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Desvalorizar o câmbio - uma péssima política

A ideia corrente entre economistas desenvolvimentistas e keynesianos é que todas as agruras econômicas de um país podem ser rapidamente resolvidas por uma simples desvalorização da taxa de câmbio.  Ao se desvalorizar o câmbio, dizem elas, as exportações são estimuladas e, liderada por um aumento nas exportações, a indústria volta a produzir e, por conseguinte, toda a economia volta a crescer.

Ainda segundo os defensores da desvalorização cambial, uma moeda depreciada permite aos exportadores reduzirem os preços de suas mercadorias no mercado internacional — o que os ajuda a abocanhar novas fatias de mercado — ao mesmo tempo em que suas receitas e seus lucros também aumentam.  E isso traria ramificações positivas para a economia doméstica.

O problema, obviamente, é que este raciocínio olha apenas um lado da equação e ignora absolutamente todo o resto da economia.  Ele olha apenas para os efeitos diretos, mas ignora totalmente todos os outros efeitos indiretos.

Um exemplo simples ajuda a entender o real problema.  Suponha que a taxa de câmbio do seu país seja de 1 real para 1 dólar, e que os exportadores do seu país estejam vendendo seus produtos por US$ 100 no mercado americano.  Nesse caso, os US$100 se convertem em R$ 100 de receita.  Suponha também que os custos de produção foram de R$ 80.  Logo, o lucro é de R$ 20 por produto exportado.

Suponha agora que o real se deprecie 50%, de modo que a nova taxa de câmbio passa a ser de R$ 1,50 por dólar [Nota do IMB: isso foi exatamente o que ocorreu no início de 1999, em total prejuízo da esmagadora maioria da população brasileira].

Logo de imediato, o exportador pode reduzir seu preço no mercado internacional para US$ 66,66 e ainda assim manter a mesma receita em reais.  Ele de fato ganhou uma vantagem competitiva sobre seus rivais estrangeiros, gerando benefícios para o setor industrial doméstico.

O problema é que a análise keynesiana/desenvolvimentista pára por aí e já dá o argumento por encerrado.  Só que, infelizmente, o mundo real é um pouco mais complicado do que uma análise rápida e simplista.

O primeiro grande problema é que, no mundo globalizado em que vivemos, vários exportadores são também grandes importadores.  Para fabricar, com qualidade, seus bens exportáveis, eles necessitam de importar máquinas e matérias-primas de várias partes do mundo.  Uma mineradora e uma siderúrgica têm de utilizar maquinário de ponta para fazer seus serviços.  E elas também têm de comprar, continuamente, peças de reposição.  O mesmo vale para a indústria automotiva, que adicionalmente será prejudicada pele redução da oferta de aço no mercado interno (dado que agora mais aço está sendo exportado). 

Se a desvalorização da moeda fizer com que os custos de produção aumentem de R$ 80 para R$ 120, o exportador do nosso exemplo anterior não mais poderá reduzir seu preço em dólar.  Consequentemente, ele não irá ganhar vantagem competitiva no mercado internacional.

É claro que nem todos os custos de produção são afetados pela desvalorização da moeda, pois nem todos componentes utilizados no processo produtivo são importados.  No entanto, esse exemplo mostra como a desvalorização da moeda não irá necessariamente ajudar os exportadores no longo prazo.

Adicionalmente, se os exportadores de um país têm de recorrer continuamente ao mercado internacional para comprar maquinários e peças de reposição, e se os maquinários e as peças de reposição são demandados globalmente pelos exportadores de todos os outros países, então aqueles que tiverem uma moeda forte estarão em grande vantagem, pois poderão comprar tudo mais barato.  Seu custo de produção será menor.  Isso ajuda a explicar por que os produtos suíços — cuja moeda se valoriza continuamente desde 1971 — são de alta qualidade.

Trabalhadores não se beneficiam com a desvalorização

A desvalorização cambial gera carestia em praticamente todos os bens do mercado interno.  Até mesmo os preços de coisas básicas como remédio, pão e carne encarecem em decorrência de uma alta do dólar — a química fina dos remédios é toda importada, ao passo que o trigo é uma commodity precificada em dólar; se o dólar encarece, mais trigo é exportado e menos trigo é importado, o que leva uma redução da oferta de trigo no mercado interno.  O mesmo raciocínio se aplica às carnes.

Se esse aumento do custo de vida doméstico não fizer com que os trabalhadores das indústrias exijam reajuste salarial, então os exportadores — aqueles que não possuem muitos maquinários importados em sua linha de produção — realmente irão se beneficiar com uma desvalorização cambial.  Mas, vale ressaltar, o ganho dos exportadores ocorreu em detrimento da redução salarial, em termos reais, dos trabalhadores.

Por outro lado, se os trabalhadores exigirem um reajuste salarial de modo a restaurar seu poder de compra, então os ganhos dos exportadores serão anulados.  A depreciação cambial terá criado um ganho apenas temporário para os exportadores, mas terá gerado uma carestia permanente para todo o restante da população.

São poucos os jornalistas econômicos que parecem realmente entender que uma política de desvalorização cambial é, na realidade, uma mera política de transferência de renda dos trabalhadores — classe média e pobres — para os ricos empresários do setor exportador.  O cidadão comum não ganha absolutamente nada com a desvalorização de sua moeda — só perde — ao passo que os grandes industriais podem ganhar, e muito, se seus empregados não exigirem reajustes salariais.

Desvalorização cambial é apenas mais um exemplo de governo e Banco Central agindo como um Robin Hood às avessas, tomando de quem não tem para dar a quem tem.

[Nota do IMB: a popularidade de FHC era alta quando o real era forte, e desabou junto com o desabamento do real.  A popularidade de Lula cresceu à medida que o real se fortaleceu, e atingiu o ápice justamente quando o real estava no ápice (meados 2008 e em todo o ano 2010).  Com Dilma, a trajetória é absolutamente à mesma: de 2011 a fevereiro de 2015, a popularidade desaba junto com o real]

Conclusão

Todos os outros agentes econômicos são afetados por uma política de desvalorização cambial.  Os consumidores terão de lidar com preços maiores em praticamente todos os produtos, desde gêneros alimentícios até móveis (que são fabricados com commodities transacionadas em dólar) e utensílios domésticos (desde panelas de aço a aparelhos eletroeletrônicos).  E os empreendedores que utilizam produtos importados — uma simples firma que utiliza computadores e precisa continuamente comprar peças de reposição — vivenciarão um grande aumento de custos.

Há vários outros efeitos indiretos que tornam a depreciação cambial uma péssima política.  Como Mises explicou, a contabilidade padrão utilizada nas contas do balanço de pagamentos não pode ser utilizada quando a unidade de conta está sendo distorcida.  Mesmo que os exportadores estejam vivenciando lucros nominais maiores, isso não é algo necessariamente positivo, dado que, em termos reais, seus lucros podem estar ainda menores do que eram antes da desvalorização.

Por fim, quanto ao argumento de uma valorização cambial seria ruim para os exportadores, há dois pontos:

1) Como dito, qualquer indústria exportadora tem também de importar máquinas e bens de capital de qualidade, além de peças de reposição, para produzir seus bens exportáveis.  Se isso puder ser feito a um custo baixo (permitido por uma moeda forte), tanto melhor.  Uma moeda forte permite que as indústrias comprem bens de capital, máquinas e equipamentos de qualidade a preços baixos.  Isso as deixaria mais produtivas, aumentaria a qualidade dos seus produtos, e faria com que eles fossem mais demandados lá fora.

[Nota do IMB: nos primeiros anos do Plano Real, a moeda era muito mais forte do que é hoje, e não houve nenhuma desindustrialização; ao contrário, houve modernização do parque industrial].

2) Os exportadores têm hoje à sua disposição uma variedade de produtos financeiros criados justamente para protegê-los (fazer hedge) contra variações na taxa de câmbio.  Swaps permitem que eles até mesmo se protejam de variações cambiais no longo prazo.

Moeda desvalorizada não apenas não traz pujança a um país, como ainda é sinal de debilidade econômica e de empobrecimento.

_____________________________________

Leandro Roque contribuiu para este artigo e o adaptou à realidade brasileira.


Leia também: A impiedosa destruição do real




autor

Frank Hollenbeck
é Ph.D. em economia e leciona na Universidade Internacional de Genebra.


  • Helio Angelo JR  18/02/2015 13:50
    Sem dúvida alguma, desvalorizar a moeda, somente beneficiará o setor exportador a curto prazo, pois a Indústria precisa se modernizar e de peças de reposição, o que demanda mais dólares. A Suíça e a Alemanha são exemplos de países que souberam utilizar o câmbio a seu favor, pois com uma moeda forte, sempre estiveram a frente de outros países exportadores.
  • Gustavo Nunes  18/02/2015 13:56
    Infelizmente a econometria grita mais alto entre a maioria dos economistas, em vez de pensar no todo , acham que apenas se uma parte vai bem o resto tambem irá bem.
  • Veron  18/02/2015 15:03
    Excelente artigo. Muito didático e explicativo.
  • André  18/02/2015 15:08
    E quando esse ciclo se encerra?
    Quero dizer, se a política de desvalorização do cambio é motivada, vamos dizer, pela queda na exportação de produtos e pelo temor de uma "desindustrialização" da economia interna, qual seria então a motivação para o inverso, ou seja, para uma valorização do câmbio?
    E entendam, eu digo isto em relação a um mesmo grupo político (de qual seria o efeito concreto buscado dentro do plano daquele governo), pois é claro que há diferenças práticas e teóricas entre uma política e outra.
    Em última análise, se não houver uma razão única que motive a adoção ora de uma política ora de outra, de modo que ambas constituam o ciclo de um só projeto político-econômico, onde uma se encerra para que a outra entre em vigor tendo em vista um objetivo previamente traçado, só me resta a conclusão de que a adoção de medidas que afetem o câmbio não possui qualquer relação com a busca de um benefício concreto para a economia interna ou para a população, mas apenas com a realização de um interesse político qualquer, que pode nada ter a ver com aqueles dois primeiros.
    Acho essa é uma boa discussão para o tema...
  • Leandro  18/02/2015 16:24
    "Quero dizer, se a política de desvalorização do cambio é motivada, vamos dizer, pela queda na exportação de produtos e pelo temor de uma "desindustrialização" da economia interna, qual seria então a motivação para o inverso, ou seja, para uma valorização do câmbio?"

    Apenas no extremo, quando a inflação de preços está alta, já dando sinais de descontrole. Fora isso, não há nenhum interesse de políticos em apreciar o câmbio.

    Importadoras não fazem lobby e não têm nenhum poder político (se tivessem, nem haveria tarifas de importação). Já os grandes industriais não só têm lobbies poderosos como também são grandes doadores de políticos. Vide a FIESP, a FIERJ, a FIEM e toda a CNI.
  • Eduardo  19/02/2015 09:56
    Pois é, este é o show da democracia brasileira! Uma pequena oligarquia financia um grande número de políticos influentes, com este dinheiro os políticos aparecem mais na mídia e conseguem serem reeleitos, depois buscam outros cargos, de deputado vira senador, de senador vira deputado, depois se torna governador e mesmo com três aposentadorias gordas eles não param...

    Isso é um círculo vicioso! Como foi dito no artigo anterior é necessário um Moisés para tirar o povo do Egito! Por que, pelo voto é que não vamos escapar pelo menos não com esta geração de políticos
  • Didi  21/02/2015 11:40
    De acuerdo!

    As entidades que você citou mas se parecem comitês políticos e na última década abandonou definitivamente setores apartados do lobby.
  • Matias  18/02/2015 15:13
    Excelente artigo, muito simples de entender colocado dessa forma. Sempre achei confusas as explicações de economistas ai da "mídia". Aqui no IMB é tudo muito lógico e bem explicado, não deixa margem para dúvidas.

    *existe algum artigo que explique com mais detalhes o argumento n°2 da conclusão? obrigado
  • Leandro  18/02/2015 16:23
    Pode começar por aqui:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=143
  • Henrique  18/02/2015 15:25
    Qual é a diferença entre keynesianos e desenvolvimentistas?

    Abraços
  • Leandro  18/02/2015 16:25
    Desenvolvimentistas são ainda piores. Há alguns keynesianos sensatos que defendem privatização de tudo (exceto de bancos estatais).

    Mais detalhes neste artigo.
  • Pedro Morais  18/02/2015 15:43
    Leandro,a teoria da paridade do poder de compra diz,então, que,quanto maior for a produtividade das pessoas e menor a expansão monetária, mais valorizado será o câmbio(no longo prazo)?Mas uma balança comercial desfavorável ou de balanço de pagamentos não pode gerar uma temporária desvalorização cambial(decorrentes da saída abrupta de dólares)?

    Greenspan e Mises(Rothbard ou Hayek) se conheciam?
  • Leandro  18/02/2015 16:26
    "a teoria da paridade do poder de compra diz,então, que,quanto maior for a produtividade das pessoas e menor a expansão monetária, mais valorizado será o câmbio(no longo prazo)?"

    Correto.

    "Mas uma balança comercial desfavorável ou de balanço de pagamentos não pode gerar uma temporária desvalorização cambial (decorrentes da saída abrupta de dólares)?"

    Saída abrupta de dólares pode gerar desvalorização, mas só no curto prazo. No longo prazo, o que determina a cotação de um câmbio flutuante é a paridade do poder de compra da moeda.

    "Greenspan e Mises (Rothbard ou Hayek) se conheciam?"

    Se não me engano, Rothbard chegou a conhecer Greenspan e a impressão não foi boa. Já a Ayn Rand chamava Greenspan de "coveiro".
  • Rene  18/02/2015 16:03
    O problema, obviamente, é que este raciocínio olha apenas um lado da equação e ignora absolutamente todo o resto da economia. Ele olha apenas para os efeitos diretos, mas ignora totalmente todos os outros efeitos indiretos.

    Esta frase, sozinha, descreve perfeitamente não somente a argumentação em favor da desvalorização do câmbio, mas todo o pensamento Keynesiano. Olhar apenas para uma fração minúscula da economia, dar uma explicação simples e uma fórmula mágica, ignorando descaradamente toda a complexidade e os efeitos indesejados. E quando os efeitos de suas recomendações não são os esperados, basta dizer que o erro foi fazer o que eles mandaram com pouca intensidade.

    Eu penso que deveria ter me tornado economista Keynesiano. No meu trabalho, quando eu cometo um erro, sou penalizado. Os economistas Keynesianos, quando cometem um erro, jogam a culpa em quem seguiu suas recomendações, não voltam atrás um milímetro em seus erros, e ainda são aplaudidos em pé por isso.
  • eduardo  18/02/2015 16:26
    Um ótimo site para pessoas como eu, que possuem interesse em economia mas com pouco conhecimento.
    Parabéns pelo artigo.
  • amauri  18/02/2015 16:28
    Leandro, tanto na era FHC e Lulla, o Real estava forte naturalmente ou o governo fazia intervencoes? Tanto faz a medio e longo prazo o governo ditar a regra ou deixar naturalmente o cambio?
  • Leandro  18/02/2015 16:51
    De 1994 a 1998 o real estava forte por meio de intervenções no mercado cambial. Tais intervenções eram insustentáveis e o motivo disso foi explicado em detalhes neste artigo.

    De 1999 a 2002, os gênios decidiram que o real deveria flutuar. Só que o real não flutuou; ele desabou. E, junto com ele, a economia.

    Em 2003, o início da guerra do Iraque jogou o dólar em um prolongado declínio, que chegaria ao ápice em meados de 2008. Com a eclosão da crise financeira em setembro de 2008, todos os investidores correram para os títulos do governo americano, o que deu uma sobrevida ao dólar, que logo em seguida voltou a cair e chegou ao fundo do poço em meados de 2011.

    Desde então, o dólar voltou a se fortalecer.

    Se alguém quiser fazer uma correlação entre a guerra do Iraque e a popularidade de Lula fará descobertas interessantes. A guerra do Iraque enfraqueceu o dólar e, consequentemente, gerou uma contínua apreciação do real perante o dólar. Essa contínua apreciação do real perante o dólar permitiu que o crédito no Brasil pudesse ser acentuadamente expandido sem gerar grandes pressões inflacionárias (pois as importações estavam cada vez mais baratas).

    Tal cenário foi absolutamente inédito na história do Brasil. O crédito se expandia adoidado, mas isso não fazia explodir a carestia. O segredo era o dólar.

    Dilma assumiu pensando que poderia fazer a mesma mágica. Quebrou a cara, pois a conjuntura externa já é outra.
  • amauri  18/02/2015 18:07
    Grato Leandro, já li que quando os EUA entram em guerra, a uma enxurrada de dólares no mercado internacional, onde o Brasil se aproveitou de todas. O credito farto, mesmo sem lastro, se o dólar continuasse estável não geraria problema para a economia? Voce defende o cambio fixo?
  • Leandro  18/02/2015 20:46
    Com "câmbio estável" há bolhas e aumento dos preços. Com "câmbio continuamente valorizado" há apenas bolhas (o aumento dos preços é severamente minorado).

    Defendo o câmbio fixo -- e já falei sobre isso várias vezes aqui --, mas desde que seja por meio de um Currency Board.
  • frank Hollenbeck  18/02/2015 20:07
    thank you Leandro for your excellent work at Mises Brazil.

    for you viewers my TV interview on this article.

    https://www.youtube.com/watch?v=8NCIe_PSCwM

    Frank Hollenbeck
  • Vinicius  18/02/2015 20:40
    Leandro, qual desgraça econômica é necessária acontecer para governos permitirem deflação?
  • Leandro  18/02/2015 20:46
    Boa pergunta. Não consigo pensar em nada. Aparentemente o termo "deflação" gera mais arrepios em políticos e planejadores centralizados do que "hiperinflação". É surreal.
  • Vinicius  18/02/2015 22:24
    O.o Que medo, não há um limite para a dívida publica? Para papel moeda com tinta fresca? E da paciência da população em esperar uma melhora no padrão de vida que nunca vem?
    Que instrumentos permitem que os governos não derrubem a economia novamente numa depressão econômica ou estagflação mundial?
  • Luciano  19/02/2015 10:56
    Aqui na Inglaterra os preços estão perceptivelmente caindo (devido ao petróleo em queda) e fiquei surpreso e feliz quando o ministro da economia disse que os consumidores teriam que se acostumar com isso, mas também não demonstrou grande entusiasmo com isso.
    Houve queda no desemprego e a economia cresce um pouco.
    Espero que o medo da deflação diminua no Brasil também.
  • Eduardo  19/02/2015 22:15
    '...disse que os consumidores teriam que se acostumar com isso'. Hahahah. E esse ministro fala como se fosse uma tragédia ter que pagar menos pelos produtos que você consome. Será que os 'inimigos da deflação' realmente prestam atenção no que dizem?
  • Luis Gustavo Schuck  19/02/2015 00:29
    Leandro estive este mês no Uruguai e fiquei impressionado como bens de consumo (alimentos principalmente) são caros por lá. Comemos muito pior em termos reais( pagamos mais e comemos em qualidade inferior a do RS).

    O câmbio deles é super-desvalorizado até mesmo em relação ao Real e peso Argentino...

    Dei uma procurada rápida e não achei nenhum artigo sobre a situação econômica do Uruguai. Alguém tem algum texto sobre???

    mas este artigo parece se adequar bem ao caso deles. Fiquei com pena de muitos Uruguaios comendo realmente mal por conta do custo. Minha namorada chegou a citar que uma garçonete ficava sempre atendendo (tipo dando atenção a mais que anós 2) os "tiozinhos" para ganhar gorjetas melhores...

    * a cidade que visitei por mais tempo foi Montevidéu.
  • Ricardo  19/02/2015 01:13
    Normal. Após quase uma década de governos abertamente socialistas, é claro que a qualidade de vida dos uruguaios -- que já foi invejável em termos de América do Sul -- iria desandar.
  • Dalton C. Rocha  19/02/2015 02:01
    Um país não pode ter moeda de primeiro mundo, se tiver uma política, cultura, educação, etc. de terceiro mundo. A Argentina da conversibilidade, que o diga. No caso do Brasil atual, como em 1998, desvalorizar fortemente o real, não será bom, nem ruim. Será inevitável. Por sinal, isto já está acontecendo.
  • J. Rodrigues  19/02/2015 20:27
    Resumindo: ao invés de desvalorizar a moeda aumente-se a produtividade e a qualidade do que é produzido. Acertei?
  • Deixa isso pra lá  19/02/2015 22:41
    Acertou e foi na mosca!
  • Didi  21/02/2015 11:33
    Thank's Roque!

    Felicitações por tratar de temas complexos de maneira simples e inteligível. Há três décadas lido com mercado externo e até tempos atrás apreciava desvalorizações moderadas da moeda interna, mas após apreciar alguns temas correlatos neste site, minha opinião mudou radicalmente.

    É obvio que todo exportador precavido e com folga de caixa fica atento as oscilações para entabular a conversão quando lhe parece mais favorável, mas tu tens razão quando disse sobre os períodos do real apreciado, pois foram nestas ocasiões que as automações foram incrementas.

    De fato não é a moeda forte que torna os produtos [especialmente manufaturados] mais competitivos, o problema brasileiro está na parafernália tributária que incide na cadeia produtiva e infraestrutura ruim que minam a indústria nacional. Amiúde e apesar desses percalços, se o empresário primar pela eficiência, excelência do que fabrica e ter absoluta seriedade nos tratos com o prospectivo importador - sem dúvida nenhuma será bem sucedido.
  • Vinicius  23/02/2015 15:47
    Leandro, o investment grade da dívida soberana brasileira está perdido?
    Até onde a situação pode ficar ruim em um prazo de 2 anos?
    Qual cenário mais provável para nossa economia?

  • Ricardo  23/02/2015 16:23
  • Matias  24/02/2015 11:03
    Olhando alguns "especialistas" no globo news ontem, o consenso é de que o setor da exportação será o motor da economia agora... "se a maioria vai mal, pelo menos os exportadores podem aproveitar" e seguem nessa linha sem mais nenhum argumento. Após ler estes artigos do Mises fica muito claro a ignorância e incompetência dessas almas.
  • Andre Neves  25/02/2015 06:40
    Leandro, primeiramente gostei muito do artigo. Parabéns!

    Estou começando a ler sobre economia agora. Tenho pouco conhecimento no assunto e muito do que sei se deve ao fato de eu conviver com os economistas do MF. Logo, preciso melhorar minhas fontes!

    Gostei do assunto tratado com o Amauri aqui nos comentários. Mas confesso que tenho dificuldades de estabelecer algumas relações de causa e consequência, que pra vocês parecem óbvias.

    Pode me recomendar artigos e principalmente livros (qualquer língua) sobre o assunto?
    Não consigo entender o mecanismo de (des)valorização do câmbio sem pensar em intervenção estatal e pior, não consigo pensar nas consequências de cada "tipo" de câmbio.

    Estou pensando com limitações feito os Keynesianos... tem solução para o meu caso, Dr.? Devo andar com abafadores de ouvido no trabalho?
  • Henrique  25/02/2015 21:36
    Se a desvalorização da moeda é boa para as exportações, o Brasil da época da hiperinflação foi um grande exportador. Ou não?

    Abraços
  • Meirelles  25/02/2015 21:53
    Nem isso. Quem iria querer comprar o lixo aqui fabricado por indústrias totalmente ineficientes e acostumadas a serem protegidas?

    A única coisa que exportávamos eram bananas (colhidas à mão) e prostitutas.
  • Mauricio Redaelli  27/02/2015 14:18
    Então nós podemos concluir que um país que produz seu maquinário e suas matérias primas, além de um corpo técnico capaz de qualquer manutenção, poderia se sair bem nesse cenário de moeda desvalorizada?
    Não indo tão longe: se o país exportar mais por causa da desvalorização da moeda, mas aprender muito rápido a produzir mais e suprir também as demandas internas, então não haverá carestia? Pra ajudar um pouco, vamos supor que no período de desvalorização os impostos sobre produção e folha de pagamento sejam reduzidos. A indústria vai crescer e o desemprego vai cair, certo?
    Ainda mais: o governo estimula a desvalorização cambial, mas também decide cortar centenas de bilhões em investimentos e gastos governamentais, e com sorte ainda reduz um pouco o IRPF. A gente vai ver mais gente empregada, mais produtividade, mais poder de compra de modo geral, concorda? Com um milagre inexplicável, se políticas de abertura de mercado fossem implementadas, o cenário ficaria ainda melhor, mesmo que com o Real tão caro seja menos vantajoso investir aqui.
    Ou seja, desvalorização cambial também pode dar certo, se a conjuntura for favorável?
  • Leandro  27/02/2015 14:42
    "Então nós podemos concluir que um país que produz seu maquinário e suas matérias primas, além de um corpo técnico capaz de qualquer manutenção, poderia se sair bem nesse cenário de moeda desvalorizada?"

    Não. E não entendi de onde veio essa "lógica".

    Moeda desvalorizando significa uma moeda enfraquecendo. E uma moeda enfraquecendo significa preços subindo. Trata-se de uma tautologia inescapável: se a moeda enfraquece, os preços aumentam. Tornam-se necessárias mais moedas para comprar a mesma quantidade de bens.

    Não há como escapar disso. Se a moeda enfraquece, os preços sobem. Não importa se a economia é aberta ou fechada. Ponto.

    Agora, como isso será bom para a população? Desconheço.

    "Não indo tão longe: se o país exportar mais por causa da desvalorização da moeda, mas aprender muito rápido a produzir mais e suprir também as demandas internas, então não haverá carestia?"

    Haverá carestia. Se a moeda enfraqueceu, os preços subiram. Releia o que escrevi acima.

    "Pra ajudar um pouco, vamos supor que no período de desvalorização os impostos sobre produção e folha de pagamento sejam reduzidos. A indústria vai crescer e o desemprego vai cair, certo?"

    Por quê? Não há nenhuma certeza quanto a isso. A redução dos impostos pode ser mais do que compensada pelo aumento dos custos em decorrência da carestia gerada pela desvalorização da moeda.

    Você quer uma solução mágica e indolor que simplesmente não existe.

    "Ainda mais: o governo estimula a desvalorização cambial, mas também decide cortar centenas de bilhões em investimentos e gastos governamentais, e com sorte ainda reduz um pouco o IRPF. A gente vai ver mais gente empregada, mais produtividade, mais poder de compra de modo geral, concorda?"

    Totalmente errado. Se "o governo estimula a desvalorização cambial", então não tem como a população ter "mais poder de compra de modo geral". De novo, você está criando mágicas que são contraditórias.

    "Com um milagre inexplicável, se políticas de abertura de mercado fossem implementadas, o cenário ficaria ainda melhor, mesmo que com o Real tão caro seja menos vantajoso investir aqui."

    Lógica incompreensível.

    "Ou seja, desvalorização cambial também pode dar certo, se a conjuntura for favorável?"

    Só no mundo de Oz.
  • Zé Cláudio  03/03/2015 21:39
    Pessoal, me tirem uma dúvida: por que existem vários "tipos" de dólar? Tipo: quando entro na página de câmbio do Infomoney, eles dão 3 cotações: comercial, turismo e "ptax800". O que é isso? Isso existe no mundo inteiro ou é invenção brasileira?
  • Daniel  03/03/2015 23:13
    Comercial: usado por exportadores e importadores.

    Turismo: aquisição de passagens aéreas, gastos em estabelecimentos internacionais e compras efetuadas em moeda estrangeira no cartão de crédito.

    Ptax: pt.m.wikipedia.org/wiki/Ptax
  • eduardo  06/03/2015 22:30
    Leandro,
    Vc poderia explicar como Hong Kong mantém índices sócio-econômicos tão bons mesmo c um cambio desvalorizado?

    Poderia, tb, indicar algum texto q fale dos benefícios de um mercado de capitais sem regulamentação? Ou se ñ tiver nenhum texto específico poderia fazer uma rápida explicação?

    Obrigado,

    Eduardo
  • Leandro  07/03/2015 01:24
    Desvalorizado?! O câmbio é fixo desde 1983! E por meio de um sistema que opera como se fosse um Currency Board.

    Em um sistema tipo Currency Board, não existe câmbio valorizado ou desvalorizado, simplesmente porque a moeda nacional é um mero substituto do dólar.

    O fato de o câmbio ter sido fixado no valor de 7,75 dólares de HK por dólar americano não significa que hoje o câmbio esteja desvalorizado. Significa, isso sim, que a moeda de HK havia se desvalorizado bastante até o momento em que eles criaram juízo e decidiram ancorar sua moeda ao dólar (ao valor vigente na data da ancorarem).

    Sobre mercado de capitais, isso exige texto, pois um mercado de capitais desregulamentado só alcança seu pleno potencial em um regime de câmbio fixo com Currency Board.
  • Enrico  07/03/2015 01:50
    Leandro, por que o dólar de Hong Kong, ainda que opere como se fosse um Currency Board, flutua em pequena escala?

    Por exemplo, o câmbio apresenta ínfimas flutuações e, segundo a Wikipedia, flutua oficialmente numa banda entre 7.75 e 7.85. Num regime de Currency Board a conversão não deveria ser exata?
  • Leandro  07/03/2015 12:48
    Justamente porque não é um Currency Board. A autoridade monetária de Hong Kong segue princípios de um CB no que tange à manutenção da taxa de câmbio fixo e da quantidade de reservas internacionais. Mas é só. A autoridade tem plenos poderes discricionários para intervir no mercado interbancário e socorrer bancos, algo que um Currency Board ortodoxo não pode fazer.

    O câmbio oficial sempre foi de 7,80 (eu havia dito 7,75, mas o certo é 7,80). Só que, em maio de 2005, estipulou-se que haveria um piso e um teto de 7,75 e 7,85, respectivamente.

    A justificativa para isso, segundo a autoridade, era evitar que o dólar de HK fosse utilizado em apostas especulativas contra uma apreciação do renminbi chinês. Eu até entendo a lógica, mas acho desnecessário abrir essas bandas.
  • Enrico  07/03/2015 18:00
    Mas a HKMA não troca dólares americanos por dólares de Hong Kong e vice-versa?
  • Leandro  08/03/2015 09:50
    Correto. E?
  • Enrico  08/03/2015 16:19
    Quando isso acontece, como pode existir uma variação da taxa de conversão? É aleatório?
  • Leandro  08/03/2015 16:27
    A taxa é definida pela autoridade monetária. Se, amanhã, ela definir que o dólar de HK vale 10 dólares americanos, ela simplesmente o faz.
  • Fabrício   07/03/2015 18:47
    Leandro, poderia nos explicar que lógica é esta? Não ficou tão claro assim, como uma banda de flutuação pode impedir que o dólar de Hong Kong seja utilizado em apostas especulativas contra uma apreciação do renminbi chinês.

    Por que algum especulador iria preferir utilizar o dólar de Hong Kong ao invés do próprio dólar? Se o dólar de Hong Kong fosse invariante em relação ao dólar, não consigo entender o motivo de tal preocupação por parte da autoridade monetária. Já não existem dólares suficientes para poder-se fazer qualquer especulação?
  • Leandro  08/03/2015 09:57

    "Por que algum especulador iria preferir utilizar o dólar de Hong Kong ao invés do próprio dólar?"

    Porque a aposta envolve o renminbi e o dólar americano. O dólar de Hong Kong entra como hedge.

    "Se o dólar de Hong Kong fosse invariante em relação ao dólar, não consigo entender o motivo de tal preocupação por parte da autoridade monetária. Já não existem dólares suficientes para poder-se fazer qualquer especulação?"

    Não entendi.

    Vou repetir, dessa vez sendo mais prolixo: a autoridade monetária de Hong Kong não quis que o dólar de Hong Kong fosse utilizado como hedge (proteção) por especuladores que especulam em relação aos futuros movimentos do renminbi em relação ao dólar. Há um câmbio semi-fixo entre o renminbi e o dólar, câmbio esse que é revalorizado (leia-se: apreciado) de tempos em tempos, mas ninguém sabe quando. Daí a especulação.

    Para evitar prejuízos caso suas apostas em relação às contínuas apreciações de renminbi em relação ao dólar americano deem errado, os especuladores utilizam o dólar de Hong Kong como hedge.

    Para entender os detalhes disso, aí você precisa entender como funciona esse mercado.
  • Cetico Nacionalista  10/03/2015 03:42
    A Argentina tinha o câmbio $1 Peso = U$ 1 Dollar. E uma hora quebrou. Pq?? O Misses é contra câmbio flutuante? Se o real está a 3.15 hoje ou se no passado subiu 50% não era pq se queria, era pq não era possível manter. Gostaria de entendimento. Obrigado!
  • Leandro  10/03/2015 11:17
    "A Argentina tinha o câmbio $1 Peso = U$ 1 Dollar. E uma hora quebrou. Pq??"

    Quebrou após o governo ter destruído esse sistema, que amarrava suas mãos. Quando esse sistema vigorava, a Argentina era a economia mais sólida da América do Sul.

    O governo destruiu a lei de conversibilidade justamente porque ela o amarrava, disciplinando seus gastos e sua expansão. Aí, imediatamente após a destruição da conversibilidade, a Argentina mergulhou no caos, na miséria e na depressão.

    Aliás, é interessante essa visão que as pessoas têm do evento: um sistema é implantado, funciona como o esperado, o governo não gosta, destrói o sistema, e aí as pessoas dizem que a culpa de tudo é do sistema que foi destruído.

    Para ler em detalhes sobre o que aconteceu com a Argentina, sugiro esse artigo:

    Cambalache - a história do colapso econômico da Argentina

    "O Misses é contra câmbio flutuante?"

    Não faço a menor ideia de quem ou o que seja "Misses". Mas posso dizer que um sistema de câmbio flutuante é, por definição, um sistema de "quase-escambo". Taxas de câmbio flutuantes introduzem incertezas indesejadas nos mercados internacionais, obstruindo o livre comércio, principalmente os investimentos. O investidor torna-se muito mais um especulador do que propriamente um investidor.

    Taxas de câmbio flutuantes são aceitas por economistas simplesmente porque estes têm em mente apenas o conceito de 'nação'. Entretanto, embora 'nação' seja uma importante unidade política, ela não é uma unidade econômica. Imagine se houvesse uma taxa de câmbio flexível entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro? Ou entre Bahia e Santa Catarina? Isso seria um incentivo ao livre comércio entre os estados ou uma barreira?

    Se os estados adotassem câmbios flexíveis entre si, os efeitos seriam desastrosos para o comércio, com cada estado fazendo guerra cambial e impondo várias tarifas protecionistas. Ainda bem que não é assim.

    Não faz sentido -- a menos para protecionistas inveterados, é claro -- defender câmbio flutuante entre países, mas "câmbio fixo" entre estados, cidades e bairros.

    Artigos sugeridos:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1330

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1601

    "Se o real está a 3.15 hoje ou se no passado subiu 50% não era pq se queria, era pq não era possível manter."

    Subiu em decorrência das políticas do governo.

    Artigo sugerido:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2018
  • Matias  10/03/2015 11:17
  • ocarinha  10/03/2015 16:38
    Artigo bem pika. Muito claro e não deixa margem de dúvidas!
  • Wesley  14/03/2015 23:29
    Só uma dúvida: se o dólar sobe no geral a mídia e as pessoas dizem que só afetará produtos importados do Brasil. Uma coisa interessante é o fato de produtos como televisões a despeito da alta do dólar se manter no mesmo valor. Como se explica isso? Pelo fato de ser fabricados no Brasil? Mas as peças são feitas lá fora e apenas montadas aqui. Como explicar detalhadamente a uma pessoa que acredita que a alta do dólar só encarecerá o preço dos importados e mostrar que não é verdade? Além do mais, em qual proporção a alta do dólar afeta uma economia estatizada como a nossa? Um abraço!
  • Snipes  15/03/2015 00:30
    Ué, se as televisões mantiveram os mesmos preços então esse já é o efeito da alta do dólar. Em todo o mundo, os preços das televisões -- aliás, os preços de quaisquer produtos eletroeletrônicos -- só fazem cair. Se os preços se estabilizaram -- ou seja, não estão caindo -- então aí está o efeito da desvalorização cambial.

    Quanto à economia fechada, quanto mais desvalorizado o câmbio, maiores as exportações e, consequentemente, menor a oferta de produtos no mercado interno (pois eles foram exportados). Consequentemente, mais aumento de preços.

    Não há como escapar. Câmbio desvalorizado, inflação de preços.
  • Wesley  15/03/2015 00:47
    Entendi a parte em que os preços aumentam. É porque há maior exportação e menor oferta de produtos. Pensei que era apenas a desvalorização do valor da moeda em si que gerava aumento dos preços. Abraços!
  • Aguiar  15/03/2015 01:22
    Mas a desvalorização do valor da moeda em si gera aumento dos preços. A desvalorização cambial é uma mera consequência da desvalorização da moeda.

    Uma moda fraca afeta todos os preços internos, inclusive os produzidos nacionalmente. Isso é óbvio: se a moeda está fraca, então é necessário uma maior quantidade delas para adquirir o mesmo bem.

    Não tem escapatória: moeda fraca, carestia alta. Sem exceção.
  • Luciano A.  15/03/2015 06:49
    Se um país decidir por uma política monetária "austera", sem emissão de moeda, ou mesmo com emissão muito pequena, por um longo período a ponto de sua taxa de cãmbio ficar muito valorizada e se manter firme nesta direção, quais seriam as consequências para os outros países que são inflacionistas? Eles seriam obrigados a conter a sua inflação? E se não fizerem?

    Aconteceram casos assim na história?
  • Leandro  15/03/2015 13:06
    A taxa de câmbio dos países inflacionistas irá se desvalorizar sensivelmente em relação aos não-inflacionistas.

    Alemanha, Suíça e Cingapura fizeram isso a partir de 1971. A Alemanha foi forçada a interromper esse processo em 2002 com a adoração do euro. A Suíça mantém esse processo até hoje. Cingapura foi bem até 2005 (de 1971 a 2005, sua moeda foi a menos inflacionada do mundo).
  • Luciano A.  15/03/2015 19:08
    Mas além da taxa de câmbio de desvalorizada, haveria outras consequéncias econômicas negativas para os inflacionistas não? Fico tentando imaginar cenários extremos com grandes diferenças cambiais. Acho que esse processo forçaria os inflacionistas a pararem ou p3lo menos moderaram a emissão se não as empresas desses países perderiam capacidade financeira (investimento, capitalização, etc) em relaçao aos nao-inflacionistas. Estou errado ou isso poderia continuar até as taxas ficaram com magnitudes enormes de diferença. Como uma moeda ficar dezenas de vezes mais valorida que a outra.

    A moeda nao-inflacionista poderia ameaçar o dólar como moeda principal nas transaçoes mundiais apenas por ser mais valorizada ou precisaria de mais condições?
  • Emerson Luís  17/03/2015 14:57

    O intervencionismo é como quando o chuveiro está muito frio e aumentamos o dimer, então a água fica agradável por alguns segundos, mas daí fica quente demais e diminuímos e a água volta a se tornar boa, mas logo fica gelada e aumentamos de novo e assim por diante.

    A diferença é que com o chuveiro em geral é possível atingir o ponto de equilíbrio.

    * * *
  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza  28/03/2015 23:34
    Não tem jeito: tudo o que o governo se propõe a fazer dá errado, CEDO OU TARDE. Se você quer se prejudicar, peça conselho ao burocrata mais próximo.
  • André Catramby   09/02/2016 23:35
    Caro Leandro, sou advogado mas me interesso pelas questões econômicas, especialmente para entender melhor as políticas públicas aplicadas no Brasil. Essa discussão sobre o câmbio parece crucial para o país, mas é debatida de forma pouco abrangente pela sociedade. Portanto, agradeço pelo artigo. Antes de apresentar minha dúvida, gostaria de pedir a indicação de um livro para entender um pouco melhor do assunto, de preferência não tão acadêmico, dado que não sou economista.
    Entendi seu artigo perfeitamente, mas fica uma questão para mim: um câmbio desvalorizado não nos torna eternamente dependentes de produtos sofisticados importados, com alto grau tecnológico, produzidos pelos países desenvolvidos? Como conciliar uma moeda forte com o desenvolvimento de um parque industrial próprio? Me parece que os chamados economistas desenvolvimentistas têm uma grande preocupação de nos "libertarem" de uma dependência externa através de um parque industrial próprio. Outro ponto: há algum dado que indique em que grau nosso setor produtivo depende da importação de produtos? Penso que a apuração dessa informação tambem seja importante.
  • Leandro  10/02/2016 01:45
    "Como conciliar uma moeda forte com o desenvolvimento de um parque industrial próprio?"

    Ora, mas todos -- todos, sem nenhuma exceção -- os países que têm um parque industrial próprio e robusto têm um histórico de moeda forte e estável.

    Definição de moeda forte e estável: aquela que se valoriza constantemente perante todas as outras, e cuja perda do poder de compra é baixa.

    Alemanha, Suíça, Cingapura, EUA, Japão, China, Coréia, Canadá -- todos esses sempre tiveram moedas fortes e estáveis.

    Logo, a pergunta realmente intrigante é: há algum país que alcançou um parque industrial próprio e robusto esculhambando sua moeda? Desconheço um único exemplo.

    Nenhum país que tem moeda fraca e inflação alta produz bens de qualidade que sejam altamente demandados pelo comércio mundial. Todos os bens de qualidade são produzidos em países com inflação baixa e moeda forte. Apenas olhe a qualidade dos produtos alemães, suíços, japoneses, americanos, coreanos, canadenses, cingapurianos etc.

    Se moeda forte fosse empecilho para a indústria, todos esses países seriam hoje terra arrasada. No entanto, são nações fortemente exportadoras. Moeda forte e muita exportação.

    "Me parece que os chamados economistas desenvolvimentistas têm uma grande preocupação de nos "libertarem" de uma dependência externa através de um parque industrial próprio."

    Se eles de fato querem isso, então eles deveriam defender uma moeda forte e estável, pois não apenas a teoria como a própria empiria confirmam que o que gera indústria robusta é moeda forte e estável. (Isso, aliás, é uma coisa tão lógica e óbvia, que é realmente necessário ser um economista para acreditar que, se você destruir a moeda, você cria uma Google, uma Microsoft e uma Amazon).

    "há algum dado que indique em que grau nosso setor produtivo depende da importação de produtos?"

    Fique com o depoimento das próprias fabricantes de automóveis.

    Por fim, vale apontar o óbvio: a desindustrialização no Brasil chegou ao auge justamente no período em que a moeda mais se desvalorizou.

    A desindustrialização está ocorrendo é justamente agora, quando temos uma moeda fraca, inflação alta, e as maiores tarifas protecionistas da história do real.

    Exatamente ao contrário do que defendem os economistas desenvolvimentistas, é justamente quando o câmbio está se apreciando (como ocorreu de 2005 a 2008, e de 2010 a 2011 no Brasil), que a indústria fica mais forte. E é justamente quando o câmbio se desvaloriza (2009, e 2012 em diante), que a indústria encolhe. (Veja todos os gráficos aqui).

    Três artigos exclusivamente sobre isso, com fatos, dados e estatísticas:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2175
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2089
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2055
  • anônimo  28/01/2017 18:16
    O que acham dessas afirmações:

    Referente a valorização do real até meados de 2011:

    "Nossa moeda estava sobrevalorizada por que houve uma enxurrada de dolares por conta da exportações de commodities. Antes desta desvalorização, as commodities irrigavam nossa economia com dolares."

    Sobre a queda das exportações chineses:

    "Segundo lugar, estas comparando as exportações totais, contra o comparativo frente a uma moeda. Desprezando o valor dos bens exportados. Estas medindo as exportações chinesas em dolar, sendo que o valor do yuan diminuiu frente ao dolar."

    ...e:

    "Primeiro por que os preços dos produtos vendidos caíram mais que a moeda. Segundo por que os volumes de comercio exterior diminuíram significativamente não so pra eles. Mas no mundo."

    ...e:

    [i["CAIRAM (as exportações chinesas) POR QUE O PRECO DAS COISAS QUE ELES EXPORTAM CAIU MAIS QUE A MOEDA E O COMERCIO EXTERIOR DIMINUIU."[/i]

    Sobre as exportações do Brasil:

    "Em ultimo lugar, no cenário real, fora do teórico, desprezas os custos de produção e o material que produzimos. No Brasil exportávamos commodities, agora não temos mais preço, logo a exportação de commodities diminuiu em dolar. Não obstante, devido a forte valorização do real ate 2010, não temos preço para exportar outros produtos em competição com a China e outros pares econômicos."

    ...e:

    "O fato é que, o caso do Brasil, de longe é parecido com o do Reino Unido, a participação do comercio exterior no PIB daqui, de produtos que foram diretamente afetados pela desvalorização monetária, é muito superior. Não obstante, nenhum dos grandes produtos que exportamos para o continente sofreu desvalorização."

    ...e:

    "Diferente do Brasil, o que fez com que mesmo com o cambio desvalorizando, nossa exportação medida em DOLAR, diminuísse."

    ...e:

    "Vou te dizer a ultima vez. As exportações brasileiras so diminuíram em dolar, em reais aumentaram absurdamente, mas nem é esse o ponto. Nossas exportações diminuíram por que nossos produtos perderam valor no exterior. Nosso principal parceiro econômico diminuiu o ritmo de crescimento."


    E completou:

    "Por isso que todas moedas de países em desenvolvimento estão se desvalorizando"

    ...e:

    "A desvalorizacao da moeda na verdade é efeito da queda nas exportações."
  • Malthus  28/01/2017 19:00
    Tudo já respondido e rebatido, com dados e fatos, neste artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2190

    Nêgo que fala que o real se valorizou em relação ao dólar por causa das exportações é completamente ignorante, pois ingora que o dólar de desvalorizou ao redor do mundo. E foi esse o segredo, pois commodities são cotadas em dólar. Se o dólar se desvaloriza, as commodities (cotadas em dólar) ficam mais caras.


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