clube   |   doar   |   idiomas
Os efeitos não premeditados de uma desvalorização da taxa de câmbio

O Banco Central do Japão anunciou recentemente a implementação de uma das mais inflacionárias políticas monetárias já empreendidas.  Prometendo injetar o equivalente a $1,4 trilhão de dólares na economia ao longo dos próximos dois anos, esta política tem o duplo objetivo de gerar uma inflação de preços de 2% e depreciar ainda mais o iene.  A ideia é combater a "deflação" e aumentar as exportações.

O único resultado garantido desta política será um inchaço do balancete do Banco Central do Japão (projeta-se que ele irá praticamente dobrar, para US$2,9 trilhões).  Embora esteja hoje em um nível menor do que estava 25 anos atrás, o índice de ações da bolsa de valores do Japão aumentou 70% desde novembro do ano passado.  Por mais satisfeitas que as pessoas estejam com a alta do preço das ações, os efeitos econômicos serão danosos no final; com efeito, as duas recentes quedas acentuadas nos preços das ações japonesas prenunciam ainda mais problemas futuros.

japan-stock-market.png

Esta ideia puramente mercantilista de tentar expandir a oferta monetária com o intuito de depreciar a taxa de câmbio e com isso estimular a produção do setor industrial é tão antiga quanto o próprio mercantilismo.  Em seu livro The Theory of Money and Credit, escrito em 1912, Ludwig von Mises já havia abordado a questão da depreciação monetária de maneira mais completa do que os atuais livros de economia monetária.  No que mais, na versão mais refinada de sua teoria dos ciclos econômicos — apresentada em seu livro Ação Humana —, Mises esquematizou os efeitos deletérios de tais políticas de expansão monetária.

A taxa de câmbio determina o preço que um estrangeiro terá de pagar por um bem produzido domesticamente.  Aumentos na oferta monetária geram pressões inflacionárias nos preços, consequentemente levando a um aumento nos preços propriamente dito, inclusive nos preços das moedas estrangeiras.  Logo, a taxa de câmbio se torna mais depreciada, o que significa que agora são necessárias mais unidades da moeda doméstica para se adquirir uma unidade de moeda estrangeira.  Por outro lado, torna-se mais barato para os estrangeiros comprarem os bens deste país.  Consequentemente, as exportações aumentam.  Conclusão: países podem estimular suas exportações e aumentar o número de empregos nas indústrias voltadas para exportação ao inflacionarem sua oferta monetária.

Infelizmente, no entanto, a história não acaba aí.

Depreciar a sua moeda de fato faz com que seus produtos voltados para exportação se tornem mais baratos para os estrangeiros.  Porém, a depreciação da moeda também faz com que seja mais caro para você comprar bens importados.  O efeito mais imediato é tornar a sua balança comercial mais superavitária.  Um segundo efeito é a redução no investimento estrangeiro na sua economia — afinal, ao repatriarem seus lucros, as multinacionais convertem moeda nacional em moeda estrangeira.  Se a tendência é de depreciação cambial, então qualquer investimento feito será mais arriscado, pois a conversão de moeda nacional em moeda estrangeira será cada vez mais cara.

O terceiro efeito é que, se os bens que você exporta são produzidos com vários insumos (bens de capital como máquinas e ferramentas) importados, o efeito será um aumento nos seus custos de produção.  Sendo assim, os exportadores terão de pagar mais caro pelos insumos que importam e que utilizam para fabricar os produtos que pretendem vender aos estrangeiros. 

Este efeito é especialmente notável em países que possuem grandes mercados exportadores, mas cuja produção nacional de insumos utilizados pelas indústrias de exportação é muito pequena.  Nenhuma outra grande economia cabe melhor nesta descrição do que a japonesa.

A ideia mais sagaz de Mises foi a de analisar os efeitos de longo prazo de tal política.  Neste processo, ele examinou também os resultados de curto prazo.

A ineficácia desta política no longo prazo se torna evidente quando se compreende como os preços — tanto os domésticos quanto os estrangeiros — interagem para determinar as taxas de câmbio.  Os exportadores serão ajudados no curto prazo, mas este efeito será cancelado no longo prazo tão logo os preços se reajustem.

Se a política é ineficaz no longo prazo, Mises também demonstrou que os ganhos de curto prazo são ilusórios.  A mesma política monetária que visa a depreciar a moeda com o intuito de estimular o comércio internacional gerará vários desarranjos domésticos.

Uma inflação monetária mais alta irá reduzir as taxas de juros.  Um resultado desta política será um maior volume de gastos voltados para o consumo.  Com juros menores, os consumidores pouparão menos e gastarão mais.  O outro resultado da redução dos juros reais é aquilo que Mises rotulou de "investimentos errôneos e insustentáveis": com juros menores, as empresas irão investir mais em projetos que, antes da redução dos juros, eram economicamente inviáveis.  Consequentemente, recursos escassos serão demandados tanto pelos setores voltados para bens de consumo quanto pelos setores voltados para investimentos mais vultosos.  Este "cabo de guerra" gera um aumento generalizado nos preços, fazendo com que vários destes investimentos, quando finalizados, se revelem sem uma genuína demanda, pois as pessoas agora estarão mais endividadas e tendo de lidar com preços maiores em toda a economia.

Em uma economia de mercado, as empresas devem ajustar seus planos de produção de modo a ofertar não somente a quantidade de bens que os consumidores querem no presente, mas também a quantidade mais exata possível de bens que os consumidores irão demandar no futuro.  A taxa de juros é o que coordena todos estes planos ao longo do tempo.  É ela que os empreendedores utilizam para determinar quando irão produzir uma determinada quantidade de bens e qual deve ser o tipo de processo de produção escolhido (se voltado mais para o curto prazo ou para o longo prazo).  Os efeitos negativos da distorção dos juros só serão revelados bem mais tarde.

Manipular a taxa natural de juros por meio de uma política monetária inflacionária é uma medida que desajusta tanto os planos de produção das empresas quanto os planos de consumo das pessoas.  No final, a economia irá sucumbir a um ciclo econômico nos moldes descrito pela Escola Austríaca de economia, apresentado um período de crescimento econômico forte porém artificial seguido por um período de estagnação e eventual recessão, que é a quando a economia tenta se reajustar expurgando os investimentos ruins e adquirindo fundamentos mais sólidos.

Quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem as mesmas.  Ludwig von Mises conseguiu identificar as armadilhas criadas pelas políticas monetárias expansionistas mais de 100 anos atrás.  As autoridades políticas e monetárias aparentemente ainda não aprenderam nada destas importantes lições, e continuam a castigar seus países com as consequências geradas por estas fracassadas medidas.



autor

David Howden
é professor assistente de economia na Universidade de St. Louis, no campus de Madri, e vencedor do prêmio do Mises Institute de melhor aluno da Mises University.


  • Emerson Luís  03/06/2013 13:15
    É semelhante a alguém que faz exercícios físicos e começa a tomar drogas para aumentar a massa muscular sem orientação médica. Sim, ele consegue crescer e apresentar aos outros uma imagem de força e saúde e fica contente com os resultados imediatos. Mas está prejudicando o seu organismo e o longo prazo vai cobrar o seu preço.

    * * *
  • iury  21/12/2017 20:10
    Estamos em 2017, quais foram as consequências dessas medidas ao Japão ? foram mesmo ão ruins se não pq ?
  • Haroda  21/12/2017 22:11
    Sim. Essa desvalorização de 2013 gerou uma recessão em 2014 (a economia caiu em 2014 em relação a 2013). E a subsequente valorização em 2016 gerou crescimento econômico em 2017.

    Aliás, a correlação é impressionante: quando a moeda se desvaloriza, a economia encolhe. Quanto a moeda se valoriza, a economia se expande.

    Pode conferir:

    Câmbio (ienes por dólar; quanto mais alto, mais desvalorizado):

    d3fy651gv2fhd3.cloudfront.net/charts/historical.png?s=USDJPY&v=20171221214100&d1=20120101&d2=20171231

    Taxa de crescimento econômico:

    d3fy651gv2fhd3.cloudfront.net/charts/japan-gdp-growth-annual.png?s=jgdpnsaq&v=201712081438v&d1=20120101&d2=20171231&type=column

    Artigo sugerido:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=2519
  • Lord Krugman  03/06/2013 13:34
    ...Mas, mas e a demanda agregada?
  • anônimo  03/06/2013 17:12
    agregue-a a uma bigorna, mais quantos keynesianos achar, e atire no mar!
  • Daniel Marchi  03/06/2013 13:47
    Muito oportuno esse artigo. Infelizmente vejo muito economistas ditos "liberais" defenderem o regime de câmbio flutuante. Associam ingenuamente a palavra "flutuante" a mercado livre. Não percebem que isso representa liberdade total para os governos empreenderem políticas cambiais/monetárias cada vez mais agressivas. E é exatamente por isso que políticos e keynesianos odeiam o câmbio fixo (bem como sua forma mais imune a política: o padrão-ouro). O cambio fixo é uma amarra, ainda que imperfeita, para políticas inflacionistas e, portanto, para a própria expansão do estado.
  • Julio Heitor  03/06/2013 15:26
    Perfeito comentário Daniel!
  • bruno barreto  03/06/2013 15:21
    olha quanto mais eu me informo no mises, mais atento ao noticiário fico...mas fico com uma pulga atrás da orelha, não acho factível que esse pessoal não saiba os efeitos das expansões monetárias... por que pensem de forma distinta de outros economistas a quantidade de dados e exemplos que corroboram as ideias da escola austriaca é imensa...então só sobram 02 opções ou é mesmo tudo pare de um esquema globalista(cada vez mais levo essa idéia do olavo de carvalho mais a sério)de dominação politica ou é só uma forma dos politicos se manteram no controle do setor produtivo do país,por vício no poder mesmo,uma forma de sempre independente do partido ter sempre politicos mandando, corrupção descarada mesmo!!!! fica para a galera debater gostaria até se possível da opinião de alguém do mises!!!
  • Alexandre M. R. Filho  03/06/2013 16:31
    Bruno, o negócio é que eleições acontecem periodicamente.

    Portanto, os políticos só precisam agir pensando nesse período.

    Se um eleição ocorre de 4 em 4 anos, pra que se preocupar com algo que possa durar, sei lá, 20 anos?
  • Pobre paulista  03/06/2013 17:15
    É óbvio que eles sabem. Mas a questão é essa: Eles adoram uma inflação "sob controle", pois assim podem corroer as dívidas que eles mesmos criaram. Imprimir dinheiro é muitíssimo melhor que cobrar imposto, pois cria-se inflação de preços e portanto todos os cidadãos pagam a conta, isso é insonegável (existe essa palavra?). Mas também sabem que não podem imprimir dinheiro demais, caso contrário o dinheiro que eles acabaram de imprimir passa automaticamente a não valer nada.

    Daí a importância da política de "metas de inflação" que os esquerdistas-like amam. Nada mais é de achar o ponto ótimo entre "inflação que as pessoas podem suportar" e "inflação que vai destruir por completo a moeda". Ou seja, achar a quantidade máxima de dinheiro que se pode imprimir sem "destruir" a economia (Não se esqueça que na visão deles um "pouquinho" de inflação faz bem para o crescimento).

    E o comentário anterior também resumiu em parte: A conta vem só no futuro. Mas isso não tem parecido tão relevante para um partido que tem planos de se perpetuar no poder...
  • Pedro  03/06/2013 15:56
    A primeira ilustração do artigo está ótima!
  • Andre Cavalcante  03/06/2013 20:01
    Gostei demais da imagem...

    Isso é que é tsunami monetário, hehehe ;-)

  • Arthur Gomes  03/06/2013 20:11
    A história do Japão é muito interessante, nos anos de 1840 navios americanos obrigaram o governo deste país a se abrir para o mundo(o Japão era um país fechado), com isso o Japão adotou politicas de crescimento e aceitação de politicas industriais(veja o filme o último samurai), mas não perdeu a sua cultura e seu modo de vida, povo conservador, e firme com suas crenças e convicções morais e familiares.
    Menos de 90 anos depois de acontecimento os netos daqueles pescadores estavam bombardeando a base naval de Pearl Harbor. O Japão arrasado pelo guerra se ergueu com ajuda americana e o modo de produção americana e tudo mais.
    Agora os japoneses estão copiando o modo de crescimento dos países ocidentais erroneamente, aumento do dinheiro em circulação, inflação e tudo mais.
    O Japão não consegue aprender que foi um erro econômico que levou o país para as mãos de grupos radicais/militares fazendo o país a se transformar em uma potência militar e fazer guerra contra os EUA, Inglaterra, França, Holanda, Austrália, China.
    O consumo vai disparar já começaram a comprar carne suína do Brasil e vão aumentar as compras de alimentos(carne, frutas e muito mais). Pobre povo japonês, a festa vai durar 6 a 8 meses depois vem a depressão, a perda da poupança, a perda de investimentos.
    Isso é socialismo puro na economia. Prepare-se Japão, a história espera, ainda bem que no Brasil ainda temos muita terra esperando os futuros imigrantes japoneses para plantar.
  • Carlos Marques  03/06/2013 22:54
    Arthur, aqui no Brasil temos o BOLSA FAMILIA, quer mais socialismo do que isso? O consumo no Brasil já disparou e se esgotou faz tempo, o país não consegue mais crescer via aumento de consumo. Os japoneses não emigram mais para cá porque nos últimos 60 anos investiu muito em educação, qualificando sua mão de obra que não mais está apta para a agricultura de subsistência.
  • anônimo  03/06/2013 23:19
    O povo japonês sempre foi muito orgulhoso, ter perdido a guerra talvez seja um impacto que eles nunca consigam se recuperar.Um país com a tradição dos guerreiros samurais hoje não pode nem ter exército! Imaginem a desgraça que isso é pra auto estima de um povo assim.
  • Felix  04/06/2013 02:31
    Isso que o Japão tá fazendo não vai aparecer em meses
    vai demorar vários anos até que destruam a economia
    os EUA já tão fazendo isso há um bom tempo, e de 2008 pra cá de forma acelerada, e os efeitos ainda não apareceram da maneira esperada pelos misesianos.
    A conta chega, mas não tão rápido assim
  • Arthur Gomes  04/06/2013 13:21
    Felix, a conta já está chegando aos EUA, veja quantas pessoas dependem da bondade do governo federal, quantas pessoas precisam do subsidio do governo para comer, beber, morar, saúde e tudo mais. O que acontece é que um país rico como os EUA, ainda tem muita lenha/dinheiro para jogar fora, ainda possuem uma grande reserva de saber tecnológico, eles conseguem fazer suas empresas ter a ponta nas pesquisas e inovações, em muitas áreas.
    Lembre-se os EUA é o país que os socialistas querem quebras de qualquer maneira, a revolução dos combustíveis está nos EUA, as enormes reservas de petróleo, gás natural e outros recursos ainda é o grande trunfo dos americanos e o Brasil com essa reserva de pré-sal nas mãos do governo federal não servirá para nada.
    País rico se torna socialista com o passar do tempo se não ficar vigilante, veja o caso do Suécia, veja o Brasil se enriqueceu e agora temos politicas socialistas, bolsa família, cota, politicas de afirmação e agora as invasões dos índios, tudo isso com o compromisso social do governo.
    A conta para pagar tudo isso depende do tamanho da riqueza do país, veja o caso da Argentina.
  • Mauricio  04/06/2013 04:43
    Qualquer semelhança cm o Brasil de Lula-Dilma não é mera coincidência. Afinal, pra que pensar no médio e longo prazo se o horizonte da eleição é de 4anos?

    PS: dois erros de digitação acima: exortações e estrangeir.
  • Arthur Gomes  04/06/2013 11:17
    O Japão vai se aguentar por um bom tempo, devido a riqueza do país, distribuir riqueza isso que é socialismo. Todos os países que se tomaram o rumo do socialismo fizeram isso, eles se enriquecem e depois começam a distribuir a riqueza depois vão para o buraco ou ficam naquela zona cinzenta, ora ricos ora pobres, gerações ricas e gerações pobres, o melhor exemplo é Argentina, um país rico até os anos de 1950 e com politicas socialistas e populistas hoje estão cada vez mais pobres e vivendo sob o governo socialista.

    O Japão vai entrar de cabeça nesta economia de aumentar o meio circulante, depois virá a inflação, com isso o aumento dos pobres, depois programas para ajudar os pobres, depois aumento de impostos, depois a diminuição da riqueza, isso tudo mergulhado a protestos, com um país pequeno sem grandes recursos naturais o Japão vai se dar mal.

    Temos que observar até que ponto os japoneses irão nas suas politicas keynesianas, essa loucura não tem fim, porque sempre procura-se produzir leis e decretos para corrigir as distorções causadas por leis e decretos anteriores é algo sem fim. O retorno é muito doloroso e os políticos não estão propensos a pagar a fatura com a perda de poder e liderança.

    O Japão é notório de copiar as idéias do Ocidente, espero que neste caso eles tenham bom senso.
  • Hiky  04/06/2013 15:20
    "Um segundo efeito é a redução no investimento estrangeiro na sua economia — afinal, ao repatriarem seus lucros, as multinacionais convertem moeda nacional em moeda estrangeira. Se a tendência é de depreciação cambial, então qualquer investimento feito será mais arriscado, pois a conversão de moeda nacional em moeda estrangeira será cada vez mais cara".

    Comento:
    No caso do Japão a situação é exatamente inversa, o país não depende tanto assim de investimentos externos para gerar empregos no mercado interno, pois as maiores empresas do país são empresas nacionais.
    Ademais, a maior parte das empresas japonesas depende fortemente dos resultados de seus investimentos externos, particularmente nos EUA, vide o exemplo da Toyota e Honda, cujo faturamento nos EUA é maior que no Japão, logo a desvalorização do iene faz o valor das remessas feitas pelas suas subsidiarias instaladas nos EUA para as suas matrizes em Tóquio aumentarem (quando é feita a conversão de dolares para ienes, a quantidade em ienes sobe, o que melhora as demonstrações financeiras das empresas).
    Outro ponto positivo para o Japão foi o aumento de turistas estrangeiros, um artigo publicado no jornal econômico japonês Nikkei informa que no último mês de abril chegou a um recorde de 923 mil pessoas, com um crescimento de 18,1% sobre o dado do ano anterior. O jornal informa que a desvalorização do iene também contribuiu para tanto. O dado superou os 879 mil de julho de 2010, segundo a Organização Nacional do Turismo do Japão.

    "O terceiro efeito é que, se os bens que você exporta são produzidos com vários insumos (bens de capital como máquinas e ferramentas) importados, o efeito será um aumento nos seus custos de produção. Sendo assim, os exportadores terão de pagar mais caro pelos insumos que importam e que utilizam para fabricar os produtos que pretendem vender aos estrangeiros".

    Comento:
    O Japão é um grande exportador de bens de capitais como máquinas e ferramentas, logo, a desvalorização não afeta a aquisição desses bens para as empresas japonesas.

    "Uma inflação monetária mais alta irá reduzir as taxas de juros. Um resultado desta política será um maior volume de gastos voltados para o consumo. Com juros menores, os consumidores pouparão menos e gastarão mais."

    Comento:
    No Japão a taxa de juros nos últimos anos, antes da desvalorização cambial, variava entre 0 a 0,1%, ou seja, quase ZERO. Mesmo assim a poupança é alta, lá existe o fenômeno da deflação !

    Logo, como o autor do texto, David Howden, pode falar no problema de redução da taxa de juros se no Japão a taxa já está reduzido ?

    Na verdade, a ideia é exatamente provocar uma inflação monetária pra estancar a deflação e tentar aumentar a taxa de juros, e não o contrário !
    O grande problema do Japão é o fenômeno da deflação, lá o consumidor adia o consumo ao máximo esperando que os preços diminuam ainda mais, o que afeta os lucros das empresas e consequentemente os salários de seus funcionários (bônus sobre o lucro que os empregados recebem semestralmente das grandes empresas), o que diminui o poder aquisitivo e consequentemente a demanda.

    OBS:
    Christina Romer, professora de economia na Universidade de Califórnia, Berkeley, fez um pronunciamento na recente reunião da NBER – National Bureau of Economic Research, na conferência anual de Macroeconomia, em 12 de abril último. Falou sobre o paralelo que ela vê entre a política japonesa que ficou conhecida como Abeconomics, implementada pelo primeiro-ministro Shinzo Abe do Japão, com a adotada pelo presidente Roosevelt quando assumiu em 1933 o comando dos Estados Unidos com a missão de superar a Grande Depressão que tinha se iniciado em 1929.
    O paper da professora Christina Romer leva o nome "It takes a regime shift: recent developments in Japanese monetary policy throught the lens of the Great Depression", onde ela faz um apanhado histórico do que aconteceu com o governo Roosevelt a partir de 1933. Ela afirma, resumidamente, que houve uma determinação para a mudança do regime monetário, provocando uma inflação, expansão monetária e desvalorização do dólar. O mesmo estaria ocorrendo no Japão atual, com a política do primeiro-ministro Shinzo Abe.
    Ela faz um amplo apanhado da discussão, inclusive sobre a política do FED – Sistema Federal de Reservas, o banco central dos Estados Unidos, depois da crise de 2008, constatando que não houve uma determinação que está observando agora no Japão.
    Teria ocorrido uma verdadeira mudança do regime monetário, passando da tendência deflacionária para a inflacionária, com significativa expansão monetária que provocou também a forte desvalorização do yen, tornando a economia japonesa competitiva com relação ao resto do mundo. A política vem recebendo o apoio do Grupo dos Sete, que reconhece a necessidade de recuperação da economia japonesa, que ficou sacrificada por um câmbio valorizado desde o Acordo de Plaza.

    Enfim, espero que fundamente os contra-argumentos, criticar por criticar não leva a lugar nenhum.
  • Leandro  04/06/2013 15:41
    Prezado Hiky, sobre investimentos estrangeiros, o artigo não fala ser este o caso do Japão. Logo, sua observação é inócua. O mesmo é válido sobre a melhora do Turismo. Trata-se de um típico exemplo de setor privilegiado à custa da piora dos demais.

    Sobre bens de capital, você diz que o Japão exporta bens de capital. Isso ninguém discute. Mas o artigo diz que a "produção nacional de insumos utilizados pelas indústrias de exportação é muito pequena." É isso que você não abordou.

    Sobre inflação e juros, você obviamente não é obrigado a saber disso, mas a questão é que o Japão, desde o início da década de 1990, viveu um exemplo atípico (aliás, único) em todo o mundo: como o setor bancário do país foi praticamente aniquilado com o estouro das bolhas imobiliária e de ações no final da década de 1990, seus balancetes ficaram contaminados. Seus ativos despencaram.

    Por uma questão contábil, bancos cujos ativos foram desvalorizados não fazem empréstimos; eles não expandem o crédito. Bancos com balancetes contaminados são zumbis. A Europa está assim desde 2009. Os juros são baixos porque o governo entupiu os bancos de dinheiro -- o que reduz os juros do mercado interbancário --, mas os bancos não emprestam porque seus ativos foram depreciados em decorrência do estouro da bolha. Por uma questão contábil, ativos depreciados exigem que o passivo seja reduzido. E bancos reduzem seu passivo diminuindo os depósitos bancários (contas-correntes, poupança e depósitos a prazo). E isso é deflacionário. Daí a deflação de preços vivenciada pelo Japão.

    Artigos recomendados:

    Explicando a recessão europeia (Para entender a questão de como os balancetes dos bancos afetam a expansão monetária)

    Por que não houve inflação de preços no Japão?

    Notícias deflacionárias (e interessantíssimas) sobre o Japão
  • Hiky  06/06/2013 00:15
    Prezado Leandro,

    Prosseguindo o debate, gostaria de fazer algumas ressalvas sobre seus comentários.
    Você disse: "sobre investimentos estrangeiros, o artigo não fala ser este o caso do Japão."

    >Comento:
    O artigo cita o Japão e depois diz em outro parágrafo sobre a possibilidade de redução de investimentos estrangeiros. Oras é subentendido que o autor está se referindo também a investimentos estrangeiros no Japão.

    Você disse:"O mesmo é válido sobre a melhora do Turismo. Trata-se de um típico exemplo de setor privilegiado à custa da piora dos demais".

    >Comento:
    O Japão importa praticamente tudo, com exceção do arroz e alguns bens industriais, logo a desvalorização cambial prejudica todos os setores, inclusive o turismo que depende também de petróleo importado, alimentos importados etc. Portanto, se mesmo assim o turismo está sendo beneficiado, é porque mesmo com a desvalorização cambial os preços praticados no país continuam competitivos em relação ao exterior.
    Alguém poderia dizer: "Ah, mas o consumidor japonês será prejudicado com a inflação..."
    Na minha humilde opinião, olhando o histórico dos preços nos últimos 20 anos no Japão, acho que os riscos são baixos. Ademais, o governo japonês prevê ou tem como meta uma inflação de 2% a.a., e sinceramente, não acho que esse índice seja catastrófico.

    Você disse: "Mas o artigo diz que a "produção nacional de insumos utilizados pelas indústrias de exportação é muito pequena." É isso que você não abordou".

    >Comento:
    Não abordei porque não acho que isso seja determinante pra afetar as exportações japonesa ( pelo menos na indústria eletrônica e automobilística), que são as principais daquele país.

    Você disse: "Sobre inflação e juros, você obviamente não é obrigado a saber disso, mas a questão é que o Japão, desde o início da década de 1990, viveu um exemplo atípico (aliás, único) em todo o mundo: como o setor bancário do país foi praticamente aniquilado com o estouro das bolhas imobiliária e de ações no final da década de 1990, seus balancetes ficaram contaminados. Seus ativos despencaram.
    Por uma questão contábil, bancos cujos ativos foram desvalorizados não fazem empréstimos; eles não expandem o crédito. Bancos com balancetes contaminados são zumbis. A Europa está assim desde 2009. Os juros são baixos porque o governo entupiu os bancos de dinheiro -- o que reduz os juros do mercado interbancário --, mas os bancos não emprestam porque seus ativos foram depreciados em decorrência do estouro da bolha. Por uma questão contábil, ativos depreciados exigem que o passivo seja reduzido. E bancos reduzem seu passivo diminuindo os depósitos bancários (contas-correntes, poupança e depósitos a prazo). E isso é deflacionário. Daí a deflação de preços vivenciada pelo Japão."

    >Comento:
    Num ótimo texto publicado neste site em 26 de julho de 2010, sobre a inflação no Japão, no final do artigo o autor do texto diz:
    "Não há nenhuma "armadilha da liquidez" no Japão. Tampouco houve falta de estímulos fiscais. Também não houve problema de estímulos monetários, dado que a taxa de juros sempre foi baixa. O que vem ocorrendo no Japão é um exemplo prático de duas teorias em conflito: keynesianismo na política fiscal e chicaguismo na política monetária."
    Neste ponto, concordo com o autor.
    O que vem emperrando a economia nipônica é este conflito, agora, qual política é ruim, se é a fiscal ou monetária?
    Difícil saber, tem muitos economistas importantes que defendem o keynesianismo, assim como outros que defendem o chicaguismo, logo, o debate é complexo, fica pra próxima oportunidade debater este assunto.
    Abraços.








  • Leandro  06/06/2013 00:39
    Prezado Hiky,

    1) Quando o artigo fala de investimentos estrangeiros, ele se refere à teoria como um todo. O artigo diz que:

    "Um segundo efeito [da desvalorização cambial] é a redução no investimento estrangeiro na sua economia -- afinal, ao repatriarem seus lucros, as multinacionais convertem moeda nacional em moeda estrangeira. Se a tendência é de depreciação cambial, então qualquer investimento feito será mais arriscado, pois a conversão de moeda nacional em moeda estrangeira será cada vez mais cara."

    Só isso. Agora, uma teoria como um todo não necessariamente irá englobar absolutamente todos os aspectos de absolutamente todas as economias do mundo. Se, como você disse, o investimento estrangeiro nunca foi o forte do Japão, então a desvalorização cambial será inócua neste quesito específico. Nada de errado com a teoria.

    2) Você diz que "o Japão importa praticamente tudo, com exceção do arroz e alguns bens industriais, logo a desvalorização cambial prejudica todos os setores, inclusive o turismo que depende também de petróleo importado, alimentos importados etc.".

    Bom, aí você acabou de corroborar tudo que o artigo falou. Nada a acrescentar. Quanto ao turismo, não entendi por que você se apegou a ele. Ora, se o câmbio do país deprecia, fica mais barato para os estrangeiros visitarem aquele país. Logo, é normal que o turismo tenha aumentado no Japão. Não há nada de estranho nisso; tudo rigorosamente dentro da teoria.

    Agora, se os outros setores sensíveis ao câmbio e que dependem de importação melhorarem, aí sim a prática terá subvertido a teoria.

    3) Sobre a alta taxa de importação de insumos utilizados pelas indústrias japonesas, você disse que "não acho que isso seja determinante pra afetar as exportações japonesa (pelo menos na indústria eletrônica e automobilística), que são as principais daquele país."

    Beleza, mas tal achismo é apenas isso: um achismo. É necessário apresentar uma teoria que justifique isso.

    Quanto ao resto, tudo beleza. Grande abraço!
  • Jefferson  04/06/2013 15:33
    No Japão a taxa de juros é quase zero e com deflação nos preços !
    Logo, a desvalorização cambial não tem como diminuir mais ainda os juro, pelo contrário, vai gerar mais inflação e consequentemente um aumento de juros, o que é bom para o Japão.
    O único perigo para o país, na minha humilde opinião, é exatamente o aumento dos juros, pois a dívida japonesa é altíssima, mas de 200% do PIB.
    Se não houver crescimento econômico, a conta não fechará.



  • Leandro  04/06/2013 15:46
    Jefferson, tenha a bondade de ler minha resposta acima ao Hiky.

    Adendo: no Japão, os juros eram próximos de zero no mercado interbancário. Os juros para empréstimos prime a pessoas jurídica eram de 2%. Para pessoas físicas e para empresas comuns certamente eram bem maiores. Não caiam nessa história de que no Japão os juros eram zero.

    www.tradingeconomics.com/charts/japan-bank-lending-rate.png?s=japanbanlenrat&d1=19790101&d2=20130630
  • IRCR  04/06/2013 23:28
    Leandro

    Essa questão dos ativos toxicos que levam a deflação de preços no Japão e na Europa, mas no caso japones há uma leve inflação monetaria com uma leve deflação de preços que na europa é exatamente o contrario.
    Como que esses ativos toxicos levam a efeitos contrarios no japao e europa ?



    Outra coisa é que não acredito que as pessoas vão para de consumir com uma deflação media de preço de 0,2%aa. Seria a mesma coisa de dizer q as pessoas vai acabar com suas poupanças e correr para o supermercado com uma inflação de 0,2aa.
  • Leandro  04/06/2013 23:39
    "Essa questão dos ativos toxicos que levam a deflação de preços no Japão e na Europa,"

    Só uma correção: ativos tóxicos reduzem a expansão creditícia dos bancos, e consequentemente reduzem a expansão da oferta monetária. Apenas isso. Se haverá uma expansão pequena ou mesmo uma retração da oferta monetária, isso é um detalhe. Mas não é de modo correto dizer que "ativos tóxicos levam a uma deflação de preços". E em momento algum afirmei isso.

    "mas no caso japones há uma leve inflação monetaria com uma leve deflação de preços que na europa é exatamente o contrario. Como que esses ativos toxicos levam a efeitos contrarios no japao e europa?"

    Tanto no Japão quanto na zona do euro há uma ligeira inflação monetária. A deflação monetária ocorreu apenas na Grécia, na Irlanda, na Espanha e em Portugal. E o motivo foi explicado no artigo linkado acima sobre a recessão europeia: além das quebras bancárias, vários residentes destes países mandaram seus euros para outros países, majoritariamente a Alemanha.

    Quanto à deflação de preços no Japão, também foi explicado nos dois artigos linkados: alta produtividade em conjunto com crescimento moderado da oferta monetária gera queda de preços.
  • Hugo  19/06/2014 04:54
    Olá Leandro!

    Fiquei com uma dúvida sobre a dinâmica do câmbio:

    Quando um estrangeiro decide,por exemplo,importar um produto brasileiro,sendo assim precisa trocar seus dólares por Reais. Ele deve fazer essa troca no BACEN ou pode ser em qualquer banco comercial? E em um artigo você comentou com algum leitor que a entrada maciça de dólares no BR depois de 2003 foi um fator importante que permitiu a queda da SELIC de 26% para 7,25%. Como funcionou esse processo?


Envie-nos seu comentário inteligente e educado:
Nome
Email
Comentário
Comentários serão exibidos após aprovação do moderador.