clube   |   doar   |   idiomas
Guerra ao dinheiro, juros negativos e crise da Grécia: o Bitcoin é uma alternativa à crise

Desde a grande crise financeira de 2008, as autoridades vêm tomando medidas drásticas e inéditas no mundo desenvolvido. A cada ano, novas intervenções para resolver os problemas gerados por intervenções passadas; é o chamado círculo vicioso do intervencionismo. De fato, esse estado de coisas é o resultado natural do paradigma monetário em que vivemos: banco central e leis de curso forçado.

E quanto mais a crise se agrava, mais desmedidas se tornam as políticas adotadas. A era das políticas monetárias não convencionais prospera. Ela nada, ou muito pouco, resolve, porém. Mas isso não impede os banqueiros centrais de testarem novos remédios.

Dos desdobramentos recentes, vale destacar duas tendências intimamente ligadas: a proibição do dinheiro em espécie e a imposição de juros negativos. Para esta ser efetiva, o dinheiro físico deve ser banido, segundo defendem alguns economistas como Kenneth Rogoff. Mas o objetivo oficial dos legisladores ao restringir o uso do papel-moeda é outro: frustrar o financiamento de atividades terroristas e dificultar a lavagem de dinheiro e a evasão fiscal.

Mas antes de tratar da questão das taxas de juros abaixo de zero, é preciso compreender o racional, explícito ou não, da chamada guerra contra o dinheiro em espécie (War on Cash). As frequentes notícias sobre a intensificação dessa guerra ilustram perfeitamente como ela ocorre na prática. A verdade é que os governos de países desenvolvidos têm travado renovadas batalhas nesse front.

Guerra contra o dinheiro

Nos Estados Unidos, graças ao Bank Secrecy Act, de 1970, qualquer depósito em espécie acima de 10 mil dólares deve ser reportado pelos bancos ao Tesouro Americano. Mas se um cidadão depositar quantias menores, sucessivamente, por certo período de tempo, que somadas superem US$ 10 mil, tal sujeito é automaticamente suspeito de envolver-se em lavagem de dinheiro e/ou tráfico de drogas.

Fruto dessa lei, um pequeno empresário americano passa por uma experiência penosa: teve sua conta bancária confiscada e agora tem de enfrentar o governo no tribunal. De 2005 a 2012, a Receita Federal americana confiscou nada menos que US$ 242 milhões oriundos de operações suspeitas similares.

Enquanto isso, na Europa, o governo francês, em maio passado, reduziu de € 3.000 para apenas € 1.000 o limite máximo permitido para pagamentos em espécie. Seguindo a mesma tendência, italianos são proibidos de realizar transações maiores que € 1.000 em dinheiro. Já a Espanha manteve uma postura um pouco mais branda — proscreveu pagamentos em espécie acima de € 2.500.

Países da América Latina também promulgaram leis constrangendo o uso de dinheiro físico nos últimos anos. Em 2014, uma lei uruguaia de inclusão financeira limitou em US$ 5 mil o valor de pagamentos que podem ser feitos em espécie no país. No México, a lei de prevenção de recursos ilícitos veda completamente toda e qualquer aquisição de imóveis ou automóveis com dinheiro. Para piorar o quadro, qualquer mexicano que efetuar um depósito em espécie mensal, único ou cumulativo, que supere 15 mil pesos (equivalente a US$ 1.000) terá o excedente taxado em 3% — é o chamado Imposto sobre Depósitos em Espécie.

Na Escandinávia, o governo dinamarquês propõe algo mais drástico: aprovar uma lei para permitir que diversos estabelecimentos recusem pagamento em espécie — o que, ironicamente, contraria as próprias leis de curso forçado. "Uma sociedade sem dinheiro físico (cashless society) não é mais uma ilusão, mas uma visão que pode ser cumprida em um período de tempo razoável", prognostica Michael Busk-Jepsen, diretor executivo da Danish Bankers Association.

Os demais integrantes da região, Suécia e Noruega, trilham um caminho semelhante. Grande parte das transações desses países já é realizada na forma eletrônica. Mas tal fenômeno não se restringe apenas a essas jurisdições; nas economias avançadas, o dinheiro digital responde pela vasta maioria dos intercâmbios na sociedade.

Em um relatório de 2013 da empresa MasterCard Advisors, intitulado "Measuring progress toward a cashless society" (medindo o progresso na direção de uma sociedade sem dinheiro em espécie), pode-se notar a predominância dos pagamentos com dinheiro eletrônico pelos consumidores. Certamente, essa é a realidade em países desenvolvidos. Embora as estatísticas possam divergir, se incluirmos no estudo as transações efetuadas entre empresas, o uso do dinheiro digital é ainda mais preponderante.

O resumo dessa ópera é o seguinte: independentemente da vontade da sociedade, as leis mundiais convergirão para uma restrição ainda mais forte contra o papel-moeda. Isso é uma questão de tempo. Sacar e pagar com dinheiro em espécie será cada vez mais complicado. E isso ocorrerá de maneira uniforme, em todo o mundo.

Sob a justificativa de coibir o financiamento de atividades ilícitas, cidadãos honestos arcarão com os custos e com a implícita perda de privacidade desse arranjo. Tais leis são injustas. O que é pior, são também inúteis, pois têm fracassado recorrentemente. Basta lembrarmos que as maiores contravenções de lavagem de dinheiro passam pelo próprio sistema bancário eletrônico, sob os auspícios dos banqueiros.

A título de curiosidade — e perspectiva —, em 2014 os bancos mundiais desembolsaram mais de US$ 65 bilhões para o pagamento de multas aplicadas pelas autoridades ao redor do globo, muitas delas em virtude de casos de lavagem de dinheiro. Essa cifra é mais do que dez vezes o valor de mercado de todos os bitcoins em circulação, considerando a cotação atual da criptomoeda.

Mas o aperto no cerco contra o dinheiro não vem apenas dos governos; os bancos também têm feito a sua parte e atravancado ainda mais o uso do papel-moeda. Em março passado, a maior instituição financeira dos EUA, o banco Chase, atualizou os termos de uso de serviço com seus clientes e, além de restringir o uso de dinheiro em alguns mercados, proibiu o armazenamento de papel-moeda em cofres individuais.

A política mais drástica, porém, está sendo proposta por outro grande banco, o Citigroup — ou melhor, pelo economista-chefe do Citi, Willem Buiter. Na sua carta de abril, Buiter ventila a ideia de simplesmente abolir o dinheiro. Por quê? Para permitir aos bancos centrais a imposição de juros negativos livres de quaisquer empecilhos. Mais adiante voltarei a essa questão. Antes, contudo, é preciso pôr em perspectiva a real relevância do papel-moeda na economia.

No estudo da MasterCard Advisors comentado acima, as estatísticas apontam para uma predominância do pagamento com meios eletrônicos por consumidores de países desenvolvidos. Em países emergentes, a presença do dinheiro nas transações diárias é maior. Mas esses dados dizem respeito apenas à forma pela qual os intercâmbios são efetuados.

Se analisarmos, contudo, a distribuição da massa monetária em circulação (considerando o agregado M1, dados de 2013), veremos que, mesmo em países emergentes como o Brasil, a moeda bancária (ou escritural e, hoje em dia, eletrônica) corresponde ao grosso do dinheiro em uma economia. Nos Estados Unidos, a moeda eletrônica representa mais de 55% do dinheiro em circulação. Aqui, essa relação é de 52%. Enquanto isso, nos países da Zona do Euro, no Japão, na Suíça e na China, a moeda bancária responde por mais de 80% de toda a massa monetária. No Reino Unido, a moeda física não alcança nem 5% de todo o dinheiro em circulação.

Essa tendência é natural. Não são apenas as leis antiterrorismo e de prevenção de lavagem de dinheiro as responsáveis por essa situação. Os inconvenientes de se usar o papel-moeda em diversas transações são óbvios. E em uma economia moderna, a agilidade e a eficiência para pagamentos são indispensáveis. A prática e a tecnologia nos levam, inevitavelmente, a um mundo onde o dinheiro em espécie será cada vez mais ausente.

As disposições legais que restringem ou coíbem o uso do dinheiro físico têm muito mais a ver com controle — controle governamental sobre nossas finanças. Mas enquanto os legisladores pretendem apenas limitar o uso do dinheiro, os economistas têm a ambição de aboli-lo por completo. O pretexto dessa política radical remete a uma mera inconveniência de política monetária: como impor taxas nominais de juros negativos aos detentores de papel-moeda que operam fora do sistema financeiro e longe do alcance do banco central?

Juros abaixo de zero

O assunto em questão não se refere aos rendimentos (yield) negativos dos títulos governamentais. Essas taxas de juros são uma consequência de mercado, resultado do jogo de oferta e demanda por títulos públicos — embora haja, é claro, muita intervenção dos bancos centrais via programas de quantitative easing.

O que economistas como Rogoff e Buiter advogam, na verdade, é a imposição de taxas nominais negativas pelos bancos centrais, em detrimento dos bancos, e repassados por estes aos seus correntistas. Mas há um bom motivo por trás dessa ideia, defendem Rogoff e Buiter. Para estimular a economia, os agentes precisam ser incentivados a gastar e a investir. Taxas de juros menores servirão para impulsionar o endividamento bancário e o investimento.

Essas palavras são do próprio Willem Buiter, proferidas em um evento do Centre for Economic Policy Research para discutir a remoção do limite do "nível zero" dos juros.

A proposta — que é de arrepiar, por sinal — se resume a três medidas: i) abolir o dinheiro físico; ii) taxar o dinheiro físico; e iii) remover a taxa fixa de conversão entre depósitos bancários e papel-moeda. Não é o escopo deste artigo discutir os méritos dessa política de juros em zero ou negativos — até porque não há;  o ponto aqui é outro e ficará claro mais adiante.

Mas deixemos neste momento apenas uma reflexão. Os juros vêm sendo reduzidos constantemente desde o estouro da crise, e a justificativa é sempre a mesma: juros menores encorajarão os agentes a tomar mais dívida, assumir riscos e investir, elevando a demanda agregada e retomando o crescimento econômico.

Alguns bancos centrais já estão cobrando uma taxa de depósito de 1,10%, como o Riksbank, da Suécia, que nesta semana decidiu mais uma redução, chegando aos 110 pontos-base negativos. Apesar dos juros cada vez mais baixos, é preciso reduzi-los ainda mais? Até quando? Talvez já tenha chegado a hora de concluir que essa política não está funcionando. Porque a verdade é que não basta inundar o mercado com dívida barata — ou até mesmo gratuita — quando a sociedade (indivíduos e empresas) não está demandando mais alavancagem. Na visão de Buiter, contudo, é imprescindível insistir nessa política por quanto tempo for necessário.

NIRP.jpg

Digressão à parte, a política de juros negativos tem consequências concretas. A terceira lei de Newton tarda, mas não falha. Para cada ação há uma reação. Buscando maximizar, ou ao menos proteger, o patrimônio dos seus pensionistas, alguns fundos de pensão na Suíça têm tido a perspicácia de recorrer a medidas um tanto heterodoxas: solicitar o resgate em espécie de vastas somas de francos suíços para depositar as cédulas em bunkers ou cofres.

O racional é óbvio: escapar das taxas de depósito de 0,75% cobradas pelo Banco Nacional da Suíça. Mas lograr isso na prática pode ser uma empreitada frustrante, se não impossível. Segundo a imprensa local, um fundo de pensão teve sua solicitação de resgate negada por seu banco. Agindo conforme seu dever fiduciário de proteger e elevar a rentabilidade dos ativos sob sua gestão, o gerente do fundo não teve êxito.

Há uma boa probabilidade de o declínio do banco em atender à solicitação do seu cliente ser absolutamente ilegal, mas isso não impediu o Banco Nacional da Suíça (BNS) de orientar a instituição financeira a rejeitar o pedido do correntista. Na verdade, o BNS apenas recomendou aos bancos "tratarem de exigências de resgate de forma restritiva", relegando a decisão final à própria instituição. Não é preciso um PhD para imaginar qual postura o banco adotou.

Na prática, os bancos suíços estão sendo eximidos de cumprir com suas obrigações. Por enquanto, de forma velada, mas chegará a hora em que os cantões testemunharão a promulgação de legislação concedendo o privilégio explícito para instituições financeiras atuarem à margem da lei, tornando lícito o que para qualquer agente econômico seria nada menos que uma clara quebra de contrato. Isso não é inédito. Em realidade, ocorre sistematicamente na história financeira do mundo. Retomaremos esse tema mais adiante.

O que esse episódio todo evidencia é algo fundamental na economia moderna: em última instância, não temos nenhum controle sobre nosso dinheiro depositado no sistema bancário. Para muitos, isso não é novidade alguma. No momento em que entregamos numerário a um banco, tornamo-nos imediatamente credores da instituição. Isso é sabido, e, em geral, a sociedade dá pouca importância a esse arranjo.

Mas no instante em que bancos passam a unilateralmente impor juros negativos aos depósitos ou cobrar uma taxa pelo resgate em espécie, aí a situação muda completamente de figura. Especialmente quando isso ocorre em economias avançadas como a da Suíça. Em vez de credores, nos sentiremos reféns, sujeitos às arbitrariedades dos bancos, e — o pior de tudo — com a bênção dos bancos centrais. Não há escapatória do dinheiro digital estatal em um cenário de taxas de juros abaixo de zero. Essa é a lição essencial do paradigma monetário corrente.

Tomando como premissa que o recurso aos juros nominais negativos seguirá avançando no mundo desenvolvido, é plenamente plausível esperar casos similares ao suíço na Escandinávia e na Zona do Euro. Nesta última, a propósito, a impotência da sociedade diante do sistema bancário não pode ser mais patente, vide o que está se sucedendo na Grécia nos últimos dias.

A crise da Grécia e o os controles de capitais

Com a alta probabilidade de um novo acordo entre a troika e a Grécia ir definitivamente para o brejo, a população não quer acordar e ver seus euros subitamente confiscados ou transformados em dracmas depreciados. A solução? Sacar todo o dinheiro dos bancos locais ou transferi-los para países mais seguros, como Alemanha e Holanda.

A crescente iminência de uma séria crise financeira — fruto dos apuros fiscais e do endividamento soberano — levou o governo de Alexis Tsípras a decretar seis dias de feriado bancário e a adotar controles de capitais bastante restritivos nesta semana.

De certa forma, essas circunstâncias já vêm se desenrolando nos últimos meses. Em abril, os governos das províncias tiveram suas contas sequestradas pelo governo central, resultado de uma medida desesperada para arrecadar fundos. "Nenhum governo até hoje ousou tocar no dinheiro das municipalidades", esbravejou Giorgius Patoulis, prefeito da cidade de Marousi, após o anúncio da medida. Mas o governo de Tsípras ousou e confiscou.

Para se ter uma noção da dimensão da fuga de capital, nos últimos 12 meses, o passivo do Banco da Grécia perante bancos estrangeiros subiu mais de € 60 bilhões, chegando a um total de € 100 bilhões ao final de maio. Isso equivale à metade do PIB da República Helênica. Esse montante faz parte do chamado Target2, uma espécie de conta "nostro e vostro" que os bancos centrais nacionais mantêm no BCE. Os saldos do Target2 são um bom indicador do fluxo líquido de capital entre os países da Zona do Euro.

Mas agora a corrida bancária ganha contornos catastróficos, e a população da Grécia está impedida de transferir fundos para outras jurisdições ou de sacar moeda em espécie. Em um sistema de reserva fracionária, para levar um banco à falência, basta a maioria dos depositantes se perfilar para sacar seu dinheiro. Precisamente esse fenômeno ocorre hoje na Grécia. Mas e se já não houvesse papel-moeda em circulação, o que poderiam fazer? Quase nada. Apenas aguardar os desmandos e as arbitrariedades do governo.

A evolução do dinheiro estatal

Na Suíça, fundos de pensão são inibidos de resgatar em espécie. Na Grécia, os bancos fecham as portas com o respaldo legal, e os depositantes são impedidos de sacar dinheiro. Países distintos, em situações distintas, mas, em ambos os casos, o fenômeno é o mesmo: o velho dilema bancário que assombra a humanidade há séculos.

Quando uma maioria de correntistas repentinamente resolve sacar o dinheiro de suas contas, não há dinheiro suficiente nos cofres dos bancos, há apenas uma fração do que lá foi depositado. E qual a solução frequentemente usada? Agraciar os bancos com a opção de não cumprir com suas obrigações; conceder aos bancos o respaldo da lei, o privilégio, para não honrar o acordo firmado com sua clientela.

Em um contrato de depósito à vista, o trato é simples: "O dinheiro do depositante fica à sua disposição para ser sacado a qualquer momento", nas palavras do próprio Banco Central. Não há letras miúdas permitindo ao banco restringir o resgate em espécie pelo cliente. Mas na prática, como o gestor do fundo de pensão suíço acabou descobrindo, a coisa não funciona assim.

O dilema bancário está diretamente relacionado à evolução do dinheiro estatal; o papel-moeda que hoje usamos é sua resultante inevitável, e o próximo estágio natural é o dinheiro estatal totalmente digital. Explico.

Historicamente, as notas ou cédulas bancárias eram meros certificados do dinheiro propriamente dito, normalmente, ouro ou prata. Com a emissão de certificados sem lastro no dinheiro commodity — prática chamada de reservas fracionárias —, os bancos recorrentemente entravam em apuros e imploravam aos soberanos por privilégios que lhes permitissem restringir os resgates em espécie.

A era dos bancos centrais não eliminou o problema, apenas o amplificou sob um marco legal próprio que encorajava e orquestrava as reservas fracionárias. O fim do padrão-ouro clássico e início do sistema Bretton Woods foram o primeiro passo para cortar o vínculo com o metal precioso. Nesse arranjo, os cidadãos eram proibidos de resgatar em espécie; apenas os bancos centrais nacionais poderiam converter seus dólares em ouro depositado no Federal Reserve.

Mas nem o Fed conseguiu honrar suas promessas: inundou o mundo com dólares não lastreados, e em 1971 o então presidente americano Richard Nixon viu-se obrigado a decretar o fim de qualquer conversibilidade do dólar em ouro. Era dado o passo definitivo para o início do grande experimento de papel-moeda não conversível em nada.

A partir desse momento, o dinheiro material, a moeda propriamente dita, passou a ser justamente as cédulas emitidas pelos bancos centrais. Dólares, marcos e francos poderiam ser impressos sem nenhum limite físico, sem qualquer restrição de emissão.

Mas, nesse sistema de papel-moeda inconversível, os bancos tampouco mantêm 100% dos depósitos lastreados em cédulas de dinheiro. A prática de reservas fracionárias segue em plena operação mesmo com um papel-moeda. Isso tem consequências fundamentais. Basta os depositantes solicitarem em massa o resgate do depósito em espécie — cédulas de dinheiro — para levar um banco fracionário à insolvência.

Hoje em dia, a fração de depósitos lastreada por papel-moeda é ainda mais insignificante, dado que boa parte das reservas totais dos bancos está constituída na forma de dígitos eletrônicos depositados no banco central. As reservas atuais dos bancos já são dinheiro estatal digital. Por isso, socorrer bancos em apuros, injetar liquidez no sistema, intervir nos mercados de dívida e acionários são tão triviais no mundo moderno: bastam alguns comandos no computador, e bilhões de dólares são materializados do nada nas contas de reservas do sistema bancário.

Assim, se com o papel-moeda em circulação é possível levar uma instituição financeira à bancarrota — o que, dependendo da dimensão do banco, cria um risco sistêmico —, nada mais natural que abolir o dinheiro em espécie. Nada mais natural que eliminar o último entrave ao domínio absoluto do dinheiro de uma nação.

Não nos iludamos, a restrição e a eventual abolição do dinheiro em espécie estão intimamente ligadas ao controle totalitário sobre nossas finanças e à sobrevida que pode conceder ao sistema de reservas fracionárias. Quando o dinheiro estatal tornar-se inteiramente digital, o caminho estará livre para os desejos dos banqueiros centrais serem prontamente atendidos.

Juros negativos, confiscos, bloqueios, taxas, é só escolher a política do dia. Será o ápice do socialismo monetário. E não há nada que se possa fazer para nos protegermos. Ou melhor, até 2009, não havia. Hoje há, sim, uma alternativa.

Por que o Bitcoin é uma alternativa à crise financeira

Nesse estado de coisas, como não enxergar no Bitcoin uma possível alternativa aos problemas monetários que assolam o mundo? Um dinheiro digital cuja emissão é sabida, controlada e monitorada por todos os participantes — não há surtos inflacionários. Um dinheiro digital imune às arbitrariedades dos bancos centrais. Um dinheiro digital cujo protocolo é público e transparente. Um dinheiro digital à prova de censura. Um sistema aberto e acessível por qualquer pessoa. Inclusivo, não excludente. Um sistema global em que não há fronteiras artificiais. Um sistema em que a privacidade é uma opção, não uma concessão. Um sistema em que a confiança é substituída pela comprovação matemática. Um sistema em que as regras do jogo recompensam o comportamento honesto. Um sistema voluntário. Um sistema livre.

Qual a utilidade dessa inovação? Qual o valor dessa tecnologia?

Hoje poucos vislumbram todo o potencial do Bitcoin e sua utilidade imediata. Mas o tempo é seu amigo. Porque, quanto mais o tempo passa, mais insensatas e desesperadas se tornam as políticas dos bancos centrais. Quanto mais a crise se agrava, maiores são os riscos de se estar submetido ao sistema de moeda fiduciária. Por outro lado, quanto mais o Bitcoin é compreendido, mais evidentes são suas vantagens. Quanto mais seus atributos são valorizados, menores parecem os riscos de se adotar essa alternativa.

A mudança de paradigma virá quando fundos de pensão, hedge funds, investidores institucionais, enfim, quando dinheiro de peso reconhecer os méritos do Bitcoin, considerando-o como forma de diversificar a liquidez. É crescente o número de gestores que alertam para os perigos de exposição a diversas classes de ativos como ações e títulos de dívida. Os retornos inexistentes aliados aos riscos crescentes estão deixando os mercados financeiros aflitos. Alguns recomendam concentrar-se na ponta mais curta da curva de juros, para não serem surpreendidos por uma elevação repentina do yield dos bonds soberanos.

Outros vão além e já passam a aconselhar a manutenção de dinheiro como reserva de liquidez. O famoso investidor Bill Gross, agora capitaneando a Janus Capital, concluiu sua última carta orientando seus clientes a "guardar uma quantia de dinheiro apropriada de modo que a venda em pânico dos ativos não precise ser uma opção". A pergunta que fica é: e quando a maldição dos juros nominais negativos bater à porta, como manter a liquidez imune à política monetária acomodatícia? O que fazer quando os bancos centrais decidirem que manter saldos elevados em dinheiro é indesejado, forçando investidores a assumir riscos em outras classes de ativos? O que fazer quando o dinheiro for taxado ou apreendido? A quem ou ao quê recorrer?

O fato é que as arbitrariedades das autoridades monetárias alçarão o bitcoin ao estrelato. O sistema monetário vigente foi um dos grandes — se não o principal — motivadores da criação da criptomoeda; tenho cada vez mais convicção de que a intensificação da crise e o eventual colapso do sistema monetário serão responsáveis pela maior adoção do Bitcoin. A força motriz do Bitcoin é diretamente proporcional à opressão financeira global.

A cotação da moeda digital subiu nos últimos dias não porque os gregos estariam supostamente buscando refúgio no Bitcoin. O que ocorre na Grécia é apenas um prelúdio de algo muito maior; os responsáveis pela alta do preço são os investidores que já entenderam o tamanho da encrenca.

A legitimidade do dinheiro estatal anda na direção inversa à do Bitcoin. A confiança no sistema vigente diminui gradativamente, especialmente pelas gerações mais jovens. A invenção da tecnologia foi uma reação ao socialismo monetário sob o qual vivemos, e é ele quem alimenta o crescimento do Bitcoin. Com o passar do tempo, o dinheiro digital de Satoshi Nakamoto será visto como uma alternativa genuína. Talvez, a única alternativa de fato.



autor

Fernando Ulrich
é mestre em Economia da Escola Austríaca, com experiência mundial na indústria de elevadores e nos mercados financeiro e imobiliário brasileiros. É conselheiro do Instituto Mises Brasil, estudioso de teoria monetária, entusiasta de moedas digitais, e mantém um blog no portal InfoMoney chamado "Moeda na era digital". Também é autor do livro "Bitcoin - a moeda na era digital".

 

  • Antônio Marcos Arduini Gonçalves  03/07/2015 15:50
    Hoje o sistema financeiro é completamente estatizado e centralizado, todos os bancos são altamente regulamentados pelo governo através do banco central, burocratas decidem arbitrariamente quais são as regras da economia, tudo isso diminui a concorrência nesse mercado.

    As criptomoedas são o futuro do dinheiro. Representam a liberdade para o povo, e não devem ser regulamentadas pelo governo. Possuem alta escassez, quase como o outro, e são fáceis e baratas de serem transacionadas, pois não precisam de nenhuma instituição financeira central para intermediar essas transações.

    O Bitcoin já tem concorrentes, mas como foi a primeira criptomoeda a ser criada e devido ao seu grande volume de transações, ainda vai reinar por um bom tempo.
  • Henriqu???????????????????????¨´?e???????? Dias   03/07/2015 15:51
    "Deputado petista quer acabar com o dinheiro – literalmente"

    veja.abril.com.br/noticia/brasil/deputado-petista-quer-acabar-com-o-dinheiro-literalmente/
  • Lopes  03/07/2015 17:41
    Em um país com metade da economia na informalidade, é impossível. Que contenham sua ambição tributária ao menos desta vez.
  • anônimo  03/07/2015 18:35
    Infelizmente este será o futuro provável, resta apenas saber quando.

  • Leandro Carlos Rodrigues  05/07/2015 02:26
    A presidente Dilma esta mais preocupada em sobreviver politicamente e por isso não vai investir capital político nisso. Este projeto de lei está com os dias contados pois o PT não ganha nas próximas eleições.
  • lorivaldo  03/07/2015 15:57
    Então se o cidadão for autônomo nos EUA (como pedreiros, eletricistas, etc) passa apuros com este tipo de medida.
  • Rodrigo Pereira Herrmann  03/07/2015 15:58
    [off]

    Leandro, por favor,

    você já me respondeu anteriormente, mas gostaria de estender a questão.

    Existe alguma relação entre a taxa de juros legais da poupança (o governo garantindo um rendimento mínimo pro dinehiro) e o componente inercial da inflação?

    obrigado
  • Leandro  03/07/2015 16:35
    E eu vou repetir a mesma resposta que havia dado:

    Desconheço. Para que houvesse, teria de haver correlação entre rentabilidade alta da poupança e aumento da inflação de preços.

    No entanto, sempre que a rentabilidade da poupança era alta (refiro-me aqui apenas ao histórico desde julho de 1994), a inflação de preços estava em queda. Isso pode ser visto mais explicitamente no período 1994-1998, 2003-2008.

    Já no período 2012-2014, a rentabilidade foi a menor da história, e a inflação foi crescente.
  • Rodrigo Pereira Herrmann  03/07/2015 18:38
    Obrigado.

    O fulcro da questão é que os agentes econômicos já contabilizariam, desde sempre, aqueles 6% a.a. mínimos garantidos, pressionando o componente inercial.

    Quanto ao seu exemplo, em regra, a um rendimento alto da poupança (em termos absolutos) corresponde uma taxa selic alta, por isso a relação inversa com a taxa de inflação.

    tô perdendo algum detalhe aí?!


  • Leandro  03/07/2015 20:16
    Juros altos sem dúvida ajudam a elevar a renda (e, logo, a demanda futura) dos poupadores.

    Agora, "aqueles 6% a.a. mínimos garantidos" só se concretizam se o dinheiro permanecer por um ano depositado na poupança. Se o cara sacar antes, os 6% irão incidir sobre valores muito menores.

    Não vejo, portanto, como rendimento da poupança (que exige que o dinheiro permaneça aplicado) seja conducente a maiores gastos no presente.

    "em regra, a um rendimento alto da poupança (em termos absolutos) corresponde uma taxa selic alta, por isso a relação inversa com a taxa de inflação. tô perdendo algum detalhe aí?!"

    De outubro de 2012 a até hoje, a SELIC subiu 90% (de 7,25% para 13,75%), a inflação de preços subiu junto.
  • Rodrigo Pereira Herrmann  03/07/2015 20:31
    pois é. pensei nisso também. mas como esse instituto é histórico a roda já girou muitas vezes e sempre será o momento de colher para alguns (ainda que uma colheita prematura); daí que esses 6% se tornariam consumo no presente e acabariam pressionando os preços.

    falei 'em regra'. como sabemos, a inflação se acelerou nesse período, a despeito da elevação da Selic, em razão da explosão de crédito subsidiado via bancos públicos.

    eu leio o site aqui, Leandro. também tô ficando esperto! hehe
  • Vinicius  03/07/2015 16:04
    Smells like freedom

    exame.abril.com.br/economia/noticias/temendo-retorno-ao-dracma-gregos-usam-bitcoin
  • Luiz  03/07/2015 16:21
    Ola Fernando,
    Parabens pelo artigo.

    Gostaria de perguntar:

    Uma hipótese que me ocorre é: de maneira similar a energia, onde o desenvlvimento tecnológico parece apontar para uma matriz cada vez mais plural e descentralizada (vento, sol, micro nuclear etc) no tocante a moeda algo similar, onde teríamos moedas de controle governamental, privadas e públicas como o BitCoin - faz sentido para voce?

    Um abraço
    Luiz
  • Fernando Ulrich  03/07/2015 16:47
    Oi Luiz,

    Acho que não entendi muito bem a pergunta. Poderia esclarecer?
  • Luiz  03/07/2015 17:52
    olá Fernando,

    claro, desculpe se não me expressei bem...:

    imaginei um cenário onde, por exemplo no mercado brasileiro, existiria um leque
    de moedas: o Real (governo), moedas privadas (emitidas por bancos ou outras instituições)
    e moedas públicas (como Bitcoin, litecoin etc).
    obviamente não seria um caminho escolhido pelos governantes mas uma situação que se chega
    por não ser possível interromper o avanço tecnológico.

  • Fernando Ulrich  03/07/2015 19:00
    Sim, acho que o cenário é perfeitamente plausível, se não inevitável.
  • Luiz  04/07/2015 04:02
    Muito obrigado Fernando!
  • Gustavo Nunes  03/07/2015 16:26
    Depois que várias pessoas forem para a moeda Bitcoin não há o risco do governo confiscar ou bloquear o sistema da criptomoeda como a China faz com uma internet restringida?
  • Fred  03/07/2015 17:35
    O governo não tem nenhum poder de confisco de BTCs, mas isso é verdade apenas no caso do usuário ser o único controlador das chaves privadas que dão acesso a sua "conta corrente" em BTC.
    Sobre a questão de bloquear o acesso ao sistema, a Dilma teria que desligar a Internet do Brasil inteiro. E, mesmo assim, quem tivesse acesso via satélite ou via meshnet a Internet ainda poderia realizar transações normalmente.
    Mesmo em caso de desligamento você não perderia o controle sobre seus BTCs, bastaria que você fosse para outro país (com Internet) para voltar a ter acesso normal ao seu dinheiro.
  • Edujatahy  03/07/2015 19:09
    O problema é como conseguir transferir reais para Bitcoin...
  • Lucas C  03/07/2015 20:57
    Simples. Numa casa de câmbio de bitcoins. Se for ilegal, no mercado negro. Se for ilegal, troque seus reais por uma mercadoria de maior liquidez e as negocie em bitcoin. E sempre se pode gastar seus reais com suas despesas do dia a dia, mas cobrar pelo seu trabalho em bitcoins. As maneiras de adquiri-lo são muitas e as maneiras de controlá-lo são mínimas.
  • Telly Savallas  03/07/2015 17:02
  • Didi  03/07/2015 17:38
    Muitíssimo obrigado pelo teor e qualidade do artigo!

    Ficou evidente que o falastrão TiZikas prometeu demais e se vendo em palcos de aranha partiu para o referendo. Se der Nai que quer dizer Sim, o paroleiro supra, disse que entrega a rapadura.

    De qualquer modo esse lance da Grécia mexe fortemente com o mercado e entra em águas desconhecidas. Sob severa crise sistêmica os gregos matam a sede financeira na base do conta-gotas e com o que é liberado malemá dá para as necessidades básicas.

    Similarmente o Estado brasileiro não preza pelo rigor das contas e algo do gênero não pode ser descartado, porque sob as nossas águas há um rombo gigantesco que não está claro.

    É oportuno aprofundarmos sobre o Bitcoin sem dúvida nenhuma!
  • Mauá  03/07/2015 19:55
    O bitcoin possui várias falhas que podem ser facilmente controladas pelo governo. Não é uma alternativa viável.
  • Um observador  03/07/2015 20:26
    Esse seu comentário ficaria bem mais interessante se você desse exemplos.
  • Mauá  03/07/2015 23:17
    Vamos lá. O Estado pode passar leis coibindo o uso do bitcoin, de modo que usar o bitcoin como moeda se torne inviável. O Estado ainda não fez nada contra o bitcoin, pois o mesmo ainda é completamente irrelevante para o governo. No momento em que o bitcoin começar a se tornar um problema o Estado voltará todas suas armas contra ele. Usará por exemplo a mídia (que já está nas mãos do governo) para dizer que o bitcoin é o responsável pelas maiores atrocidades, como a contratação de assassinos de aluguel, o comércio de drogas, o tráfico de seres humanos etc (o Estado é mestre em manipular as massas assim), surgirão "especialistas" em programas de TV falando dos grandes e terríveis males do "nefasto" bitcoin.

    Depois o Estado aprovarará leis no Congresso, dizendo por exemplo, o seguinte: "Todo estabelecimento comercial que for pego aceitando bitcoins, pagará uma multa de R$ 100 mil/dia." Pronto. É a virtual morte do bitcoin.
  • Fred  04/07/2015 02:56
    O estado fez isso com a pirataria e não deu muito certo. Ou deu?
  • Ricardo Santos  04/07/2015 08:31
    O governo já tem esse tipo de comportamento. No Brasil, o bitcoin é considerado ativo financeiro e deve ser declarado à Receita. Para comprar bitcoin numa casa de câmbio é necessário inserir seu CPF. A regulação do estado não só será feita no futuro como já está em curso. No entanto, e aí está a parte boa, este ataque parece ser o único possivel. Um ataque contra a demanda.
  • Tiago RC  15/07/2015 13:43
    Ok Mauá. E a sua proposta alternativa é...?
  • Mauá  03/07/2015 23:25
    Outra coisa. Digamos que eu empreste bitcoins para uma pessoa que mora, digamos, na Itália a 20% de juros ao ano. De repente em um belo dia, essa pessoa decide que não irá mais me pagar.

    Como posso cobrá-la? Posso processá-la? Vou ter que ir até a Itália e tentar pressioná-la fisicamente como um mafioso? Posso entrar na justiça? Tem algum órgão para o qual recorrer? O bitcoin carece de qualquer tipo base legal. Ele jamais será utilizado em larga escala sem base legal. Para uma moeda que quer se tornar de uso corrente e comum, antes vai ter que resolver isso. Terá que pedir a benção ao Estado.
  • Eduardo  04/07/2015 01:17
    Entrar na justiça ué, é uma quebra de contrato.
    Mas como vivemos num mundo onde o monopólio de justiça é real e mantido pelo estado, sim você teria que "correr para as asas do governo". E aí sim o estado pode ver uma maneira de frear o bitcoin, simplesmente se negando julgar tais problemas, mas aí não é falha do bitcoin, é pura e simples birra estatal em não reconhecer que a solução privada e de mercado é superior (sem mencionar que isso significaria abrir mão do monopólio da moeda).
  • ANDRE LUIS  04/07/2015 02:33
    Caro Mauá, chega a ser óbvio que o governo irá investir contra o BTC se este chegar a incomodá-lo seriamente. O fato é que, desde que foi criada a moeda (2009), ainda não se viu nenhuma crise de grande envergadura, tal como a que está se desenhando na Grécia. Não dá para saber se o BTC será mesmo uma alternativa viável, ou se a população irá encontrar uma outra solução.

    Vale lembrar que nenhum governo conseguiria barrar uma fuga em massa para o BTC. A opção mais sensata seria tentar "legalizá-lo" por meio de tributação. O nível de comprometimento com a liberdade de determinada população irá decidir o sucesso ou fracasso desta política de tributação, e não devemos subestimar tal comprometimento.

    Há apenas 2 anos, era impensável ver um contingente de pessoas tão alto exigindo liberdade nas redes sociais, nas ruas. Sinceramente não vejo cenário para pessoas voltarem a confiar no governo, ainda mais num cenário de destruição da moeda. Se o assunto BTCoin se tornar tão popular como o impeachment, ai veremos do que é feito o queixo da criptomoeda.
  • Lopez  04/01/2017 05:42
    Há caso em que (supostamente) rackers invadem a rede e saqueiam os bitcoins em sites de câmbio deixando a ver navios quem os depositou. Simplesmente, os clientes não conseguem reaver seus bitcoins nestes caso.... Reclamar a quem?

    De que modo a população usuários de bitcoins poderiam coibir está prática?
  • Fred  04/07/2015 02:58
    Sistema de reputação pode resolver esse problema. Desde q as interações sejam recorrentes.
  • Marcos  04/07/2015 20:31
    O judiciário deve analisar a quebra de contrato. Conforme a Constituição brasileira, o juíz não pode se eximir de julgar.

    O único modo do contrato não ser cumprido seria se o governo legislasse a operação em bitcoins tornando uma mera obrigação moral, como dívida de jogo ou prostituição, por exemplo. Nesses casos a dívida não é juridicamente exigível.

    Se o devedor estiver fora do país a recuperação do crédito será bem mais difícil, pois envolve dois sistemas jurídicos distintos. O juíz brasileiro não tem jurisdição na Itália. No entanto, isso aconteceria mesmo em uma dívida com moedas comuns.

    Também poderia haver um contrato de arbitragem em conjunto ao negócio principal. Desse modo não seria necessário recorrer ao estado (salvo na execução) e o caso poderia ser resolvido de forma mais célere e por especialistas. Basta que o país a ser executada a decisão tivesse uma legislação favorável ao instituto da arbitragem, como de fato boa parte do mundo tem, inclusive o Brasil
  • Amarílio Adolfo da Silva de Souza  03/07/2015 21:47
    Não.
  • Rhyan  04/07/2015 15:24
    Não entendi. Como vai abolir o dinhero físico e depois taxá-lo?
  • Enrico  05/07/2015 00:28
    Existem psicopatas que desejam abolir o dinheiro de papel e obrigar que todos mantenham todo o dinheiro em instituições financeiras, fazendo as pessoas transacionarem somente em cartões e tornando todos os seus dados financeiros facilmente disponíveis para a Receita.

    www.correio24horas.com.br/detalhe/noticia/deputado-propoe-fim-do-dinheiro-em-especie-no-brasil/
    noticias.band.uol.com.br/cidades/rio/noticia/100000748384/Moeda-virtual-pode-ser-a-solucao-no-combate-a-corrupcao.html
  • Rhyan  05/07/2015 04:09
    Certo, isso eu entendi, só não entendi como taxar algo que foi abolido.
  • Fernando Ulrich  05/07/2015 16:04
    Rhyan, o dinheiro digital seria taxado, como está sendo agora na Suíça.
  • Rhyan  05/07/2015 21:14
    Ah, o digital. Deve ter algum erro na frese então:

    "i) abolir o dinheiro físico; ii) taxar o dinheiro físico; e iii) remover a taxa fixa de conversão entre depósitos bancários e papel-moeda."

    Valeu, Ulrich!
    Abraço!
  • Fernando Ulrich  06/07/2015 00:56
    Não, Rhyan, está certo. Isso é uma tradução da proposta do Willem Buiter. As opções dele são: i) abolir o dinheiro físico; ii) se não der para aboli-lo, taxá-lo e iii) cortar a taxa fixa de conversão entre depósito e dinheiro físico.
  • Rhyan  06/07/2015 17:29
    Beleza, entendido! Valeu!
  • Henrique  04/07/2015 16:11
    Os neoliberais não aprovariam um currency board ancorado em bitcoins? :)


    abraços
  • Meirelles  04/07/2015 21:07
    Não sei, pergunte a eles. Como eles não frequentam este site -- estão ocupados defendendo social-democracia, redistribuição de renda, agências reguladoras e monopólio estatal da moeda -- você terá de ir aos sites deles (se é que há algum) e perguntar pra eles.
  • W.K.  04/07/2015 20:04
    Lendo este texto a gente entende um pouco mais por que o mercado de jóias, carros antigos, selos, obras de arte etc. tem se inflacionado tanto nos últimos anos.

  • IRCR  06/07/2015 00:13
    Creio que a tendencia natural será essa. Como tais medidas que governos e BCs estão querendo fazer, tendem a enfraquecer a moeda, não seria surpresa alguma haver uma corrida global para "hard assets" como imoveis, terrenos, metais, obras de artes, joias etc...

    Afinal, quem vai querer ficar com dinheiro guardado sendo totalmente eletrônico, juros negativos, passível a confisco e taxação de governos etc... Assim, é bem melhor as pessoas imobilizarem sua riquezas.
    Ai depois, o governo vai ficar culpando os especuladores pela explosão nos valores de ativos diversos.
  • Henrique Zucatelli de Melo  05/07/2015 18:34
    Isso que anda acontecendo me cheira a conspiração de longo prazo, desde os tempos em que o lastro das moedas foi pro espaço.

    Quem diria, logo a Suíça, fazendo um papel desses. Soa pra mim como uma declaração de culpa, dizendo: "Olha, nossos bancos são pura reserva fracionária, dinheiro de mentira, e não podemos fazer nada a respeito, a não ser mandar o correntista as favas".

    Posso profetizar? Com esse novo paradigma de abolição do dinheiro material, o mercado vai se voltar novamente para metais preciosos como meio de troca, ou moedas privadas de bancos que emitirão títulos lastreados em ouro.



  • W.K.  05/07/2015 19:39
    E o bom e velho escambo, não se esqueça do escambo...


    Cenas dos próximos capítulos.

    -Doutor, estou com uma dor de cabeça horrível e sentindo um mal estar generalizado.
    -Ok. Mas antes diga-me: Como pretendes me pagar pela consulta?
    -Olha doutor, eu tenho reais, euros e dólares comigo.
    -Não, isso ai eu não quero. O que voce sabe fazer?
    -Eu sou encanador.
    -Perfeito. Eu te examino e depois voce conserta a goteira da pia da cozinha lá de casa.
  • Patrick Wiens  15/07/2015 00:26
    Outro dia eu vi uma reportagem sobre o pessoal que anda fazendo escambo, de um pai que faz manutenção da escola da filha para ter bolsa, e o pessoal achando isso o máximo, como nós somos criativos para superar a crise, e eu pensando "pronto, retrocedemos 10 mil anos, voltamos pra época dos fenícios, dos índios que trocavam pau-brasil por espelhinhos".
  • anônimo  10/08/2015 22:05
    Ué, se o dinheiro foi destruído vc sai no lucro com o escambo
  • Rodrigo Pereira Herrmann  06/07/2015 14:37
    Leandro, uma dúvida sobre a Moeda

    Nesse arranjo de moeda fiduciária em que vivemos, seria possível, em tese, engessar permanentemente a base monetária, abolindo o sistema de reservas fracionárias?


    Obrigado novamente!
  • Fred  06/07/2015 15:56
    O governo poderia até passar uma lei proibindo reserva fracionária, como a Islândia tem discutido o assunto recentemente www.ft.com/cms/s/0/6773cec8-deaf-11e4-8a01-00144feab7de.html#axzz3f7vuXU1x , mas para engessar permanentemente a base monetária o Banco Central também deveria ser proibido de criar dinheiro do nada.
    Mas acreditar que algo dessa magnitude, que vai totalmente contra os interesses do status quo, aconteça é o mesmo que acreditar que nosso Congresso fará uma reforma política séria que é contra os interesses pessoais deles.
  • Leandro  06/07/2015 17:43
    Possível é. Mas como bem disse o Fred, isso jamais irá acontecer. É melhor direcionar as energias intelectuais para mudanças realmente factíveis.

    P.S.: só como uma provocação intelectual, vale enfatizar que, se estivéssemos em um genuíno padrão-ouro, a base monetária não seria fixa. Igualmente, se estivéssemos em um regime de concorrência monetária, com plena liberdade de circulação para toda e qualquer moeda, a base monetária também não seria fixa.
  • Henrique  06/07/2015 19:39
    Soa como teoria da conspiração, mas o pior é que faz TODO sentido.

    Além do Bitcoin, quais as outras alternativas? Comprar ouro e estocar em casa?

    Abs.
  • Andre Cavalcante  06/07/2015 20:08
    "Além do Bitcoin, quais as outras alternativas? Comprar ouro e estocar em casa"

    A não se que cê tenha um cofre dos bons, e sua casa tenha um sistema de segurança reforçado, eu não sugiro essa segunda alternativa. O melhor, se quiser ouro é "comprar" os títulos de ouro do BB (ou outro banco, se existir, mas só conheço o BB). Mas tome cuidado, como em todo banco, o retorno do ouro para dinheiro vivo é muito complicado.

    Essa é a vantagem dos bitcoins, você compra, e só tem que se preocupar em guardar a chave privada de forma segura (nada que uma boa criptografia com uma senha forte e uns backups em mídias protegidas não resolvam).

    Além das bitcoins há outras alternativas de criptomoedas, mas eu não recomendo-as ainda, exceto Litcoins e (no futuro) Stellar.

    Além das criptomoedas, podes investir em diamantes, pedras preciosas, imóveis etc.

    Abraços
  • Henrique  07/07/2015 00:00
    Mas a ideia é justamente fugir do sistema bancário tradicional. Por que eu confiaria meus depósitos em ouro ao BB ou outro banco?
  • Andre Cavalcante  08/07/2015 13:58
    Henrique

    O problema com os bancos não é a sua função de guarda, como era na origem, mas o fato deles usarem, legalmente, de depósitos fracionados. Guardar ouro em banco é mais seguro que em casa, com certeza. Tudo bem que, no caso do BB, o governo pode ir lá e tungar uma parte, ou tudo se lhe aprouver.

    Se o problema é ir contra o sistema monetário/econômico atual, não há muito para onde fugir, exceto para as criptomoedas e/ou uso de dinheiro vivo.

    Ou então, você vira o banqueiro e passa a emprestar a juros (agiota) e abre um cofre-forte pra guardar ouro por lá.

    Uma alternativa não tão radical, talvez, seja essa: https://europacbank.com/. Agora tirar o dinheiro do Brasil...

    Abraços

  • IRCR  08/07/2015 04:03
    Leandro,


    Em TESE haveria algum problema se, por exemplo, os bancos gregos começassem a emitir certificados de depósitos para todos aqueles que quisessem sacar seu dinheiro do banco ?

    Para deixar mais claro. Vamos supor que no sistema bancário grego tenha 10k euros, desse total apenas 50% está "lastreado" em notas e moedas físicas. Se toda população fosse sacar os 10k, logicamente não teria notas suficientes para serem sacadas. Então, os outros 5k restantes seriam emitidos pelos bancos como certificados. Esses certificados junto com as notas de euros seriam utilizadas normalmente como dinheiro na economia. Apenas enfatizando que o dinheiro eletrônico seria deletado a cada emissão dos certificados.

    Pergunto isso em TESE, pq sabemos que tal arranjo não seria nada interessante para os banqueiros e para o ultra endividado governo, pq todo o dinheiro eletrônico seria expurgado do sistema bancário.
  • Ser Utópico  08/07/2015 14:16
    Ah, o bitcoin! Nada me faria mais feliz que de fato o bitcoin "vingar" mas creio que não acontecerá e pelas razões descritas por alguns leitores aí acima.
    Vejam bem, um exemplo concreto:
    Eu já nos dias de hoje tentei diversas vezes e NUNCA consegui utilizar OURO físico como dinheiro! Sim, nem o ouro é aceito! Faça o teste vc mesmo, compre ouro desses com garantia de recompra, lacre, nota fiscal e o escambau e então tente fazer qq transação corriqueira com ele (com pessoas e empresas que não sejam teus parentes ou amigos de infância), vamos lá, tente. Eu duvido que um de vcs consiga se colocar num padrão-ouro pessoal, agora que dirá num padrão-bitcoin!
    Sim, sim, já prevejo alguém dando idéias absurdas como abrir uma conta no exterior lá com o Peter Schiff (de quem aliás sou fã) ou talvez ainda pior, ficar transacionando ouro para moeda fiduciária e vice-versa toda vez que precisar. Façam as contas, tu vai à falência.
    O que me lembra outro detalhe nefasto do bitcoin: custos. Hoje para ter acesso ao BTC no Bra$il o caminho é pelo Mercado Bitcoin que cobra a bagatela de 3,98% + R$5,80 para toda transação (R$ -> BTC -> R$), e mais 1% de corretagem.
  • Andre Cavalcante  08/07/2015 20:26
    Dá uma olhada neste site: bitbolsa.tk
    Role a tela até o fim e veja quais as exchanges brasileiras que já operam com bitcoins.

    Já não tá tão ruim assim o uso do bitcoin. Por exemplo, a BitcoinToYou tem franquias que permitem a compra e venda direto em máquinas tipo ATM, a compra usando cartão tipo débito, e compra via cartão de crédito, além da famosa transferência bancária. E as taxas são inferiores às do Mercado Bitcoin.

    Isso do ponto de vista do cliente. Para o comerciante, ele pode começar hoje mesmo: abra um wallet em alguma exchange; põe uma placa com sua chave pública e anunciando que recebe bitcoins; e deixa um pc ligado na net (coisa que provavelmente ele vai tá fazendo de qualquer jeito). Quando o cliente quiser pagar com bitcoins (via celular, é claro), o cliente faz a transação no celular e ele recebe, em questão de minutos, a confirmação da compra (se o cliente também for cliente da exchange a transação é confirmada em segundos). Ele pode então trocar bitcoins por reais pela exchange mas deve deixar algum encaixe em bitcoins mesmo, tanto para pagar as taxas da exchange, quanto para fazer compras também em bitcoins na net ou em outras lojas.

    Abraços
  • Emerson Luis  10/08/2015 17:06

    Mais cedo ou mais tarde o Leviatã tentará controlar o bitcoin.

    * * *
  • Ricardo  16/06/2016 22:32
    Se a proposta do Willem Buiter se tornar realidade... e o bitcoin sabe-se lá porque não crescer como alternativa, uma alternativa ao sistema monetário digital com juros negativos seria o puro e simples escambo?


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.