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A inflação infinita não é o bastante

Já que ninguém parece se importar com o fato de que o Titanic está se enchendo de água, por que não abrir outro buraco no casco?  Este parece ser o modus operandi do Federal Reserve sob o comando de Ben Bernanke.  Após o anúncio do QE3 (também rotulado de "QE infinito") ter criado mais uma rodada de tagarelice na mídia a respeito de uma "inevitável" recuperação econômica, o Comitê de Política Monetária do Fed decidiu levar o conceito de infinidade um pouco mais além.  A última medida envolve a rolagem dos títulos de longo prazo comprados pelo Fed durante a Operação Twist, desta maneira mais do que duplicando o valor original do QE3 (US$40 bilhões mensais) para um influxo mensal de US$85 bilhões, dinheiro esse que será criado do nada a partir de dezembro.  Eu rotulo essa operação de "QE3 Mais" — agora com mais inflação!

Inflação por qualquer outro nome

Caso você já tenha perdido as contas de todos os diferentes estratagemas criados pelo Fed com o intuito de distorcer a economia, aqui vai uma recapitulação da Operation Twist: o Fed vende títulos do Tesouro com vencimento de três anos ou menos e utiliza esse dinheiro arrecadado para comprar títulos de prazo mais longo.  Ao comprar títulos de longo prazo, ele atua para reduzir os juros desses títulos.  Esse "twist" [torção] de seu portfólio tem o intuito de fazer com que a economia americana pareça estar mais forte e que a inflação de preços pareça estar menor do que realmente está.

O Fed alega que a Operation Twist é neutra em termos de inflação monetária porque o seu balancete permanece constante, isto é, ele não comprou mais ativos (apenas trocou títulos de menor maturação por títulos de maior maturação) e não aumentou seus passivos (não emitiu moeda para comprar esses títulos).  No entanto, tal processo continua enviando sinais distorcidos para os agentes de mercado, que podem agora tomar emprestado a juros mais baixos para financiar projetos de prazo mais longo pelos quais não há demanda legítima.  Eu já havia dito ano passado quando a Operation Twist foi anunciada e continuarei dizendo: taxas de juros baixas são parte do problema, e não a solução.

Intervenções nunca são neutras

Assim como o Fed utilizou seu poder de manipular os juros para fazer com que as empresas pontocom e depois o setor imobiliário parecessem investimentos de longo prazo viáveis, ele está hoje utilizando o QE3 Mais para ocultar o precipício fiscal com o qual o governo americano irá se defrontar no futuro próximo. 

À medida que o Fed expande o prazo médio de vencimento dos títulos em seu portfólio, ele vai se prendendo cada vez mais à inflação monetária que ele próprio criou na esteira da crise do crédito de 2008, tornando cada vez mais difícil retroceder e retirar toda essa liquidez da economia.  Naquela época, prometeu-se que o Fed iria "desfazer" toda essa injeção monetária quando chegasse a época certa.  Mas como ele fará isso agora?  Títulos de vencimento mais longo reduzem a qualidade e a liquidez do balancete do Fed, fazendo com que o prometido "pouso suave" seja muito mais difícil de ser alcançado.

O Fed não pode continuar imprimindo de maneira indefinida sem que os preços ao consumidor disparem.  De várias formas, isso já começou a ocorrer nos EUA.  É só olhar para o preço da gasolina ou para o preço de um hambúrguer.  Se o Fed ainda tem a esperança de manter estes preços sob controle, inevitavelmente chegará o dia em que ele terá de vender seu portfólio de títulos de longo prazo.  Ao passo que títulos de curto prazo podem ser facilmente vendidos, títulos de longo prazo terão de ser vendidos a preços extremamente baixos, o que significa juros bastante altos, gerando efeitos devastadores sobre a curva de juros.  Não será sequer possível escolher entre taxas de juros um pouco menores hoje em troca de taxas de juros um pouco maiores no futuro.

A questão é que Bernanke & Cia. se recusam a confessar que os EUA estão fundamentalmente insolventes.  Tal recusa é um incentivo extremamente forte para se continuar suprimindo as taxas de juros até que uma mega crise os obrigue a isso. 

Adicionalmente, quando os juros finalmente voltarem a subir — tal subida sendo ainda mais forte por causa das vendas de títulos que terão de ser feitas pelo Fed —, o Fed terá enormes prejuízos em seu portfólio, pois os títulos em sua posse agora valerão menos.  O que isso acarretará?  Graças a uma nova lei federal, prejuízos incorridos pelo Fed agora são um passivo que deve ser coberto diretamente pelo Tesouro americano, isto é, pelos pagadores de impostos dos EUA.

É claro que o Fed se recusa a aceitar esta realidade.  Mesmo que uma dolorosa correção seja necessária, nenhum indivíduo quer que isso realmente aconteça quando ele está no comando das coisas.  Sendo assim, Bernanke irá se limitar a continuar proferindo suas falas bem ensaiadas: o dinheiro continuará fluindo até que haja uma "melhora substantiva" no desemprego.

Bernanke realmente acredita nisso?

Até mesmo Bernanke deve saber que não haverá uma "melhora substantiva" no curto prazo.  Eu havia dito, ainda antes do anúncio do QE3, que uma nova rodada de estímulos seria a única maneira de Bernanke assegurar seu emprego.  Porém, recentes especulações garantem que ele realmente irá sair de seu cargo assim que seu mandato terminar em janeiro de 2014.  Talvez ele seja mais esperto do que imaginei.  Ele deixará um tijolo no acelerador de uma economia que se direciona velozmente para um precipício fiscal, e pulará assim que ela estiver próxima da beira do penhasco.  Quem quer que assuma o assento, terá de juntar os cacos e arcar com a culpa pela crise que Bernanke e seu antecessor inflamaram.



autor

Peter Schiff

é o presidente da Euro Pacific Capital e autor dos livros The Little Book of Bull Moves in Bear Markets, Crash Proof: How to Profit from the Coming Economic Collapse e How an Economy Grows and Why It Crashes.  Ficou famoso por ter previsto com grande acurácia o atual cataclisma econômico.  Veja o vídeo.  Veja também sua palestra definitiva sobre a crise americana -- com legendas em português.



  • Leandro Torricelli  10/11/2012 08:57
    Estou lendo o livro "The Real Crash" do Peter Schiff e às vezes fico impressionado com as semelhanças acá, em como nós aqui em terras tupiniquins estamos copiando muito do mau exemplo praticado lá e o futuro que nos aguarda após as explosões das gigantes bolhas, má alocações de capital e toda a distorção de preços atualmente.
    Tenho uma microempresa e quase semanalmente recebo malas-diretas do BB e CEF me intimando a comparecer na agência mais próxima (não sou correntista) e ir pegar meu crédito subsidiado (0,64% am). Ao meu redor vejo uma verdadeira orgia creditícia e várias pessoas vivendo acima de suas condições com um dinheiro que não é seu e provavelmente não pagará depois.
    Caro Leandro, se não fosse pedir muito, seria muito informativo não só a mim como aos outros leitores do site um novo ensaio sobre nossa economia (caso você considere que houve mudanças significativas desde sua última análise!).
    Obrigado pelas elucidações num mar de desinformações do mainstream!
  • amauri  10/11/2012 08:58
    Boa tarde!
    "A questão é que Bernanke & Cia. se recusam a confessar que os EUA estão fundamentalmente insolventes"
    O que deve ser feito? É a formula que Obama disse logo após ser reeleito?
    "Nós não podemos nos desviar do nosso caminho para a prosperidade. Nós precisamos harmonizar cortes de gastos com mais arrecadação. Isso significa pedir aos americanos mais ricos que paguem um pouco mais de impostos".
    abs
  • Pedro Ivo  10/11/2012 22:00
    "Isso significa pedir aos americanos mais ricos que paguem um pouco mais de impostos" - O parlamento é majoritariamente republicano: não passa aumento de impostos. Minha aposta são mais 4 anos de presidência imobilizada no parlamento (só restará a ele agir naquilo que for privativo de seu cargo, mas não conheço a lei de lá, então não sei o que seria).
  • Adão  10/11/2012 08:59
    Leandro;

    O que mais deixa a gente confuso é que todos os comentaristas de economia já falam em recuperação dos EUA. O que acabamos de ver é um verdadeiro perigo, e o Brasil como fica
    com essas politicas cada vez mais de intervenção na economia. As chamadas politicas de companheiro e criação de mais ministérios. Essa reeleição do Obama já é um desastre pronto? ou dá para ter esperança?

  • Rodrigo  10/11/2012 09:15
    Então a bomba pode explodir no colo do messias Obama? Bem, ele é messias, algum milagre vai fazer. E isso vai ser noticiado pela Folha, pelo Jornal Nacional, e comemorado pelo Jabor.
  • EDSON  10/11/2012 12:05
    o que vai acontecer é um estouro geral na economia e, quando agente acordar na 2ª pela manhã os mercados estarão loucos e caóticos, muitos perderão tudo, e poucos conseguirão se reerguer do nada.
  • Leonardo  10/11/2012 15:29
    Adicionalmente, quando os juros finalmente voltarem a subir — tal subida sendo ainda mais forte por causa das vendas de títulos que terão de ser feitas pelo Fed

    Ele quis dizer quando o Fed voltar a subir o juro por causa da inflação?
  • Leandro  12/11/2012 01:32
    Nem precisa ser o Fed. Caso a inflação de preços comece a incomodar, os próprios bancos aumentarão os juros de seus empréstimos com o intuito de não perderem poder de compra -- se você emprestar $100 e cobrar $105, mas a inflação houver sido de 6%, você simplesmente perdeu dinheiro.
  • Leonardo  10/11/2012 15:43
    Ao passo que títulos de curto prazo podem ser facilmente vendidos, títulos de longo prazo terão de ser vendidos a preços extremamente baixos, o que significa juros bastante altos, gerando efeitos devastadores sobre a curva de juros. Não será sequer possível escolher entre taxas de juros um pouco menores hoje em troca de taxas de juros um pouco maiores no futuro.

    Juro de longo prazo alto nos títulos do tesouro americano significa que as empresas vão ter que paga caro para captar recursos de prazo longo, porque elas competirão com o tesouro? Isso quer dizer também que governos de países emergentes vão pagar mais por títulos de longo prazo?
  • Leandro  12/11/2012 01:32
    Correto.
  • Randalf  10/11/2012 17:01
    Será que alguém me poderia explicar o que é alavancagem e como funciona. É porquê não consigo entender como se pode impedir os bancos de expandirem a oferta de moeda sem que um Banco Central o restrinja.

    Obrigado
  • Leandro  12/11/2012 01:47
    Randalf, pelo contrário. Os bancos só podem expandir o crédito e se alavancar contínua e infinitamente se houver um Banco Central sempre disposto a imprimir dinheiro e com isso socorrer os bancos alavancados. É justamente o Banco Central quem permite a alavancagem maciça dos bancos.

    Sim, é verdade que sem um Banco Central os bancos também poderiam se alavancar, porém tal prática seria severamente limitada pela crescente risco de uma corrida bancária. Se os correntistas desconfiarem da solidez de um banco e correrem para sacar seus depósitos, tal banco tornar-se-á imediatamente insolvente (não há um Banco Central para imprimir dinheiro para lhe socorrer) e falirá. Portanto, embora a ausência de um Banco Central não seja garantia de ausência de alavancagem, tal alavancagem teria de ser naturalmente menor.

    Tenha a bondade de ler este artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1387
  • bernardo  11/11/2012 12:07
    Eu nao entendo direito essa distinção de taxa de juros para prazos longos e curtos, o fato do fed comprar os titulos de prazo longo, faz com que os juros desses titulos sejam menores no mercado, eu entendo que os juros interbancarios vao se tornar menores por causa disso, mas de fato existe um juros interbancario para longo e um outro para curto prazo? No nosso caso a selic é o que, para curto prazo? Ou quando a selic eh alterada ela altera todos os juros, de curto e longo prazo?
  • Leandro  12/11/2012 01:47
    Os juros interbancários não irão necessariamente se tornar menores por causa disso. A taxa de juros interbancária -- que é exatamente a taxa básica de juros, a nossa SELIC -- é formada pela taxa que os bancos cobram entre si no mercado interbancário; é a taxa que o banco A cobra para emprestar dinheiro ao banco B no final do dia, quando as reservas do banco B ficam abaixo daquele nível mínimo determinado pelo Banco Central (o chamado compulsório).

    Atualmente, nos EUA, tal taxa está próxima de zero porque o Fed criou muito dinheiro e esse dinheiro ficou represado no sistema bancário, criando reservas em excesso (reservas em um nível muito acima daquele exigido como compulsório pelo Fed). E exatamente por causa das reservas em excesso, os bancos americanos não têm a menor necessidade de recorrer ao mercado interbancário para recompor suas reservas, simplesmente porque o sistema bancário americano está nesse momento com US$1,3 trilhão de reservas em excesso, em decorrência justamente das impressões monetárias feitas pelo Fed.

    E dado que a taxa básica de juros é o juro que um banco cobra do outro no interbancário, resta claro que não tem como essa taxa ser alterada pelo Fed no presente momento, simplesmente porque os bancos não estão com a menor necessidade de buscar empréstimos no interbancário.

    Sendo assim, o Fed pode declarar a meta de juros que quiser, pois isso não terá efeito prático nenhum sobre o mercado. Se os bancos não estão precisando de empréstimos entre si, a taxa em vigor no mercado interbancário é completamente inócua.

    A única maneira que eu vejo de a SELIC americana subir é se os bancos começarem a emprestar todo esse dinheiro que está represado e isso gerar inflação de preços. Aí, pelos motivos que expliquei acima para o Leonardo, os juros subiriam.

    No mais, como dito, nossa SELIC (que é a taxa interbancária) é de curto, mas afeta todos os outros juros da economia.
  • Leonardo  12/11/2012 05:41
    Por que os bancos estão deixando todo esse dinheiro parado, porque não emprestam?
  • anônimo  12/11/2012 05:47
    Porque estão temerosos, porque não vêem grandes perspectivas para a economia americana e, principalmente, porque o Fed está excepcionalmente pagando juros sobre estas reservas em excesso, justamente para impedir que elas vazem para a economia e provoquem esta cachoeira hiperinflacionária. Trata-se de uma mamata para os bancos: eles deixam o dinheiro parado no Fed e recebem um retorno 100% garantido. Tendo um retorno certo, por que se arriscariam a emprestar nesta economia horrível?
  • Leonardo  12/11/2012 05:50
    Se a inflação começar a subir muito nos EUA, o Fed vai ter que retirar o excesso de reservas dos bancos, certo? E pra isso ele terá que trocar títulos públicos por reservas. Mas o Fed tem volume suficiente de títulos pra fazer isso?
  • bernardo  12/11/2012 08:03
    Leandro, ok, mas entao porque ao diminuir os juros dos titulos de longo prazo, os juros que os bancos vao emprestar tambem vão diminuir? Qual a ligação que existe ai?
  • Leandro  12/11/2012 08:12
    Não há essa relação direta e nem nunca foi dito que havia. No máximo, o que pode acontecer é que o fato de as taxas de longo prazo estarem baixas indica uma não propensão a uma inflação de preços mais alta no futuro, o que por si só tende a reduzir as taxas de juros dos empréstimos atuais.
  • amauri  12/11/2012 02:22
    Bom dia Leandro!
    Discutindo com conhecidos petistas sobre o crescimento do Brasil, eu disse o que fez o PT com a politica economica herdada do PSDB? Nao fez absolutamente nada, eu mesmo respondi. A retorica agora é esta:
    "A política econômica não mudou e não tem como mudar, pois, com o desmanche do parque industrial do nos anos 90, não podemos desagradar os investidores que ainda mantém industrias funcionando e gerando empregos no território nacional.
    Não podemos contrariar os investidores que estão de posse de nossa infra-estrutura, pois eles podem parar o País (é o dedo lá que lhe digo).
    O que mudou foi a maneira de escolher o que, quando e como fazer."
    É assim mesmo?
    abs
  • Mercado de Milhas  12/11/2012 09:12
    Creio que o que vai se tornar comum daqui pra frente são as taxas de juros nominalmente negativas.

    Isto é, emprestar 1000 dólares e receber 950 daqui um ano, por exemplo.

    Você: Mas porque alguém faria isso ?
    Resposta: Pra não deixar o dinheiro debaixo do colchão...

    Acha que é viagem ? Pois parece que já está acontecendo..

    Abs!
  • Blah  12/11/2012 09:37
    Se você parar para pensar, você podem depositar dinheiro no banco e pagar taxas para manter o dinheiro lá, o que não deixa de ter o efeito de juros negativos. Nesse caso, você na verdade está pagando pela segurança. O princípio é o mesmo de fazer seguro do carro ou da casa. Só nesse contexto taxas nominalmente negativas fazem sentido. Não faria nenhum sentido pagar somente para não deixar dinheiro debaixo do colchão.
  • Mercado de Milhas  12/11/2012 10:12
    Pois é.. mas tô achando que o futuro é esse. Você deixará o seu dinheiro no banco, pagará por isso uma taxa (aparentemente uma coisa normal, pela segurança, como você disse) e o seu dinheiro será corroído pela taxa + inflação.

    Andei lendo algumas notícias sobre juros negativos na Alemanha e na Suiça, se não me engano, e não havia me dado conta.. isso vai se tornar padrão. Tá caminhando pra isso.

    É.. Peter Schiff está errado. As taxas de juros não vão subir mais.
    Nunca mais. Selic = 0%. Fim.

    Adeus juros!
  • Leandro  12/11/2012 10:13
    O juro real já está negativo nos EUA. Correntistas recebem 0,25% ao ano em seus depósitos, ao passo que a inflação de preços está acima dos 3% anuais. E isso já está assim há 4 anos.

    Aliás, aqui no Brasil também já estamos caminhando para isso. A poupança rende 0,45% ao mês ao passo que a inflação mensal vem acima de 0,5%. Se o IPCA ficar acima de 5,5% ao ano, o rendimento anual da poupança terá sido menor que a inflação. O sonho dos keynesianos finalmente se materializou: inflação comendo a poupança do trabalhador. O problema é que a tese foi vendida como sendo ótima para a economia...
  • Mercado de Milhas  12/11/2012 11:12
    "inflação comendo a poupança do trabalhador".
    Aí não né Leandro.. rsrsrs.. Tudo bem que vão comer as poupanças de trabalhadores, mas o grosso deve ser de super-ricos.

    Sim, os juros reais já estão negativos, mas estou me referindo aos juros nominais. Ou seja, bota juros reais negativos ae!

    Eu não pensava muito sobre isso, mas estou vendo que é perfeitamente possível existir juros nominais negativos. Porque não seria ?

    Que tem muita grana vai fazer o que !? Nada, simplesmente terá seu dinheiro transferido aos bancos, como um imposto, ou correrá o risco de manter o dinheiro enterrado em casa (quase ninguém fará isso. principalmente quem tem muito).

    O bom é que, nesse caso, há um limite de sacanear o poupador. Dependendo dos juros nominais negativos, será melhor enterrar o dinheiro. Assim, não é interessante ter altos juros negativos. O pequeno poupador conseguirá manter um pequeno cofre. Portanto, o valor máximo de juros negativos não deverá ser muito grande, exceto se existirem muitos super-ricos.

    E, considerando que uma inflação descontrolada não é boa pra ninguém, os freios estão a postos para não detonar mais com os pequenos poupadores ao mesmo tempo em que se mantém uma inflação baixa.

    Esse é o futuro. O que acha Leandro? Não tá parecendo que vamos por esse caminho de juros nominais negativos e inflação baixa?

    Eu achava que o fim do dólar era inevitável.. tô achando agora que o dólar não vai afundar é nunca. O poder do banco central é que vai desaparecer. Aliás, considerando um dos seus comentários acima, o poder deles já chegou ao limite. O keynesianismo acabou. O número de super-ricos também devem diminuir.

    O futuro é glorioso! :-D

  • Leandro  12/11/2012 11:34
    Não entendi seu espanto, Mercado de Milhas. Juro real é, por definição, juro nominal menos inflação. Se os juros sobre a poupança são menores do que a inflação de preços, então você está operando com juros reais negativos.

    Ano passado, 2011, a poupança rendeu 6,815%, ao passo que o IPCA foi de 6,5%. Ou seja, passou raspando. Depois da mudança das regras, este ano o IPCA já se encaminha para superar o rendimento da poupança. Isso é juros real negativo. E ao contrário do que você disse, quem mais será punido são justamente os mais pobres, pois é sobre eles que recaem majoritariamente as novas regras da poupança -- os mais ricos já possuíam um amplo volume depositado até o dia 3 de maio de 2012, época da alteração, e sobre esse volume antigo continuará incidindo a regra antiga, com juros maiores.

    Ou seja, o coitado que começou a poupar depois, ou que tinha uma poupança anterior muito pequena, se estrepou.

    Resumo da situação: se você tirar o dinheiro do banco, ele desvalorizará pelo menos 5,5% ao ano. Se você mantiver o dinheiro no banco, ele desvalorizará o equivalente a (IPCA)-(juros da poupança). Uma maravilha.

  • bernardo  12/11/2012 12:24
    Nao consigo ver juros nominais negativos, isso significaria que as reservas desses bancos seriam tão grandes que o banco A pagaria o banco B, pro banco B receber dinheiro de graça do banco A, ou seja, o banco A nao simplesmente daria dinheiro de graça pro B, ele pagaria pro A aceitar esse dinheiro, é isso Leandro? Eu acho que taxas de juros nominais negativas só acontecem se há deflação de preços.
  • Leandro  12/11/2012 12:30
    Não existem juros nominais negativos. Existem juros reais negativos.
  • Mercado de Milhas  12/11/2012 12:53
    Sim bernardo, estou falando em juros NOMINAIS negativos mesmo. Juros reais negativos já temos, nominais começou. Ou seja, você empresta para receber menos nominalmente e ainda comido pela inflação. Péssimo negócio.

    Claro, entre bancos o limite é zero. Selic = 0%. Fim.

    O que estou dizendo é que vai se tornar comum pessoas comprarem títulos de juros nominais negativos, simplesmente para não manterem seu dinheiro em casa, num cofre, por exemplo.

    Essa barreira psicológica de juros menores que zero está pra cair.
    A era dos juros acabou.

    "Não existem juros nominais negativos. Existem juros reais negativos." - Leandro

    Exite sim. Começou.

    www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/07/120712_juros_baixos_ru.shtml

    Vai virar rotina. Esse é o futuro.


  • bernardo  13/11/2012 12:01
    Caraleo que absurdo, nego ta emprestando pro governo a juros negativos só pra ter onde guardar o dinheiro, é o governo encontrando novas formas de se financiar eternamente, keynes comemora no tumulo.
  • Vitor Hoher Nunes  16/11/2012 10:52
    Alguém poderia dar uma explicada melhor nisso? Não vejo possibilidade de uma taxa de juros nominais negativa se tornar normal no mercado.\r
    \r
    O juros negativo incentivaria o consumo e a inflação. O fluxo monetário ia correr pro mercado de ações. O preço do ouro, prata e commodities ia ir às alturas. Isso tudo ia desincentivar a poupança e o capital da economia ia ser completamente corroído. Geraria um belo ciclo econômico, não?\r
    \r
    Isso só teria como acontecer em um ambiente de expectativa de inflação muito baixa (como proteção) ou deflação (que poderia compensar o juro negativo). Mas os juros nominais negativos iriam inverter essa situação ao longo do tempo gerando inflação e as coisas citadas acima, não?\r
    \r
    Falei besteira? Não consigo imaginar uma taxa nominal negativa sendo adotada como prática comum de mercado, talvez eu não esteja sendo mente aberta, mas não faz o menor sentido pra mim...
  • Leandro  16/11/2012 11:10
    Já disse: "Não existem juros nominais negativos. Existem juros reais negativos."

    Essa reportagem da BBC mostra uma total confusão do repórter. O que está ocorrendo na Dinamarca é que o Banco Central está agora cobrando uma taxa dos bancos que preferem manter seu dinheiro depositado no BC em vez de emprestá-lo. Só isso. O BC está cobrando uma taxa.

    O Fed, por exemplo, paga 0,25% ao ano para os bancos manterem suas reservas em excesso depositadas no Fed -- pois, se retirarem essas reservas e saírem emprestando, a inflação de preços dispararia. Já a Dinamarca optou pelo contrário: quem deixar dinheiro no BC será punido com uma taxa. É isso que eles estão chamando de juros nominais negativos.
  • Mercado de Milhas  16/11/2012 12:57
    Sim, mas essa "taxa" faz com que os juros sejam negativos. Não há erro nenhum. Se vc coloca 1000 e depois retira 950, então vc teve juros nominais negativos.

    Eu sei.. parece estranho.. também demorei a acreditar, mas é isso que vai acontecer. Juros nominais negativos. E a galera vai continuar comprando pra perder dinheiro ao invés de manter no cofre ou enterrado.

    A idéia de que juros é a remuneração de um dinheiro que você poupa para gastar no futuro é falsa.
  • Leandro  16/11/2012 13:19
    Pelo amor, isso não existe. Ninguém seria tão imbecil a esse ponto. Se eu chegar pra você e falar: "Me empresta $100 agora e, daqui a dois anos, eu lhe devolvo $90", por que -- por favor, me diga, eu imploro -- você aceitaria tal arranjo? O que você ganha com ele?

    Se você deixar os $100 dentro da gaveta, dali a dois anos eles continuam ali. Se você me emprestar os $100, dali a dois anos você recebe $90. Sob qual circunstância -- pelo amor de Deus, me diga -- esse segundo arranjo seria vantajoso pra você? Por que você voluntariamente faria isso? Por que receber juros negativos seria preferível a simplesmente deixar o dinheiro guardado em casa? Você está simplesmente dizendo que é preferível queimar uma cédula de R$10 a ficar com ela.

    Se governos começarem a prometer juros negativos para seus títulos, o que vai acontecer é que simplesmente ninguém irá comprá-los e os governos nunca mais conseguirão empréstimos. Por que as pessoas comprariam títulos que pagam menos do que custaram? Nem mesmo em um cenário de forte deflação isso seria vantajoso, dado que sempre seria mais vantajoso ficar com o dinheiro. Raciocine, por favor.
  • Mercado de Milhas  16/11/2012 14:02
    Resposta: Manter o dinheiro em casa tem um custo. É arriscado ficar com muita grana no cofre. O caso que você supõe não existirá (pouco dinheiro na gaveta). Mas e o caso dos que possuem milhões e milhões de dólares, como fica? Pega a montanha de dinheiro e põe no cofre em casa ? E o risco ? Dá pra fazer isso sem se sentir ameaçado por alguém ?

    Assim, pequenos poupadores guardarão seus recursos em cofres. Grandes poupadores guardarão seus recursos em títulos que vão se acabando em juros nominais negativos.

    Quem viver verá!
  • Leandro  16/11/2012 14:25
    Ué, o que houve com as contas-correntes? Elas também vão sumir? Ou os bancos também irão cobrar por elas? Isso é suicídio puro. Meu caro, se os bancos começaram a cobrar para manter dinheiro nas contas-correntes ao mesmo tempo em que oferecem juros negativos em todas as outras aplicações, as pessoas simplesmente irão retirar seu dinheiro dos bancos. Atualmente, no Brasil, basta que 20% dos depósitos sejam retirados para que todo o sistema desmorone. Todo o processo de reservas fracionárias seria revertido, os bancos seriam aniquilados e todo o sistema quebraria.

    Por que os bancos fariam algo que precipitasse sua falência?

    Deixa de ideologia boba, rapaz.
  • Rodrigo  12/11/2012 11:51
    Prezado Leandro

    O chefe de campanha de reeleição de Barack Obama afirmou que o presidente tem o mandato das urnas para aumentar impostos, ou não renovar o corte de impostos dos mais ricos, efetuado no governo de George W. Bush. A seu ver, esse aumento pode impedir a tragédia do aumento da dívida? Abs.
  • Leandro  12/11/2012 12:00
    Não, ele pode apenas aprofundar a recessão.

    O aumento da receita -- caso de fato se concretizasse -- seria ínfimo em relação ao déficit. Há vários estudos suprapartidários a respeito (cujos links não estou com tempo de procurar agora). Mas o fato é que os Republicanos cederão e aumentarão os impostos, pois a alternativa seria o calote da dívida. E os Republicanos se borram de medos dos impropérios que a imprensa esquerdista dirigirá a eles caso não se inclinem e atendam às exigências de Obama, o Ungido.
  • amauri  13/11/2012 07:40
    Bom dia Leandro!
    A China, com seus produtos com precos menores, nao auxilia a inflação de preços não subirem muito? abs
  • Leandro  13/11/2012 08:07
    Perfeitamente, amauri. Quem luta contra as importações chinesas está pedindo maior inflação de preços.


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