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“Uma moeda depreciada é boa para a economia”

A lógica mercantilista, diligentemente seguida por vários governos, é a de que a depreciação da moeda — isto é, a desvalorização da taxa de câmbio — estimula a economia.

O problema é que tal raciocínio não faz nenhum sentido.

Se você possui uma determinada moeda, e todos os preços cotados nesta moeda caem, você certamente irá se beneficiar deste arranjo.  Você lucraria com ele. 

Mais ainda: você não teria de pagar nenhum imposto sobre este lucro, pois o lucro não seria na forma de um aumento na sua quantidade de dinheiro; o lucro seria na forma de um aumento na quantidade de bens e serviços que você é capaz de comprar com a mesma quantidade de dinheiro que você possuía antes. 

Portanto, uma deflação de preços traria um enorme benefício para você.

Agora, se é benéfico para você portar esta moeda em um momento que os preços dos bens e serviços estão caindo, por que seria ruim para o público em geral do seu país portar esta mesma moeda em um momento em que os preços das moedas estrangeiras estão caindo? 

Quando a sua moeda se torna capaz de comprar uma quantia cada vez maior de moedas estrangeiras à medida que o tempo passa, está havendo uma deflação de preços para os itens que estão sendo comprados: as moedas estrangeiras. 

Por que seria desvantajoso para a população deste país ter uma moeda que ganha poder de compra em relação às outras?  Por que seria ruim ser usuário desta moeda e por que seria bom ser usuário das moedas estrangeiras que estão se desvalorizando mais?  Não faz sentido.  Será que há suíços ansiosos para trocar seus francos por bolívares venezuelanos ou por pesos argentinos?

O que é bom para um indivíduo honesto é bom para a nação.  Se é bom para um indivíduo ter um moeda que está se valorizando, então é bom para toda uma nação ter uma moeda que está se valorizando.  Como é possível dizer que é algo bom para os indivíduos utilizarem uma moeda que está se valorizando e, ao mesmo tempo, dizer que o país deveria instruir seu Banco Central a não permitir que a moeda nacional se valorize?

Vivemos em uma era mercantilista.  Aquelas grandes empresas voltadas para a exportação querem ver o valor de suas moedas domésticas caindo continuamente.  Todas as empresas voltadas para o setor exportador, de todos os países, querem que isso ocorra.  Em outras palavras, elas não querem viver um sistema em que os preços são definidos pelo livre mercado.  Elas querem que os bancos centrais de seus países intervenham de modo a reduzir o valor internacional de sua moeda doméstica. 

Sendo assim, por essa lógica, o que é bom para indivíduos passa a ser supostamente ruim para toda a nação.  Porém, o que é a 'toda a nação' se não o agregado de todos os indivíduos?

Sempre que você ouvir alguém dizendo que a moeda do seu país tem de se desvalorizar em relação ao dólar — ou que o dólar tem de encarecer —, você está na presença de um mercantilista.  Trata-se de alguém que crê que a perda do poder de compra da moeda nacional é algo bom.  Ele pensa assim porque a depreciação cambial representa um subsídio ao setor exportador. 

Porém, deveria ser algo óbvio que, quando partimos da lógica de que aquilo que é bom para o indivíduo é bom para a maioria dos cidadãos do país, uma moeda doméstica em contínua apreciação em relação às moedas estrangeiras é algo positivo.  Isso indica que seu banco central está inflacionando menos do que os outros bancos centrais ao redor do mundo.  Significa que seu banco central está sendo mais austero e mantendo a sua moeda mais robusta.  E uma moeda robusta é aquela que está se valorizando. 

Mas não é assim que políticos pensam.  E também não é assim que economistas dos bancos centrais pensam.

Somente exportadores gostam de uma moeda que está se desvalorizando internacionalmente.  E são muito poucas as pessoas de uma economia que trabalham para exportadores.

Desvalorizar a moeda de um país é um ato que gera uma redistribuição de riqueza dentro do próprio país.  A riqueza é retirada dos setores da economia que não estão ligados à exportação e direcionada para os setores ligados à exportação. 

Adicionalmente, a desvalorização funciona como um subsídio aos compradores estrangeiros.  Desvalorizar a moeda de um país é uma bênção para os estrangeiros, pois agora eles poderão importar bens deste país a preços mais baratos.  Os estrangeiros poderão agora comprar mais bens com sua moeda, a qual repentinamente se valorizou perante a moeda do país que desvalorizou.  A consequência deste subsídio aos estrangeiros é a redução da oferta de bens no mercado doméstico, o que pressiona ainda mais a carestia.

Sempre que políticos e economistas de seu país disserem que o câmbio tem de se desvalorizar, eles não verdade estão querendo subsidiar os estrangeiros.  Com a desvalorização, bens que até então estavam relativamente caros passarão a se tornar uma verdadeira barganha para os estrangeiros — ao menos até que os preços comecem a subir em consequência da desvalorização da moeda.

No início do processo de desvalorização da moeda, o setor exportador conseguirá comprar fatores de produção a preços que ainda não se alteraram.  Com o passar do tempo, a desvalorização da moeda começará a exercer efeitos inflacionários sobre toda a economia, gerando aumento de preços.  Neste ponto, o setor exportador será forçado a elevar seus preços.  Ato contínuo, é de se esperar que os exportadores clamem por novas rodadas de desvalorização cambial para reiniciar o ciclo e favorecê-los novamente.

De novo vale ressaltar que, quanto mais bens forem exportados, menor será a oferta destes bens no mercado interno, algo também propício a gerar mais inflação de preços e, consequentemente, um menor padrão de vida.

É de se lamentar que a maioria das pessoas não entenda de economia.  Para os exportadores, no entanto, que se beneficiam deste assalto ao poder de compra da população, essa ignorância econômica de seus compatriotas é uma dádiva.  Dado que é impossível ganhar algo a troco de nada, o que ocorre é que um pequeno grupo de exportadores ganha muito e, em troca, o restante das massas fica com preços crescentes para quase todos os bens e serviços da economia.

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Veja todos os nossos artigos sobre protecionismo.



autor

Frank Shostak
é um scholar adjunto do Mises Institute e um colaborador frequente do Mises.org.  Sua empresa de consultoria, a Applied Austrian School Economics, fornece análises e relatórios detalhados sobre mercados financeiros e as economias globais.


  • Rodrigo Bicalho  09/01/2014 12:29
    O setor exportador é subsidiado pela desvalorização do câmbio feita pela governo.

    Sabemos que subsidios tornam um setor ineficiente.

    Podemos afirmar que se a moeda valorizar o setor exportador estará melhor?
    Dado que essa empresa poderá importar insumos, maquinas e equipamentos de forma mais barata e poderá, assim, expandir sua produtividade? ( conseguindo baixar seus custos, e possivelmente, aumentar os lucros/abaixar os preços)

    ( Talvez isso não possa ser resolvido pela praxeologia, pois essa é uma questão de " qual efeito é maior". Talvez só com dados empíricos.)
  • Thames  09/01/2014 12:39
    Correto. E foi isso que aconteceu durante a primeira fase do Plano Real. As indústrias aproveitaram o câmbio, importaram vários insumos e aumentaram sobremaneira sua produtividade, compensando a falta de produtividade da mão-de-obra. De lá pra cá, a economia brasileira foi se tornando cada vez mais fechada, e produtividade está em queda livre.
  • Bernardo  09/01/2014 13:59
    Obrigado pela pergunta e pela resposta. Tava com dúvida exatamente se as empresas nacionais voltadas para o mercado interno conseguiriam sobreviver à invasão de importados mais baratos.
    Elas poderiam aumentar sua produtividade e eficiência. E o câmbio fortalecido ajudaria isso.
    Mas não seria algo automático. Em todo o caso, muitas coisas aconteceriam durante o percurso:
    falência de algumas empresas;
    fortalecimento de outras mais competentes;
    fortalecimento do setor de serviços não importáveis;
    fortalecimento das importadoras e distribuidoras.
    Mas a tendência seria de fato melhorar o bem estar geral.
    O primeiro item e a simbiose das empresas com o governo é que impedem isso.
  • marcos  09/01/2014 14:59
    @ Rodrigo Bicalho,
    Não acho que seja necessário recorrer à empiria, bastaria usar um argumento lógico do tipo reductio ad absurdum, vejamos: Uma moeda em desvalorização e cujo valor se aproxima de zero significa que toda a riqueza da nação será exportada e que os indivíduos domésticos terão cada vez menos poder de importar, no extremo isso significa inanição geral, um verdadeiro democídio. Por outro lado, uma moeda em constante valorização e cujo valor se aproxima do infinito significa um poder de importar cada vez maior, e mesmo o setor exportador se beneficiará ao poder importar bens de produção mais baratos e então vender bens de consumo a preços mais que competitivos.
  • Tiago Moraes  06/01/2015 18:37
    A Alemanha tornou-se o maior exportador do mundo, a partir da segunda metade do século XX, ancorada em um sólido sistema monetário com uma das moedas, à época, mais valorizadas do planeta.
  • Leandro  06/01/2015 18:50
    A Suíça também. Cingapura também. Aliás, o Japão também. De 1990 até 2011, o iene só se valorizou.

    E o raciocínio é óbvio. Moeda forte não apenas gera preços estáveis dentro do país (o que aumenta as exportações), como também gera produtos de alta qualidade, e pelos motivos explicados neste artigo.

    Pode observar que países com histórico inflacionário simplesmente não têm produtos de qualidade. Logo, suas exportações são capengas e sujeitas a ciclos.

    Infelizmente, essa relação entre inflação baixa e alta qualidade dos produtos ainda não é entendida por economistas (embora Mario Henrique Simonsen já alertasse sobre isso ainda na década de 1980), principalmente pelos desenvolvimentistas, que vivem dizendo que basta desvalorizar uma moeda para a indústria bombar -- falta só combinar com os compradores estrangeiros.
  • Claudio  09/01/2014 12:32
    Interessante, mas digamos que exista um pais puramente exportador (nao sei se e iste algum), nao seria uma boa estrategia por parte do BC depreciar a moeda? Ate pq os cidadaos nao dependeriam de importacoes mesmo, eles conseguiriam tudo no mercado interno.
  • Magno  09/01/2014 12:39
    A única coisa que isso vai gerar é inflação de preços no mercado doméstico -- afinal, para desvalorizar ainda mais o câmbio o governo tem de imprimir dinheiro --, penalizando toda a população.
  • Felipe  09/01/2014 15:59
    O maior exportador do mundo até 2005, a Alemanha, também tinha umas das moedas mais fortes do mundo, o Deutsch Mark. Seguindo a lógica mercantilista, isso seria impossível. Na verdade, uma moeda forte permite que você sempre possa renovar o maquinário com frequência, ficando sempre na vanguarda da cadeia produtiva, assim seus produtos sempre serão procurados. Desvalorizar moeda é política imbecil de quem quer vender soja pra China até o fim dos tempos, tipo o Brasil, só pra puxar a balança comercial para cima.
  • Philipe  10/01/2014 15:22
    Vale lembrar os demais efeitos positivos da boa política fiscal necessária para uma valorização da moeda doméstica.
  • Spinola  09/01/2014 12:32
    Gostaria de uma análise econômica do crescimento da Coréia do Sul, com base nas informações da CIA, já utilizada pelo IMB alhures:
    "https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/ks.html

    A Coréia do Sul em parte teria seguido alguma das premissas da escola austríaca, como forte valorização da poupança. Entretanto, a Coréia do Sul teria permanecido por quase 40 anos avessa a importações e incentivando uma política exportadora.
  • Leandro  09/01/2014 12:44
    Não é verdade dizer que a "Coréia do Sul era pobre e aí foram adotadas políticas intervencionistas e aí ela enriqueceu". Mesmo porque isso é econômica e logicamente impossível. O que o general Park fez foi adotar uma política extremamente favorável ao investimento estrangeiro (óbvio, pois a Coréia não tinha capital), principalmente de japoneses (com quem ele reatou relações diplomáticas) e americanos. Não fossem esses investimentos estrangeiros, o país continuaria estagnado.

    Os japoneses investiram pesadamente em infraestrutura, em indústrias de transformação e em tecnologia, o que fez com que a economia coreana se tornasse uma economia altamente intensiva em capital e voltada para a exportação. Esse fator, aliado à alta educação, disciplina e alta disposição para trabalhar (características inerentemente asiáticas), permitiu a rápida prosperidade da Coréia.

    Embora as Chaebols (nada mais do que o velho sistema corporativista que impera em todos os países do mundo) sejam condenáveis, elas nada têm a ver com o enriquecimento sul-coreano. Era economicamente impossível a Coréia enriquecer por meio de intervencionismo simplesmente porque não havia capital nenhum no país. Intervencionismo é algo possível apenas em países ricos, que já têm capital acumulado e que, por isso, podem se dar ao luxo de consumi-lo em políticas populistas. Já países pobres não têm essa moleza (por isso o intervencionismo explícito em países como Bolívia e Venezuela apenas pioram as coisas).

    Vale lembrar que a Coréia do Sul no início da década de 1960 era mais pobre do que a Coréia do Norte. E mesmo assim os japoneses investiram lá. E deu no que deu.

    Por fim, gostaria muito de saber de onde surgiu esse mito de que a Coréia do Sul era avessa a importações. Uma simples análise estatística mostra que quem inventou isso estava mal intencionado. E, pior, quem acreditou nisso é um desavisado avesso ao mais mínimo trabalho de pesquisa:

    Gráfico das exportações

    Gráfico das importações

    Gráfico da Balança Comercial (majoritariamente deficitária até a década de 2000)

    Impressionante como falácias perseveram.
  • Jose Bressan  09/01/2014 18:50
    Bem lembrado, Leandro.

    Creio que caberia, igualmente, uma análise da história da Austrália, país com balança comercial majoritariamente deficitária há décadas, mas com população que possui poder de compra superior à americana, alemã, japonesa ..., fato que, por si só, desbancaria a tese mercantilista.

    Abraços
  • Leandro  09/01/2014 19:57
    Muito bem lembrado, Bressan. A Austrália tem um crescente déficit em conta-corrente desde a década de 1970, mas compensa com altos níveis de investimento estrangeiro, exatamente como tem de ser.

    Aqui está o gráfico. A linha azul, eixo da direita, mostra o investimento estrangeiro (dados disponíveis apenas a partir de 1992). A linha preta, eixo da esquerda, o saldo da conta-corrente.

    Como explicado neste artigo, câmbio valorizado e déficits na balança comercial e de serviços (a conta-corrente) não são problema nenhum, desde que o país seja estável e atraente o suficiente para atrair investimentos estrangeiros crescentes.
  • Jose Bressan  09/01/2014 21:07
    Aliás, a história da Austrália serve para quebrar inúmeros paradigmas esquerdistas.

    É um país de história recente (mais que o Brasil), formado literalmente por criminosos britânicos (maior parte foram escoceses) deportados, razão pela qual era chamada de "ilha prisão". Neste ponto, diversas teses esquerdistas morrem no nascedouro.

    Sua base de exportação não é de produtos altamente industrializados (tese fundamental do esquerdismo), pelo contrário, a Austrália é um tradicional exportador de commodities, contudo, é um dos países com maior acesso a bens, com um setor de serviços extremamente de ponta.

    O dólar australiano, na média, valorizou-se em relação ao dólar nas últimas décadas (não sei quanto aos tempos passados).

    Possui inflação inferior a 5% a.a. há mais de 20 anos.

    Segundo o CIA Factbook: "Australia is an open market with minimal restrictions on imports of goods and services."

    A mãe Great Britain tem a aprender com sua filha.
  • Emerson Luis, um Psicologo  10/01/2014 07:33

    E ainda por cima a Austrália é um país de clima quente, enquanto a Argentina possui clima temperado, o que refuta o determinismo climático.

    "O problema é que tal raciocínio não faz nenhum sentido."

    Para os 'amigos do rei' faz muuuito sentido!

    * * *
  • Tiago Moraes  06/01/2015 19:36
    O sucesso da Austrália se deve ao fato de sua formação como nação ter se pautado na replicação das instituições da Inglaterra liberal. A diferença que desde o fim do século XIX, um fenômeno político ocorreu na Inglaterra, mas não na Austrália, o socialismo fabiano.

    O socialismo fabiano foi lentamente impondo uma agenda política progressista na Inglaterra e responsável direta pela fundação do Partido Trabalhista, que tornou-se rapidamente uma das principais forças políticas do país. A agenda fabiana elevou a penetração estatal nos setores estratégicos (telecomunicações, energia, transportes e saneamento básico), elevou o poder dos Sindicatos, endureceu a Legislação trabalhista e impôs pesadas regulações face ao empreendedorismo no país. O resultado dessa agenda é que a economia inglesa foi minada e o país, antes da ascensão de Thatcher, estava em um concreto processo de "argentinização", dizia-se que a Inglaterra era uma "ex-potência em vias de subdesenvolvimento".

    O fabianismo influenciou muitas colônias britânicas, exceto a Austrália. A Índia, enveredou-se por esse caminho com Nehru e adotou um modelo ainda mais centralizador e socialista que o britânico e o país foi arruinado, Singapura também começou a seguir esse caminho, mas Lee Kuan Yew percebeu logo cedo a roubada e mudou a sua visão política a tempo:

    Eles [Sociedade Fabiana] estavam querendo criar uma sociedade mais justa para os trabalhadores britânicos -. O início de um estado de bem-estar, moradia mais barata, medicamentos e tratamento dentário gratuitos, espetáculos livres e subsídios de desemprego generosos. Claro que, para os estudantes vindo das colônias, como Cingapura e Malásia, era uma grande atração como alternativa ao comunismo. Nós não vimos, até a década de 1970, que era o início dos grandes problemas que colaboraram para o declínio inevitável da economia britânica.
    —Lee Kuan Yew entrevistado por Lianhe Zaobao
  • PESCADOR  09/01/2014 13:55
    Ganhei o dia com esse artigo sensacional do Shostak.
    Esse é simplesmente meu assunto favorito em economia.
    Não consigo entender como uma pessoa pode defender desvalorização da moeda para "melhorar a economia". Só se for melhorar a vida dos exportadores.
    Pensem em como a vida seria melhor com uma moeda forte, podendo comprar produtos estrangeiros de qualidade. A pobreza diminuiria bastante.
  • Mateus  09/01/2014 16:27
    Que países atualmente no mundo mantém uma política de valorização da moeda?

    Seria correto dizer que para valorizar moeda basta não injetar dinheiro do nada na economia, visto que a maioria dos outros países já fazem isso, o que valoriza a moeda do país que não injeta, ou há outros métodos?
  • Rodbertus  09/01/2014 16:38
    O que mais chega perto é Cingapura.

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1461
  • Mateus  09/01/2014 16:59
    Li a parte de comentários desse artigo e o Leandro escreveu: " Relembrando: o BC controla diretamente apenas a base monetária; ele não controla diretamente a criação de dinheiro que os bancos fazem por meio das reservas fracionárias."

    Isso não seria uma forma de desvalorizar a moeda?
  • Leandro  09/01/2014 17:26
    Sim, é o sistema bancário, e não o Banco Central, quem injeta dinheiro na economia e expande a oferta monetária sempre que concede empréstimos. O Banco Central pode dificultar esta expansão monetária encarecendo o crédito (elevando os juros) e com isso diminuindo a demanda por empréstimos bancários. E quanto menor a expansão do crédito, menor tende a ser a desvalorização.

    No entanto, é importante enfatizar que há outras variáveis que definem a valorização de uma moeda. Recomendo fortemente este artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1672
  • João  09/01/2014 18:12
    O Banco Central também não poderá dificultar elevando a taxa do compulsório?
  • Leandro  10/01/2014 16:33
    Em teoria, sim. Na prática, no entanto, a coisa está distorcida.

    Explico.

    Se o BC elevar o compulsório, o dinheiro disponível para os bancos emprestarem entre si no mercado interbancário será menor. A consequência imediata será um aumento dos juros do mercado interbancário. Só que os juros do interbancário são exatamente a taxa SELIC. E como os BCs têm como objetivo manter suas respectivas SELICs em um valor próximo a uma meta pré-estabelecida, eles terão de injetar mais dinheiro no interbancário para trazer a SELIC de volta à meta.

    Conclusão: um aumento do compulsório leva a um aumento da SELIC, o que obriga o BC a injetar mais dinheiro no interbancário para evitar esta aumento da SELIC. E, ao fazer isso, ele simplesmente anulou o efeito do aumento do compulsório.

    É justamente pelo fato de o compulsório ter se tornado um mecanismo inócuo -- consequência direta das atuais políticas monetárias que trabalham com meta para a taxa de juros --, que os principais Bancos Centrais do mundo já o abandonaram. Os BCs da Austrália, da Nova Zelândia, do Canadá, da Suécia e do Reino Unido não impõem compulsório nenhum. O da Suíça impõe um de míseros 2,5%. O BCE impõe 2%. O do Chile impõe 4,5%%. O Fed impõe 10%, mas só se aplica a depósitos em conta-corrente de pessoas físicas.

    Ou seja, por causa do atual formato das políticas monetárias, o compulsório se tornou inócuo.
  • Henrique  20/05/2014 14:59
    Entendi que essa sanha mercantilista da esmagadora maioria dos governos não fazem sentido algum, mas ainda tenho algumas dúvidas.

    Quais os efeitos de seguidos déficits primários em uma economia? Em um dos comentários, o Leandro fala que a Austrália está há 20 anos em déficit. Como isso é possível?

    Segundo o meu entendimento, se em um dado ano o déficit primário ocorre, significa que o país mandou mais dinheiro para o exterior do que recebeu, ou seja, ele está em dívida com o mundo, por assim dizer. Disso, seguem 2 possibilidades: ou haverá uma contração da base monetária M0 (isso é válido? Ou é possível que todo esse pagamento feito ao exterior seja através de meios fiduciários? Nesse caso, a contração seria do M1, certo?) ou haverá emissão de moeda para compensar essa diminuição.

    Caso a base monetária se contraia, os juros se elevarão... Se a elevação for suficiente para atrair investimentos do exterior, ótimo, a balança comercial se equilibrará nos anos seguintes. Se não for, temos uma recessão, que implicará num menor consumo, menor nível de emprego, de modo que as pessoas passarão a consumir menos. Com uma queda no consumo, tanto de produtos nacionais, quanto de importados, os preços dos produtos caem nacionais, o que os tornariam atrativos no exterior, logo, as exportações sobem novamente e equilibram a balança comercial.

    Pelo que entendi, no caso da Austrália, que possui uma economia sólida e dinâmica, isso atrai investidores e evita longas recessões.

    Agora não sei dizer o que acontece se o déficit é compensado pelo aumento da oferta monetária.

    Alguém?
  • Juliano   09/01/2014 19:45
    Os países da Zona do Euro estão passando intensamente pela "destruição criativa" por causa da impossibilidade de depreciar o euro? Sendo assim, atualmente estão pagando um preço alto, mas no futuro estarão diante de uma industria renovada e eficiente?
  • Maurício  09/01/2014 20:12
    Não. Destruição criativa nada tem a ver com a [im]possibilidade de desvalorizar a moeda. Destruição criativa é o fim de um determinado setor em prol do nascimento de outro setor.

    Sobre o euro, sugiro este artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1330
  • Marcos  10/01/2014 02:37
    Ótimo artigo! Me respondam, por favor: há algum artigo no Mises refutando esse mito da ''balança comercial''?
  • IRCR  10/01/2014 07:59
    Ouvi dizer que em Singapura o BC mantem a taxa de juros bastante reduzida para que sua moeda não se valorize demasiadamente, isto prosegue ?
    Alem de ser um dos paises que mais expandiu o crédito desde 2010
  • Samuel  10/01/2014 13:21
    Estou me interessando pela escola austriaca e por almejar trabalhar no mercado financeiro me veio uma duvida. Qual seria as vantagens e utilidades da escola austriaca na hora de escolher os investimentos ?
  • Tiago Moraes  10/01/2014 15:42
    Isso é um engodo, quando Lula assumiu a presidência a partir de 2003 o câmbio estava em 1/3,8 e chegou a 1/1,70. Enfim, nos 8 anos em que Lula governou o país, o câmbio apenas se apreciou e o Brasil quintuplicou as suas exportações no mesmo período. E em período recente, o câmbio desvalorizou-se em mais de 40% durante o ano de 2013 e nossas importações só aumentaram, ao ponto do governo ter de fazer uma contabilidade criativa para omitir um deficit comercial de mais de 10 bilhões de reais.
  • Andre Pirozelli  15/01/2014 13:17
    Gostei muito do artigo mas gostaria de fazer uma observação em que alguém mais inteligente do que eu pudesse me corrigir. No recente caso brasileiro de câmbio valorizado não demonstra uma saúde econômica muito boa, isso porque o câmbio valorizado é consequência de um governo extremamente populista que não abre mão de elevados gastos. Sem abrir mão de tais gastos, o único mecanismo de combate a inflação é intervir na taxa de juros, com uma mobilidade de capital elástica, a consequência é uma grande entrada de moeda estrangeira no país.

    por favor, opinem aí!!
  • Leandro  15/01/2014 13:33
    Você faz suposições que não se sustentam.

    1) Pra começar, quem definiu que o câmbio estava "sobrevalorizado"? Qual a teoria que você utilizou para definir que o câmbio estava "sobrevalorizado"? Sendo assim, quem definiu que hoje o câmbio está "correto"?

    Nunca entendi essa ideia de câmbio sobrevalorizado em um regime de câmbio flutuante. Isso não faz sentido. Quem acredita nisso tem de explicar por que não está rico -- afinal, se o sujeito realmente crê que o câmbio está fora do lugar, então ele irá fazer as devidas operações especulativas no mercado futuro.

    Mais ainda: em um regime de câmbio flutuante, quem acredita em câmbio fora do lugar está dizendo que ele sabe mais do que as milhões de pessoas que participam das bilhões de transações que ocorrem diariamente em termos voluntários. Por que nenhuma dessas milhões de pessoas faz as devidas operações de arbitragem para lucrar com o câmbio fora de lugar? E se elas fazem, então por que o câmbio continua "fora do lugar" e não vai imediatamente para o seu "valor correto"?

    São exatamente as arbitragens que ocorrem diariamente que fazem com que não haja câmbio sobrevalorizado por um longo período de tempo.

    2) Adicionalmente, vale notar que hoje, com a SELIC a 10%, câmbio está mais desvalorizado do que quando a SELIC estava a 7,25%, o que também derruba essa sua tese (por si só estapafúrdia) de que populismo, gastos e taxa de juros valorizam a moeda.

    3) Por fim, em um regime de câmbio flutuante, são três os fatores que definem a taxa de câmbio de uma moeda:

    a) Inflação monetária e sua inevitável consequência, que é a inflação de preços. A taxa de câmbio é, no longo prazo, definida pelo poder de compra da moeda.

    b) Além da inflação monetária, a taxa de câmbio de curto prazo também é afetada pelo crescimento da economia. Quanto maior o crescimento da economia, maior a demanda por moeda nacional -- logo, mais apreciada tende a ser a moeda. Isso explica a valorização cambial que inevitavelmente ocorre quando o PIB está crescendo.

    c) Para uma economia ainda em desenvolvimento -- como a brasileira --, a moeda estará diariamente sujeita aos humores dos especuladores, dos investidores internacionais e de todos os traders que atuam no mercado financeiro. Se eles perderem a confiança no governo, a taxa de câmbio poderá se desvalorizar acentuadamente, e permanecer assim por um bom tempo. Os especuladores, os investidores internacionais e os traders que já perceberam que as autoridades monetárias e econômicas do Brasil não são muito sérias.
  • Andre Pirozelli  16/01/2014 12:16
    Muito boa a explicação Leandro, só não concordo com uma coisa que você está falando, que é a seguinte: Regime de câmbio flutuante? Não está mais para flutuação suja? Quando digo que o câmbio está valorizado não estou julgando o poder do mercado de definir seus preços e sim denunciando uma interferência por parte das autoridades monetárias de influenciar a taxa de câmbio.

    Sobre o 2 e o 3 você foi impecável! Muito obrigado!
  • Leandro  16/01/2014 12:34
    Andre, nenhuma flutuação suja é capaz de manter um câmbio sobrevalorizado. Esse é o ponto.

    Aliás, vale ressaltar que, no caso brasileiro, a flutuação suja sempre foi feita com o intuito de desvalorizar o câmbio, e não de mantê-lo sobrevalorizado. Ou seja, a afirmação de que o câmbio é sobrevalorizado por causa de uma flutuação suja é ainda mais insensata. A flutuação suja, no Brasil, sempre foi feita com o intuito da desvalorização.

    O único arranjo monetário capaz de manter uma taxa de câmbio fixa é um Currency Board.

    Grande abraço e obrigado pelas palavras!
  • Andre Pirozelli  16/01/2014 13:50
    poxa, obrigado eu cara! muito boa a explicação!
  • Erich  31/01/2014 11:13
    Há alguma relação entre a desvalorização do real e a Copa 2014? Ou seja: a intenção do governo é justamente essa, de desvalorizar nossa moeda para garantir um gasto estrangeiro maior em nossas terras?
  • Robson Wesley  05/01/2015 22:02
    Esse movimento benéfico aos estrangeiros é nítido no mercado de ações. Eles compram ações aproveitando o poder de compra do atual momento, enquanto o mercado interno está vendendo e formando fundo histórico, aumentam participações em empresas sólidas e se desfazem quando a economia se estabiliza.

    O mais triste é saber que os grandes fundos realmente dominam o mundo e fazem o que quer com o mercado, principalmente com o de câmbio, e se engana quem acredita no livre mercado no mercado de financeiro. É notável a manobra que estão fazendo fazendo com o EUR em relação USD ou, até mesmo, jogar o preço do petróleo lá para baixo
  • Leandro  05/01/2015 22:38
    "O mais triste é saber que os grandes fundos realmente dominam o mundo e fazem o que quer com o mercado, principalmente com o de câmbio, e se engana quem acredita no livre mercado no mercado de financeiro. É notável a manobra que estão fazendo fazendo com o EUR em relação USD ou, até mesmo, jogar o preço do petróleo lá para baixo"

    Não é bem assim. Esse tipo de movimento, quando é meramente especulativo, dura pouco tempo, pois qualquer arbitrador percebe que há algo destoante e, consequentemente, age de acordo. Isso faz com que as moedas voltem para seus valores corretos.

    No cenário atual, a valorização do dólar já vem ocorrendo desde junho. É tempo demais para que algum arbitrador não tenha percebido alguma incoerência e agido de acordo. Já o euro está sob pressão por causa das encrencas na Grécia (mas em relação ao real, que já está na privada, o euro só se valoriza). Não há motivos para dizer que há uma conspiração contra o euro.

    Dito isso, concordo que, principalmente para uma economia em desenvolvimento, como a brasileira, deixar sua moeda à mercê de um Banco Central incompetente e de um mercado de câmbio rigoroso é péssimo para seus cidadãos. Deixar a moeda de um país ainda em desenvolvimento flutuar de acordo com a percepção que os agentes externos têm em relação à solidez do governo nacional é loucura.

    Por isso, a melhor solução para o Brasil é utilizar suas fartas reservas internacionais e instituir imediatamente um Currency Board.

    Não apenas o câmbio se estabilizaria, como também a confiança dos investidores na economia seria restabelecida. Adicionalmente, as taxas de juros cairiam, o que traria um extremamente necessário alívio nos gastos do governo com o serviço da dívida.

    Um sistema de câmbio flexível é, por definição, um sistema de "quase-escambo". Taxas de câmbio flutuantes introduzem incertezas indesejadas nos mercados internacionais, obstruindo o livre comércio, principalmente os investimentos. O investidor torna-se muito mais um especulador do que propriamente um investidor.

    Taxas de câmbio flutuantes são aceitas por economistas simplesmente porque estes têm em mente apenas o conceito de 'nação'. Imagine se houvesse uma taxa de câmbio flexível entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro? Ou entre Bahia e Santa Catarina? Isso seria um incentivo ao livre comércio entre os estados ou uma barreira?

    Se os estados adotassem câmbios flexíveis entre si, os efeitos seriam desastrosos para o comércio, com cada estado fazendo guerra cambial e impondo várias tarifas protecionistas. Ainda bem que não é assim.

    Não faz sentido -- a menos para protecionistas inveterados, é claro -- defender câmbio flutuante entre países, mas "câmbio fixo" entre estados, cidades e bairros.
  • Henrique  06/01/2015 10:59
    Alguma perspectiva de o Brasil vir a adotar o Currency Board?
  • IRCR  06/01/2015 02:45
    Leandro,

    Qual deveria ser o cambio do Real-dolar se fosse aplicado uma currency board ? como isso seria arbitrado ? se dependesse dos industriais seria de 3,8 - 1 ou até mesmo 4,2 - 1
  • Leandro  06/01/2015 11:45
    A "metodologia" seria deixar todo o mercado de câmbio funcionando de maneira inteiramente livre por aproximadamente um mês. Não deve haver absolutamente nenhuma restrição ao fluxo de capitais, e nem qualquer resquício de controle de capital.

    Tão logo a taxa de câmbio começar a demonstrar "alguma estabilidade" (sim, isso é bastante subjetivo, mas é tudo o que a teoria tem para oferecer), é chegada a hora da fixação da taxa. No dia escolhido, a taxa daquele dia passa a ser a taxa oficial -- fixa e imutável -- para a conversão. Daí cria-se o Currency Board.

    Ou seja, paradoxalmente, para se fixar a taxa de câmbio, é necessário deixá-la totalmente flutuante por algum tempo.
  • Yonatan Mozzini  06/01/2015 13:44
    "se dependesse dos industriais seria de 3,8 - 1 ou até mesmo 4,2 – 1"

    Na verdade, mesmo que o Bacen desvalorizasse bastante nossa moeda antes de adotar o currency board, creio que em pouco tempo inevitavelmente haveria uma forte valorização dela, mesmo que a paridade estabelecida fosse de 4,20 : 1. Afinal, o real não seria nada mais como um nome brasileiro para o dólar americano.

    Fixando a paridade R$ 4,20 : US$ 1, logo haveria uma entrada massiva de dólares via balança comercial (ou outras fontes), o que geraria uma elevação dos preços e salários até chegar (ou mesmo ultrapassar, devido ao novo ambiente previsível aos investidores) os salários atuais em dólares. No fim das contas, em pouco tempo o salário mínimo (uma média, não oficialmente) médio seria cerca de R$ 1200 (uns 300 dólares).

    Não sei se os exportadores e os políticos são tão bestas, mas talvez fosse uma maneira de ludibriá-los e amarrar as mãos deles com a própria aprovação deles. Desvaloriza-se o câmbio, faz-se um projeto de lei para transformar a Bacen simplesmente num conversor de dólar/real, fixa-se a paridade do currency board a 3:1. No curto prazo, eles ganham um pouco de dinheiro. Quando os preços internamente subirem bastante e a entrada de dólares se conter um pouco, aí o subsídio cambial já era e terão de se virar por conta própria. (É só uma abstração minha, nada de normativo.. rs)
  • Leandro  06/01/2015 14:00
    "Fixando a paridade R$ 4,20 : US$ 1, logo haveria uma entrada massiva de dólares via balança comercial (ou outras fontes), o que geraria uma elevação dos preços e salários até chegar (ou mesmo ultrapassar, devido ao novo ambiente previsível aos investidores) os salários atuais em dólares."

    Sim. Aí essa elevação dos preços no mercado interno diminuiria as exportações e estimularia as importações. Consequentemente, haveria uma redução na oferta monetária e uma queda nos preços (ou, ao menos, uma interrupção na subida dos preços e salários) até que o equilíbrio fosse restabelecido.

    Vale ressaltar que se o CB for totalmente passivo (como manda a ortodoxia), limitando-se apenas a trocar real por dólar e dólar por real, esses ajustes são automáticos e rápidos. Não haveria como vivenciar esse aumento contínuo nos preços.
  • pedro  06/01/2015 03:08
    Por que a Argentina, no period de Domingos Cavallo, tendo adotado um Currency Board, foi para o ralo. Sei que o gasto public foi o maior fator para o fracasso. Como a Argentina é sempre um "case", lembro-me de quando Martinez de Oz foi o todo poderoso Ministro da Fazenda e tentou estabelecer o maior liberalismo econômico possível. Nessa o casião o país também foi para o vinagre. Alguma outra explicação, Leandro?
  • Leandro  06/01/2015 11:42
    Explicado em excruciantes detalhes neste artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1562

    Dica: Currency Board de fato nunca houve na Argentina. O Banco Central argentino seguiu comprando ativos nacionais (algo que um Currency Board ortodoxo não faz, pois um CB só tem em seus balancetes ativos estrangeiros), e seguiu injetando dinheiro no mercado interbancário (outra coisa que um CB não faz). No entanto, enquanto o Banco Central manteve algumas características de um Currency Board (1991 a 1994), o governo realmente entrou nos eixos. Depois, quando o Banco Central passou a adulterar o funcionamento do Currency Board, aí é que a coisa degringolou.

    Por isso é imprescindível realmente abolir o Banco Central, alterando sua legislação e o transformando realmente em um CB. Não pode apenas haver um BC operando como se fosse um CB.

  • Silvio  06/01/2015 12:40
    No fim das contas, a solução é inverter uma sigla.
  • Juliana  06/01/2015 11:50
    Sem querer levar o assunto para muito além do que foi o texto, mas já levando, os protecionistas não são os únicos interessados em se ter a moeda continuamente desvalorizada. Diretamente - e sem dúvida - o setor exportador é o que mais faz pressão para a desvalorização da moeda.

    Mas mesmo que o setor importador tivesse um lobby maior e mais poderoso para a valorização cambial, duvido que seria suficiente para fazer algum ilustre governante adotar medidas ou aprovar leis que garantissem que a moeda iria sempre se valorizar em relação às outras. O governo seria o primeiro a não querer isso, pois teria que trabalhar sempre com um orçamento bem mais apertado. E aposto que o setor bancário também se juntaria ao coro mercantilista para pressionar que moeda continuasse sendo livremente inflacionável. Portanto, o protecionismo não é a única razão para as moedas de hoje continuarem a ser constantemente desvalorizadas.

    A propósito, só o simples e ótimo presente artigo já deveria ser suficiente para desmoralizar qualquer mercantilista. Muito bons os pontos abordados. Sem contar os inúmeros exemplos em que a depreciação da moeda sequer trouxe benefícios às exportações. E pior que isso, não fez nenhum bem à economia.

    Grande abraço!
  • Samba  06/01/2015 13:21
    Excelente comentário. É por isso mesmo que não consigo me entusiasmar com esse negócio de currency board e vejo que a única solução digna desse nome para a questão monetária é a privatização da moeda.

    Vires in numeris!
  • Leandro  06/01/2015 13:54
    Ué, mas uma eventual privatização da moeda teria um funcionamento bastante semelhante ao de um Currency Board.

    Veja bem: na privatização da moeda, cada banco é livre para criar sua própria moeda. Até aí, beleza.

    Só que, obviamente, para que cada uma dessas moedas seja aceita, ela terá de ser imediatamente conversível em alguma outra moeda ou em alguma commodity. Caso isso não ocorra, tal moeda nem sequer entraria em circulação, pois ninguém aceitaria uma moeda sem lastro em nada. Como o próprio teorema da regressão explica, é impossível criar uma moeda do nada, sem que ela tenha antes tido um histórico como meio de troca.

    O real só entrou em circulação e só foi aceito no mercado internacional porque, quando foi criado, estava totalmente lastreado em dólares.

    Portanto, um arranjo de moedas privadas (também chamado de free banking) é um arranjo muito semelhante a um Currency Board: há um câmbio totalmente fixo entre a moeda emitida pelo banco e a moeda/commodity que a lastreia, e cada banco é obrigado a manter reservas de 100% para suas moedas (caso contrário, há uma perda de confiança em sua moeda, e haverá uma corrida bancária).

    Se você criar um Currency Board privado, o arranjo fica praticamente idêntico.
  • Silvio  06/01/2015 19:10
    Só que, obviamente, para que cada uma dessas moedas seja aceita, ela terá de ser imediatamente conversível em alguma outra moeda ou em alguma commodity.

    Mas entonces, metade do problema está aí. Qual a graça em se lastrear uma moeda, p.ex., no dólar, se o governo dos EUA há muitos anos vem desgraçando essa moeda? Nesse caso, um currency board só joga o problema para a frente, pois a moeda, em última instância, fica na mão de um estado, o qual, como devedor crônico que é, não tem o menor interesse em manter uma moeda forte. Quem adota esse esquema se abraça àquele que está pulando da ponte.

    Mas o currency board também pode se lastrear numa commodity. Pois é, e aí está a outra metade do problema. As moedas antigamente eram atreladas ao ouro. E o que temos hoje? Justamente porque os estados não têm interesse em manter uma moeda forte, essa "camisa de força", uma vez colocada, é sem demora jogada na lata do lixo. Se esse esquema fosse adotado, as coisas até melhorariam, mas no longo prazo voltaríamos ao ponto em que já estamos.

    Se você criar um Currency Board privado, o arranjo fica praticamente idêntico.

    Respeitosamente discordo. Se a moeda for gerida privadamente, sem qualquer intromissão do estado, tudo muda de figura dramaticamente, justamente porque não há mais um agente inerentemente sabotador tomando conta da moeda. Os seus responsáveis terão todo o interesse em trabalhar pelo seu sucesso, não pelo seu fracasso.


    Além disso, há um problema de credibilidade. Se o estado adota um currency board, a coisa nunca será feita como se deve. Sempre será adotado um modelo misto, justamente porque o pessoal do estado nunca tem interesse em fazer o que é certo. Aí, quando as coisas começarem a dar errado, as pessoas em geral jogarão toda a culpa no currency board, pouco importando se ele foi ou não seguido corretamente. Aliás, quando alguém vier com esse argumento, poderão até ironizar dizendo "ué, mas você não é aquele mesmo que esculacha os comunistas quando dizem que o comunismo nunca deu certo justamente porque não seguiram à risca as propostas de Marx? Ah, vá catar coquinho!"

    Por isso que eu digo e repito que a única solução digna desse nome para a questão monetária é a privatização da moeda.
  • Leandro  06/01/2015 21:54
    "Qual a graça em se lastrear uma moeda, p.ex., no dólar, se o governo dos EUA há muitos anos vem desgraçando essa moeda?"

    Essa é uma preocupação que apenas países ricos e arrumados podem se dar ao luxo de ter. Por exemplo, realmente não faria muito sentido para um suíço, um alemão, um australiano, um neozelandês, um canadense ter sua moeda ancorada ao dólar.

    Já para nós brasileiros, que estamos acostumados a só ter moedas avacalhadas e que perdem poder de compra a um ritmo que chega a ser 6 vezes mais rápido que o dólar, ter uma moeda ancorada ao dólar seria um sonho. Apenas compare a inflação de preços acumulada nos EUA com a inflação de preços do Brasil nos últimos 10 anos.

    Portanto, sim, no atual arranjo a que estamos submetidos, ancorar o real ao dólar seria um arranjo bastante superior. Infelizmente, não estamos na posição de nos darmos ao luxo de ficar vendo defeitos em outras moedas mais fortes. A nossa está um lixo e isso tem de ser contido rapidamente.

    "Nesse caso, um currency board só joga o problema para a frente, pois a moeda, em última instância, fica na mão de um estado, o qual, como devedor crônico que é, não tem o menor interesse em manter uma moeda forte. Quem adota esse esquema se abraça àquele que está pulando da ponte."

    O estado pode até não ter o interesse. Mas se sua moeda foi escolhida pelos agentes financeiros como o porto mais seguro disponível, não há muito o que ele possa fazer. Além do dólar, vide o franco suíço: por mais que o governo tente espantar os investidores estrangeiros, estes se mantêm aferrados a franco.

    "Mas o currency board também pode se lastrear numa commodity. Pois é, e aí está a outra metade do problema. As moedas antigamente eram atreladas ao ouro. E o que temos hoje? Justamente porque os estados não têm interesse em manter uma moeda forte, essa "camisa de força", uma vez colocada, é sem demora jogada na lata do lixo."

    Esse nem é o problema. O grande problema, hoje, de ter um Currency Board lastreado em ouro é que, enquanto o ouro não for adotado pelos EUA (a maior economia do mundo), seu preço continuará extremamente volátil, o que prejudicaria enormemente o país que eventualmente tenha adotado o ouro como âncora.

    Veja: em meados de 2011, o ouro chegou a valer US$1.900. Hoje, ele está na casa de US$1.200. Se um país tivesse adotado o ouro como moeda em 2011, ele já teria perdido quase 37% do seu poder de compra.

    Repito: infelizmente, enquanto o ouro não for adotado como moeda por uma grande economia, ele continuará sendo apenas um ativo especulativo, e não realmente uma moeda.

    "Respeitosamente discordo. Se a moeda for gerida privadamente, sem qualquer intromissão do estado, tudo muda de figura dramaticamente, justamente porque não há mais um agente inerentemente sabotador tomando conta da moeda. Os seus responsáveis terão todo o interesse em trabalhar pelo seu sucesso, não pelo seu fracasso."

    Certo, mas a moeda privada terá de ter algum lastro. O Bradesco emitirá bradescos e o Itaú emitirá itaús. Mas ambas essas moedas terão, em última instância, de ser 100% redimíveis em alguma outra moeda ou em alguma commodity. Ou será em alguma moeda já existente (dólar, euro ou franco suíço) ou será em alguma commodity (o que a deixará totalmente suscetível às variações do mercado).

    Não há muita escapatória.

    "Além disso, há um problema de credibilidade. Se o estado adota um currency board, a coisa nunca será feita como se deve. Sempre será adotado um modelo misto, justamente porque o pessoal do estado nunca tem interesse em fazer o que é certo."

    Concordo. Por isso, o CB deve ser privado.

    "Por isso que eu digo e repito que a única solução digna desse nome para a questão monetária é a privatização da moeda."

    Perfeito. Mas com que lastro?
  • IRCR  08/01/2015 18:48
    Leandro,

    Esse nem é o problema. O grande problema, hoje, de ter um Currency Board lastreado em ouro é que, enquanto o ouro não for adotado pelos EUA (a maior economia do mundo), seu preço continuará extremamente volátil, o que prejudicaria enormemente o país que eventualmente tenha adotado o ouro como âncora.

    O que vc quer dizer é que o ouro ou mesmo o bitcoin (mesma logica) é que eles não precificam economia nenhuma, ou seja, não funcionam como unidade de conta. Por exemplo vc não vai num shopping comprar uma roupa que está precificada em onças de ouro. Pois caso o lojista resolva colocar o preço da roupa em onças ele vai utilizar o cambio ouro\dolar ou real, que é o mesmo que acontece com as empresas que aceitam bitcoin. O lojista pega a cotação do minuto entre bitcoin/dolar e precifica em bitcoin. Porém é muito diferente de ter uma economia "bitcoinizada".
    O problema seria similar se vc, por exemplo, mora no Brasil mas recebe seu salario em Euro, como nada no Brasil é precificado em Euro vc ficaria a mercê do cambio.

    Outra pergunta, como todas as moedas em 2014 se desvalorizaram perante o dólar sem nem mesmo o FED ter subido o juros, então no momento que eles subirem o juros, quem vai penar menos ? os países com cambio flutuante ou com cambio fixo como HK com sua CB ou mesmo os países petroleiros (que tb tem cambio fixo com o dólar) ?

    Por ultimo, qual seria a melhor variável para analisar quanto que o governo brasileiro jogou de dinheiro na economia quando ele se financia via sistema bancário ? qual seria a serie lá no site do BC ?

    obrigado.
  • Leandro  08/01/2015 20:34
    "O que vc quer dizer é que o ouro ou mesmo o bitcoin (mesma logica) é que eles não precificam economia nenhuma, ou seja, não funcionam como unidade de conta. [...]Pois caso o lojista resolva colocar o preço da roupa em onças ele vai utilizar o cambio ouro\dolar ou real, que é o mesmo que acontece com as empresas que aceitam bitcoin. O lojista pega a cotação do minuto entre bitcoin/dolar e precifica em bitcoin."

    Esse não é o problema. Cartões de crédito internacionais também funcionam assim. Você vai a um estabelecimento nos EUA ou na Europa, compra algo, e utiliza o cartão de crédito internacional. Você mal sabe o preço em reais, mas compra normalmente.

    O problema é outro: o ouro (e o bitcoin) estão extremamente volúveis. Em um ano, o ouro valia US$1.900; depois, bastou o Fed anunciar o fim do afrouxamento quantitativo, o ouro passou a valer US$1.200. Se os principais governos do mundo começarem a vender ouro (por qualquer que seja o motivo), o preço dele desaba, e uma moeda lastreada em ouro sofrerá uma enorme perda do seu poder de compra.

    Se a Rússia, por exemplo, resolver lastrear o rublo em ouro, e os governos ocidentais resolverem retaliar vendendo maciçamente seu ouro, o poder de compra do rublo desaba.

    Não consigo ser mais claro do que isso.

    "Outra pergunta, como todas as moedas em 2014 se desvalorizaram perante o dólar sem nem mesmo o FED ter subido o juros, então no momento que eles subirem o juros, quem vai penar menos ? os países com cambio flutuante ou com cambio fixo como HK com sua CB ou mesmo os países petroleiros (que tb tem cambio fixo com o dólar) ?"

    Quem vai penar mais são os países com câmbio flutuante, exportadores de commodities e que receberam grandes aportes de dinheiro especulativo ("hot money") durante os últimos anos. Turquia e Indonésia estão entre eles. Os países com câmbio fixo não sofrerão.

    "Por ultimo, qual seria a melhor variável para analisar quanto que o governo brasileiro jogou de dinheiro na economia quando ele se financia via sistema bancário ? qual seria a serie lá no site do BC ?"

    Títulos do Tesouro nacional -- total emitido. (Série 2213).
  • Silvio  09/01/2015 15:19
    "Esse nem é o problema. O grande problema, hoje, de ter um Currency Board lastreado em ouro é que, enquanto o ouro não for adotado pelos EUA (a maior economia do mundo), seu preço continuará extremamente volátil"

    Então lascou tudo, porque os EUA jamais abrirão mão de seu monopólio sobre a moeda e muito dificilmente voltarão ao padrão-ouro. Nesse caso, a solução é acabar com a União e só daí então começar a se queimar tutano para resolver o problema monetário.

    "Se os principais governos do mundo começarem a vender ouro (por qualquer que seja o motivo), o preço dele desaba, e uma moeda lastreada em ouro sofrerá uma enorme perda do seu poder de compra"

    Isso seria ruim no curto prazo, mas seria ótimo a longo prazo. Se os estados se livram de seus estoques de ouro, aí é que não poderão mesmo sabotar a moeda particular lastreada em ouro e ela terá ainda mais razões para ser bem sucedida.

    Além disso, se uma moeda é lastreada em outra, há o risco de sabotagem também. Aposto que se um país lastreasse sua moeda no Real, o governo brasileiro, tão logo tomasse conhecimento disso, seria ainda mais furioso na sua emissão. E, ao contrário do ouro, os governos podem imprimir quase que infinitamente novo papel moeda.

    Se for lastrear a moeda em algo, melhor lastreá-la numa commodity mesmo, que está sujeita às forças do mercado, do que numa outra moeda, que está sujeita à insanidade do dos estados nacionais.


    Entendo que a proposta de lastrear o Real em outra moeda mais forte é a melhor possível nas presentes circunstâncias, mas ela está longe de ser uma solução. Na minha visão das coisas, toda proposta para resolver o problema que envolva a participação do estado está fadada ao fracasso.
  • Leandro  09/01/2015 16:40
    "os EUA jamais abrirão mão de seu monopólio sobre a moeda e muito dificilmente voltarão ao padrão-ouro."

    Concordo. E, para isso, eles terão ao menos de gerenciar sua moeda de uma maneira minimamente responsável. Caso contrário, haverá uma revolta popular. E contra isso, não há monopólio que resista.

    E, justamente por isso, ancorar o real ao dólar resta sendo a melhor opção disponível.

    "Nesse caso, a solução é acabar com a União e só daí então começar a se queimar tutano para resolver o problema monetário."

    O problema continuaria. Mesmo que você desmembrasse União e transformasse cada estado em país autônomo, ainda assim a questão monetária permaneceria. Como criar uma moeda do nada? Não tem como. Infelizmente, para começar do nada, você tem de utilizar como base uma moeda já consagrada.

    "Isso seria ruim no curto prazo, mas seria ótimo a longo prazo. Se os estados se livram de seus estoques de ouro, aí é que não poderão mesmo sabotar a moeda particular lastreada em ouro e ela terá ainda mais razões para ser bem sucedida."

    Isso não existe. Se os estados se livram de seus estoques de ouro, o valor do ouro despenca. Se ninguém quer o ouro, então você fica com uma moeda igual à antiga (e já extinta) moeda do Zimbábue: sem conversibilidade, sem valor, e imprestável para importar bens essenciais à sobrevivência.

    É claro que tal cenário extremo não ocorreria com o ouro, mas é apenas um exemplo de que não existe isso de ter uma moeda que ninguém mais quer.

    "Além disso, se uma moeda é lastreada em outra, há o risco de sabotagem também. Aposto que se um país lastreasse sua moeda no Real, o governo brasileiro, tão logo tomasse conhecimento disso, seria ainda mais furioso na sua emissão."

    Isso não faz nenhum sentido. Por que algum governo faria isso deliberadamente? Os primeiros prejudicados seriam a própria população do país. Vale lembrar que o dólar se valorizou bastante na segunda metade da década de 1990, justamente quando vários países em desenvolvimento estavam atrelando suas moedas nacionais à moeda americana. Não há notícias de que o Fed tenha tentado destruir o dólar apenas para prejudicar esses países. Ao contrário, até: o dólar se valorizou.

    E, ao contrário do ouro, os governos podem imprimir quase que infinitamente novo papel moeda.

    "Se for lastrear a moeda em algo, melhor lastreá-la numa commodity mesmo, que está sujeita às forças do mercado, do que numa outra moeda, que está sujeita à insanidade do dos estados nacionais."

    Concordo. Só que essa commodity não pode estar sujeita à especulação de outros governos. E o ouro, infelizmente, está. Repito: se a Rússia ancorasse o rublo ao ouro, os EUA e a União Europeia poderiam facilmente desestabilizar o novo rublo ao simplesmente fazer uma liquidação de ouro, vendendo a preços abaixo dos de mercado.

    "Entendo que a proposta de lastrear o Real em outra moeda mais forte é a melhor possível nas presentes circunstâncias, mas ela está longe de ser uma solução."

    Depende do que você entende por "solução". Se a solução é simplesmente reduzir a atual carestia, então já resolve. E muito. A situação do real é muito mais grave do que se possa imaginar. De janeiro de 2009 (início da crise financeira) até dezembro de 2014, o IPCA já acumula 40%. Já o CPI americano acumula "apenas" 10%.

    40% em seis anos é um desastre. Para você ter uma ideia, uma moeda que apresente uma inflação de 2% ao ano (que é o valor aceito como máximo na Europa e nos EUA), demoraria 17 anos para acumular essa mesma perda de 40%. Ou seja, estamos fazendo 17 anos em 6.

    Outro dado ainda mais pavoroso: de julho de 1994 (ano da criação do real) a dezembro de 2014, o IPCA é de inacreditáveis 374%. Isso é coisa de país bananeiro. Nos EUA, nesse mesmo período, a inflação foi de 59%.

    Agora, se a "solução" é adotar o sistema perfeito e imune a ciclos, então ancorar ao dólar realmente não resolve. Apenas uma total alteração no sistema bancário e monetário.

    "Na minha visão das coisas, toda proposta para resolver o problema que envolva a participação do estado está fadada ao fracasso."

    Concordo. Por isso, um Currency Board privado, com sede na Suíça e sujeito às leis da Suíça, é hoje a melhor solução factível.
  • Enrico  09/01/2015 17:24
    Mas o que você diz por "privado"?
  • Leandro  09/01/2015 18:43
    Um Currency Board privado. Um CB que não é gerido por burocratas, mas sim por agentes privados.

    Estou supondo que você sabe como funciona um CB. Ele aufere receitas com aplicações em títulos do país que emite a moeda-âncora e seus gastos são apenas os de manter em circulação as cédulas e moedas que ele emite. Não há arranjo monetário mais propício para ser privado do que um CB.

    object.cato.org/sites/cato.org/files/serials/files/cato-journal/1993/1/cj12n3-10.pdf
  • aspone  09/01/2015 17:57
    Leandro, e isso é possível??

    Quer dizer, tem algum país que já faz isso??
  • Leandro  09/01/2015 18:44
    O estatuto de um CB ortodoxo sempre foi esse. O problema é que os governos o desvirtuam e preferem gerenciar um Banco Central e fingir que ele é um Currency Board.

    object.cato.org/sites/cato.org/files/serials/files/cato-journal/1993/1/cj12n3-10.pdf
  • Enrico  09/01/2015 21:00
    Certo. Eu que fui muito minimalista ao comentar.

    Como você mencionou "um" Currency Board ao invés de Currency Boards no plural, eu tive receio na ideia. A proposta seria lastrear o real em dólares e depois privatizar o CB, que estaria em mãos estatais até o momento da transição? Continuaria a lei de curso legal? Não seria uma espécie de parceria público-privada?

    Quanto à Suíça, por que exatamente ela? Como isso seria factível, já que o artigo primeiro daquele contrato imposto de escravidão diz que a soberania é o primeiro fundamento da republiqueta de bananas, levando a qualquer nacionalista no Congresso a mover uma ADI contra esse projeto?
  • Leandro  09/01/2015 22:05
    O CB jamais estaria em mãos estatais. E a opção pela Suíça é por causa de seu tradicional respeito aos contratos. Tá tudo no link que eu mandei. Tudo.
  • Silvio  09/01/2015 20:04
    "O problema continuaria. Mesmo que você desmembrasse União e transformasse cada estado em país autônomo, ainda assim a questão monetária permaneceria. Como criar uma moeda do nada? Não tem como. Infelizmente, para começar do nada, você tem de utilizar como base uma moeda já consagrada"

    Bem, como a população dos estados já mantêm um forte comércio entre si há centenas de anos, creio que uma moeda comum surgiria sem grandes dificuldades. E, como não haveria mais uma autoridade central para empurrar goela abaixo uma moeda fiduciária, creio que a própria força da necessidade impeliria a adoção de uma moeda confiável lastreada em alguma commodity. Dessa forma, a maior economia do mundo passaria a adotar uma moeda decente, que acabaria por servir de padrão para todas as demais. É claro que isso é pura especulação minha, mas não vejo como uma piração.

    "Isso não existe. Se os estados se livram de seus estoques de ouro, o valor do ouro despenca"

    Sim, certamente. Mas os estoques de ouro são limitados e, depois que estiver preponderantemente nas mãos da iniciativa privada, o ouro chegará e se estabilizará em seu valor real, ou seja, de mercado. Depois de passar por essa tempestade, viria a bonança para o ouro.

    "Isso não faz nenhum sentido. Por que algum governo faria isso deliberadamente? Os primeiros prejudicados seriam a própria população do país"

    Sinceramente não compreendi essa. Por acaso a possibilidade de prejudicar a população de seu próprio território já impediu algum governo de fazer as maluquices que faz?

    "Ou seja, estamos fazendo 17 anos em 6"

    Estamos quase lá. O objetivo é fazer 50 anos em 5 (desculpe pela brincadeira, não resisti).

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    Duas dúvidas:

    a) o senhor disse disse que um currency board privado, com sede na Suíça e sujeito às leis daquele país, é a melhor solução. Fiquei curioso. Nesse caso, como ele funcionaria? Haveria emissão de uma moeda própria? Como seria feito seu lastro? Existe alguma iniciativa em andamento no sentido de concretizar esse projeto?

    b) tempos atrás ouvi dizer que o Kadafi queria criar uma moeda lastreada em ouro. Teorias da conspiração dizem até que foi esse o motivo real da intervenção dos EUA na Líbia. Bem, de qualquer maneira, poderia me indicar algum texto (sério, pois só encontrei porcaria) que tratasse sobre esse projeto?
  • Leandro  09/01/2015 22:10
    "não compreendi essa. Por acaso a possibilidade de prejudicar a população de seu próprio território já impediu algum governo de fazer as maluquices que faz?"

    Você disse que um governo avacalharia sua moeda deliberadamente apenas para prejudicar o país que estivesse usando sua moeda para ancorar um CB. Eu disse que tal raciocínio não procede. Sim, governos avacalham suas moedas, mas um governo não iria avacalhar ainda mais sua moeda só porque ela serve de lastro para um CB.

    Quanto às perguntas:

    a) Tá tudo no link que eu mandei. Tudo.

    b) Também só sei dessa história via sites mais sensacionalistas.
  • Silvio  10/01/2015 03:03
    Sim, governos avacalham suas moedas, mas um governo não iria avacalhar ainda mais sua moeda só porque ela serve de lastro para um CB

    Concordo parcialmente. Uma sabotagem intencional até concordo que seria pouco factível (embora não descarte a possibilidade, pois em se tratando de estado e dinheiro, nenhum absurdo é absurdo o bastante), mas uma sabotagem não intencional não me parece nada difícil de acontecer. Imaginemos que o Maduro, para melhorar a situação periclitante do Bolívar, fizesse lá seu CB lastreado em reais. Duvido que o governo brasileiro, sabendo disso (imbuído das melhores intenções, é claro), simplesmente deixaria passar a oportunidade de pisar ainda mais furiosamente no acelerador com o (nobre) intuito de garantir uma oferta "ótima" de reais para ambos os países. De um jeito ou de outro, intencional ou não, haveria sabotagem, justamente porque o Real passou a servir de lastro para um CB (sei que esse exemplo não ocorreria na prática, pois equivaleria a dois bêbados se abraçarem um ao outro para se manterem de pé).

    Sobre o link, perdão, só vi seu post depois que mandei meu comentário. Esteja certo de que será lido, brigadão.


    Aproveitando a oportunidade (se eu estiver enchendo muito o saco, pode pedir para parar que eu paro), lá na época do referendo para decidir o que era pior (parlamentarismo, monarquia ou presidencialismo), D. Bertrand deu uma palestra sobre os benefícios do Império e os malefícios da República, na qual disse (a partir dos 20:37):

    "Nós não tínhamos inflação. Diz-se normalmente que o espelho de um regime é a sua moeda. Nós não tínhamos inflação...
    Eu tenho aqui na minha pasta (eu pedi para me trazerem) algumas moedas do Império para lhes mostrar. O padrão da nossa moeda foi estabelecido em 1846 com relação à libra esterlina. Nossa moeda valia 27 pences por mil-réis. Em 1846, vejam bem. Em 1889, no dia 15 de novembro de 1889, nossa moeda valia 27 pences e 3/4, isto é, a libra esterlina havia caído um pouco e nossa moeda esteve perfeitamente estável, a mesma quantidade de ouro, a mesma quantidade de prata em nossas moedas.
    Eu tenho aqui exatamente duas moedas do Império. Esta aqui de 1851, foi a primeira moeda de 2 mil-réis que foi cunhada. São 28 gramas de prata pura. Esta aqui de 1889, a última moeda cunhada no Império. 28 gramas de prata pura. Exatamente iguais. Muda apenas... numa está escrita 2 mil réis em grande e na outra está a efígie do Imperador e em pequenino embaixo 2 mil-réis. O mesmo peso, o mesmo tamanho, o mesmo valor. Não tínhamos inflação. Muitos, quando eu afirmo essa realidade do Império, me objetam 'é que os tempos eram outros'. Não! É que o regime era outro. Bastou que viesse a República para que nos primeiros 45 dias da República, de 15 de novembro de 1889 até 31 de dezembro já tivéssemos 11% de inflação. Em 1890, 41% de inflação. Em 1891, 50% de inflação. E depois ninguém mais segurou a nossa moeda..."


    Posto isso, pergunto: como funcionava exatamente a política monetária no Império? Naquela época já havia um currency board? De todo modo, esse modelo de fato conseguiu manter a estabilidade da moeda por quase 50 anos?
  • Leandro  10/01/2015 13:00
    Há um livro do Mario Henrique Simonsen que diz que "pouco se sabe sobre a evolução do nível interno de preços no período do Império. As parcas informações disponíveis sugerem que [...] a taxa média de inflação entre 1822 e 1889 parece não ter ido além de 1,5% ao ano, de acordo com as estimativas de Oliver Onody. [...] Os déficits públicos cresceram perigosamente logo após a proclamação da República, tendo o saldo do papel-moeda em circulação se expandido 51,6% em 1890, e mais de 71,8% em 1891".

    Ao que tudo indica, a ampla utilização de moedas metálicas, como as descritas por Dom Bertrand, em conjunto com o fato de que o imperador D. Pedro II era economicamente conservador e os credores ingleses tinham grande influência sobre nossa administração econômica (credores não gostam de ser pagos com moeda desvalorizada), garantiram essa grande estabilidade da moeda.
  • Leandro90  09/01/2015 16:48
    Excelente artigo. Confesso que com a leitura de diversos artigos do Mises tenho mudado de opinião sobre certas coisas, principalmente proteção do estado. Sempre achei estranho esta crítica deflação. A livre concorrência deve servrealmente estimulada. PPPs é um crime contra a livre iniciativa. Mudei meu posicionamento.
  • IRCR  09/01/2015 21:13
    Leandro,

    Não seria possível ancorar alguma moeda em uma cesta composta por dólares, euros e ouro juntas ?
  • Leandro  09/01/2015 22:11
    O Banco Central de Cingapura faz algo parecido com isso. Em vez de determinar juros, ele apenas controla o valor do dólar de Cingapura em relação a uma cesta de moedas. É o único no mundo a fazer isso. E funciona por dois motivos:

    1) O BC não revela a ninguém quais moedas compõem a sua cesta e nem qual o peso de cada moeda em sua cesta. Isso impede ataques especulativos.

    2) A economia é extremamente produtiva e muito aberta. Caso não fosse produtiva e não exportasse tanto, seria muito difícil valorizar continuamente sua moeda.
  • Enrico  10/01/2015 00:14
    Isso não leva a uma certa instabilidade? Ainda que hoje a inflação de Cingapura esteja baixíssima, há pouco tempo ela esteve beirando 8% (há seis anos) e 6% (há dois). É devido ao sistema do Banco Central?
  • Leandro  10/01/2015 13:11
    É devido ao atraso de sua reação. Mas isso também deve ser contextualizado.

    Esse regime foi adotado em 1981. De 1982 até 2006, a inflação de preços anual jamais superou 4%.

    www.tradingeconomics.com/charts/singapore-inflation-cpi.png?s=sicpiyoy&d1=19820101&d2=20151231

    Mais ainda: de 1983 a 2006, a média da inflação de preços foi de 1,7%. E, de 1983 a 1999 (ano da criação do euro), o dólar de Cingapura apresentou menos perda do poder de compra do que o franco suíço e o marco alemão.

    Houve uma grande carestia em meados de 2008 (quando a inflação de preços chegou a quase 8%) por causa do preço recorde do petróleo. Mas isso foi seguido por uma deflação de preços em 2009. Em 2011, a inflação quase chegou a 6% (porque as principais moedas do mundo -- dólar e euro -- estavam muito fracas). No entanto, a partir daí, o BC de Cingapura disse que iria valorizar continuamente sua moeda. Resultado: a carestia está em zero.

    Aceito pra mim.
  • IRCR  11/01/2015 22:37
    Leandro,

    A queda da inflação em Singapura, nos últimos 2 anos, não seria melhor explicada olhando os M2 e o credito ?

    www.tradingeconomics.com/charts/singapore-money-supply-m2.png?s=singaporemonsupm2&d1=20060101&d2=20151231

    www.tradingeconomics.com/charts/singapore-loans-to-private-sector.png?s=singaporeloatoprisec&d1=20060101&d2=20151231


    Ambos se arrefeceram.
  • Leandro  12/01/2015 11:06
    Atualmente, uma combinação dos três (câmbio, crédito e M3) está de fato ocorrendo. Mas isso é muito mais uma exceção do que uma regra. Veja que, durante a década de 1990, a oferta monetária triplicou, mas a carestia foi descendente

    No entanto, acime eu me referia a toda a história do regime, desde 1981. Em todo esse período, a taxa de câmbio foi mais efetiva do que o crescimento dos agregados monetários. Para uma economia extremamente aberta como a de Cingapura, que depende da importação de itens essenciais, ter uma taxa de câmbio em contínua valorização é essencial para controlar a carestia. Ainda mais essencial do que controlar agregados monetários e a expansão do crédito.
  • IRCR  13/01/2015 07:30
    Leandro,

    Já viu esse paper publicado no site do BC que critica e questiona a politica de crédito direcionado do governo pelo BNDES ?

    www.bcb.gov.br/pec/wps/ingl/wps378.pdf

    Macroeconomic and Financial Consequences
    of the After Crisis Government-Driven
    Credit Expansion in Brazil
  • Yonatan Mozzini  14/01/2015 14:05
    Leandro, apesar de defender a valorização do poder de compra de uma moeda, isto é, a constante apreciação cambial, tal medida não é um jogo de soma zero em relação a outros países?

    Por exemplo, suponha que existam apenas duas moedas no mundo: dólar e real. Caso o real se valorize, o dólar necessariamente se depreciará, e vice-e-versa. Para um país obter um poder de compra maior, outro com quem ele comercializa que possui moeda 'rival' sofrerá necessariamente um poder de compra menor.

    Caso todos os bancos centrais se empenhassem em contínua apreciação de suas moedas, todos os benefícios vinculados à moeda forte (baixa inflação, maior previsibilidade econômica, maior controle da sociedade sobre os gastos setor público, etc) serão preservados ou aumentados, mas o poder de compra entre os países será conflitante.
  • Leandro  14/01/2015 14:34
    "Leandro, apesar de defender a valorização do poder de compra de uma moeda, isto é, a constante apreciação cambial, tal medida não é um jogo de soma zero em relação a outros países?"

    Por que seria? O franco suíço se aprecia continuamente em relação às moedas da América Latina. Aliás, se aprecia em relação a quase todas as moedas do mundo. Isso é soma zero para os suíços?

    "Por exemplo, suponha que existam apenas duas moedas no mundo: dólar e real. Caso o real se valorize, o dólar necessariamente se depreciará, e vice-e-versa."

    Aí nós estaremos bem e os americanos estarão mal. Nossa moeda mais forte irá nos permitir se apossar de vários bens e serviços que os americanos simplesmente não conseguirão comprar. Vamos enriquecer e eles vão empobrecer.

    Consequentemente, para reverter essa situação (ou ao menos para estancá-la), que os está levando à penúria, eles terão de produzir ainda mais coisas para exportar para nós, pois só assim (ao criarem demanda por sua moeda) poderão recuperar parte do seu poder de compra e restabelecer algum padrão de vida.

    Ou seja, ganhamos duplamente.

    "Para um país obter um poder de compra maior, outro com quem ele comercializa que possui moeda 'rival' sofrerá necessariamente um poder de compra menor."

    E aí aquele que tem um poder de compra maior poderá se apossar de todos os bens e serviços o produzidos pelo país de moeda fraca, cujos exportadores estarão cada vez mais ávidos para exportar para o país de moeda forte. Qual população está, no final das contas, usufruindo uma maior oferta de bens? Quem está em melhor situação, com um padrão de vida mais alto?

    "Caso todos os bancos centrais se empenhassem em contínua apreciação de suas moedas, todos os benefícios vinculados à moeda forte (baixa inflação, maior previsibilidade econômica, maior controle da sociedade sobre os gastos setor público, etc) serão preservados ou aumentados, mas o poder de compra entre os países será conflitante."

    Não entendi a conclusão. Se o poder de compra mundial está crescendo, se todas as moedas estão se valorizando, então todos os preços estão caindo. Isso seria ruim?
  • Pobre Paulista  14/01/2015 14:57
    Pelo que entendi da dúvida dele, a questão é: Não tem como todas as moedas se valorizarem relativamente umas às outras ao mesmo tempo. O que é parcialmente irrelevante, dado que manter o poder de compra de uma moeda significa que vemos os preços de bens e serviços decaírem com o tempo.
  • Guilherme  14/01/2015 15:09
    Se é isso, então o problema é menor ainda.
  • Yonatan Mozzini  14/01/2015 16:18
    Leandro, você disse:

    "Por que seria? O franco suíço se aprecia continuamente em relação às moedas da América Latina. Aliás, se aprecia em relação a quase todas as moedas do mundo. Isso é soma zero para os suíços?"

    Sim, eu entendo seu ponto de vista, que o país que adota a moeda forte está em vantagem em poder de compra. Mas eu me referi sob a ótica de outros países, ou melhor, do mundo como um todo, não pela ótica do povo suíço apenas. Eu quis dizer que, de forma agregada, é um tipo de soma zero: se o país A tem sua moeda apreciada, o país B, de moeda rival, tem sua moeda depreciada. É como comparar-se com balança comercial: se houvessem apenas dois países no mundo, e estes comercializando entre si, não haveria como os dois terem deficits/superávits ao mesmo tempo: se o país A estiver em déficit, então é porque o país B está em superávit, e vice-versa. O raciocínio é o mesmo em relação às moedas flutuantes.

    "Se o poder de compra mundial está crescendo, se todas as moedas estão se valorizando, então todos os preços estão caindo. Isso seria ruim?"
    Leandro, talvez eu não tenha entendido o que você quis dizer também, mas eu me referi à questão cambial especificamente, não em relação a outros fatores, como produtividade. Um exemplo extremo: se todos os bancos centrais desvalorizassem suas moedas em 20%, tanto as moedas fortes (franco suíço) quanto as moedas fracas (bolívar venezuelano), mantidas as outras variáveis constantes, o poder de compra relacionado às transações comerciais, especificamente, em nada mudaria. O povo suíço, apesar de ter sua moeda mais inflacionada agora, não teria problemas cambiais, pois a depreciação de lá seria compensada pela depreciação dos outros países. É claro que tal medida expansionista iria afetar negativamente a economia de todos os países, pois geraria todos os problemas relacionados à inflação.

    Na verdade, eu trouxe a questão à tona porque talvez haja um motivo moral no fato de uma ala dos austríacos serem a favor do padrão-ouro. Se, por exemplo, todos os países do mundo adotassem o padrão-ouro, e imprimissem moeda local por uma taxa irrevogavelmente fixa, criando/destruindo moedas nacionais conforme o que entra/sai de ouro no país, então não haveria soma zero na relação cambial de modo agregado. Por definição, não haveriam valorizações nem desvalorizações de moeda. No longo prazo, todas as moedas nacionais seriam apenas um nome diferente para determinada massa de ouro. Nesse caso, o atual poder de compra do povo suíço em relação a outros países (não me refiro à produtividade da economia suíça) necessariamente cairia até determinado patamar, e o poder de compra dos brasileiros aumentaria, até determinado patamar. Pois nesta relação cambial não há perdedores nem vencedores. Parece-me que o arranjo de padrão-ouro é mais moral que o de moedas flutuantes que concorrem entre si, pois não permite que hajam exploradores (países de moeda forte) e explorados (países de moeda fraca).
  • Leandro  14/01/2015 17:42
    "Um exemplo extremo: se todos os bancos centrais desvalorizassem suas moedas em 20%, tanto as moedas fortes (franco suíço) quanto as moedas fracas (bolívar venezuelano), mantidas as outras variáveis constantes, o poder de compra relacionado às transações comerciais, especificamente, em nada mudaria. O povo suíço, apesar de ter sua moeda mais inflacionada agora, não teria problemas cambiais, pois a depreciação de lá seria compensada pela depreciação dos outros países. É claro que tal medida expansionista iria afetar negativamente a economia de todos os países, pois geraria todos os problemas relacionados à inflação."

    Não é simples assim. Uma desvalorização de 20% aumentaria a carestia e reduziria enormemente o poder de compra das pessoas. E não há motivo algum pra acreditar que as inflações de preços serão idênticas em todos os países. Em alguns serão maiores; em outros, menores. Nunca será uniforme. Sempre haverá os "grandes perdedores" nesses esquemas.

    Logo, dizer que não haveria "problemas cambiais, pois a depreciação de lá seria compensada pela depreciação dos outros países" é um raciocínio falacioso.

    Além do mais, se houve uma depreciação cambial súbita, então a quantidade de dinheiro na economia permaneceu a mesma nesse intervalo de templo, mas tudo encareceu. Ou seja, a mesma quantidade de moeda agora compra menos. O pode de compra despencou.

    Quanto ao seu primeiro parágrafo, sigo sem entender o ponto. Quanto ao ultimo, em nada me oponho. Só que tal arranjo não ocorrerá; por isso, eu gasto minhas energias promovendo aqueles arranjos que ainda são factíveis. Agitar para que a autoridade monetária do seu país seja austera é mais factível do que convencer todo o universo a retornar ao padrão-ouro.
  • Yonatan Mozzini  14/01/2015 18:59
    "Não é simples assim. Uma desvalorização de 20% aumentaria a carestia e reduziria enormemente o poder de compra das pessoas. E não há motivo algum pra acreditar que as inflações de preços serão idênticas em todos os países. Em alguns serão maiores; em outros, menores. Nunca será uniforme. Sempre haverá os "grandes perdedores" nesses esquemas."
    [...]
    "Além do mais, se houve uma depreciação cambial súbita, então a quantidade de dinheiro na economia permaneceu a mesma nesse intervalo de templo, mas tudo encareceu. Ou seja, a mesma quantidade de moeda agora compra menos. O pode de compra despencou."

    Sim, entendi seu ponto. Mas creio que o que você disse está bastante correto no curto prazo, havendo problemas de preços relativos. Mas no longo prazo a quantidade adicional de moeda em todos os países transbordaria sobre preços e salários de todos os países. (Claro, para simplificar, estou deixando de lado a questão da desigualdade de renda que pode ocorrer na forma em que o dinheiro é jogado na economia e a produtividade ao longo do tempo). Por exemplo: após esta desvalorização hipotética de 20% em todos os países, em longo prazo, ceteris paribus, o preço médio era de $ 1 (por exemplo) passará a $ 1,20; os salários médios que eram de $1000 (por exemplo) passarão a $1200; tanto aqui como no exterior. No longo prazo, as todas desvalorizações serão inócuas no que tange às transações econômicas entre os países, isto é, na questão cambial.

    O meu ponto geral, desde o primeiro comentário deste assunto é: quando se aprecia/deprecia uma moeda, isso sempre ocorre de maneira relativa, nunca absoluta. Quando o real se aprecia em relação ao dólar, nós estamos ganhando, mas os americanos estão perdendo. Há um jogo de soma zero. Não há como o real se apreciar em relação ao dólar ao mesmo tempo em que o dólar se aprecia em relação ao real. (Conforme o comentário do Pobre Paulista). Alguém sempre sai perdendo nessa relação. Por isso, obviamente, concordo plenamente com o que você diz aqui no IMB. O Brasil é um país que está muito atrás dos países ricos e precisamos apreciar cada vez mais nossa moeda se não quisermos ser meros empregados deles por toda a vida, fornecendo bens baratos para eles e sendo reféns de bens caros aqui dentro.
  • IRCR  14/01/2015 19:13
    Acho que o amigo ali, está querendo dizer sobre o dólar (por ser a moeda global) em relação as demais moedas.

    Quando o dólar está forte todas as moedas do mundo tendem a se desvalorizar (logicamente as mais fortes como o franco - menos, a mais ou menos como o real - bem mais, e as fracas como o bolivar desabam).

    Quando o dólar está fraco todas as moedas agora tendem a se valorizar (como foi de 2002-2008). E quando está forte se desvalorizam (em 2014).

    Creio que era algo similar o que acontecia com o deutsche mark no passado, como era a moeda forte de referencia na Europa.

    Voltando ao dólar, caso o FED, por exemplo, resolva adotar uma politica monetária ultra rígida e fortalecer o dólar, as outras moedas pelo mundo vão desabar, e caso esse outros países não queiram que suas moedas virem pó, eles tb vão ter que adotar uma politica monetária mais rígida.
    Agora o inverso, se o FED, adota uma politica monetária muito frouxa e enfraquecer o dólar, as outras moedas pelo mundo vão se valorizar,e caso esse outros países não queiram que suas moedas se valorizem ao extremo, eles tb vão ter que adotar uma politica monetária mais frouxa.
  • Eduardo  18/01/2015 09:51
    Como sempre, excelente artigo. Leandro, li nos comentários sua sugestão de uma política de câmbio fixo através de um Currency Board. Isso não vai contra a valorização defendida no artigo? Me veio esse questionamento vendo as notícias sobre o Franco Suíço, que estava "fixado" em 1.2 EUR, e por isso por mais dinheiro que entrasse não valorizava.
  • Leandro  18/01/2015 12:50
    A valorização contínua é sem dúvida preferível a um Currency Board. A encrenca é que é muito difícil um país em desenvolvimento adotar as políticas necessárias para garantir a valorização contínua da moeda. Aliás, como mostra o caso da Rússia, uma moeda de um país em desenvolvimento pode repentinamente se tornar fraca e inconversivel (e não há aumento nos juros que reverta isso). Já um Currency Board impede que isso ocorra, embora não permita contínuas valorizações da moeda (quando operado ortodoxamente).

    Logo, sim, a valorização contínua é preferível a um Currency Board, mas nem sempre é possível adotar tal política. E isso torna o CB a segunda melhor opção.
  • Advincula  27/01/2015 14:31
    Leandro,
    Qual seria um cenário para os consumidores e para a industrias (empregos) em CURTO PRAZO se o real se tornasse tão forte quanto o dolar?
    1=1
  • Leandro  27/01/2015 15:35
    Como ele se tornaria tão forte quanto o dólar? A maneira como isso ocorreria faria toda a diferença.

    Uma coisa é a moeda ir se apreciando aos poucos (que é exatamente o que eu defendo neste podcast), outra coisa é o governo decretar, por meio da instalação de um Currency Board, essa paridade irreal.

    Como a segunda opção é irreal, resta apenas a primeira. Nesse caso, exportadores podem perfeitamente fazer hedge para se proteger de variações na taxa de câmbio. E swapas permitem que eles até mesmo se protejam de variações cambiais no longo prazo.

    No que mais, caso houvesse uma rápida apreciação do real, é verdade que as indústrias eficientes -- que hoje estão sujeitas a uma altíssima carga tributária, a regulamentações do governo, a burocracias e a sindicatos poderosos -- sofreriam com uma redução nas exportações.

    Mas isso não é problema do cidadão brasileiro e nem deveria ser problema do Banco Central. Isso é problema do Ministério da Fazenda, do Ministério do Planejamento, da Receita Federal e do Ministério do Trabalho. São eles que impõem tributos, regulamentações, burocracias e protegem sindicatos. Não faz sentido combater estas monstruosidades criando novas monstruosidades. Não faz sentido nenhum dizer que deve haver tarifas de importação e desvalorização da moeda para se compensar a existência de impostos, de burocracia e de regulamentações sobre as indústrias. Isso é querer apagar o fogo com gasolina

    O certo seria abolir a burocracia, as regulamentações e os impostos, e não defender a destruição do poder de compra da moeda e a adoção de tarifas protecionistas.

    Outra coisa: uma taxa de câmbio valorizada ajuda as indústrias mais competentes. Qualquer indústria exportadora tem também de importar máquinas e bens de capital de qualidade, além de peças de reposição, para produzir seus bens exportáveis (pergunte isso a qualquer mineradora ou siderúrgica). Se isso puder ser feito a um custo baixo (permitido por uma moeda forte), tanto melhor.

    Um exportador é também um importador de vários bens de capital. A globalização obrigou vários exportadores a irem às compras atrás de matérias-primas e bens de capital mais eficientes e mais baratos. Uma valorização da moeda, portanto, tem menos impacto nos lucros de um exportador, pois, se de um lado ele reduz as receitas do exportador, de outro ela também reduz os custos dos recursos importados pelo exportador.

    Uma moeda forte permite que as indústrias comprem bens de capital, máquinas e equipamentos de qualidade a preços baixos. Isso as deixaria mais produtivas, aumentaria a qualidade dos seus produtos, e faria com que eles fossem mais demandados lá fora.

    Nos primeiros anos do Plano Real, a moeda era muito mais forte do que é hoje, e não houve nenhuma desindustrialização; ao contrário, houve modernização do parque industrial.

  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza  30/03/2015 23:42
    Moeda forte = economia forte.


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