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Pela total separação entre moeda e estado

Um banco central efetua três funções significativas para o sistema bancário e para o governo:

1) ele serve de emprestador de última instância, o que significa, na prática, a garantia de que ele sempre irá imprimir dinheiro para socorrer as grandes instituições financeiras;

2) ele coordena, em conjunto com os bancos, o processo de inflação da oferta monetária, estabelecendo uma taxa uniforme à qual os bancos devem expandir o crédito, desta forma fazendo com que o sistema bancário de reservas fracionárias seja menos instável e mais lucrativo do que seria sem um banco central — o que explica, diga-se de passagem, por que os próprios bancos sempre clamaram por um banco central; e

3) ele permite, por meio de sua criação de dinheiro, que o governo possa financiar suas operações de maneira muito mais barata e sorrateira do que poderia caso não existisse um banco central.

Nenhum governo jamais disse: "Queremos gastar mais, portanto temos de abolir o banco central", ou "Queremos gastar mais, portanto temos de acabar com a inflação e com o papel-moeda fiduciário de curso forçado".  Essa postura, por si só, já é um bom indicativo de toda a restrição que uma moeda sólida impõe sobre os governos.  Metais preciosos não podem ser criados do nada, e é por isso que governos e os intelectuais governistas se exasperam à simples menção de um sistema monetário baseado neles.

O governo pode aumentar suas receitas de três maneiras.  A tributação é o meio mais visível e, por isso mesmo, o mais limitado.  Não se pode aumentar impostos indefinidamente, sob o risco de incitar um levante popular.  O governo também pode tomar emprestado o dinheiro de que necessita, mas tal medida também acaba se tornando muito visível para o público, pois leva a taxas de juros maiores — à medida que o governo passa a competir por uma quantia limitada de crédito disponível, este vai se tornando mais escasso para os outros tomadores de empréstimo; consequentemente, os juros sobem.

Criar dinheiro do nada, a terceira opção, é o método preferível dos governos, uma vez que o processo por meio do qual a classe política desvia recursos da sociedade através da inflação é bem menos direto e óbvio do que nos casos da tributação e da tomada de empréstimos.  Antigamente, os reis cortavam as bordas das moedas metálicas (medida essa chamada de "clipagem" da moeda) e utilizavam esses refugos para fundir novas moedas, provocando assim um aumento da oferta monetária.  Tão logo descobriram esse truque, os governos passaram a guardar ciosamente o poder de manipular a moeda.  Mises certa vez disse que, se o Banco da Inglaterra — criado em 1694 — já existisse e estivesse à disposição do Rei Charles I durante a Guerra Civil inglesa da década de 1640, ele poderia ter esmagado as forças parlamentares ordenadas contra ele, e a história inglesa teria sido bem diferente.

Juan de Mariana, o jesuíta espanhol que escreveu tratados no final do século XVI e início do século XVII, é mais bem conhecido no campo da filosofia política por ter defendido o regicídio em sua obra de 1599, De rege et regis institutione (Sobre o rei e a instituição real).  Estudiosos frequentemente pressupõem que foi em decorrência desta afirmação provocativa que o governo espanhol o aprisionou por um tempo.  Mas a verdade é que foi o seu Tratado Sobre a Alteração da Moeda, o qual condenava a inflação monetária como sendo algo imoral e maléfico, que lhe trouxe problemas.

Apenas pense nisso.  Dizer que a população tem o direito de matar o rei era uma coisa relativamente aceitável.  Agora, atacar diretamente a inflação, a força vital do regime?  Isso já considerado ir longe demais.

Naquela época, se o governo incorresse em gastos adicionais e decidisse financiá-los parcialmente pela manipulação da moeda, o processo era direto e não muito difícil de entender.  Atualmente, a sequência de eventos é um pouco mais complicada, porém não fundamentalmente diferente.  Hoje, se um governo necessita de mais dinheiro, ele não irá simplesmente imprimir dinheiro e utilizá-lo para cobrir essa diferença.  O processo não é tão grosseiro desta forma.  Porém, se o examinarmos mais detidamente, veremos que se trata essencialmente da mesma coisa.

Os bancos centrais, criados por todos os governos ao redor do mundo, permitem que os governos possam gastar mais do que arrecadam em impostos.  Tomar empréstimos permite aos governos gastarem mais do que coletam em impostos, mas tal medida, por si só, levaria a um inevitável aumento dos juros, o que por sua vez provocaria um perigoso desconforto no público.  Sendo assim, o esquema atual de inflação é bem mais engenhoso.  Em vez de dar o dinheiro diretamente para o governo, o Banco Central cria dinheiro eletrônico e o injeta no sistema bancário, provocando assim uma redução nos juros.  Ato contínuo, os bancos utilizam este dinheiro recém-criado para comprar títulos do Tesouro.  Desta forma, os juros não sobem e, consequentemente, os efeitos dos empréstimos governamentais sobre os juros são ocultados. 

Logo, os bancos centrais servem aos propósitos dos governos ao criarem dinheiro, injetá-lo no sistema bancário e, com isso, afetarem os juros.  Portanto, essencialmente, o Banco Central imprime dinheiro e o entrega ao governo, mas a maneira como ele faz isso não é tão direta e óbvia.

Como explicado, o governo federal vende seus títulos para o sistema bancário a preços artificialmente altos (o que correspondentemente significa juros baixos) porque os compradores de sua dívida sabem que poderão revender estes títulos ao Banco Central — é assim, comprando os títulos do Tesouro em posse dos bancos, que o Banco Central injeta dinheiro no sistema bancário.  É verdade que o governo federal tem de pagar juros sobre estes títulos que agora estão em posse do Banco Central, mas o que ocorre é que no final do ano o Banco Central remete este dinheiro de volta para o Tesouro, retendo apenas o suficiente para cobrir suas despesas.  É isso que ocorre com o dinheiro dos juros.  E caso você esteja pensando que o governo federal ao menos tem de pagar o principal da dívida em posse do Banco Central, a verdade é que não.  O governo pode rolar sua dívida pendente quando ela estiver vencendo, e ele faz isso emitindo um título novo para pagar o principal do título antigo.

Por meio deste processo convoluto — não coincidentemente, um processo que o público em geral quase nada sabe a respeito —, o governo federal se torna capaz de fazer o equivalente a imprimir dinheiro e gastá-lo.  Ao passo que todas as pessoas e empresas têm de adquirir recursos gastando dinheiro que ganharam em atividades produtivas — em outras palavras, elas primeiro têm de produzir algo para a sociedade para só então poderem consumir —, o governo pode adquirir recursos sem antes ter produzido absolutamente nada.  A criação de dinheiro por meio do monopólio estatal se torna, desta forma, apenas mais um mecanismo por meio do qual a relação de exploração do governo sobre a população se perpetua.

E como o Banco Central possibilita ao governo federal ocultar os reais custos de todos os seus gastos, a realidade é que o Banco Central fornece um incentivo para que o governo incorra em gastos adicionais em absolutamente todas as áreas, criando infinitos ministérios, programas, subsídios, regulamentações e agências reguladoras, sem que o público sinta diretamente e imediatamente os custos destes programas.

A expansão monetária é especialmente útil para um governo que quer gastar mais com programas eleitoreiros mas não quer aumentar impostos e nem tolerar um aumento de juros decorrente de seu maior volume de empréstimos para financiar essa gastança.  É por isso que toda e qualquer conversa sobre banco central independente não passa de espuma.  É racionalmente impossível imaginar um banco central mantendo uma postura monetária rígida e austera quando todo o regime — bem como toda a academia e toda a mídia — está demandando estímulos e juros baixos.

Por outro lado, embora seja verdade que um padrão-ouro restrinja a ação dos governos, também é verdade que os governos nunca tiveram nenhuma dificuldade em arrumar desculpas e pretextos para sair do padrão-ouro.  Exatamente por essa razão, o padrão-ouro por si só não representa uma restrição suficiente sobre as ambições de nenhum governo.

E exatamente por isso, ao olharmos para o futuro, temos de abandonar toda e qualquer timidez em nossas propostas para uma reforma monetária.  Não queremos um padrão ouro-câmbio, como aquele que existiu sob o sistema de Bretton Woods.  Também não queremos um arranjo monetário em que o preço do ouro seja utilizado como um instrumento de calibragem para auxiliar a autoridade monetária em suas decisões sobre a quantidade de dinheiro que ela deve criar.  Nem sequer desejamos a restauração do padrão-ouro clássico, por maiores que sejam seus méritos. 

No século XIX, os teóricos monetários defensores da moeda sólida cunharam a maravilhosa frase "separação entre sistema bancário e estado".  Isso sem dúvida seria um bom começo.  Mas queremos mais.  O que necessitamos hoje é de uma total separação entre moeda e estado.

Há algumas características que tornam o dinheiro um bem singular dentre todos os bens de uma economia.  Em primeiro lugar, o dinheiro é valorado não por suas características intrínsecas, mas por seu uso nos processos de troca indireta.  Segundo, ao contrário de todos os outros bens, o dinheiro não é consumido, mas sim passado adiante de uma pessoa para outra — o que significa que o dinheiro não é nem um bem de consumo e nem um bem de produção.  Finalmente, todos os outros bens e serviços da economia possuem seus preços expressados em termos deste bem.

No entanto, apesar destas características singulares, não há absolutamente nada em relação ao dinheiro — aliás, nem em relação a qualquer outro bem ou serviço — que possa nos fazer crer que sua produção deva ser efetuada pelo governo e somente por ele.  O dinheiro constitui a metade de toda e qualquer transação de mercado.  As pessoas que dizem acreditar na economia de mercado, mas que ainda assim estão dispostas a conceder ao estado a custódia deste bem crucial, deveriam repensar esta postura inexplicável e incoerente.

Intervencionistas frequentemente alegam que, se um determinado bem é muito importante, então sua produção não pode ser deixada a cargo das forças do livre mercado.  A réplica dos defensores do livre mercado vira esse argumento do avesso: quanto mais importante um bem, mais essencial é que o governo fique o mais distante possível dele, deixando sua produção inteiramente a serviço da livre concorrência.

Em nenhuma outra área esta afirmação é tão crucial e verdadeira quanto na questão do dinheiro.  Como Ludwig von Mises certa vez disse, a história do dinheiro é a história dos esforços governamentais para desvalorizar o dinheiro.  O controle estatal sobre a moeda logrou apenas inflação monetária, empobrecimento da sociedade em relação ao estado, ciclos econômicos devastadores, bolhas financeiras, consumo de capital (dado que a inflação falsifica a contabilidade de lucros e prejuízos), risco moral e, acima de tudo, a expropriação da população de maneiras que ela é incapaz de entender.  É esta expropriação silenciosa via inflação monetária que possibilita o contínuo agigantamento dos estados e de sua tirania ao redor do mundo, e são todas estas agressões combinadas que constituem um convincente sumário popular contra o atual sistema monetário e a favor de um substituto monetário gerido pelas forças da livre concorrência.

A expansão dos poderes do estado e a máquina de criar dinheiro, em suma, sempre estiveram intimamente relacionadas.  É em vão denunciar o agigantamento do estado e suas distorções morais sem ao mesmo tempo atacar o indispensável mecanismo que possibilita toda essa expansão.  Se realmente queremos nos opor ao estado e a todas as suas manifestações — sua gastança, seu endividamento, sua crescente tirania, sua burocracia, suas regulamentações, sua rede de proteção aos poderosos com boas conexões políticas, seus subsídios que distorcem o livre mercado etc. —, temos de apontar o dedo para a fonte que possibilita tudo isso, o Banco Central, a instituição que o estado, a mídia dócil e os economistas irão defender enquanto respirarem.

O estado conseguiu persuadir a humanidade de que seus próprios interesses são idênticos aos interesses dela.  Ele conseguiu convencer a humanidade de que ele busca promover o seu bem-estar, que ele é o seu grande benfeitor e que todos nós devemos estar contentes em nosso papel de súditos submissos.

Mas a nossa visão é diferente.  A relação entre o estado e a população não é benigna; não se trata de uma relação entre um generoso doador e um agradecido receptor.  A relação é exploradora, por meio da qual um grupo de aristocratas que se autoperpetuam no poder e que nada produzem vivem à custa da maioria que trabalha exaustivamente.  Seus programas, suas burocracias e suas regulamentações não protegem o público; eles os espoliam.  Seus subsídios e seus protecionismos não promovem o chamado bem público; eles o solapam.  Por que deveríamos esperar que o monopólio estatal da produção de dinheiro seria uma exceção a este padrão?

Como disse F.A. Hayek, não é sensato crer que o estado tenha qualquer interesse em nos fornecer um "dinheiro bom".  O que o estado realmente quer é o monopólio da produção do dinheiro, de modo que ele possa distribuir favores e benesses para seus grupos de eleitores favoritos.  Não podemos ser obsequiosos em relação a essa postura.

O estado não faz concessões e nem cede a contemporizações; temos de fazer o mesmo.  Na luta pela liberdade contra o poder, são poucos aqueles que irão se opor ao estado e à sabedoria convencional que ele nos adestrou a adotar.  Vários intelectuais que antes se declaravam libertários irão se vender.  Menos ainda serão aqueles que irão rejeitar por completo o estado e seus programas.  O charme exercido pelo poder é irresistível demais para os mais fracos.  Temos, portanto, de ser aqueles poucos que irão labutar divulgando ideias e se esforçando ao máximo para construir aquele futuro em que os poucos de hoje serão a maioria.

 

Leia também:

Por que o Banco Central é a raiz de todos os males

Por que o estado exige o poder de controlar a moeda 

Como seria a produção de dinheiro no livre mercado 

Como funcionaria o padrão-ouro puro (parte 2)



autor

Lew Rockwell
é o chairman e CEO do Ludwig von Mises Institute, em Auburn, Alabama, editor do website LewRockwell.com, e autor dos livros Speaking of Liberty e The Left, the Right, and the State.



  • Sérgio  01/10/2012 23:06
    Quem quiser ler o livro de Juan de Mariana, está disponível em:

    www.marketsandmorality.com/index.php/mandm/article/download/550/541
  • José R.C.Monteiro  02/10/2012 06:03
    Saudações, prezado Sérgio, infelizmente é um resumo (aperito).
    Abraços.
  • Pedro Ivo  02/10/2012 06:34
    valeu pela postagem Sérgio
  • Rodrigo Mak  02/10/2012 13:11
    Tem aqui, em castelhano:\r
    \r
    babel.hathitrust.org/cgi/pt?seq=583&view=image&size=100&id=ucm.5320828870&page=root&orient=0
  • Camarada Friedman  02/10/2012 09:05
    Certo, artigo interessante. Mas qual seria o critério do estado para cobrar impostos nesse cenário ?

    "O dinheiro constitui a metade de toda e qualquer transação de mercado. As pessoas que dizem acreditar na economia de mercado, mas que ainda assim estão dispostas a conceder ao estado a custódia deste bem crucial, deveriam repensar esta postura inexplicável e incoerente."

    ... se bancos independentes pudessem produzir diferentes moedas, como é que que o estado iria cobrar imposto ? Múltiplas moedas lastreadas pelo ouro(ou pelo quer que seja) terão valores diferentes por motivos inumeráveis.

    Cobrar imposto e pagar funcionário público, como fica ?

    Flw!
  • Leandro  02/10/2012 10:40
    Embora eu não seja nenhum grande entusiasta da ideia de bancos criarem sua própria moeda*, não há dificuldade alguma em ver como o governo coletaria impostos neste sistema. Ele continuaria coletando em reais, os quais seriam convertidos das moedas bradescos, itaús, santanderes etc. à taxa de câmbio do dia. Sem dificuldades.

    * Não sou entusiasta desta ideia porque, além de isso ser uma facilidade enorme para os bancos -- que poderiam, com a simples impressão de dinheiro, evitar qualquer iminência de quebra --, há também o fato de que aquele banco que imprimisse mais dinheiro teria momentaneamente mais clientes, e aquele que fosse mais contido perderia fatia de mercado. Ou seja, haveria um estímulo natural à impressão monetária, o que permitiria juros maiores para seus correntistas. No final, essa corrida dos bancos por mais clientes -- conseguidos com mais impressão de dinheiro -- poderia intensificar os ciclos econômicos e levar a um enorme consumo de capital.
  • Jonathan  02/10/2012 11:14
    Leandro, pode me explicar melhor essa parte?

    "É verdade que o governo federal tem de pagar juros sobre estes títulos que agora estão em posse do Banco Central, mas o que ocorre é que no final do ano o Banco Central remete este dinheiro de volta para o Tesouro, retendo apenas o suficiente para cobrir suas despesas."


    Você pode também colocar o link do BC, que eu vi aqui no IMB uma vez, que mostra a evolução da quantidade de dinheiro existente na economia, por favor?

    Sobre essa última resposta sua, não seria a própria manutenção do poder de compra, como diz Hayek,o incentivo de trabalhadores, empresários e outros, em escolher utilizar uma moeda privada e não outra?
    Qual é a sua sugestão de modelo que substituiria o sistema atual?
    Abraços
  • Leandro  02/10/2012 11:31
    Jonathan, não sei se dá pra ser mais claro do que isso. Vou tentar.

    Os títulos públicos que estão em posse do Banco Central (os quais o BC comprou do sistema bancário imprimindo dinheiro) continuam coletando juros normalmente, juros estes pagos por nós. Parte desta receita com juros é utilizada para financiar as operações do Banco Central. O que sobra é remetido ao Tesouro.

    Portanto, além dos impostos e dos juros ao bancos, também pagamos juros ao próprio governo. Mas dá pra contar nos dedos quem realmente sabe disso.

    E quando os títulos públicos que estão em posse do Banco Central vencem, eles são simplesmente rolados -- no caso, o BC pode "comprar diretamente títulos emitidos pela União para refinanciar a dívida mobiliária federal que estiver vencendo na sua carteira." (Isso está escrito na Lei de Responsabilidade Fiscal, nos artigos 35 e 39).

    P.S.: mensalmente, a imprensa publica notícias do tipo "o resultado fiscal do governo central (Tesouro, Previdência e Banco Central) foi de tantos bilhões". Observe que eles indicam se o BC teve lucro ou prejuízo. Tal contabilidade se refere justamente a este fato de o BC coletar dinheiro de juros. (Veja aqui um exemplo aleatório do ano passado. O fato de o BC ter tido prejuízo significa justamente que o volume que ele repassou ao Tesouro foi superior ao que ele precisava reter para custear suas operações).


    O link para o M1:

    www.bcb.gov.br/pec/Indeco/Port/ie2-10.xls


    Quanto à sua última pergunta, a resposta é grande demais para se escrever em um mero comentário. Quanto à minha sugestão de transição, ela foi explicitada em detalhes em meu podcast.

    www.mises.org.br/FileUp.aspx?id=168

    Abraços!
  • Jonathan  03/10/2012 05:04
    Valeu Leandro,

    Por acaso tem uma série histórica, por exemplo, desde 2009 pelo menos dessa variação dos meios de pagamento?
    To querendo dados que respaldem uma apresentação sobre a inflação posterior a este período.

    Abraços
  • Rafael Hotz  02/10/2012 14:25
    Leandro, não seria menos perigoso coletar tributos na moeda em que a transação ocorre? No seu arranjo o governo forçaria o setor privado a ir no mercado de câmbio e trocar por reais, mas ele poderia acabar fixando paridades para extorquir mais...
  • Leandro  02/10/2012 14:37
    Peraí, "no meu arranjo", não. Não apenas não haveria estado no "meu arranjo", como também, como disse, não sou nenhum entusiasta deste sistema de várias moedas paralelas.

    Moedas concorrenciais seriam equivalentes a um retorno a uma economia de quase-escambo. Afinal, a função da moeda é exatamente a de facilitar as trocas. A partir do momento em que há várias moedas concorrendo entre si, com várias taxas de câmbio vigentes no mercado, você volta a um estado de escambo parcial; você nunca saberá se a moeda que você está portando será aceita por um determinado estabelecimento, por exemplo.

    Ou seja, para um simples ato de compra, você passará a depender da existência de uma "dupla coincidência de desejos" entre você e o vendedor: você terá de torcer para que o vendedor aceite a moeda que você tem.

    E depois ainda tem o problema do troco: suponha que você pague em uma moeda, receba o troco em outra e imediatamente depois essa se desvalorize. E aí? É por isso que tais economistas dizem que esse arranjo não duraria muito tempo. O mercado sempre tende a harmonizar e facilitar as coisas. Com a moeda não seria diferente.

    Essa situação de moedas paralelas é a exata negação da mais precípua função do dinheiro, que é exatamente o de facilitar as trocas. A tendência é que tal sistema não dure muito. Inevitavelmente uma moeda universalmente aceita acabará surgindo e dominando o mercado (o que nos remete de volta à discussão sobre o ouro).

    Lembre-se, eu sou um moderado.
  • Rafael Hotz  02/10/2012 16:45
    Concordo 100%, mas suponha que um dia, como você mesmo costuma escrever, que você assuma o Bacen e alguém acabe com a legislação de curso legal da moeda.

    O governo ainda precisa tributar, pois ainda existe, e vai parar de controlar as reservas internacionais. Pessoal que mexe com comércio exterior vai começar a abrir contas em dólar/euro/yen/whatever nos bancos e transacionar...

    Até pergunto Leandro, o que você faria, na condição de presidente do Bacen, com apoio do congresso, com as reservas internacionais? Venderia paulatinamente os títulos americanos no mercado para cobrir, por exemplo, parte do orçamento da previdência?
  • Leandro  02/10/2012 17:10
    Dado que sou eu quem está no controle do BACEN, como você próprio disse, então posso garantir que não haverá nenhuma manipulação cambial para favorecer o governo, dado que essa era a questão. E sim, todo mundo teria liberdade para transacionar com qualquer moeda estrangeira que quisesse (observe esse é um cenário no qual os bancos não estão imprimindo moeda própria).

    Quanto aos dólares das reservas internacionais, dá um bom debate. A princípio, eu os colocaria à venda e utilizaria os reais arrecadados para devolver a todas as pessoas que tiveram seu dinheiro roubado pela Previdência, iniciando um processo de abolição da mesma e dando às pessoas a liberdade de fazer o que quiserem com seu dinheiro. Mas aceito sugestões. ;)

    Abraços!
  • Pedro Ivo  15/10/2012 20:32
    Caro leandro, explica-me o seguinte: "* Não sou entusiasta desta ideia porque, além de isso ser uma facilidade enorme para os bancos -- que poderiam, com a simples impressão de dinheiro, evitar qualquer iminência de quebra --, há também o fato de que aquele banco que imprimisse mais dinheiro teria momentaneamente mais clientes, e aquele que fosse mais contido perderia fatia de mercado. Ou seja, haveria um estímulo natural à impressão monetária, o que permitiria juros maiores para seus correntistas. No final, essa corrida dos bancos por mais clientes -- conseguidos com mais impressão de dinheiro -- poderia intensificar os ciclos econômicos e levar a um enorme consumo de capital".

    Tal poderia ocorrer mesmo a moeda sendo lastreada numa commoditie? Isto não seria fraude (violação de direito de propriedade)? Não seria disciplinado por potenciais corridas aos bancos e respectivas falências? Banqueiros que não incorressem nesta prática, mas soubessem de quem o faz, não teriam incentivo para denunciá-los ao público, provocando a corrida aos bancos?
  • bernardo  02/10/2012 12:39
    Temho uma duvida, quantoa a compra de titulos que o BC faz.

    Para abaixar os juros, o BC compra os titulos do sistema bancário, a um preço maior que o de mercado, exemplo, o preço de mercado eh 800, o BC compra a 900, baixando os jutos, ou seja, o BC entrega 100 reais por titulo, de graça aos bancos? Esse é um dos motivos que o arranjo BC-Bancos Privados é tão lucrativo?
  • Leandro  02/10/2012 12:55
    Bingo. Mas há algumas sutilezas.

    O Banco Central, ao comprar títulos públicos em posse dos bancos, injeta dinheiro eletrônico nas reservas bancárias. As reservas bancárias aumentam. Os bancos fazem empréstimos entre si no mercado interbancário para manter suas reservas em níveis estipulados pelo Banco Central. A taxa de juros que eles cobram para estes empréstimos que fazem entre si é exatamente a taxa SELIC. Com mais dinheiro nas reservas bancárias, menor será a SELIC.

    Para entender tudo, leia a seção "O início de um ciclo econômico" neste artigo:

    www.mises.org.br/Article.aspx?id=1108
  • bernardo  02/10/2012 19:37
    Ok, entendi, mas o arranjo que eu descrevi, não influencia a SELIC então? Influencia simplesmente os titulos de divida que o governo tem? Afinal, os titulos da divida de curto prazo, seguem a selic, certo? O governo manipula a SELIC e consequentemente, os juros que esses titulos pagam, mas e o inverso, pode ser feito? Manipular os juros desses titulos e a SELIC diminuir assim?
  • Leandro  02/10/2012 20:06
    A sua descrição estava perfeitamente correta; eu apenas aprofundei um pouco mais para descrever melhor os detalhes da operação.

    Sempre lembrando que as operações que o Banco Central faz hoje influenciam os preços (e, logo, nos juros) de todos os títulos que já estão no mercado, e não apenas os preços dos títulos que ainda serão lançados. Se o BC injeta dinheiro na economia, os preços dos títulos sobem (os juros caem). Consequentemente, se você tiver um título público em sua posse, o valor de face dele aumentará (o BC estará disposto a comprá-lo a um preço maior), e você estará mais rico, pois poderá vendê-lo a um preço maior do que aquele pelo qual você comprou. Logo, ao contrário do que dizem os populistas, é uma redução dos juros o que faz a alegria dos "rentistas".

    Por outro lado, caso o BC reduza sua taxa de criação de dinheiro (reduza suas compras de títulos), os juros sobem e o preço do título em sua posse cai. É como se você tivesse um imóvel e ele se desvalorizasse.

    Portanto, é por meio da sua criação de dinheiro que o BC regula os preços dos títulos públicos e, consequentemente, a taxa básica de juros de toda a economia.
  • bernardo  02/10/2012 20:33
    Entendi, agora, porque os juros de alguns titulos sao atrelado a SELIC? O juros desses titulos não são simplesmente o resultado da oferda/demanda que existe no mercado pra esse titulo?
  • Leandro  02/10/2012 20:45
    O que você quer dizer com "atrelados à SELIC"? São seis os títulos públicos, e cada um tem uma regra própria de remuneração. Veja detalhes sobre eles, bem como o processo de formação inicial da SELIC, aqui.

    Sempre tenha em mente que a SELIC muda por causa de alterações na oferta monetária. E alterações na oferta monetária alteram todo e qualquer tipo de juro, em todos os setores da economia. Portanto, uma mudança na SELIC altera todos os outros juros porque houve também uma alteração na oferta monetária. Esta é a "mágica".
  • Amarílio Adolfo da Silva de Souza  02/10/2012 14:26
    Realmente uma grande contradição apoiar o Livre Mercado e permitir o estado existir.
  • Rhyan  02/10/2012 16:51
    É proposital baixar os juros com inflação porque foram aumentados pelas dívidas públicas?
  • Leandro  02/10/2012 18:21
    Sempre. Mas tal medida é efêmera, pois os juros nunca poderão ficar baixos eternamente. Quando eles voltarem a subir, a coisa ficará feia -- os EUA ainda sentirão isso.

    P.S.: o Japão, obviamente, não entra nesta equação porque, como demonstrado (aqui e aqui) em outros artigos, lá os juros são baixos não em decorrência da inflação monetária, mas sim em decorrência da baixíssima inflação monetária.
  • Rhyan  02/10/2012 19:24
    Mas não por muito tempo...

    "BC do Japão vai injetar mais US$ 130 bi na economia contra a crise"

    economia.uol.com.br/ultimas-noticias/redacao/2012/09/19/bc-do-japao-vai-injetar-mais-us-130-bi-na-economia-contra-a-crise.jhtm
  • Cristiano  03/10/2012 06:59
    O lance é começar a usar ouro. Comece entre seus amigos, depois se espalha entre os negócios locais e qdo o estado menos perceber, já era.
  • anônimo  15/10/2012 07:32
    Prezado Leandro:

    Após alguma ausência, eis-me de volta.
    Estou lendo a magistral obra do Jesús H.Soto (moeda, crédito bancário e ciclos econômicos). Transcrevo trecho do livro para ler seu comentário, visto parecer-me que o Prof. de Soto admite alguma forma de controle, regulação ou ingerência de alguma "autoridade pública". A propósito, leitura constante deste IMB tem-me influenciado nos meus escritos jurídicos; suas traduções e escolha temática são excelentes.
    Desde já, grato.
    Eis o texto:

    Moeda, Crédito Bancário e Ciclos Econômicos
    1ª Edição
    Jesús Huerta de Soto
    Fim da página 158, início da 159.
    (Obra obtida no próprio endereço do IMB, em pdf)

    "Este é um guia importante, uma vez que o engenho humano não conhece limites na hora de tentar contornar, fraudulentamente e em prejuízo de terceiros, os princípios tradicionais do Direito em benefício próprio. Este perigo é especialmente grave quando os princípios jurídicos não são adequadamente definidos nem defendidos pelas autoridades públicas, sobretudo numa área, como a financeira, que é muito abstrata e difícil de entender para a maior parte dos cidadãos."
  • ana  05/03/2015 10:00
    "As pessoas que dizem acreditar na economia de mercado, mas que ainda assim estão dispostas a conceder ao estado a custódia deste bem crucial, deveriam repensar esta postura inexplicável e incoerente."
    E tu acha que eu ficarei usando outra moeda não estatal (bitcoin) que está sujeita a alta volatilidade e não é aceita em um monte de lugares?
    Há também alguns FEDs privados como Ripple e Stellar, mas eles são piores que os BCs.

    Eu Concordo com a separação, mas hoje não há um instrumento financeiro que possa substituir o dinheiro estatal, quem sabe com o avanço do mercado de cryptomoedas, aparecerá um. Por enquanto uso as cryptos só pra especular rapidamente, para contribuir com a base da economia e ajudar na liquidez (é claro) ;)
  • Jorge  05/03/2015 12:47
    Já ouviu falar no ouro? Funciona muito bem. Aliás, sempre funcionou:

    research.stlouisfed.org/fred2/graph/fredgraph.png?g=1314


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