clube   |   doar   |   idiomas
Matemática na economia: bom ou ruim?

Como o termo "matemática" é muito amplo, é melhor restringirmos o seu significado para essa discussão. Evidentemente, ninguém acha que matemática básica é algo inútil para a economia. Se A tem dois reais e B tem três, ninguém condenará a conclusão de que A e B juntos têm cinco reais.

O que se questiona é o uso do "cálculo" — ou, mais precisamente, das ferramentas que a física clássica utilizava — para a economia. Ou seja, quando atacamos o uso da matemática na economia estamos contra a aplicação do cálculo diferencial e infinitesimal, das equações diferenciais e de métodos geométricos na praxeologia.

A minha defesa dessa tese — de que essa parte da matemática é inútil à economia quando não positivamente prejudicial — será feita em diversos níveis de abstração.

Economia e física

É inegável que a aplicação dos métodos matemáticos usados pelos físicos na economia tem como inspiração o próprio triunfo da física como modelo de ciência. A aplicação de poucas leis gerais traduzíveis em equações muito simples e que davam imensa capacidade preditiva mostravam ao mundo as vantagens de uma ciência ancorada no cálculo diferencial e infinitesimal.

Não se deve esquecer que o título da maior obra de física de todos os tempos era Princípios Matemáticos de Filosofia Natural. A física antiga, aristotélica, não era ancorada em equações. As idéias eram colocadas em linguagem natural. A partir de Galileu, sobretudo com Newton, os avanços da física foram sem precedentes.

A física agora tinha uma visão unificada da natureza — até porque eletromagnetismo na época era um fenômeno mais ou menos irrelevante —, em que se explicava desde o movimento de pêndulos simples às leis de Kepler; da engenharia básica à estabilidade do sistema solar. Laplace chegou a afirmar que bastava que lhe dessem as condições iniciais do universo para que ele desvendasse tudo que ocorreria no universo. O poeta Alexander Pope, parodiando a Bíblia, disse algo assim: "E Deus disse: haja Newton. E houve luz".

Havia, pois, uma confiança natural nos poderes da mecânica newtoniana. É claro que, inspirado nisso, os homens do saber começaram a tentar estender as idéias matemáticas de Newton a todos os outros campos do conhecimento humano. Mesmo quando não aplicavam diretamente a matemática, era a filosofia geral de Newton que dominava. David Hume, por exemplo, diz explicitamente no prefácio do Tratado da Natureza Humana que a sua filosofia é uma tentativa de aplicar os grandes princípios de Newton ao homem.

A essa suposição de que todo o conhecimento humano deva ser baseado nos métodos da mecânica clássica chamaremos de cientificismo.

A pergunta natural que devemos responder é: o cientificismo está certo?

Para responder essa questão, é necessário investigar, ainda que brevemente, o tipo de objeto de conhecimento da economia e compará-lo com o da física. Basicamente, a física se preocupa com a matéria e seu movimento. Donde se conclui que a fonte primária de informações do físico necessariamente é o mundo exterior. A matéria, enquanto tal, não pensa, não tem motivos. Então só observamos o seu comportamento a partir da observação, só após o seu movimento ter ocorrido.

Na praxeologia, a questão é fundamentalmente distinta. O que importa não é o movimento do corpo do agente, o seu gasto de energia nos processos metabólicos e na sua locomoção. O que importa para a ciência da ação humana é a estrutura formal por trás da própria noção do que é ação.

Ação é comportamento teleológico, é a busca de um fim empregando meios que o agente acredita que levarão ao objetivo desejado. A fonte do conhecimento do que é uma ação, portanto, não está na observação do mundo exterior, mas no próprio sujeito de conhecimento.

De um lado, causalidade determinística e observação exterior; do outro, ação motivada e observação interior.

Há ainda uma outra diferença. O mundo natural exterior é marcado por uma observável regularidade. Isso significa que a descrição dos fenômenos é invariável. Um resultado observado no laboratório X será o mesmo observado no laboratório Y. E esses resultados podem ser descritos imediatamente como dados matemáticos. Pois, sendo a preocupação da física o movimento – em sentido restrito – da matéria, os seus dados podem ser analisados via a atribuição de um sistema de referência que possibilite imediatamente uma métrica, i.e., uma noção de distância. Para diferenças de posições, podemos atribuir números.

Portanto, a atribuição quantitativa aos fenômenos físicos surge naturalmente. E a regularidade quantitativa dos fenômenos é o que permite a elaboração de equações para a descrição do mundo natural — mesmo na mecânica quântica, na qual importam mais distribuições de probabilidade.

Essa atribuição quantitativa não é formal, mas material. Por exemplo, se eu sei qual é o coeficiente de atrito cinético de um determinado plano e faço deslizar sobre ele um objeto com determinadas aceleração e velocidade iniciais, a equação que descreve o movimento desse objeto me dirá explicitamente o ponto em que o objeto ficará parado — se é que isso irá ocorrer.

Não há a mesma espécie de regularidades nas ações humanas. As pessoas possuem preferências e estas são modificadas sem nenhum padrão. Dependem da vontade de cada indivíduo. Ao contrário dos experimentos laboratoriais da física, indivíduos diferentes agem de forma diferente em experimentos em condições semelhantes. Um mesmo indivíduo pode agir de forma distinta em experimentos semelhantes. Como dizia Ludwig von Mises, "não existem constantes na ação humana".

A regularidade nos fenômenos da ação humana é formal, não material — como na física. Trata-se meramente de regularidades qualitativas, não quantitativas. Os dados relevantes da praxeologia são juízos de valor. E a juízos de valor não é possível dar uma medida quantitativa objetiva. Logo, o uso de equações não é útil na descrição dos fenômenos da ação humana, exatamente por essa não ser a linguagem apropriada ao objeto de estudo.

Ciência

Toda ciência possui dois aspectos. Uma ciência, para ser ciência, tem que possuir uma qualidade explicativa, na qual se tenta demonstrar o nexo causal dos fenômenos. Por outro lado, a ciência deve ter um aspecto preditivo. Essa é a idéia básica do que seja uma ciência.

A sociedade americana de econometria adotava como lema a frase que dizia que "ciência é fazer previsões". Nessa visão, portanto, o caráter explicativo da ciência é reduzido ao seu aspecto quantitativo. O que implica, por sua vez, uma visão muito restrita da ciência. Aqui, ciência não seria o conhecimento do seu objeto de estudo, mas o conhecimento que se revela por relações quantitativas.

Pelo que foi dito acima, esse ponto de vista implica a inexistência de uma ciência da ação humana, pois esta não pode ser encarada do mesmo modo que a física. O caráter explicativo da praxeologia não é quantitativo, mas qualitativo; é teleológico.

Então, se a econometria é uma pseudociência que só teria uma aspecto (falho) preditivo, poder-se-ia objetar que a praxeologia peca pelo oposto: ao possuir apenas um lado explicativo, não teria à sua disposição a predição. Donde a praxeologia não seria também uma ciência no sentido que usualmente é atribuído a este termo.

O erro de tal objeção é confundir predição com predição quantitativa. Predição pode ser tanto quantitativa quando qualitativa. A redução que se faz do caráter preditivo de uma ciência a aspectos quantitativos — donde a ferramenta imprescindível de toda ciência ser a matemática, que é a ciência que trata das quantidades por excelência, embora não se reduza a isto — advém precisamente do cientificismo, que, como foi argumentado acima, é uma filosofia falsa.

Portanto, a praxeologia é uma ciência cujo aspecto qualitativo reside na estrutura formal da ação humana — não matematizável — e cujo lado preditivo é qualitativo, não quantitativo.

O uso da matemática na economia

Como foi observado na seção 1, a física tornou-se modelo de ciência pelo seu aspecto preditivo. E o seu aspecto preditivo foi tomado com seu poder explicativo, na medida em que os resultados eram generalizados para uma quantidade enorme de casos. Assim, os próprios princípios da física tornaram-se equações.

Se na praxeologia começamos dizendo que os homens agem, na física começamos dizendo que tais e tais objetos satisfazem determinada equação. É mais do que evidente a diferença qualitativa das ciências, que reflete a diferença dos objetos das respectivas disciplinas e da forma como conhecemos esses objetos.

Porém, uma vez que tentemos matematizar a praxeologia e reduzi-la a uma espécie de mecânica da ação humana, que resultados efetivos poderíamos mencionar em defesa desse procedimento? Se a física como matemática aplicada é imediatamente justificada por seus resultados preditivos, podemos invocar os resultados da economia matemática como defesa da sua existência como ciência?

Antes de tudo, é necessário observar que nem mesmo os economistas levam a sério na prática a economia matemática, mesmo quando são economistas matemáticos. O sistema de equações fundamental do equilíbrio do consumidor diz que o indivíduo maximiza sua utilidade quando a razão entre a utilidade marginal à quantidade consumida de um bem e o seu preço é igual a essa mesma razão para todos os outros bens. Ou seja, se houver n bens, então haverá um sistema de n(n-1)/2 equações diferenciais parciais. Ninguém nunca viu um economista tentando resolver essas equações.

O que significa que os economistas, ao usar a matemática e lhe tentarem dar um aparato preditivo quantitativo, abandonam a fundamentação explicativa da teoria via teoria do comportamento para focar em grandes agregados, aos quais ele não consegue dar uma explicação razoável. Isto é, parte-se para a estatística e para as milhões de regressões.

Pois bem, a estatística funciona muito bem para o passado, mas o fato é que durante um século os economistas tentaram na prática aplicar as suas conclusões econométricas para controlar a economia e falharam.

Em suma, a economia matemática não se justifica do mesmo modo que a física matemática, na medida em que não possui poder preditivo.

A matemática, o espaço e a economia

Conforme já foi dito, o cálculo é muito apropriado à física, pois é possível estabelecer muito naturalmente duas das unidades fundamentais desta ciência: tempo e espaço. Nós sentimos o tempo passar continuamente, de modo que estabelecemos com fundamentação que o tempo corre continuamente. Por outro lado, os matemáticos fazem a suposição de que o conjunto dos reais pode ser representado como uma reta.

Assim, o físico tem bons motivos para considerar o movimento como função em espaços vetoriais reais, que é o ambiente mais apropriado para a formulação do cálculo diferencial e infinitesimal.

O físico, então, interpreta o movimento dos objetos como sendo variações das posições de pontos num espaço. Ou seja, ele iguala o espaço real com o espaço matemático. Portanto, uma vez fixada a unidade de medida do espaço, as descrições matemáticas correspondem – caso estejam corretas – aos fenômenos reais observados. Isso acontece porque, como já foi colocado antes, os próprios princípios da física são equações básicas nesse próprio espaço em que ele trabalha.

Na economia, as coisas não são assim. Por exemplo, se estamos tratando da teoria de produção, as unidades não são divisíveis. As quantidades devem ser sempre números naturais, de modo que não se tem um ambiente favorável ao cálculo diferencial e infinitesimal. As funções de produção não contínuas na topologia usual do espaço euclidiano n-dimensional, não sendo, pois, diferenciáveis, e tampouco são integráveis (à Lebesgue), uma vez que o conjunto dos pontos de descontinuidade não tem medida nula.

O caso da produção numa economia monetária seria o mais favorável possível à formulação matemática, mas, como acabamos de mostrar, os métodos do cálculo diferencial e infinitesimal são simplesmente inaplicáveis. A única forma de usá-los seria não com uma simplificação da realidade, mas por uma deliberada falsificação dela. Nenhuma ciência pode ser considerada como tal se busca a mentira por vontade própria.

O caso é ainda mais dramático no caso da teoria do consumidor — ou, se fôssemos generalizar, para a teoria da ação humana em geral —, já que é simplesmente estabelecer as relações algébricas usuais para utilidade. Não faz sentido adicionar, subtrair, multiplicar ou dividir utilidades. Não se pode sequer atribuir uma estrutura de espaço vetorial — ou, ainda mais geralmente, de módulo — ao conjunto das utilidades, muito menos tentar criar cálculo diferencial.

Matemática como ilustração

Complementando o argumento acima, não se pode criar uma álgebra com as operações usuais para utilidade. Qualquer um que se aventure a pegar um livro-texto de microeconomia, encontrará no começo, provavelmente no primeiro capítulo, alguma seção explicando que utilidade é ordinal, não cardinal; que não faz sentido fazer comparações interpessoais de utilidade. No entanto, provavelmente na seção seguinte, ele encontrará alguma curva de indiferença, que supõe que as pessoas não ordenam os bens numa escala de preferência.

Sem discutir esse procedimento ilegítimo que é o uso de curvas de indiferença, o autor do livro-texto basicamente atribuirá níveis de utilidade, aos quais fará corresponder algum número. Ou seja, primeiro ele diz que não é possível atribuir uma medida à utilidade, mas logo em seguida finge esquecer o que disse e atribui medida, mesmo sem lhe dar um significado realista. A justificativa é que é mera ilustração.

Antes de tudo, é preciso notar que ilustrar uma teoria não pode ser feita através de algo falso. Ilustrar uma teoria é dar-lhe um exemplo em que ela realmente seja aplicável, embora num contexto bastante simplificado. Por exemplo, quando um físico quer explicar o princípio da relatividade, ele cita o caso de uma pessoa no leito de uma ferrovia e outra dentro de um trem. Agora, não faria sentido dizer que o movimento de carro é uma ilustração da dualidade matéria/onda da luz.

Quando o economista utiliza o cálculo, ele não está fazendo uma ilustração, mas está jogando fora as proposições verdadeiras anteriores para adotar algo que ele sabe ser falso. Ele está substituindo uma teoria por outra, uma teoria melhor por uma pior.

E qual não será a surpresa do leitor atento ao perceber que, de repente, toda a teoria que é desenvolvida nos capítulos ulteriores será justamente a aplicação daquela "ilustração"! Por fim, não será raro encontrar até comparações interpessoais de utilidade. A chamada economia do bem-estar, por exemplo, tem como seu fundamento essa suposição, embora ela seja sempre tomada implicitamente.

A linguagem matemática como forma de evitar erros

Uma defesa dos métodos matemáticos na economia é que a linguagem matemática, por ser mais formal, acabaria facilitando a identificação de erros no raciocínio, de modo que seria uma forma de evitar erros lógicos. Esse argumento não deixa de ser irônico. Para evitar um erro acidental, justifica-se um erro essencial!

No entanto, sendo este argumento de ordem pragmática, não precisamos mostrar o seu descabimento filosófico. Na prática, a economia matemática tem sido fonte de acertos ou de erros? Bem, a maior parte das políticas econômicas adotadas no século XX tiveram como base de sustentação teorias econômicas fortemente calcadas em equações. Como essas políticas, em geral, foram desastrosas, podemos dar duas explicações diferentes — apesar de não serem mutuamente exclusivas: i) houve erros matemáticos ou ii) houve erros nos fundamentos da teoria.

Já sabemos que as teorias econômicas matemáticas são falsas por falsificarem deliberadamente a realidade. O melhor, então, que a economia matemática pode fazer é nos assegurar que provavelmente os erros da sua fundamentação serão carregados nas deduções das equações!

Equilíbrio de Nash

Por último, comentarei um pouquinho sobre teoria dos jogos, que, aparentemente, estaria livre de alguns excessos da economia matemática. A teoria dos jogos não é exatamente uma teoria que usa os métodos matemáticos aplicados à física. Então poderia ser um ramo da economia válido que exigiria um maior conhecimento de matemática.

O resultado mais importante da teoria dos jogos é o Teorema de Nash, que diz que em todo jogo não-cooperativo com um número finito de jogadores com estratégias mistas há pelo menos um equilíbrio de Nash.

Do ponto de vista matemático, eu não tenho nada a objetar. A demonstração feita por Nash na sua tese de doutorado me parece válida. Não encontrei nenhum erro e, tendo ela sido aprovada, devemos considerar aqui que realmente ela esteja correta do princípio ao fim.

Então qual seria a minha "implicância" com o equilíbrio de Nash? Na verdade, nenhuma. A minha implicância é com o uso que se faz desse resultado em teoria econômica. O problema do teorema de Nash é que ele não é aplicável à realidade.

A demonstração do Teorema feita por Nash utiliza noções de topologia. O que nos interessa aqui é uma observação. Suponha que haja n estratégias puras disponíveis a um jogador. Então o espaço de todas as estratégias para esse jogador é o conjunto S = {(p_1,p_2,...,p_n): p_1+p_2+...+p_n = 1 e p_i >=0, para todo i e p_i sendo número real}. Atribuindo a cada eixo de um espaço real euclidiano n-dimensional uma estratégia pura, então isso será um politopo n-dimensional. Por exemplo, se n=2, haverá um triângulo de vértices (0,0), (1,0) e (0,1) e as estratégias do jogador será qualquer ponto na reta que liga os vértices (1,0) e (0,1). A partir daí, define-se uma função pay-off para cada jogador P : S —> R, R é o conjunto dos reais.

Qual a importância disso? Além do problema óbvio de que a função pay-off terá que ser uma função de utilidade caso tenha alguma aplicação praxeológica — e isso não faz sentido —, existe uma suposição que é "ilegítima" de que as probabilidades podem ser números reais quaisquer entre 0 e 1. Por exemplo, se num jogo, eu escolho as minhas estratégias mistas apostando dinheiro em cada uma delas, então as probabilidades estão condicionadas pela divisibilidade do dinheiro.

Se eu tenho que apostar 1 real em três estratégias, eu posso fazer uma escolha de apostar 10 centavos em uma, 28 centavos em outra e 62 centavos na restante. É claro, o número de apostas possíveis é imenso — mas é finito. Então, nesse caso, o Teorema de Nash é inaplicável.

Não custa nada dizer: só se pode garantir a conclusão de um teorema de as hipóteses dele forem satisfeitas. Ora, em economia, dinheiro sempre tem divisibilidade finita. Logo, a hipótese de Nash nunca é satisfeita e, assim, o teorema nunca é aplicável na realidade.

O que estamos ressaltando aqui é que o uso da matemática na economia é totalmente inválido. Nenhum economista discute o que eu acabei de colocar. Procurem nos livros de economia se há alguma discussão sobre a validade do Teorema de Nash na economia. Simplesmente ninguém fala disso. A matemática é uma ciência rigorosa.

O que os economistas têm feito é agir como sanguessugas da matemática. Como esta é uma ciência prestigiada, o economista pega um teorema que possui uma demonstração rigorosa, no entanto aplicando-o a uma situação sobre a qual ele não diz respeito!

Alguém poderia objetar: "ora, mas nós podemos pensar nisso como um caso limite da realidade!" Mas isso é uma palavra de ordem, não um argumento... Porque, antes de tudo, a demonstração do teorema depende essencialmente da topologia que é utilizada — que se compromete com a forma específica dada ao conjunto S. E, além disso, seria preciso uma análise matemática para saber se realmente esse procedimento de ser "caso limite" realmente se aplica. É dizer, é preciso esquecer o teorema tal como ele e desenvolver uma teoria totalmente diferente e, só depois, ver como se dá essa relação.

A função da matemática para os economistas

A matemática tornou-se uma forma de intimidação retórica dos economistas. Podemos até dizer que essa é a sua grande função. Não é uma utilização meramente científica, é um uso da arrogância. É a fonte dos discursos "técnicos", em que são ditas mil bobagens aplaudidas, reverenciadas e temidas. Quem se atrever a discutir com a matemática?

A matemática é a ciência mais segura que existe. Se temos uma "demonstração" matemática, somos os donos da verdade. Ninguém discute que 2+2=4. Por que discutiriam as medidas que os burocratas tecnicistas advogam?

Em suma, a matemática tornou-se, na mão dos economistas, uma arma para autolegitimização de um discurso pseudocientífico.


autor

Bernardo Emerick
é matemático.

  • anônimo  18/06/2013 10:45
    ' Ou seja, aqueles que atacamos o uso da matemática '
    ..também atacam o português.Faz sentido.
  • Doutrinador  18/06/2013 13:36
    A construção da frase está perfeitamente correta. Trata-se de um sujeito subentendido. "Aqueles [de nós] que atacamos". Irreparável. E você fez bem em comentar anonimamente. Salvou-se da humilhação. Nada pior do que bancar o arrogante e ser destruído.
  • zanforlin  18/06/2013 17:01
    O autor fez uso de silepse de pessoa.
  • atorres1985  28/03/2015 02:56
    Este recurso literário sempre esteve presente. Guimarães Rosa e Machado de Assis usaram e abusaram disso.
  • Samir Jorge  18/06/2013 11:03
    Que artigo maravilhoso.

    A mãe do Samir dizia que ele foi a escola, mas a escola não entrou na cabeça dele. Nos seus sessenta anos de existência conviveu com a sensação de "idiota sortudo".

    Só agora com a descoberta deste site, Instituto Von Mises, escola, não sei como classificar este movimento, a sensação retro mencionada está diminuindo e a esperança retomada, pois existe alternativa. Minhas intuições agora encontram eco.

    Atenciosamente,


    (a) - Samir Jorge.
  • Matheus Paiva  18/06/2013 13:53
    "A essa suposição de que todo o conhecimento humano deva ser baseado nos métodos da mecânica clássica chamaremos de cientificismo."

    Na verdade, estimado autor, você está fora de tempo ao achar que as ciências devam usar os métodos da mecânica clássica ou que a própria Física Moderna a usa, a menos que, diferentemente do Marquês de Laplace, entenda que o mundo não é determinístico, mas obedeça, muitas vezes, à equações probabilísticas, principalmente quando nos referimos à Economia como interações entre entidades pensantes, ou seja, estratégicas.
    Agora, se você acha que aquilo que consta nos livros de graduação de economia (Modelos IS-LM-BP, Receita Marginal e Custo Marginal, e por aí vai...) com todo o seu conteúdo determinístico é o que os grandes pesquisadores em Economia estão pesquisando atualmente, você está TREMENDAMENTE enganado. Só pra você ter uma ideia, o próprio Banco Central Brasileiro usa um modelo que foi batizado de SAMBA (Stochastic Analytical Model with a Bayesian Approach) e nem de longe lá estão os mais brilhantes pesquisadores da Economia. Ah sim, procure o significado de "Estocástico" para entender a conexão entre meu argumento e meu exemplo.

    "Basicamente, a física se preocupa com a matéria e seu movimento. Donde se conclui que a fonte primária de informações do físico necessariamente é o mundo exterior."

    Novamente, querido escrito, está atrasado em sua colocação, pois a mesma só remete a um método científico (empirismo) enquanto que a Física, desde de 1905 ou antes, já se valia de outro método, o hipotético-dedutivo. Digo-lhe mais, o uso deste segundo método tem se mostrado com alto grau de precisão, pois antecipa conclusões que, posteriormente, o método "empírico" consegue perceber. Ah, não acredita? Então procure, na época em que foi publicado a Teoria Relatividade, qual era o laboratório do Albert Einstein. Procure e o máximo que irá encontrar será um laboratório dotado de papéis e canetas, pois este brilhante físico era, na verdade, um Físico-Matemático ou, se preferir, um Físico Teórico (Ah sim, foi dessa forma que ele deduziu que havia buracos negros, mas na sua teoria ele só tinha "pontos atratores"). Se achar que esse método morreu nesta época, então veja o que está no front da pesquisa em Física atualmente, se não é a chamada Teoria das Cordas ou Teoria M. Sim, acredite, o método não é o de observar a natureza e ver sua resposta, mas sim modelar a estrutura da natureza, com símbolos matemáticos, e então verificar o que pode ser encontrado na natureza.

    Meu amigo, o mundo evolui, o método científico também.


    Em relação ao Equilíbrio de Nash, ele é MUITO aplicável na realidade. Sério? Sim, basta que encontrássemos um resultado tal que as estratégias escolhidas por cada jogador é a que oferece maior pay-off dado o que os oponentes estão jogando, para cada jogador. Seria um resultado difícil de ser modificado, pois todos jogadores preferem ficar com suas estratégicas do que mudar, dado cada uma das estratégias.
    Então, talvez você tenha visto apenas um lado da Teoria dos Jogos.

    Agora eu cito Alpha CHIANG: "[...] a abordagem matemática teria razão de proclamar as seguintes vantagens: (1) a 'linguagem' utilizada é mais concisa e precisa; (2) existe uma profusão de teoremas matemáticos a nosso dispor; (3) como nos obriga a enunciar explicitamente todas as nossas premissas como um pré-requisito da utilização dos teoremas matemáticos, ela nos resguarda da armadilha de adotar inadvertidamente premissas implícitas indesejáveis; e (4) nos permite tratar o caso geral de n variáveis."

    E sua ideia de que seria o uso da matemática na economia é totalmente inválido, dando a perceber que todo economista é idiota que não sabe verificar se todas as hipóteses de um teorema se encontram no caso para, enfim, poder utilizar o mesmo, é lamentável.
  • Leh Levlavi  18/06/2013 14:59
    Matheus Paiva, apenas fez o favor de comprovar todos os argumentos contra a tendência funesta do cálculo matemático e da lógica equivocada que os defensores do mesmo usam, nos verdadeiros processos econômicos/praxeológicos.

    Parabéns.
  • .Saje  18/06/2013 16:13
    "Em relação ao Equilíbrio de Nash, ele é MUITO aplicável na realidade. Sério? Sim, basta que encontrássemos um resultado tal que as estratégias escolhidas por cada jogador é a que oferece maior pay-off dado o que os oponentes estão jogando, para cada jogador."

    Ta bom, agora me explica como eu "jogador" vou saber as estratégias escolhidas por cada outro jogador? Como eu vou achar os pay-offs? Se isso fosse possível numa mesa de poker eu iria sempre ganhar...

    O mundo está composto de incerteza genuína e não probabilística, quando se trata de interações entre agentes humanos.
  • Matheus Paiva  18/06/2013 17:39
    "Ta bom, agora me explica como eu "jogador" vou saber as estratégias escolhidas por cada outro jogador? Como eu vou achar os pay-offs? Se isso fosse possível numa mesa de poker eu iria sempre ganhar..."

    O mundo está composto de incerteza genuína e não probabilística, quando se trata de interações entre agentes humanos.

    Você mesmo respondeu à sua pergunta. Devido ao fato de o mundo estar abarrotado de incerteza, os jogadores formulam os pay-offs dos outros jogadores baseados nas informações disponíveis, bem como em suas capacidades de processá-las. Uma vez tendo realizado esta operação e dado que o resultado da ação de cada jogador conduza a um pay-off onde cada jogador está satisfeito com o que ganha dado a ação dos demais E dado o que espera que seja o pay-off dos demais jogadores.
  • .Saje  18/06/2013 18:04
    ou seja, impossível existir um equilibrio de nash.
  • Rodrigo  19/06/2013 04:15
    Saje... Não é impossível existir um equilíbrio de nash.

    Uma forma intuitiva de entender o equilíbrio de nash é que ele é apenas uma situação em que nenhum dos jogadores se arrepende de sua jogada.

    O erro é as pessoas acharem que essa é a jogada esperada, ou a jogada mais provável, ou a jogada mais racional. É apenas o ponto em que nenhum dos jogadores se arrepende de sua jogada.

    Achei a critica a teoria dos jogos meio superficial.

    Depois que percebi que praticamente todos os equilíbrios da economia neoclássica são equilíbrios de Nash fiquei pensando muito sobre esse assunto.
    O ponto de equilíbrio entre a oferta e a demanda é um equilíbrio de nash, ou seja, é oo ponto em que o vendedor consegue vender todos os produtos que desejava ao preço de mercado e que os consumidores conseguem comprar todos os produtos que desejavam ao preço de mercado.

    Pensar o que o equilíbrio neoclássico significa apenas o ponto em que nenhum consumidor se arrepende e que nenhum produtor se arrepende mostra o quão essa teoria se divorciou da realidade. Desconsideram o mercado como um processo dinâmico de descoberta e interação entre os indivíduos, analisam apenas um ponto hipotético.

    Gostaria de alguma critica aos equilíbrios de nash nesse sentido.

    Abraços !
  • luis queiroz  21/06/2013 21:54
    seu coméntário é melhor que o artigo. O difícil ao aplicar teoria dos jogos na vida real é a assimetria de informação. Achar que determinado jogador sabe algo que ele não sabe conduz a grandes erros. Se tentares passar a informação corre o risco de o oponente não acreditar. Em se tratando de jogos envolvendo relaciomento com mulheres tem o problema maior ainda de saber o que maximiza o retorno delas, ou seja, qual o valor que elas dão a cada resultado. Sem saber o que elas queres vai ser dificil prever o equilibrio e elas não vao dizer... por outro lado vc pode a partir do equilibrios que elas parecem preferir descobrir o que elas querem mais aí só vai servir para as próximas rodadas do jogo...
  • Lucas  25/09/2016 21:05
    Parece que perderam o foco do artigo: mesmo que um equilíbrio de Nash possa existir no mundo real, ele será muito provavelmente DIFERENTE daquele previsto pelo modelo dos economistas. Mesmo quem defendeu o uso do modelo aqui nos comentários já admitiu que existe uma diferença entre a incerteza genuína e a incerteza probabilística. Isso significa uma coisa simples: não confie cegamente em modelos de previsões.

    Não é à toa que os maiores investidores do mundo alertam sobre isso, inclusive Buffet. Não é à toa, também, que a Escola Austríaca previu todas as crises econômicas antes do mainstream sequer sonhar com elas. Tudo fecha perfeitamente.
  • Antonio Galdiano  18/06/2013 14:28
    "Qualquer um que se aventure a pegar um livro-texto de microeconomia, encontrará no começo, provavelmente no primeiro capítulo, alguma seção explicando que utilidade é ordinal, não cardinal; que não faz sentido fazer comparações interpessoais de utilidade. No entanto, provavelmente na seção seguinte, ele encontrará alguma curva de indiferença, que supõe que as pessoas não ordenam os bens numa escala de preferência."

    Eu gostaria de esclarecimentos sobre esse ponto específico.
    O que eu entendo como curva de indiferença é uma relação de valoração entre 2 bens (ou entre um bem e uma cesta representativa de todos os outros). Essa valoração obedece ao conceito de utilidade marginal decrescente. Assim, o entendimento que faço de curvas de indiferença não é para explicar a relação ordinal de preferência sob hipótese ceteris paribus, mas sim para ilustrar a dinâmica dessa preferência quando há alteração das disponibilidades relativas dos bens.

    Eu gostaria de maiores esclarecimentos a respeito, eu não entendi a argumentação.
  • Luis  18/06/2013 18:09
    Não entendi bem seu questionamento Antonio, mas me pareceu que você repetiu o argumento do autor.
    As curvas de indiferenças não mostram apenas uma ordem de preferencia dos bens, mas uma relação numérica entre as utilidades. Sendo que você poderia calcular quantas unidades do bem x são necessárias para gerar ao consumidor a mesma utilidade que uma unidade do bem y. Visto que os bens tem custos, você poderia assim maximizar a utilidade do consumidor.
    Menger negava esta possibilidade. Ele dizia que você pode dizer que o bem x é preferível ao bem y, mas não pode dizer o quanto é preferível. Ou seja, a utilidade é ordinal, não cardinal. O que as curvas de indiferenças fazem é atribuir valores a essa utilidade. Ai é que reside a crítica do autor a microeconomia.
    Na verdade os demais marginalistas tem um conceito de utilidade total, que seria a soma das utilidades marginais, algo que pelo o que eu entendo os austríacos negam.
    Se falei bobagem ou não era este o questionamento me corrijam.
  • anônimo  19/06/2013 11:33
    Ok Luis,se eu entendi sua argumentação eu não concordo com ela.

    Note que a curva de indiferença trata da relação de igualdade (em utilidade - o que quer que isso signifique)entre diferentes composições de dois bens. Segundo o que você escreveu, Menger disse que o ser humano não é capaz de dizer se prefere (6 pães) a (3 pães e 1 requeijão) ou a (2 requeijões). Se for essa a real posição de Menger, eu não concordaria com ele nesse ponto específico. O que a curva de indiferença tenta mostrar é justamente essa relação de proporcionalidade, ou seja, que existe uma relação de proporcionalidade a qual o indivíduo estaria indiferente quanto a aquisição. É uma ilustração, isso é inegável, mas eu acho que o conceito não pode ser negado por essa via.
    Sinceramente eu não acredito que isso seja o objeto de crítica da escola austríaca.
  • Carlos Marcelo  23/08/2013 03:33
    Pelo que eu vi, o Menger chegou a fazer uma tabela com as utilidades de diferentes bens em quantidades de 10 a 0, e chegou a fazer uma comparação cardinal dizendo que x de um bem traria a mesma utilidade que y de outro bem. Apesar disso, ele não gostava da matemática na economia. Acho que só o Mises é que foi dizer que só havia o caráter ordinal da utilidade, e que não dava pra dizer quantas vezes um bem vale mais que outro.
  • Caio  18/06/2013 14:50
    Talvez não seja o artigo ideal, no entanto tenho uma dúvida que está me incomodando e não sei a quem ou onde recorrer: tendo o mercado/função empresarial surgido antes do Estado, e partindo do pressuposto austríaco que o ser humano deseja um convívio pacífico e relação de trocas voluntárias, não seria o Estado fruto do próprio mercado?

    Tenho lido vários livros mas não encontro essa resposta em nenhum, o que mais chegou perto foi Anatomia do Estado, no entanto ele não descreve como surge o estado. O mercado oferece melhores soluções que uma economia planificada, concordo, mas por que o mercado não prosperou e afastou definitivamente o controle Estatal?
  • Marcelo Werlang de Assis  18/06/2013 15:43
    Caio,

    Trata-se de um absurdo disparatado a afirmação de que o Estado é fruto do mercado. Como é que um sistema de trocas voluntárias e intercâmbio pacífico gerará um sistema de predação (parasitismo) e violência (coerção)?

    O Estado surgiu a partir do momento em que organizações criminosas (bandos de ladrões) tornaram-se tão grandes que transformaram-se em reinos ou governos, os quais, então, oficializaram e sistematizaram o roubo num determinado território.

    Abaixo, um trecho de Santo Agostinho:

    Removida a justiça, o que são os reinos senão grandes assaltos, e os roubos, senão pequenos reinos? O bando, em si, é formado de homens; é governado pela autoridade de um príncipe; é unido pelo pacto de uma confederação; o butim é dividido pela lei pactuada. Se, pela admissão de homens abandonados, esse mal aumenta a tal grau que domina lugares, fixa estabelecimentos, toma posse de cidades e subjuga povos, ele assume mais claramente o nome de reino, porque essa é a realidade que lhe é manifestamente conferida —- não pela remoção da cobiça, mas sim pela adição da impunidade. Com efeito, foi uma resposta adequada —- bem como essencialmente verdadeira -— aquela que um pirata capturado deu a Alexandre, o Grande. Quando este rei lhe perguntou o que queria dizer com "manter a posse hostil do mar", o pirata respondeu com orgulhosa insolência: "O mesmo que tu queres dizer quando falas da conquista da Terra inteira; mas, porque eu o faço com um pequeno e insignificante navio, eu sou chamado de ladrão, ao passo que tu, que o fazes com uma grande frota, és chamado de imperador."

    Forte abraço!
  • Caio  19/06/2013 02:31
    Trata-se de um absurdo disparatado a afirmação de que o Estado é fruto do mercado. Como é que um sistema de trocas voluntárias e intercâmbio pacífico gerará um sistema de predação (parasitismo) e violência (coerção)?

    Observe bem, o mercado é obviamente anterior ao estado. Sendo ele mais antigo em algum momento esse mercado abriu precedentes para criação de um Estado. Minha pergunta é exatamente a sua: Como é que um sistema baseado de trocas voluntárias e intercâmbio pacífico gerará um sistema de predação (parasitismo) e violência (coerção)?
  • Leonardo Couto  18/06/2013 15:50

    Olá Caio, tentarei responder suas perguntas.

    partindo do pressuposto austríaco que o ser humano deseja um convívio pacífico e relação de trocas voluntárias, não seria o Estado fruto do próprio mercado?

    Como tal, não. O termo estado sempre foi usado para designar o agente responsável pelos serviços de segurança, legislação e juízo que desempenha tais funções sobre determinados indivíduos não por sua própria vontade, mas pela coerção exercida sobre eles, pela ameaça e efetivação de punição forçosa à tentativas de emancipação.

    Só pela definição percebemos que a criação e manutenção do estado se deu pela violação de livre-arbítrio, portanto fora de qualquer processo de mercado, de qualquer forma de voluntarismo. Cenário exatamente diametralmente oposto do presente em aprimoramentos de qualquer natureza.

    O mercado oferece melhores soluções que uma economia planificada, concordo,

    Correto. Resultado esse obtido pela própria natureza do mercado: relações voluntárias.

    mas por que o mercado não prosperou e afastou definitivamente o controle Estatal?

    Porque esse controle veio por imposição, não por decisão.

    Espero ter lhe ajudado.
  • Leh Levlavi  18/06/2013 16:45
    Caio, você cita que Rothbard não explica o surgimento do Estado? Oi? Como assim? Leia as passagens abaixo que retirei do livro que você diz ter lido.

    Sem mais.




    "Dado que a produção tem sempre de preceder qualquer depredação, conclui-se que o livre mercado é anterior ao estado. O estado nunca foi criado por um "contrato social"; ele sempre nasceu da conquista e da exploração. O paradigma clássico é aquele de uma tribo conquistadora que resolveu fazer uma pausa no seu método — testado e aprovado pelo tempo — de pilhagem e assassinato das tribos conquistadas ao perceber que a duração do saque seria mais longa e segura — e a situação mais agradável — se ela permitisse que a tribo conquistada continuasse vivendo e produzindo, com a única condição de que os conquistadores agora assumiriam a condição de governantes, exigindo um tributo anual constante[vi]."

    "Um dos métodos de nascimento de um estado pode ser ilustrado como se segue: nas colinas da "Ruritânia do Sul", um grupo de bandidos organiza-se de modo a obter o controle físico de um determinado território. Cumprida a missão, o chefe dos bandidos autoproclama-se "Rei do estado soberano e independente da Ruritânia do Sul". E se ele e os seus homens tiverem a força para manter este domínio durante o tempo suficiente, pasmem!, um novo estado acabou de se juntar à "família das nações", e aqueles que antes eram meros líderes de bandidos acabaram se transformando na nobreza legítima do reino."
  • Marcelo Werlang de Assis  18/06/2013 17:19
    Eu melhorei a minha resposta, mas por equívoco postei-a mais adiante. Dê uma olhada, Caio!

  • Caio  19/06/2013 03:36
    Leh Levlavi, o livro que li e interpretei cai na mesma afirmação do Leonardo Couto. Que, para mim, não explicou a contento o surgimento do Estado. Dizer que o Estado é oriundo da pilhagem de uma tribo conquistadora é ignorar que a própria tribo conquistadora já é uma forma de Estado. E como essa tribo conquistadora surge? É essa a questão! Em que momento o homem abandou as trocas voluntárias para pilhar, e por que?

    Se dissermos que é mais fácil pilhar do que produzir, fatalmente teremos de concluir que em algum momento o mercado falhou em se defender da pilhagem, visto a existência do Estado hoje. Ou seja, seria sempre necessário um Estado para proteger o mercado.
  • Márcio Muccillo Sklar  19/06/2013 11:14
    Filosofia cíclica. Perguntas autorreferidas, que não levam a lugar nenhum.

    Por que os leões devoram as gazelas?

    Por que homens guerreiam?

    Por que pilham?
  • Caio  19/06/2013 13:00
    Não levam a lugar nenhum Márcio Muccillo Sklar?

    A "Filosofia cíclica. Perguntas autorreferidas" nos leva a concluir que o mercado precisa do Estado e você diz que não leva a lugar nenhum. Se você não consegue responder, então melhor criticar e desqualificar a pergunta certo? Um dos princípios de prolongar a vida do próprio Estado é esse, ridicularizar os que apontam erros.

    Mas sigo aqui a procura de respostas.
  • anônimo  18/06/2013 21:48
    Dá uma lida em "O Príncipe", de Maquiavel. Acho que os primeiros capítulos pode te ajudar.
  • Caio  19/06/2013 19:06
    Vou dar uma lida, vlw.
  • Renato Souza  19/06/2013 22:01
    Vou continuar aqui uma discussão que tive nos comentários de outro artigo. Há uma certa confusão porque os ancaps ora usam seus argumentos contra os governos, ora contra os estados propriamente dito. Há certos governos civis (provavelmente a maioria dos governos civis na historia humana) que não chegam a ser propriamente estados, mas tem CERTAS características básicas dos estados propriamente ditos. Haviam áreas de domínio comum a todos os membros (vias e praças), os governos das tribos, das aldeias primitivas, e das cidades primitivas (em quase todos os casos) possuíam o monopólio da legislação e da justiça (não existam tribunais concorrentes) em todo o seu território, tinham o monopólio sobre a organização da defesa, tinham o poder de proibir a permanência de estranhos considerados indesejáveis, e a única forma de alguém se colocar fora da alçada de tais governos era se auto-exilando. Tais características são tão antigas que tudo indica serem o forma original da espécie humana existir em grupos (embora os humanos também possam existir isolados ou em famílias isoladas, mas isso tem sido muito menos comum). Ora, os governos primitivos não surgiram da tomada hostil do poder por um grupo de bandidos, mas surgiram naturalmente, do mercado, isto da decisão livre das pessoas de se compor em grupos com bens comuns.

    Ora, essas características são criticadas pelos ancaps quando ocorrem nos governos dos estados nacionais. Mas é um erro considerar que tais características sejam originárias dos estados nacionais. Os estados nacionais são culpados (em geral) de terem feito pela força e pelo logro a unificação das unidades políticas naturais, mas não são culpados por terem aquelas características citadas, as quais eles apenas herdaram dos governos primitivos. Isso muda tudo na análise e na proposta de soluções para as questões de interação entre indivíduos e grupos.
  • Caio  20/06/2013 00:25
    Pois é Renato é mais ou menos essa a minha ideia, o próprio mercado deu origem ao estado, mas não da forma como ele é hoje.
  • anônimo  20/06/2013 02:36
    Caio, leia este texto de Hoppe:


    As elites naturais, os intelectuais, e o estado
    www.mises.org.br/Article.aspx?id=82

    Já lhe adianto: o mercado não teve nada a ver com o surgimento do estado.
  • Caio  20/06/2013 23:23
    Acredito que o cerne da discussão está na definição do termo Estado. Para a Escola Austríaca me parece que estado é sinônimo de coerção, e, embora atualmente os dois caminhem bem próximo, não se pode ignorar a história do Estado e reduzi-lo simplesmente à coerção. O estado é a mera ação política dos indivíduos, associações para benefício comum, como por exemplo quando um grupo se une para proteção mútua, essa união é voluntária e resulta em um estado.

    O que tem de ser combatido e retaliado é a coerção e não o estado.


  • Marcelo Werlang de Assis  20/06/2013 03:02
    Entendi... Vocês, Renato e Caio, formularam então uma teoria que realiza uma distinção entre "governos primitivos/civis" — i.e., "unidades políticas naturais" — e "estados nacionais", os quais efetivaram "pela força e pelo logro a unificação das unidades políticas naturais".

    Trata-se mesmo de uma questão muito pertinente, que precisa ser investigada com o devido aprofundamento.

    No entanto, deve ser esclarecido que toda iniciação da coerção (cujo conceito seria a ameaça do uso ou a própria utilização da força física) contra inocentes — i.e., o emprego da violência em uma situação que não seja de retaliação ou de defesa a uma agressão anterior — é moralmente injustificável. A partir daí, como vocês já sabem, é que se delineia a filosofia libertária anarcocapitalista.

    Um grande abraço!
  • Marcelo Werlang de Assis  20/06/2013 03:19
    De fato, o artigo mencionado, As elites naturais, os intelectuais, e o estado (www.mises.org.br/Article.aspx?id=82), esclarece muita coisa.

    Muito obrigado, Anônimo!
  • Renato Souza  20/06/2013 11:24
    Marcelo

    Não concordei muito com o artigo. Certamente, em inumeráveis pequenos casos, a simples arbitragem de um homem considerado sábio/respeitável/experiente seria considerada suficiente. Eu diria que aquilo que chamamos hoje de "justiça civil" deve ter sido muito freqüentemente resolvido por esse tipo de arbitragem, ou simplesmente por acordos entre as partes. Mas daquilo que podemos entrever dos registros históricos e dos registros de sociedades mais primitivas com as quais os ocidentais modernos entraram em contato, casos criminais graves normalmente eram resolvidos por tribunais públicos e não privados.

    Considere que ocorra uma morte mal explicada. Terá sido um homicídio, um acidente, um ato de legítima defesa? Há certeza sobre quem praticou aquele ato? Pela gravidade da questão, decide-se ouvir o conjunto das elites naturais. Eles são chamados de "Anciãos", não apenas por não serem jovens, mas porque foram aprovados no teste do tempo. Cada um deles é um tribunal particular, concorrente. Mas reunidos em conjunto, formam um tribunal público, monopolístico dentro daquele território.

    Há também o caso de o grupo ser tão pequeno que haja apenas uma pessoa reconhecida como naturalmente mais capacitada. Ele não tem concorrentes. É um tribunal monopolístico.

    Igualmente aconteceria quanto à guerra. Tem havido escaramuças entre o membros do grupo e membros de um grupo vizinho. O que fazer? Deixar as coisas como estão poderá causar a deterioração da situação? Será que o grupo vizinho tem intenção de fazer um ataque devastador? Talvez seja o caso de escolher uma ou duas pessoas respeitáveis e enviar para conversar? As defesas estão suficientemente fortes para suportar um ataque de surpresa? Uma vez que a elite natural tenha se reunido e tomado uma decisão conjunta, essa é uma decisão monopolista.

    E no caso de um membro de um grupo vizinho vir querer morar entre eles? Suponha que é um grupo vizinho com o qual as relações no passado não foram muito amistosas. Será um espião? Ele tem a intenção de ganhar a confiança e eventualmente abrir as portas da muralha (ou da paliçada} para um ataque noturno? E se for uma pessoa que é acusada de ter cometido um crime em um grupo vizinho? Deve ser entregue ao seu grupo de origem? Ou será o caso de acolhe-lo?

    Há vários casos em que a elite natural decidirá conjuntamente.

    Creio que isso demonstra (salvo melhor juízo) que decisões monopolísticas no território precedem a existência de um rei.
  • Eduardo Bellani  20/06/2013 17:38
    Renato,

    Você está usando o termo monopólio para indicar uma situação onde há
    apenas um único participante em um mercado. E não é isso que esse
    termo significa (ao menos não para a escola austríaca).

    Monopólio é a utilização de força agressiva para impedir a entrada de
    novos participantes no mercado. No seu exemplo, seria o caso de o tal
    tribunal obrigar, na ponta da faca, as pessoas a pagarem pelo seu
    serviço e não utilizar outros.

    Abraço e melhoras.
  • Renato Souza  20/06/2013 11:33
    Quebrei o braço esquerdo há alguns dias. Por um lado isso quer dizer que trabalharei apenas em casa, cumprindo uma pequena pequena parte das tarefas que cumpria normalmente. Por outro lado, meus comentários terão de ser mais curtos, por causa do desconforto e dificuldade.
  • Marcelo Werlang de Assis  20/06/2013 16:33
    Renato,

    No primeiro parágrafo, você falou em "tribunais públicos e não privados". Acho que o correto seria dizer "tribunais coletivos", pois eles não adquirem de forma compulsória (e sistemática) as suas receitas.

    No resto da sua resposta, você fala que, nesses exemplos que deu, o tribunal coletivo (i.e., o conselho que reúne as elites naturais) que decide acerca dos crimes mal resolvidos, da guerra e da acolhida de um grupo estrangeiro (ou forasteiro) exerce um poder monopolístico. Mas lembremos a definição da Escola Austríaca sobre monopólio: Trata-se da vedação violenta (coerciva) do surgimento e da existência da concorrência em determinado setor. É isso o que realmente acontece?

    Às vezes, a organização de um "monopólio" (não coercivo) — como explicitado nos exemplos que você descreveu — é a melhor maneira de se resolver alguma coisa. Acredito que esses "monopólios" que você mencionou não tenham as características necessárias para serem considerados estados, i.e., entidades que têm o efetivo monopólio do exercício da força física, que têm o efetivo monopólio da decisão final em determinado território (monopólio da efetivação da resolução de conflitos), que se sustentam através da tributação (preço pelos "serviços" unilateralmente fixado e compulsoriamente cobrado).

    A sua colocação é válida, Renato. Trata-se de um tema que realmente requer rigorosos e aprofundados estudos.

    Desejo-lhe que tenha uma ótima recuperação da sua saúde.

    Um forte abraço, meu caro!
  • Renato Souza  20/06/2013 17:45
    Marcelo

    Grato. Aproveitarei para ficar muito mais tempo com meu filho. Muitas cOisas ruins tem também seu lado bom.

    Realmente não é um estado plenamente formado, principalmente por não cobrar impostos. Mas é um governo e tem muitas das características de um estado, principalmente o fato de ser territorial. Esse é talvez o ponto mais importante, e não está superado.

    Tribos, aldeias e cidades se formaram naturalmente, entre outros motivos, por segurança. Aldeias e cidades são irredutíveis como sistemas de segurança coletiva, e creio que este é um dos principais motivos (embora não o único) para a existência de uma lei comum e de decisores monopolísticos (pelo menos em conjunto).

    A guerra è sobre domínio de território, e é natural que a defesa contra a guerra se dê em termos de território.
  • Renato Souza  21/06/2013 09:05
    Eduardo

    Há tipos diferentes de "monopólios" (escrevo entre aspas para indicar que é monopólio no seu sentido mais amplo de qualquer situação em que há apenas um fornecedor de bens e serviços).
    1. O monopólio propriamente dito, quando um fornecedor maliciosamente usou de influência política para impedir a entrada de outros fornecedores.
    2. Um "monopólio" temporário. A coca cola poderia por exemplo se tornar a única fornecedora de refrigerantes numa determinada localidade, conquistando os consumidores. Mas seria uma situação precária e a qualquer momento outras empresas poderiam entrar.
    3. O monopólio da gerência sobre um bem comum é sempre uma situação política, que envolve um governo. E é tão mais uma situação política quanto maior seja o número de participantes (porque isso torna a decisão pessoal de cada um mais irrelevante). Pode chegar ao ponto de os descontentes serem maioria, mas deixarem como está por acharem, cada um, que seu voto será irrelevante.
    Toda situação política é delicada. Você normalmente tem três escolhas se não concordar com as decisões do governo: acatar, tentar convencer outros a votar com você, ou cair fora. E cair fora freqüentemente tem um custo. Numa empresa mal gerida, você pode ser obrigado a vender suas ações a um preço menor que suas expectativas. Recentemente vendi um apartamento que eu poderia manter (o ganho com aluguel mais a valorização prevista talvez valessem a pena) porque o condomínio estava a anos com má administração, e julguei que não valia a pena esperar mais. A má administração gerava um custo comparativamente alto do condomínio, o que resultou em um preço de venda um pouco menor do que outros apartamentos semelhantes. Alguns meses depois, a síndica foi mudada por outra pessoa bem mais competente... são as trapaças da sorte...

    Gerências de bens comuns são situações políticas criadas pelo mercado. Cidades são áreas de bens comuns por sua gênese. Nascem assim. Não se tornam assim por violência, mas pela atuação do mercado, mas seu governo é inevitavelmente coercitivo na sua atuação. É o simples resultado de as pessoas decidirem ter bens comuns.

    Todas as formas de governo sobre bens comuns são políticas: conselhos ou diretorias de empresas ou clubes, presbitérios, concílios ou congregações de igrejas, vereadores, prefeitos, chefes de tribos, síndicos, juízes, etc.

    Um caso muito peculiar é o dos anciãos. Cada ancião, é, na qualidade de ancião, tanto ente do mercado quanto ente político. Quando atua sozinho ele é ente do mercado, concorrente dos outros anciões. Quando atuam em conjunto são um ente político, poder político, gerentes monopolísticos dos bens comuns. São, por assim dizer, políticos eleitos pelo mercado, e são o único caso assim que eu conheça. Mas para que isso ocorra, é necessário que eles atuem também como árbitros privados, para que sejam provados no mercado. Parece-me que essa é em princípio, a melhor forma possível de governo em cidades públicas (que são as cidades que maioria das pessoas resolveram construir).

    Resumindo tudo, esse foi um texto sobre como a política invade o mercado. Pretendo escrever outro texto sobre como o mercado invade a política.
  • Renato Souza  21/06/2013 13:58
    Mas o mercado também invade a política.

    Uma empresa com mais de um dono, vista a partir de dentro, é um ente político. As pessoas que não concordarem com as decisões, e não conseguirem convencer os outros, ou se conformam, ou saem. Isso freqüentemente gera dificuldades, mas suponho que não sejam insuperáveis, porque as pessoas muitas vezes preferem ser sócias. Eu posso preferir ser sócio extremamente minoritário de uma grande empresa a ser dono de uma loja de R$1,99, e que vai dizer que estou errado?

    Uma empresa sem dono único, dada a sua natureza política (vista de dentro) muitas vezes enfrenta problemas de gestão. Mas isso não gera a degradação da economia do país, porque o mercado as corrige, primeiro as castigando, e depois, caso não haja mudança de rota em tempo hábil, as eliminando, desde que o governo não interfira. Então ela é um ente político enfrentando o mercado e sendo disciplinada por ele.

    Uma tribo, uma aldeia, uma cidade, também são (pelo menos na quase totalidade dos casos) entes políticos, pela decisão original dos seus membros de terem bens em comum. o problema é que elas estão operando fora do mercado. Porque isso aconteceu? Em parte por uma tendência, mas em parte por acidentes históricos. Durante muito tempo a escassez de recursos era grande, e a disputa por recursos naturais escassos isso gerava tensões, e eventualmente guerras entre as tribos, e isso gerava insegurança e medo, o que impedia muitas pessoas de buscarem mudar de tribo. Hoje em dia, após as revoluções científica e tecnológica, os recursos naturais se tornaram menos importantes que a tecnologia, conhecimento e comércio, e há muitos países pobres em recursos naturais que tem populações prósperas.

    Com o surgimento dos estados nacionais, a situação se complicou. A migração entre cidades seria muito mais simples que a migração para fora do pais. aprender outra língua, acostumar-se com outra cultura, ficar a uma distância enorme dos parentes e amigos, o custo é pesado. Note que mesmo assim há um "mercado de países", mas trocar de país não é como escolher uma marca diferente de televisor, o custo é muito grande. Mais recentemente os estados socialistas inovaram, e simplesmenye tornaram toda a população prisioneira. O custo de sair tornou-se um tiro de fuzil (ou enfrentar tubarões). Mais do que isto, o número de estados absurdamente mal governados tornou-se tão preponderante que a maioria da população mundial fugiria de seus países se países prósperos os aceitassem. Esses migrantes não entendem que é sua cultura política é a causa da manutenção da pobreza. Se milhões de nigerianos fugissem para a Suíça, carregariam seu modo de ver o mundo e sua cultura política para lá, fazendo piorar imensamente a cultura política, instituições e leis suíças, causando um empobrecimento enorme. A Suíça se tornaria uma Nigéria II. Alguém dirá que no passado ocorreram imensos fluxos de migrantes, e que isso não aconteceu. Ocorre que no passado era pensamento universalmente aceito que a obrigação de adaptação era dos imigrantes. Hoje, políticos multiculturalistas aprovam leis obrigando a população nativa a mudar sua cultura, leis e instituições para se adaptarem aos imigrantes.

    O estado nacional impõem leis anti-naturais aos entes subordinados. Veja um exemplo: o estado de São Paulo tem índices de homicídios por 100.000 habitantes muitíssimo mais baixo que o os do estado da Bahia. Mas aos índices de criminalidade em São Paulo jamais poderiam ser tão baixos como os da Finlândia ou Suiça, porque o estado de São Paulo esta subordinado às leis e instituições brasileiras, que são um lixo, e trabalham a favor da violência. Se o homem mais sábio e justo do mundo assumisse o governo do estado de São Paulo, ele não poderia mudar isso, a não ser que conseguisse sair da "federação" (GUERRA DE SECESSÃO). Algumas cidades ou estados podem ser menos ruins que outras, mas se você quiser algo muito melhor, tem de sair do país. Resumo: há um "mercado" de cidades e de entes federados, mas os estados nacionais o prejudicam. E há mercado de países, mas é absurdamente restrito e custoso.

    CONTINUA
  • anônimo  21/06/2013 14:21
    Como resolver isso?

    Se o Brasil fosses uma verdadeira federação, com intuito apenas de defesa contra entes externos, a concorrência entre as cidades se acirraria. Muitas cidades, livres das loucas leis federais, copiariam os exemplos de maior sucesso no mundo. Imagine que você esta descontente com as leis e instituições de Jundiaí, e ouve que Sorocaba está copiando as leis e instituições de Taiwan. Muitas empresas, atraídas pelo ambiente mais propício aos negócios, estão se mudando para lá. A criminalidade e pobreza caem. Você resolve se mudar. Qual o custo? Gastar alguns minutos mais para chegar à casa de sua mãe, para o almoço de domingo? A língua é a mesma, a cultura também, a culinária ídem, e você ainda pode visitar amigos e parentes. O custo de mudar é baixo, quase tão simples com mudar de marca de tv. Então surgiria um vigoroso mercado de cidades. Não importa que vistas de dentro elas fossem instituições políticas, elas teriam de concorrer ou definhar. Líderes populistas, com "soluções" demagógicas logo seriam identificados pelo povo como causadores dos males, e seriam xingados nas ruas. Saquear alguns para agradar outros deixaria de ser opção. Não haveria impedimento para surgimento de cidades privadas, e pode ser que houvessem muitas pessoas que as preferissem. Todas as cidades, públicas ou privadas estariam no mercado.
  • Marcelo Werlang de Assis  21/06/2013 18:06
    Renato,

    Você tem razão ao dizer que muitas coisas ruins têm também o seu lado bom. Concordo com você.

    Agora não estou com muita vontade de discutir mais a respeito do surgimento do estado e de assuntos afins. Talvez mais tarde eu esteja mais disposto.

    Um forte abraço!!!


  • André Luiz S. C. Ramos  18/06/2013 15:21
    Bernardo, meus parabéns pelo texto!
    Além de muito bem escrito, aborda um tema que eu acho fascianante de forma muito didática.
    Abraço.
  • Brasileiro puro  18/06/2013 16:08
    Ótima matéria. Isso sim é uma escola.
  • Felipe  18/06/2013 16:52
    Observei exatamente a mesma coisa quando trabalhei com economistas. Evidentemente, com todo o respeito a profissão, muitos economistas "emprestam" a matemática, sem terem a devida maturidade teórica suficiente, o que leva a inúmeros erros de interpretação quando tentam abstrair problemas reais em linguagem matemática.
  • Marcelo Werlang de Assis  18/06/2013 17:08
    Melhorando a minha resposta:

    Trata-se de um disparatado absurdo a afirmação de que o Estado é fruto do mercado. Como é que um sistema de trocas voluntárias e intercâmbio pacífico gerará um sistema de predação (parasitismo) e violência (coerção)?

    O Estado surgiu a partir do momento em que organizações criminosas (bandos de ladrões) tornaram-se tão grandes que transformaram-se em reinos ou governos, oficializando-se e sistematizando-se o roubo num determinado território.

    Abaixo, um trecho de Santo Agostinho:

    Removida a justiça, o que são os reinos senão grandes assaltos, e os roubos, senão pequenos reinos? O bando, em si, é formado de homens; é governado pela autoridade de um príncipe; é unido pelo pacto de uma confederação; o butim é dividido pela lei pactuada. Se, pela admissão de homens abandonados, esse mal aumenta a tal grau que domina lugares, fixa estabelecimentos, toma posse de cidades e subjuga povos, ele assume mais claramente o nome de reino, porque essa é a realidade que lhe é manifestamente conferida — não pela remoção da cobiça, mas sim pela adição da impunidade. Com efeito, foi uma resposta adequada — bem como essencialmente verdadeira — aquela que um pirata capturado deu a Alexandre, o Grande. Quando este rei lhe perguntou o que queria dizer com "manter a posse hostil do mar", o pirata respondeu com orgulhosa insolência: "O mesmo que tu queres dizer quando falas da conquista da Terra inteira; mas, porque eu o faço com um pequeno e insignificante navio, eu sou chamado de ladrão, ao passo que tu, que o fazes com uma grande frota, és chamado de imperador."

    Como bem disse o internauta Leonardo Couto, o mercado não afastou o estado justamente por causa do interesse do aparato de coerção de manter-se de pé (vivo e atuante), de continuar explorando e parasitando.

    Reproduzo, em itálico, os trechos de MURRAY NEWTON ROTHBARD transcritos pelo internauta Leh Levlavi:

    Dado que a produção tem sempre de preceder qualquer depredação, conclui-se que o livre mercado é anterior ao estado. O estado nunca foi criado por um "contrato social"; ele sempre nasceu da conquista e da exploração. O paradigma clássico é aquele de uma tribo conquistadora que resolveu fazer uma pausa no seu método — testado e aprovado pelo tempo — de pilhagem e assassinato das tribos conquistadas ao perceber que a duração do saque seria mais longa e mais segura — e a situação mais agradável — se ela permitisse que a tribo conquistada continuasse vivendo e produzindo, com a única condição de que os conquistadores agora assumiriam a condição de governantes, exigindo um tributo anual constante.

    Um dos métodos de nascimento de um estado pode ser ilustrado como se segue: nas colinas da "Ruritânia do Sul", um grupo de bandidos organiza-se de modo a obter o controle físico de um determinado território. Cumprida a missão, o chefe dos bandidos autoproclama-se "Rei do estado soberano e independente da Ruritânia do Sul". E se ele e os seus homens tiverem a força para manter este domínio durante o tempo suficiente, pasmem!, um novo estado acabou de se juntar à "família das nações", e aqueles que antes eram meros líderes de bandidos acabaram se transformando na nobreza legítima do reino.


    Forte abraço!
  • Joao  18/06/2013 19:18
    Não coincidentemente, marxistas nutrem a mesma ojeriza.
  • Felipe  18/06/2013 23:12
    Bem, não cabe a mim discutir economia com vocês, visto que não tenho 'conhecimento de causa' suficiente.

    Sou apenas um admirador da Matemática.

    Mas o meu ponto aqui é outro.

    O autor diz:

    "Não há a mesma espécie de regularidades nas ações humanas. As pessoas possuem preferências e estas são modificadas sem nenhum padrão. Dependem da vontade de cada indivíduo. Ao contrário dos experimentos laboratoriais da física, indivíduos diferentes agem de forma diferente em experimentos em condições semelhantes. Um mesmo indivíduo pode agir de forma distinta em experimentos semelhantes. Como dizia Ludwig von Mises, "não existem constantes na ação humana"."

    Mas como se explicam, por exemplo, algumas previsões excelentes da Matemática e Física Estatística em algumas questões fora das ciências exatas que envolvem ação humana?
    Pegamos, por exemplo, um caso que ficou famoso: A previsão do matemático responsável pelo blog FiveThirtyEight. Como explicam sua previsão coerente numa eleição tão disputada, inclusive bem mais acertada que os 'especialistas' da imprensa ou que qualquer pesquisa de opinião?
  • anônimo  19/06/2013 14:00
    Não explicam. Qualquer coisa que seja minimamente eficiente em prever o comportamento das massas vai ser visto com desconfiança por aqui, mesmo que funcione.
  • Caio  19/06/2013 03:12
    A criação e manutenção do estado se deu pela violação de livre-arbítrio, e controle veio por imposição e não por decisão, ou seja o mercado não foi capaz de proporcionar segurança contra esta imposição? Logo o mercado é ineficiente contra ameaças coercitivas.
    Então não resta dúvidas que o mercado para prosperar demanda a existência de um Estado para afastar a ameaça da imposição, que consiste no próprio Estado.
  • gabriel  19/06/2013 13:50
    parece q vc afirmou q o mercado precisa de um estado para nao ser atacado pelo estado. bem contraditorio a frase pareceu. mas tambem tenho esta duvida de como o mercado 'falhou' em se proteger do estado
  • Marcelo Werlang de Assis  19/06/2013 15:24
    Compreendo o seu posicionamento, Caio. As perguntas pertinentes são: Como o mercado se protegerá daqueles bandos (organizações) criminosos que pretendem sistematizar os seus crimes através da constituição de um estado? Como o mercado se protegerá da agressão de estados constituídos?

    The state is essentially an apparatus of compulsion and coercion. The characteristic feature of its activities is to compel people through the application or the threat of force to behave otherwise than they would like to behave.
    But not every apparatus of compulsion and coercion is called a state. Only one which is powerful enough to maintain its existence, for some time at least, by its own force is commonly called a state. A gang of robbers, which because of the comparative weakness of its forces has no prospect of successfully resisting for any length of time the forces of another organization, is not entitled to be called a state. The state will either smash or tolerate a gang. In the first case the gang is not a state because its independence lasts for a short time only; in the second case it is not a state because it does not stand on its own might. The pogrom gangs in imperial Russia were not a state because they could kill and plunder only thanks to the connivance of the government.
    This restriction of the notion of the state leads directly to the concepts of state territory and sovereignty. Standing on its own power implies that there is a space on the earth's surface where the operation of the apparatus is not restricted by the intervention of another organization; this space is the state's territory. Sovereignty (suprema potestas, supreme power) signifies that the organization stands on its own legs. A state without territory is an empty concept. A state without sovereignty is a contradiction in terms. (LUDWIG VON MISES, "Omnipotent Government")


    O estado é, essencialmente, um aparato de compulsão e coerção. A principal característica das suas atividades é compelir as pessoas, através da aplicação ou da ameaça da força, a se comportarem de forma diferente daquela que elas gostariam de concretizar.
    Mas nem todo aparato de compulsão e coerção é chamado de estado. Apenas aquele que é suficientemente forte para manter a sua existência através da sua própria força, pelo menos por algum tempo, é comumente denominado de estado. Uma gangue de ladrões, justamente por causa da fraqueza comparativa das suas forças, não tem a perspectiva de resistir com sucesso, por algum período de tempo, às forças de outra organização; não está, assim, habilitada a ser chamada de estado. Este irá destruir ou tolerar a gangue. No primeiro caso, a gangue não é um estado porque a sua independência perdura apenas por curto período; no segundo caso, ela não é um estado porque não se sustenta pelas suas próprias forças. As gangues perpetradoras de massacres na Rússia imperial não eram um estado porque elas podiam roubar e assassinar somente graças à conivência do governo.
    Esta restrição da noção do estado resulta diretamente nos conceitos de território do estado e de soberania. Sustentar-se pela própria força significa que existe um espaço na superfície da Terra no qual a operação do aparato não está restringida pela intervenção de outra organização; esse espaço é o território do estado. A soberania (suprema potestas, supremo poder) significa que a organização se sustenta pelas próprias pernas. Um estado sem território é um conceito vazio. Um estado sem soberania é uma contradição em termos. (Tradução minha.)


    No caso da tribo guerreira que conquista uma tribo pacífica, temos duas hipóteses: (a) essa tribo guerreira já é um estado (exerce soberania sobre determinado território, no qual existe um mercado que sustenta essa tribo); (b) essa tribo guerreira é apenas um grupo de criminosos que intenciona dominar pessoas pacíficas.

    É normal que o soberano de um estado já constituído queira ampliar o território dominado, de modo a expandir a área de parasitismo. Assim, ele, com os seus exércitos, invade áreas pacíficas ou áreas governadas por outro estado (sendo causada, assim, uma guerra entre os dois estados). Trata-se do primeiro caso explicitado (a).

    No filme Conan, O Bárbaro (refiro-me ao de 2011), a tribo do personagem principal, quando ele era criança-adolescente, é invadida e saqueada por um bando de malfeitores. Conan jura se vingar do bandido-mor. Muito tempo depois, já adulto, ele descobre que o líder desses criminosos tornou-se rei. Trata-se do segundo caso explicitado (b).

    Existe uma citação de Napoleão Bonaparte que bem reflete a mentalidade daquelas pessoas que querem mandar nas outras: "A ambição de dominar sobre os espíritos é a mais forte de todas as paixões."

    VON MISES também escreveu a respeito: "He who is unfit to serve his fellow citizens wants to rule them." ("Aquele que incapaz de servir os seus semelhantes quer governá-los.")

    A verdade é que sempre haverá indivíduos que desejarão parasitar e dominar, que desejarão usar a violência para roubar e ditar o modo de vida dos demais. Sempre existirá a vontade de constituir um estado ou de usar um estado já constituído para concretizar e ampliar o roubo e a dominação.

    Por esse motivo, na verdade, todas as pessoas honestas e pacíficas, por iniciativa própria (i.e., por responsabilidade própria), devem aprender a se defender de agressões físicas e de fraudes, instruindo-se nas artes bélicas (luta, tiro, etc.) e aguçando a inteligência. Creio que aí esteja a chave para a preservação (proteção) do mercado frente a forças que lhe são hostis. E a existência de uma mentalidade generalizada pró-mercado também ajudaria muito, bem como a presença de uma rede concorrencial de empresas privadas de segurança.

    Por exemplo, a Suíça não foi atacada pelos nazistas no período da Segunda Guerra justamente pelo fato de que a sua população era bastante armada.

    Ademais, lembremos que conquistar uma região em que (1) não haja um estado já constituído é bem mais difícil do que conquistar um lugar em que (2) já exista um estado constituído — pois bastará, no caso (2), derrotar e dominar o estado já constituído.

    As tribos conquistadas, infelizmente, não conseguiram repelir a agressão, tendo sido dominadas pelos criminosos. E, ao longo do tempo, os estados constituídos consolidaram-se, mantendo e prolongando a sua soberania por meio da tradição e da reiterada obediência dos dominados — trata-se de uma situação que perdura até os dias atuais. Assim, os estados se "legitimaram" perante os indivíduos governados.

    O mercado, como já explicado à saciedade neste site do IMB, é muito mais eficiente do que o estado em todos os setores. Mas o mercado de tais tribos pacíficas não conseguiu resistir à dominação.

    Eu falei antes que era um "disparatado absurdo" pensar que o estado seja fruto do mercado porque raciocinei sobre a ideia de que um sistema de produção pacífica e de trocas voluntárias é, logicamente, o oposto de um sistema de predação e violência. Não me passou pela cabeça, no momento, que você, Caio, estava se referindo ao fato de que é a própria existência do mercado (produção) que viabiliza o surgimento de um estado (predação). Por óbvio, a produção sempre precede a predação.

    Na minha opinião, a solução, como eu disse, está na concepção de que as pessoas honestas e pacíficas devem tomar a iniciativa (i.e., tomar a responsabilidade) de se protegerem de possíveis (e prováveis) agressões através do aprendizado das artes bélicas, através da criação de sistemas eficientes de defesa e através de meios de natureza voluntária (contratos com organizações que ofertem segurança).

    Forte abraço!
  • Caio  20/06/2013 22:58
    Caro Marcelo você adentrou justamente um ponto que pretendia abordar futuramente: "A verdade é que sempre haverá indivíduos que desejarão parasitar e dominar, que desejarão usar a violência para roubar e ditar o modo de vida dos demais... e logo a frente sugere que todas as pessoas pacíficas se armassem e aprendessem a lutar?

    Primeiramente podemos concluir que o ser humano não é tão pacífico quanto acreditávamos.
    Segundo armar e treinar uma população inteira não me parece uma solução eficaz, vez que uma economia composta integralmente por Anderson Silva e Bronco Billy não me parece muito promissora e um verdadeiro desperdício de recursos, há definitivamente pessoas e recursos mais produtivas em outras áreas. Talvez uma alternativa seria a contratação de empresas privadas de segurança para resguardar que o livre comércio imperasse, no entanto, nada impediria que após o largo crescimento dessa empresa de segurança seu dono se autoproclamasse Rei, ocasionando um novo Estado. Prova disso é o que temos hoje são Estados e não empresas privadas de segurança.

    Abraçs
  • Marcelo Werlang de Assis  21/06/2013 17:49
    Caio,

    Eu não quis dizer que todas as pessoas pacíficas deveriam se tornar lutadores de elite como o Anderson Silva. Eu manifestei a ideia de que os indivíduos deveriam aprender, por conta própria (iniciativa e responsabilidade próprias), o básico essencial das artes bélicas, como tiro ao alvo (bem como a manipulação correta e a conservação adequada de uma arma de fogo) e noções de luta (i.e., a maneira correta de se aproximar do oponente e de dar um golpe, o lugar mais adequado do corpo do adversário para atingir, etc.).

    Veja, eu insisto bastante na noção de iniciativa e responsabilidade próprias porque ela é o fundamento da liberdade, bem como o da independência individual. O "código" seria: Ninguém, a não ser eu mesmo, é responsável pelo meu bem-estar. Como o bem-estar envolve a segurança, esse "código", então, também se aplica ao caso. A pessoa jamais deve pensar que outros (i.e., o estado ou o conselho não-coercivo de elites naturais) serão responsáveis pela sua segurança.

    A regra geral é a de que a maioria dos indivíduos é pacífica. Mas, como se sabe, toda regra geral possui as suas exceções. Foi nesse sentido que escrevi o que se segue:

    Existe uma citação de Napoleão Bonaparte que bem reflete a mentalidade daquelas pessoas que querem mandar nas outras: "A ambição de dominar sobre os espíritos é a mais forte de todas as paixões."

    VON MISES também escreveu a respeito: "He who is unfit to serve his fellow citizens wants to rule them." ("Aquele que incapaz de servir os seus semelhantes quer governá-los.")

    A verdade é que sempre haverá indivíduos que desejarão parasitar e dominar, que desejarão usar a violência para roubar e ditar o modo de vida dos demais.


    Abraços!!!
  • Eliel  19/06/2013 18:11
    Fico com William Stanley Jevons:

    "Para evitar mal-entendidos, é bom explicar que o critério para inserir qualquer publicação, ou parte de uma publicação, nessa lista é o fato de ela conter um reconhecimento explícito do caráter matemático da Economia, ou da vantagem a ser obtida por seu tratamento simbólico.
    Sustento que todos os autores econômicos devem ser matemáticos na mesma medida em que são científicos, porque tratam de quantidades econômicas, e as relações de tais quantidades e todas as quantidades e relações de quantidades estão dentro do objeto da Matemática. Mesmo aqueles que, mais veemente e claramente, protestavam contra o reconhecimento de seu próprio método, continuamente revelam em sua linguagem o caráter quantitativo de seus raciocínios.
    Sustento, portanto, que argumentar matematicamente, seja correta ou incorretamente, não constitui diferença real no tocante aos autores de teoria econômica. Mas uma coisa é argumentar e outra é compreender e reconhecer explicitamente o método do argumento. Assim como há tantos que fazem prosa sem sabê-lo, ou ainda que silogizam
    sem ter a menor idéia do que é silogismo, assim também os economistas têm sido, há muito, matemáticos sem se aperceberem do fato. O resultado negativo é que eles geralmente têm sido maus matemáticos e seus trabalhos tendem a perder prestígio. Por isso, o reconhecimento explícito do caráter matemático da ciência era uma condição quase necessária para qualquer progresso real da teoria. Não segue, naturalmente,
    que ser explicitamente matemático é assegurar a obtenção da verdade, e em escritos semelhantes àqueles de Canard e Whewell, encontramos vários símbolos e equações sem nenhum resultado de valor, em virtude do fato de que eles apenas traduziram em símbolos as teorias obtidas, e obtidas erroneamente, sem sua utilização.
    Esses autores não entenderam e inverteram por completo a função dos símbolos matemáticos, que é a de guiar nossos pensamentos no escorregadio e complicado
    processo de raciocínio. A linguagem comum pode expressar normalmente os axiomas elementares de uma ciência, e com freqüência também os resultados finais; mas só da forma mais insatisfatória, obscura e tediosa é que nos pode conduzir através dos labirintos da inferência."

    Os Economistas - Jevons
    Editora Nova Cultural - páginas 24,25 e 26.

  • Daniel Fraga  20/06/2013 21:43
    Não precisamos complicar essa questão. No fim das contas, tudo se resume à liberdade individual (desde que não haja coerção contra pessoas pacíficas). Se o sujeito advoga o uso da matemática aplicada à força na realidade econômica, pressupõe um poder central decidindo por tudo e todos, o que viola a liberdade individual.

    Portanto, por mais genial que seja a conclusão de um planejador central, ninguém deve ser obrigado a se submeter a ele.

    Se defendermos o princípio da liberdade individual, isso basta e essa discussão toda se torna irrelevante.
  • Renato Souza  21/06/2013 11:33
    Concordo que o comportamento humano é muito diferente das variáveis físicas, mas isso não quer dizer que é impossível prevê-lo matematicamente, com as devidas restrições. Com isso não estou corroborando modelos artificiosos.

    O fato de defensores de modelos artificiosos terem aderido fortemente ao uso da matemática na economia não quer dizer o seu problema seja esse. Eles erram por confiar em premissas equivocadas. Um economista correto não se entregaria a simplificações descabidas, e portanto teria de ser bem mais restrito nas suas previsões, mas não entendo porque não poderia fazer previsões estatísticas.
  • anônimo  28/06/2013 04:30
    Achei bastante fracos os argumentos anti-matemática, pois pelo texto, parece é que o pessoal da economia/econometria ficou estagnado no século 18-19 e/ou que estão ainda muito presos aos trabalhos que usavam a matemática desse período como base.
  • Rosevaldo de Oliveira  30/06/2013 18:19
    Ou o autor não conhece os avanços recentes ou apenas omitiu por não dominá-los.
    A economia baseada na física do século XIX, termodinâmica, mecânica, etc... já está falida há muito tempo. Em 1900 um aluno de Poicaré iniciou a nova matemática mais adequada a economia. Em uma tese de doutorado foi dados os fundamentos da teoria baseada em sistemas ESTOCÁSTICOS que conhecemos hoje como Teoria dos Sistemas Complexos. São poucos os matemáticos que dominam essa área da matemática infelizmente. Quem domina essa área são físicos, meteorologistas, engenheiros, etc... Fazer previsão de eventos raros é impossível com a distribuição gaussiana. A matemática avançada dos sistemas estocásticos será o futuro da física, economia, meteorologia, etc...
    Os físicos demoraram para aceitar os sistemas estocásticos como a grande revolução, mas hoje estão acostumados com essa linguagem moderna. Não será diferente na economia.
    Para o desespero dos economistas que querem voltar a simplicidade da matemática básica.
  • Mauro  30/06/2013 19:30
    Quer dizer então, prezado Rosevaldo, que o comportamento humano é perfeitamente matematizável por sistemas estocásticos? Coloca aqui a fórmula matemática que explica e que prevê com exatidão como será o comportamento diário de 7 bilhões de indivíduos. Estou bem interessado. Deve dar pra ganhar horrores na bolsa com essa equação perfeita.
  • Rosevaldo de Oliveira  30/06/2013 20:14
    Caro Mauro,
    É exatamente a falta de conhecimento sobre sistemas complexos que leva a esses questionamentos. Você acha que é impossível prever o momento que uma viga sobre tensão irá entrar em colapso? Você acha impossível prever terremotos com um grau de acertos razoável? Você acha impossível prever bolhas no sistema financeiro atual?
    Bem você precisa conhecer os resultados que estão sendo publicados na área citada.
    Ainda são resultados bastantes rudimentares. Mas promissores. E novamente para o desespero daqueles que não dominam matemática avançada: não existe uma fórmula que prevê com exatidão o comportamento humano. A fórmula de B-S-M não é válida nesse contexto, pena. O mundo real é bem mais complexo que a teoria dos mercadinhos eficientes poderia prever. Aí nesse ponto você me diz: então essa matemática estocástica não serve para nada! Errado. Não podemos prever com certeza clássica qual é valor da voltagem medida pelo eletrocardiograma em uma série temporal no próximo instante. Mas podemos analisar e monitorar a série temporal do seu coração e prever um infarto com meia hora de antecedência. Da mesma forma podemos monitorar os preços de ações e derivativos para prever bolhar e grandes flutuações. Isso que citei já conseguimos obter sucesso. Área nova, precisamos de mentes novas e abertas para grandes desafios.
  • Ricardo  30/06/2013 21:15
    Prezado Rosevaldo, você está fazendo exatamente a mesma crítica dos economistas austríacos, mas não percebeu: é impossível prever o comportamento humano -- e toda a economia se baseia no comportamento humano -- por meio da matemática. Prever o comportamento de 7 bilhões de pessoas diariamente não é tão simples e exato quanto prever quando "uma viga sob tensão irá entrar em colapso".

    A sua crítica aos economistas que não conseguiram prever a crise econômica por meio da matemática ("a teoria dos mercaríamos eficientes", como você desdenhou) é a mesma dos austríacos. Gentileza ler mais artigos do site para ao menos saber o que o pessoal aqui realmente pensa.

    Abraços.
  • Rosevaldo de Oliveira  01/07/2013 01:18
    Sou novato aqui no site, gostei do que li até o momento. Discordo do autor do artigo em alguns pontos, embora admito a qualidade do trabalho na defesa sobre o ponto de vista dele. Uma teoria é boa quando ela é capaz de fazer previsões razoáveis. Bem nesse quesito as teorias modernas estão no caminho certo. Previsões climáticas são difíceis, previsões de preços da mesma forma, mas não impossíveis por princípio. Hoje devido a atual configuração do sistema econômico existem crises, bolhas, que são eventos extremos. Há duas abordagem: a primeira é tentar entender por meios de princípios básicos o funcionamento do todo somando as partes. A segunda maneira é não separar as partes e tentar entender o todo sem que seja uma soma simples das partes. Estou explorando a última ideia. Não acho que a primeira esteja errada. Muito pelo contrário, penso que estamos procurando resolver o mesmo problema. Caso o futuro mostre que outra teoria é mais adequada, paciência, não podemos ir contra os dados experimentais. Não acho que há conflito entre as teorias econômicas sofisticadas pela matemática dos sistemas estocásticos com os estudos de bases na microeconomia e macroeconomia padrão. Para entender o funcionamento do coração há várias maneiras. Podemos simplesmente analisar os sinais elétricos ou podemos fazer um ultrassom. E ainda podemos abrir o tórax e verificar seu funcionamento anatômico. Devido à complexidade do assunto não há consenso ainda qual é o melhor caminho. Por isso existe o debate e o diálogo, e é completamente saudável. Conheço bem os modelos convencionais, com seus pontos positivos e suas limitações. Percebi belas críticas sobre alguns dogmas aqui no site. Espero poder contribuir em algum momento com o site.

    Abraço.
  • Joao  07/10/2013 07:24
    Para alguém que deseja atuar no Mercado financeiro ou finanças corporativas, não seria necessário saber a matemática da Teoria dos Jogos e Econometria?
  • Frank  24/02/2016 15:02
    "A matemática tornou-se uma forma de intimidação retórica dos economistas"

    Então por que não utilizar a matemática para desconstruir as próprias falácias deles?

    De acordo com a Teoria de Sistemas (ramo da Física) a Economia é um sistema complexo não-linear, cujo comportamento não pode ser expressado pela soma dos comportamentos das suas partes. Basta transformar isso em linguagem matemática para acabar com toda a Economia mainstream.

    Como leigo total, tanto em Economia quanto Física e Matemática, eu pergunto: estou certo ou estou errado?

    De qualquer forma, não é possível usar a matemática para refutar os economistas mainstream e fazê-los cair em contradições ou paradoxos?



Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.