal, não é bem assim...

    Um aparato ineficiente exigir eficiência dos outros é, no mínimo cômico.

    Suspeito que seja para racionar mesmo, quanto menos concorrentes potenciais para ingressar no ensino superior estatal, melhor para eles.
  • BS  23/03/2018 19:59
    "Um excêntrico e desconhecido búlgaro chamado Nikola Tesla"

    Ele nasceu na aldeia de Smiljan, durante o Império Austríaco, território da atual Croácia.


    "Não importa se você gosta dele ou o detesta, mas o que teria sido de Luiz Inácio Lula da Silva se ele não tivesse sido aprovado no Enem? Ainda bem que não havia Enem e ele pôde entrar para a Escola do Senai, virar torneiro mecânico e depois presidente."

    Desnecessário esse argumento MAV.


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