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Expansão do crédito e investimentos improdutivos

Os mercados são cruelmente eficientes, o que em grande parte significa que as pessoas não irão se aventurar em projetos de investimentos arriscados que não estejam alinhados às preferências dos poupadores. Todas as oportunidades de lucro serão exploradas em equilíbrio, e nenhum projeto potencialmente lucrativo será deixado de lado.

Uma das conseqüências desastrosas da expansão do crédito é que muitos projetos que antes foram rejeitados pelos investidores irão agora ser empreendidos por causa dos sinais incorretos emitidos pelas taxas de juros artificialmente reduzidas para o mercado de capitais. Esses problemas serão acrescidos pelo fato de que os poupadores - devido à queda dos juros - irão retirar seus recursos reais do mercado de capitais, o que significa que os investimentos outrora lucrativos agora serão maus investimentos que darão prejuízos.

Isso tem dois componentes. Primeiro, pegando de F. A. Hayek, precisamos considerar o que é um "mercado funcionando corretamente" antes de considerarmos o que é um "mercado funcionando erroneamente". Em um mercado de investimentos que esteja "funcionando corretamente", o equilíbrio será estabelecido a uma taxa de juros em que o investimento (a quantidade demandada de recursos para investimentos) é igual à poupança (a quantidade fornecida de recursos para investimentos). Se as taxas de juros puderem flutuar livremente e, assim, fornecer sinais confiáveis ao mercado de capitais, os processos de mercado irão eliminar planos de produção não-lucrativos e recompensar planos de produção lucrativos. À uma taxa de juros de 5%, por exemplo, todos os projetos que gerem um retorno de 4% ao ano não serão empreendidos porque o custo do capital iria exceder o retorno do investimento. Todos os projetos de investimentos que gerem retornos maiores que 5% serão empreendidos. Isso está ilustrado no diagrama a seguir, onde o mercado para recursos a serem investidos se equilibra à taxa de juros de mercado mostrada abaixo. [1]

 

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Nesse ponto, alguém pode argumentar que taxas de juros mais baixas são boas porque estimulam mais investimentos. Isso seria verdade apenas se a taxa mais baixa fosse consistente com as preferências intertemporais de consumo dos poupadores. Quando examinamos os resultados de uma injeção monetária no mercado de recursos para investimentos que diminua a taxa de juros para uma que seja artificialmente baixa, vemos que a quantidade demandada de recursos para investimentos aumenta (para I1) ao passo que a quantidade fornecida de recursos para investimentos diminui (para S1).

Suponha que o Banco Central intervenha e diminua a taxa de juros, aumentando a oferta monetária. A taxa de juros cai, e - no mercado de recursos para investimentos - isso faz parecer aos poupadores e investidores que as preferências intertemporais de consumo se alteraram. Mas isso não é o que realmente ocorre. Se as preferências intertemporais de consumo não tiverem mudado - em outras palavras, se a curva de oferta de recursos para investimentos não se alterou - os poupadores irão se mover para trás na curva da poupança em resposta às taxas de juros mais baixas - afinal, se as taxas de juros agora estão mais baixas, o custo de oportunidade do consumo atual também é menor. As pessoas vão consumir mais e investir menos, levando a um aumento do consumo atual e a menos recursos disponíveis para investimentos.

Ao mesmo tempo, no entanto, as empresas irão investir mais ao virem que as taxas de juros estão mais baixas. Isso irá mandar o sinal incorreto de que os consumidores preferem um maior consumo futuro a um menor consumo presente; as empresas, portanto, irão tentar alongar o período de produção e, assim, elas irão investir em projetos de longo prazo que, ao final, irão se revelar investimentos ruins assim que o Banco Central tirar o pé do acelerador monetário.

Há duas implicações importantes. Primeira: uma taxa de juros artificialmente baixa destrói informações cruciais sobre as preferências intertemporais de consumo dos poupadores. Não há como saber qual deve ser a taxa de juros, e isso aumenta a incerteza nos mercados financeiros. Dado que a taxa de juros é supostamente o preço que capitaliza todos os custos esperados e benefícios de um projeto em particular, torna-se difícil distinguir os projetos lucrativos dos não-lucrativos. Até o ponto em que isso pode ser feito, os investidores terão que investir pesadamente em triagens direcionadas a extrair informações que já teriam sido reveladas caso as taxas de juros de livre mercado estivessem atuando.

Segunda: os novos projetos que estão sendo empreendidos terão características de risco que não são consistentes com as preferências intertemporais de consumo do público poupador e consumidor. Projetos que não eram lucrativos a uma taxa de juros de livre mercado de 5% também não serão lucrativos a uma taxa de juros distorcida de 4%, considerando que a taxa de juros consistente com as preferências intertemporais de consumo é de 5%. Essa má alocação de recursos é acrescida do fato de que os poupadores reduziram a oferta real de recursos disponíveis para investimento.

No todo, taxas de juros incorretas criam um cabo-de-guerra entre os consumidores, que agora preferem consumo presente ao consumo futuro, e investidores, que estão recebendo o sinal incorreto de que os consumidores preferem consumo futuro ao consumo presente. No longo prazo, isso resulta numa série de maus investimentos à medida que as pessoas tentam empreender planos de produção que são inconsistentes com a taxa de juros que vigora no livre mercado; além do mais, essas distorções também reduzem o investimento líquido da economia porque as pessoas estarão aptas a investir somente os recursos reais disponíveis.

B860.pngOs problemas atuais do mercado imobiliário americano sugerem que estamos colhendo as conseqüências do crédito fácil. Um aumento da oferta monetária facilita a capacidade de os consumidores conseguirem empréstimos e aumenta a disposição dos emprestadores se submeterem a riscos que antes eram questionáveis. Investimentos que não teriam sido feitos caso o mercado refletisse as taxas de juros corretas serão feitos em um ambiente em que vigore preços incorretos no mercado de capitais; todas as concomitantes distorções na estrutura dos preços relativos irão surgir, e a correção necessária pode demorar um tempo para aparecer. Mas até que isso aconteça, provavelmente já será tarde demais, e o único provável recurso político será um "salvamento" [2], do tipo que está sendo promovido em Washington, D.C., na esteira da crise das hipotecas subprime.

Antes de finalizar, uma palavra deve ser dita sobre o debate moral implícito na crise do mercado imobiliário. Tyler Cowen [3] escreveu em seu blog que as pessoas adoram uma boa estória de moralidade mesmo onde não existe nenhuma. Assim, todo o debate sobre o mercado imobiliário é retratado como um conflito entre os infelizes tomadores de empréstimo subprime e os emprestadores inescrupulosos e predadores. Como Cowen corretamente aponta, essa não é uma questão moral, mas, sim, uma questão de política monetária; Cowen não é ele próprio um crente da Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos, mas ele está certo ao observar que os atuais problemas que flagelam o mercado imobiliário estão relacionados a negligências políticas, e não a negligências morais.

Sem dúvida tem havido procedimentos dúbios em todos os lados das transações do mercado imobiliário. Mas concentrar-se nas ações de certos emprestadores inescrupulosos, ou nas de alguns tomadores de empréstimos que intencionalmente exageraram sua renda, é negligenciar a questão maior em favor de considerações menores. O problema sistemático advém do fato de que a política monetária envia sinais incorretos para o mercado de capitais, diminuindo a capacidade de os emprestadores distinguirem os empréstimos bons dos ruins; ela também envia sinais incorretos para os potenciais tomadores de empréstimos sobre o tanto de recursos que eles podem e o tanto que não podem arranjar. A crise dos empréstimos subprime imobiliários parece ser aquele caso proverbial de que as galinhas estão voltando para casa para pernoitar[4] .


Nota

[1] Essa análise segue de perto aquela oferecida por Roger Garrison em seu livro Time and Money: The Macroeconomics of Capital Structure. Um excelente PowerPoint explicando a interpretação do professor Garrison sobre a Teoria Austríaca dos Ciclos Econômicos e outros materiais estão disponíveis aqui (em português!).

[2] "Salvamento", nesse caso, significa o Fed imprimir dinheiro e comprar títulos desses bancos falidos com o intuito de injetar liquidez nos mesmos. Como isso aumenta a oferta monetária, a tendência é que a inflação aumente sensivelmente, que é o que vem acontecendo de fato. [N. do T.]

[3] Professor da George Mason University e colunista do New York Times. [N. do T.]

[4] Provérbio (em inglês: "The chickens are coming home to roost") que significa que todas as coisas ruins ou tolas feitas no passado estão agora começando a causar problemas.


autor

Art Carden
é professor-assistente de economia e finanças no Rhode Island College em Memphis, Tenessee, além de ser membro adjunto do Independent Institute, localizado em Oakland, Califórnia. Seus papers podem ser encontrados na sua página no Social Science Research Network. Ele também escreve regularmente nos blogs Division of Labour e The Beacon.


  • Nairon  16/07/2012 10:53
    Bastaria algumas leituras dos artigos desse site para Cowen ser capaz de capitar os causadores de base dessa crise imobiliária, mas as pessoas gostam de ilusões maravilhosas como um atitude do governo para aliviar a crise. O que de fato nunca vai acontecer.
  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza  19/06/2013 23:15
    Isso ocorre no Brasil há muitos anos, desde que o pt assumiu o governo. A inflação está descontrolada, beirando os 7% ao ano(em estimativas oficiais, ou seja, sem confiabilidade). O crédito farto está fazendo estragos que só serão percebidos quando for muito tarde.
  • Emerson Luis  07/08/2013 17:52
    Sem informações exatas é impossível tomar boas decisões.

    * * *
  • Mohamed Attcka Todomundo  11/11/2013 21:42
    e com informações exatas ainda é possível fazer burrice
  • Gilberto Ferreira da Silva de Souza  02/12/2013 23:34
    Os tomadores de empréstimos pagarão caro por sua ousadia.
  • Observadora  18/08/2014 19:36
    Assim como aqui, na publicação "Os triângulos hayekianos e a estrutura do capital", também tem um link para um PowerPoint do autor Roger Garrison. Presumo que levem ao mesmo lugar, estou certa? Não sei se o problema é só comigo ou se é o link desse artigo que está quebrado, mas pelo daqui eu não consigo acessar. Se for só aqui, por gentileza, confirma essa para mim.

    Muito obrigada pela atenção, e até a próxima.
  • anônimo  19/08/2014 15:55
    Olá edição!

    Por gentileza, poderia me informar se o link do PowerPoint que tem aqui é o mesmo do que tem na publicação "Os triângulos hayekianos e a estrutura do capital", do Roger Garrison. Eu acredito que seja o mesmo (não tem muito como errar), e como por aqui eu não consegui baixar o material mas por lá sim, gostaria só de confirmar.

    O problema pode ser só aqui comigo, mas talvez o link desse artigo é que esteja quebrado então, pelos outros leitores, é bom conferir aí também.

    Aguardo pacientemente a resposta. Muito obrigada.
  • Amarílio Adolfo da Silva de Souza  13/09/2014 18:24
    A taxa de juros devem ser SEMPRE ALTAS, seja qual for o crédito ofertado(tipo ou valor concedido), para desestimular os maus "empreendimentos" e, além disso, devem ser ofertadas por qualquer pessoa com disponibilidade financeira(LEGALIZAÇÂO DA AGIOTAGEM) e não só por bancos ou similares, sendo isso protegido por lei. Com uma taxa de juros de 25% ao mês e a garantia real de recebimento rápido dos créditos pelos credores, por exemplo, só os empreendedores legítimos ousariam empreender para conseguir pagar os empréstimos, concluir seus projetos e auferir lucros. Ex: sou um banqueiro e alguém me pede um valor emprestado. Imponho uma taxa de juros(que defino em comum acordo com o tomador do empréstimo) de 31% ao mês e tenho a garantia, por lei, de receber o principal mais os juros, além de multa por atrasos, etc. Assim, automaticamente, só os verdadeiros empreendedores, aqueles que estimaram todas as variáveis do negócio ou projeto, teriam coragem de pedir empréstimos, pois, além da multa por atraso o devedor pode ter seus bens apreendidos, rapidamente, pelo credor e, caso não tenha, ser PRESO. Tudo isso protegido pelo contrato e pela Lei.
  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza  14/03/2015 00:06
    Nesse país da inflação alta, a taxa de juros deve ser de, no mínimo, 100% ao mês.
  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza  22/03/2015 11:20
    O governo é um desastre completo. Além de distorcer o Mercado Imobiliário, quer nos fazer crer que a culpa é deste. A taxa de juros deve ser livre, sem governo. O melhor deve lucrar e o pior deve quebrar. Essa lei natural não pode ser alterada. Mas, as intervenções socialistas dos governos e grupos de interesse sempre pretendem tentar coisas anti - naturais. Devem ser detidos ou prejudicarão o povo.

  • alguém  20/08/2015 09:03
    Projetos que não eram lucrativos a uma taxa de juros de livre mercado de 5% também não serão lucrativos a uma taxa de juros distorcida de 4%, considerando que a taxa de juros consistente com as preferências intertemporais de consumo é de 5%. Essa má alocação de recursos é acrescida do fato de que os poupadores reduziram a oferta real de recursos disponíveis para investimento.

    Alguém mais esclarecido pode por favor me ajudar a entender essa parte? Obrigado desde já!
  • RichardD  13/09/2015 08:08
    Os governos sempre interferindo no processo natural das coisas.


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