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Brasil: terremoto ou estabilidade?

Passei há alguns dias por uma experiência única, inesperada, dramática: um terremoto no Japão, no décimo nono andar de um hotel.

A caminho do Brasil, considero as lições que podemos tirar disso para nossa realidade: somos um país livre de devastadores desastres naturais, mas repleto de cataclismos perpetrados pelo homo politicus.

Jack Goldstone, professor de sociologia da George Mason University, afirma que revoluções são como terremotos: geólogos podem conhecer os locais das grandes falhas onde o próximo tremor tem mais chance de ocorrer; mas apenas o conhecimento dos mecanismos que geram os terremotos não nos permite prevê-los.  Nem seu local e nem muito menos seu tempo.

Pergunto-me se o Brasil pode estar próximo de um terremoto de grandes proporções.

Vejamos os principais pontos que afastam a hipótese.

Em primeiro lugar, temos um povo predominantemente conservador e pacífico. Adicionalmente, há uma democracia estável, com instituições consolidadas. Por fim, os principais agentes históricos executores de mudanças radicais no Brasil parecem imobilizados: a elite de esquerda, por ser e exercer o poder; a da direita, pelo imobilismo da derrota acachapante das últimas décadas; e os militares, sem prestígio para qualquer manifestação de ordem política.

No entanto, alguns sinais parecem apontar na direção oposta. Os governantes parecem fracos e isolados, e suas tentativas de reformas, modestas e tardias. Alguns setores da elite não-governamental estão deixando de dar seu histórico suporte ao governo, embora ainda não veiculem com veemência seu descontentamento com as políticas públicas desastrosas.

Em uma sociedade em equilíbrio de Nash, a) os governantes dão segurança e serviços em troca de impostos, b) os diversos grupos de elite, no governo e fora dele, dão suporte aos governantes em troca de prestígio e recompensas políticas e financeiras, e c) a massa é deixada livre para viver sua vida em relativa segurança e para produzir para si, em troca de obediência e impostos.

No atual cenário brasileiro, as condições do equilíbrio social não mais parecem prevalecer. A segurança pública é um desastre. As elites não-governamentais estão se sentindo mal recompensadas e perseguidas pelos contínuos aumentos no intervencionismo e nos impostos. A elite governamental está ganhando em importância à custa da população e das demais elites.  Por último, as massas estão sofrendo com insegurança, inflação e alta de impostos, e tendo seus sonhos — frutos da estabilização —sonegados pelas políticas públicas.

O coquetel para o terremoto de revoltas e até mesmo de revolução está na mesa. Onde e quando? Impossível dizer.

Por enquanto, as elites apóiam reformas graduais. Porém, na base, a percepção de injustiça social cresce, os protestos são notícia de primeira página, e agora estudantes e ruralistas parecem estar se unindo aos descontentes.

O papel e a responsabilidade dos libertários são fundamentais para a estabilidade e o avanço, com ou sem tremor. Somos os únicos com uma sólida narrativa da injustiça da opressão de todos pelas elites estatais, e com uma cristalina visão de um futuro melhor e como chegar lá.

O libertário responsável aprendeu, com ajuda dos críticos ingleses, as lições dos movimentos revolucionários, desde a Revolução Francesa, passando pelas revoluções marxistas na Rússia e China: excessos, caos, sangue, e genocídio. As revoluções tendem a ser ruins.

Mas não vejo hoje força política além dos libertários (e alguns liberais) que tenha credibilidade real para contestar o status quo de injustiça, de populismo e de favorecimento de elites que giram em torno do establishment.

Quando menciono o desejo — ou a meta, se preferir — de que o Brasil venha a ter um presidente liberal ou libertário, e uma banca liberal pujante, costumo mencionar a década de 2030. Muitos de pronto me contestam alegando que eu posso me surpreender com a velocidade da mudança. Após a reflexão sísmica, suspeito que possam ter razão.



autor

Helio Beltrão
é o presidente do Instituto Mises Brasil.

  • Felipe  11/06/2015 02:59
    excelente artigo!

    Eu creio que algum dia passaremos por uma revolução; A violência urbana só piora, as instituições públicas estão falidas, a nossa constituição impede qualquer melhoria e a população produtiva está ficando cada vez mais descontente.

    Resta apenas saber quando e o que virá com ela.

    Acho que algo que nós liberais poderíamos fazer, principalmente quando a grande crise chegar, é provocar um sentimento separatista nas pessoas.

    Separatismo é a única solução para o país.
  • José Ricardo das Chagas Monteiro  11/06/2015 10:37
    Saudações, Hélio, realmente, há os ingredientes às mudanças, falta o mestre cuca, parece que temos em modo virtual, não caracterizado em pessoas, mas em células anônimas, seriam células boas em um organismo encancerado, metástase ao inverso, tenho conversado com pessoas interessantes da sociedade, pessoas que sabem que o barco desse modelo nacional já faz água, e o mais importante, detectaram o culpado. Essas mesmas pessoas acreditam que o governo irá aumentar a participação da iniciativa privada na economia, está faltando cascalho, e que essa falta do argent propiciará boas e fundamentais mudança, porém.......nem tão cedo largarão o osso.
    Será que a sociedade terá paciência para forjar um Brasil economicamente menos intervencionista?
    Hélio, mandei um "e-mail" para o jornalismo da TV.Cultura, sugerindo que convidasse você para fazer parte, semanalmente, da banca de comentadores.
    Será que sairá esse convite?
    Citei no "e-mail" que caso não fizessem o convite, entenderia, pois sei que precisa de muita coragem chamar um libertário.
    Abraços, e como sói acontecer, mandou bem pacas no artigo.
  • Bueno  11/06/2015 17:02
    O terremoto que vai atingir o Brasil é o terremoto do separatismo. É só olhar o crescimento exponencial de grupos separatistas em diversas regiões, inclusive nordeste. Isso é algo bom para os libertários, seria excelente se o Brasil se fragmentasse em vários países.
  • Lopes  11/06/2015 23:08
    É possível que uma tragédia como controle de preços ocorra? Vejamos, Hélio.

    Não sou minimamente esperto em política brasileira, por isso, gostaria que os mais sábios me auxiliassem ou julgassem minha análise.

    Pela TRAGÉDIA: Pensamento político brasileiro.

    A tragédia econômica é inerente e inevitável no Brasil justamente porque as ideias importam e as piores ideais prosperam justamente onde ideias não precisam funcionar para crescerem: Estado e Universidades. O estatismo por intelectuais, à moda Schumpeteriana, é o destino inevitável deste país; o estado jamais, por conta dos seus inerentes limites praxeológicos (incluindo o cálculo econômico sob o socialismo), criará o nirvana socialista tão desejado pelos intelectuais deste país - ou será capaz de sustentar o Estado de Bem-Estar Social sem capital tão querido pelos menos radicais. E em cada uma de suas tentativas, mais capital será destruído, o real se esfacelará, a desigualdade econômica explodirá (justificando mais tentativas desengonçadas) e nós teremos de rezar para que a catástrofe não seja profunda e ainda possa ser reparada, nem que seja à moda do consenso de Washington.

    Meu temor é no ciclo de estatismo barbieriano que ocorrerá APÓS o que vivemos. Neste aspecto, nós, como libertários, conservadores ou liberais; detemos uma obrigação de defesa individual ou até mesmo patrióticas (aos que se importam com tais denominações) em destruir estas ideias terríveis em seu útero antes que eles nos destruam. Não será o PSDB que o fará: parecem ter vergonha das privatizações, recusam-se a empurrar uma retirada da Dilma do poder e são uma pera podre em ideologia.

    Um assassino em série que executa uma brutalidade após a outra pede para ser capturado. O mais habilidoso é aquele que destrói a ética e a moralidade ao ponto em que o assassinato se transforma em rotina. É essencialmente anti-filosófico. E cada vez mais, vemos o fantasma do controle de preços nas entrelinhas; seja na promessa de comitês democráticos para "dialogar" a subida de preços após aquelas manifestações de junho e agora com os caminhoneiros (área em que o controle de preços enforcará brutalmente a produção).

    Pela TRAGÉDIA: Precedentes.

    Não há motivo algum para crer que os intelectuais que regem o país aprenderam ou ao menos querem aprender com a experiência histórica (um breve olhar na lista de ministros da Dilma mostrará um padrão: gente saída direto da universidade e da militância - ou uma aristocracia sindical que como toda, fala mais do que trabalha). Na realidade, se são todos estatistas, é porque JUSTAMENTE não aprendem com a história e nem precisam fazê-lo; em uma empresa, ideias errôneas geram falências e você precisa aprender a superá-las e entender o motivo de errarem - aqui, rege a pernície ideológica acima do bom-senso; algo inerentemente estatal.

    Falamos tanto em educação pública de qualidade (algo que todo mundo diz, mas ninguém define) e talvez estejamos a esquecer que as pessoas que criaram nosso status quo foram gentes das mais educadas do país. Se toda a população fosse como eles, teríamos uma latrina intelectual como a Argentina se transformou graças a Perón. Mas a "ignorância" do povo brasileiro é facilmente subornada por programas sociais, como a alteração do paradigma eleitoral dos mais pobres revelou após o bolsa família.

    Contra a TRAGÉDIA: O medo do dólar.

    Se a eleição do Lula e o grande esforço para corrigir a crise econômica criada por ela mostram algo é que quando o socialista se vê adiante das consequências reais do poder em suas mãos, somente os corajosos e mais psicóticos (recomendo 'Por que os piores chegam ao poder?' de Hayek) deles seguirão adiante. O PT "amarelou" e com isso, o Brasil foi poupado de uma catástrofe; tudo porque o dólar e a fuga de capitais estiveram lá para fazer o medo descer pela garganta e o Henrique Meirelles subir à chefia da restauração.

    O problema é: os estatistas, especialmente os mais jovens, estão se tornando cada vez mais psicóticos.

    O gentil casamento dos pequeno-burgueses de Chico Buarque está sendo substituído pela retórica do ódio à classe média, como alertado pelo Bruno Garschagen; qualquer pessoa que não queira pular no vulcão em nome do deus estado é execrada por uma juventude quasi-argentinien de demônios de olhos arregalados e que babam como se infectados por raiva. Verdadeiros bárbaros dos tempos romanos que sentem ódio por quaisquer instituições fundamentais que não sejam as de seus próprios ideias.

    Adicionado a isso, há reservas internacionais de sobra para um governo inflacionário manter um câmbio artificial à lá Argentina. Em um cenário de Götterdämmerung, estaríamos ao fim do Estágio II nos quatro passos do populismo, em que Levy fracassará miseravelmente em cortar gastos e a inflação continuará avançando através dos bancos públicos e capitalizada pelo déficit estatal.

    Se estes imbecis presunçosos e bárbaros permanecem como o futuro político deste país, o "fim do Brasil" (até onde as liberdades econômica e garantia do império da lei podem chegar em questão de garantidos) permanecerá como uma barreira intransponível de ciclo após ciclo de destruição de capital.

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    Alguma discordância ou adendo?
  • Lopes  12/06/2015 00:29
    Talvez eu tenha sido excessivamente "gráfico" na minha análise dos estatistas brasileiros e do quão apaixonadamente odiosos podem ser (a ponto de compará-los com animais). Está certo que são perniciosos, ideologicamente pedantes, repletos de jargões e argumentos jurássicos; mas ainda são superiores aos da nossa querida Argentina. Mas compará-los com os argentinos e, sinto dizer, a juventude chilena; é lançar critérios tão baixos de julgamento que até atingiremos o Pré-Sal.

    A estranha força do Brasil é sua população tão contrastantemente conservadora, mas disposta a vender sua afiliação e submeter-se de braços abertos a líderes opostos. Trazendo de volta a tradição católica, seria um estranho ser que pratica o Carpe Diem enquanto acredita que a única gratificação real é a do pós-vida.
  • Lopes  02/07/2015 00:22
    Atualização.

    Avisei que qualquer reforma fiscal do ministro da fazenda tenderá a ser frustrada pelo poder legislativo e pela própria indisposição do poder de reduzir a si próprio a não ser quando tal medida é imprescindível (como em uma situação de inflação).

    www.jb.com.br/pais/noticias/2015/07/01/dilma-reajuste-para-servidores-do-judiciario-e-insustentavel/

    Enquanto o governo federal sofre para reduzir o próprio déficit, o legislativo aprova uma despesa de quase 4 bilhões ao ano.
  • Enrico  02/07/2015 00:53
    Excelente. Tomara que o Congresso aprove cada vez mais aumentos de gastos e afunde o governo federal.
  • Lopes  31/08/2015 16:45
    (Atualização)

    Legislativo lança proposta de orçamento COM déficit primário, o que demonstra o descompasso de interesses do qual eu já falei acima.

    www.dgabc.com.br/%28X%281%29S%28wy103io1vr3banevd50xmnhz%29%29/Noticia/1574435/proposta-de-orcamento-com-deficit-e-extremamente-preocupante-diz-temer

    Como reação, dólar já salta a 3,65. Provavelmente passando os 4 reais para turismo.

    Afinal, sem os déficits do governo para capitalizar o BNDES, como seriam feitos os quase 100 bilhões de reais em crédito ao setor rural (tão bem representado no congresso)?

    Confesso sentir pena de Levy agora.
  • Marcos  28/06/2015 01:31
    A melhor saída para uma situação catastrófica já foi encontrada pelos ingleses há 800 anos atrás. Infelizmente, não temos ainda uma teoria bem estruturada para podermos apresentar uma nova Magna Carta, com soluções simples e completas a serem incorporadas a Constituição. Mas para mim está claro que a atual relação entre o estado, a classe política e a população precisa ser urgentemente reformada, em especial no Brasil. Vivemos em um estado semelhantes a França antes da revolução na questão da divisão de classes. Os políticos formam uma casta a parte da população, uma espécie de nobreza com mais privilégios do que a antiga nobreza brasileira jamais teve.

    A solução é aquela apontada por Hayek. Desenvolver idéias, pois elas é que mudam o mundo no longo prazo. A Revista Mises é um bom começo, mas ainda há um longo caminho a ser seguido.

    Claro que isso não invalida o canal político. É natural e importante que conservadores e liberais tenham voz na política. Mas por mais que consigamos ter um presidente liberal, logo outro socialista pode vir no lugar e fazer que certas liberdades fundamentais regridam. Vemos exemplos do tipo na Europa.

    É necessário que as regras do jogo respeitem liberdades fundamentais. Está claro que a atual configuração falha miseravelmente em garantir um mínimo de liberdade, como bem já foi demonstrado no livro "O caminho da servidão".
  • dark soul  02/07/2015 21:55
    Tenho algumas duvidas senhore e gostaria de saber se vocês poderiam me ajudar.

    1 - Não seria melhor uma reforma ao invés de uma revolução?

    Como o próprio Helio disse no texto revoluções costumam custar muito caro, não só no que diz respeito as vidas que são perdidas durante o processo revolucionario mas também a novas e desastrosas ideologias que tendem a surgir durante uma revolução.

    2 - Na opinião de vocês o presidente da câmara Eduardo Cunha(sei que ele não é um anjo) não poderia colocar em pauta um novo pacto federativo ou ainda a adoção do parlamentarismo(ele já afirmou publicamente o desejo de fazer isso), isso não seria um importante passo em direção ao fim da crise politica?

    3 - Existe alguma possibilidade do partido NOVO disputar as próximas eleições municipais em 2016?

    Agradeço desde já.
  • Leninmarquisson da Silva  17/09/2015 02:22
    Eles estão sangrando o porco demais. Vai morrer.

    E é isso que me preocupa: com todo esse caos, a quem a população bovina sempre procura ajuda, e deposita suas esperanças? Ao Estado.
    Essa crise, intencional ou não, é a oportunidade do PT consolidar seu poder. Só falta tirar o exército do caminho. E já estão trabalhando muito para isso.


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