clube   |   doar   |   idiomas
Será que Gandhi era um libertário?

Mohandas K. Gandhi nasceu em 2 de outubro de 1869, em Porbandar, cidade portuária da Índia Ocidental, às margens do mar de Omã. O pai era oficial de alta patente no governo do pequeno principado que exercia o poder nominal das imediações; na prática, o Gandhi mais velho reportava-se aos príncipes locais, que por sua vez reportavam-se aos oficiais britânicos locais, que eram quem de fato administrava as coisas. O mais jovem tinha interesse em fazer carreira na medicina, mas abandonou a ideia para agradar aos pais, demonstrando sua humildade e obediência, e dar continuidade às tradições familiares: em 1888, com 18 anos, mudou-se para Londres, para estudar Direito.

De volta à Índia, depois de três anos, descobriu que não conseguiria viver uma vida digna trabalhando como procurador, pelo menos não no próprio país. Depois do fracasso das tentativas de se estabelecer no setor privado, em Bombaim, voltou a fixar residência em Porbandar, trabalhando sob a supervisão de advogados já estabelecidos, no exercício de uma função que hoje seria descrita como assistência jurídica. Na primavera de 1893, com 23 anos e, ao que parecia, incapaz de se sustentar exercendo a profissão que, a princípio, só tinha abraçado para satisfazer à família, as circunstâncias econômicas obrigaram-no a aceitar um cargo no departamento jurídico de uma empresa indiana da cidade de Durban, na costa leste da África do Sul, outra parte do Império Britânico.

Até esse período da vida, Mohandas Gandhi tinha sido um exemplo de espírito colaborativo, que relegava a si mesmo a segundo plano. Nas palavras de seu biógrafo, o finado B. R. Nanda, "ele ainda não tinha manifestado nenhum tipo de autoafirmação, nem de agressividade". O próprio Gandhi, muito tempo depois, comentaria que tinha sido educado "para acatar as ordens dos mais velhos, não para tentar entendê-las". E não tentava entendê-las; obedecia sem reclamar, nem questionar. Tampouco o jovem Mohandas Gandhi revelava o mínimo interesse em política e eventos públicos, o que Nanda explica nos seguintes termos:

Até os 18 anos de idade, raramente Gandhi lia os jornais. Nem quando estudante na Inglaterra ou advogado em ascensão na Índia, demonstrou muito interesse pela política. Na verdade, era tomado de um nervosismo assustador toda vez que se levantava para ler um discurso numa reunião social ou para defender um cliente perante o juiz.

Contudo, à época em que chegou na África do Sul, na primavera de 1893, as coisas tinham mudado. Seus pais tinham falecido, e embora outros parentes mais idosos continuassem vivos, ele estava a mais de 6 mil quilômetros de casa e já não podia ouvir seus comentários e conselhos.

Tenham sido essas algumas de suas razões ou não, o fato é que aquele Mohandas Gandhi, cuja humildade era famosa dentre todos que o conheciam no primeiros anos de sua vida na Índia e Inglaterra, desapareceu depois de se mudar para a África e nunca mais voltou a ser visto. Foi substituído por um Gandhi mais empedernido, um Gandhi que já estava saturado daquela vida de capacho dos outros, um Gandhi que se rebelaria ao extremo contra quem ousasse usar de força contra ele.

Nanda relaciona algumas das indignidades que Gandhi sofreu pouco depois de sua chegada, impostas com base em leis sul-africanas que sujeitavam a tratamento de segunda classe pessoas consideradas "de cor". Um dia,

viajando de trem para Pretória, ele foi expulso sem cerimônia de uma cabine da primeira classe [pela qual tinha pago] e foi largado na Estação Pietermaritzburg, tremendo e se remoendo; em outro trecho da viagem, foi surrado por um cocheiro branco, que se recusou a viajar no estribo para dar lugar a um passageiro europeu; e, por fim, foi barrado em hotéis reservados "somente para europeus".

Nanda escreve que, em resposta, Gandhi,

quase da noite para o dia, desabrochou como um habilidoso ativista político. Redigiu petições ao legislativo [colonial] e ao governo britânico, e coletou a assinatura de centenas de compatriotas. Ele … inspirou um espírito de solidariedade na heterogênea comunidade indiana. Inundou o governo, o legislativo e a imprensa de relatórios rigorosamente fundamentados, com queixas de indianos. Por fim, expôs aos olhos do restante do mundo o esqueleto que se escondia no armário do Império: a discriminação praticada contra os súditos indianos da Rainha Vitória em uma de suas colônias africanas.

A partir do outono de 1906, começou a usar outro instrumento, chamado "satyagraha". Aqueles que Gandhi tinha organizado eram convocados a desafiar pacificamente toda lei considerada injusta e submeter-se a toda e qualquer penalidade resultante desse desafio. A tradução de Nanda para "satyagraha" é "devoção à verdade", mas às vezes o vocábulo também é traduzido por "resoluta insistência na verdade" ou "persistência na busca da verdade". Nanda escreve que se tratava de "uma nova técnica de reparar injustiças atraindo sobre si o sofrimento, em vez de infligi-lo; de resistir ao adversário sem rancor e combatê-lo sem violência".

No livro The triumph of liberty, Jim Powell relata que

por volta de 1907, Gandhi promoveu campanhas na África do Sul contra as leis que proibiam os indianos de viajar, comerciar e viver em liberdade, e um amigo presenteou-o com uma cópia da Desobediência civil [de Henry David Thoreau], que ele leu nos três meses em que ficou preso em Pretória. Gandhi reconhece que

as ideias [de Thoreau] exerceram uma enorme influência sobre mim. Não só adotei algumas delas como recomendei o estudo do autor a todos os amigos que me ajudavam com a causa da independência da Índia. …

Antes de ler esse ensaio, ainda não tinha achado uma tradução adequada do vocábulo indiano Satyagraha para o inglês.

Especialista em Thoreau, Walter Harding escreve que, depois de ler A desobediência civil pela primeira vez, naquela prisão em Pretória, Gandhi "sempre levava uma cópia consigo, nas muitas vezes em que foi preso" nos anos seguintes.

Quando se menciona esse vínculo entre Thoreau e Gandhi, é quase garantido que alguém pergunte (seja em tom de queixa, em tom de sarcasmo ou movido por uma curiosidade genuína): "Mas Gandhi era libertário?" Ora, é claro que isso depende de como esses termos são definidos — o que se entende pelo vocábulo "libertário" e que tipo de evidência se considera válida quando se trata de decidir se determinado escritor, professor ou ativista político é ou foi "libertário". Um número enorme de pessoas dispostas a dar crédito à reivindicação de Glenn Beck ou de Bob Barr, de serem "libertários", mostra-se estranhamente avesso a estender o mesmo benefício da dúvida a – digamos — Emma Goldman ou Rudolf Rocker.

No caso de Mohandas Gandhi, os fatos são os seguintes:

B. R. Nanda relata que, em Durban, em janeiro de 1897, Gandhi

foi assaltado e quase linchado por uma turba de brancos … mas recusou-se a processar os assaltantes. Segundo disse, era um princípio que ele adotava: não querer reparar uma injustiça pessoal em um tribunal de justiça. … [A descrença no aparato do governo era quase tão arraigada em [Gandhi] quanto em Tolstoi. Ele teria concordado com a doutrina do século XIX segundo a qual 'o melhor governo é o que menos governa'. … [E]ssa máxima de Jefferson era fundamental no pensamento de Gandhi. "Uma sociedade organizada e gerida com base na absoluta não violência", declarou várias vezes, "seria a mais pura das anarquias. … Só é perfeito e não violento o estado onde as pessoas são menos governadas." E mais: "O estado não violento ideal será uma anarquia organizada. O estado mais bem-governado é aquele menos governado."

O historiador intelectual George H. Smith explica a questão de um jeito bem parecido. "A repulsa de Gandhi à opressão do estado", escreve, "era tão apaixonada e sincera quanto a de qualquer libertário de hoje". Ele menciona as palavras de Gandhi, que teria dito que "todo homem que sujeita a própria vontade à do estado abdica de sua liberdade, desse modo tornando-se um escravo".

Conforme Smith,

Muitos analistas apontam que Gandhi seguia a tradição anarquista e que seu anarquismo era acentuadamente individualista. Em comparação com a filosofia que se atribui ao Oriente, segundo a qual o indivíduo não teria importância nenhuma, Gandhi argumentava que "o indivíduo é o mais importante objeto de consideração". "Nenhuma sociedade", escreveu, "pode ser erigida sobre a negação da liberdade individual." É contrário à própria natureza humana. Assim como em um homem não crescem chifres nem rabo, tampouco ele existirá como homem a menos que seja dotado de um espírito próprio. Na verdade, mesmo quem não acredita na liberdade do indivíduo acredita na própria liberdade."

Em defesa de seu argumento, Smith menciona a opinião do filósofo acadêmico indiano Raghavan Iyer, que passou a maior parte da vida adulta nos Estados Unidos, lecionando na Universidade da Califórnia. "Não seria um exagero", escreveu Iyer, em 1973, "considerar Gandhi um dos individualistas mais revolucionários e um dos revolucionários mais individualistas." Citando Iyer, Smith alega que Gandhi "custava a acreditar na prioridade moral de qualquer agente coletivo sobre o indivíduo."

O próprio juízo de Smith é inequívoco. "Na ótica libertária, sob qualquer critério razoável — o mesmo com o qual se avalia um Sam Adams, um Thomas Paine ou um Lysander Spooner", escreve, "Mohandas Gandhi atenderia aos requisitos de um herói." Smith admite que "no imenso corpus de seus escritos, não se acha um único tratado sistemático sobre teoria política. Entretanto, dispersos em várias cartas e artigos, vêem-se indícios inconfundíveis de sua tendência anarquista." "Em seu modo de ver as coisas", garante Smith, "[Gandhi] foi predominantemente libertário." Ao longo de sua carreira de ativista, orientou-se pela "concepção de uma sociedade anarquista."

E isso não é tudo. "Diversas vezes, Gandhi declarou-se anarquista", escreve Smith,

Recusou cargos no poder político … exigiu a abolição do Congresso indiano, depois da independência do país … criticou o governo de Nehru … aspirou à abolição do exército indiano e à manutenção de uma força policial mínima, se tanto. … seu programa social inteiro tinha por eixo o estabelecimento de "assembléias de aldeia" descentralizadas, que lançariam mão de sanções sociais para manter a ordem e estariam isentas do controle do estado. … Gandhi era opositor ferrenho do imperialismo … da guerra (inclusive da Segunda Guerra Mundial), da censura e de quase todo tipo de intromissão do estado."

No fim das contas, é claro que o argumento definitivo em favor do libertarianismo de Mohandas Gandhi é o fato de ser ele um pacifista. Em fóruns on-line, onde bravateadores munidos de pouca informação falam, em tom categórico, de assuntos sobre os quais são particularmente desinformados, não é incomum deparar com a afirmação de que "libertarianismo não é pacifismo". "Você deve ter confundido libertarianismo e pacifismo", erguerá a voz uma sedizente autoridade, com ar de enorme confiança e convicção. E não deixa de haver um quê de verdade em toda essa atitude.

É claro que libertarianismo não é pacifismo — não necessariamente, pelo menos. Por outro lado, pacifismo é libertarianismo. Quando se renuncia a toda forma de violência, é preciso renunciar ao estado. Desse modo, embora nem todo libertário seja pacifista, todo pacifista é libertário, tenha ele consciência disso ou não (e, convenhamos, grande número de pacifistas não têm essa consciência). Ao que parece, Gandhi era um dos que tinham.

Como o mundo inteiro sabe, Mohandas Gandhi voltou para a Índia em 1914, com 44 anos de idade, pouco depois da eclosão do que viria a ser conhecida como a Primeira Guerra Mundial. Ao longo das três décadas seguintes, para libertar a Índia do controle britânico, organizou e liderou o movimento que acabou atingindo esse objetivo.

Em 30 de janeiro de 1948, em Deli, a caminho do palanque de onde discursaria para um grupo de oração, foi morto a tiros de pistola por um nacionalista hindu — assassinado" é o termo que se costuma usar, uma vez que Gandhi era tanto um ativista político, quanto uma figura pública. Tinha 78 anos de idade.

Será que ele merece um lugar na tradição libertária? Eu diria que sim.

 

 

Este artigo foi transcrito do podcast Libertarian Tradition (A tradição libertária), "Mohandas K. Gandhi (1869–1948)".


autor

Jeff Riggenbach

é jornalista, autor, redator, locutor e educador. Membro da Organization of American Historians e membro sênior do Randolph Bourne Institute, escreveu para os jornais New York Times, USA Today, Los Angeles Times e San Francisco Chronicle; para as revistas Reason, Inquiry e Liberty; e para os websites LewRockwell.com, AntiWar.com e RationalReview.com. Graças à habilidade vocal aperfeiçoada em rádios de música clássica e de notícias, de Los Angeles, San Francisco e Houston, Riggenbach também narrou as versões em audiobook de inúmeras obras libertárias, muitas delas disponíveis em Mises Media. Envie um e-mail. Veja o arquivo com os artigos de Jeff Riggenbach.



  • Andre Cavalcante  24/06/2013 10:55
    Fabulosa essa ideia de que Gandhi como libertário. E não é menos a frase:
    "Desse modo, embora nem todo libertário seja pacifista, todo pacifista é libertário, tenha ele consciência disso ou não".

  • Caio  24/06/2013 13:48
    Não compreendi porque o inverso da seguinte frase não é verdadeiro: "Desse modo, embora nem todo libertário seja pacifista, todo pacifista é libertário, tenha ele consciência disso ou não".

    Todo pacifista é libertário - Verdade
    Todo libertário é pacifista - Verdade também. Caso contrário não fosse pacifista não haveria liberdade. Ou estou esquecendo algo?
  • Jeferson  24/06/2013 14:26
    Pacifismo inclui a não-retaliação, o que exclui provavelmente a maioria dos libertários, que se contentam com a "não iniciação de agressão a não agressores". Um libertário não-pacifista reage à agressão, um pacifista não.
  • Caio  25/06/2013 11:10
    Certo. Não levei em consideração que um libertário pode ser atacado, e que imediatamente reagiria. Enquanto que pacifista não reage ao ataque de sua propriedade.

    Vlw
  • Andre Cavalcante  25/06/2013 15:41
    "Certo. Não levei em consideração que um libertário pode ser atacado, e que imediatamente reagiria. Enquanto que pacifista não reage ao ataque de sua propriedade."

    Reagir, ele reage, mas de forma diferente do que reage um não pacifista. E foi isso que Gandhi mostrou. Quando ele fazia suas próprias roupas, ele reagia às imposições inglesas que não deixavam que os indianos comprassem roupas de ninguém, exceto deles.

    Após a libertação, a Índia passou a comerciar com toda a Ásia, e também com a Inglaterra, mas por opção, não por coação. E isso, por causa do Gandhi.
  • Catulo  24/06/2013 12:51
    Já li em alguns lugares que Gandhi era socialista. Essa informação procede ou vem direto da fábrica MEC de idiotas úteis?
  • Catedrático  24/06/2013 14:12
    Gandhi era marxista fanático com aspirações franzinas de Bakunin e leitor assíduo das divagações de Fournier, convicto de que visava despertar a consciência de classe em seus associados; herói da vanguarda "pacífica" de Paulo Freire. Desejava todo tipo de abolição do capitalismo e uma tomada do poder imediata pelo proletariado indiano(As assembleias de tribo eram os "Sovietes").

    Pintava-se de vermelho durante as manifestações(O que infelizmente não aparecera em suas fotografias devido à coloração cinza). Carregava a foice e o martelo como crucifixo e era um convicto ativista contra qualquer tipo de tradição relacionada à religião qualquer que fosse. Desejava a igualdade socio-econômica imediata e a ser obtida através da luta de classes.

    Além disso, suas indagações sobre paz foram deturpadas pelos autores conservadores do ocidente: Ele desejava era a tomada das armas pelos trabalhadores indianos e a tradicional revolução marxista. Entretanto, reconheceu após a leitura iluminadora de Engels que sua raça permanecia incapaz de ascender ao capitalismo até então, sendo imprescindível que a etapa capitalista fosse vivida para a gloriosa revolução do futuro.

    Fonte: Credito a Mario Schmidt minha revelação sobre Gandhi, um historiador esquerdista cuja obra revolucionária é a mais vendida do Brasil e de alta recomendação pelo Ministério da Educação.
  • Pobre Paulista  25/06/2013 02:11
    De acordo com o political compass (www.politicalcompass.org/analysis2), ele era um libertário de esquerda. Uma coisa não anula a outra.

    Aliás eu aposto que 99,99% dos leitores aqui do site são libertários de direita, assim como eu -> www.politicalcompass.org/crowdchart.php?showform=&Pobre%20Paulista=3.9%2C-2.4
  • Marcio L  25/06/2013 17:40
    Acho que o Gandhi é um pouco mutualista também, sempre defendeu que as pessoas se juntassem voluntariamente e comunitariamente para empreender. Isso me lembra que os anarquistas individualistas americanos que achavam um valor positivo as pessoas se auto-empregarem, isso levaria a associação voluntaria em sociedade, a exemplo da economia solidária, para levar a cabo empreendimentos mais complexos. Aliás com o avanço tecnológico estamos vendo arranjos antes inimagináveis, como o pessoal que se junta para voluntariamente para fazer software que pode ser usado por todos, e até mesmo hardware (que necessita mais ação coordenada para mover os meios de produção para construção colaborativa, como exemplo cito o projeto raspberry-pi)

    Eu também sou um libertário de esquerda com tendências social-democraticas pragmaticamente, por isso tenho certa identidade com Gandhi, mas leio o site por que gosto de ser desafiado intelectualmente, gosto do contraditório, gosto de por a prova as teorias, todas elas.
  • Me  24/06/2013 13:48
    Gandhi é O Cara. Se as pessoas dessem mais atenção a abordagem prática do pacifismo de Gandhi ao invés de moralismos dogmáticos...

    Um problema que vejo é que, como dito pelo próprio Gandhi, pacifismo é confundido (por ser usado frequentemente desa forma) como uma desculpa para bundamolice, quando na verdade é diametralmente oposto.

    Poucos sabem que o "manto" que ele usa em fotos é um pano feito em casa, para não ter que comprar roupas de indústrias inglesas. Não é a toa que vejo gente começar falar em religião quando Gandhi é citado.

    Triste ver tanta desinformação sobre um exemplo tão próximo de pacifismo.
  • PESCADOR  24/06/2013 14:39
    Espera aí! Gandhi citava Marx em seus discursos muitas vezes. Ele realmente admirava Marx. Provavelmente era marxista. Acredito que não era libertário não.
  • Marcelo Werlang de Assis  24/06/2013 15:03
    O saudoso VON MISES escreveu:

    Mahatma Gandhi expresses a loathing for the devices of the petty West and of devilish capitalism. But he travels by railroad or by motor car and, when ill, goes for treatment to a hospital equipped with the most refined instruments of Western surgery. It does not seem to occur to him that Western capital alone made it possible for the Hindus to enjoy these facilities. (LUDWIG VON MISES, "Omnipotent Government")

    Mahatma Gandhi expressa uma repugnância às invenções do Ocidente mesquinho e do capitalismo diabólico e perverso. Mas ele viaja de ferrovia ou de carro e, quando doente, submete-se a tratamento em um hospital equipado com os instrumentos mais refinados da medicina cirúrgica ocidental. Parece que não lhe ocorre que apenas o capital ocidental tornou possível aos hindus o desfrute dessas amenidades. (Tradução minha.)
  • Eu  24/06/2013 15:59
    Eu li, alguns meses atrás, a auto biografia de Gandhi ("The story of my experiments with truth").

    Ele viajava de ferrovia sim, mas apenas de terceira classe. E a terceira classe da India daquela época, que ele descreve no livro, faz os trens da Central do Brasil parecerem as ferrovias da Europa!
  • Marcelo Werlang de Assis  24/06/2013 16:55
    Contudo, caso não existissem as invenções materializadas pelo "capitalismo diabólico e perverso", essas ferrovias "de terceira classe" (fruto da limitadíssima acumulação de capital na Índia) nem mesmo existiriam!
  • Bernardo  24/06/2013 16:59
    Marcelo,
    Simplesmente excelente seu adendo.
    O texto é bem interessante, mas acho que alguns questionamentos merecem respostas:
    - Gandhi era marxista?
    - Gandhi defendia a propriedade privada?
    Não tenho ideia das respostas, então não estou expondo opiniões.
  • Anônimo  24/06/2013 20:14
    Marxista ele não era, posso garantir; apesar de que esses gostariam que fosse. Gandhi defendia o trabalho, porém provavelmente achava que o dono dos meios de produção não tinha qualquer direito sobre aquilo que poupou para ter e que provavelmente não precisava atender à demanda de ninguém para continuar com suas posses. Ele seria o tipo de político progressista bem intencionado mas com soluções trágicas como salário mínimo.

    Eu o considero muito mais um exemplo de vida que um pensador. Ele não era nenhum grande intelectual ou desenvolveu arcabouços lógicos para apoiar suas teses, era mais um grande militante de ideias que qualquer coisa. Apelava ao sentimento de seus observadores como ninguém e era bastante perspicaz quanto ao simbolismo de suas atitudes. (Vide o véu de prisioneiro indiano)

    Não creio que encontrará um grande pensador ao estudar Gandhi. Talvez uma boa pessoa, porém jamais um homem das idéias tão bom como era homem de panfletos.
  • Marcelo Werlang de Assis  25/06/2013 15:46
    De acordo com este site, sfr-21.org/gandhi-communism.html, Gandhi, sim, era um comunista/socialista.

    A única coisa que o diferencia dos socialistas tradicionais é que defendia a marcha para o comunismo por meio da não-violência.

    De qualquer modo, fica o legado dele de pacifismo (i.e., não-iniciação da agressão, da violência).

    Amplexos!
  • Caue  24/06/2013 15:59
    Ele era extremamente religioso ... ele era Hindu

    Acho estranha essa ideia recorrente de interpretar religião como algo coletivo.
    A "espiritualidade" vem de cada um. A pessoa que realmente é altruísta não o faz somente pelo bem dos outros, ela faz para si mesmo. Ela se sente bem fazendo isso.

    Talvez por causa da deturpação da palavra.

    Religião originalmente significava, o que conecta as pessoas.
    Podem ser idéias, o estado, um imperador, etc etc Escolas de economia ... uahuah

    Claro que a religião se tornou um termo relacionado a "espiritualidade". Pois essa é independente de qualquer forma de governo.
    Ela está acima disso e por isso conecta as pessoas.

    A Igreja Católica é bem clara quanto a isso.

    Nem todo hindu é hindu, nem todo cristão é cristão, como nem todo libertário é libertário. Quase todo mundo é hipócrita.

    Só que é muito difícil para alguns aceitar essa realidade.

    Por isso existem os pecadores (e a gradação desses). E o perdão.
  • Caue  24/06/2013 21:49
    oops...aceitarem
  • pensador barato  24/06/2013 17:40
    Sempre admirei a postura,a firmeza e o caráter de Ghandhi quanto a opção religiosa ou política dele,isso para mim sempre foi secundário e o que importa é o exemplo de pacifista e amante da liberdade princípios defendidos por ele, o resto é perfumaria barata de esquerdopata alienado da realidade.
  • Lopes  24/06/2013 23:31
    Após a queda romântica das folhas de outono, aproxima-se humilde um inverno:

    OFF-TOPIC

    ultimosegundo.ig.com.br/politica/2013-06-24/a-governadores-e-prefeitos-dilma-propoe-cinco-pactos-em-favor-do-brasil.html

    Diz-se entre os cínicos que se a esperança fosse simpatizante da razão, perder-se-iam os homens em puro desespero. A presidente compartilha da fé irracional daquilo que nos fora traduzido como os gritos das manifestações que vêm tomando ruas por duas semanas: Mais participação do estado na sociedade e menos corrupção, idéias auto-exclusivas.

    Pergunto-me se toma grande esforço cognitivo deduzir que a adição de células cancerígenas a um tecido não combaterá o tumor. Diferentemente de um setor privado, um prestador público possui nenhum interesse comercial no sucesso de suas operações. Como adendo, é também imune da mecânica no prejuízo; sua incompetência é recompensada por mais fundos públicos. O capitalista sensato optará pela construção mais ágil e barata que lhe é disponível, pois essa maximiza sua utilidade. E quanto ao responsável pela construção pública? Que incentivo esse possui(Dele ou de seu rsponsável estatal, igualmente imune da própria incompetência) de realizar tais obras? - o modelo privado não lhe dá nenhum benefício, muito pelo contrário, muito mais ganharia ao submeter-se à vontade de construtoras associadas e à decisão por obras faraônicas. Abster-me-ei de comentar o aparelhamento ideológico de tais instituições, que apenas colabora para a perpetuação do arranjo corrupto que promove o desperdício. A tragédia privada apenas prejudica seus empreendedores, a pública consiste no saque de toda a população.

    E quando tal modelo esbanjador de recursos inexistentes torna-se não uma consequência indesejada porém o próprio objetivo das obras públicas? Desde antes da Grande Depressão, incontáveis recursos escassos vêm sendo jogados fora tendo o emprego como objetivo. É uma política democraticamente conveniente e economicamente trágica. Ela promove endividamento estatal e ciclos econômicos, quando não inflação como era de costume nos tempos quando os bancos centrais podiam comprar diretamente os títulos do tesouro. Não há riqueza que seja produto do nada e o esbanjamento apenas significa uma depressão mais rigorosa no futuro com maior desperdício de recursos escassos.

    Não é de qualquer valia a discussão a respeito do argumento miserável dado pelo governo federal quanto ao emprego dos médicos cubanos. Trata-se de uma possível evidência redentora dos adeptos da conspiração petista. Grupo suspeitoso cujo principal conspirador(PT) aparenta generoso em entregá-los frases suspeitas e orações mal-construídas. Deixarei o ônus de tal discussão aos competentes em fazê-la apenas. Compartilharei apenas a menção de uma proposta reconstituinte pelo governo, que possa abrir as portas à outras futuras reformas por parte de governistas que podem não atrair a simpatia do público como um vago "chamado contra a corrupção".

    Fala-se de imediato em educação como a promessa da evolução do homem brasileiro. Entretanto, por que não se menciona o ensino? Por que palavra tão magmática e poderosa deve representar uma necessidade imediata do povo brasileiro - onde deduz-se que consiste em uma ausência tão imprescindível atualmente? Deve-se de fato formar as crianças brasileiras espiritualmente e não apenas acrescentá-las um conhecimento acadêmico? Quem entregara ao Estado o poder quase divino de determinar quais conhecimentos são capazes de "educar" um ser humano e quem lhe dera o direito de impor os mesmos aos estudantes? Quem terá tamanha onisciência para determinar quais são tais sabedorias? Já não é óbvio que o arranjo atual visa preparar almas com um claro viés esquerdista nas universidades e escolas?
    (Visitem o site do movimento "Escola Sem Partido")

    Fala-se no fim em responsabilidade fiscal. Entretanto, que tipo de inteligência de gastos fora apresentado em toda a redação?! Anunciaram-se gastos governamentais em todos os itens e apenas neste fora glorificada a responsabilidade do Estado para com a inflação e o endividamento público. Por que nenhuma proposta concreta e apenas anúncios vagos? Tais enésimos "investimentos" anunciados pelo Estado em toda sua pauta não sairão de seu orçamento obtido pela taxação escorchante, serão provável produto de mais títulos sendo emitidos pelo tesouro.

    E como adendo, menciona-se a formação de Conselhos para que o acidente dos R$0,20 não torne a ocorrer novamente. Abre-se através disso, um aval para ainda mais "amortização" de custos em outros setores que não apenas o do transporte público. Surge uma tendência para o futuro de tomar ainda mais a funcionalidade da mecânica dos preços em setores operando como concessionários no tempo futuro. Lembrar-vos-ei que não há passe livre: Tais tarifas não sentidas advirão da taxação dos cidadãos em setores onde os impostos são menos visíveis(Como costuma ser a conta de luz na tradição tupiniquim) ou mero endividamento. Se tais conselhos obtiverem sucesso, dou-lhes minha palavra de que minha profecia será realizada.

    E por fim, lançou-se a discussão a respeito da desoneração(3 bilhões) no PIS, Cofins, ICMS e ISS nos setores de transporte. Após a enchente de "investimentos" nos itens acima, confesso que não me entusiasmou tal anúncio anacrônico(Apenas a arrecadação do ICMS em 2010 foi 9,36% do PIB). Triste é a sina daqueles que descobriram que nada surge do além e a conta sempre será entregue diretamente ou indiretamente aos pagadores de impostos.

    Finalmente, após tal longo desabafo, viso apenas deixar registrada minha visão imediata sobre aquilo que fora ouvido pelo estado das estimadas milhões de pessoas "protestando". Os baluartes da recente manifestação orgulham-se de seu caráter multipartidário(E uns inocentemente a chamam de apartidária), entretanto, no idioma político; receio o espetáculo ser irrelevante em prol de como esse é traduzido aos ouvidos do governo. Garanto: As preces que são convenientes a esses foram ouvidas cuidadosamente. Os recentes eventos são o possível início de um novo costume nacional.

    Enfim, tenho pouco a oferecer além das divagações supra-escritas. Folhas de Outono são pioneiras de uma tendência futura à experiência democrática brasileira que apenas tendem a revelar-se no longo prazo como mais um tradicional inverno argentino na América do Sul. Como "defensores do indivíduo", estaremos fadados a perder cada batalha que ocorrerá no país. Entretanto, após cada nevasca, resta-me a esperança de que mais uns encontrarão nossa fogueira.
  • Alisson Barateli Bodelon  25/06/2013 06:07
    De fato, a influência da tradição libertária sobre Gandhi é evidente.
    Conta-nos George Woodcoock, um canadense criado na Inglaterra, escritor e historiador dos movimentos anarquistas, que, dentre tantos filósofos libertários que influenciaram Gandhi, Tolstoi talvez tenha sido o que mais o influenciara com o seu anarquismo cristão.
    Podemos perceber isso nitidamente com a leitura de "Cristianismo e Anarquismo" de Tostoi, pelo modo conforme Gandhi luta pela independência da Índia da dominação inglesa, recusando-se a se utilizar de qualquer tipo de violência para alcançar seu objetivo.
    A não-violência era, como ele mesmo dizia, "o primeiro artigo da sua fé e também o último do seu credo".
    Sua ambição era tão altaneiramente sublime, que por ela considerava valer a pena não só viver como também morrer se fosse o caso!
    Tido como "um homem de princípios", não tenho dúvida alguma de que os seus princípios eram libertários, sobretudo, de tendência tolstoiana!
    Não é sem motivo que o chamavam de "Mahatma", que quer dizer "grande alma", enquanto ainda vivo, o que após a sua morte, passou a ser usado universalmente!
    Saúde gente!!!
  • Renato Souza  25/06/2013 12:44
    Sobre Ghandhi, vou dizer duas coisas:

    1. Abandonou a própria família (mulher e filhos, inclusive crianças) na África do Sul. Nunca mais quis saber deles. O ensino cristão é taxativo nas palavras do apóstolo Paulo "se alguém não cuidado dos seus ... é pior que os infiéis". É obrigação de todos os cristão desprezar, neste aspecto, a Ghandhi, e expressar isso.

    2. Era esquerdista, e portanto não podia ser libertário, quer ele tivesse consciência disso ou não. Muitos esquerdistas acreditam que alguém deve tomar à força riquezas de pessoas que as obtiveram de forma honesta, a pretexto de faze-lo para "corrigir as injustiças sociais", o que é uma expressão indefinida que pode significar qualquer coisa. Mas a maioria dos esquerdistas defende (ou não condena) que um grupo de políticos e burocratas seja o dono de todas os bens de produção e toda a população seja escrava deles (não nessas palavras, é claro).
  • Andre Cavalcante  25/06/2013 15:46
    A única coisa que denotava um esquerdismo em Gandhi era a vida em comunidade, isto é, que as pessoas se unissem para um fim qualquer ou "viver simplesmente" como diria. De resto ele não impunha nenhum comportamento ao outro, e esperava apenas o comportamento que já era o esperado pela sua sociedade (lembrar que a crença na Índia é ainda um motor para as leis de lá e então ele esperava um comportamento indu para um indu e um comportamento sikh para um sikh).

    Renato, Você defende um estado mínimo, teria você também algum ponto de autoritarismo?

  • Renato Souza  27/06/2013 15:42
    André

    Não tenho nada contra vida em comunidade, pelo contrário, considero que é benéfico para o bem estar mental das pessoas um equilíbrio razoável entre vida comunitária e individualismo. Mas cada um que viva como achar melhor.

    Sobre o meu pensamento miniarquista, creio que todos aqui já o conhecem, mas, já que você levantou a questão, vou resumi-lo novamente: As pessoas apresentam uma tendência quase universal para o estabelecimento de bens comuns, o que se revela inclusive no fato de terem estabelecido, primeiramente tribos e aldeias, e depois cidades, segundo este conceito. Bens comuns implicam em governo, e governos são coercitivos por natureza (isto é, aceite ou caia fora, e isso vale até para uma micro-empresa com dois ou três sócios). Portanto diferencio os governos desses três entes (tribos, aldeias e cidades) originários do acordo inicial de ter bens em comum, dos governos dos entes maiores, normalmente originários da fraude e da conquista. Quem quiser ficar fora desse esquema, que crie suas cidades privadas.

    Quanto a Ghandhi, se você tem informações melhores, por favor, compartilhe conosco. Certamente não seria sensato dizer que ele era socialista apenas com base nas "informações" do embusteiro Mario Schmidt. Mas até o insuspeito Mises testemunha do pendor anti-capitalista de Ghandhi.

    Poderá ser que Ghandhi fosse tão equivocado que imaginasse que, sendo dada liberdade às pessoas, elas livremente produziriam uma sociedade socialista, o que é um absurdo, pois para que haja socialismo é necessário que as pessoas não produzam por iniciativa própria bens de valor econômico. Para que as pessoas deixem de agir como produtores e trocadores voluntários de bens, eles tem de ser coagidas com violência.

    Mas de qualquer forma, nesse caso, Ghandhi estaria defendendo involuntariamente um sistema totalitário, sem saber que é totalitário.
  • Andre Cavalcante  27/06/2013 17:10
    Renato,

    Esse é o ponto do texto. Segundo o autor do artigo, uma pacifista (e Gandhi era, antes de mais nada, inclusive sobre sua religião de nascimento, um pacifista) é necessariamente um libertário, porque ao não permitir nenhum tipo de agressão de um indivíduo a outro não pode aceitar a agressão do governo, seja ele de qual forma for. Agora a questão é se Gandhi tinha essa consciência ou não. Para o autor ele teria ao menos um boa consciência. Tenho minhas dúvidas justamente por causa desse viés socialista/comunitário, que de repente era só um viés caridoso. Note que isso é extremamente comum, mesmo que com grandes homens.
  • Renato Souza  27/06/2013 20:04
    Quanto ao viés comunitário, isso nada tem de mau. Se um grupo de pessoas quer viver em comunidade, isso é lá com eles, que sejam felizes assim. Vista de dentro, uma comunidade é um ente político, e portanto tem regras coercitivas. Mas basta o sujeito andar um pouco, e está fora da comunidade. É livre para sair. E sua fundação se baseia na vontade livre de todos os fundadores originais, e não num ato de violência ou fraude.
    Agora, vista de fora, qualquer comunidade não é um ente político, mas de mercado, interagindo voluntariamente com outros entes grupais ou pessoas.
    Muitos associam comunidades com socialismo, mas isso é falso. Socialismo é prisão, comunidade não.
  • Bruno D  25/06/2013 14:43
    Pacifismo por pacifismo é errado, o correto é ser pacifico, não pacifistas.
  • Silvio Pinheiro  17/07/2013 14:35
    Os comentários estão excelentes. Chegam até a ser mais interessantes do que o próprio artigo em si.
  • Angelo Viacava  28/10/2013 09:32
    Alguém na história fez na Alemanha nazista ou na Rússia comunista o mesmo que Ghandi fez contra o Império Britânico por tanto tempo, com tanta complacência e saiu vivo? O Império Britânico parece bandido de filme: sempre dá um discurso antes de atirar, a fim de permitir que o mocinho se recupere, escape e dê a volta por cima no final.
  • João Vitor Ribeiro Alves  21/11/2015 19:56

    Gandhi está mais para um esquerdista que defende a paz (se é que isso existe).

    Não existem libertários de esquerda, pelo simples motivo da esquerda ser contra a iniciativa privada e o axioma da não agressão que é a base do libertarianismo.


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.