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As nove diferenças cruciais entre uma economia livre e uma economia intervencionista
Saber distinguir uma da outra é essencial para qualquer debate político e econômico

Ao longo de toda a história humana, foram várias as manifestações de movimentos ideológicos coletivistas. Especialmente nas décadas de 1930 e 1940, em várias partes da Europa, estes movimentos se tornaram mais explícitos e radicais, e assumiram suas extremadas formas de comunismo, fascismo e nazismo. 

Todas estas três ideologias representavam a total rejeição da liberdade econômica, do livre mercado e da liberdade individual.   

Atualmente, o comunismo, o fascismo e o nazismo — ao menos no formato que assumiram no século XX — estão mortos. Eles fracassaram miseravelmente, tendo produzido nada mais do que genocídios, fome, devastação e miséria. 

Embora sejam vários aqueles que alegam — em todos os eixos do espectro político ideológico — que o capitalismo triunfou sobre estas ideologias, a verdade é que o sistema econômico que hoje existe ao redor do mundo está muito longe daquilo que economistas liberais-clássicos como Mises consideravam ser uma economia de livre mercado.

O que seria uma verdadeira economia de mercado? Quais as características indispensáveis que uma economia deve apresentar para ser considerada de livre mercado? 

Os nove princípios a seguir são essenciais para que uma economia possa ser considerada genuinamente livre:

1. Todos os meios de produção são propriedade privada, seja de indivíduos ou de empresas.

2. Os proprietários destes meios de produção têm total liberdade para utilizá-los da maneira que mais lhes aprouver, sem estipulações estatais, sem restrições e sem regulamentações (a única restrição óbvia é não agredir a vida, a propriedade e a liberdade de terceiros).

3. A demanda dos consumidores é o que realmente determina como estes meios de produção serão utilizados.

4. As forças concorrenciais da oferta e da demanda determinam os preços dos bens de consumo e dos vários fatores de produção, inclusive da mão-de-obra.

5. A livre concorrência é plena. Não há protecionismos, privilégios, reservas de mercado, subsídios e restrições à entrada de indivíduos ou empresas em nenhum setor da economia e em nenhum tipo de mercado. Não há empecilhos burocráticos e não há agências reguladoras determinando quem pode e quem não pode entrar em um determinado setor. Qualquer empresa, de qualquer lugar do mundo, pode entrar livremente em qualquer área da economia para fornecer seus serviços.  

6. O sucesso ou o fracasso de empresas e empreendimentos é determinado exclusivamente pelos lucros e pelos prejuízos destas empresas, os quais, por sua vez, decorrem de sua capacidade de superar, no mercado, a concorrência das empresas rivais e de mais bem satisfazer as demandas dos consumidores.  Não há protecionismos, subsídios e nem programas de socorro a nenhum tipo de empresa falida, inclusive bancos.

7. O mercado não está restrito a transações domésticas. Há plena liberdade de comercializar com pessoas de todos os cantos do mundo, sem restrições governamentais, sem tarifas protecionistas. Qualquer indivíduo pode transacionar livremente com qualquer outro indivíduo de qualquer lugar do mundo.

8. O sistema monetário é completamente separado do estado. O governo não possui controle algum sobre o dinheiro, e este não é de curso forçado. Não há um banco central protegendo o sistema bancário e imprimindo dinheiro para expandir o crédito, determinar juros e estimular os lucros dos bancos. Há plena liberdade de entrada no setor bancário. A moeda será aquela voluntariamente escolhida pelos cidadãos.

9. O governo é restrito a níveis locais e sua atividade consiste unicamente em proteger a vida, a liberdade e a propriedade das pessoas.

 

Por essa definição, nenhum país do mundo é atualmente uma sociedade de livre mercado (embora haja várias gradações que deixem alguns — majoritariamente as cidades-estados — mais perto destes critérios). 

Sendo assim, que tipo de sistema econômico existe hoje no mundo? Mises explicou isso em sua coleção de ensaios de 1929, Uma Crítica ao Intervencionismo:

Quase todos os teóricos de política econômica e quase todos os estadistas e líderes partidários estão procurando um sistema ideal que, em suas crenças, não deve ser nem capitalista nem socialista, e que não se baseie nem na propriedade privada dos meios de produção e nem na propriedade pública.  Estão procurando um sistema de propriedade que seja restrito, regulado e dirigido pela intervenção governamental e por outras forças sociais, como os sindicatos.  Denominamos tal política econômica de intervencionismo, que vem a ser o próprio sistema de mercado controlado.

Uma economia intervencionista

Eis a seguir os nove pontos que definem uma economia intervencionista:

1. Os meios de produção podem ser propriedade privada, mas seu uso é regulamentado, restringido ou direcionado pela autoridade política.

2. Além de poder estipular, restringir ou regulamentar o modo como os meios de produção são utilizados, o governo também pode proibir ou regular o acesso a determinados setores da economia. No extremo, pode estipular que apenas ele, o governo, tem permissão para incorrer em determinada atividade comercial.

3. A demanda dos consumidores não é o único fator a determinar como os meios de produção serão utilizados. O governo pode impor regulamentações estipulando metas de produção, obrigando a prestação de serviços em determinados mercados sem demanda ou proibindo a produção de determinados tipos de produtos ou serviços.

4. O governo influencia ou até mesmo controla a formação dos preços de vários bens de consumo e de fatores de produção, inclusive da mão-de-obra. As receitas das empresas são afetadas — positiva ou negativamente — por políticas governamentais como regulação de preços, subsídios diretos e indiretos, regime tributário diferenciado, políticas de compra de estoques excedentes, e todos os tipos de barreira à liberdade de entrada nos mercado.

5. A livre concorrência é tolhida por vários tipos de restrição à entrada em vários setores da economia. Agências reguladoras determinam quem pode e quem não pode entrar em determinados mercados — como os setores bancário, aéreo, telefônico, elétrico, internet, TV a cabo, postos de gasolina etc.—, bem como quais serviços essas empresas selecionadas podem ou não ofertar, e quais preços podem cobrar. Subsídios e empréstimos subsidiados são destinados às empresas favoritas do governo, garantindo-lhes vantagens sobre concorrentes menores. Tarifas obstruem importações e garantem reservas de mercado para as empresas mais politicamente influentes. Altos tributos impedem que novas empresas surjam, cresçam e concorram com as já estabelecidas.

6. Não são os consumidores que decidem o sucesso ou o fracasso de algumas empresas, mas sim o governo. É o governo quem garante fartas receitas àquelas empresas escolhidas para fazer obras públicas; quem ajuda aquelas empresas que estão em dificuldade; e quem socorre aquelas que foram à falência. O governo altera e até mesmo anula as consequências geradas pelas preferências dos consumidores, escolhendo quais empresas irão prosperar via subsídios, quais não podem falir e quais devem ser socorridas com o dinheiro dos pagadores de impostos. As pequenas empresas são utilizadas para cobrir os prejuízos das grandes com boas conexões políticas e sindicais.

7. A liberdade de entrada de produtos estrangeiros no mercado doméstico é desestimulada ou mesmo impedida por meio de proibições, tarifas, quotas de importações, barreiras alfandegárias e barreiras não-tarifárias. O mesmo se aplica à entrada de potenciais empresas estrangeiras que possam rivalizar com empresas nacionais já estabelecidas em qualquer setor da economia.

8. O sistema monetário é inteiramente regulado pelo governo, que detém o monopólio da moeda e impõe sua aceitação obrigatória para todos os cidadãos. Um banco central protege e carteliza o sistema bancário, e manipula os juros, a taxa de câmbio e a quantidade de moeda na economia. A expansão do crédito é determinada ou influenciada pelo governo e não pela poupança voluntária dos cidadãos. Todas estas medidas são utilizadas como ferramentas para afetar o emprego, a produção e o crescimento a economia.

9. O governo está presente em várias áreas da economia e da vida das pessoas, possui abrangência nacional e não está limitado à proteção da vida, da liberdade e da propriedade.

 

É importante observar que o sistema intervencionista representado por estes nove pontos só pode ser implantado por meios violentos e coercivos. Somente o uso da força, ou a ameaça do uso da força, pode fazer as pessoas incorrerem em ações diferentes daqueles em que elas incorreriam voluntariamente sem a intervenção do governo. 

Sendo assim, embora a intervenção estatal seja normalmente discutida como se fosse "política pública", a verdade é que não há nada de "pública" nela.  Intervenções são políticas coercivas implantadas por políticos e burocratas visando ao interesse próprio e de seus favorecidos.

Compare estas políticas ao livre mercado, ou à economia desobstruída, como foi definido acima.  Arranjos sociais genuinamente baseados em transações de mercado são evidentemente de natureza voluntária. A violência ou a ameaça de violência é reduzida a um mínimo, e o indivíduo adquire a liberdade de viver sua própria vida e de aprimorar suas circunstâncias por meio da livre associação com terceiros.

Exatamente por isso é importante compartilhar com um maior número possível de pessoas uma visão clara e persuasiva a respeito da sociedade livre e da economia de livre mercado.  Apenas esta difusão de ideias pode, se não pôr um fim, ao menos restringir bastante esta era do estado intervencionista, levando-nos para um pouco mais perto da liberdade humana, que é um direito natural de qualquer indivíduo.

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Leia também:

Vivemos em uma economia planejada pelo governo e poucos se dão conta disso

A diferença entre iniciativa privada e livre iniciativa - ou: você é pró-mercado ou pró-empresa?

As diferenças econômicas e morais entre ser pró-empresas e pró-mercado

 


autor

Richard Ebeling

leciona economia na Northwood University de Midland, Michigan, é um scholar adjunto do Mises Institute e trabalha no departamento de pesquisa do American Institute for Economic Research.


  • Paulo  10/07/2017 16:09
    O Estado não seria necessário nem para o número 9:
    =? O governo é restrito a níveis locais e sua atividade consiste unicamente em proteger a vida, a liberdade e a propriedade das pessoas.
    Pois a própria iniciativa já tem meios mais eficazes e eficientes de prover isso.
  • Sirkis  10/07/2017 17:44
    Concordo com você. Mas a inexistência completa de um estado não é condição sine qua non para a existência de um livre mercado. Ajudaria bastante, é claro, mas é possível haver livre mercado pleno mesmo com estado.
  • Pedro Heckert  11/07/2017 12:03
    Na verdade não, porque para um estado ter poder ele necessariamente precisa ter o monopólio da força.
  • Skeptic  11/07/2017 19:16
    Para Hoppe é.
  • Skeptic  11/07/2017 19:17
    "1. Todos os meios de produção são propriedade privada, seja de indivíduos ou de empresas."

    Produção de segurança e justiça estão inclusas?
  • Humberto  11/07/2017 19:27
    Entendo que seu objetivo é ter uma resposta anarcocapitalista (a qual também é minha filosofia), porém, sem querer ser chato mas já sendo, os meios de produção dos bens da segurança estão em mãos privadas. São empresas privadas que produzem armas, munições, coletes, câmeras de segurança, carros de polícia, cercas elétricas, alarmes etc.

    Quanto à Justiça é mais complicado, pois não há exatamente um meio de produção físico, mas sim intelectual. Fora isso, computadores e papeis (meios de produção onde são produzidos as ordens judiciais) são de fabricação privada.
  • Nordestino Arretado  12/07/2017 05:48
    Sou meio leigo no assunto, mas se a justiça fosse totalmente privada, o que seria feito em relação às pessoas que cometem assassinato? Quem às obrigaria a pagar pelo crime? Seria como a lei de talião, matou tem que morrer? É por que moro no nordeste, e briga entre famílias por causa de um parente assassinado é coisa quase comum, chegando muitas vezes à vitimar pessoas inocentes por que deram o azar de serem parentes do assassino (ou do alvo), ou estavam no lugar e hora errada.
  • Andre  12/07/2017 12:56
    Se o suspeito for flagrantemente culpado, nenhum tribunal privado teria porque julgar o oposto, forças policiais e carcerárias são demandas perfeitamente legítimas da sociedade e estas exercerão a força punitiva legitimamente eleita pela sociedade via compra espontânea de seus serviços de segurança.
    Tal problema da vingança e conflitos familiares em decorrência de assassinatos persistiria até médio prazo, é uma reação cultural do local, a tendência é que diminua no longo prazo conforme a percepção de impunidade chegue a níveis baixos.
  • Pobre Paulista  10/07/2017 19:48
    O governo pode fazer isso em paralelo à iniciativa privada.

    O que só serviria para mostrar o quão ineficiente é o estado, até mesmo para essas coisas mais 'básicas'
  • Skeptic  11/07/2017 20:09
    O governo não é louco de permitir concorrência e deixar clara sua total incapacidade de fazer qualquer coisa.

    Humberto, faz sentido, um pouco.
  • Wesley  10/07/2017 17:41
    Excelente! Parabéns pela publicação. Isso é muito esclarecedor, sobretudo aos de esquerda que até hoje não entenderam o que é o capitalismo e o liberalismo.

    Abraços!
  • Kaio  10/07/2017 17:49
    Eu não entendo como algo tão simples pode ser tão difícil para algumas pessoas.
  • Pedro Bourbon  10/07/2017 17:54
    O mercado é tão fantástico que té mesmo em mercados regulados e fechados pelo governo é possível haver concorrência (mesmo que sufocada). Aqui na minha cidade abriu um posto novo, cobrando 30 centavos a menos, o que confirma o que todos já suspeitavam: existe cartel de preços na região. O que aconteceu? Esse posto novo desviou maioria dos clientes pra ele, teve até fila. Dois dias depois todos os outros postos jogaram os preços para abaixo desses 30 centavos.

    Isso é só um exemplo. Se não fossem todas as imposições da ANP e todos os papeis, taxas, cobranças, cartórios, filas, carimbos, licenças e encargos, além de toda a cornucópia de regulamentações ambientais, trabalhistas e de segurança que fazem com que abrir um posto de combustíveis seja uma atividade quase que restrita aos ricos, outros postos já teriam aberto há muito tempo e talvez esse cartel tivesse durado apenas alguns meses, em vez de mais de uma década.
  • Micael Carneiro  10/07/2017 17:57
    Aqui na minha cidade as farmácias se uniram e formaram um grupo com certas regras como, por exemplo, depois das 18 horas e em finais de semana apenas uma farmácia ficaria de plantão. Esse esquema perdurou por anos.

    Aí vieram outras rede de farmácia para minha cidade que não aceitaram entrar no esquema e passou a funcionar 24 horas por dia. O grupo de farmácia protecionistas entrou na justiça e perdeu. No final, várias dessas farmácias protecionistas de mercado faliram e hoje as pessoas daqui podem comprar remédio mais barato.
  • Hernan  10/07/2017 18:08
    Brasil é um país cheio de corajosos emprendedores e empresários competentes, sem esles, em condições de intervenção estatal similar ou mais branda pequenos carteis de bairros podem durar décadas. Qualquer bairro de classe média média na Grande SP tem muito mais opções de comercios que seus pares na Gran Santiago ou Gran Buenos Aires.
  • Davi  10/07/2017 18:00
    Off-topic: alguém poderia indicar um livro ou texto infantil sobre o libertarianismo. Também gostaria de material de como criar uma criança de forma libertária.
  • Skeptic  12/07/2017 20:12
    Livro infantil bacana: Por que a economia cresce e por que ela quebra? - Peter Schiff
  • Marcos  10/07/2017 18:00
    Pergunta: o comunismo realmente está morto ou simplesmente seus ideólogos se renderam a realidade e resolveram continuar com os mesmos objetivos mas com uma abordagem diferente?
  • Andre  10/07/2017 18:18
    Comunismo é uma cultura, não está em seu ponto mais saudável, se pegar um livro de economia de 70 anos atrás de um autor de opiniões ambíguas vai ler sobre planejamento central da economia como algo sério, mas está longe de morrer, Venezuela que o diga.
  • Amarílio Adolfo da Silva de Souza  10/07/2017 23:38
    As doutrinas comunistas, fascistas e nazistas já "nasceram" mortas. O Livre Mercado é natural e necessário. Mas, diante das circunstâncias históricas, ocorrerá de maneira paulatina e segura, de modo a beneficiar a todos, proporcionalmente e de maneira justa.
  • Angelo V.  11/07/2017 00:01
    Belíssimo artigo.

    Saber disso os intervencionistas sabem, suponho. Mas será que eles manifestam sequer uma mínima vontade de desimplantar seu sistema vigente, ou assim como está fica bom? Porque há uma elite dominante no Brasil - econômica, não intelectual - que controla de certa forma a cena decisória dos acontecimentos. Grandes empresários dão discurso de liberais, mas não quebram seus cartões do BNDES, nem fecham suas contas em bancos estatais, nem deixam de participar de licitações de todo tipo.

    Se o pai ensina o filho com exemplos, não temos exemplos de cima para, aqui de baixo, seguir. Vemos os grandes dando-se muito bem com intervencionismos estatais e queremos repetir o ato em escala menor. E a bola de neve segue aumentando. A bolha estoura, não estoura, estufa e murcha feito uma sanfona, e o baile segue.

    Enquanto não furar o fole da sanfona, dá-lhe forró.
  • Pedro  11/07/2017 00:11
    Prezado Ângelo, respondo sua pergunta com um depoimento pessoal.

    Tive, num passado recente, ampla convivência com universitários (tanto estudantes quanto acadêmicos) do campo do direito (ou seja, elite intelectual, não econômica, do nosso Brasil), bem como de campos análogos ao direito (relações internacionais, administração pública, contabilidade, economia [que num certo sentido está afim ao direito]). Para resumir, campos que atuam muito em intervenção e regulação (portanto dá para incluir aí também os que conheci vindos da pedagogia, psicologia, jornalismo, assistentes sociais; enfim, Brasília é uma cidade funcionários públicos, de modo que mesmo atividades em geral ligadas ao profissionalismo-liberal, aqui, podem ser bem interventoras).

    Todos eles estão direta ou indiretamente compromissados com a vertente positivista do direito, representada por ex. pelo Hans Kelsen e seuTeoria Pura do Direito.

    Grossíssimo modo, Kelsen defende uma pureza metodológica para o direito, excluindo do conceito de seu objeto (o próprio Direito) quaisquer referências estranhas, especialmente aquelas de cunho sociológico e axiológico (os valores), por meio de uma linguagem precisa e rigidamente lógica, abstraindo do conceito do Direito a ideia de justiça, porque esta está sempre e invariavelmente imbricada com os valores (sempre variáveis) adotados por aquele que a invoca, não cabendo, portanto, pela imprecisão e fluidez de significado, num conceito de Direito universalmente válido.

    O problema desta definição de direito é que ela é estritamente normativa, o que significa que direito é aquilo que foi normatizado e pode ser imposto como de curso obrigatório posto o estado tem o monopólio da lei, da aplicação da lei, da soberania sobre um território e da violência. Como também o tem da tributação e moeda, não tem problemas em se financiar para manter todos estes monopólios. E o direito é só isto: capacidade de normatizar e de se fazer obedecer pela simples coerção.

    Ora, é muito cômoda esta posição. Para pegar o exemplo da moeda fiduciária e de curso forçado: não precisa justificativa. Faz porque pode.

    Não requer uma reflexão mais acurada sobre origens e consequências. Pouco importa, inclusive, que as intenções manifestas para se criar uma lei fracassem: o fundamento da lei é a capacidade de faze-la e de obrigar seu cumprimento. Ter dado certo ou não é só um detalhe, pois não elimina a capacidade de fazer a lei (de novo, de novo e de novo, até "dar certo") e de pôr-la a ser cumprida.

    Logo, respondendo à sua questão ("Saber disso os intervencionistas sabem, suponho. Mas será que eles manifestam sequer uma mínima vontade de desimplantar seu sistema vigente, ou assim como está fica bom? Porque há uma elite dominante no Brasil - econômica, não intelectual - que controla de certa forma a cena decisória dos acontecimentos"), "assim como está fica bom" porque o que interessa é a capacidade de criar o sistema e faze-lo cumprir.

    Pode parecer simplista, e é, mas é como eles se comportam. Como não tem nenhuma formação sociológica ou econômica abrangente, não são capazes de nenhum raciocínio consequencialista (acerca da ligação entre intenções e resultados). Pior: quando você cita as inépcias, ingerências, equívocos e corrupções de agências reguladoras como a ANVISA, aparecem com aquelas frases prontas e sem qualquer conhecimento ou reflexão por trás, do tipo: "aí você bebe uma cerveja e morre; você toma um remédio e morre" (é sério: presenciei isto).

    E não adianta você citar exemplos de regulação privada no livre mercado. Sempre há a saída do "isto é um caso particular", "não dá para generalizar este exemplo", "a iniciativa privada não tem sustentáculo moral para fazer isto porque busca o lucro", etc.. Tudo isto já vi, o que aliado a tese de que lei e direito é aquilo que for normatizado e que pode ser imposto, reduz o debate ao umbigo do debatedor.

    Respondi ou compliquei?
  • Angelo V.  11/07/2017 00:40
    Responder, respondeu, Pedro Ivo. O que eu vejo é a mesma coisa, só queria que não fosse assim. As pessoas entregaram-se à burocracia de uma tal maneira que não vejo saída tão cedo. Aí vem um adepto da auto-ajuda e me chama de pessimista, que se eu pensasse positivo as coisas seriam diferentes. Chamar alguém de pessimista é falta de argumento, não é o teu caso, óbvio.

    A burocracia aprendeu a nos escutar sem agir ou reagir. Mesmo que tenhamos razão ninguém nos dará vez. Não pertencemos ao grupo dos escolhidos. Penso que este sistema possa ser mantido eternamente, pois até onde não havia intervencionismo tão gritante hoje já é notável seu crescimento brutal. A internet que parecia um terreno livre é mais cheia de restrições do que se imagina.

    Não vou desistir, sigo tentando, mas a luta é árdua, garanto.

    Valeu!
  • João RS  11/07/2017 00:30
    Bom texto.

    Mas alguns pontos não são consenso entre economistas liberais e fazem parte da doutrina laissez-faire (que é um subgrupo do liberalismo, mas não é o liberalismo). O liberalismo clássico nunca foi laissez-faire. Muitos autores liberais clássicos (Hayek, Adam Smith) eram contra o laissez-faire.

    O Hayek, o Adam Smith e outros liberais clássicos entendiam que o "laissez-faire" era utopia. Eles eram contra controle de preços, monopólios governamentais e políticas de intervenções estatais (protecionismo, subsídios). Mas não eram a favor da ausência de Estado. Conforme Hayek:


    "O princípio fundamental segundo o qual devemos utilizar ao máximo as forças espontâneas da sociedade e recorrer o menos possível à coerção pode ter uma infinita variedade de aplicações. Há, em particular, enorme diferença entre criar deliberadamente um sistema no qual a concorrência produza os maiores benefícios possíveis, e aceitar passivamente as instituições tais como elas são. Talvez nada tenha sido mais prejudicial à causa liberal do que a obstinada insistência de alguns liberais em certas regras gerais primitivas, sobretudo o princípio do laissez-faire. (...) É importante não confundir a oposição a essa espécie de planejamento com uma dogmática atitude de laissez-faire. (...) O bom uso da concorrência como princípio de organização social exclui certos tipos de intervenção coercitiva na vida econômica, mas admite outros que às vezes podem auxiliar consideravelmente seu funcionamento, e mesmo exige determinadas formas de ação governamental. "

    "É lamentável, embora não seja difícil de explicar, que no passado se tenha dado muito menos atenção aos requisitos positivos para um eficiente funcionamento do sistema de concorrência do que aos pontos negativos. O funcionamento da concorrência não apenas requer a organização adequada de certas instituições como a moeda, os mercados e os canais de informação - algumas das quais nunca poderão ser convenientemente geridas pela iniciativa privada mas depende sobretudo da existência de um sistema legal apropriado, estruturado de modo a manter a concorrência e a permitir que ela produza os resultados mais benéficos possíveis. Não basta que a lei reconheça o princípio da propriedade privada e da liberdade de contrato; também é importante uma definição precisa do direito de propriedade aplicado a questões diferentes."


    A preocupação do Hayek era definir conceitos vagos (como "propriedade" e "agressão a liberdade de terceiros"), por isso ele e outros liberais clássicos admitiam que o sistema criasse regras para combater monopólios, por exemplo, desde que fossem regras gerais, claras e aplicadas a todos (e não ações arbitrárias):

    "Nossa liberdade de escolha, no regime de concorrência, repousa na possibilidade de podermos procurar outra pessoa para satisfazer os nossos desejos, caso alguém se recuse a fazê-lo. Quando nos deparamos com um monopolista, porém, ficamos à sua mercê".

    É uma preocupação que os defensores do laissez-faire (Milton Friedman) não tinham. E aparentemente nem esse texto. Eles entendiam que o Monopólio era culpa do Estado e seria solucionado pelo livre competição total. O que os liberais clássicos diriam que é utopia.

    Não quero tomar partido, apenas ressaltar que não há consenso dentro do liberalismo sobre o limite da intervenção estatal. Para o laissez-faire o estado deve ser zero. Para os liberais clássicos, mínimo.
  • Ricardo Malta  11/07/2017 00:40
    Nada do que você disse está errado, só que nada tem relação ao artigo. O artigo em momento algum defende abolição do estado, e nem tampouco diz que só é possível haver livre mercado sem estado.

    Deu a impressão de que você criou um espantalho apenas para ter algo a criticar.

    No final, você diz que:

    "Não quero tomar partido, apenas ressaltar que não há consenso dentro do liberalismo sobre o limite da intervenção estatal. Para o laissez-faire o estado deve ser zero. Para os liberais clássicos, mínimo.

    Pra começar, sua definição é errada. Laissez-faire e estado mínimo são sinônimos. Quem defende estado nulo são os anarcocapitalistas.

    De resto, seja o estado zero ou seja ele mínimo, nada afeta os princípios elencados pelo artigo, pois o estado mínimo só se preocupa com segurança e justiça, e em nada interfere naqueles nove princípios delineados.
  • Esquerdista  11/07/2017 01:09
    Em off:
    Pós-graduação pode ter Dilma e Jean Wyllys como professores
    Convido a todos para a pós galera, os melhores estarão presentes.
    Abração do titio esquerdista.
  • Percival Péricles da Silva  11/07/2017 14:02

    Prefiro enfiar pregos sob minhas unhas
  • Burocrata  11/07/2017 14:36
    Só me inscrevo se a parte de economia for com o Mantega e técnicas de oratória com a Dilma
  • Andre  11/07/2017 19:24
    Faltou gestão e administração com Graça Foster e ética e compliance com Sergio Cabral.
  • Juliana  12/07/2017 01:05
    Gostei dessa forma, bastante crua, de mostrar o que é o intervencionismo e o que é o livre mercado.

    Mas essa comparação fica ainda melhor quando avança para os argumentos econômicos, políticos, sociais, etc. Acho que pelas diversas experiências, fica muito difícil negar que o intervencionismo não atinge aqueles que deveriam ser seus objetivo, como a proteção da indústria, o desenvolvimento estratégico e a proteção do emprego. Ou que o melhor que o intervencionismo faz — o que é péssimo — é arrastar uma economia inteira (como o Brasil) por uma recessão mais prolongada, de mais difícil realocação de recursos e, quiçá, até mais dolorosa.
  • Sheyk  24/07/2017 00:35
    Estado como conhecemos surgiu depois que as monarquias na europa caíram perante a revolução burguesa, no seu lugar se firmaram estados com constituições que tem base no liberalismo (tanto é que na nossa constituição o liberalismo deve ser preservado).
    Creio que o Estado e o Capitalismo, ambos andam de mãos dadas.

    Resumindo, sem o estado não tem como manter o capital especulativo por tanto o capitalismo.? Não é isso?



  • Emir  24/07/2017 13:24
    Quase. Sem o estado, não há como manter privilégios e protecionismos para grandes empresas; não há como manter subsídios e reservas de mercado para empresários ligados ao governo. Não há como escolher "campeãs nacionais". Não há como salvar empresas ineficientes, cujos bens e serviços os consumidores não mais querem consumir.

    Sem o estado, em suma, a conseqüência inevitável será o livre mercado e a livre concorrência.

    Pronto, agora você começou a entender o básico.

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  • Emerson Luis  29/07/2017 12:14

    É triste constatar quantos brasileiros ainda pensam que o Brasil é capitalista (ou "neoliberal") e clamam por ainda mais intervenções estatais como "solução".

    * * *


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