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Piketty está errado: mercados não concentram riqueza

O velho e apocalíptico temor marxista da crescente desigualdade nas sociedades capitalistas não pára de aumentar.  A elite capitalista, dizem eles, se beneficia de uma dinâmica de infinita acumulação de riqueza e, com isso, brevemente será capaz de comprar tudo e a todos, inclusive o governo.

Este temor de ilimitada acumulação de riqueza nas mãos de poucos foi o principal tema do livro O Capital no Século XXI, do francês Thomas Piketty, publicado em 2013.  Em seu livro, Piketty escreve:

Seria um erro negligenciar a importância do princípio da escassez para a compreensão da distribuição mundial da riqueza no século XXI — para se convencer disso, basta substituir, no modelo de David Ricardo, o preço das terras agrícolas pelo dos imóveis urbanos nas grandes capitais [...]

Sem dúvida, existe um mecanismo econômico bem simples que permite equilibrar o processo: o mecanismo da oferta e da demanda. Se a oferta de qualquer bem for insuficiente e o preço estiver exageradamente elevado, a procura por esse bem deve baixar, o que permitirá uma redução do preço. Em outras palavras, se os preços dos imóveis nas grandes cidades ficarem muito altos e o custo do petróleo aumentar, as pessoas podem decidir morar em áreas mais afastadas ou até andar de bicicleta (ou, quem sabe, os dois ao mesmo tempo). No entanto, além de desagradáveis e complicados, tais ajustes podem levar várias décadas para ocorrer; nesse ínterim, os proprietários de imóveis e os donos dos poços de petróleo podem acumular créditos tão volumosos em relação ao restante da população que poderão facilmente vir a possuir tudo o que houver para possuir, inclusive as terras no interior e as bicicletas. (Piketty 2013)

Deixemos de lado o tolo exemplo envolvendo uma bicicleta como resposta de mercado para a escassez (tal exemplo implica um choque tecnológico negativo, sendo que vivemos hoje em um mundo extremamente inovador).  O fato é que Piketty realmente acredita que uma única pessoa ou entidade se tornando proprietária de "tudo" é algo possível de ocorrer em um capitalismo de livre mercado. De acordo com Piketty, se r > g (ou seja, se a taxa de retorno sobre o capital investido é maior do que a taxa de crescimento econômico), haverá uma "infinita espiral de desigualdade".

Se Piketty houvesse lido os economistas seguidores da Escola Austríaca, e estivesse a par do debate sobre o cálculo econômico, ele já teria percebido que, em um mercado livre e desimpedido [no qual não há privilégios e subsídios estatais, tarifas protecionistas e agências reguladoras protegendo empresas], não há como surgir uma situação de acumulação de riqueza na qual há apenas um único indivíduo ou cartel dominando tudo.  Com efeito, uma situação em que há um único e poderoso cartel ou um único e poderoso proprietário é o equivalente a um completo socialismo e, portanto, a uma situação em que uma alocação racional de recursos seria impossível, como Mises explicou clara e profundamente.

Foi Murray Rothbard quem brilhantemente demonstrou que a capacidade do cálculo econômico decresce à medida que aumenta o tamanho da empresa.  Só que esse argumento pode ser igualmente aplicado à concentração de propriedades nas mãos de um só indivíduo.  Como demonstrou Rothbard:

O livre mercado impõe limites definidos sobre o tamanho da empresa, isto é, determina os limites da possibilidade de cálculo no mercado.  Para calcular os lucros e os prejuízos de cada departamento, uma empresa tem de ser capaz de comparar suas operações internas aos mercados externos para cada um dos vários fatores de produção e produtos intermediários.  Se qualquer um desses mercados externos desaparecer, pois todos foram absorvidos e se tornaram parte de uma única empresa, a capacidade de cálculo econômico desaparece, e não mais há nenhuma maneira de uma empresa racionalmente alocar fatores para aquela área específica.  Quanto mais esses limites são transgredidos, maior se torna a esfera da irracionalidade econômica, e mais difícil será evitar prejuízos.  Um grande e único cartel não seria capaz de alocar racionalmente fatores de produção, e isso faria com que fosse impossível evitar prejuízo severos.  Consequentemente, tal arranjo jamais poderia realmente ser estabelecido; e, ainda que fosse, jamais poderia ser mantido.  Rapidamente ele se desintegraria.

Logo, e contrariamente ao que Piketty e outros defensores do igualitarismo pensam, uma ilimitada concentração de riqueza é tecnicamente impossível em uma economia de mercado.  É por essa razão que "um único e grande cartel" controlando toda a economia jamais surgiu em um livre mercado, e é por essa razão que a concentração de riqueza sempre será limitada.

A falta de rigor teórico no livro de Piketty é alarmante.  Embora ele supostamente seja um estudioso da dinâmica da desigualdade de renda nas sociedades capitalistas, Piketty praticamente não analisa o papel do empreendedorismo; e, nas raras vezes em que o faz, não fornece absolutamente nenhuma definição sobre o que seja empreendedorismo.  Essa total falta de rigor o permite liderar uma batalha ideológica contra os ricos, os quais ele considera serem "imerecedores".  Similarmente, seja Piketty, seja Anthony Atkinson, nenhum desses modernos adeptos do igualitarismo menciona o papel da divisão do trabalho na distribuição de riqueza.  

Mas sabemos, no entanto, que a divisão do trabalho é uma característica crucial (e necessária) da economia de mercado.  Com efeito, a própria existência de capitalistas ricos não é uma questão de herança ou de sorte imerecida, mas sim o resultado da "lei das vantagens comparativas".  Um capitalista é alguém que possui uma vantagem comparativa em alocar capital — ou seja, ele tem uma capacidade superior aos outros neste quesito — e, consequentemente, é especialista nesta tarefa.  Em um mercado livre e desimpedido, aqueles que tendem a ser os mais ricos também tendem a ser os mais eficientes na alocação do capital.  Se sua capacidade de alocação for ruim, então os consumidores irão puni-los.  Se sua capacidade de alocação for boa, os consumidores irão recompensá-los.

Frédéric Bastiat, em seu leito de morte em Roma, e não obstante estar severamente doente, deixou muito claro para o seu amigo Prosper Paillottet que os economistas deveriam se concentrar majoritariamente no consumidor.  O consumidor, disse ele, é a fonte primária de quaisquer fenômenos econômicos.  A principal falha do livro de Piketty é que ele explica a desigualdade começando não pelas escolhas dos consumidores, mas sim pela propriedade do capital.  Os proprietários do capital, diz Piketty, se beneficiam de uma taxa de retorno sobre o capital e, quando esta taxa é maior que a taxa de crescimento econômico, ela intensifica as desigualdades de renda. 

Para Piketty, a taxa de retorno sobre o capital é como se fosse um mítico fluxo de renda que depende não da capacidade dos proprietários do capital, mas sim de quanto capital você detém.  Só que a distribuição de riqueza não é tão arbitrária quanto Piketty gosta de imaginar.  O consumidor detém a palavra final na decisão sobre quem deve ser o proprietário dos fatores de produção.  Como explicou Mises em Ação Humana, os ricos "não são livres para gastar um dinheiro que os consumidores não estão dispostos a lhes fornecer continuamente ao pagarem mais pelos produtos".

No mercado livre e desimpedido, os ricos só conseguem acumular mais riqueza se eles foram eficientes na tarefa de alocar capital, para o benefício de todos os consuidores.  Há de se admitir que não há nada de moralmente errado nisso.  Ao contrário: devemos aplaudir  esse arranjo.

Dado que a teoria econômica que fundamenta a tese de Piketty é fraca, suas explicações não batem com as evidências empíricas.  Com efeito, o próprio Piketty teve de admitir que "não vejo r > g como a única, ou mesmo a principal, ferramenta  para se considerar alterações na renda e na riqueza no século XX, ou para prever o caminho da desigualdade no século XXI".  E, de fato, r > g não é um ferramenta útil para a discussão sobre a crescente desigualdade na renda do trabalho. Surpreendentemente, o próprio Piketty admitiu a debilidade de seu modelo perante o fato de que o aumento da da renda dos mais ricos nos EUA durante o período 1980—2010 deveu-se majoritariamente a uma crescente desigualdade nos salários, e não à taxa de retorno do capital.

Adicionalmente, deve-se ressaltar que, tanto em termos teóricos quanto empíricos, quanto mais rico é um indivíduo, mais volúvel é a riqueza dele: todos os bilionários da lista da Forbes da década de 1980 deixaram de sê-lo atualmente.  Sendo assim, se a riqueza é tão instável para o 1% mais rico, podemos concluir que a infinita concentração de riqueza é um mito que não ocorre em uma economia de mercado.  Ao contrário, sociedades capitalistas são mais tendentes a uma mobilidade inter-geracional, tanto para cima quanto para baixo. 

Consequentemente, embora a desigualdade de renda, em um determinado momento, em sociedades capitalistas possa ser maior do que em economias mais socialistas, a economia de mercado pode perfeitamente oferecer mais igualdade se considerarmos a evolução das disparidades de renda entre indivíduos ao longo de um grande período de tempo.

Mais de 100 anos atrás, um economista Frances publicou um livro sobre desigualdade.  Assim como o livro de Piketty, aquele livro foi celebrado nos EUA.  Porém, ao contrário de Piketty, Paul Leroy Beaulieu tentou explicar em seu livro, Essai sur la Répartition des Richesses (1881), por que ele acreditava que a desigualdade, sem ser erradicada, diminuiria nas sociedades capitalistas.  A radical diferença de tom entre os dois livros é uma boa ilustração da falência intelectual tanto dos EUA quanto da França desde a Belle époque.  Do liberalismo clássico, sucumbimos à ilusão do igualitarismo; e do otimismo liberal quanto à ordem de livre mercado, degeneramos para o pessimismo socialista e igualitário. 

Atualmente, a grandes desigualdades econômicas se devem à violenta intervenção do governo no mercado (ver aqui, aqui e aqui).  Por isso, deveríamos repensar se não seria mais sábio dar mais atenção a Paul Leroy Beaulieu do que a Thomas Piketty.

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Leia também:

Os três principais erros de Piketty


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Thomas Piketty e seus dados improváveis

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As "descobertas" de Piketty estão invertidas

A moral de Piketty - por alguém que realmente leu todo o livro 



autor

Louis Rouanet
estuda economia e ciências políticas no Institut d'études politiques de Paris.


  • Andre Cavalcante  14/12/2015 14:01

    Mais um artigo sobre o [livro do] Piketty?

    Cara isso já tá ficando chato. Quem leu o primeiro já se convenceu que o carinha é uma mala em termos econômicos...

    Abraços

  • Bartolomeu Tiburcio  14/12/2015 14:36
    Andre,

    É importante continuamente refutar as ideias esquerdistas.

    E pq? Pq a doutrinação midiática e acadêmica é diária, especialmente no Brasil.

    Precisamos disseminar as falácias esquerdistas para o maior número de pessoas possível.

    Abraço.
  • Anônimo  14/12/2015 14:56
    Também não aguento mais nada sobre o cara. E ele ainda vai escrever por uns 25 anos. Os alunos dele por uns 100. E os políticos até o fim dos tempos porque todo intelectual que gosta de uma tributação tem voz para justificar legislações.

    Não dá para discutir com essa gente. Estão muito entrincheirados. Até o cinema deles de professor é pago pelo estado. Teoria econômica não importa para políticos. Só querem quem seja apologista deles. Acho que se a luta de ideias continuar, nunca será na política que veremos vitórias. Essa gente só se importa com o poder e se for preciso, vão transformar o mundo inteiro em uma Coréia do Norte.
  • Aprendiz  15/12/2015 14:35
    E mesmo assim ainda tem gente que acredita no que esse cara conta. Eu apoio o site em continuar suas publicações sobre o assunto quando necessário.

    Todavia, para mim a refutação deve ser dada a uma devida proporção. Refutações de Karl Marx, assim, se daria em maior frequência do que Piketty, dado a maior influência na sociedade do primeiro.
  • Vitor Cássio   14/12/2015 14:06
    Para refutar Piketty por completo basta pegar a lista da Forbes de 1987 e comparar com a de 2015. Creio que não há um único prenome ou nome igual na lista, assim como na de 2030 provavelmente será diferente também.
  • Batista  14/12/2015 14:11
    E eu duvido, repito, duvido, que algum mortadela tenha lido esse livro por completo, suas mais de 700 páginas e um monte de anexos, notas, gráficos.

    E pensar que esse livro tem sido aclamado como um dos melhores guias para economistas por aí a fora.

    Vejamos as suas dicas, no Capítulo 16:

    "[...] Como fazer para reduzir de modo significativo uma dívida pública alta como a dívida europeia atual? Existem três métodos principais, que podem ser combinados em diversas proporções: o imposto sobre o capital, a inflação e a austeridade. O imposto excepcional sobre o capital privado é a solução mais justa e eficaz. Na ausência dela, a inflação pode ser útil — aliás, foi assim que a maioria das grandes dívidas públicas foram reabsorvidas ao longo da história. A pior solução, tanto em termos de justiça como em termos de eficácia, é uma dose prolongada de austeridade. No entanto, essa é a opção adotada hoje na Europa. [...]"


    E essa dica vai para quem está pensando em adquirir títulos do governo:

    "[...] São duas as principais formas de um Estado financiar suas despesas: por meio de impostos ou por meio de dívidas. De uma maneira geral, o imposto é uma solução infinitamente melhor tanto em termos de justiça quanto de eficácia. O problema da dívida é que quase sempre ela precisa ser paga. Portanto, financiar a dívida é, acima de tudo, do interesse de quem tem os meios para emprestar ao Estado, e seria melhor para o Estado taxar os ricos em vez de pegar dinheiro emprestado deles. [...]"
  • jackson  14/12/2015 15:53
    Batista, vc pinçou 2 partes que realmente, qualquer pessoa com QI acima de uma ostra, vai ver o tanto de asneira que esse maluco fala.

    Inflação pode ser util hahahaha....
    problema é que a divida precisa ser paga...


    cara, é inacreditável que um malucodesse vende tubos de livro e faz sucesso.
  • Batista  15/12/2015 19:30
    Sim, e os críticos "tipo light", bem como a massa dos que constituem os que "amam, mas não leem ou nunca lerão", simplesmente adotam-no como a verdade suprema da economia. E saem por aí indicando, não a leitura do livro, mas as medidas nele contidas.

    É indicar sem ler e sem ter entendido do que se trata.
  • Thiago  16/12/2015 10:14
    Pense como se você fosse o estado.

    A solução do Piketty não é uma solução para os consumidores. É uma solução para o estado. Os consumidores se ferram e no fundo ele sabe disso. Mas ele quer que o estado controle o máximo possível porque ele quer estar entre aqueles que comandam o estado.
  • Batista  17/12/2015 14:18
    Thiago,

    Sim. Consumidor = povo = massa. E assim como o consumidor, o governo também tem o seu "Manual e instruções".


    "Das kapital", do Piketty, está para o governo assim como "O Príncipe", de Maquiavel.
  • Aprendiz  16/12/2015 10:58
    E pensar que tenho um professor que indicou esse livro para a nossa leitura, sendo ele formado em economia. Estamos perdidos...

    Sabe, vou fazer o que ele falou: ler. Porém depois vou refutar o que se diz no texto para ele e ver se consigo fazê-lo refletir nem sequer um pouco.
  • Tiago silva  14/12/2015 14:36
    O maior instrumento de concentração de riqueza,são os governos que existem para beneficiar meia dúzia de pessoas bem conectadas,e para ferrar com o resto da população.
  • mauricio barbosa  14/12/2015 16:00
    O estado é uma mãe cheia de tetas para mamar e como é lucrativo e entorpecedor disputar esses recursos financeiros,políticos e financiadores de campanhas se digladiam diariamente atrás dos mesmos ou trocando em miúdos todo mundo quer ter uma boquinha no erário público onde as oportunidades é para poucos e o triste disso tudo é(a massa)que somos obrigados a votar nesses fanfarrões e mafiosos e ainda pagar a conta desse banquete em que não somos convidados ao contrário somos expulsos feito cachorro sem dono pensando bem que mundo estranho nós vivemos pois sustentamos uma maquina que nos espolia dia e noite em troca de uma falsa e ilusória sensação de segurança,obrigado IMB por libertar nossas mentes desse lixo que é o estatismo e seu filho bastardo que é o esquerdismo e seu filho primogênito a direita,duas faces do mesmo mal e ainda somos obrigados a engolir mentiras e heresias contra a liberdade feito essas teorias furadas contra o capital vinda desse ridículo do Piketti ...
  • Nelio  14/12/2015 16:06
    Senhores, o que acham desse artigo?


    professorlfg.jusbrasil.com.br/artigos/266213509/quem-e-mais-corrupto-o-estado-ou-o-mundo-empresarial-e-financeiro?utm_campaign=newsletter-daily_20151211_2442&utm_medium=email&utm_source=newsletter
  • Auxiliar  14/12/2015 16:25
    Assunto abordado em detalhes neste artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2231
  • Nelio  14/12/2015 16:51
    Auxiliar

    Eles falam no artigo sobre cartéis e monopólios como forma de justificar que existe corrupção na iniciativa privada, sendo que os mesmos só são formados graças ao Estado
  • Magno  14/12/2015 17:08
    Exato.

    Quem cria cartéis, oligopólios e monopólios é o estado, seja por meio de regulamentações que impõem barreiras à entrada da concorrência no mercado (via agências reguladoras), seja por meio de subsídios a empresas favoritas, seja por meio do protecionismo via obstrução de importações, seja por meio de altos tributos que impedem que novas empresas surjam e cresçam.

    Apenas olhe ao seu redor. Todos os cartéis, oligopólios e monopólios da atualidade se dão em setores altamente regulados pelo governo (setor bancário, aéreo, telefônico, elétrico, televisivo, postos de gasolina etc.).

    E quando não era assim, o que ocorria? Quando o governo não tinha ainda poderes para se intrometer, havia formação de cartel entre os poderosos? Havia "exploração"? Não. O que ocorria era isso.

    Monopólio e livre mercado - uma antítese

    O Sherman Act e a origem das leis antitruste - quem realmente se beneficia com elas?
  • Ali Baba  15/12/2015 13:59
    Corrupção privada?

    Outro oxímoro. Não existe corrupção quando a transação é voluntária e envolve dois entes privados gerindo seus próprios recursos para benefício mútuo.

    Qualquer definição de corrupção que não envolva necessariamente o estado como sua mola motriz é uma definição míope e inválida.

    Alguém vai gritar: "e se violar o PNA?". Ainda assim não é corrupção. É algum crime cuja definição envolva a violação do PNA (por exemplo, duas empresas combinando a morte de um concorrente: assasinato; dois empresários combinando o resultado de uma auditoria "independente": falsidade ideológica; etc).

    É só pensar um pouco: corrupção sempre envolve o estado e o dinheiro coletivo e, na imensa e esmagadora maioria das vezes, é gerada pelo estado.
  • Aprendiz  16/12/2015 15:24
    Agora me bateu uma dúvida: quando um empresário põe um bode expiatório dentro do quadro de empregados do concorrente isso não pode ser chamado de corrupção? O sujeito está fornecendo informações ao rival. Acho que isso vá mais para o lado da moralidade como um ato repugnante, e não propriamente dito um crime.

    Pode ser que o que estou exemplificando tenha outro nome, mas não seria também uma forma de corrupção?

    Desculpem-me por minha ignorância.
  • Andre Cavalcante  16/12/2015 19:34
    Olá Aprendiz,

    "Agora me bateu uma dúvida: quando um empresário põe um bode expiatório dentro do quadro de empregados do concorrente isso não pode ser chamado de corrupção? O sujeito está fornecendo informações ao rival."

    Não, isso se chama espionagem industrial. E é bem comum. E é crime!

    "Acho que isso vá mais para o lado da moralidade como um ato repugnante, e não propriamente dito um crime."

    É repugnante e é crime, mais porque vai contra a regra de ouro do não fazer aos outros o que não gostaríamos que os outros nos fizessem. Vai contra a PNA também, porque roubar informações também é um crime, principalmente se você for um funcionário que assinou um termo de confidencialidade (e.g. todos assinam).

    "Pode ser que o que estou exemplificando tenha outro nome, mas não seria também uma forma de corrupção?"

    Corrupção no dicionário é:

    cor·rup·ção
    (latim corruptio, -onis, deterioração, sedução, depravação)
    substantivo feminino

    1. .Ato ou efeito de corromper ou de se corromper.

    2. [Antigo] Deterioração física de uma substância ou de matéria orgânica, por apodrecimento ou oxidação (ex.: após vários meses no mar, a corrupção dos mantimentos era inevitável). = DECOMPOSIÇÃO, .PUTREFAÇÃO, PUTRESCÊNCIA

    3. Alteração do estado ou das características originais de algo. = ADULTERAÇÃO

    4. Comportamento desonesto, fraudulento ou ilegal que implica a troca de dinheiro, valores ou serviços em proveito próprio (ex.: os suspeitos foram detidos sob alegação de corrupção e desvio de fundos).

    5. [Figurado] Degradação moral (ex.: corrupção de valores). = DEPRAVAÇÃO, PERVERSÃO

    6. Sedução (ex.: o réu foi condenado pela corrupção de pessoa menor de 14 anos).

    "corrupção", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, www.priberam.pt/DLPO/corrup%C3%A7%C3%A3o [consultado em 16-12-2015].

    "Corrupção" privada é no sentido 5 [figurado] acima, ou seja, degradação moral. Aí entra tudo.

    Então furto de informações (espionagem) é uma forma de corrupção.

    Mas, o sentido normalmente empregado, contudo (e é o sentido que implica em crime segundo a lei), é o sentido concreto (4 acima). Neste caso, somente há proveito próprio se o dinheiro não é seu.

    Se você tira de um ente privado, é furto ou roubo. Furto é quando não há ameça direta ou indireta (batedor de carteira comete furto - assaltante que invade e leva sua TV com a casa vazia comete furto). Roubo é quando há ameça direta ou indireta (mas explícita) (assaltante com arma branca ou de fogo que invade sua casa com você dentro é roubo). Imposto é roubo porque algumas pessoas tiram forçadamente dinheiro de entes privados, sob a ameaça de prisão e/ou sequestro (roubo) de bens.

    Se o você tira do erário público é corrupção (no sentido que o Ali Baba colocou acima).
    E, neste sentido, só quando entra mesmo dinheiro público na jogada (mesmo que indiretamente) é corrupção.

  • Aprendiz  17/12/2015 10:30
    Obrigado André, dúvida esclarecida!
  • Luiz Silva  14/12/2015 18:35
    Piketty é mentiroso compulsivo, bem pago pra isso, ele n comete erros.
  • Emerson Luis  14/12/2015 18:47

    "A Idade da Pedra não acabou pela falta de pedra, e a Idade do Petróleo irá acabar muito antes que o mundo fique sem petróleo." Sheik Ahmed Zaki Yamani

    Como a maioria dos "progressistas", as afirmações de Piketty contra o capitalismo são pura Falácia do Espantalho.

    * * *
  • salve186@hotmail.com  14/12/2015 19:20
    Uma vez aqui no site um comentarista afirmou que o monopólio será formado no capitalismo devido ao fato de que os recursos são escassos e que uma industria ou uma pessoa poderiam dominar o material por completo e vende-lo pelo preço que quisesse.

    Eu discordo devido ao fato de que é impossível ter acesso a todos os recursos da Terra. Uma vez que têm muitos países competindo no mercado. E também sempre existe a possibilidade de criar um recurso alternativo para determinada coisa. Carvão mineral esta com preço muito alto ? Usamos petróleo.
  • Jorge  14/12/2015 19:39
    Só pode ter sido um comentarista néscio que disse isso que você reportou.
  • Gustavo  14/12/2015 21:41
    Olá, alguém aqui no mises me receitaria um livro com dados coesos provando alguns dos pontos do livre mercado? Falo isso porque acabo de ler o livro "Bad Samaritans" de Ha-Joon Chang, na qual me deixou com grandes dúvidas, pois, mesmo não concordando com o livro de Chang, os argumentos do livro foram explanados com uma boa base de dados. Por exemplo, ele mostra que países como Reino Unido e Estados Unidos possuíam alta carga tributária contra produtos estrangeiros antes de os mesmos se tornarem potências mundiais. Outro exemplo é o esse rapaz do artigo de hoje, o Piketty, que mesmo escrevendo asneira, tentou fundamentar seu livro com uma extensão de dados.

    Procuro algum livro liberal com o mesmo peso, pois, as vezes acho que os liberais se concentram mais na teoria, mas a teoria de uma economia liberal ou libertária já entendo, gostaria de ver algo mais ""prático"". Sei que deve ter livro assim, por isso é que estou perguntando algum livro do tipo. Um dos exemplos de livro com uma excelente fonte de dados é o livro de Rothbard sobre a recessão de 29. Gostaria de saber alguma sugestão de mesmo peso. Valeu.
  • Leandro  14/12/2015 22:19
    Ha-Joon Chang, também autor do livro "Chutando a Escada", é mestre em defender os interesses das grandes corporações. O livro é apenas propaganda protecionista em prol dos grandes conglomerados coreanos.

    Não há nenhuma dúvida de que protecionismo é bom para as grandes indústrias e seus empregados, mas resta ainda alguém explicar como é que restringir as opções de consumo, diminuir a oferta e encarecer os produtos disponíveis pode ser algo bom para o enriquecimento da população.

    O grande problema do livro é que ele confunde abertamente correlação com causalidade, algo imperdoável em economista. O argumento é que, "dado que a Coréia do Sul implementou tarifas protecionistas e suas empresas cresceram, então obviamente todos os países deveriam se fechar para enriquecer". Não há um só debate no livro sobre a possibilidade de a Coréia ter se desenvolvido ainda mais caso não houvesse implementado tais tarifas (daí a confusão entre correlação e causalidade).

    Aliás, esse é exatamente o histórico de Hong Kong e Cingapura (que o autor do livro parece ignorar; e que serve também para você, que cobra exemplos práticos).

    Ambos os países eram grandes favelas a céu aberto na década de 1970 e hoje têm as maiores rendas per capita do mundo. E jamais aplicaram políticas protecionistas. Ambos são mais ricos que a Coréia do Sul em termos per capita. E olha que ambos são asiáticos -- logo, possuem relativamente a mesma cultura.

    Outro erro grave do livro é dizer que "o livre comércio funciona bem somente na fantasia do mundo teórico da concorrência perfeita". Ora, quem primeiro fez o argumento em prol do livre comércio foi David Ricardo, ainda no século XIX, e seu argumento jamais se baseou em tal teoria, que nem sequer havia sido inventada à época.

    Aliás, com dados pra lá dúbios. Por exemplo, Chang se limita a analisar apenas os países que se desenvolveram no século XIX, e afirma que eles se desenvolveram porque adotaram políticas protecionistas em determinados setores; mas ele não analisa todas as políticas adotadas. E em momento algum ele analisa os países que não se desenvolveram, pois isso mostraria que tais países adotaram com ainda mais intensidade exatamente as políticas que ele defende.

    A teoria indica que tais países protecionistas teriam se desenvolvido ainda mais (com empresas mais competitivas e população mais educada) caso o comércio fosse mais livre. O livro não faz essa contraposição de ideias, pois trabalha exclusivamente com dados empíricos.

    Mais especificamente sobre a Coréia do Sul, não é verdade dizer que ela "era pobre e aí foram adotadas políticas intervencionistas e aí ela enriqueceu". Mesmo porque isso é econômica e logicamente impossível. O que o general Park fez foi adotar uma política extremamente favorável ao investimento estrangeiro (óbvio, pois a Coréia não tinha capital), principalmente de japoneses (com quem ele reatou relações diplomáticas) e americanos. Não fossem esses investimentos estrangeiros, o país continuaria estagnado.

    Os japoneses investiram pesadamente em infraestrutura, em indústrias de transformação e em tecnologia, o que fez com que a economia coreana se tornasse uma economia altamente intensiva em capital e voltada para a exportação de produtos de alta qualidade (ao contrário do Brasil, que só exporta produtos sem valor agregado e cuja mão-de-obra é desqualificada). Esse fator, aliado à alta educação, disciplina e alta disposição para trabalhar (características inerentemente asiáticas), permitiu a rápida prosperidade da Coréia.

    Era economicamente impossível a Coréia enriquecer por meio de intervencionismo simplesmente porque não havia capital nenhum no país. Intervencionismo é algo possível apenas em países ricos, que já têm capital acumulado e que, por isso, podem se dar ao luxo de consumi-lo em políticas populistas. Já países pobres não têm essa moleza (por isso o intervencionismo explícito em países como Bolívia e Venezuela apenas pioram as coisas).

    Vale lembrar que a Coréia do Sul no início da década de 1960 era mais pobre do que a Coréia do Norte. E mesmo assim os japoneses investiram lá. E deu no que deu.


    Caso domine o inglês:

    mises.org/daily/2001

    mises.org/daily/2960


    Sobre livros, ver The Politically Incorrect Guide to Capitalism, de Robert Murphy:

    www.amazon.com/The-Politically-Incorrect-Guide-Capitalism/dp/1596985046
  • Gustavo  15/12/2015 00:36
    Hahaha Sim, foi uma das coisas que percebi no livro, dados jogados que não refletiam relação de causa e efeito. Outra coisa que percebi é o fato de o autor ter resumido livre mercado basicamente em taxa de importação. Ele deveria pelo menos conhecer o Index of Economic Freedom do Heritage Foundation.

    Agradeço a indicação, começarei a ler quanto antes possível.
  • Thiago q. Landi  14/12/2015 22:48
    Olhem isso:

    m.youtube.com/watch?v=Si4iyyJDa7c

    Éuma entrevista chamada''os gênios da economia'' com paul krungman e thomas piketty


    Kkkkkkkkkkkkk
  • Anônimo  15/12/2015 01:36
    Esta entrevista é tão horripilante que ela causa traumatismo craniano. Não assistam.
  • Paraninfo  15/12/2015 00:24
    Esse livro deveria chama "O assassinato da liberdade".

    Se o rico compra ouro, tem um pobre garimpeiro para vender ouro.

    Se o rico deixa o dinheiro no banco, esse dinheiro pode ser emprestado pelo banco.

    Se o rico investe em imóveis, mais pessoas terão onde morar.

    Se o rico resolve comprar dólares, alguém deve ter lucrado com a venda desses dólares.

    Se o rico resolve investir em uma fábrica, mas pessoas poderão consumir.

    Se o rico compra artigos de luxo, empregos serão gerados para produzir artigos de luxo.

    Acho que a única maneira do dinheiro ficar parado na conta de um bilionário, é colocando esse dinheiro debaixo do colchão ou em cofre.

    A questão é mais simples do que parece. Como alguém consegue sumir com uma montanha de dinheiro e não deixar ninguém ser beneficiado com isso ?


    Hoje eu estava na Avenida Faria Lima e vi dezenas de carros de luxo. Eu não consigo entender como alguém anda de Porsche em SP, mas não consegue ir embora dessa república bolivariana do Brasil.
  • Emerson Luis  15/12/2015 10:28

    "Acho que a única maneira do dinheiro ficar parado na conta de um bilionário, é colocando esse dinheiro debaixo do colchão ou em cofre.

    A questão é mais simples do que parece. Como alguém consegue sumir com uma montanha de dinheiro e não deixar ninguém ser beneficiado com isso ?"


    Mesmo que alguém guardasse uma montanha de dinheiro em um enorme cofre, como o Tio Patinhas, ele ainda estaria beneficiando os pobres: reduzindo a quantidade de dinheiro em circulação após tê-lo recolhido oferecendo produtos e/ou serviços, ele (1) aumentaria a quantidade de bens disponíveis para os pobres e (2) valorizaria o dinheiro restante em circulação nas mãos dos pobres, (3) gerando assim deflação e enriquecimento da população.

    A "mão invisível" ataca novamente!

    * * *
  • Gunnar  17/12/2015 15:49
    "Eu não consigo entender como alguém anda de Porsche em SP, mas não consegue ir embora dessa república bolivariana do Brasil." Já me perguntei a mesma coisa, Paraninfo, mas devemos lembrar que há muitas oportunidades de negócio que só existem no Brasil. Um vendedor de grades para janelas não teria o que fazer em Estocolmo...
  • ezequiel alves  15/12/2015 01:50
    Eu estou muito feliz e satisfeito que abriram um processo de cassação da presidente da republica, pois será julgado se as eleições realmente foram válidas ou não, se realmente a presidente trapaceou pra ganhar, se ela representou realmente a maioria dos brasileiros. Que bom que a democracia está evoluindo. Eu sou contra o impeatman pois não se tira uma pessoa da presidência por ser incompetente e irresponsável, e nem se vende a alma do povo pro diabo chamado Eduardo Cunha para tirar a presidente por impeatman isso sim seria um golpe
  • Amarílio Adolfo da Silva de Souza  15/12/2015 09:38
    Mesmo que ele estivesse certo, seria preferível do que o arranjo atual, em que vagabundos se elegem para espoliar o povo por meio de leis. CAPITALISMO NELES!
  • THOMAZ  15/12/2015 14:08
    COM EXCEÇÃO DO FRIBOI QUE CRIOU O MONOPOLIO DA CARNE
  • Beduíno  15/12/2015 14:42
    Graças aos fartos subsídios do BNDES, sem os quais ela não seria nada.
  • Amazonense  15/12/2015 15:41
    Monopólio da Carne?

    Na minha cidade, há diversas marcas e mercados que vendem carne. E friboi é apenas uma e não é a mais popular não (até porque nos chega a preços altos por essas bandas...)

  • Batista  16/12/2015 10:13
    Diversidade de marcas não significa que não haja cartéis. Podemos ter Friboi, Frivaca, Frigado, Frigarrote e tantos outros "Fri", mas dentro de uma só sociedade acionária.

    Também, é necessário saber, essencialmente, quem são os fornecedores; ou quem é o único. E basicamente não varia muito, são poucos controladores. E isso faz com que não haja muita diferença de preço no mercado, com algumas pontuais oscilações devido a distâncias, fretes, situações atípicas
  • Alexandre  28/02/2016 23:35
    Vejam mais um idiota (ops!... mais um "economista") tentando explicar o inexplicável:

    www.msn.com/pt-br/dinheiro/economiaenegocios/pobreza-e-desigualdade-s%c3%a3o-insepar%c3%a1veis-diz-atkinson/ar-BBpGYxT?ocid=spartandhp


    - Hoje é impossível falar de "desigualdade" sem falar de Thomas Piketty e seu bestseller "O Capital no Século XXI", mas há economistas que estudam o tema há décadas.

    O mais importante deles talvez seja o britânico Anthony Atkinson, professor da Universidade de Oxford que está sempre entre os mais cotados para o prêmio Nobel.

    Mentor de Piketty na criação de um banco de dados mundial de renda e riqueza, Atkinson quer agora "ampliar a imaginação das pessoas" mostrando o que pode ser feito em relação ao problema.

    Seu novo livro "Desigualdade: O Que Pode Ser Feito", lançado no Brasil pela editora Leya, é um chamado à ação que inclui ingredientes tradicionais (como tributação mais progressiva sobre herança, renda e propriedade) e outros bem mais polêmicos.

    Atkinson defende que o Estado deve oferecer emprego público com salário mínimo para quem o procurar, além de um tipo de herança mínima para todos que atingirem a idade adulta.

    Ele conversou por telefone com EXAME.com sobre alguns temas do livro. Veja a seguir:

    EXAME.com – Por que devemos pensar na desigualdade como um problema em si e não apenas em reduzir a pobreza e melhorar as condições de vida para todos?

    Anthony Atkinson – Primeiro porque não dá para separar pobreza e desigualdade. Se você quer reduzir a pobreza, precisa pensar na distribuição dos resultados, porque eles estão interconectados.

    Cito uma frase do [economista inglês] Richard Tawney: "O que os ricos ponderados chamam de problema da pobreza, os pobres ponderados chamam de problema da riqueza".

    Segundo porque quando falamos de bem-estar, a maioria pensa em algum tipo de igualdade de oportunidade e chance de desenvolver seus talentos. E é impossível ter igualdade de oportunidade com desigualdade excessiva de resultados.

    A desigualdade de renda e riqueza significa que não temos um campo de atuação equitativo. As pessoas podem ir para a mesma escola, mas ir com ou sem café da manhã faz a diferença se elas vão se beneficiar daquela educação.

    EXAME.com – Você diz que uma das armas contra a desigualdade é a tributação. Os Estados Unidos chegaram a ter uma taxa máxima de 90%, mas isso não seria muito mais difícil hoje, com a mobilidade do capital?

    Atkinson – O livro é sobre o século XXI. Estou levando em conta a importância da globalização, e ela limita mesmo o que pode ser feito.

    Mas o nível existente hoje (certamente no Reino Unido e em muitos outros) é baixo e fruto de razões ideológicas. Quando os países aumentam suas taxas - não diria para 90%, mas algo como 60% - isso não tem efeito negativo na receita.

    EXAME.com – Você menciona a América Latina no começo do século como um exemplo de redução da desigualdade, mas estudos mostram que pesquisas de domicílio não revelam a riqueza no topo. Nossa desigualdade não pode ser ainda maior?

    Atkinson – Sim. Informações de vários países mostram que é muito difícil capturar o que está acontecendo no topo do topo através de pesquisas, e por isso usamos outros registros.

    Talvez a redução da desigualdade não tenha sido tão grande, o que também revela a atuação dos muito ricos em ver sua real posição revelada.

    EXAME.com – O Brasil está em uma recessão profunda. O que a história mostra sobre o efeito de crises e contrações sobre o nível de desigualdade?

    Atkinson – Primeiro, eu separaria crises de recessões. Crises de várias formas frequentemente iniciam recessões.

    Eu diria que muito da recessão mundial, por exemplo, foi resultado não da crise, mas das políticas feitas em resposta a ela. A Europa está em recessão principalmente por causa das respostas macroeconômicas falhas, não pela crise em si.

    Se você perseguir políticas macroeconômicas que só focam em reduzir déficits do governo e inflação e não o emprego, isso tem no geral um efeito negativo para a maioria da população em termos de mais desigualdade.

    EXAME.com – Você diz no livro que a tecnologia não deve ser vista como algo que simplesmente vem do céu. Mas não podemos partir do pressuposto de que a automatização vai sempre matar empregos?

    Atkinson – Não. A tecnologia deixou as pessoas muito mais produtivas, então eu tenho uma visão muito positiva dela. O que eu enfatizaria é quais partes da economia estão tentando melhorar com a tecnologia.

    Por exemplo: os governos dos EUA e a Europa estão gastando muito para desenvolver carros sem motorista, o que provavelmente vai matar empregos como os de motoristas de táxi.

    Uma alternativa para gastar esse dinheiro seria melhorar a tecnologia robótica que faz com que pessoas não precisem sair de casa para ter tratamento. Isso vai junto com o avanço do trabalho, porque você teria pessoas entrando para fazer o acompanhamento.

    É um exemplo de como beneficiar os consumidores e ainda criar empregos. Ao escolher financiar os carros ao invés do tratamento domiciliar, nossos políticos fizeram escolhas que tem implicações para o nível de trabalho.

    EXAME.com – Até que ponto a alta da desigualdade nas últimas décadas é reflexo da ascensão da China e de um mercado de trabalho globalizado?

    Atkinson – A resposta padrão de um economista seria de que isso beneficiou o trabalhador qualificado em detrimento do não qualificado.

    Eu não estou convencido, porque uma grande parte do aumento da desigualdade vem do topo da distribuição. Não é o graduando que está se beneficiando, é o 1%, o 0,5% mais rico. E ninguém fica rico assim só por ter um PhD.

    Precisamos ver o que está gerando isso, como o aumento forte da compensação aos presidentes de empresas. Se você olhar o que eles ganhavam 20 anos atrás para fazer o mesmo trabalho, é uma fração do que é hoje, e é difícil de entender o porquê.

    EXAME.com – Mas não há forças que estão fora do nosso controle – como o fato de que as pessoas geralmente conhecem seus parceiros na faculdade e casam com quem tem nível de renda parecido?

    Atkinson – Há um elemento disso, mas não diria que 2 pessoas que juntas ganham 200 mil dólares por ano vão entrar na lista da Forbes ou algo assim. Isso não é a chave; já a herança é, sim, um elemento bem mais importante.

    Mas onde as duas coisas se juntam é na igualdade de oportunidade. Os filhos desse casal vão ser duplamente favorecidos em seu acesso à educação, por exemplo.

    EXAME.com – Mas nem sempre é fácil avaliar os efeitos de uma determinada política. As universidades públicas brasileiras, por exemplo, são dominadas por estudantes que vieram de escolas privadas. Mas eliminá-las acabaria de vez com a possibilidade dos mais pobres terem ensino superior.

    Atkinson – É difícil pegar uma coisa isoladamente, é preciso olhar nas relações. A pergunta é: o que está acontecendo nos níveis mais baixos da educação? Por que as pessoas não estão conseguindo ou querendo tentar o ensino superior?

    É difícil abordar um problema sem falar de outros, e isso volta para a questão de um campo de atuação equitativo e aquilo que o economista americano James Heckman enfatiza: o investimento nos primeiros anos da infância. Sem isso, deixamos as pessoas em desvantagem a partir de uma idade muito pequena.

    EXAME.com - Das propostas que você cita, qual seria a mais efetiva e qual seria a mais fácil politicamente?

    Atkinson – Essa resposta fica com os leitores e será muito diferente de um país para o outro. Não estou dizendo que você deve fazer isso ou aquilo, e sim que se vocês quiserem fazer algo, pode ser feito. É mais sobre criar uma coalizão do que escolher uma política só.

    As organizações internacionais sempre focam em uma coisa só, os governos só falam de educação e treinamento, mas há mais que pode ser feito. Eu quis ampliar a imaginação das pessoas.



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