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Uma surpresa suíça

Um Banco Central pode ou adotar uma política de câmbio fixo ou praticar uma política monetária independente.  Mas ele não pode fazer as duas coisas ao mesmo tempo. 

Se ele decide manter uma determinada paridade cambial, então ele abre mão de controlar a expansão da base monetária, pois ele tem de criar moeda nacional para comprar as divisas estrangeiras, e tem de recolher moeda nacional ao vender divisas estrangeiras.  Ele não controla a evolução da base monetária. 

Já se ele opta por manter o controle sobre a evolução da base monetária, então ele não tem como manter a taxa de câmbio estacionada em um determinado valor.  Não por muito tempo. 

(Se o Banco Central tentar fazer as duas coisas, ele estará incorrendo em uma contradição insustentável.  Todos os ataques especulativos que varreram os países em desenvolvimento na segunda metade da década de 1990 aconteceram porque os especuladores perceberam essa contradição e agiram de acordo.)

Por mais de três anos — desde setembro de 2011 —, o Banco Central suíço estipulou que o euro não custaria menos do que 1,20 franco suíço.  Naquela época, o franco suíço vinha se valorizando continuamente em relação ao euro, o que fez com que os suspeitos de sempre — os exportadores — pressionassem o BC suíço a adotar uma política de câmbio fixo (em um valor depreciado) em relação ao euro.  Os exportadores temiam uma redução das vendas para os países da zona do euro caso o franco suíço continuasse se apreciando em relação ao euro.

Ao adotar essa política de manter um câmbio fixo em um valor claramente depreciado, o Banco Central suíço perdeu totalmente o controle da evolução da base monetária, e foi relegado à mera condição de seguidor passivo da política monetária do Banco Central Europeu.  Sempre que o franco suíço começava a se valorizar em relação ao euro — ou seja, quando o euro começava a custar menos de 1,20 franco —, o BC suíço entrava em cena, criava francos e comprava euros, até que a taxa de câmbio voltasse a 1,20 franco por euro. 

Se o Banco Central Europeu expandisse enormemente a base monetária, e se essa expansão se convertesse em uma enxurrada de euros entrando na Suíça, o BC suíço teria de imprimir uma quantia equivalente de francos para comprar esses euros e, com isso, manter a taxa de câmbio em 1,20 franco por euro.

O resultado dessa política é que, nos últimos três anos, à medida que a demanda por francos suíços da parte de quem possuía euros aumentou, o balancete do Banco Central suíço explodiu: a quantidade de euros em suas reservas duplicou, e a base monetária, em termos de francos suíços, quadruplicou.

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Gráfico 1: evolução das reservas internacionais do BC suíço


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 Gráfico 2: evolução da base monetária da Suíça

Não obstante essa explosão da base monetária, o ritmo de empréstimos concedidos pelos bancos suíços, e consequentemente a quantidade de francos suíços entrando na economia suíça, seguiram crescendo ao seu ritmo natural, o que explica a ausência de uma inflação de preços no país.

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Gráfico 3: evolução do crédito bancário da Suíça



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Gráfico 4: evolução do agregado monetária M3 da Suíça

No entanto, na quinta-feira passada, dia 15 de janeiro de 2015, de maneira espetacular, o Banco Central suíço finalmente capitulou e decidiu que controlar a base monetária era mais importante do que manter uma taxa de câmbio fixa em relação ao euro.  Em um anúncio-surpresa, o BC suíço disse que estava abandonando sua política de atrelar o franco ao euro.  Imediatamente após o anúncio de que voltaria a flutuar em relação ao euro, o franco suíço disparou e chegou a se apreciar mais de 30% em questão de minutos.  Atualmente, o franco está valendo um euro, o que significa que ele se apreciou 20% desde a adoção do câmbio flutuante.

Essa medida gerou ondas de choque imediatas nos mercados financeiros.  Em apenas alguns poucos minutos, além de o franco ter disparado 30%, o FTSE de Londres caiu 2%, o Wall Street entrou em território negativo, e a até então tímida subida das commodities foi revertida.  No que mais, a bolsa de valores da Suíça caiu 9%, e o noticiário econômico foi inundado com as notícias mercantilistas de sempre, dizendo que tal medida era um "tsunami", um "enorme erro", e que ocorreria uma "carnificina" com os exportadores suíços.

Isso mostra como o atual mercado financeiro é tão robusto quanto um castelo de cartas, e como ele é dependente da inflação monetária para se sustentar.  Bastou apenas uma medida não-prevista da parte de um Banco Central — que, na prática, disse que estaria se retirando do mercado — para gerar abalos sísmicos e mostrar como os mercados financeiros estão totalmente desconectados da economia real.

Por que atrelar o franco ao euro?

Uma das razões de o Banco Central suíço ter atrelado o franco ao euro foi a ideia de que a moeda suíça estava "sobrevalorizada" e que, por causa disso, os exportadores estavam sendo injustamente afetados pela moeda apreciada. 

O problema é que o termo "sobrevalorizada" não faz sentido quando se trata de um câmbio flutuante.  É o mercado quem determina o valor de troca de uma moeda.  Em uma economia capitalista, os preços são estipulados pela oferta e pela demanda, e o preço determinado é aquele no qual todos que querem vender irão encontrar um comprador disposto a comprar.  Taxas de câmbio também são determinadas pela lei da oferta e demanda.  Nada, inclusive moedas, pode estar sobrevalorizado ou subvalorizado.  Não no longo prazo.

A ideia de que exportadores são afetados por uma moeda supostamente sobrevalorizada também não se sustenta.  Os exportadores têm hoje à sua disposição uma variedade de produtos financeiros criados justamente para protegê-los (fazer hedge) contra variações na taxa de câmbio.  Swaps permitem que eles até mesmo se protejam de variações cambiais no longo prazo.

Da mesma forma, um exportador é também um importador de vários bens de capital.  A globalização obrigou vários exportadores a irem às compras atrás de matérias-primas e bens de capital mais eficientes e mais baratos.  Uma valorização da moeda, portanto, tem menos impacto nos lucros de um exportador, pois, se de um lado ele reduz as receitas do exportador, de outro ela também reduz os custos dos recursos importados pelo exportador

Mas é muito mais fácil fazer lobby para desvalorizar o câmbio do que reduzir os próprios preços.

O grande erro do BC suíço foi justamente o de ter adotado uma política que visava a beneficiar apenas um grupo da sociedade — exportadores — em detrimento de todos os outros — os consumidores suíços.

E o resultado é que, por causa de sua atitude repentina e totalmente imprevista, a medida do BC suíço realmente prejudicou os exportadores.  Quando um país atrela sua moeda a uma outra, os exportadores deixam de se preocupar em fazer hedge contra um eventual risco de valorização ou de desvalorização.  A súbita apreciação do franco suíço na quinta-feira passada pegou os exportadores desprevenidos, pois eles realmente acreditavam que o piso estipulado pelo BC suíço para o preço do euro era definitivo, e, consequentemente, eles simplesmente pararam de fazer hedge contra quedas nas receitas de exportação.  Essa ação do BC suíço poderá, de fato, prejudicar severamente alguns exportadores.

E os exportadores suíços estão agora sendo forçados a fazer ajustes drásticos em resposta a uma medida repentina, em vez de ajustes incrementais que ocorreriam em um câmbio flutuante — ajustes incrementais que poderiam ter sido prevenidos por medidas de hedge.

É necessário lembrar que toda ação tem ganhadores e perdedores.  Os consumidores suíços irão se beneficiar de preços menores.  Empresas suíças que importam seus insumos e vendem para o mercado doméstico também irão se beneficiar.

Por que abandonaram o câmbio atrelado

Com a probabilidade cada vez maior de que o Banco Central Europeu irá violar o Tratado de Maastricht e começar a comprar diretamente dos governos dos países periféricos os títulos de suas dívidas, os suíços finalmente perceberam que já era hora de pular fora do arranjo cambial.  O que se fala agora é que o BCE irá comprar títulos no valor de um trilhão de euros.  Sendo assim, para manter o câmbio atrelado, o Banco Central suíço teria de aumentar sua base monetária na mesma porcentagem, o que seria uma irresponsabilidade para um país tão pequeno.

Além desse novo programa de estímulos do BCE, ha um mercado russo em frangalho, há as vindouras eleições gregas (lideradas, por enquanto, por um partido de esquerda radical), e há a queda nos preços do petróleo.  Tudo isso fez com que investidores estrangeiros corressem para o porto seguro que os ativos suíços ainda representam.  Caso a taxa de câmbio se mantivesse imexível, haveria uma enxurrada na base monetária.

Ao abandonar o câmbio atrelado e permitir que sua moeda se valorizasse, o BC suíço fez a coisa certa.  Resta agora ver se ele também irá eliminar os ativos e os passivos da União Europeia de seus balancetes.  Há uma tempestade se formando na União Europeia e a Suíça fará bem em se manter de fora.

Todo esse incidente suíço foi uma boa prévia sobre o que poderia acontecer com o dólar americano caso o BC chinês resolva adotar uma medida similar.

_________________________________________

Autores:

Frank Hollenbeck é Ph.D. em economia e leciona na Universidade Internacional de Genebra.

Carmen Dorobat é pós-doutoranda em economia na Universidade de Angers e professora na Bucharest Academy of Economic Studies.

Leandro Roque é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil.



autor

Diversos Autores

  • Pobre Paulista  19/01/2015 14:07
    Dúvida:

    Todo esse incidente suíço foi uma boa prévia sobre o que poderia acontecer com o dólar americano caso o BC chinês resolva adotar uma medida similar.

    Porquê? A Suíça é irrelevante perante ao Euro, a maior perda para o Euro foi moral e não financeira. Já a China é praticamente dona do FED, qualquer medida parecida com isso simplesmente destruiria o dólar do dia para a noite.
  • Rico Carioca  19/01/2015 14:19
    Você próprio já deu a resposta.

    Se a Suíça, "que é irrelevante perante o euro", fez com que, com essa simples medida, o poderoso euro se desvalorizasse perante todas as outras moedas (se desvalorizou até perante o peso argentino e o rublo russo), imagine então o que o BC chinês pode fazer com o dólar...
  • Eduardo Maal  19/01/2015 14:58
    Claro, a contrapartida desse argumento é se a China poderia fazer isso. Os EUA tem alternativas, desde usar sua inteligencia para chantagear o Governo Chines (desde informacao confidencial, ate derrubar os lideres chineses), eles podem usar o exercito para ameacar e ate atacar a China. Nao é tao facil eles so pararem de comprar.
  • Tiago RC  19/01/2015 16:55
    A China tem armas nucleares. Isso sem falar na maior população do planeta. Guerra direta não é uma opção.
  • Lucas  20/01/2015 17:32
    quanta bobagem, se a queda do dolar já seria um desastre imagine então uma gerra entre as 2 maiores economia do mundo.
  • Dorival  19/01/2015 17:51
    Por favor Eduardo, os EUA podem ter lá suas alternativas mas a Guerra neste caso não seria uma delas. Eles são espertos o suficiente pra saber com quem eles podem mexer, e a China não faz parte da lista. Aliás hoje em dia nem estes conflitos pequenos valem a pena, seria impossível que um confronto direto entre EUA e China ocorresse. Agora quanto a estas guerras às escuras talvez.
  • Edu Sa  20/01/2015 23:00
    "...usar o exército para ameaçar e até atacar a China"!! Faça-me rir. Não invadiram sequer Cuba, apesar do bloqueio!

    É mais fácil você dar de cara com um disco voador pousado na frente da sua casa amanhã pela manhã do que os EUA atacarem a China amanhã ou daqui a 50 anos. Como piada, excelente!
  • Lucas C  21/01/2015 01:48
    Jim Rickards e outros "gold bugs" dizem que os Chineses estão preocupados em comprar ouro barato neste momento, antes de despejarem seus títulos da dívida americana no mercado internacional e fazer o dólar despencar.
    Desta maneira, fazem hedge contra a desvalorização da moeda americana.

    A tática, contudo, é dissimular. Se os chinas são os maiores detentores de títulos públicos americanos e declaram a intenção, o dólar cai com a batata quente em suas mãos.POr outro lado, se anunciam aos quatro ventos a sua fome por ouro, o preço do metal dispara e eles teriam que comprar mais caro. Então, estão provavelmente esperando a hora certa para o grande golpe.

    Creio que o segredo seja fazer como os grandes e estocar algum ouro.
  • anônimo  09/03/2015 01:44
    A questão da China é como se livrar desta arapuca que ela montou.
    Está crescendo, em parte, às custas de individuamento norte americano.
    e não sabe como conseguir transformar esta parte em ativos,
    é muita moeda podre (que só não fede como podre porque eles, e o resto do mundo, estão segurando)
  • Fellipe  19/01/2015 14:18
    Ótimo ver que ainda existe alguma sanidade em termos de política monetária neste planeta... E pena que isso não existe pelos lados latino americanos.
  • Mohamed Attcka Todomundo  20/01/2015 13:49
    pobre suiça: tao proxima da uniao europeia, tão longe de mim.
  • Mr. M  19/01/2015 14:32
    Grande Leandro, ótimo texto!
    Havia visto a notícia, mas usaram termos tão técnicos que fui incapaz de compreender direito a notícia e muito menos fazer alguma análise para saber se era uma decisão acertada ou errada, embora já tivesse a sensação de que fosse acertada.
    Leandro, uma pergunta:
    O prof. Jesus Huerta de Soto costuma a advogar pró-euro, em particular para a Espanha, enquanto a Suíça foi na direção oposta. Isso se deve ao fato de uma desconfiança em particular na Espanha, de que se tivessem a própria moeda eles certamente iriam desvalorizar para alívio momentâneo da crise, ainda que isso fosse pior a longo prazo?
    Um abraço.
  • Leandro  19/01/2015 15:41
    Uma coisa é sair da peseta (ou do escudo, ou da lira, ou só dracma) e ir para o euro, a mesma moeda utilizada pela Alemanha. Outra coisa, bem distinta, é sair do franco suíço para qualquer outra moeda.

    Para a Espanha, ter abandonado a historicamente inflacionária peseta e adotado o euro foi algo sensacional em termos de inflação de preços. E nenhum espanhol são quer voltar ao inflacionismo da peseta.

    O problema é que as regras estipuladas pela União Européia estão enfraquecendo o euro, e podem levá-lo à extinção (mas isso ainda está longe). Leia "A Tragédia do Euro", disponível em nossa biblioteca.
  • Mr. M  19/01/2015 18:40
    Obrigado pela resposta, Leandro! (que honra é receber uma resposta sua diretamente!)
    Vou ler o livro, acabo de baixá-lo, obrigado pela indicação.
    Estou morando na Espanha, e vc ficaria espantado com o número de espanhóis que não são "sãos" e aguardam um possível retorno da peseta, rs
    Um abraço.
  • Anonimo  19/01/2015 14:37
    Mas o que vai acontecer com o euro agora?
    Vai desvalorizar eternamente?
  • Um observador  19/01/2015 15:27
    Estou em uma sinuca de bico no meu entendimento de economia por causa desse artigo.

    A dúvida é a seguinte: os francos criados pelo BC suiço para manter a paridade com o euro entraram na economia (pessoas e empresas)?

    Porque se esses francos entraram na economia, então deveria ocorrer inflação.

    Se não entraram, então como que esse dinheiro - parado em algum lugar - influencia a taxa de câmbio?


    Se alguém puder explicar, agradeço.
  • Leandro  19/01/2015 15:46
    Não, não entram na economia. Eles vão direto para as reservas bancárias. Os bancos ficam com os francos e o BC suíço fica com os euros.

    E essa operação influencia a taxa de câmbio juntamente porque bancos e o Banco Central atuam inseridos em todo o mercado de câmbio. Os bancos recebem os euros do estrangeiros e dos exportadores e, dentre todas as opções, preferem revendê-los para o BC suíço, que havia se comprometido a pagar 1,20 franco por euro. Em vez de revenderem os euros para outros agentes (importadores, por exemplo), os bancos os revendem para o BC suíço, que havia estipulado um preço para os euros.

    O princípio, aliás, é idêntico ao de um Currency Board. Por que isso não afetaria a taxa de câmbio?
  • Um observador  19/01/2015 17:08
    Leandro,

    Obrigado pela resposta, mas ainda não ficou claro para mim.
    Vou explicar a sequência de eventos que enxergo no meu "modelo mental" desse assunto:

    1 - Muitas pessoas passam a querer o franco suiço, por algum motivo.
    2 - Por causa da demanda elevada, quem tem francos irá vendê-los por um valor mais alto (por exemplo, 1.3 euros por franco ao invés de 1.2).
    3 - Como a quantidade de francos não foi afetada, uma tendência de alta foi iniciada (franco valorizado).
    4 - Para evitar a valorização, o BC suiço começa a imprimir francos, e se dispõe a vendê-los por 1.2 euros.
    5 - As pessoas e empresas passarão a comprar francos do BC suiço (ainda que de forma indireta) por ele oferecer preços mais baixos.
    6 - Com isso o BC suiço evita que a taxa de câmbio suba, o que era o seu objetivo.

    Essa é a forma como eu enxergo que a taxa de câmbio poderia ser afetada pelo BC suiço, mas o problema é que isso aumentaria a quantidade de francos na economia (pessoas e empresas), o que deveria gerar inflação.

    O que está errado, ou ficou faltando, nesta sequência de eventos?

    Obrigado
  • Leandro  19/01/2015 17:51
    O item 5 está errado. O BC não lida com empresas e pessoas físicas. Lida apenas com bancos. Daí sua intervenção não aumentar a quantidade de dinheiro na economia.

    A sequência é aquela de que falei: investidores e especuladoras levam seus euros para a Suíça e os trocam por francos. Até aqui o efeito é o mesmo de um aumento das exportações. Ato contínuo, os bancos suíços providenciam os francos (eles podem tanto criar os francos quanto vender ativos e conseguir francos de outros bancos ou empresas ou pessoas) e ficam com euros. Em seguida, os bancos vendem os euros para o BC suíço em troca de reservas bancárias (mais francos suíços em suas reservas, o que aumenta a base monetária).

    (Se houver alguém no mercado de câmbio disposto a trocar euros por francos a um preço mais caro em termos de francos (1,30 franco por euro, por exemplo), os bancos suíços certamente ficarão felizes com isso. Só não vejo motivos por que isso ocorreria. Seria uma arbitragem burra. Se ele comprar euros por 1,30 franco, ele tomará prejuízos, o pois o preço do euro é menor do que esse e o preço do Franco é maior do que esse. Não há como ele ganhar dinheiro nessa arbitragem).

    No outro lado da equação, importadores que querem trocar francos por euros fazem o caminho inverso: vendem francos para os bancos, que em troca compram euros do BC suíço (ou de outros bancos, ou de pessoas e empresas, como exportadores) e os enviam para o estrangeiro que está vendendo os produtos.
  • Um observador  01/02/2015 20:46
    Leandro,

    Eu entendo que o BC não lida diretamente com as pessoas e empresas, e por isso escrevi que isso ocorre "ainda que de forma indireta". Então o que entendi da sua explicação está condizente com o que eu tinha escrito.
    Esses eventos que você descreveu (investidores levam euros aos bancos e pegam francos, e depois os bancos pegam esses euros e vendem para o BC - obtendo francos em suas reservas, etc) caracterizam um fluxo de francos criados pelo BC fluindo pelo sistema bancário até chegar nas pessoas e empresas. E, da mesma forma, configura um fluxo de euros fluindo (através dos bancos) das pessoas e empresas para o BC suiço.

    Então, for favor, me ajude a compreender: o franco fica valorizado quando a demanda é maior que a oferta, e essa demanda se deve às pessoas e empresas (correto?). E, para equilibrar, o BC precisa criar novos francos através do sistema bancário, de forma a elevar a oferta (correto?) e manter o câmbio fixo. Então o que não entendi é como esses novos francos criados ficam nas reservas bancárias - como você disse que ocorre, e não na economia (nas contas das pessoas e empresas) - afinal de contas a demanda havia sido criada por elas.

    Espero que a dúvida tenha ficado clara.


    Lucas,

    Eu estou discutindo aqui o funcionamento da economia suiça ANTES de eles liberarem o câmbio flutuante, para entender como a base monetária expandiu sem causar inflação.
  • Leandro  01/02/2015 22:42
    Vou tentar desenhar o processo:

    1) Um espanhol, com uma conta no Santander da Espanha, quer trocar 1.000 euros por 1.200 francos suíços. Isso significa que ele agora quer ter uma conta em francos suíços em um banco da Suíça (o UBS, por exemplo);

    2) Ato contínuo, o Santander e o UBS irão ao mercado Forex para fazer essa operação cambial. (A operação é idêntica àquela que você faz quando vai a uma corretora trocar reais por dólares para viajar).

    3) Haverá uma troca de euros por francos suíços entre o Santander e o UBS. Na prática, isso significa que algum suíço correntista do UBS (provavelmente um importador) irá ficar com uma conta no Santander no valor de 1.000 euros, e o espanhol correntista do Santander irá ficar com uma conta no UBS no valor de 1.200 francos.

    4) Até aqui, não houve nenhuma alteração na oferta monetária de nenhum desses dois países. Houve apenas e simplesmente uma troca na propriedade de duas contas-correntes.

    5) Se esse ato estiver ocorrendo milhões de vezes por dia, o franco irá se apreciar em relação ao euro.

    6) Para evitar essa apreciação, o BC suíço entra em cena no mercado Forex e começa a comprar os euros que estão sendo oferecidos pelo Santander ao UBS.

    7) Na prática, o BC suíço dará francos suíços ao UBS e, em troca, assumirá a propriedade de uma conta-corrente do Santander. Ou seja, o BC comprou do UBS a propriedade de uma conta-corrente em euros no Santander. (A figura do importador suíço citado no item 3 nem entra em cena.)

    8) Ou seja, agora, em vez de termos um importador suíço com uma conta no Santander em euros e um espanhol com uma conta na Suíça em francos, temos o BC suíço com uma conta no Santander em euros, um espanhol com uma conta na Suíça em francos, e o UBS entupido de francos em suas reservas.

    Não consigo ser mais claro do que isso.


    É por isso que, em um regime de câmbio flutuante, as alterações no balanço de pagamentos não alteram a base monetária. Já em um regime de câmbio fixo, a base monetária tem de se alterar de acordo com o balanço de pagamentos.
  • Alexandro  23/09/2015 22:35
    Leandro, li o artigo e os comentários foram um show a parte.

    Uma dúvida ficou: se a base monetária aumentou tanto sem inflação, significa que o fluxo para a economia acompanhou o crescimento econômico. Então o que os bancos fizeram com tantos Francos durante este tempo? Simplesmente ficou retido?

    Parabéns pelo trabalho.
  • Leandro  24/09/2015 01:54
    Correto.

    Aqui está a evolução da base monetária:

    cdn.tradingeconomics.com/charts/switzerland-money-supply-m0.png?s=switzerlanmonsupm0&v=201509232338h&d1=19860101&d2=20151231

    E aqui está a evolução do total de dinheiro na economia:

    cdn.tradingeconomics.com/charts/switzerland-money-supply-m3.png?s=switzerlanmonsupm3&v=201509232336h&d1=19150101&d2=20151231

    Ao passo que a base monetária explode, a quantidade de dinheiro aumenta no seu mesmo ritmo histórico.

    Ou seja, o dinheiro ficou retido nos bancos.

    Grande abraço e obrigado pelas palavras.
  • Juliano  19/01/2015 16:03
    O que o Banco Central da Suíça fazia não é semelhante a um Currency Board, mas, ao invés de manter a paridade com uma cesta de moedas, usava apenas o Euro como lastro?
  • Leandro  19/01/2015 16:33
    Correto. Só que foi uma situação inusitada, inédita na história, em que uma moeda historicamente forte adota como lastro uma moeda mais inflacionária. É como se o real adotasse o bolívar venezuelano como lastro.
  • Enrico  19/01/2015 19:12
    Não dá ideia... é um perigo.
  • Eduardo  21/01/2015 01:04
    "Ao adotar essa política de manter um câmbio fixo em um valor claramente depreciado"

    Quer dizer que eles deveriam fixar num valor maior? Mas um ou dois meses depois da fixação poderia ocorrer uma entrada gigantesca de dinheiro (como ocorreu anos mais tarde), fazendo com que o valor maior fosse "claramente depreciado". O valor fixado não é arbitrário?

    Dos comentários:

    "Só que foi uma situação inusitada, inédita na história, em que uma moeda historicamente forte adota como lastro uma moeda mais inflacionária."

    Novamente, isso não é arbitrário? Faria diferença se ao invés de 1.2 Francos o Euro fosse 1.0 Francos o Dólar? Não interessa apenas a estabilidade da moeda adotada?

    Por fim, não consegui entender a "conclusão" do artigo. Na opinião dos autores, a Suíça não deveria ter fixado a taxa de câmbio em primeiro lugar? Ou deveria apenas ter fixado mais alta?
  • Leandro  21/01/2015 01:20
    Não. Nem uma coisa nem outra.

    Fixar a taxa de câmbio -- algo que só deve ser feito por meio de um Currency Board, e nunca por um Banco Central -- é um recurso extremamente eficaz para países em desenvolvimento, países cujas moedas sempre foram historicamente inflacionárias e fracas, e que nunca usufruíram qualquer credibilidade. Nesse cenário, fixar a taxa de câmbio se torna um recurso extremamente eficaz -- aliás, é o melhor possível -- para se combater a inflação de preços e dar alguma respeitabilidade à moeda.

    No entanto, para um país como a Suíça, que sempre teve uma moeda forte, pouco inflacionada e de enorme prestígio internacional, não apenas não fazia absolutamente nenhum sentido adotar um câmbio fixo, como, pior ainda!, não fazia nenhum sentido adotar um câmbio fixo em relação a uma moeda mais inflacionária. Seria o equivalente ao Brasil fixar a taxa de câmbio do real em relação ao peso argentino ou ao bolívar venezuelano.

    Acho que não dá pra ser mais claro do que isso.
  • Tannhauser  19/01/2015 17:14
    Leandro,

    a China também faz um Currency Board com os dólares americanos? Existe chance da China fazer algo semelhante ao que a Suiça acabou de fazer? Na sua opinião, o que aconteceria com o dólar caso isso ocorresse?
  • Leandro  19/01/2015 18:10
    Mais ou menos. Já foi assim, não é mais. Hoje o BC deixa o renminbi se apreciar continuamente em relação ao dólar. Ele ainda segura bastante; já era pro renminbi estar bem mais valorizado em relação ao dólar.

    Sobre ele querer abandonar por completo a atrelagem e deixar o renminbi flutuar, isso não ocorrerá enquanto a economia chinesa for controlada pelo lobby dos exportadores.
  • IRCR  19/01/2015 17:46
    Leandro,

    Poderia me explicar melhor essa parte que são convertidos em titulos publicos do Euro ?

    To keep the peg intact, the Swiss central bank has been forced to buy massive quantities of euros with newly printed Swiss francs which they promptly converted into Euro government bonds.

    mises.org/library/switzerland-frees-swiss-franc
  • Leandro  19/01/2015 18:01
    O BC suíço compra os euros dos bancos suíços e, em seguida, aplica esses euros em títulos públicos dos governos da zona do euro.

    É exatamente o que faz o BC brasileiro quando ele compra dólares: ele investe em títulos do Tesouro americano.
  • Neto  19/01/2015 19:21
    Parabéns pelo artigo, muito bom.
    .
    São muitos acontecimentos marcantes nesses últimos meses com relação à "guerra cambial". Imagino que os desdobramentos também serão significativos. Aguardemos.
  • Rodrigo  19/01/2015 20:07
    Com a probabilidade cada vez maior de que o Banco Central Europeu irá violar o Tratado de Maastricht e começar a comprar diretamente dos governos dos países periféricos os títulos de suas dívidas, os suíços finalmente perceberam que já era hora de pular fora do arranjo cambial. O que se fala agora é que o BCE irá comprar títulos no valor de um trilhão de euros.

    Este seria o arranjo em que o BC injeta dinheiro diretamente na economia, podendo gerar hiperinflação?

    Pelo o que observo nesses arranjos de moedas fiduciárias, a solvência dos governos é o grande alicerce que garante a sustentabilidade do sistema -- afinal, grande parte das operações envolvem títulos públicos. Caso algum país da Zona do Euro se torne insolvente, poderia isto ocasionar o colapso dessa moeda? Ou, caso isto ocorra com os EUA, poderia isto levar ao colapso do dólar como moeda internacional de reserva?


  • Tio Patinhas  19/01/2015 21:27
    Mas um currency board lastreado em ouro com câmbio fixo não é algo bom?

    Eventualmente o câmbio poderá ficar depreciado, mas com um lastro em ouro, ainda assim não é algo bom adotar um câmbio fixo?
  • Leandro  19/01/2015 22:19
    O grande problema, hoje, de ter um Currency Board lastreado em ouro é que, enquanto o ouro não for adotado pelos EUA (a maior economia do mundo), seu preço continuará extremamente volátil, o que prejudicaria enormemente o país que eventualmente tenha adotado o ouro como âncora.

    Veja: em meados de 2011, o ouro chegou a valer US$1.900. Hoje, ele está na casa de US$1.200. Se um país tivesse adotado o ouro como moeda em 2011, ele já teria perdido quase 37% do seu poder de compra.

    Repito: infelizmente, enquanto o ouro não for adotado como moeda por uma grande economia, ele continuará sendo apenas um ativo especulativo, e não realmente uma moeda.

    Se os principais governos do mundo começarem a vender ouro (por qualquer que seja o motivo), o preço dele desaba, e uma moeda lastreada em ouro sofrerá uma enorme perda do seu poder de compra.

    Se a Rússia, por exemplo, resolver lastrear o rublo em ouro, e os governos ocidentais resolverem retaliar vendendo maciçamente seu ouro, o poder de compra do rublo desaba.

    Ao ancorar uma moeda a um commodity, essa commodity não pode estar sujeita à especulação de outros governos. E o ouro, infelizmente, está. Repito: se a Rússia ancorasse o rublo ao ouro, os EUA e a União Europeia poderiam facilmente desestabilizar o novo rublo ao simplesmente fazer uma liquidação de ouro, vendendo a preços abaixo dos de mercado.

    Na atual situação da Rússia e do rublo, qualquer moeda vale: dólar, euro ou franco suíço.
  • Enrico  21/01/2015 02:03
    Se o BCE ou o BC chinês adotarem o ouro como lastro para suas respectivas moedas, sendo eles os Bancos Centrais das duas maiores economias após os EUA, ainda haveria este risco?

    E no caso da Suíça, que manteve um lastro de 40% do franco em ouro, houve uma reação do tipo no período?
  • Rhyan  20/01/2015 00:11
    Por que esse aumento monetário e aumento de crédito não foi refletido na inflação suíça?
  • Richard  20/01/2015 02:21
    Porque ambos os aumentos não apresentaram um crescimento exponencial, o que significa que ambos cresceram a porcentagens cada vez menores. Se o dinheiro cresce a taxas cada vez menores (um crescimento linear, em termos matemáticos, tem porcentagem decrescente), e a economia também cresce, então não há porque haver aumento na taxa de inflação de preços.
  • Rhyan  20/01/2015 04:43
    Ah, valeu! Então o modelo de crescimento inflacionário do Milton Friedman não geraria inflação de preços?


  • Yonatan Mozzini  20/01/2015 00:55
    Leandro e equipe IMB

    Uma dúvida: o Banco Central suíço, para manter a paridade desvalorizada de antes, também praticava esterilização ou, por algum motivo, simplesmente os bancos preferiam não efetuar muitos empréstimos (semelhantemente ao caso norte-americano após a crise de 2008, sendo que, mesmo inundados de dólares, de reservas em excesso, os bancos estavam receosos em emprestar)?

    Obrigado e parabéns pelo artigo e pelo recente podcast!
  • Leandro  20/01/2015 02:34
    Simplesmente não saíram emprestando a rodo. E isso tem uma explicação.

    Uma coisa que poucas pessoas ainda não perceberam é que, ao contrário da intuição normal, juros excessivamente baixos acabam restringindo a expansão do crédito. E a lógica é simples.

    Se os juros estão em, por exemplo, 50% ao ano, então os bancos podem se dar ao luxo de ser menos cautelosos na concessão de empréstimos e sair emprestando para qualquer um. É a mesma lógica do agiota: se você emprestar para pessoas com histórico de crédito duvidoso, cobre juros altos; quanto mais altos os juros, mais você empresta para pessoas assim. Nesse cenário, a expansão do crédito pode acabar aumentando.

    Por outro lado, quanto mais baixos os juros, mais criteriosos e cautelosos os bancos têm de ser. Se os juros são muito altos e o mutuário dá calote em algumas prestações, tudo bem; desde que ele pague as outras, o banco ainda tem lucro. Já com juros baixos, qualquer atraso na prestação já afeta severamente a possibilidade de lucro do banco. Em um cenário de juros zero, apenas pessoas e empresas com excelente histórico de crédito conseguem empréstimos.

    Por isso esse aparente paradoxo entre juros zero, crescimento do crédito quase nulo e inflação de preços zero.
  • Henrique  11/05/2015 15:00
    Pensando nessa linha, Leandro, por que o que ocorreu no Brasil quando a gerentona resolveu fixar a SELIC em 7,25% foi exatamente o oposto? Os empréstimos automotivos explodiram (e com eles, a inadimplência também).
  • Leandro  11/05/2015 15:48
    Ao contrário, Henrique: foi justamente em 2012, e mais acentuadamente a partir do segundo semestre daquele ano, que a concessão de empréstimos para a compra de veículos pelos bancos privados se estagnou por completo.

    Infelizmente não há como colocar um link direto para o gráfico aqui, mas se você for à seção de séries temporais do Banco Central e digitar as séries 971 e 20581, verá perfeitamente o gráfico dessa evolução.

    A concessão de crédito pelos bancos privados para a aquisição de veículos explodiu em 2010 e 2011, estagnou-se totalmente em 2012, manteve-se estagnada em 2013, passou a se contrair em 2014, e segue caindo em 2015.

    Pode conferir lá: séries 971 e 20581.
  • Henrique  11/05/2015 17:08
    Ok, acabei de conferir e a informação realmente confere.

    Agora ficou realmente confuso uma coisa pra mim: aqui nesse mesmo site é defendido que uma farra creditícia irá levar inevitavelmente à inflação (e aí pode ser no IPCA, ou nos índices do mercado financeiro).

    Isso parece contradizer o que é argumentado neste artigo:

    Se juros muito baixos desestimulam os empréstimos de risco por parte do setor bancário, como isso pode acelerar a injeção de dinheiro na economia e ocasionando a inflação?

    Conforme este gráfico, os empréstimos ao setor privado continauram inabalados mesmo com a redução nas taxas de juros.

    Tudo bem que neste artigo você atribui a carestia aos bancos públicos, que não são impactados pelas variações na SELIC e emprestam dinheiro a torto e a direito, mas ainda parece algo inconsistente na minha cabeça.

    Algumas considerações:

    1. Dado que não existissem a CEF, o BB e o BNDES, se a dona Dilma resolvesse fixar os juros em, sei lá, 7%, ao invés de estimular a atividade econômcia, ela estaria na verdade fazendo com que os bancos fossem mais cautelosos ao fazer empréstimos o que, por conseguinte, iria deprimir a economia ao invés de estimulá-la. Correto?

    2. Se juros baixos demais não estimulam a concessão de crédito, por que se atribui à farra creditícia a culpa pelos ciclos econômicos, mesmo em países onde o crédito não é estatizado?

    Grato mais uma vez.
  • Leandro  11/05/2015 18:10
    Vou tentar ser bem claro no preâmbulo.

    Quando um Banco Central estipula a taxa básica de juros de economia, ele está, na prática, decretando um controle de preços.

    Banco Central estipular juros nada mais é do que uma agência governamental controlando o preço do crédito.

    Como ensina a teoria econômica, se o preço de algo for decretado a um valor acima do de mercado, haverá muita oferta e pouca demanda. Inversamente, se o preço de algo for estipulado a um valor abaixo do de mercado, haverá um excesso de demanda, mas pouca oferta.

    Se a prefeitura da sua cidade estipular que o valor dos alugueis, de qualquer imóvel e em qualquer ponto da cidade, está congelando em $100 por mês, o que acontecerá com a demanda por imóveis? Garanto que vai explodir. Mas o que acontecerá com a oferta? Garanto que vai encolher.

    E se a prefeitura fizer o contrário, e estipular que o valor dos alugueis, de qualquer imóvel e em qualquer ponto da cidade, está congelando em $100.000 por mês? Garanto que a oferta vai explodir, mas a demanda vai desaparecer.

    Com o preço do crédito ocorre a mesmíssima coisa (só que apenas para bancos privados; os bancos estatais operam sob ordens políticas, e não de acordo com as reais condições de mercado).

    O que acontece se o preço do crédito for decretado em um valor acima do de mercado? A oferta será ampla, mas haverá pouca demanda por empréstimos. E se o preço do crédito for decretado em um valor abaixo do de mercado? A demanda por empréstimos será alta, mas a oferta será escassa.

    Agora, vamos às suas perguntas:

    "aqui nesse mesmo site é defendido que uma farra creditícia irá levar inevitavelmente à inflação (e aí pode ser no IPCA, ou nos índices do mercado financeiro)."

    Corretíssimo. Farra creditícia gera todos os problemas apontados pela teoria. Você está apenas confuso quanto à correlação entre farra creditícia e taxa de juros, que não é tão direta quanto muitos acreditam.

    É perfeitamente possível haver farra creditícia em um cenário de juros crescentes (toda a bolha imobiliária americana ocorreu em um cenário de juros crescentes, com a Selic deles indo de 1% para 5,25%; quanto mais os juros subiam, mais o crédito se expandia), bem como é perfeitamente viável não haver nenhuma expansão do crédito em um cenário de juros nulos (como o atual cenário europeu e até mesmo o atual cenário americano, em que a expansão do crédito está ocorrendo a taxas mínimas históricas; daí a total ausência de inflação de preços).

    Portanto, eis as primeiras conclusões:

    1) Se as taxa de juros sobem, mas os empréstimos se expandem, então está claro que o preço do crédito ainda não encareceu o bastante para desestimular a demanda, mas já está alto o bastante para estimular sua oferta.

    2) Se as taxa de juros sobem, e os empréstimos se contraem, então está claro que o preço do crédito já encareceu o bastante desestimular a demanda (nada se sabe sobre a oferta).

    3) Se as taxas de juros caem, e os empréstimos se expandem, então está claro que o preço do crédito ainda está alto o bastante para estimular a oferta, mas já está baixo o bastante para também estimular a demanda.

    4) Se as taxas de juros caem, mas os empréstimos não se expandem, então está claro que o preço do crédito já está baixo o bastante para desestimular sua oferta (nada se sabe sobre a demanda).


    Só por aí já dá para você entender por que é absolutamente impossível colocar uma agência governamental para decretar o preço do crédito e imaginar que ela irá acertar exatamente qual é o valor que equilibrará todas essas variáveis e levará a economia a um perfeito ponto de equilíbrio.

    Continuando:

    "Dado que não existissem a CEF, o BB e o BNDES, se a dona Dilma resolvesse fixar os juros em, sei lá, 7%, ao invés de estimular a atividade econômcia, ela estaria na verdade fazendo com que os bancos fossem mais cautelosos ao fazer empréstimos o que, por conseguinte, iria deprimir a economia ao invés de estimulá-la. Correto?"

    Se a Selic fosse repentinamente derrubada, o que aconteceria seria uma súbita desvalorização da taxa de câmbio. Afinal, não haveria absolutamente nenhum motivo para os investidores e especuladores aplicarem aqui. A taxa de inflação de preços está acima de 8%, os títulos públicos renderiam bem menos do que isso, e ainda haveria toda a desvalorização cambial para aniquilar de vez qualquer chance de retorno financeiro.

    Essa desvalorização cambial, além de afugentar novos aportes de capital estrangeiro, geraria uma enorme carestia dentro do país, possivelmente uma hiperinflação.

    Nesse cenário, haver ou não expansão do crédito é totalmente secundário. A economia já estaria completamente desarrumada.

    "Se juros baixos demais não estimulam a concessão de crédito, por que se atribui à farra creditícia a culpa pelos ciclos econômicos, mesmo em países onde o crédito não é estatizado?"

    Já explicado lá em cima, no começo dessa minha resposta. A farra creditícia gera os ciclos econômicos; você está apenas confuso quanto à correlação entre farra creditícia e aumento/diminuição dos juros. Tal correlação não é tão direta quanto muitos imaginam.
  • Henrique  11/05/2015 20:45
    Haha, é nessas horas que vejo que realmente ainda tenho muito a aprender.

    Creio que agora compreendi perfeitamente o mecanismo como você descreveu.

    De fato, dá-se tanta importância à taxa de juros fixada pelo Bacen que fica difícil perceber como realmente se dão as interações das forças do mercado.

    Aliás, um artigo mais elaborado explicando essa (ausência de) correlação entre juros e expansão do crédito seria de uma utilidade pública inestimável, um verdadeiro tapa na cara de quem acha que é a SELIC que governa a economia.

    Sei que é chover no molhado, mas agradeço mais uma vez a didática e a paciência. Seu trabalho é inestimável e espero que um dia seja apreciado como tal.
  • Neto  11/05/2015 21:45
    Alguns comentários chegam a superar os próprios artigos.
    Esse seu comentário, por exemplo, daria um bom artigo, como disse o colega acima.
    Fica a sugestão.
    +1
  • Cassiano Correia  20/01/2015 02:47
    "Todo esse incidente suíço foi uma boa prévia sobre o que poderia acontecer com o dólar americano caso o BC chinês resolva adotar uma medida similar."

    Leandro, partindo dessa perspectiva, até que ponto a China poderia interferir na economia americana?

    Obrigado!
  • Rhyan  20/01/2015 04:46
    "Todo esse incidente suíço foi uma boa prévia sobre o que poderia acontecer com o dólar americano caso o BC chinês resolva adotar uma medida similar."

    Eu aproveito pra perguntar: Por que o Peter Schiff no livro Como a economia cresce e porque ela quebra coloca a China como a mais idiota da história recente do Fed? Ele estava apostando na hiperinflação ou na crise da dívida pública? Qual o risco maior da China em apostar no dólar?
  • Gosling  20/01/2015 06:14
    Porque a China, ao manter sua moeda subvalorizada em relação ao dólar para estimular as exportações, priva seu próprio povo de usufruir esses produtos que são exportados a preços baixos.

    Se o BC chinês permitisse que o renminbi se apreciasse em relação ao dólar, não apenas os chineses poderiam importar mais como eles também poderiam consumir mais do próprios produtos que hoje são fabricados exclusivamente para ser exportados para os americanos.

    Ou seja, o chinês comum está sendo duplamente prejudicado.
  • ADE  20/01/2015 08:16
    Desde que data o Franco estava atrelado ao Euro? o cambio era semi-fixo neh?
  • patricio  20/01/2015 10:52
    o BC chinês funciona como um currency board ?
  • Rhyan  21/01/2015 00:06
    Sim, mas com um pacote de moedas, que eu saiba.
  • anônimo  20/01/2015 12:19
    "Além desse novo programa de estímulos do BCE, ha um mercado russo em frangalho, há as vindouras eleições gregas (lideradas, por enquanto, por um partido de esquerda radical), e há a queda nos preços do petróleo. Tudo isso fez com que investidores estrangeiros corressem para o porto seguro que os ativos suíços ainda representam. Caso a taxa de câmbio se mantivesse imexível, haveria uma enxurrada na base monetária."

    'imexivel': lembram do ministro antonio rogerio magri? ta mal acompanhado leandro! hihihi
  • Thiago2  21/01/2015 12:46
    Não sei se o Leandro ainda está respondendo mas gostaria de fazer uma pergunta sobre o Real, até onde vai a desvalorização da moeda Brasileira em relação ao Dólar?
  • Leandro  21/01/2015 16:15
    Não sei. Mas não apostaria em novas desvalorizações acentuadas, ainda mais com um novo aumento da SELIC (que ocorrerá hoje à noite) e a expectativa de que o Banco Central Europeu voltará à carga total com novos estímulos.
  • Al  21/01/2015 13:42
    Leandro,

    o SNB nao vinha esterilizando essas compras de euro? Ou seja, após comprar os euros, ele não vendia títulos públicos em sua carteira para retirar francos do mercado?

    Poderia ser esse um dos motivos dessa reversão? Falta de títulos em seu balanço? (imagino que o governo da suíça nao seja deficitário como o nosso)
  • Leandro  21/01/2015 16:14
    Não havia esterilizações, e o gráfico 2 do artigo mostra isso claramente. Mesmo porque se houvesse esterilizações seria impossível manter o franco depreciado em relação ao euro. O que permite a depreciação de uma moeda forte em relação a outra é justamente sua abundância no mercado de câmbio. Se o BC suíço esterilizasse, ele geraria escassez de francos, impossibilitando sua depreciação perante o euro.
  • Emerson Luis  24/01/2015 11:27

    A mídia (mesmo a especializada) sempre fala da valorização e desvalorização do dólar como quem fala da previsão do tempo: como algo provocado pelas forças impessoais da natureza, perante as quais os seres humanos só podem aceitar e se adaptar. Ou, quando muito, atribuem toda a responsabilidade aos agentes externos.

    * * *
  • Investor  29/01/2015 20:33
    Tche, depois de ler o artigo e ver essa bandeirinha dos suíços resolvi passar a última meia hora catando os dados para ver nos últimos 5 anos (na data exata) qual foi a diferença entre um infeliz brazuca na bolsa daqui e quem fez a mesma coisa por lá na Suíça, com todas as oscilações de cambio e etc. É impressionante e colossal a diferença! Eu já tinha em outras vezes me emocionado com o mercado externo para investir mas devido aos altos custos e principalmente a ESTUPENDA burocracia envolvida, desisto sempre... Mas, olhem o IBOV x Bolsa Suíça+franco suíço x DAX (Alemanha)+ euro:
    Resultado em 5 anos em reais no fechamento de hoje.
    -> IBOV -26,97% (perdeu prei!)
    -> Suíça +180,08% (uhul)
    -> DAX +206,55% ó aí os alemones-ximones dando-lhe pau Marco véio!

    Pergunta: entre os iluminados do site, existe alguma maneira de alguém não-milionário ter acesso a esses mercados?? Única alternativa que pensei viável seriam as tais BDRs mas isso é ridículo, não há liquidez e poucas opções para escolher também... é triste ser tupiniquim!
  • marcos  30/01/2015 11:57
    A partir de 1.o de julho de 2015 todo investidor qualificado (R$ 1MM em ativos - ainda é alto, eu sei) poderá investir em fundos com exposiçao de 100% no exterior.

    Algumas gestoras (JP Morgan, Claritas, HSBC) ja têm produtos com esse perfil.

    O investimento mínimo nos fundos (que hj é necessariamente R$ 1MM) vai cair para R$ 10k, R$ 50k ao sabor da decisao de cada gestor. Mas o investidor precisa ser qualificado de qquer maneira.

    Ou seja, mais uma evidencia de que o Estado distorce e acaba privilegiando que tem mais dinheiro

    A classe media fica sem várias opcoes.
  • Hugo  02/02/2015 00:46
    Leandro pode-se dizer que esse arranjo cambial e monetário da Suíça era bom para a zona do Euro pelo fato dela depositar as reservas em dívidas da zona do euro?
  • Leandro  02/02/2015 11:24
    Perfeitamente. Como o BC suíço comprava títulos da dívida desses países, ele era um farta fonte de financiamento. Agora isso secou.
  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza  30/03/2015 23:10
    Como seria lindo ver a quebra de todos os bancos centrais do mundo!
  • Mohamed Attcka Todomundo  12/05/2015 14:31
    faço coro leandro. eh mesmo um tema q dá nó na cabessa dagente. seria um bom artigo p/ esclarecer teoria, q nem akele seu sobre preferencias temporais.

    o neto tem razão, a gente acaba tendo q ler os comentarios inteiros p/ ñ perder nenhum detalha
  • Diego M  31/08/2015 13:55
    LEANDRO,

    Não sei se alguém já fez essa pergunta, mas ficaria grato se desse sua opinião:

    Teríamos vantagens em relação ao dólar, pior ou melhor, se o Brasil ancorasse o Real ao Franco Suíço ??? Ou, se o Real tem que se ancorar em alguma moeda, essa seria o dólar mesmo ??

    Abraços.
  • Leandro  31/08/2015 19:28
    Na nossa atual situação, ancorar-se ao dólar já seria excelente -- embora, receio, já muito tardio.

    Ancorar-se ao dólar tem a vantagem de que, dado que o dólar é a moeda internacional de troca, o comércio externo fica facilitado.

    Ancorar-se ao franco suíço teria dois empecilhos:

    O primeiro é de ordem prática: arrumar reservas em franco que cubram a base monetária. Dado o tamanho da Suíça e o tamanho do Brasil, seria um tanto improvável que fosse possível. (Mas posso estar enganado nessa).

    O segundo é uma questão de comodidade. Vou tentar explicar:

    1) Um exportador vende soja e recebe US$ 1.000 (na prática, ele se torna proprietário de uma conta no exterior no valor de US$ 1.000);

    2) Ele agora tem três opções: a) ele pode manter os US$ 1.000 nessa conta durante o período de tempo que ele quiser; b) ele pode vendê-los para qualquer banco no Brasil em troca de reais à cotação do dia; c) ele pode vendê-los por francos e então trocar por reais no Currency Board.

    3) Caso opte pela opção b, o banco ficará com os US$ 1.000, e criará reais na conta do exportador à taxa de câmbio do dia. Ato contínuo, o banco pode optar por ficar com os US$ 1.000 ou trocá-los por francos, revender os francos ao CB e ganhar reservas em reais (a taxa de câmbio entre francos e reais é fixa).

    4) Caso opte pela opção c, o CB simplesmente deposita reais em sua conta bancária no Brasil.

    Ou seja, cria-se um passo a mais para que os bancos troquem dólares por reservas em reais: eles têm de trocar dólares por francos suíços, e só então eles ganharão reais do Currency Board.

    Nada de mais, é claro, mas é uma pequena chateação. Dado que a esmagadora maioria das transações comerciais é realizada em dólar e euro, sempre haveria essa chateação.

    Não obstante, tudo isso é mais do que compensado por estes dois benefícios:

    1) Inflação de preços suíça;

    2) Moeda plenamente conversível, garantindo que sempre seja possível fazer importações (algo que, por exemplo, a Venezuela já não consegue).

    É no processo de importação que o CB se revela essencial.

    No processo de importação tradicional, o importador tem de conseguir alguém disposto a trocar a moeda nacional pela moeda estrangeira. Caso ninguém esteja disposto a isso (como está acontecendo na Venezuela neste momento; e em menor grau na Argentina), simplesmente não há importação.

    Já com um CB, a moeda nacional se torna automaticamente conversível. Não há risco de ela não ser aceita e de ela não conseguir comprar bens estrangeiros.

    Com um CB, basta o importador vender seus reais para o CB. Ele conseguirá francos em troca e então poderá trocar esses francos por qualquer moeda estrangeira que quiser, podendo então fazer sua importação.
  • Yonatan Mozzini  31/08/2015 20:27
    Leandro, desculpe se meu comentário não estiver no contexto de comentários deste artigo, mas já que você está falando a respeito, gostaria de te fazer uma pergunta: você considera factível um currency board para o Brasil lastreando meio a meio o Real pelo ouro e pelo dólar (com uma nota de cem reais sendo lastreada por, digamos, meio grama de ouro e vinte dólares)? Seria uma ideia possível e viável? Pois creio que capacidade técnica (reservas em dólares, principalmente) para isso o BACEN já possui.

    É que eu estou fazendo minha monografia com esse tema. Dado que o dólar é a moeda mundial de troca, a alta volatilidade do ouro com relação a ele seria bastante amenizada, ajudando em muito o comércio internacional do Brasil. E como o ouro é um ativo que ganha poder de compra de compra ao longo do tempo, mas muitas vezes de maneira súbita, o ganho de poder de compra dos brasileiros seria bastante elevado, além de não estar sendo totalmente dependentes da política monetária americana.
  • Tiago  14/09/2016 23:27
    Pessoal, boa tarde.
    Alguém me indica uma leitura para me ajudar a compreender a dinâmica de valorização e desvalorização cambial?
    Só para ficar claro. Não me refiro a política cambial (taxa fixa ou variável) e sim a forma como uma moeda ganha ou perde valor no mercado internacional.
    Desculpem se os termos não estiverem adequados, sou formado em direito e estou tentando aprender mais sobre economia.
    Abraços
  • Auxiliar  14/09/2016 23:54
  • PEPINO MACOSSO  18/01/2018 07:31
    O Artigo é bem interessante, de tudo quanto explicado sobre as consequências da desvalorização da moeda num determinado país, parace não ter vantagens o que n-ao creio, portanto gostaria de saber quaus são as possíveis vantagens para os países em desenvolvimento. Por outro lado, será que a taxa fixa pode ser solução?
  • Vladimir  18/01/2018 11:48
    Não há nenhuma vantagem em se destruir a moeda e fazê-la valer menos. Ao contrário: só há desvantagens.

    Sobre isso, artigos cruciais:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2175

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2378

    www.mises.org.br/BlogPost.aspx?id=2277

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2033


    Sobre o câmbio fixo, só há uma maneira de fazê-lo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2196
  • Rodrigo Gabriel Melati  15/03/2018 13:22
    Alguém poderia me explicar o trecho abaixo?

    "Não obstante essa explosão da base monetária, o ritmo de empréstimos concedidos pelos bancos suíços, e consequentemente a quantidade de francos suíços entrando na economia suíça, seguiram crescendo ao seu ritmo natural, o que explica a ausência de uma inflação de preços no país"

    Se houve uma expansão monetária e continuaram os níveis de crédito, não deveria sim acontecer um processo inflacionário?

    Abs
  • Thomas Jordan  15/03/2018 14:02
    A base monetária é composta pelas cédulas de papel e pelas reservas bancárias. As reservas bancárias representam o dinheiro (eletrônico) dos bancos retido no Banco Central. Esse dinheiro não entra na economia.

    A explosão da base monetária suíça significou simplesmente uma explosão nas reservas bancárias. Os bancos mantiveram esse dinheiro parado no Banco Central. Esse dinheiro não entrou na economia.

    Por isso não houve inflação de preços. A quantidade de dinheiro que explodiu foi a quantidade de dígitos eletrônicos presa num cofre no Banco Central, e não a quantidade de dinheiro na economia (esta manteve sua tendência histórica de crescimento, sem aceleração).

    Eis a evolução da base monetária:

    d3fy651gv2fhd3.cloudfront.net/charts/switzerland-money-supply-m0.png?s=switzerlanmonsupm0&v=201802171008v&d1=19180101&d2=20181231


    Eis a evolução da quantidade total de dinheiro:

    d3fy651gv2fhd3.cloudfront.net/charts/switzerland-money-supply-m3.png?s=switzerlanmonsupm3&v=201802241011v&d1=19180101&d2=20181231


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