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No G-20, a China teve de ceder porque seu arranjo mercantilista depende fortemente de exportações
O país estava desesperado por um acordo comercial, mas não necessariamente irá cumpri-lo

O encontro dos países do G-20 em Buenos Aires tinha um objetivo supremo: fazer com que EUA e China chegassem a um acordo e reduzissem suas tensões comerciais.

No entanto, o anunciado acordo foi muito mais uma "trégua diplomática" do que um acordo verdadeiro: os EUA se comprometeram a postergar a imposição de tarifas de importação contra a China (que entrariam em vigor no dia 1º de janeiro de 2019), e a China se comprometeu a comprar mais produtos agrícolas e energéticos (como gás natural liquefeito). Adicionalmente, a China também prometeu se empenhar mais em questões de segurança jurídica e de cumprimento de contratos, em abrir o mercado de capitais e em proteger a propriedade intelectual.

No entanto, todo o linguajar foi vago, os comprometimentos são condicionais, e o tempo é limitado.

Nada de novo

Quando a imprensa fala em "guerra comercial" como se fosse uma novidade, ela incorre em um grave erro. O mundo vive uma guerra comercial há anos.

Os EUA vêm há anos denunciando as barreiras comerciais impostas pela China e por outros países, direta e indiretamente, sem que a Organização Mundial do Comércio fizesse nada a respeito. Consequentemente, o país reagiu e, erroneamente, também recorreu ao protecionismo, de modo que, de 2009 a 2016, o país introduziu mais medidas protecionistas do que qualquer outro país do G-20. A Organização Mundial do Comércio alertou, em várias ocasiões antes de Trump ser eleito, sobre o aumento do protecionismo que vinha ocorrendo desde 2011.

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Número de medidas comerciais discriminatórias impostas anualmente desde 2009

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Número total de medidas comerciais discriminatórias impostas por cada país desde novembro de 2008

A necessidade da China

O aumento do protecionismo global, especialmente o americano, é péssimo para o modelo econômico chinês. A China desesperadoramente tem de manter seu superávit comercial com os EUA para dar sustento ao seu modelo de crescimento baseado em exportações (maciçamente subsidiados pelo governo chinês).

Essa necessidade chinesa de manter exportações para os EUA é muito maior do que a necessidade americana de manter a China como a principal compradora dos títulos da dívida pública dos EUA. (A China usa os dólares obtidos por suas exportações para comprar títulos da dívida americana).

Para começar, a China não é o principal detentor dos títulos públicos americanos (embora ainda seja o maior detentor estrangeiro). Os principais detentores são os próprios investidores e instituições dos EUA. Adicionalmente, a demanda por títulos públicos americanos continua robusta e, mesmo com a China e o Fed vendendo títulos, os juros sobre eles não dispararam.

Por outro lado, as reservas internacionais da China estão caindo.

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Evolução das reservas internacionais da China, em dólares

A China não pode manter seu modelo econômico — que se baseia em crédito subsidiado ao setor exportador, que é majoritariamente industrial — se suas exportações para os EUA diminuírem. Simplesmente não há outro mercado que possa substituir os EUA e assim contrabalançar uma eventual queda das exportações para os americanos. O superávit comercial da China com os EUA foi de US$ 375 bilhões em 2017, sendo o principal impulsionador do PIB chinês pela ótica do setor externo.

Uma redução no crescimento das exportações da China, além de afetar os números do PIB do país, causaria uma profunda e negativa reação em cadeia não apenas em todo o seu poderoso setor industrial, como também nas redes de fornecedores, de transporte, de peças de reposição, de matéria-prima, de logística etc. A economia da China é fortemente dependente do setor industrial exportador, tendo crescido em torno dele. Uma redução nas exportações para os EUA alteraria todo este desenho, de modo que as indústrias (e suas redes de apoio) teriam de ser redimensionadas e rearranjadas visando a um novo mercado consumidor que substituísse (ao menos em parte) os americanos. 

Como esse mercado teria de vir da população interna do país, e dado que ela é muito mais pobre que a americana, é óbvio que preços, receitas e lucros teriam de cair.

Essa transição seria dolorosa e, obviamente, traria grande insatisfação dos chineses em relação ao seu governo.

Mas há também outro ponto igualmente importante: uma redução nas exportações também aceleraria a já acentuada queda no volume de reservas internacionais do país, as quais já caíram 30% desde as máximas alcançadas em 2014.

E isso geraria um ciclo vicioso: uma redução nas reservas internacionais da China irá acentuar a saída de capitais do país (que já está acontecendo); essa saída tende a levar à imposição de mais controles de capitais, o que gera três efeitos: menor crescimento econômico, aumento nos juros da dívida, e o risco de forte desvalorização do renminbi.

Esses três efeitos já ocorrerem em 2018, como comprovam os hyperlinks acima.

Em suma, para a China, uma guerra comercial seria devastadora para seus principais indicadores macroeconômicos. Para os EUA, seria negativa, mas para a China seria um desastre.

Os EUA exportam muito pouco em relação ao seu PIB (apenas 11%), de modo que qualquer ameaça que leve a um acordo para aumentar suas exportações é vantajosa. Sim, uma guerra comercial pode gerar custos mais altos de bens e serviços para os americanos, mas a realidade é que a China exporta desinflação para os EUA, e as expectativas inflacionárias nos EUA estão caindo, e não subindo.

Ou seja, a ideia de que ambos os lados seriam impactados de maneira igualmente negativa em caso de uma guerra comercial é simplesmente incorreta tanto do ponto de vista teórico quanto empírico.

Apenas palavras

Por tudo isso, o acordo anunciado entre EUA e China na reunião do G-20 nada mais é do que um "cessar-fogo condicional".

A China não tem intenção de garantir propriedade intelectual, nem de eliminar controles de capital e tampouco acabar com enorme interferência política sobre questões jurídicas. Já o anunciado aumento de importações de produtos americanos pela China provavelmente terá um impacto muito pequeno no superávit comercial do país.

Esse acordo, portanto, foi apenas uma pausa, e é de se imaginar que as ameaças tarifárias voltarão tão logo fique claro que não houve alterações. Pelo combinado, se a China não cumprir suas promessas em 90 dias, as tarifas anunciadas serão efetivamente implantadas em 25%.

As diferenças de interpretação no acordo entre os governos chinês e americano podem ser vistas em suas respectivas declarações oficiais. Os EUA dizem que a China irá mudar sua política em relação a controle de capitais, propriedade intelectual e segurança jurídica; já a China apenas diz que ambos irão "trabalhar junto". Os EUA afirmam que o acordo estará invalidado após 90 dias; a China não menciona nenhum prazo. Os EUA afirmam que as compras de produtos americanos pelos chineses irão aumentar em vários setores específicos da economia americana; já a China apenas fala sobre 'comprar mais produtos'.

O acordo, ademais, não altera as diferenças comerciais e políticas de ambos os países, e é muito similar ao fracassado acordo firmado com a China em maio, o qual não deu em nada.

Conclusão

Recomenda-se cautela, e não euforia. A China de fato tem muito a perder com uma guerra comercial, mas não é muito crível imaginar que ela adotará todas as exigências, especialmente as que envolvem a postura de seu governo. Se a China continuar injetando capital em seus setores financeiro e corporativo, isso será um sinal de que o acordo não tem nenhuma credibilidade para o governo chinês. E aí a guerra comercial poderá ser efetivamente iniciada.

Não se deve imaginar que este suposto acordo seja um catalisador que colocará a economia mundial novamente em seu modo de expansão. A inquietante realidade é que o acordo, por si só, não tem por que trazer nenhum estímulo para a economia global.

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29 votos

autor

Daniel Lacalle
é Ph.D. em economia, gestor de fundos de investimentos, e autor dos livros  Escape from the Central Bank TrapLife In The Financial Markets and The Energy World Is Flat.


  • Flávio  05/12/2018 16:16
    The Art of the Deal.
  • Gary  05/12/2018 16:17
    Os burocratas que gerenciam o governo chinês determinaram que é bom para a China vender para os estrangeiros todos os bens de valor que produzem, desta forma reduzindo a oferta destes bens para os próprios chineses e, com isso, privando sua população de usufruir um maior padrão de vida.

    Obviamente, isso é um péssimo negócio para a maioria dos cidadãos chineses, mas um ótimo negócio para os protegidos magnatas do setor exportador.

    É também um ótimo negócio para os cidadãos americanos que compram produtos chineses bons e baratos. O governo chinês está subsidiando o estilo de vida dos americanos.

    Enquanto isso, os cidadãos chineses, que estariam felizes em poder consumir os bens produzidos pela indústria chinesa, acabam sendo privados destes mesmos bens, pois a preferência é que eles sejam exportados para os estrangeiros.

    Isso é o básico do mercantilismo. Tudo de bom que um país produz deve ser mandado para fora com subsídios do governo, deixando sua população apenas com as sobras. Ganha o setor exportador e ganham os burocratas do governo (que recebem "gratificações" deste setor exportador). Todo o resto do populacho perde.
  • Gary  05/12/2018 16:21
    Quando o governo de um país adota o mercantilismo, ele o faz sabendo que praticamente ninguém compreende que aquela política prejudica a vasta maioria dos cidadãos e beneficia apenas uma minoria que está no setor exportador da economia.
  • Rodrigo  05/12/2018 16:22
    E se a China ameaçar desovar os títulos públicos americanos, quais as consequências?
  • Pobre Paulista  05/12/2018 16:36
    Isso aumentaria os juros , o que causaria uma redução no valor total da dívida americana.
  • Auxiliar  05/12/2018 16:43
    Aí o atual arranjo chinês se esfacelaria mais rapidamente ainda.

    O BC chinês compra títulos da dívida americana simplesmente porque ele é um seguidor da teoria mercantilista. Os burocratas chineses querem subsidiar as exportações chinesas. E eles fazem isso ordenando o BC chinês a criar renminbis digitais para comprar os dólares que os exportadores chineses ganharam por suas exportações. Isso mantém o dólar apreciado em relação à moeda chinesa. E isso, por sua vez, funciona como um subsídio para o setor exportador da economia chinesa.

    Sendo assim, o que o governo Chinês -- mercantilista e gerenciador de uma economia toda voltada para a exportação -- ganharia se fizesse isso? Haveria um enorme (e extremamente recessivo) rearranjo na estrutura de produção de toda a sua economia, afetando indústrias, rede de transportes, de fornecedores, de peças de reposição, de matéria-prima, de logística etc. Tal rearranjo seria monstruoso e poderia gerar incontroláveis inquietações sociais.


    A última coisa que um governo quer é ter 1,3 bilhão de pessoas indóceis.
  • Xi  05/12/2018 16:52
    Sim. A economia chinesa surgiu planejada. E ela foi planejada para ser exportadora. Sair desse arranjo e adotar um outro, que esteja mais em conformidade com as demandas da população, não é algo simples. E muito menos indolor.
  • Andre  06/12/2018 09:59
    Por volta de 400 a 600 milhões de chineses possuem alguma capacidade de consumo, como a de um latino americano, mas pelo que conheço, esses chineses não tem disposição para consumir, poupam bastante dinheiro para darem conta dos estudos do filho, pagar despesas médicas dos pais idosos e poupar para sua própria aposentadoria.

    Mudar para modelo econômico de consumo interno exigirá profunda mudança cultural.
  • Jefferson  05/12/2018 16:58
    A China tem 1,3 bi de habitantes, mas não tem 1,3 bi de consumidores. As condições de vida na China não boas. Os salários chineses são baixos e a distribuição das pessoas economicamente ativas é disforme. A população camponesa é enorme e eles tem economia de subsistência, ou seja, compram pouco ou nada.

    Para que a China foque em seu mercado interno será necessário um aumento do poder aquisitivo da população. O que não poderá vir da aumento de salários, pois aí adeus preços competitivos. A solução para isto demanda tempo e muito tempo. Por isso não tem lógica nenhuma dizer que seria bom para a China "quebrar" os EUA pensando que o seu mercado interno vai suprir a produção que tem. A China não vai se desfazer dos títulos americanos e pronto. Sem terrorismo. O arranjo no comércio internacional virá como sempre veio e toda tentativa de mudança no curto prazo sempre será uma inviabilidade.
  • Vinícius  05/12/2018 17:31
    O setor industrial chinês só se mantém robusto porque exporta para os EUA. Com efeito, a economia chinesa só se mantém com números industriais vigorosos porque exporta maciçamente para os EUA. Qual seria a genialidade de afetar o poder de compra de seu principal consumidor?
  • Lucas-00  05/12/2018 16:22
    Estamos perto de uma nova crise então?
  • Trader  05/12/2018 16:45
    A tendência é que fique tudo como está, pois é o arranjo mais inteligente para ambos os governos.

    Curiosamente, o arranjo chinês, que mantém a população na pobreza ao mesmo tempo em que enriquece um punho de industriais com laços com o governo, não é insustentável. Ele apenas condena sua população a viver eternamente abaixo de sua capacidade.

    Arranjos insustentáveis são aqueles que tentam fazer sua população viver acima de sua capacidade. Estes sim são os arranjos que geram ciclos econômicos violentos, com períodos de forte crescimento econômico seguidos de profundas recessões (que é quando a economia volta a se rearranjar).
  • anônimo  05/12/2018 18:12
    O sistema chinês é insustentável por conta do crédito subsidiado destinado para o setor imobiliário.
  • Lucas-00  05/12/2018 22:36
    Também acho.
    Estou tentando saber quando irá estourar por conta das minhas ações.
    Trader, leia isso, isso e isso
  • Guinter  06/12/2018 01:55
    A China aumenta absurdamente sua capacidade industrial. Isso certamente tem um objetivo por trás, possivelmente bélico. Esses caras tem estratégias escondidas. Espero que o Brasil entre como um jogador mais viável no comércio com os EUA, e mude esse jogo
  • Vladimir  05/12/2018 17:38
    Bom que guerra (ainda) não tenha começado, mas não vamos nos iludir sobre o atual arranjo comercial, que continua severamente tolhido pelos governos (embora o brasileiro seja o pior de todos).

    Acordos de livre comércio genuínos não precisam de mais do que uma página. Não colocarei tarifas sobre suas exportações e você não colocará tarifas sobre as minhas. Fim.

    Mas é claro que isso nunca ocorrerá, pois políticos estão ali para proteger empresários e sindicatos ineficientes e preguiçosos, os quais utilizam seus lucros oriundos de sua reserva de mercado (garantida pelo governo) para fazer doações de campanha. E assim o ciclo se perpetua.
  • anônimo  05/12/2018 17:45
    Não, não precisa exigir reciprocidade. Eu, como consumidor, quero liberdade de comprar o que eu quiser de quem eu quiser. Se os políticos do país desse vendedor não concedem a ele essa mesma liberdade que eu tenho, lamento. Isso não pode ser um impeditivo.

    Se esse vendedor, por causa dos políticos do país dele, não tem a mesma liberdade para comprar de uma pessoa que mora dentro das minhas fronteiras, sinto muito. A minha liberdade não é negociável.

    Eis o que é livre comércio: X pode comprar livremente de Y, independentemente de se W pode comprar ou não de Z. A livre e voluntária interação entre dois indivíduos não pode ser dependente da autorização de políticos.

    Dizer que eu só posso importar da A se A também puder importar do meu vizinho é algo totalmente insensato. Minha liberdade não pode depender desta concessão política.

    "Se você atirar no seu pé eu vou retaliar atirando no meu pé!" Faz sentido?
  • Andrei  05/12/2018 17:52
    "Por meio desta, o governo [insira o nome do gentílico] elimina todas as vigentes barreiras, restrições e proibições à livre e irrestrita exportação e importação, compra e venda, de todos os bens e serviços entre [nome do país] e toda e qualquer nação do mundo. O governo [insira o nome do gentílico] declara que todas as formas pacíficas e não-fraudulentas de comércio e troca são questões exclusivas do foro privado de cada indivíduo, e dizem respeito apenas aos cidadãos do [insira o nome do país] e do resto do mundo envolvidos na transação.

    Esta lei entra em vigor imediatamente."

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2442
  • Paulo Henrique  05/12/2018 18:20
    Guerra comercial, ganha quem falir o seu povo primeiro?
  • Capital Imoral  05/12/2018 18:02
    O dia em que o capitalismo foi abolido no Natal

    O Instituto Capital Imoral de Assuntos Sociais está lançando um texto especial de Natal. Vamos viajar no tempo e conhecer a estória de Paulo, um menino muito rico e inteligente, que estava triste com o materialismo de seu tempo e a corrupção dos homens. Vamos conhecer o milagre de natal que impediu o capitalismo de existir durante um dia.

    A Máquina que move o mundo
    1945,
    o governo de Getúlio Vargas assume o poder. Novos economistas promoviam uma política de incentivo e desenvolvimento ao setor industrial de São Paulo. Novas empresas não paravam de nascer; dentre as estatais, haviam pelo menos três: Companhia Vale do Rio Doce (1942), Fábrica Nacional de Motores (1943), Fábrica Nacional de Álcalis (1943). Pessoas do mundo inteiro queriam estar em São Paulo a fim de participar da Nova-Inglaterra em terras tupiniquins. O dinheiro tornou-se abundante. Grandes edifícios brotavam do chão, novas lojas - uma mais bela que a outra - disputavam por clientes. O Natal de 1945 prometia ser o mais belo de todos. Havia uma espécie de alegria não-dita.

    Homens elegantes caminhavam pela calçada, admiravam a imensidão de uma cidade que não parava de crescer. O luxo, sempre intenso, cada vitrine parecia um templo do consumo. Tudo estava limpo, belo e organizado. As lojas eram como uma extensão das belas ruas arborizadas, dos homens e suas incognitas, dos carros em movimento. Cada homem era uma obra de arte urbana: Cigarro (hollywood) na boca e pensamentos, muitos pensamentos; um casaco preto em volta do terno; olhos atentos, levemente encobertos por um chapéu preto. Mulheres eram o extremo-oposto, como se a estética revela-se a natureza de cada ser: Maquiagem leve e belos brincos; um vestido que carrega consigo a beleza de um verão inteiro; olhos cheios de misericórdia, como se estivessem perdoando os meus pecados. O que falar das crianças? Representavam uma pureza viva e ativa; Boina na cabeça, sapato social desgastado; joelho ralado e muita disposição para correria - estavam a brincar de pique-esconde.

    - Papai, veja! a máquina que move o mundo.
    Paulo falava sobre o trenzinho de brinquedo, podia-se ver através da vitrine da nova (e imensa) loja de brinquedos.

    - Você gostou, meu filho? Pois saiba que essa máquina representa o capitalismo. Essa máquina move o mundo assim como capitalismo. Leandro, pai de Paulo, já sabia o que comprar para o filho. Leandro, homem rico, trabalhava como economista no governo de Getúlio Vargas. Ele vivia no paraíso: Tinha uma bela mulher, belos filhos e um casarão na Avenida Paulista.

    Leandro falava com o vendedor enquanto Paulo brincava fora da loja.

    - Eu gostaria de pagar com o meu novo cartão American Express Personal Cards foda foda foda de ouro".

    - Meu senhor, não aceitamos esse cartão. Afirmou o atendente.
    - Como não? Vocês são burros ou o quê? Esse é o American Express de Ouro! Para você ter um desse você teria que vender sua casa, seu carro, sua mãe e ainda não conseguiria pagar os juros desse cartão. Disse Leandro.

    - Eu entendo, mas a loja não aceita esse cartão. Afirmou o lojista.

    - Isso é um absurdo! Eu vou escrever um artigo para o Instituto Liberal de Economia e depois eu vou fechar essa budega através de um decreto! Vocês se meteram com a pessoa errada! Eu trabalho para Getúlio Vargas e o pau vai comer! Vamos, Paulinho.

    O dia estava chegando ao fim. Leandro estava indo embora com seu filho quando passou em frente a Paróquia São Luiz Gonzaga - logo ali, na Avenida Paulista - e alguma coisa o induzia a entrar - talvez o senso de comunhão.

    Paulo estava animado, o Natal estava chegando e a Igreja promovia um novo projeto de fim de ano. Dizia o Padre: Meus irmãos, neste fim de ano vamos mostrar a todos que é a misericórdia divina que move o mundo - Leandro olhou torto para o Padre -, vamos visitar comunidades carentes, distribuir alimentos, presentes e oferecer à palavra que dá vida.

    - Vamos, Papai?
    - Eu não sei, meu filho. Eu vou estar muito ocupado bolando um artigo para derrubar aquela porcaria de loja.
    - Mas, Papai. É apenas uma loja de brinquedos.
    - Não, meu filho. Eles precisam aprender a lidar com homens como eu - homens que têm a informação correta -, Eles me devem respeito pois eu tenho à luz do mundo.
    - Por favor, Papai. Eu não quero mais a máquina que move o mundo. Eu quero ajudar a Igreja.
    - Leandro pensou: Parece-me ser uma boa ideia, eu não irei gastar dinheiro e ainda o meu bebê vai ajudar os incapazes, os aleijados intelectuais, que não souberam ter "informação" e fazer "trocas voluntárias".
    - Muito bem, meu filho. Nós iremos.

    Os pequeninos
    O grande dia chegou. Paulo estava animado pois chegará em um ambiente totalmente novo para ele: uma favela. Paulo percebeu que a Favela do Gato, que fica no Bom Retiro, era o extremo-oposto de uma grande avenida comercial. o ambiente era horrível e a realidade, dura. Não se podia dizer que moravam em casas, aquilo não era uma casa, aquilo, na melhor das hipóteses, era um abrigo para sobreviver em um mundo cruel e desumano. Um mundo que não se importa com seus sentimentos.

    Homens que mal tinham o que vestir: Uma camisa de político e chinelos nos pés; a cabeça, sempre raspada; os pensamentos, sempre sexuais. Garotas vítimas da própria cultura e pobreza: Grávidas, mas com uma inocência, sempre, de criança; roupas curtas e mal alinhadas; cabelo bagunçado; pele negra, sim, porque essa é a realidade; mas o mesmo olhar que perdoa os meus pecados. O que falar dos pequeninos? Crianças, quase sempre negras, com roupas doadas - sempre doadas; mamadeira na mão e um olhar inocente, como se não entendessem o por quê de tudo aquilo. Ao fundo, podia-se ouvir uma música com palavras de baixo calão - um amigo havia comentado ao Padre que aquela música estava sempre presente, como se a música fosse uma isca para levar as almas ao pecado. O padre, gentilmente, pediu que desligassem a música enquanto ele entregava presentes e dava bênçãos. Nada feito, a música precisava correr pois era parte integrante da comunidade. Não demorou muito e as brigas começaram:

    - Seus coxinhas de merda! Eu pedi um tênis da Nike e vocês me dão essa porcaria de Sigati. Que diabos é Sigati?;
    - Eu pedi uma casa e vocês me deram uma meia. =-( ;
    - Chamisleine pediu uma bicicleta rosa da Barbie e não essa porcaria de boneca da roça!.

    E a discussão corria até que se ouviu tiros ao fundo - hora de fugir -, a polícia chegou. Corre, Corre, Corre. Olhos atentos, agitados, de uma pequena criança a observar, pela eternidade, a perdição do homens. Corre, corre, corre. Essa é a nossa natureza.

    Paulo, mesmo observando a breve felicidade dos pequeninos, tinha em mente que aquela felicidade era temporária, logo, voltaria o terror da convivência. Os olhos da pequena criança denunciavam que a pior pobreza é sempre a da alma. Corre, corre, corre. Essa é a nossa natureza.

    - Papai! Eu preciso mudar o meu pedido de Natal.
    - Agora não, Paulo. Estamos fugindo dos traficantes. (corre, corre, corre)

    A noite fria do dia 24 de dezembro de 1945
    Paulo acordou às 7h00 da manhã, queria ir sozinho para Paróquia São Luiz Gonzaga. O dia estava frio, ventos gelados e uma avenida vazia. "Ora, onde está todo o mundo? O que houve com a correria dos homens? É melhor eu entrar logo e me proteger deste grande vazio".

    Uma paróquia imensa, luxuosa, apresentava-se diante de Paulo. Ele gostava daquela paróquia porque sabia que ali havia algo que o protegia. Algo que o protegia da correria. Como se o nada fosse o tudo. Enquanto olhava para o Sacrário, Paulo pensava: Por que a alma dos pequeninos deveria ser corrompida pela sexualidade e materialismo? Eu daria tudo para que eles pudessem ver o mesmo que vejo, sentir o mesmo que sinto - afinal, a boa vida é um estado superior de contemplação. O presente é apenas algo material com o propósito de amenizar doenças da alma; Paulo sabia disso, sempre soube. O que devo fazer? Como posso mudar essa realidade? Se houver alguém no sacrário, por favor, ajude-me.

    Sinos tocavam ao fundo.

    Um velho de barba branca adentrou à Igreja. Paulo logo olhou para trás, aterrorizado. Um velho com um saco cheio de latinhas nas costas caminhava lentamente pelo carpete vermelho. Sua presença, suja, tornava tudo um grande incômodo estético diante de tanta beleza e harmonia. Sua face revelava um homem que sofreu muito. Sentou-se ao lado de Paulo.

    - Que a paz esteja convosco, meu filho.
    - Quem é você?
    - Eu sou apenas um velho de barba branca.
    - Sério? Então você é o Papai Noel?
    - Bem...Eu sou pai de muitos filhos.
    - Hahaha. Você é engraçado, Papai Noel.

    Estavam apenas os dois em uma imensa paróquia. O frio era intenso, mas o ambiente, agradável. Como se a presença d'Ele estivesse em todo lugar. Conversaram durante horas; Paulo não parava de falar, por algum motivo, ele se sentia empolgado, vivo, ao lado do velho de barba branca.

    - Papai Noel, eu tenho um pedido.
    - Pois diga, meu filho.
    - Eu gostaria que o capitalismo fosse abolido neste Natal. Eu não aguento mais tanto materialismo e corrupção.
    - A corrupção sempre estará entre vós, meu filho. Enquanto houver o que comer e o que beber, haverá corrupção no mundo. Mas irei atender ao seu pedido para que os homens vejam, com clareza e medida, que no fim, é a misericórdia que move o mundo.

    Um milagre de Natal
    Quando o sol surge com seu calor, a relva seca, a flor murcha e a beleza de sua aparência morre. É assim que o rico murchará em seus negócios. - Carta de Tiago.

    O sol surgiu e as pessoas começaram a sair pelas ruas, não para comprar, mas para observar que algo mudou. Não havia carros, casas, lojas, empresas, marcas; apenas pessoas em uma metrópole infestada de coisas. Elas sentiam que o começo, meio, fim era o ser humano. Os homens não tinham mais interesse em fazer trocas porque não importava mais. Qual a vantagem de tirar vantagens de um homem que não possui nada? Qual a vantagem de tirar vantagens de um homem que possui tudo? Pois era assim que eles se sentiam. Sete bilhões de pessoas sentiam que não possuam absolutamente nada, eram miseráveis, e, ao mesmo tempo, distintos seres diante da misericórdia.

    O tempo carrega consigo uma natureza cruel que nos desgasta, nos deixa sem rumo, e ao mesmo tempo revela o eterno. Como uma ponta de agulha onde só quem presta bastante atenção consegue passar. No natal de 1945 essa ponta estendeu-se e tornou-se clara para todos. Os homens conseguiam observar a extensão do tempo e espaço, podiam ver, com clareza e medida, as próprias iniquidades e como se corromperam por tão pouco.

    Todos eram gigantes, e, igualmente gigantes, por natureza. Do mais pobre ao mais rico, todos eram filhos de Adão.

    Fome? Abrigo? Necessidades? Qual o sentido dessas palavras quando elas não têm mais serventia? Minha comida é a palavra que dá vida. Não se preocupavam com essas coisas porque buscavam, desesperadamente, alguém que pudesse lhes oferecer misericórdia. Alguém que pudesse dizer: Eu te perdoo. Como um copo de água para quem está no deserto. Esse foi o dia em que não importava o amanhã, apenas o hoje. Alguns ficavam loucos ao concluir que não havia ninguém para lhes conceder misericórdia - a culpa os consumiria pela eternidade de um dia.

    Um dia de Natal.

    Capital Imoral é filósofo, escritor e já refutou Mises.
  • Roberto Souto  05/12/2018 19:46
    Perfeito como sempre Mestre Capital Imoral. Poderia neste Natal voltar no tempo, 1945, e falar com o dr. Leandro para te arrumar uma coluna aqui no Mises.
  • Vactus  06/12/2018 03:19
    Por isso ficou alguns dias sem comentar nada, estava preparando esse esplendoroso conto de fantasia para nós.
  • Demétrio Fim  05/12/2018 18:20
    Neste caso, seria inteligente dos EUA forçar a barra chinesa futuramente ao passo de firmar algum outro aliado industrial? Seria essa postergação para avaliar a futura situação do Brasil e Europa no ano que vem? Uma vez que a possível (justamente aí que entra a postergação da "guerra") industrialização do Brasil, vindo de facilitação burocrática e acordos comerciais bilaterais, faria do Brasil (e seus 207 milhões de pessoas) um substituto em potencial para suprir a "queda" dos acordos com a China?

    Ver como será a futura aliança com o Brasil e o possível resultado poderia ser fato decisivo. Pois se os EUA forçar a China e houver fuga de capital dos xingling, este capital poderia vir para o Brasil: aliado dos EUA, desburocratizado, com menor intervenção, com diversas privatizações (chamando capital) e com uma ampla gama de setores para fortalecer a industrialização.

    O que é interessante para os EUA fazer uma estratégia dessa, uma vez que ter um substituto comercial/produtor da China comunista com um aliado mais "alinhado" e próximo (culturalmente, economicamente, ideologicamente e geograficamente), o que resultaria numa futura não necessidade de uma guerra comercial.
  • Libertario de verdade  06/12/2018 00:19
    Interessante sua colocacao Demetrio. Eu acredito que o mesmo é possivel,e o Brasil tem tudo para conseguir isso,só faltam uns poucos ajustes e a turminha que vive de mamata pegar mais leve e deixar o Brasil trabalhar. Te garanto que nao vai faltar industrias interessadas e mesmo o Brasil abrindo as portas para a importacao de tudo do mundo inteiro,com taxa zero,ainda sim a industria no Brasil cresce,juntamente com toda infra estrutura,pois nosso pais tem muito potencial reprimido,e tem muita gente desesperada para trabalhar,especialmente em regioes miseraveis.
  • Rodolfo Andrello  06/12/2018 11:33
    Espero que possamos realmente fazer uma abertura comercial a partir de jan/2019 e enfim ter melhores condições de importar produtos, especialmente da China que estará desesperada por clientes. O problema é que cada órgão da administração por aqui dá um jeito de ser uma pedra no sapato, a exemplo das recentes cobranças iniciadas pelos correios e da ainda mais recente cobrança que deve ser adotada pela anatel pra liberação de produtos eletrônicos.
  • Eberson  05/12/2018 19:00
    Lendo este artigo, lembrei-me da guerra fria, um fazia ameaças para o outro, mas no final ninguém tomava nem uma iniciativa.!
  • Estudante  05/12/2018 19:58
    O TRUMP disse que o FED é um problema maior que a China, me parece que ele sabe que um próximo CRASH esta por vir.

    Que data vocês chutariam? 2021? 2022? Da tempo do trump vencer mais uma?


    Uma coisa é certa, Bolsonaro vai encarar uma crise internacional no seu governo né?


    Abraços
  • Felipe Lange  05/12/2018 20:46
    Uma coisa que chama atenção na China são os carros feitos com gosto local (acho que até o Leandro vai ficar curioso com isso).

    Só ver o Audi A6 com entre-eixos maior do que no resto do mundo, que vai ser lançado (ou até já foi lançado) por lá. E muitos carros são feitos em fabricantes que fazem abertamente associação com o governo, o que já denuncia o poder ainda existente no partido. Muito provavelmente o público-alvo é de burocratas e afins, porque ainda existe um poder severo do estado sobre a economia privada.

    Não é mais a tarifa protecionista para garantir a boquinha das corporações, eles já se pegam abertamente em sociedades de economia mista.

    Só não sei o que virá depois do fim do PCC, porque uma hora ele vai sumir.
  • Tauan Victor  05/12/2018 21:11
    Alguém me dá as seguintes respostas?

    Como judiciários privados irão proteger aqueles que não tem dinheiro (logo não terá acesso) das injustiças do mundo? E como os judiciários funcionariam pelo fato de terem pensamentos de justiça um pouco diferente?

    O que impede de pessoas influentes e com poder capital de criar um país?

    Os policiais só iriam defender quem paga essa instituição privada?

    Quem iria garantir as leis (moral e ética que vocês tanto falam)? Logo se isso acontecer não vai acabar tendo um governo em volta dessas leis?
  • Um leigo qualquer  06/12/2018 17:28
    Só ler:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=93

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=605

  • Tauan Victor  07/12/2018 12:15
    Eu gostaria de entender como funcionaria a locomoção no mundo anarcocapitalista. Tipo, existem locais onde tem pedágio, para passar naquele local, com carro, é preciso pagar pedágio. Eu imagino que muitos proprietários de terra fariam o mesmo, cobrariam uma taxa e permitiriam a passagem. No mundo anarcocapitalista existiriam espaços públicos como estradas por exemplo? Se não houvesse eu estaria preso em minha propriedade já que obrigatoriamente teria que passar na propriedade de alguém, mesmo que fosse por via aérea. Eu não entendo como seria esse tipo de coisa, assim como a água também, como seriam garantidos o acesso aos recursos? Se eu não tiver água na minha terra e os vizinhos quiserem me ver morrer para se apropriarem do meu território eu não poderia fazer nada? Existem muitas coisas que o Estado administra que eu não entendo como seriam administradas sem a presença do Estado.?


  • Libertariozinho  07/12/2018 15:28
    Tauan, suas perguntas refletem dúvidas de quem realmente quer aprender. Tente entender:

    O fato de o Estado fazer X não garante que APENAS o Estado possa fazer X.

    Para ficar fácil de entender, imagine que você é proprietário de uma estrada.

    Uma estrada tem potencial de te gerar lucro.
    Você, como não odeia dinheiro, tentará explorar esse potencial.
    Seu objetivo é fazer com que o máximo de pessoas andem pela sua estrada para garantir um preço menor e maiores ganhos.
    A comodidade é muito valorizada pelos motoristas nesse cenário.
    Você, ao perceber isso, torna livre a circulação de pessoas na sua estrada e abre espaço para propagandas na sua estrada.

    Acho que já deu para sacar onde isso vai dar.
    Essa lógica se aplica a qualquer espaço, de qualquer lugar.

    Agora uma visão voltada a ética:

    Locomoção não é um direito. Você não tem direito de invadir propriedade dos outros contra o respectivo consentimento.
    Como locomoção não é um direito, você não tem obrigação de pagar pela locomoção de outras pessoas, como acontece atualmente.
    Estradas públicas são antiéticas pois são financiadas por pessoas que nunca contrataram tal serviço, ou seja, através de impostos(roubo).

    Espero ter respondido sua pergunta.


  • Libertariozinho  07/12/2018 15:33
    Sobre a água, eu realmente não entendi qual a sua dúvida...

    O Estado não fornece água para ninguém, a água é alocada pelo mercado. Água é uma mercadoria como qualquer outra.
    Você provavelmente tem água na sua casa. O que faria com que você perdesse esse acesso a água com o fim do Estado? Por um acaso a água que você tem não é através de um contrato com uma empresa?
    A única coisa que mudaria seria que existiriam outras empresas para te fornecer água, pois não existiria mais um monopólio legal desse serviço.
  • Guinter  06/12/2018 01:49
    Espero que o Brasil aumente sua participação no comércio americano, e que impostos sejam reduzidos. Que o Brasil se torne mais atraente aos americanos que a China, aí quero ver como vai funcionar esse jogo
  • Gabriel Delfraro  06/12/2018 02:19
    Alguém poderia me explicar o por que da China "exportar desinflação" para os EUA? Seria por que os EUA compram os produtos chineses e mandar dólar pra China, diminuindo a quntidade de moeda nos EUA?
  • Leandro  06/12/2018 13:10
    Não, não existe isso de "dólar sair dos EUA".

    Dólar eletrônico não vai pra China, pois o dólar não circula na China. Igualmente, dólar eletrônico não vem para o Brasil, pois o dólar não circula aqui. Não existe isso de dólar sair dos EUA e entrar em qualquer país. E nem vice-versa.

    Aproveitando a deixa: embora a mídia adore usar essa expressão, não existe isso de "dinheiro estrangeiro entrando no (ou saindo do) Brasil". Dólares, euros, ienes, renminbis, franco suíço etc. não são moeda corrente no Brasil. E nenhum banco brasileiro está autorizado a aceitar depósitos em moeda estrangeira.

    Assim, quando há investimento estrangeiro direto ou quando há exportações, nenhum centavo de moeda estrangeira de fato entra no Brasil.

    O que ocorre, então? Uma simples troca de propriedade de contas bancárias.

    Dólares, que estão em uma conta bancária em um banco americano, mudam de proprietário. E reais, que estão em uma conta bancária em um banco brasileiro, também mudam de proprietário.

    Vou dar um exemplo do que ocorre quando há uma exportação.

    Quando um brasileiro exporta soja para os EUA, não entram dólares na sua conta bancária aqui no Brasil. O dólar não é moeda corrente aqui e nem na esmagadora maioria dos países do mundo. Sendo assim, o dólar não "entra" nesses países via sistema bancário e nem muito menos sai do sistema bancário americano.

    O que ocorre na prática é que o exportador brasileiro adquire a titularidade de uma conta bancária, em um banco americano, em dólares. (Essa conta era do importador americano da soja brasileira).

    Ato contínuo, o exportador brasileiro pode decidir entre vender a titularidade dessa conta bancária para outra pessoa (normalmente para um banco brasileiro ou para um importador brasileiro) ou manter a propriedade dessa conta em dólares, decidindo investir esses dólares na própria economia americana (comprando ações, debêntures ou até mesmo títulos do governo americano).

    Perceba que os dólares nunca saíram dos EUA. A única coisa que aconteceu foi que a titularidade de uma conta bancária em um banco americano mudou de dono: um importador americano de soja brasileira repassou uma parte de seus dólares para um exportador brasileiro, que então decidirá o que fazer com os dólares dessa conta: ele pode vender para um banco brasileiro ou para um importador brasileiro, sempre em troca de reais.

    Com investimento estrangeiro ocorre o mesmíssimo processo. O investidor estrangeiro repassa a sua conta bancária americana para um brasileiro (um importador ou um banco brasileiro que quer manter ativos no exterior) e, em troca, adquire a propriedade de uma conta bancária no Brasil, em reais. Agora em posse de reais ele está livre para fazer investimentos aqui.

    É só isso.

    Quanto à desinflação, a resposta é direta: se você compra produtos chineses mais baratos que os nacionais, essa concorrência causa uma "desinflação", ou seja, segura o aumento de preços.

  • Questionador  06/12/2018 13:55
    Seguindo esta lógica quando os positivistas falam em "crime de evasão de divisas" na realidade é um crime inexistente então visto que de fato "divisas" nunca saem do país.
  • Leandro  06/12/2018 14:07
    Neste caso, o "evasor" assumiu a propriedade de uma conta estrangeira denominada em moeda estrangeira. E vendeu a sua conta brasileira em reais para outra pessoa. Seu "crime" foi ter feito essa transação voluntária sem avisar os burocratas da Receita Federal.
  • Questionador  06/12/2018 14:21
    Entendo.

    é que para mim me parece mais um vômito positivista querer criar um "crime" do nada. Uma "evasão de divisas" talvez fizesse sentido quando o cara colocava ouro debaixo do braço e fugia, dado que isto não ocorre, por esta lógica atual o único "crime" que consigo enxergar é alguma tentativa de ocultação do patrimônio, mas divisa, de fato, nunca sai do país.
  • Libertariozinho  06/12/2018 18:46
    Do jeito que o Leandro se refere aos funças da Receita Federal, eu fico pensando que ele é libertário...
  • Gabriel Delfraro  07/12/2018 09:43
    Como sempre perfeito, preciso e educado nas respostas, Leandro! Muito obrigado! São por essas e outras que o Instituto Mises é meu primeiro local de busca quando o assunto é economia.
  • Felipe Lange  07/12/2018 10:40
    Leandro, você acha que faz sentido esse meu comentário?
  • WDA  06/12/2018 12:45
    Olá pessoal do Mises!

    Editores e autores, não costumo pedir artigos e raramente o fiz no já longo tempo em que frequento o site. Mas gostaria de sugerir um tema: as supostas turbulências a ocorrer no mercado norte-americano no ano de 2019 e as consequências que esta poderá ter para o Brasil.

    Há várias pessoas, inclusive o "austríaco" Jim Rogers, insistindo no tema. E considero que isto é de interessa nacional, sobretudo em vista das mudanças políticas que vive nosso país. E não há quem possa dar melhores esclarecimentos ao público brasileiro sobre a questão que a equipe do Mises Brasil.

    Por isso peço à equipe que considere um artigo sobre o tema.

    Abraços

  • Pérsio  06/12/2018 15:18
    Boa tarde!

    Excelente artigo, mas eu gostaria de saber se algo positivo virá desta "guerra comercial" entre China e Estados Unidos. Eu me pergunto pelo setor do agronegócio: farelo e óleo de soja, soja em grão, milho em grão, suco de laranja, açúcar, carne de frango e de porco, carne bovina, café, entre outros. Se os chineses pararem de comprar alguns desses produtos dos EUA, eles poderiam comprar do Brasil? Ou não?
  • Arida  06/12/2018 16:30
    Absolutamente nada de bom pode advir de uma guerra comercial. O próprio nome já diz tudo: guerra. E nada de bom vem de uma guerra.

    Aliás, com a prisão da alta executiva chinesa pelo governo americano hoje, a situação tende a degringolar. Os atuais índices das bolsas mundiais já refletem isso.

    Se a China for pro buraco, o setor agrícola brasileiro vai junto, pois a China é seu maior consumidor.
  • Gustavo A.  06/12/2018 20:17
    OFF

    A Internacional Progressista oferece algum perigo ou é só um bando de derrotado lamentando a derrocada da esquerda no mundo?
  • Filipe Olegário  06/12/2018 20:17
    Não digam. E vocês só foram perceber isso agora??
  • Filipe Olegário  06/12/2018 21:27
    Quando vocês afirmam que o mercantilismo é um mau negócio pro povo Chinês e um bom pro governo Chinês E PARA OS AMERICANOS, cometem um erro grave. A China é comunista e pretende dominar o mundo (NAS SUAS PRÓPRIAS PALAVRAS), e são INIMIGOS dos americanos e sua (ainda restante) liberdade comercial.
  • Pérsio   07/12/2018 13:42
    Perspectiva interessante. Eu não tinha percebido isso. Mas acho que você tem razão.
  • Leigo  07/12/2018 14:24
    Quando Daniel Lacalle afirma que o mercantilismo é um mau negócio para o povo Chinês, ele quer dizer que a falta de liberdade e as imposições estatais do governo chinês estão atrapalhando a vida dos chineses. É bom para o governo chinês no sentido de que os burocratas e aquelas empresas em conluio com o Estado estão se beneficiando, e, mais uma vez, atrapalhando a vida dos chineses.

    Qualquer um que cerceia a liberdade de um indivíduo, é inimigo. Tanto o governo chinês quanto o americano são inimigos dos cidadãos que cerceiam a liberdade.
  • Matheus  09/12/2018 20:28
    Isso só demonstra que um país exportador pode ter eventuais problemas se um governo nacionalista subir ao poder e começar a taxar tudo. Com um país importador essa situação não aconteceria, por isso os EUA estão em uma posição de vantagem perante a competição com a China nesta guerra comercial.
  • Pobre Mineiro  11/12/2018 14:48
    Vantagem ??

    A China tem o tempo como o seu maior aliado, em qualquer briga com os EUA.

    Se o Trump continuasse a guera, sua reeleição poderia entrar em risco.


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