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Estatolatria - esse grande mal que nos rodeia pode ser derrotado

Há alguns dias, recebi um email de um leitor que me perguntava sobre algo com que todos nós já tivemos de lidar.  Eis um trecho:

A coisa fica meio depressiva às vezes.  Há momentos em que me sinto meio rancoroso, e há momentos que simplesmente fico totalmente irritado com o fato de que são pouquíssimas as pessoas que entendem ou se importam com economia e/ou filosofia, quando ambas são extremamente importantes.

Sou totalmente solidário com o sentimento deste leitor, obviamente, dado que eu mesmo já me senti exatamente assim várias vezes.  No entanto, como eu sempre digo, o segredo está na perspectiva.  Todos nós já reclamamos daquelas pessoas que "simplesmente não entendem o problema"; porém, o real problema é que somos nós que realmente ainda não entendemos o problema.

Temos subestimado completamente o tipo de luta em que estamos.  Pensamos que ela se resumia apenas a economia e política; só que é muito mais do que isso.  A nossa verdadeira batalha é contra a idolatria.  Se inicialmente isso não faz sentido para você, não o culpo; apenas permita-me explicar melhor essa minha conclusão.

Toda e qualquer idolatria possui a mesma e única raiz

Todos nós já ouvimos slogans como este:

Por que não deveríamos tributar o dinheiro de um milionário que não precisa dele e utilizar esse dinheiro para alimentar uma criança faminta?

Após isso, é praticamente impossível oferecer qualquer contra-argumentação sem que sejamos tachados de insensíveis.  E há um bom motivo para isso: o slogan carrega uma espécie de "monopólio moral" que é manipulador e fraudulento.  Idólatra, na verdade.

Esse argumento parte da implícita suposição de que o estado está além do questionável, e que qualquer falha tem de ser atribuída a algum outro ente.  Se há pobres e crianças famintas, então jamais pode o estado ser o culpado por isso.  Tal tipo de pensamento é simplesmente inconcebível para essas pessoas.

Arraigada neste tipo de pergunta (e na mentalidade das pessoas que fazem esse tipo de pergunta) está a total e inabalada certeza de que o estado sempre funciona como o agente do bem.

Isso é idolatria, e está no mesmo nível de povos antigos que adoravam deuses urbanos ou de pessoas medievais que consideravam sua Santa Igreja acima de todo e qualquer questionamento.  Da mesma maneira, estados e governos são ídolos para as pessoas modernas.  A linha de pensamento é idêntica; a única coisa que muda são os nomes dos ídolos — as entidades que recebem o benefício da dúvida continuamente.

O estado, nosso ídolo moderno, rouba quase metade de tudo aquilo que um trabalhador ganha.  Isso significa que as pessoas são explicitamente espoliadas pelo simples fato de estarem fazendo a coisa certa (trabalhando).  Mas não há qualquer compaixão por elas.

E por que não há compaixão por essas pessoas?  Porque é o estado quem as está despojando, e o estado jamais pode ser condenado.  Afinal, ele só pode ser um agente do bem!

No final, tudo realmente se resume a isso:

Qualquer coisa que você aprecie mais elevadamente do que a realidade é o seu deus.

Em nossa atualidade, a coisa que é estimada acima da realidade é o estado.  As pessoas podem até criticar alguns de seus aspectos ou alguns de seus integrantes, mas o estado como um todo, como uma entidade, é algo que só é questionado por pessoas malucas e perigosas.  Em outras palavras, por hereges.

Essa entidade contra a qual lutamos é diferente daquele dogma que mantinha as mentes medievais acorrentadas.  A batalha é muito pior agora.

Nossos inimigos entenderam melhor do que nós

Todos nós já tivemos de lidar com pessoas que defendem tão resolutamente a necessidade da existência do atual sistema estatal, que reagem insana e virulentamente ao ouvirem nossas ideias.  Pensávamos estar apenas falando sobre economia, mas elas reagiram como se estivéssemos tentando destruir tudo aquilo que elas mais amam.

Em outras palavras, nossos inimigos veem nossas ideias como sendo ainda mais poderosas do que nós mesmos acreditamos que sejam.  E eles estão certos; somos nós que ainda não entendemos corretamente o que temos em mãos.

Todos os governos necessariamente agem contra a vontade humana.  Se eles não forem capazes de fazer com que tenhamos vergonha de nossos desejos e juízos, então toda a justificativa para a existência de governo corre o risco de entrar em colapso.  O jogo requer que o cidadão comum se sinta inseguro e cheio de defeitos; o jogo requer que ele precise de uma babá.  Nossa mensagem simplesmente destroça toda essa fraude.

Nossos inimigos estão absolutamente corretos em nos temer e em reagir virulentamente.  E nós deveríamos começar a aceitar o fato de que nossas ideias são poderosas.

As grandes batalhas são vencidas lentamente

Alguns libertários são ansiosos e desejam ardentemente por uma "revolução", o que significa que eles querem mudanças rápidas.  Estes irão se desapontar, pois isso não ocorrerá.  As mudanças, sempre e necessariamente, são lentas.  Quem não preparar a mente e as expectativas para este fato, inevitavelmente enfrentará profundas frustrações.

Nossas ideias são grandes, e nossos inimigos já conquistaram boa parte da mente de nossos amigos, familiares e vizinhos.  Isso significa que a maioria deles não irá mudar de ideia da noite para o dia.  É assim que a coisa funciona, por mais doloroso que seja admitir.  Tudo será muito lento.

Porém, nesta lenta batalha, temos a carta na manga, que é o poder das ideias, e nossa estratégia vencedora é trabalhar duro e perseverar.  Esqueça a possibilidade de vitórias rápidas; isso sempre foi uma ilusão.  É necessário construir, e continuar construindo.

O que fazer

A seguir, algumas sugestões específicas para lidar com as pessoas:

  • Em vez de utilizar palavras, mostre às pessoas o que você já alcançou; ou dê exemplos práticos de terceiros.
  • Dê às pessoas tempo para pensar melhor suas ideias.  Plante a semente, dê um tempo, e retome o assunto apenas algum tempo depois.
  • Não entre em brigas.  Se você cair em uma emboscada, simplesmente diga ao inimigo que você não aceitará tais táticas.  E então saia.
  • As pessoas mais próximas de você são suas amigas por algum bom motivo.  Seja paciente e dê tempo a elas.
  • Lembre-se de que a maioria das pessoas está sempre confusa e insegura.  Ofereça a elas coisas que ajudem, e não coisas que prejudiquem.
  • Encontre outras pessoas que compartilhem ao menos algumas de suas perspectivas, e então trabalhe com elas.  Se não houver ninguém assim ao seu redor, entre em algum grupo de internet.

Continue plantando sementes e regando-as sempre que possível.  Para nós, a perseverança é o caminho para a vitória.



autor

Paul Rosenberg
é o presidente da Cryptohippie USA, uma empresa pioneira em fornecer tecnologias que protegem a privacidade na internet.  Ele é o editor FreemansPerspective.com, um site dedicado à liberdade econômica, à independência pessoal e à privacidade individual.


  • Daniel  02/07/2014 14:56
    Esse texto é muito bom. Me lembra bastante o seguinte artigo: www.mises.org.br/Article.aspx?id=1841.

    A questão é que provavelmente não estaremos aqui pra ver a sociedade que propomos, mas isso não deve ser motivo para acomodação. O mais importante é sabermos como "recrutar" pessoas para o nosso lado e evitar as tais "emboscadas" e ter em mente que algumas pessoas, por mais que você tente, não querem e não vão mudar.
  • Silvio  02/07/2014 17:32
    Acho que ninguém aqui tem a intenção de viver para ver um Brasil com liberdade, a menos que alguém aqui acredite que vá viver tanto quanto o cavaleiro cruzado do filme do Indiana Jones. Mas acho possível sim que ao menos consigamos um pedaço de chão (no Brasil ou em qualquer lugar do mundo, tanto faz) para poder ir e tentar viver em liberdade. Tenho para mim que essa é uma esperança que um libertário nos dias de hoje pode aspirar a se tornar realidade em seu tempo de vida. Mais do que isso, admito, é "forçar a amizade".
  • João  02/07/2014 15:11
    ganhar dinheiro é feio, já dizia a igreja e os governantes populistas

  • Jeferson  02/07/2014 15:17
    Artigo maravilhoso. Lembra um pouco a minha própria experiência, que desde conhecer o Mises até me tornar um libertário (se é que posso me dizer libertário... me considero minarquista, mas não por achar que é um arranjo superior ao anarquista, e sim por achar difícil, senão impossível, eliminar completamente o estado) levei quase 2 anos lendo artigos diariamente. De conhecer o Mises até começar a comentar fazendo perguntas, levei quase um ano, e ainda tive que aturar arrogantes e irritadinhos que me consideravam um desonesto intelectual simplesmente porque me faltava o embasamento necessaria para entender as idéias que destruiriam a doutrinação estatista que recebi desde criança.

    Se nossa batalha é no campo das idéias, dificilmente uma tática diferente da apontada pelo autor vai funcionar. E, realmente, nunca havia pensado no problema dessa forma: idolatria. Isso explica por que os chavões e campanhas com apelo puramente emocional do estado possuem tanto efeito. Mas a razão tem o poder de direcionar as emoções das pessoas para o lado certo, e é nossa tarefa fazer isso.
  • Tiago RC  02/07/2014 16:21
    se é que posso me dizer libertário... me considero minarquista, mas não por achar que é um arranjo superior ao anarquista, e sim por achar difícil, senão impossível, eliminar completamente o estado

    Defender um cenário não implica em acreditar que esse cenário venha a se concretizar. Afinal, você acredita que um dia o mundo se livrará de toda ocorrência de homicídio doloso? Se não acredita, por acaso você defende uma taxa mínima de assassinatos para que o mundo continue funcionando?

    Talvez esse artigo lhe interesse: www.mises.org.br/Article.aspx?id=215
  • anônimo  02/07/2014 19:26
    Perfeito Tiago.
  • Jeferson  03/07/2014 14:24
    Tiago, então, pelo que você diz, eu sou libertário, não minarquista. Embora acredite com muita convicção que nem meus bisnetos verão um mundo como eu gostaria que ele fosse, e que o estado é um mal que por muito tempo continuará sendo inevitável. Talvez deixe de sê-lo quando a opinião global mudar, a população do mundo se voltar contra seus governos, e a ONU for extinta à força pelas pessoas, dentre outras coisas que precisam acontecer até lá.
  • Emerson Luis, um Psicologo  02/07/2014 17:46

    Segundo certo dicionário, "idolatria" é (1) apego excessivo a algo ou alguém; (2) atribuir qualidades e capacidades sobre-humanas a algo ou alguém. Aplica-se perfeitamente à forma como muitos encaram o Estado. É realmente uma guerra por corações e mentes que tem de ser travada com paciência, empatia, equilíbrio e bom senso.

    * * *
  • anônimo  02/07/2014 19:35
    "pessoas são explicitamente espoliadas pelo simples fato de estarem fazendo a coisa certa (trabalhando). Mas não há qualquer compaixão por elas."

    Não somente espoliadas como por muitas vezes criminalizadas por estar fazendo a coisa certa.
  • Wanderson  02/07/2014 18:17
    Excelente texto. Esclarecedor e educativo. Registro apenas uma ressalva quanto ao polilogismo sempre presente quanto se trata de avaliar historicamente a Igreja. Dependendo da situação dizem que os clérigos achavam "feio" ser rico, outras vezes diziam que os clérigos diziam que ser pobre, apesar de ser "feio" era necessário e que as riquezas, apesar de belas, são muito mais ricas e belas no outro mundo. Por sua vez, a doutrina afirma que ser rico ou pobre não é defeito nem qualidade, por si. Então, temos toda uma miríade de opções a gosto do freguês. Como o critério muda de acordo com a intenção, nunca gostei muito desse tipo de avaliação esteriotipada a respeito da Igreja.
  • Silvio  02/07/2014 21:43
    Esse negócio de "temos toda uma miríade de opções a gosto do freguês" não casa com a Igreja. Pode-se dizer que seus clérigos pregam uma coisa ou outra e que seus fiéis têm opiniões diversas, mas, independentemente disso, a Igreja tem suas posições definidas. Por exemplo, a Igreja é contra o aborto, mas, se alguns clérigos pregam o "direito de decidir" e se muitos fiéis acham que a Igreja está falando besteira nesse assunto, aí é outro problema.
  • Cesar Massimo  03/07/2014 07:32
    Wanderson
    Bela colocação.
    Paul Rosemberg nos mostrou os idólatras do estado. Os inimigos da Igreja agem da mesma forma e os cooptados certamente não são capazes de perceber. Então não podemos recuar quando uma explicação tão clara quanto a sua for atacada.
    À exceção da pregação de alguns hereges da libertação que foram descobertos e postos a correr, nunca foi errado ser rico. Nem pobre.
  • Fabio  02/07/2014 18:47
    É como eu sempre falo. A igreja e o estado são praticamente sinonimos,e por isso é que eu digo. Existe estado sem Deus,porem não existe Deus sem estado. Paises comunistas conseguem isso sem igreja e deus,porem a igreja não sobrevive sem estado.
  • anônimo  02/07/2014 21:25
    O Paul Rosemberg acerta em cheio novamente. Para quem entende inglês, o blog dele é uma ótima leitura.
  • João Girardi  02/07/2014 22:08
    Para aqueles liberais que necessitam de informações e querem aprofundar seu conhecimento sobre as táticas do inimigo, recomendo que leiam também o blog Ceticismo Político do Luciano Ayan, em que ele desmascara e detona várias "rotinas" que a esquerda e alguns neo-ateus utilizam para intimidar seus oponentes no debate.
  • Marcelo  03/07/2014 00:09
    Ao João Girardi.
    Não misture as coisas assim, por favor. Ateu com politica igual: esquerdista. Cara, você necessita urgente de leituras sobre filosofia, sociologia, antropologia, economia, entre outras muitas. Não é através de resumos simplórios que terá visão ampla das coisas. Ou seja, faça aquilo que o autor deste ótimo texto sugeriu. Basta ler com atenção e procurar outros assuntos relacionados ao tema proposto. Para teu conhecimento, todos nós somos ateus. Eu creio no Deus Thor. E você crê que ele exista? Eu acredito! Comece com você a mudança!
  • anônimo  03/07/2014 13:20
    Marcelo, faço coro com o João: o blog do Luciano Ayan é uma ótima leitura. E faço uma ressalva: uma das principais entre "nós" e os estatistas, principalmente os esquerdistas, é que sabemos, ou ao menos deveríamos saber, separar política, religião e economia.
  • Diogo  03/07/2014 19:49
    Se o "nós" refere-se aos libertários, o "todos" está errado, pois eu não sou ateu.
  • João Girardi  05/07/2014 19:58
    Marcelo, acho que você se equivocou, pois o dono do blog também é ateu, a diferença é que ele respeita os católicos e demais pessoas com crenças diferentes e inclusive os ajuda, desmascarando os ateus "bullies" que atacam a crença dos católicos (os chamados neo-ateus) que tem atitudes similares às da esquerda pra fazer valer seus argumentos. Além disso ele mostra que certas táticas às quais tanto liberais e conservadores procuram conquistar espaço não dão certo, em especial devido à inocência desses dois grupos de esperar que os esquerdistas vão aceitar nossas opiniões de bom grado sem tentar ferir nossa reputação. Segundo o Luciano Ayan tanto os liberais quanto conservadores ainda estão na sua "infância política" aqui no Brasil. De qualquer forma
  • Brian  03/07/2014 00:18
    vou fazer um contraponto a frase do autor abaixo:

    "Porém, nesta lenta batalha, temos a carta na manga, que é o poder das ideias, e nossa estratégia vencedora é trabalhar duro e perseverar. Esqueça a possibilidade de vitórias rápidas; isso sempre foi uma ilusão. É necessário construir, e continuar construindo."


    A maneira que me comporto para a minha meta de meditação pessoal é o pessimismo encontrado nas críticas sem me desorientar das causas.

    A primeira obvia é a presença nefasta do Estado. Para mim o Estado intervêm sempre e com a velocidade das respostas não há jeito de elimina-lo como pensam os anarquistas.

    A segunda é a ganância da inutilidade produtiva que a sociedade do conhecimento mantém. Contratações de profissionais ultrapassados, improdutividade em todos os setores sem exceção de um país atrasado, para manter em nível alto os indicadores políticos.

    Listo um site de humor vazio mas competente:

    desciclopedia.org/wiki/Categoria:Profiss%C3%B5es_in%C3%BAteis

    E a terceira é que sempre façam as contas (mentalmente) de tudo o que tiver que calcular por que é assim que tudo funciona na racionalidade e na irracionalidade, na frieza dos números, sendo o número algo relativo, mas representativo, momentâneo, e variando com o tempo futuro.

    Sei que pensadores gostam de simplicidade, abstenção de valores, idéias curtas e subjetivas, mas se não jogam com números o tempo não absorve.
  • anônimo  03/07/2014 01:56
    ''A coisa fica meio depressiva às vezes. Há momentos em que me sinto meio rancoroso, e há momentos que simplesmente fico totalmente irritado com o fato de que são pouquíssimas as pessoas que entendem ou se importam com economia e/ou filosofia, quando ambas são extremamente importantes.''

    Interessante que até mesmo aqui no site nesses tempos de copa do mundo o numero de cometários diminuiu bastante.
  • Ronaldo  03/07/2014 15:16
    O que é isso aqui ???

    exame.abril.com.br/economia/noticias/para-krugman-falta-de-governo-salva-economia-da-belgica

  • J. Rodrigues  04/07/2014 01:25
    Perfeito. Outro dia conversando com um amigo petista fanático, me dizia ele que a sua mãe era fanática pela igreja e defendia os padres sem qualquer argumento lógico. Dizia que ela simplesmente aceitava tudo o que os padres, bispos e o papa falam e ainda dava dinheiro para a igreja. Dando-lhe razão perguntei a ele qual a diferença entre a atitude da mãe dele em relação à igreja e seus agentes e a atitude dele em relação ao partido e seus dirigentes? O cidadão ficou tão embasbacado que, não tendo resposta, acabou por me chamar de radical. Pois sim. Nem liguei, pois eu soube que havia acertado na veia.
  • O Volta  04/07/2014 02:31
    Essa do Krugman, hein???
  • Antônio  09/07/2014 16:35
    Pessoal,

    Eu enviei este e outros artigos aqui do Mises a um esquerdista da minha classe e o mesmo respondeu com o seguinte texto abaixo.

    Por gentileza, quem quiser comentar e refutar os argumentos e as opiniões dele é muito bem vindo. Principalmente, os autores que ele cita Wacquant e Boaventura de Souza Santos.


    Então, conforme já afirmei anteriormente, continuo sendo de esquerda e continuo completamente desacreditado com relação a um pretenso sistema liberal, o que para mim, não passa de mais uma utopia. Da mesma forma, penso que um pretenso socialismo, a la URSS, também não seja eficaz.

    Todavia, não acredito que fomentar o liberalismo seja a solução dos problemas. Conforme o texto de Loïc Wacquant, Os Condenados da Cidade, texto aqui: www.revistas.ufg.br/index.php/fchf/article/download/2231/2186
    o autor demonstra que o abandono de políticas de bem estar social pelos EUA não significaram ausência do Estado. O que ocorreu foi, tão somente, um transferência dos gastos. Todo o recurso antes utilizado em políticas de bem estar foram utilizado para um aparelhamento policialesco do Estado, aumentado os investimentos em presídios para dar conta do aumento da criminalidade causada pelo crescimento das desigualdades. Essa política apenas contribui para o aumento de subempregos, logo deterioração das condições dos trabalhadores.

    Tal sistema, depois propagandeado pelo consenso de Washington, ou consenso neoliberal, imposto pelos Banco Internacionais, ou seja, "diminuição" do Estado, conforme análise de Boaventura de Souza Santos no seu livro A Globalização e as Ciências Sociais apenas contribuiu para o aumento das desigualdades sociais. Não apenas isso. Além das disparidades no campo econômico, Santos chama a atenção para uma deterioração de muitos valores, como o aumento do individualismo e a competitividade nas relações sociais em geral.

    Se quiséssemos pensar em um liberalismo ideal, com um tipo de economia equilibrada, com concorrência perfeita, primeiramente, seria preciso fundar uma nova ordem social. Seria preciso uma desapropriação generalizada, conceder um patrimônio para cada cidadão, para daí sim, competirem de igual para igual.

    Na situação atual que temos, apenas liberalizar geral seria, na minha opinião, uma abertura para a catástrofe, pois, ao contrário do que prega o liberalismo, no capitalismo não há como se falar em "meritocracia", pois, aqueles que detém poderio econômico (logo, político), já o possui há várias gerações. Qual o mérito dos herdeiros de um empresário que construiu grande patrimônio?

    Penso que o problema se encontra no lucro e na exploração da mão de obra. Como o objetivo no capitalismo é a maximização do lucro, a tendência é sempre haver cada vez mais exploração do ser humano, principalmente os mais pobres e ignorantes.
    Não defendo um tipo de Estado em que toda a economia seja controlada por estatais. Mas, penso que as empresas poderiam ser substituídas por cooperativas, de modo a não tirar da iniciativa privada a liberdade de produzir e fazer circular bens de real utilidade. Claro, no meu tipo ideal de cooperativas, o modelo da Unimed estaria reprovado, pois, há distorções.

    Penso que alguns serviços, como saúde e educação, principalmente, devem ser 100% estatal para que todos tenham a mesma educação e o mesmo acesso a serviços de saúde, fomentando a prevenção e não somente a medicalização, como é feito hoje.
    De tudo o que afirmei até aqui, faço uma observação. Que o Estado atual (e isso não ocorre somente no Brasil), tem servido às grandes Corporações, e não verdadeiramente ao povo. Entretanto, não temos um Estado de Bem Estar, mas, o que temos é um Estado Neoliberal. O PT inclusive é um governo neoliberal, infelizmente.


  • anônimo  09/07/2014 20:23
    Segundo parágrafo ele diz sobre um suposto abandono de políticas de bem estar social dos Estados Unidos desde 1970, peça para ele comprovar que o estado diminiu desde essa época. Todo mundo sabe que o estado dos estados unidos aumentou e muito desde então.
    No mesmo segundo parágrafo ele utiliza de uma técnica da teoria crítica de inverter a ordem da culpa, não mais no criminoso, mas na sociedade, atacando a desigualdade. Isso é uma tática, uma fraude. Relativismo moral, para modificar o pensamento de que a moralidade é apenas uma barreira a ser vencida, o que por si mesmo aumentar o poder de agressão, logo aumenta o poder do estado. Ele está fraudando conscientemente.
    No mesmo segundo parágrafo ele diz que o liberalismo aumenta os subempregos, isso é fraude, uma vez que o liberalismo aumenta a poupança e investimento e diminui o consumo, é natural que surjam mais empregos de especialistas. Provavelmente ele sabe disso e usou mais uma fraude.

    No terceiro parágrafo ele cita Boaventura. Não li o livro mas a crítica do seu amigo é:
    "contribuiu para o aumento das desigualdades sociais"
    Desigualdade não é um problema, problema é as pessoas serem obrigadas as serem iguais.
    Outra crítica:
    "deterioração de muitos valores, como o aumento do individualismo e a competitividade nas relações sociais em geral. "
    Individualismo é uma coisa natural e sempre vai existir, pois individuos tem objetivos diferentes, naturalmente, como sempre tiveram e sempre terão. Competitividade é melhor do que unanimidade forçada. Seu amigo na verdade está defendendo um sistema que cria a unanimidade forçada e a igualdade obrigatória. Provavelmente ele tem algum ressentimento para querer bloquear as pessoas que se destacam.

    No quarto parágrafo ele diz que se quisermos um liberalismo total, deveríamos desapropriar todos. Seu amigo inverteu tudo, provavelmente ele fez isso de propósito, porque liberalismo econômico como nós sabemos é justamente o oposto, a não-desapropriação.

    No quinto ele fala sobre a herança e afirma que o indivíduo que é filho, não tem o mérito de receber do pai. Interessante que seu amigo não acha o mesmo de políticos, ele acha que um político como ele tem o mérito de receber, mas o filho não tem. Além de falar de capital como se fosse um passe de mágicas, seu amigo não entende o que é empreendedorismo e não entende minimamente sobre como é dificil uma empresa se manter, provavelmente porque ele é concursado, ele nunca entenderia portanto.

    No sexto ele se afirma contra o lucro. Interessante porque para uma pessoa se desenvolver de bebê até adulto, ela precisa sempre de mais energia, ou seja, lucro. Além dessa questão existêncial, seu amigo ignora que o lucro é um fator motivacional para a ação do homem e constroi relações de causa e efeito além de auto-regular a economia sem a necessidade de um centralizador, que como já sabemos desgoverna a economia conforme demonstrado no livro de Mises sobre cálculo economico.
    Ele usa o termo exploração, estranho, porque ele parece gostar de socialismo que é um sistema controlador centralizador, então ele chama de explorador um empresário, mas não chama de explorador um socialista que usa de dinheiro que tem origem de tributos. Provavelmente porque o empresário tem iniciativa, objetivo, talvez isso crie ressentimentos no seu amigo.
    Cooperativas enquanto movimentos voluntários não ferem nenhum direito de propriedade. Obrigar empresários a transferir suas empresas aos funcionários é contrário a propriedade privada, tornando qualquer investimento um risco de perder tudo para os funcionários, sem que o funcionário tenha investido. Ou seja, não passa de expropriação injusta. Nada além disso. Provavelmente seu amigo não suporta a ideia de que alguem possa descentralizadamente ser dono ou diretor de um empreendimento, sem a sua devida autorização, puro ressentimento.

    No final ele diz que algumas coisas devem ser 100% estatal. Estranho porque se uma coisa é boa, ela deveria se extender para tudo. E não para coisas em específico. Sabemos que serviço público é terrível e possui preços anormais, então não faz sentido torcer para que uma sociedade tenha a saúde pública, visto que é a área mais delicada. Deveria ser o contrário, as áreas mais delicadas deveriam seguir mais a risca os princípios economicos clássicos e não o contrário.
    E conclui dizendo que o PT é neoliberal, mas essa tática é conhecida, pergunte a seu amigo em quem ele vota. Ele vai dizer que é no PT..... mas é claro...quando eles criticam, estão usando da teoria crítica de Horkheimer, como a própria teoria crítica diz, a verdade varia dependendo o objetivo.
  • Antonio  10/07/2014 17:14
    Muito obrigado pela resposta.

    Realmente você acertou. Esse meu colega de classe é concursado pelo Ministério do Trabalho. E tem uma verdadeira aversão a empreendedores.

    Se alguém, por gentileza, conhecer algum artigo do Mises que invalida os argumentos de e Loïc Wacquant eu agradeço muito. Pois, os esquerdistas aqui de SC adoram esse intelectual. Tem uma entrevista dele para a UFF sobre a Criminalização da Pobreza->www.uff.br/maishumana/loic1.htm e outra aqui sobre o Workfare e o Prisonfare-> revistaepos.org/?p=762.

    No artigo com link abaixo da Business Insider - How Big Is Our Government - eles mostram através de vários gráficos que os gastos do governo americano aumentaram significativamente com as políticas sociais, embora não houve um aumento significativo com funcionários públicos. Pelo contrário o governo em termos de funcionários federais diminuiu. www.businessinsider.com/how-big-is-our-government-2012-7?op=1



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