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“Me quiero ir” del peso argentino!

Quando estive em Buenos Aires, há cerca de dois meses, ofereceram-me trocar meus dólares por pesos argentinos no próprio hotel. Mas não na recepção, preenchendo os formulários, usando o câmbio oficial — 5,18 à época — e seguindo à risca o protocolo padrão. Na verdade, quem se prontificou a realizar a troca foi o maleiro do hotel, a um câmbio de 7 pesos para cada dólar. Barganhando um pouco, certamente poderia ter  negociado por uma cotação mais favorável ainda. E não pense que estava hospedado em uma espelunca qualquer no subúrbio da capital. Muito pelo contrário. Era um hotel cinco estrelas, localizado em uma das zonas mais tradicionais e cobiçadas da cidade.

Não muito tempo depois, um empresário vitivinicultor que conheço, empenhado em fechar a compra de uma área na província de Mendoza, conseguiu trocar seus dólares ao câmbio de 9 pesos para cada dólar, mais de 70% de ágio frente à cotação oficial. Tudo muito bem organizado, longe das autoridades, no bom e velho mercado negro, aquele que nunca te deixa na mão. Bem, em realidade, agora se chama mercado blue, pelo menos essa é a atual designação dada ao dólar negociado no mercado paralelo da Argentina. Mas afinal, o que há de errado com o peso argentino? Por que a cotação do blue tem disparado tanto?

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Fonte: La Nación

Jim Rogers, o lendário investidor americano  já calejado no mercado cambial por ter dado a volta ao mundo duas vezes passando por mais de cem países em seis continentes, afirma que, na maioria dos lugares ao redor do globo, o câmbio é como um termômetro. Ele pode não te dizer o que está acontecendo, mas ele te diz que algo está acontecendo. E quanto maior a disparidade entre a cotação do mercado negro e a do oficial, maior o problema.

E qual o problema? Ora, depende da versão. A oficial, emitida desde os corredores da Casa Rosada, aponta os especuladores, os empresários gananciosos e a mídia opositora como os grandes problemas, los enemigos de la nación argentina.  Já para quem tenta produzir, trabalhar honestamente, importar e exportar, está claro onde o problema reside: o kirchnerismo está levando o país dos porteños ao colapso. Talvez seja o primeiro país da história moderna a ingressar na categoria de des-desenvolvido. De uma nação riquíssima e desenvolvida, a Argentina ruma a caminho do subdesenvolvimento.

Quase dois anos depois que o governo de Cristina Kirchner introduziu o regime de controle cambiário, apelidado pelos argentinos de cepo cambiario, as restrições à livre movimentação de capitais estrangula a economia do país cada vez mais, o que arruína a vida de todos, desde cidadãos autônomos até grandes corporações. E por que controlar o câmbio? Simplesmente porque as reservas internacionais não param de cair. De um pico de quase US$ 53 bilhões em janeiro de 2011, as reservas estancaram e começaram a declinar a partir de maio daquele mesmo ano. Poucos meses depois, vieram as restrições ao livre comércio de divisas.

Obviamente, o cepo cambiario não conseguiu conter a queda das reservas. Ao contrário, o declínio se acentuou. Notem, no gráfico acima, que é a partir da imposição das medidas restritivas que o dólar blue passa a divergir de vez do câmbio oficial. Nada mais notório no campo das políticas públicas. Um problema que era sério se torna agudo.

É claro que o controle cambial apenas intensifica o problema, fazendo com que o povo desconfie ainda mais de seu governo. Mas não é a única razão a fazer com que as reservas caiam. A balança comercial está cada vez mais perto do zero. Na atual cotação, o peso argentino está artificialmente sobrevalorizado, o que incentiva as importações e a saída de divisas do país. Ademais, a intensa regulação das exportações e importações argentinas aniquila a competitividade das empresas. Por outro lado, os investimentos diretos definham vertiginosamente. Afinal de contas, quem vai querer investir em um país tão belicoso ao capital externo. A Repsol que o diga.

Todos esses fatores conduzem ao mesmo resultado: fuga de capitais. Quem tem dinheiro na Argentina quer tirar e tem dificuldade em lográ-lo. Quem tem dinheiro fora e pensava em investir não mais o fará. Pelo menos não neste momento.

E, por fim, não nos esqueçamos da inflação de preços que destrói o poder de compra da população cada vez mais. E de quanto é a inflação? Perguntado por uma repórter da TV grega, o ministro da Economia, Hernán Lorenzino, respondeu que a "inflação é o que é" — é o que o órgão público responsável por medi-la publica: em torno de 10,2% nos últimos 12 meses, afirmou Lorenzino. Mas o que dizer da alegação do FMI de que não se pode mais confiar nas estatísticas argentinas, retrucou a repórter. Lorenzino não balbuciou. Encerrou a entrevista no ato, dizendo, em off, "me quiero ir!".

Ainda que não se possa falar da inflação, a população não pode deixar de senti-la no seu bolso. E por isso os argentinos se quieren ir del peso hacia al dólar. E por que não falar da inflação? Ora, porque o verdadeiro culpado pela inflação é o próprio governo argentino. Para tapar o crescente buraco fiscal, a Sra. Kirchner tem recorrido à velha e obscura forma de financiar déficits governamentais, emissão de moeda.

Se, por um lado, o governo aumenta a quantidade de pesos no mercado, por outro segue caindo a oferta de dólares. E ainda que os políticos tentem lutar contra a lei da oferta e da demanda, o mercado é implacável: com mais pesos e menos dólares em circulação, a moeda argentina só pode perder valor.

Vejam no gráfico a relação entre a oferta monetária de pesos (pelo dólar oficial) e as reservas internacionais. Notem que, a partir de meados de 2011, a oferta monetária em pesos dispara, enquanto as reservas, em sentido oposto, declinam. É possível que nem durante o corralito essa discrepância tenha sido tão preocupante. Simplesmente não há lastro suficiente para converter toda a massa monetária de pesos em dólares. Com certeza não pela cotação oficial.

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Fonte: O Ponto Base e Banco Central de la República Argentina

E por que não simplesmente permitir a desvalorização do peso? Esse é o xis da questão. Primeiro, por uma questão de prestígio, pois uma depreciação oficial da moeda argentina é a clara assunção da mais patente incompetência e inaptidão do governo kirchnerista na condução da economia. Além disso, essa medida elevaria os índices de inflação às alturas rapidamente.

Segundo, porque o governo da Sra. Kirchner deve mais de US$ 140 bilhões a credores externos. Façam as contas e entenderão o tamanho do problema. Se honrar os compromissos da dívida a um câmbio de 5,2 já é complicado, imaginem quase duplicar esse fardo ao deixar o peso depreciar-se ao valor de mercado, de 9 ou 10 pesos para cada dólar (talvez até mais).

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Fonte: Tradingeconomics.com

A realidade é que o problema está dado. É quase impossível enfrentar essa situação de penúria sem uma grave crise recessiva. Debelar uma inflação de preços de mais de 25% ao ano requer medidas duras, pelo menos no curtíssimo prazo. Mas não debelá-la agora implicará em um receituário ainda mais penoso mais adiante. Não há alternativa boa. A escolha é entre um remédio ruim agora, ou um ainda pior lá na frente.

Será que o governo argentino adotará as políticas necessárias para sair da crise? Só podemos especular. Mas acho extremamente difícil. Politicamente, pode ser fatal. E a julgar pelas mais recentes medidas, a impressão é de que insistirão em paliativos, atacando os sintomas, e não as causas.

Esse é precisamente o caso do tal blanqueo de capitales, a mais recente medida destinada a aumentar as reservas cambiais do governo. Em síntese, não podendo obrigar os argentinos a abrir mão de seus dólares, o governo kirchnerista quer convencê-los a  entregar os dólares de livre e espontânea vontade, em troca de um título, que o governo jura que honrará no futuro.

Mas a população não é burra. É como dizem os gaúchos, cachorro mordido de cobra tem medo de linguiça. Os argentinos sabem que não podem confiar no governo. É plausível, portanto, esperar que as coisas piorem ainda mais no nosso vizinho.

E, nesse cenário, para onde vai o dólar blue? Difícil prever, mas arrisco dizer que a tendência é muito mais de alta do que de baixa. Não há nenhum indício de que a Sra. Kirchner cessará a inflação do peso argentino. O mercado paralelo seguirá sendo o refúgio de quem quer livrar-se da moeda argentina. Pois, como diz Jim Rogers, é melhor correr o risco de eventualmente ser ludibriado no mercado negro do que ter a certeza de ser roubado pelo câmbio oficial.


Artigo originalmente publicado em O Ponto Base.


autor

Fernando Ulrich
é mestre em Economia da Escola Austríaca, com experiência mundial na indústria de elevadores e nos mercados financeiro e imobiliário brasileiros. É conselheiro do Instituto Mises Brasil, estudioso de teoria monetária, entusiasta de moedas digitais, e mantém um blog no portal InfoMoney chamado "Moeda na era digital". Também é autor do livro "Bitcoin - a moeda na era digital".

 

  • Samir Jorge  15/06/2013 09:27
    Dr. Fernando bom dia.

    A miopia no diagnóstico e a rejeição a liberdade econômica seria um traço de caráter da

    liderança Argentina? A liderança brasileira é semelhante ou assemelhada a liderança Argentina?

    Atenciosamente,

    (a) - Samir Jorge.

  • Pedro Ivo  15/06/2013 12:53
    Alguém tem alguma informação sobre como os desmandos de Buenos Aires estão influenciando os movimentos separatistas nas províncias argentinas? Córdoba ainda lidera os descontentes?
  • Brenner  15/06/2013 14:13
    O Instituto Mises poderia comentar a respeito da sinistra rede de vigilância criada pelo Governo norte-americano para espiar tudo na vida dos cidadãos, o PRISM (e o fato de mesmo tendo criado, na prática, um estado de constante vigilância e de atentado à privacidade, ela é aprovada por 51% da população)
  • Anônimo  15/06/2013 15:02
    Privacidade sempre foi uma bandeira erguida pelo instituto Mises gringo. Um artigo a respeito por aqui é mais que inevitável.
  • Marcelo Werlang de Assis  15/06/2013 15:48
    Abaixo, um interessante artigo sobre privacidade escrito por WENDY McELROY:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1353

    Abraços!!!
  • Marcelo Werlang de Assis  15/06/2013 19:51
    O nome do artigo de WENDY : « A sua privacidade pertence somente a voce^; e nunca ao estado »
  • Marcelo Werlang de Assis  15/06/2013 23:50
    O link para o artigo da WENDY McELROY ("A sua privacidade pertence somente a você; e nunca ao estado") não está funcionando. Acho que agora ele funcionará: mises.org.br/Article.aspx?id=1353

    Abraços!
  • Goldstein  20/06/2013 16:42
    Aqui no Brasil nós temos coisas sinistras também. A rede Infoseg (eles tem a vida completa do cidadão, procurem no youtube, fraudes e mais fraudes, tem até venda de acesso ao sistema), a porcaria do imposto de renda e, por fim, esse projeto totalitário de "recadastramento biométrico" da justiça eleitoral, que está criando um banco de dados gigante com informações biométricas da população. Não vai custar muito para começarem incriminar pessoas inocentes, basta colocar as digitais da vítima na cena do crime.
  • Daniel Fraga  15/06/2013 21:31
    Bitcoin neles!
  • Eduardo  17/06/2013 15:04
    BITCOIN neles!!!
  • Pobre paulista  17/06/2013 18:11
    Temos que prestar muita atenção na Argentina, pois a Argentina de hoje é o Brasil de amanhã.
  • Amarilio Adolfo da Silva de Souza  17/06/2013 22:41
    A hora do "brasil" está próxima.
  • anônimo  17/06/2013 22:50
    Ano que vem é de eleição, a chance de extremistas serem eleitos em momentos de descontentamento geral é enorme. A luz da segurança tem cor dourada, e também brilha em paraísos fiscais. Que, por sinal, vão ser alvo de discussão na reunião do G8...
  • Goldstein  20/06/2013 16:35
    Alguém sabe como está a cotação do ouro físico na terra dos hermanos?
  • anônimo  12/07/2013 23:15
    Quer comprar pão na Argentina?

    economia.uol.com.br/noticias/bbc/2013/07/11/aumento-de-700-faz-pao-se-tornar-artigo-de-luxo-na-argentina.htm

    E o script continua sendo seguido à risca...


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