clube   |   doar   |   idiomas
Desmascarando o mito da austeridade europeia (de novo)

Não deixa de ser estupefaciente os quixotescos esforços de economistas proeminentes como Paul Krugman e Joseph Stiglitz em atribuir a estagnação econômica da zona do euro aos supostos "insuficientes gastos governamentais".

De acordo com dados da Eurostat — a agência que coleta estatísticas econômicas para a Europa —, a média dos gastos governamentais nos países da zona do euro aumentou de 45% do PIB em 2007 para 50% do PIB em 2013. 

Para a Grécia, França, Itália e Portugal, o aumento dos gastos governamentais foi particularmente estrondoso.

A tabela abaixo mostra que não apenas houve uma total ausência de austeridade no setor público europeu, como na verdade houve, isso sim, uma enorme prodigalidade.

iDwzQf8rHO9s.jpg

Figura 1: gastos totais dos governos em relação aos respectivos PIB de seus países.  A barra verde representa os gastos em 2007, e a barra azul representa os gastos em 2013.

Ainda segundo Stiglitz:

A austeridade é uma política com um histórico repleto de fracassos, desde quando foi adotada pelo presidente americano Herbert Hoover, que transformou uma queda na bolsa de valores em uma Grande Depressão, aos 'programas' que o FMI impôs ao leste asiático e à América Latina em décadas recentes.  E, ainda assim, quando a Grécia entrou em problemas, o programa foi tentado de novo.

O maior problema com essa explicação de Stiglitz é que todos esses exemplos que ele citou são exemplos de fracassos causados pela expansão do estado — aumento de impostos e de gastos —, e não de restrição do governo.

Herbert Hoover aumentou os gastos do governo federal em 43% em um único ano: o orçamento do governo, que havia sido de US$ 3 bilhões em 1930, saltou para US$ 4,3 bilhões em 1931.  Já em junho de 1932, Hoover aumentou todas as alíquotas do imposto de renda, com a maior alíquota saltando de 25% para 63% (e Roosevelt, posteriormente, a elevaria para 82%). 

A Grande Depressão, na verdade, não precisaria durar mais de um ano caso o governo americano permitisse ampla liberdade de preços e salários (exatamente como havia feito na depressão de 1921, que foi ainda mais intensa, mas que durou menos de um ano justamente porque o governo permitiu que o mercado se ajustasse).  Porém, o governo fez exatamente o contrário: além de aumentar impostos e gastos, ele também implantou políticas de controle de preços, controle de salários, aumento de tarifas de importação (que chegou ao maior nível da história), aumento do déficit e estimulou uma arregimentação sindical de modo a impedir que as empresas baixassem seus preços.

Similarmente, a 'austeridade' dos "programas que o FMI impôs ao leste asiático e à América Latina" também se resumiam a aumentos de impostos (sobre a renda e indiretos) e, em alguns casos, aumentos das tarifas de importação.

Por exemplo, o FMI exigiu aumentos de impostos suicidas à Coréia do Sul em 1980, à Tailândia em 1997, à Argentina em 1998-2001, e à Rússia em 1998-2000 como condição para receberem empréstimos.

A Europa está sofrendo sob este mesmo tipo de política tributária inventada pela dupla Hoover/FMI.  Desde 2007, a alíquota máxima do imposto de renda de pessoa física foi elevada de 6 a 15 pontos percentuais nos países mais problemáticos da Europa — de 40% para 46% na Grécia (tendo chegado a 49% em 2012), de 41% para 48% na Irlanda, de 43% para 52% na Espanha, de 44,9% para 47,9% na Itália, e de 42% para 56.5% em Portugal (apenas para citar alguns).

Simultaneamente, o imposto sobre valor agregado subiu de 19% para 23% na Grécia, de 21% para 23% na Irlanda, 16% para 21% na Espanha, de 20% para 22% na Itália, e de 20% para 23% em Portugal.

Ou seja, quando se fala em "austeridade" nesses países europeus, é importante deixar os termos bem claros: houve austeridade só para os cidadãos; para os governos, houve prodigalidade.

E aí vem a pergunta: por que os economistas keynesianos estão tão estranhamente quietos quanto a essa imposição de alíquotas tributárias tão punitivas sobre as deprimidas economias europeia?  Qual a explicação para esse silêncio seletivo?

Uma explicação possível é a atual neurose com o "1% mais rico" da população.  Atacar o 1% mais rico supostamente justificaria alíquotas tributárias punitivas, ainda que isso gere impactos adversos sobre a renda da classe média, sobre a propensão ao trabalho, sobre os investimentos, sobre o empreendedorismo e, principalmente, sobre a propensão a emigrar para países de que confisquem menos a renda dos ricos.

A tabela a seguir destaca, na parte de cima, seis países da zona do euro que elevaram a alíquota máxima do imposto sobre a renda (para alguns países, há também imposto de renda estadual) e acrescenta outros seis países da OCDE que cometeram o mesmo erro.  A coluna da direita mostra o crescimento médio anual do PIB durante estes sete anos.  Já a parte de baixo destaca outros seis países da OCDE que reduziram as alíquotas máximas ou que as mantiveram baixas.

tabela.png

Figura 2: impostos maiores, crescimentos menores.  Na parte de cima da tabela, os países que aumentaram as alíquotas máximas de impostos sobre a renda. Na parte de baixo, os países que reduziram ou que as mantiveram baixas.

Trata-se de uma pequena amostra cobrindo um curto período de tempo.  No entanto, o crescimento econômico nos países que aumentaram as alíquotas máximas para algo entre 45% e 56% tiveram um desempenho bem pior do que aqueles que cortaram as alíquotas máximas para algo entre 15% e 36%.

O aumento dos impostos sobre o valor agregado claramente afetou a demanda, mas o mesmo efeito teve o aumento das alíquotas máximas do imposto de renda: pessoas de mais alta renda respondem pela maior parte das vendas de bens de consumo duráveis.

Alíquotas mais altas sobre a renda ainda possuem o efeito adicional de deprimir a oferta: elas diminuem os incentivos para se trabalhar mais.  Afinal, por que investir tempo e esforço para elevar sua renda pessoal se ela será tributada mais agressivamente?  Quanto mais altas as alíquotas, maiores as distorções e os desincentivos: de um lado, haverá uma maior fuga de cérebros e de riqueza; de outro, boa parte da economia continuará na informalidade.

Desde 2007, a "austeridade" imposta sobre as economias mais frágeis da Europa não ocorreu na forma de corte de gastos, mas sim de aumento de impostos.  Não houve austeridade nenhuma para o estado; houve, isso sim, punição aos indivíduos produtivos.

Se os críticos keynesianos da "austeridade" europeia ao menos tivessem a honestidade intelectual de mudar seu enfoque, parando de se concentrar em invisíveis cortes de gastos e atacando os altamente visíveis aumentos nos impostos, aí então poderíamos todos nós unir forças e apoiar políticas tributárias menos destrutivas tanto em caso quanto em outros países. 

Isso sim seria avanço.

________________________________________

Leia também:

O mito da austeridade europeia

Os três tipos de austeridade

Como uma genuína austeridade gera crescimento econômico

A verdadeira tragédia grega foi o seu gasto público

Paul Krugman e a economia da França - um caso de amor e de traição

Quando é do interesse de ideólogos, a Alemanha vira keynesiana



autor

Alan Reynolds
é colunista do site Investors Business Daily e membro do Cato Institute.


  • Felipe  08/05/2015 14:39
    Isso deveria ser bem claro, separa qual o meio que está sendo feito a austeridade, através de mais estado ou mais mercado. E infelizmente o corpo acadêmico é incapaz de analisar isso, foi treinado para associar austeridade com ortodoxia e ortodoxia com liberalismo.

    Tudo que os acadêmicos sabem é adequar a realidade as teorias aprendidas, e não a questionar e pensar por si próprio.

    Lembro que quando estudava economia tinha um professor que enquanto taxava, de maneira inquestionável, o governo FHC de neoliberal, mostrava um gráfico demonstrando o aumento dos impostos naquele período. Oras, não seria capaz um professor com mestrado acadêmico enxergar as suas incoerências? Infelizmente não.
  • Felipe R  08/05/2015 14:56
    Bom dia,

    Esses caras seguem a cartilha de desinformação, que é baseada no lema "contra argumentos não há fatos".

    Precisamos tornar o mudo real mais digerível e atrativo que o concorrente, senão iremos falir.

  • Raphael  08/05/2015 15:01
    Só uma dúvida a respeito do assundo Europa: Muito leio sobre a preocupação do BCE com a baixa inflação na zona do Euro, o fato dos Bancos Centrais gostarem de manter um nível de inflação constante é para ficar mais "fácil" rolar a dívida interna?
    Bom dia a todos!
  • Marcos  08/05/2015 15:40
    Raphael, não veja a lógica por trás dessa conexão.
  • IRCR  08/05/2015 19:42
    Sim, pois inflação é melhor para os devedores, pq fica mais fácil de rolar as dividas quando se tem mais dinheiro em circulação e como os governos são os agentes que mais devem numa economia, uma "inflaçãozinha" sempre vai beneficia-los.
  • Rene  08/05/2015 15:41
    No mínimo, é desconcertante ler um artigo destes, em que alguém com um pouco mais de bom senso precisa repetir, pela enésima vez, que 2 + 2 = 4. E ainda mais para falar de economistas de renome internacional, que insistem no péssimo hábito de falar besteira. Uma teoria como o Keynesianismo, que não consegue se sustentar nem com uma superficial análise empírica dos fatos, mas que não obstante a isso consegue ser a teoria mais difundida no meio acadêmico, já acaba se transmutando em pura e simples fraude, das mais desonestas possíveis.

    Parabéns ao instituto Mises, por persistir neste repetitivo trabalho de anunciar aos quatro ventos que o rei está nu.
  • Douglas  08/05/2015 17:18
    Exato.
    Ja tentou falar de algo assim para alguem que não acompanhe muito economia? Ou apara alguem que acompanhe mas seja totalmente alheio?

    Vc nao consegue argumentar so pq esta "Indo contra o que o cara famoso disse".
    Se vc diz algo que vai contra ja te olham de canto. "O que esse cara acha que sabe mais que os grandes economistas?"
  • João Girardi  12/05/2015 00:48
    O motivo pelo qual o keynesianismo ainda tem sucesso, penso eu, não é pela lógica ou veracidade dos argumentos dos keynesianos no campo econômico, e sim por sua "lógica" no campo político. Se seu objetivo é fazer com que o país se desenvolva, obviamente irá resultar em fracasso, mas agora se seu objetivo é conseguir poder político e controlar a opinião do povo de seu país, então o keynesianismo obviamente "é bizu".
  • Felipe  12/05/2015 03:17
    Infelizmente não é bem assim.

    Como ex-aluno de economia, digo que o keynesianismo é visto com simpatia por quase todos os acadêmicos. E eles não defendem por motivos políticos, mas simplesmente porque acreditam que aquelas teorias sejam verdade.

    O motivo para acreditar é porque foram treinados para acreditar nisso, toda estrutura de ensino de economia é focado em te fazer acreditar que livre-mercado não funciona e o governo tem que intervir.

    Dificilmente não haverá aluno ou ex-aluno de economia que não tenha sido keynesiano em algum momento da sua vida.

    Eu mesmo fui, e não tinha como não ser. Durante boa parte do curso você escuta deboches as teorias de livre-mercado, ouve louvores a Keynes e etc. Em outras palavras, toda estrutura do curso de economia é feita para te fazer crê que aquilo está correto.

    Só não continuei sendo keynesiano porque mantive minha cabeça aberta e li o livro "o fim do fed", que além de me dar um choque em tudo que aprendi, me levou ao IMB.
  • anônimo  12/05/2015 11:56
    O motivo pelo qual o keynesianismo e outras doutrinas estadistas fazem sucesso é porque a maioria das pessoas são burras mesmo.

    É só ver, pessoas liberais sabem fazer conta, sabem escrever, sabem pensar usando a lógica.

    Agora olha a esquerda, bando de semianalfabetos que não sabem fazer contas básicas e muito menos argumentar racionalmente.

    Se somos uma nação de esquerdistas hoje é porque somos uma nação de burros, simples assim.
  • Antônio Gonçalves  08/05/2015 16:06
    Muito bom. É o mesmo tipo de falácia que os esquerdistas usam quando dizem que a crise de 2008 foi causada pelo "neoliberalismo", quando na verdade foi causada pela relação promíscua do governo com os banqueiros e suas intervenções na economia.
  • Pobre Paulista  08/05/2015 16:12
    É que para eles, austeridade significa que neste ano eles irão aumentar os gastos menos do que eles aumentaram no ano passado.
  • Marcos  08/05/2015 17:23
    Excelente artigo, mas valeria fazer uma advertência importante quanto à situação do Reino Unido em particular.

    De fato, de 2007 para cá os gastos governamentais aumentaram neste país, porém o processo começou a ser revertido em 2009 com o novo governo conservador e, como era de se esperar, a economia retomou o crescimento (www.mises.org.br/Article.aspx?id=2086).

    Fato esse que apenas reforça o argumento central do texto.

  • Felipe Lange S. B. S.  08/05/2015 20:16
    Fico abismado com tamanha porcentagem de dinheiro que o governo rouba de você pela renda, inclusive surpreso com os Estados Unidos.

    O que salva-se neste, porém, é ainda a alta liberdade econômica.

    Mas é preocupante o aumento do tamanho do estado nestes países.
  • Amarílio Adolfo da Silva de Souza  08/05/2015 21:47
    Não é possível falar em austeridade, cortes de gastos, eficiência, etc com pessoas do "setor público". Esse pessoal não entende(ou finge muito bem) nada de Economia Real. Tudo o que eles sabem é o que Marx ou outro idiota de pensamento coletivista disse(mentiu) sobre o Capitalismo. Esses vermes só atrapalham o correto funcionamento econômico, que deve ser LIVRE de controle estatal, por menor que seja. Chega de regulamentos, leis, projetos, portarias,etc(ESTÚPIDOS)! Quando alguém mostra como é a realidade econômica, eles acusam essa pessoa de egoísta, individualista, etc.
  • anônimo  08/05/2015 22:02
    uma pergunta: como os cidadãos dos países citados entregam quase metade de sua renda para o governo e ainda assim conseguem ter um padrão de vida muito superior ao nosso?



  • Antônimo   08/05/2015 22:25
    Porque eles já enriqueceram, acumularam capital e, com isso, já garantiram um alto padrão de vida.

    E como são indivíduos extremamente produtivos -- pois já acumularam o capital que os permite ser produtivos -- e suas economias são majoritariamente desregulamentadas -- há liberdade de empreendimento --, eles conseguem produzir o suficiente para manter esse padrão de vida (observe que eles já pararam de enriquecer).

    Não fosse esse confisco do governo, eles seriam incrivelmente mais ricos e mais bem de vidas. Não é exagero nenhum dizer que, se não fosse o confisco do governo, carros voadores já seriam coisas corriqueiras e o câncer teria uma cura como todas as outras doenças.
  • IRCR  09/05/2015 06:11
    Aqui vc tb entrega muito mais da metade da renda. Se pensarmos que aqui a maioria dos impostos são indiretos e sobre consumo.
  • Fernando  09/05/2015 14:15
    Concordo! A austeridade do governo sempre foi cobrar mais impostos, do que fazer o governo cortar gastos e gastar nas áreas com maior prioridade.

    Além disso, não podemos esquecer que a Ferrari possui trabalhadores assalariados, a Porshe possui trabalhadores, a Rolex possui faxineiros, a Tiffany possui trabalhadores, etc.

    O raivosos contra "as elite" se esquecem que as madames gastam muito em lojas que empregam trabalhadores.

    O governo quer taxar as grandes empresas, mas não tem o menor interesse em saber que todos os custos são repassados aos produtos. ou seja, uma simples ligação telefônica custa caro, um tênis custa caro, etc. Taxar as grandes empresas só aumenta o custo dos produtos.

    É incrível com o governo não tem o menor interesse em respeitar o direito das pessoas.

    Os "direitos" de algumas pessoas não podem ser fornecidos retirando direitos de outras. Há uma contradição judicial clara nisso. Até pobre tá pagando imposto em benefício de outros pobres. É uma esquizofrenia gigantesca !
  • Fernando  10/05/2015 17:24
    Quando o governo quer interferir na economia, a tendência é ocorrer uma trajédia.

    Quando os políticos falam que são contra a guerra fiscal, eles acabam sendo contra os pobres. Alguém colocaria uma fábrica na região norte ou Nordeste tendo que pagar os mesmos impostos que uma fábrica no sudeste, Sul ou centro-oeste ?

    Outro detalhe é o comércio eletrônico, o povo pobre do Nordeste/norte acaba pagando os impostos do Sudeste. Se tivesse menos impostos, o pobre do Norte/Nordeste não pagaria imposto no comércio eletrônico, sobrando mais dinheiro para gastar em compras no seu próprio estado.
  • Emerson Luís  12/05/2015 17:56

    E eu pensava que "austeridade" significava "austeridade"...

    Como é bom estar bem (des)informado!

    * * *
  • Felipe  12/05/2015 18:29
    E o que seria da esquerda se não distorcessem o significado das palavras e demonizassem seus conceitos?
  • kunkka  10/07/2015 05:24
    A grecia entre 2010-2014 estava ou não sob austeriade?
    O que se deve levar em conta, redução dos gastos em termos absolutos www.tradingeconomics.com/greece/government-spending
    ou em relação ao pib?
    www.tradingeconomics.com/greece/government-spending-to-gdp

    e pq?
  • Dâmocles  10/07/2015 13:23
    O termo "austeridade" significa que você deve adequar seus gastos à sua receita. Não deve gastar mais do que ganha. Apenas e simplesmente isso.

    Agora, se o governo sai elevando impostos, então não há austeridade nenhuma para ele. É como se, ao ter de readequar seu orçamento, você pudesse se autoconceder um aumento salarial. Isso seria austeridade para você?

    No caso grego, não houve austeridade nenhuma para o governo. Austeridade seria corte profundo de gastos. Houve apenas mais farra, como mostra esse artigo.
  • kunkka  11/07/2015 12:31
    Certo, mas continuo com essa duvida: o que mais importa em relação aos gastos do governo, gastos em termos absolutos ou em relação ao pib?
  • Anonimo  25/03/2016 04:22
    Muito bom.


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.