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Ser contra o laissez-faire é ser a favor da onipotência estatal e da divinização de seus burocratas
Defensores do estado deveriam, no mínimo, ter a franqueza de admitir isso claramente

Na França no século XVIII, a expressão laissez-fairelaissez-passer foi a fórmula adotada pelos defensores da liberdade para condensarem a sua filosofia.

Tais pessoas aspiravam a implantar uma sociedade em que o mercado não fosse obstruído por regulamentações que impedissem a livre iniciativa de cada cidadão, por privilégios concedidos pelo estado aos seus empresários favoritos, por impostos que desestimulam o empreendedorismo, pela burocracia, e por todos os tipos de subsídiostarifas protecionistas.

Para poder atingir esse objetivo, os defensores do laissez-faire propunham a abolição de todas as leis e regulamentações que arbitrariamente impedissem os indivíduos mais esforçados e mais eficientes de superar seus concorrentes menos esforçados e menos eficientes, os quais só se mantinham no mercado por serem protegidos por tarifas, subsídios e regulamentações criadas pelo governo exatamente para blindá-los da concorrência.

Propunham também a abolição de todas as barreiras que impedissem a livre circulação de bens e de pessoas.

Era esse o significado dessa famosa máxima.

A verdadeira batalha

Em nossa época atual, em que prevalece uma preferência passional e irracional pela onipotência governamental, a expressão laissez-faire está desacreditada. A opinião pública e os intelectuais a consideram hoje uma manifestação de depravação moral e de suprema ignorância.

Na visão dos intervencionistas, a escolha estaria entre, de um lado, "forças automáticas" e, do outro, "planejamento consciente". É evidente, acrescentam eles, que confiar em processos automáticos é pura estupidez. Nenhuma pessoa sensata poderia seriamente recomendar não se fazer nada e deixar as coisas seguirem seu curso sem a interferência de uma ação intencional.

Um planejamento — prosseguem eles —, pelo simples fato de apresentar um ordenamento racional, é incomparavelmente superior à ausência de qualquer planejamento. Laissez-faire, dizem eles, significa: deixem perdurar as desgraças; não tentem melhorar a sorte da humanidade por meio de ações sensatas.

Esse argumento é completamente falacioso. Ele defende o planejamento estatal, feito por burocratas, baseando-se exclusivamente em uma interpretação metafórica inadmissível. Baseia-se apenas nas conotações implícitas ao termo "automático", utilizado habitualmente — em um sentido metafórico — para explicar o funcionamento do mercado. 

Automático, segundo o Concise Oxford Dictionary, significa "inconsciente, ininteligente, meramente mecânico". Automático, segundo o Webster's Collegiate Dictionary, significa "não sujeito ao controle da vontade ... feito sem pensar e sem intenção ou direção consciente". Que vitória para o defensor do planejamento poder dispor desse trunfo!

A verdade é que a opção não é entre, de um lado, um mecanismo rígido e sem vida, e, de outro, um planejamento consciente e onisciente. A alternativa não é entre ter ou não ter um plano. A questão essencial é: quem deve fazer o planejamento?

Deveria cada indivíduo planejar para si mesmo ou caberia a um governo benevolente planejar por todos? A disputa não é entre automatismo "versus" ação consciente; é entre ação individual autônoma "versus" ação exclusiva do governo.

É entre liberdade "versus" onipotência governamental.

Quem deve decidir?

Laissez-faire não significa "deixem funcionar as forças mecânicas e desalmadas". Significa, isso sim, "deixem os indivíduos escolherem de que maneira desejam cooperar na divisão social do trabalho; deixem que os consumidores determinem o que os empresários devem produzir."

Já o planejamento defendido pelos intervencionistas significa "deixem ao governo a tarefa de determinar e a capacidade de impor suas decisões por meio do seu aparato de coerção e compulsão."

No regime de laissez-faire, diz o entusiasta do planejamento centralizado, os bens produzidos não são aqueles de que as pessoas "realmente" necessitam, mas sim aqueles cuja venda proporciona maiores lucros.

O objetivo do planejamento seria, portanto, dirigir a produção no sentido de satisfazer as "verdadeiras" necessidades dos consumidores.  

Ora, mas quem, senão os próprios consumidores, deve decidir quais são suas "verdadeiras" necessidades?

São os próprios consumidores que determinam, por meio do seu ato de comprar ou se abster de comprar, o que eles desejam e o que deve ser produzido. São essas pessoas, por meio de seus atos voluntários, que determinam quem dirigirá as grandes indústrias e quem limpará o chão; quantas pessoas trabalharão nas minas de cobre e quantas trabalharão no cinema.

Atribuir a cada um o seu lugar próprio na sociedade é tarefa dos consumidores, os quais, ao comprarem ou absterem-se de comprar, estão determinando a posição social de cada indivíduo. Os consumidores determinam, em última instância, não apenas os preços dos bens de consumo, mas também os preços de todos os fatores de produção. Determinam a renda de cada membro da economia de mercado. São os consumidores e não os empresários que basicamente pagam os salários ganhos por qualquer trabalhador.

Se um empreendedor não obedecer estritamente às ordens do público tal como lhe são transmitidas pela estrutura de preços do mercado, ele sofrerá prejuízos e irá à falência. Outros homens que melhor souberam satisfazer os desejos dos consumidores o substituirão.

Os consumidores prestigiam as lojas nas quais podem comprar o que querem pelo menor preço. Ao comprarem e ao se absterem de comprar, os consumidores decidem sobre quem permanece no mercado e quem deve sair; quem deve dirigir as fábricas, as fornecedoras e as distribuidoras. Enriquecem um homem pobre e empobrecem um homem rico. Determinam precisamente a quantidade e a qualidade do que deve ser produzido. São patrões impiedosos, cheios de caprichos e fantasias, instáveis e imprevisíveis. Para eles, a única coisa que conta é sua própria satisfação. Não se sensibilizam nem um pouco com méritos passados ou com interesses estabelecidos.

Nenhuma dessas escolhas dos consumidores é definitiva: são revogáveis a qualquer momento. O processo de seleção não pára nunca.

O que os amantes do estado realmente querem

No fundo, o que os defensores do planejamento desejam é afrontar a vontade dos consumidores, e substituí-la pela sua própria vontade. É suprimir essa democracia do mercado e se auto-declararem czares da produção. Estão convencidos de que suas motivações são mais elevadas e que, como se fossem super-homens, estão sendo chamados a impor os seus valores à massa de seres inferiores.

Sendo assim, eles deveriam, no mínimo, ter a franqueza de admitir isso claramente.

Toda essa louvação apaixonada pela proeminência da ação governamental não passa de um pobre disfarce para a autodeificação do intervencionista. O grande deus estado só é assim considerado porque se espera que faça exclusivamente aquilo que o defensor do intervencionismo gostaria que fosse feito. O único plano genuíno é aquele aprovado pessoalmente pelo próprio planejador. Todos os outros planos são meras falsificações.

Ao se referir a "plano", o que o crente dos benefícios do planejamento tem em mente é, sem dúvida, o seu próprio plano. Não lhe ocorre a possibilidade de que o plano implantado pelo governo possa ser diferente do seu. Os vários planejadores só concordam em um ponto: na sua rejeição ao laissez-faire, isto é, a que o indivíduo possa escolher e agir. O desacordo entre eles é total, quando se trata de definir o plano a ser adotado.

Sempre que se lhes mostram os evidentes e incontáveis defeitos das políticas intervencionistas, reagem dizendo que essas falhas são o resultado de um intervencionismo espúrio; o que nós defendemos, dizem eles, é o bom intervencionismo e não o mau intervencionismo. E, é claro, bom intervencionismo é o preconizado por quem assim o qualifica.

Laissez-faire significa "deixem o homem comum escolher e agir; não o forcem a se submeter a um tirano".

Quem pode ser contra?

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O artigo acima contém excertos do livro Ação Humana, de 1948.


autor

Ludwig von Mises
foi o reconhecido líder da Escola Austríaca de pensamento econômico, um prodigioso originador na teoria econômica e um autor prolífico.  Os escritos e palestras de Mises abarcavam teoria econômica, história, epistemologia, governo e filosofia política.  Suas contribuições à teoria econômica incluem elucidações importantes sobre a teoria quantitativa de moeda, a teoria dos ciclos econômicos, a integração da teoria monetária à teoria econômica geral, e uma demonstração de que o socialismo necessariamente é insustentável, pois é incapaz de resolver o problema do cálculo econômico.  Mises foi o primeiro estudioso a reconhecer que a economia faz parte de uma ciência maior dentro da ação humana, uma ciência que Mises chamou de "praxeologia".


  • Viking  22/03/2016 15:35
    magnífico, como sempre!
    Ludovicão da massa era genial!
  • Adgefeson Rodrigues  22/03/2016 16:07
    Excelente texto... Revela toda a verdade sobre a intervenção do estado na economia de mercado.
  • Geraldo Scarparo Pohlmann  22/03/2016 16:08
    Incrível como os textos de Mises continuam atualíssimos, mesmo décadas depois de escritos.
  • Rafael  22/03/2016 16:56
    Se tivesse sido escrito ontem ainda seria totalmente aplicável. Só ao ver o autor que percebi que o texto é antigo.
  • Capital imoral  22/03/2016 16:30
    Quem pode ser contra?
    -----------------
    Caro Mises refutador por Karl Marx, Eu vou te dizer quem pode ser contra: O proletariado.
    Pois se analisarmos, sob o arranjo de livre mercado, o trabalhador é o consumidor, mas também é a eterna ferramenta. Se existe liberdade, vai existir a liberdade do homem explorar o homem, portando isso é imoral, e precisa de uma mente livre para intervir. Veja como funciona o sistema que te explora:

    Um dia tem 24 horas.
    O cidadão comum trabalha 8 horas + 1 hora de almoço.
    Sobram 15 horas.
    Muitos gastam mais de uma hora para chegar ao emprego, ida e voltam somam aproximadamente 4 horas.
    Sobram 11.
    Espera-se que o ser humano comum tenha cerca de 8 horas de sono diárias.
    Sobram 3 horas.

    A maioria esmagadora de quem tem essas 3 horas livres por dia recebe cerca de um salário mínimo, valor inferior a mil reais. Uma pessoa dessa não tem condições de contratar alguém para cuidar das tarefas da casa. Logo, o cidadão tem que usar essas 3 horinhas de descanso para lavar, passar, fazer comida, cuidar das crianças etc.

    3 horas "livres" por dia por míseras 800 pratas.
    No final do dia, somos escravos por 7/8 do dia, enquanto somos livres apenas 1/8.



    Mas ai vai haver um dia na semana, em que você poderá se dar ao luxo de ser o "consumidor". neste dia obviamente você vai gastar o seu pouco salario que o capital te deu. E a pessoa acha simplismente essa equação normal, uma equação aceitável.

    quem são os burocratas? São os caras que perceberam que isso é errado, que isso é imoral, que isso é exploração do homem pelo homem em um espaço de liberdade.

  • Viking  22/03/2016 21:38
    hahahahahaha

    sinto falta quando voce nao aparece por aqui.

    pois bem, em paises ricos as pessoas trabalham bem menos que no Brasil.
    trabalhariam ainda menos se os governos nao cobrassem tantos impostos.
  • Gari capitalista  22/03/2016 23:28
    Capital imoral,

    "No pain, no gain."

    Reflita um tempo sobre isso. Conversamos depois, ok? (nas minhas 3 horas.. hahahaha)

    ------
    P.S.: Se você está tentando ser sarcástico, precisa se esforçar mais, fera!
    Faça umas aulas com o Economista da UNICAMP ou com o Típico Filósofo. Estes sim, sabem usar de sarcasmo. Você está parecendo um esquerdista falando. De verdade, precisa melhorar.
  • 'aluno  23/03/2016 13:25
    Nossa, 'capital imoral' você é fera cara! Confesso que realmente precisamos de gente idealista e cheio de moral para nos proteger, pois do contrario iremos ser explorados por esses bando de egoísta.
    Só tem um problema meu caro capital imoral, é quando esse pessoal todo cheio de moral e de boas intenções chegam lá em cima, eles metem a mão na grana que pagamos de impostos e põem no bolso deles e continuam discursando para nós trouxas para continuarmos mantendo eles lá para sempre amem.
    Capital imoral, vai ver se eu estou lá esquina, vai! Já não tem tanto idiota assim ao ponto de se agachar para os cara montar e por espora. De boas intenções o inferno está cheio, já dizia a minha vovozinha.
  • João Paulo Lima  23/03/2016 12:36
    Pois é, amigo Capital Imoral. Para pessoas como você, que acham que o trabalho é uma escravidão, não é fácil entender as coisas. Sugiro que você construa uma máquina do tempo e volte para quando seria possível fazer parte da corte de algum reino. Assim você poderia continuar achando que trabalhar é algo nojento e ainda poderia passar seu tempo bajulando o rei e a rainha, como se fazia há pouco tempo. Porém, para se construir a máquina do tempo será necessário trabalhar. E agora?
  • lucas  23/03/2016 13:49
    As oito horas foi criada salvo engano por ford, onde ele achava que os trabalhadores iriam consumir mais, ou seja, foi um capitalista que achou uma solução para um problema. Eu como defensor da liberdade não posso passar os limites da liberdade de outro individuo, como eu que rogo pela liberdade posso querer ultrapasar a liberdade de outro individuo ? E salário minimo e afins você já sabe sobre o nosso posicionamento.
  • Benitez  23/03/2016 17:55
    O burocrata é mais um custo a ser contabilizado. No Brasil um custo elevado demais, inclusive. Será pago pelo empregado, pelo empregador e pelo consumidor. Os proletários estão cansados é da esperança que um burocrata irá salvá-los. Os técnicos podem escrever é livros e fazer palestras gratuitas ao povo e tentar desenvolver as suas idéias, não impo-las através de influencias nos governos.
  • Fabio  23/03/2016 19:58
    É incrível, a mesma cantilena de quando eu cursava faculdade, nos distantes anos 90...os caras chegaram ao poder, não fizeram nada disso que o ilustre cidadão aí prega, enriqueceram uma elite sindical, estão deixando o poder e estarão na oposição pregando esse mesmo "catecismo". Hoje um esquerdista no Brasil se assemelha a um pastor ou padre, prometendo o paraíso que nunca chega. Vai renovar o discurso, amigo, esse aí tá muito "surrado", vai plantar batatas ô bobalhão, padreco vermelho!
  • Gari comunista  23/03/2016 21:13
    Pois é... É por isso que eu não vejo a hora de chegar o comunismo, já estou preparando até minha agenda: de dia vou acordar umas 10:00, ir a padaria, comer um pão com manteiga e tomar um pingado. A tarde vou trabalhar em um shopping, ficar dando informações para as gatinhas, tomar um refrigerante e comer um cachorro quente. A noite, vou ser gandula de futebol nos jogos do curinthian, vou assistir os jogos do timão bem de perto. E tudo isso só será possível graças ao mestre Karl Marx.

    "Na sociedade comunista, porém, onde cada indivíduo pode aperfeiçoar-se no campo que lhe aprouver, não tendo por isso uma esfera de actividade exclusiva é a sociedade que regula a produção geral e me possibilita fazer hoje uma coisa, amanhã outra, caçar de manhã, pescar à tarde, pastorear a noite, fazer crítica depois da refeição, e tudo isto a meu bel-prazer, sem por isso me tornar exclusivamente caçador, pescador ou crítico"
  • Fabio Riccardo  22/03/2016 17:19
    Em uma sociedade anarco, quem iria por livre e espontânea vontade investir em pesquisas como a cura de doenças, avanços biológicos, fisicos e quimicos? Principalmente aqueles responsáveis pelos simples avanços cientificos, sem uma visão, ao menos em curto prazo, de obtenção de lucros?

  • Fabio Riccardo  23/03/2016 13:15
    Mises seus ninjas. Sempre tem as respostas haha
  • opinador  22/03/2016 18:14
    Meu amigo caso vc não saiba, Harvard e MIT são instituições privadas e que visam lucros.

    Essas duas instituições são as maiores produtoras de premios nobel do mundo.

    O número de pesquisas relevantes (não como nossas universidades publicas) nessas universidades é imenso.


  • Fernando  22/03/2016 17:23
    "deixem o homem comum escolher e agir; não o forcem a se submeter a um tirano"

    Certo. Em absoluto? Não creio. Pois como não haver tirania no caso do Mc Donalds, dentro dos EUA, para ficar apenas neste exemplo, em que empurram goela abaixo das pessoas refrigerante com copos sobredimensionados justamente para vender mais?

    Como por exemplo o Mercado (os consumidores) selecionar os melhores se os "melhores" detém mais informações sobre o malefício de um produto que estão vendendo? Não creio que sem desregulamentação os consumidores estarão protegidos.

    Trocar a tirania do Estado pela tirania de algumas empresas não muda nada, só muda mesmo o senhor a ser servido.

    Os bonitinhos aqui realmente acham que as empresas estão interessadas na formação dos cidadãos? Acham mesmo que os consumidores selecionam as melhores, mais éticas?
  • Lazarini  22/03/2016 18:09
    Nossa! A tirania do McDonald's, que está invadindo a casa das pessoas e enfiando "Coca-Cola sobredimensionada" goela abaixo das pessoas! Oh, quem poderá nos defender dessa empresa tirana?

    Socorro, estou sendo sequestrado pelo Ronald!

    "Como por exemplo o Mercado (os consumidores) selecionar os melhores se os "melhores" detém mais informações sobre o malefício de um produto que estão vendendo?"

    Um argumento melhorzinho que o seu -- mas não muito -- foi formulado por dois prêmios Nobel, que se revelaram completos imbecis. Um austríaco não precisou de mais do que um parágrafo para refutar o livro inteiro.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2302
  • Klaillton  22/03/2016 20:37
    "Socorro, estou sendo sequestrado pelo Ronald!"

    kkkkkkkkkk.... não tou me aguentando! kkkkk....

    Nossa... lembrei do meu primo querendo argumentar que o estado me cobrar impostos é muito mais ético do que a empresa que fez propagando do celular que escolhi comprar... como se eu não tivesse tido escolha em qual marca e modelo eu comprei do celular, mas o imposto é totalmente justo!
  • PepePoA  22/03/2016 21:29
    Mais um que chega com aquela arrogância padrão de adolescente estatista bitolado e vai sair com rabinho entre as pernas...

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2024

    "Nenhum livre-mercadista nega a existência de empreendedores salafrários; nós apenas acreditamos — e para isto baseamo-nos na sólida teoria econômica — que, quanto mais livre e concorrencial for o mercado, mais restritas serão as chances de sucesso de vigaristas, e mais honestas as pessoas serão forçadas a se manter. E elas terão de ser honestas não por benevolência ou moral religiosa, mas sim por puro temor de que, uma vez descobertas suas trapaças, elas serão devoradas pela concorrência, podendo nunca mais recuperar sua fatia de mercado e indo a uma irrecuperável falência.

    Por outro lado, quanto maior for a regulamentação governamental sobre um setor, mais incentivos existirão para a corrupção, para o suborno, para os favorecimentos e para os conchavos. Em vez de se concentrar em oferecer bons serviços e superar seus concorrentes no mercado, as empresas mais poderosas poderão simplesmente se acertar com os burocratas responsáveis pelas regulamentações, oferecendo favores e, em troca, recebendo agrados como restrições e vigilâncias mais apertadas para a concorrência."
  • Damiao  22/03/2016 22:20
    As teorias do Mises e cia jamais podem ser implementadas, pois a presença de regulação é e sempre será necessária, enqto isso vocês vão continuar concebendo estes ideais como perfeição, mas não podem ser implementados, primeiro porque a própria sociedade demanda regulamentação, ela é necessária desde os tempos imemoráveis e não é possível que mais de cinco mil anos de civilização isto esteja errado; segundo porque o colega ali acima exemplificou muito bem - os consumidores sempre estão em piores condições de decidir. Só não vê quem não quer.
  • Carlos  22/03/2016 22:44
    Ué, mas ninguém defende a ausência de regulação. A regulação é extremamente necessária.

    Agora, a questão é: quem fará a regulação? Mais ainda: quem regulará os reguladores?

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2024

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2302
  • Martha  17/02/2018 03:09
    Mesmo sendo um comentário antigo, vale a pena respondê-lo, já que trata-se da argumentação (se é que esse emaranhado de parágrafos longos é um argumento) mais comum contra o laissez-faire.

    "As teorias do Mises e cia jamais podem ser implementadas, pois a presença de regulação é e sempre será necessária, enqto isso vocês vão continuar concebendo estes ideais como perfeição, mas não podem ser implementados"

    Argumento baseado em uma premissa falsa. Mises nunca argumentou que a regulação não é necessária, ele simplesmente disse que a regulação ESTATAL é problemática – justamente porque os políticos usam regulação para sufocar a concorrência e favorecer os empresários "queridinhos", formando oligopólios e cartéis. Quem perde com isso? O consumidor, claro.

    "...primeiro porque a própria sociedade demanda regulamentação..."

    Ué? Mudou de regulação para regulamentação? Vou considerar que ele errou na digitação.

    Sim, existe demanda por regulação. E existem as empresas que suprem essa demanda dos consumidores – são as certificadoras. Elas servem para guiar os consumidores quando estes forem escolher os produtos que desejam adquirir, garantindo que aquele produto tem as qualidades que o consumidor preza (é orgânico, é "sustentável", é produzido sem trabalho escravo etc). Essas empresas têm como principal patrimônio sua reputação – se for descoberta fraude, a certificadora é desacreditada e tanto produtores quanto consumidores abandonam seus serviços. Portanto, são empresas com incentivos fortíssimos contra corrupção e fraude.

    Todavia, o mesmo não pode ser dito para a regulação estatal (que o autor do comentário acha tão necessária), não é verdade?! Em poucas palavras – Operação Carne Fraca. Para saber mais sobre o assunto, leia o artigo abaixo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2769

    "ela é necessária desde os tempos imemoráveis e não é possível que mais de cinco mil anos de civilização isto esteja errado"

    Ah, uma primorosa mistura de Argumentum ad antiquitatem (argumento da tradição) com Argumentum ad populum (como a multidão).

    A antiguidade ou popularidade de uma coisa não a torna correta ou desejável. Estas falácias lógicas foram utilizadas para justificar a escravidão, entre outros comportamentos humanos horrendos.

    "...segundo porque o colega ali acima exemplificou muito bem - os consumidores sempre estão em piores condições de decidir."

    Os consumidores só estarão em piores condições de decidir justamente em um mercado artificialmente restrito à concorrência por regulação estatal. Se existe um oligopólio, e o consumidor não consegue fugir da empresa ruim – sai de uma ruim e cai em outra péssima.
    Já em um mercado mais livre, soluções como o Reclame Aqui e os sistemas de avaliação permitem ao consumidor conhecer a reputação das empresas ANTES de consumir produtos ou serviços. Além disso, esses mecanismos permitem ao consumidor que foi lesado punir as empresas ruins, afugentando futuros clientes. Nesse ambiente, as empresas recebem incentivos tanto para abster-se de fraudes, como para ter um bom pós-venda.

    Regulação estatal é ruim para o consumidor – "só não vê quem não quer".
  • Carlos Antonio  22/03/2016 18:00
    Economia não é lugar para governos
  • Auxiliar de metralhadora ( perguntas off topic)  22/03/2016 19:51
    Olá pessoal!

    Tenho duas grandes dúvidas sobre a obra 'Riqueza das Nações':

    1)Por que Adam Smith defendia que um dos deveres do Estado seria o de construir 'Obras Públicas que visem facilitar o comércio'?! Isso não seria o mesmo que o Estado dizer qual é a melhor maneira de se circular o comércio (leia-se economia) em certo local, (pois ao meu compreender isso figura como uma intervenção estatal na economia, mesmo que indireta)?!

    2) Numa sociedade de liberalismo clássico: Como se daria a construção, a manutenção e a segurança de locais privados mas que são de uso público (praças)?!

    3) Adam Smith defendia ou não a educação básica pelo Estado?! Pois vejo muitas pessoas que dizem ser a favor do Estado Mínimo, e que essas mesmas pessoas defendem que a educação básica poderia ser oferecida(claro sem regular a educação na sociedade) pelo Estado.

    Eu li a obra 'A Riqueza das Nações' há alguns meses atrás e tentei compreender da melhor maneira possível, porem eu sou iniciante em assuntos econômicos.

    Agradeço desde já a todos que puderem responder-me a essas dúvidas.

    Tudo de bom!
  • Guilherme  23/03/2016 03:53
    Sim, Adam Smith era a favor de que o Estado pudesse fazer serviços como obras públicas, ajudar no custeio da educação, etc. Ele queria que o Estado suprisse o que o mercado não pudesse por si.

    A ideia de "laissez-faire" seria apenas o governo cuidando da justiça e segurança. Mises o defendia não porque ele acreditava haver alguma espécie de "direito natural" que impediria moralmente a ação do Estado além disso; mas sim porque ele acreditava ser esse o melhor arranjo, o que ele deixa bem claro em seu Liberalismo.

    Porém, muitas vezes ele comete o erro de dizer que o liberalismo clássico é essencialmente laissez-faire, o que não é verdade, como vemos no pensamento de Locke, Smith, Ricardo, Hume, Mill, etc.

    Hayek, por exemplo, estava mais para a ala smithiana, e não deixava de admitir, a priori, a ação do Estado em algumas coisas como obras públicas e educação, como Smith também fazia.

    Mas uma coisa é sempre central no pensamento de todos os economistas liberais: o mercado é é o maior mecanismo de causar prosperidade, sem necessitar de ação direta do Estado para criar esse arranjo, ou seja, ação que diz que "indivíduo A deve alocar recurso x no local z". O mercado é uma ordem espontânea, e o sistema de preço transmite informação relevante.
  • Artilheiro de metralhadora  23/03/2016 16:24
    "Sim, Adam Smith era a favor de que o Estado pudesse fazer serviços como obras públicas, ajudar no custeio da educação, etc. Ele queria que o Estado suprisse o que o mercado não pudesse por si. "

    A iniciativa privada pode muito bem fazer esses serviços de obras públicas (presídios, quartéis, delegacia, prédios administrativos da justiça), isso já está comprovado.



    "A ideia de "laissez-faire" seria apenas o governo cuidando da justiça e segurança. Mises o defendia não porque ele acreditava haver alguma espécie de "direito natural" que impediria moralmente a ação do Estado além disso; mas sim porque ele acreditava ser esse o melhor arranjo, o que ele deixa bem claro em seu Liberalismo."

    Quem dera mesmo onde os países que ao menos "tentam" ser laissez-faire, somente o Estado apenas tivesse a responsabilidade de assegurar o cumprimento da lei e da ordem, hehehe!!!

    "Porém, muitas vezes ele comete o erro de dizer que o liberalismo clássico é essencialmente laissez-faire, o que não é verdade, como vemos no pensamento de Locke, Smith, Ricardo, Hume, Mill, etc. "

    Ainda preciso ler (quero muito - ao menos as principais obras de todos eles): Locke, Ricardo, Mill, vou ler Hayk também, obrigado pela dica ( mesmo que indireta, hehehe). Eu já li a principal obra de Hume (em relação a economia) que é "Escritos Sobre Economia" (muito bom, vale a pena lê-lo).

    Muito obrigado pela sua resposta!

    Tudo de bom!
  • Auxilair de metralhadora (pergunta off-topic)  22/03/2016 20:01
    Alguém poderia me indicar alguma leitura (livros, artigos) que falem sobre como deve ser a defesa interna (policiamento) de uma sociedade liberal clássica?!

    Obs.: Se não estou enganado (se alguém puder me confirmar ou corrigir-me), o modelo de policiamento de uma sociedade liberal clássica não deveria ser uma Força Pública como a que tivemos, ao menos na teoria, há mais de 80 anos atrás?!Digo do modelo de policiamento, não que nós tivemos uma sociedade do modelo liberal clássica (hehehe)?!

    Agradeço desde já pela(s) resposta(s).

    Tudo de bom!

  • Andre Henrique  23/03/2016 11:25
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=174
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1221
  • Bruno  22/03/2016 22:53
    E as ruas como ficariam em laizess-freire?Podiam ser privadas sim..assim como estradas!

    GALERA!!Discussão em que muitos liberais estão propondo solução na area de comentarios.
    Trata-se de uma matéria sobre as soluções do congestinamento...Qual a solução para parar de perder tantas horas parado dentro de um carro?Vamos mostrar a solução mercadista para isso!

    www.flatout.com.br/a-solucao-para-os-congestionamentos-nao-sera-abrir-ruas-nem-investir-em-transporte-coletivo/

    GOVERNO NÃO RESOLVERA!!!!

    Abraço e continuem com cada artigo mais top que o outro!!!
  • Julio cezar Rodrigues  23/03/2016 01:15
    A teoria libertaria seria sem dúvida nenhuma o melhor dos mundos. Não por ser perfeita, mas porque está em conformidade com nossa natureza de animais que deliberam e podem escolher como viver sua finita existência. Talvez o medo dessa liberdade e a angústia que dela sobressaí leva-nos a aceitar essa "escravidão voluntária". Criamos o leviata. Livrar-se dele agora não será tarefa fácil. A crise politica e policial que vivemos nesse momento prova isso. Continuamos odiando os políticos mas amando o estado. Acredito que o caminho continua sendo cortarmos pedaços do leviata e assumirmos mais responsabilidades. Acabar com o estado? Talvez em um futuro muito distante...
  • Andre Henrique  23/03/2016 11:23
    Você foi no cerne da questão... eu acho que o ser humano é masoquista por natureza, e adiciono uma das grandes verdades ditas pelo glorioso Renato Russo sobre nossos pais: "São crianças como você...", ou seja, mesmo adulto o humano tem a necessidade de ter alguém dizendo o que fazer.
    Só me exclua por favor no grupo de pessoas que amam o Estado... eu particularmente tenho um ódio tremendo desse "pai".
    Abraço
  • Emerson Luis  23/03/2016 10:20

    "A verdade é que a opção não é entre, de um lado, um mecanismo rígido e sem vida, e, de outro, um planejamento consciente e onisciente. A alternativa não é entre ter ou não ter um plano. A questão essencial é: quem deve fazer o planejamento?

    Deveria cada indivíduo planejar para si mesmo ou caberia a um governo benevolente planejar por todos? A disputa não é entre automatismo "versus" ação consciente; é entre ação individual autônoma "versus" ação exclusiva do governo.

    É entre liberdade "versus" onipotência governamental.
    "

    * * *
  • Eduardo R., Rio  05/11/2017 23:05
    O que é Laissez-Faire?, por Jeffrey A. Tucker.
  • Luciano viana  16/02/2018 14:50
    Mercado= pessoas. Regular mercado pra proteger emlresarios, é proteger empresarios da vontade das pessoas.
  • Capitalismo de Bem Estar  16/02/2018 14:52
    Padaria no Socialismo: Fila de pessoas esperando pães

    Padaria no Capitalismo: Fila de pães esperando pessoas
  • BS  17/02/2018 15:08
    Excelente.
  • Andre  17/02/2018 19:38
    Alguns artigos do Leandro Roque que analisam a economia brasileira me motivam a visitar este site com frequência. A clareza e a preocupação em explicar a economia como ela é, fazem dos seus textos o que há de melhor no jornalismo econômico do Brasil.

    É um contraste grande com o conteúdo de caráter mais ideológico relacionado a Escola Austríaca, como, por exemplo, o presente artigo. A linguagem e o discurso promovem uma divisão da sociedade que não é nada saudável. Há uma constante busca de colocar governo e sociedade como adversários. A própria escolha das palavras, como afrontar, intervencionista, impor, aparato, coerção, czares, tirano, deixa isto bem claro. Laissez-faire e planejamento são uma batalha.

    Tomei contato com a escola austríaca no final dos anos 90 quando fazia MBA em Finanças no IBMEC. O Prof. Ubiratan Iorio transmitia com entusiasmo as ideias de Mises e Hayek na disciplina de Economia e muito me influenciaram durante um longo período.

    Mais recentemente, procurando entender a crise de 2008, tive oportunidade de explorar a história da ciência econômica e comecei descobrir que muito do que se ensina nos cursos de macroeconomia não corresponde à realidade. Passei então a buscar a verdade sobre austeridade, dívida pública, dinheiro, credito, déficits lendo economistas como Georg Friedrich Knapp, Georgescu-Roegen, Marriner Eccles, Alfred Mitchell-Innes, Abba Lerner, Hyman Minsky, Wynne Godley, Randall Wrey, Warren Mosler, Richard Werner, Michael Hudson, Cullen Roche e Steve Keen e explorando, além de macroeconomia, temas como Energia e Entropia, Termodinâmica, Modelagem de Sistemas Complexos e System Dynamics.

    Uma sociedade é composta de pessoas distribuídas entre governo, domicílios, empresas, ongs, escolas, universidades e países parceiros, que precisam colaborar para produzir bens e serviços que atendam às suas necessidades. O governo é uma peça chave neste ecossistema. Existem certas capacidades que só o governo tem. Por exemplo, capacidade virtualmente ilimitada de honrar seus compromissos em moeda local, capacidade de assumir riscos de investimento de longo prazo em infraestrutura, capacidade de investimento em ciência básica e tecnologia, capacidade de definir um posicionamento estratégico para a nação e conduzir iniciativas para realizar este posicionamento. Capacidade de combinar políticas fiscais e monetárias de forma a maximizar a capacidade produtiva da nação. São capacidades que o setor privado não tem. Estas capacidades, se bem utilizadas, em colaboração com os demais segmentos da sociedade, representam a diferença entre um pais bem sucedido e um pais medíocre. Não fazer uso delas é burrice.

    EUA, Japão, Coreia do Sul, Cingapura e a China não chegaram aonde chegaram colocando a sociedade contra o governo. Chamando pejorativamente servidores públicos de parasitas e burocratas. Afirmando bobagens do tipo que se lê aqui com frequência de que imposto é um confisco de recursos dos cidadãos necessário para que o governo possa gastar, que o governo não produz nada, que déficits públicos são ruins. Que dívida pública concorre com investimento privado. Tais afirmações demonstram apenas um desconhecimento sobre como funciona uma economia moderna que emite sua própria moeda fiat soberana. Na realidade dívida pública é poupança privada. Déficits do governo correspondem a superávits do setor privado. Gastos do governo criam dinheiro e impostos cancelam dinheiro. Se o governo gasta mais do que recolhe de impostos – um déficit – há um saldo financeiro líquido no setor privado.

    Todos estes países se industrializaram e se tornaram ricos com participação do governo no financiamento, planejamento e condução de um projeto estratégico para o país, no desenvolvimento da infraestrutura, na criação de forca de trabalho de excelência, na criação de um parque industrial diversificado, no investimento em ciência básica e tecnologia e no posicionamento e defesa dos seus interesses perante a comunidade internacional. Estratégias envolvem escolhas. Estas escolhas não devem ser confundidos com privilégios.

    Elon Musk só conseguiu seus feitos na SpaceX as custas de várias gerações de projetos financiados por recursos do governo dos EUA a partir do final da segunda guerra. O iPhone é fruto de tecnologias desenvolvidas pelo governo, diretamente nos seus próprios laboratórios ou indiretamente, provendo recursos para universidades e empresas. Só o Departamento de Energia dos EUA comanda uma rede de 17 laboratórios de pesquisa básica e centros de tecnologia que desenvolvem as soluções de energia para o futuro.

    Claro que o governo, como qualquer outro segmento da sociedade, deve exercer suas funções com qualidade e responsabilidade, sem privilégios. Cabe a sociedade implantar mecanismos que assegurem que isto ocorra. É difícil. Mas é necessário. Pois não há alternativa de uma nação forte sem governo forte. Se o governo é necessário, então por que não dimensiona-lo adequadamente de forma a torna-lo capaz de exercer suas funções de forma plena? Em parceria com os demais segmentos da sociedade. Não se trata de afrontar a vontade dos consumidores ou suprimir democracia do mercado. Não é Laissez-faire contra planejamento. Trata-se de realizar o potencial de uma nação de forma plena.
  • Leandro  18/02/2018 16:03
    Agradeço as palavras a mim direcionadas, mas suas teses econômicas são tão erradas e descabidas, que é impossível deixá-las passar em branco.

    Vou abordar as mais gritantes.

    "Existem certas capacidades que só o governo tem."

    Correto. Só ele tem a capacidade de destruir uma economia, por exemplo. No máximo, na melhor das hipóteses, ele pode apenas atrapalhar pouco.

    "Por exemplo, capacidade virtualmente ilimitada de honrar seus compromissos em moeda local,"

    O que, na prática, significa que o governo pode ou hiperinflacionar para quitar suas dívidas (o que nos leva à década de 1980 no Brasil) ou aumentar continuamente sua carga tributária (o que nos traz ao modelo atual). Cabe a você mostrar que ambos estes arranjos são propensos a criar prosperidade.

    "capacidade de assumir riscos de investimento de longo prazo em infraestrutura"

    O que o governo faz, na realidade, é tomar dinheiro alheio e repassar a seus empresários favoritos, os quais então irão fazer obras que atendem a interesses políticos e eleitoreiros, e não às genuínas demandas dos consumidores.

    Se uma determinada obra, por mais vultosa que seja, atende a uma genuína demanda dos consumidores, então isso, por definição, significa que ela é lucrativa. Sendo lucrativa, empreendedores se acotovelarão para atender a esta demanda de mercado, pois há lucros a serem obtidos.

    Por outro lado, se uma obra de longo prazo não é economicamente lucrativa, então, por definição, significa que não há genuína demanda por ela, e, logo, só será feita para atender a desejos políticos. Moradores locais serão privilegiados à custa do resto do país, que só perderá.

    Um grande exemplo de tudo isso é a ponte Rio-Niterói. Ótima para os cariocas e niteroienses que a utilizam diariamente. E péssimas para os desdentados do Piauí, que viram todo o seu INPS enterrado na ponte.

    É indiscutível que uma obra será ótima para aquela pequena fatia da população que irá utilizá-la diariamente. A questão é: e quanto ao restante da população? Quais serão as consequências da construção desta ponte para quem não a utiliza?

    A construção da obra será paga ou com impostos ou com endividamento.

    Se com impostos, as pessoas e empresas que pagaram esses impostos ficarão sem esse dinheiro e, logo, não poderão despendê-lo em coisas que voluntariamente considerem mais necessárias. Consequentemente, os empreendimentos que receberiam esse dinheiro ficam agora sem receita.

    Se com endividamento do governo, as pessoas e empresas que poderiam ter pegado esse dinheiro emprestado para fazer investimentos produtivos, ficarão agora sem acesso a ele.

    Em ambos os casos, os empreendimentos que agora não mais receberão este dinheiro — que foi desviado para a obra — começarão a demitir. Ou então não mais se expandirão.

    Portanto, para cada emprego público criado pela obra, foi destruído, em algum lugar, um emprego no setor privado.

    Podemos ver os operários empregados na obra. Podemos vê-los trabalhando. Esta imagem real faz com que o argumento do governo — seu investimento gerou empregos — se torne vívido, tangível e convincente para a maioria das pessoas. Há, no entanto, outras coisas que não vemos porque, infelizmente, não se permitiu que surgissem. São os empregos destruídos pelos $100 milhões tirados dos contribuintes ou do mercado de crédito.

    Na melhor das hipóteses, tudo o que aconteceu foi uma transferência de empregos por causa de um projeto. Mais operários para a construção da ponte; menos operários para a indústria automobilística, menos empregados para fábricas de artigos de vestuário e para a agropecuária.

    E agora vem pior: caso a obra tenha sido financiada via empréstimos contraídos pelo governo, tais empréstimos terão de ser quitados. E quem fará isso serão os pagadores de impostos de todo o país. Dado que o governo não gera riqueza, ele só poderá quitar seus empréstimos por meio de impostos confiscados da sociedade.

    Como então é possível dizer que houve um enriquecimento de toda a sociedade?

    A grande lição é: vivemos em um mundo de recursos escassos. Aquilo que é utilizado em um setor foi necessariamente retirado de outro setor. Se os gastos do governo concentraram recursos em um setor, então outros setores ficaram sem estes mesmos recursos.

    Se o governo está construindo uma ponte, ele irá consumir grandes quantidades de aço, cimento, vergalhões e argamassa. Isso significa que todo o resto do setor da construção civil terá agora de pagar mais caro para conseguir a mesma quantidade de aço, cimento, vergalhões, argamassa. Os preços desses itens irão subir e, como consequência, todos os bens que utilizam esses itens em sua construção — como imóveis e carros — ficarão mais caros.

    Quando o governo gasta, ele está consumindo bens que, de outra forma, seriam utilizados pela população ou mesmo por empreendedores para fins mais úteis e mais produtivos. Por isso, todo o gasto do governo gera um exaurimento de recursos. Bens que foram poupados para serem consumidos no futuro acabam sendo apropriados pelo governo, que os utilizará sempre de forma mais irracional que o mercado, que sempre se preocupa com o sistema de lucros e prejuízos. Portanto, os gastos do governo exaurem a poupança (por ''poupança'', entenda-se ''bens que não foram consumidos no presente para serem utilizados em atividades futuras'').

    Os gastos do governo não possuem o poder milagroso de criar riqueza para todos. Sempre há os que ganham e sempre há os que perdem. Impossível todos ganharem.

    O velho ditado segue impávido: quem afirma que gastos do governo geram crescimento econômico está afirmando que tomar dinheiro de uns para gastar com outros pode enriquecer a todos. Está afirmando que tirar água da parte funda da piscina e jogá-la na parte rasa fará o nível geral de água na piscina aumentar.

    Uma obra é viável? Tem demanda? Então seus beneficiários diretos estarão mais do que dispostos a pagar por ela. Ou pagar pedágio para a empresa que se dispuser a construí-la.

    Foi assim que aconteceu em Hong Kong

    "capacidade de investimento em ciência básica e tecnologia"

    Isso exige uma resposta mais detalhada, a qual foi dada aqui:

    Ciência financiada pelo livre mercado versus ciência estatal

    "capacidade de definir um posicionamento estratégico para a nação e conduzir iniciativas para realizar este posicionamento."

    Ou seja, políticos têm mais visão empreendedorial do que todo o conjunto de empreendedores do país. Aliás, têm mais visão empreendedorial que todo o conjunto de empreendedores do resto do mundo -- afinal, em um livre mercado, qualquer consórcio de empreendedores de qualquer lugar do mundo poderia livremente vir ao país e fazer obras aqui.

    Desconheço um único exemplo bem-sucedido desta sua teoria. Mas conheço vários mal-sucedidos.

    "Capacidade de combinar políticas fiscais e monetárias de forma a maximizar a capacidade produtiva da nação."

    Aí você está dizendo que manipular juros, imprimir dinheiro e cobrar impostos é o que "maximiza a capacidade produtiva da nação". Pelo visto, você está totalmente alheio ao que ocorreu no Brasil nos últimos anos. Afinal, isso foi exatamente o que foi feito aqui, e o resultado foi o exato oposto da "maximização da capacidade produtiva da nação".

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2466

    "Estas capacidades, se bem utilizadas, em colaboração com os demais segmentos da sociedade, representam a diferença entre um pais bem sucedido e um pais medíocre. Não fazer uso delas é burrice."

    Fizemos uso de todas elas aqui no Brasil. Isso, sim, foi burrice.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2755

    "Na realidade dívida pública é poupança privada."

    Essa foi a pior de todas. Dívida pública só é poupança para quem aplica na dívida do Tesouro. Só que tem uma encrenca: quando essa dívida é quitada, alguém tem de ser tributado para isso. E essa pessoa tributada foi "despoupada", por definição. E sua poupança foi repassada ao aplicador.

    Logo, não é necessário ser um gênio matemático para entender que houve apenas uma redistribuição de renda. Um ganhou, outro perdeu. Quem comprou títulos públicos se deu bem; já quem foi tributado para quitar essa dívida se deu muito mal.

    Como em todas as intervenções estatais, sempre há ganhadores e perdedores. A ideia de que a dívida pública é boa porque "nós devemos a nós mesmos" possui profundas implicações: tudo depende de se você faz parte do "nós" ou do "nós mesmos".

    "Déficits do governo correspondem a superávits do setor privado."

    Isso não faz o mais mínimo sentido. A igualdade contábil nem sequer é essa. A igualdade é outra: o saldo da balança comercial é igual à soma da poupança (ou déficit) do setor público e a poupança (ou déficit) do setor privado.

    Não há absolutamente nenhuma teoria dizendo que se o setor público tem déficit isso significa que o setor privado teve superávit.

    "Gastos do governo criam dinheiro"

    Errado. Déficits do governo podem criar dinheiro caso o governo recorra a empréstimos do setor bancário, e o setor bancário crie dinheiro (via reservas fracionárias) mas não venda ativos para o setor privado com o intuito de conseguir este dinheiro. (O que foi explicado em detalhes neste artigo).

    Já a frase "gastos do governo criam dinheiro" é totalmente desprovida de verdade.

    "e impostos cancelam dinheiro."

    Ainda mais falso. Impostos só podem "cancelar dinheiro" se o governo incorrer em superávit nominal (o que quase nunca ocorre, exceto em raríssimos um ou outro mês) e, em seguida, guardar esse dinheiro dentro de um cofre eletrônico (o que nunca houve na história do mundo).

    Tudo o que o governo arrecada ele gasta ou quita dívida. E, ao quitar dívida, o dinheiro volta para a mão de pessoas e empresas. Logo, não houve nenhum "cancelamento de dinheiro".

    "Se o governo gasta mais do que recolhe de impostos – um déficit – há um saldo financeiro líquido no setor privado."

    Abordado acima. Haverá saldo financeiro líquido no setor privado apenas se o governo recorrer a empréstimos do setor bancário, e este não vender ativos para o setor privado. No entanto, observe que, neste caso, houve aumento da dívida pública, e esta terá de ser quitada via impostos, os quais advêm do setor privado -- e cobrar impostos do setor privado é o oposto de "saldo financeiro líquido".

    No final, você está simplesmente acreditando em mágica, e dizendo que o governo é o ente capaz de efetuar esse milagre em que criação de dinheiro e aumento da dívida beneficiarão a todos e não prejudicarão ninguém.

    "Todos estes países se industrializaram e se tornaram ricos com participação do governo no financiamento, planejamento e condução de um projeto estratégico para o país, no desenvolvimento da infraestrutura, na criação de forca de trabalho de excelência, na criação de um parque industrial diversificado, no investimento em ciência básica e tecnologia e no posicionamento e defesa dos seus interesses perante a comunidade internacional."

    Você acabou de descrever o funcionamento do planejamento da União Soviética. Já entre os países de primeiro mundo, nenhum teve comitês voltados a essas áreas. Agora, se você realmente acredita que o parque industrial de Suíça, Alemanha, Hong Kong, Cingapura e EUA (apenas para citar os mais robustos) foram obras de seus governos (e não de um mercado voltado a atender as demandas dos consumidores), então realmente nada posso fazer por você. E se você acredita que a China é o modelo a ser copiado, então realmente será impossível chegarmos a qualquer concordância.

    Agradeço novamente suas palavras, mas infelizmente só posso concluir que você não entendeu nada do que leu por aqui.
  • Vôo de Galinha  19/02/2018 06:40
    Não existe em nenhum lugar do planeta um país mais desenvolvimentista do que o Brasil. Até mesmo Itália, Alemanha, Portugal e Espanha, que tiveram experiências declaradamente fascistas, não foram tão desenvolvimentistas quanto o Brasil.

    A grande sorte do Brasil, e que também foi o caso da Argentina, Venezuela e Uruguai, é que foi o país mais escolhido pelos imigrantes europeus que vieram para a América Latina. Se não fosse os imigrantes europeus terem trazido seu conhecimento, a riqueza acumulada por toda sua linhagem na Europa e sua força de trabalho, o Brasil seria um país completamente diferente. O mesmo é verdade para Argentina, Venezuela e Uruguai.

    O Brasil, por ser uma colônia de Portugal, teve sua economia engessada desde 1500 até a sua independência, ou seja, o Brasil apenas pôde comercializar com Portugal durante mais de 300 anos de história. Não obstante, menos de um século depois de ter sua independência e uma leve abertura econômica, uma nova ideia que dominava a Europa foi copiada no Brasil: o Fascismo (a aliança entre ricaços oligarcas e o governo), mas aqui não veio com esse nome.

    Depois de Getúlio Vargas industrializar o Brasil com medidas desenvolvimentistas, o Brasil entrou em uma profunda crise na década de 50. Mas isso não impediu de JK construir uma cidade-capital no meio do país e endividar as futuras gerações.
    Por causa de Vargas e JK, o Brasil ficou 20 anos estagnado até chegar os militares e iniciarem mais uma fase de desenvolvimentismo.

    A industrialização dirigida pelo governo em concluio com os industriais oligarcas, ficou clara na década de 70 que não deu os resultados esperados. A indústria brasileira já estava completamente ultrapassada e a medida desenvolvimentista de industrialização dirigida e rápida não transformou o Brasil em um país de primeiro mundo, como era o planejado pelo governo Vargas.

    Não satisfeitos com as experiências desenvolvimentistas anteriores, os milicos fizeram de novo praticamente tudo o que Vargas fez. Por 10 anos tudo parecia uma maravilha, mas no final da década de 70 o país já começava a estagnar mais uma vez. Quando o Brasil entrou na Nova República, rapidamente percebeu-se que as medidas desenvolvimentistas dos milicos tiveram um custo muito caro. O Brasil estava falido e o então presidente Sarney para tentar resolver o problema, imprimiu dinheiro para pagar as dívidas do governo e honrar a falha de pagamento dos burocratas do governo. Quando a hiperinflação apareceu, Sarney decretou o congelamento de todos os preços. O Brasil estava em uma economia socialista.

    Depois de Sarney sair do poder, estava claro para a elite política brasileira que se o Brasil não fizesse reformas econômicas o país se tornaria uma Índia. Collor, Itamar Franco e FHC foram os responsáveis para o Brasil, finalmente, passar de um país proto-fascista para uma social-democracia moderna. Não é atoa que a década de 90 e os anos 2000 foram excepcionais para o Brasil.

    As reformas neoliberais na década de 90 foram tão boas que o PT por uma década colheu os frutos e decidiu ampliar o Estado como se esse país de terceiro-mundo fosse uma nação europeia rica e desenvolvida com história milenar.
    Não satisfeito em aumentar os gastos públicos, o PT praticou o desenvolvimentismo que Vargas e os militares praticaram no passado. Uma hora a conta iria chegar. E quando chegou, assustou a todos os brasileiros que fielmente acreditavam que o Brasil havia se tornado um país sério e desenvolvido.
    E aqui nós estamos. Um país falido por conta de medidas desenvolvimentistas que está se recuperando lentamente com pequenos corte de gastos e medidas econômicas chicaguistas meia-boca.
    Se o ciclo da nossa história se repetir, o próximo presidente fará medidas ou reformas impopulares para a esquerda, mas que a esquerda irá colher os frutos no futuro quando ser eleita novamente no futuro.

    Dizer que os EUA são desenvolvidos por causa do governo americano é o mesmo que dizer que a URSS faliu por causa de seu Mercado Negro. É uma completa inversão da causa e efeito da realidade.
    Toda essa ideia de "estado empreendedor" que a esquerda moderna defende (afinal o socialismo fracassou miseravelmente) pode ser resumida da seguinte maneira: O estado cria um Fusca impedindo a construção de uma Ferrari, e diz que a existência do Fusca é a prova cabal de que o estado é necessário ou eficiente. Já que ninguém está vendo a Ferrari e como ninguém leu Bastiat, a inverdade aparenta ser verdade.

    Por que os defensores de um estado intervencionista não louvam o Brasil, mas possuem a cara de pau de citar os Estados Unidos, Austrália e Hong Kong como exemplos de suas políticas? Porque são mentirosos, sofistas, oportunistas e parasitas da mesma forma que os socialistas.
  • Emerson Luis  11/03/2018 16:37

    Os defensores do intervencionismo não entendem (ou fingem não entender) que os "processos automáticos" surgem da sinergia dos planejamentos individuais de dezenas de milhões de pessoas, que é muito superior a qualquer planejamento central que qualquer grupo de políticos e/ou burocratas pode elaborar.

    * * *
  • Pedro Marcio  07/04/2018 14:27
    Excelente. Mises conseguiu condensar todo conceito liberal e deixa-lo à prova do tempo.


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